Um debate de viva voz

Helena Matos:Observador 17/9/2015, 13:18

Costa levava a intenção de criar uma imagem de um Passos irritado e com necessidade de ganhar este debate. E íamos neste estado de coisas até que chegou a pergunta de Graça Franco...
Ponto de ordem: não vi o debate. Ouvi. E a voz não mente. Percebe-se claramente quando se dão respostas, quando se tenta fugir à pergunta, quando se está irritado…Em primeiro lugar o óbvio: Passos tem uma óptima voz. Costa tem uma dicção trapalhona. Passos iniciou com um tom mais crispado. Costa com uma modulação mais fluida e claramente diferenciada consoante se dirigia a Passos Coelho, de uma forma mais declarativa, ou aos jornalistas mais explicativa.
No início do debate tornou-se evidente que ambos levaram horas a analisar o debate nas televisões e que iam preparados pelos respectivos assessores para resolverem os respectivos pontos fortes e fracos do debate televisivo: Passos nunca pronunciou a palavra Sócrates que passou a designar como “certo governo socialista do passado” e atacou na questão da dívida da Câmara Municipal de Lisboa. Costa levava a intenção de criar uma imagem de um Passos irritado e com necessidade de ganhar este debate.
E íamos neste estado de coisas até que chegou a pergunta de Graça Franco a António Costa sobre a proposta socialista de limitar prestações não contributivas. Costa não respondeu. Não sabia ou não conseguia.
A partir daí Passos cavalgou a onda e acabou a encurralar Costa perguntando-lhe se ele está disponível para negociar a reforma da Segurança Social. E não só: Passos diz que no dia 5 de Outubro quer ganhe quer perca as eleições está disponível para ter essa conversa. Costa a tentar controlar os danos do mau momento que acabara de viver não lhe lembra o óbvio: pretende Passos se perder as eleições ficar à frente do PSD?
Não sendo relevantes para o resultado deste debate mas muito graves para um homem que foi presidente da CML e para mais para alguém que tanto fala de República, ainda tivemos as declarações manifestamente ignorantes de António Costa sobre o congelamento das rendas. O congelamento das rendas não foi criado por Salazar, como disse o ex-autarca de Lisboa, mas sim pelos governos da I República: em Novembro de 1910, um mês e uma semana após a implantação da República em Portugal era criado o congelamento das rendas que seria reforçado por vários outros decretos nos anos seguintes.
Em resumo:
• Pior momento de Costa: a atrapalhação nas respostas a Graça Franco sobre as prestações sociais não sujeitas a impostos. Claramente empastelou, atrapalhou-se e tentou não responder.
• Pior momento de Passos: o detalhe a que levou a questão dos terrenos do aeroporto. Como bem lembraram os moderadores não se estava num debate entre candidatos à presidência da CML.
• Quem perdeu: António Costa
• Quem ganhou: Passos Coelho
• Vencedor absoluto: a rádio.
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