quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A arte de desconversar em tempo de eleições

José Luís Ramos Pinheiro
RR online 16 Set, 2015
O “manual de desconversar” em tempo de eleições é bem capaz de ser o método mais eficaz para privilegiar a emoção, fulanizar a discussão e, sobretudo, evitar a todo o custo discutir qualquer coisa de essencial para o futuro.
A propaganda faz parte da actividade política. Ainda que melhor propaganda não signifique melhor política nem melhores políticos. De resto, os diferentes sistemas políticos ditatoriais que a Europa conheceu no século XX coincidiram todos num ponto: doses maciças de lamentável propaganda.
Nas democracias, a propaganda tem vindo a sofisticar-se, o que é compreensível e legítimo, já que o modo de fazer chegar o esclarecimento aos eleitores está sempre a evoluir. Mas reduzir a política à propaganda é sinal de desespero, porque nesse caso o verbo esclarecer fica na gaveta, prisioneiro das conveniências eleitorais.
Apenas cinco exemplos, domésticos e recentes.
A gestão político-financeira de José Sócrates conduziu à indispensabilidade da troika que o Governo socialista chamou. Quando António Costa procura montar o filme ao contrário está a ofender a inteligência de qualquer eleitor português.
A Segurança Social tem futuro difícil. Verdadeiramente não há partido que possa gabar-se de ter receita garantida para a sustentabilidade das pensões – nem os partidos da maioria nem os partidos da oposição, por mais que Catarina Martins nos queira convencer que o Bloco é que sabe; não sabe, nem pode aplicar o que diz saber. Por isso, os principais partidos terão que se entender. E se dizem (antecipando-se à vontade dos eleitores) não quererem entender-se sobre um tema tão delicado, como podem aspirar a que o eleitorado lhes confie o voto, para, afinal, melhor se desentenderem?
O processo do Novo Banco terá sempre custos para o país e para os contribuintes, de modo directo ou indirecto. Passos Coelho e Paulo Portas bem podem continuar a negar, mas todos sabem, incluindo o primeiro-ministro e o vice-primeiro-ministro, que a factura vai chegar. Claro que a nacionalização que Sócrates aplicou ao BPN e que Jerónimo de Sousa continua a reivindicar para o Novo Banco, seria pior para os contribuintes; e também aqui, todos os políticos o sabem.
A não venda do Novo Banco foi decisão sensata no contexto das propostas que não terão atingido valores suficientes e condições necessárias. Mas quem agora critica e se confessa desgostoso pela não venda, estaria certamente na primeira linha dos que fustigariam a alienação, caso a mesma se tivesse concretizado. Proclamam que a não venda é um falhanço, mas com igual convicção classificariam a venda como um desastre: por ser agora, em período eleitoral, ou por ser insuficiente e lesivo o valor a que se tivesse chegado.
Os repetidos insultos de António Costa, incomodado com as perguntas do jornalista da RTP que o entrevistava, e a repetição do “número” de lhe oferecer um exemplar do seu programa (que aproveitou para recolher na pasta, logo que no final os microfones se desligaram, mas ainda com as câmaras ligadas…) ficam também como sintomas (reincidentes) de arrogância e intoxicação.
Nestes breves exemplos, eis as técnicas utilizadas por responsáveis políticos para, suponho, arrecadarem (os nossos) votos: contar histórias ao contrário, apostando desesperadamente na amnésia dos eleitores; jurar que nunca se vão entender com os parceiros do lado, porque a suspeita de colocar o bem (comum) de todos, à frente dos interesses (partidários) de alguns é sinal de insuportável fraqueza; criticar sistematicamente as opções alheias, não por serem erradas, mas pelo facto de ser politicamente incorrecto reconhecer o mérito dos outros; apresentar como ideais supremos, soluções irrealizáveis que nunca sairão do papel, não podendo ser contestadas na base dos trágicos resultados que delas resultariam; e, finalmente, como demonstração do maior vigor intelectual, desconsiderar ou insultar terceiros, sempre que os ditos não reconheçam – e à primeira - a superior e inatacável qualidade das propostas do autor do insulto.
As técnicas acima descritas parecem constituir um manual de perder votos. Mas como explicar a adopção deste manual, por tantos responsáveis políticos? O “manual de desconversar” em tempo de eleições é bem capaz de ser o método mais eficaz para privilegiar a emoção, fulanizar a discussão e, sobretudo, evitar a todo o custo discutir qualquer coisa de essencial para o futuro.
É difícil, assim, que este “não debate” permita a formação de uma maioria absoluta na próxima Assembleia da República.
A ausência de uma maioria absoluta, a confirmar-se, vai aumentar a responsabilidade da liderança - não apenas constitucional, mas política - do Presidente da República. Não só de Cavaco Silva, mas do próximo Presidente, cuja eleição, em Janeiro, será tão mais importante quanto menor for a estabilidade do quadro político saído das eleições de 4 de Outubro.
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