Páscoa, passagem para a alegria

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA
Voz da Verdade, 2015.04.19
Há quem pense que o cristianismo é uma religião triste, talvez pela insistência na representação de Cristo crucificado, pelas exigências doutrinárias da fé, ou ainda pelas proibições que a ética cristã impõe. O paganismo, pelo contrário, seria a exaltação eufórica da vida, sem as limitações de nenhum dogma, nem os constrangimentos de nenhuma moral. Sobretudo, sem a obsidiante presença de um juiz todo-poderoso, sempre pronto a espiar e controlar as criaturas humanas, sobre as quais pende uma ameaça de eterna condenação…
A alegria pagã é, na realidade, a que decorre de um não conhecimento, ou seja, da ignorância, inocente ou culpada, sobre a origem do mundo e o sentido da vida. Um céptico pode ser tão alegre quanto estouvado pode ser um inconsciente: é à força de não pensar, de não se questionar, de não se interrogar nem se deixar interpelar, que alimenta esse seu estado de alma. Vive dos pequenos prazeres da vida, sorve com sofreguidão as satisfações de cada momento, que é tudo o que tem no diminuto horizonte da sua existência, tão breve quanto a sua própria consciência. Tem a alegria de um prisoneiro que se convence que é feliz na cela em que está encerrado, mas em que se sabe confinado. Desfruta da paisagem que observa, mas crê estar condenado a um fim inexorável, a um destino incerto.
Como observou Chesterton, “havia mais contentamento cósmico nas ruas estreitas e violentas de Florença, do que nos teatros de Atenas, ou nos jardins de Epicuro. Giotto podia viver numa cidade mais sombria do que aquela em que Eurípides habitava, mas o universo de Giotto era mais alegre do que o universo de Eurípides”. Paradoxalmente, havia mais alegria nos burgos cristãos, onde abundavam as rezas, as penitências e os cilícios, do que nas tabernas pagãs, onde jorrava, generosamente, o vinho e não escasseavam os prazeres sensuais.
O pagão olha para o cristão com compaixão e, se calhar, alguns cristãos têm alguma inveja da libertina felicidade dos incrédulos. É verdade que também os pagãos têm alegrias, como verdade é que a vida cristã não está isenta de provações. Mas, enquanto a felicidade é o estado natural do crente em Cristo, a tristeza, que é um mero acidente no normal percurso cristão, é consubstancial à atitude pagã. É por isso que a cultura pós-moderna e pós-cristã é tão ressabiadamente pessimista.
A alegria, que devia ser expansiva, tem de ser contraída para o agnóstico e para o ateu, porque o seu sofrimento se difunde por uma eternidade impensável. Pelo contrário, a dor é, para o cristão, um episódio temporário, que nunca logra ocultar as certezas inamovíveis da fé. O pagão é um náufrago à deriva no universo, enquanto que o cosmos é, para um filho de Deus, o seu quarto dos brinquedos. Também quem inocentemente brinca com o mundo se pode ferir, mas não sofre nunca o medo ancestral dos que vivem como prisioneiros de um universo hostil.
É, de novo, o autor da Ortodoxia quem diz que “o homem é mais ele próprio, é mais humano, quando a alegria é uma coisa fundamental nele e a dor uma coisa superficial. A melancolia devia ser um inocente interlúdio, um suave e passageiro estado de espírito; o louvor devia ser o permanente pulsar da alma”.
É por isso que toda a paixão e morte de Cristo cabe no escasso tempo de um breve tríduo, enquanto a eternidade não esgota a glória da sua ressurreição. A cruz é o caminho, não o fim; a paixão é a porta, não o destino. É Páscoa, no sentido de passagem para a alegria, que é, na feliz expressão do citado autor, “a tumultuosa actividade em que todas as coisas vivem”!
Santa Páscoa!

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