Cheques aceitam-se

Um homem de 40 anos pode ter desistido de ser feliz. Um homem de 40 anos pode ter tido tantas desilusões, tantas dificuldades, pode ter-se tornado céptico e cínico a ponto de achar impossível ser realmente feliz. Mas esse mesmo homem de 40 anos olha para o seu filho de 10 e sente o desejo irreprimível de que ele o seja.
Este é o âmago da questão educativa, nos seus factores públicos e privados. Que um cidadão se envolva na educação do seu filho é um direito, um dever e um impulso natural. Os cidadãos fazem-no das mais variadas maneiras. Alguns fazem escolas; outros fazem associações de pais; alguns acompanham cuidadosamente os trabalhos de casa; outros fazem perguntas para perceber o que os filhos sabem; alguns reúnem-se regularmente com professores e directores de turma; outros pagam explicações; outros participam nas actividades da escola; outros simplesmente observam e ouvem os filhos; outros escolhem criteriosamente uma escola, pagam-na e exigem dela aquilo que ela prometeu; outros gostariam de poder fazer isto. Todos tentam contribuir para que os filhos aprendam, cresçam e se desenvolvam na escola.
Quanto mais os pais se envolvem na escola, mais o trabalho dos professores se torna interessante. Quanto mais um cidadão pode exercer o direito de escolha em geral, mais o Estado é democrático.
A possibilidade de escolha é sempre um risco, por isso aumenta a responsabilidade, pública e privada. O aumento de responsabilidade torna a vida pública e privada mais interessante: pode haver mais diversidade, os cidadãos tendem a associar-se com critérios de maior exigência e, por isso, a depositar mais confiança uns nos outros. (Uma vida pública e privada mais interessante aumenta também a possibilidade de sermos mais felizes, mesmo com 40 anos...)
Crescer na cidadania implica crescer na capacidade de escolha e na responsabilidade pelas respectivas escolhas. Viver numa democracia em que o sistema educativo se baseia na lógica paternalista de ser o Estado a determinar como os cidadãos devem gastar o dinheiro da educação dos filhos é uma contradição. Qualquer cidadão deve poder escolher como e onde gasta o dinheiro que custa a educação considerada básica do seu filho. Qualquer cidadão é capaz de assumir essa responsabilidade. Cheques-ensino em democracia? Aceitam-se.
Mestre em Ciências da Educação

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