quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O Sínodo e a balbúrdia

JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DN 2015.09.16
Aproxima-se o Sínodo dos Bispos em Roma e os jornais estão crescentemente ocupados com o tema. Ouvimos as opiniões mais variadas, as sentenças mais drásticas, os debates mais intensos. Como de costume, muita gente de fora tenta influenciar uma doutrina que não segue, aceita ou sequer respeita, mas que não se coíbe de tentar mudar. Como deve um católico lidar com tal balbúrdia?
Primeiro é importante não se perturbar ou escandalizar. Críticas, ataques e manipulações fazem parte da vida da Igreja, em todos os temas, épocas e regiões. Tendo crucificado o Mestre, é normal que ataquem e censurem os discípulos. Se o assunto passasse sem alarido ou controvérsia é que seria preocupante. O nosso dever é receber os golpes com caridade, sem perder a fé e a esperança.
Depois é importante acompanhar o que vai acontecendo, mas de forma sólida e adequada. Para saber o que realmente interessa é preciso procurar meios de informação sérios e substantivos, que felizmente não faltam. É verdade que boa parte do alvoroço mediático é enviesado, ou pelo menos espúrio, mas existem muitas informações e análises equilibradas e profundas. Para as identificar existe um método simples: evitar um velho mal-entendido, hoje comum.
Muitas das posições, bem ou mal--intencionadas, pretendem mudar a Igreja para a adaptar ao mundo. Ora isso é precisamente o inverso do que deviam, pois o propósito fundamental da Igreja é mudar o mundo. Chama-se "conversão", e é algo a que todos os discípulos de Cristo são chamados. É verdade que se exige linguagem ajustada à época particular; mas moldar os critérios da Igreja pela opinião pública, por muito popular que seja, é subverter a missão. Até se podem conseguir discípulos, mas não para o Evangelho do crucificado. Quando ouvimos defender que a Igreja deve alterar aquilo que recebeu do Senhor, sabemos que não vem por bem.
O presente Sínodo tem como objecto particular os complexos problemas da família, um dos assuntos mais candentes da actualidade, dos poucos temas que toda gente, de todas as origens e orientações, sabe andar mal. As consequências da mutação familiar afectam gravemente as sociedades, da demografia às finanças, da psiquiatria ao emprego, da assistência social à educação e saúde. É pois o assunto em que este tempo mais precisa da orientação moral da Igreja. Por isso o Papa convocou o Sínodo.
É indiscutível que as questões debatidas são vastas, complexas e dramáticas. Não existem respostas óbvias e directas precisamente por estarem em confronto aspectos decisivos. Por exemplo, num dos dramas mais debatidos, o acesso à comunhão sacramental por parte dos divorciados recasados, estão em causa, por um lado a suprema dignidade da eucaristia e a indissolubilidade do matrimónio, elementos incontornáveis da doutrina e, por outro, o acolhimento caridoso a fiéis devotos que sofrem pungentemente a exclusão. Também o tratamento eclesial da homossexualidade exige combinar o repúdio de «depravações graves..., actos... intrinsecamente desordenados... contrários à lei natural» (catecismo da Igreja Católica 2357) com o dever de os envolvidos serem "acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza", sem "sinal de discriminação injusta... pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental" (idem 2358-2359). Quem perante isto achar a solução fácil tem de estar a escamotear alguma das dimensões. A óbvia dificuldade torna compreensível o longo estudo, diálogo, debate, elaboração e aprofundamento à volta do Sínodo.
O mundo não o entende. Como considera o casamento perfeitamente solúvel e a homossexualidade uma prática recomendável, a dificuldade nem se lhe coloca. Como, por outro lado, ignora a misericórdia face ao mal e desconhece a compaixão até com grandes pecadores, não compreende a posição da Igreja. É aliás por isso mesmo que o mundo precisa tanto dela.
Se a tarefa dos participantes do Sínodo é extremamente intrincada e espinhosa, a que nos compete a nós, fiéis, não tem dificuldade nenhuma. Apresentámos opiniões, na consulta a todos os católicos integrada na instrução do Sínodo, e agora devemos rezar com fervor pelos trabalhos e esperar, na paz do Senhor, as determinações do encontro. Ignorando, se possível, a multidão de autodenominados peritos que se arrogam o papel de padres sinodais.
O Sínodo decorre de 4 a 25 de Outubro. Meses depois, como de costume, o Papa publicará uma exortação apostólica pós-sinodal, determinando as conclusões da sacra reunião. Nessa altura faremos o que nos toca: seguir o Pastor.
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