O dever da liberdade

  • José Luís Nunes Martins
  • ionline 2014.04.26

  • Apesar de todos os constrangimentos, haverá sempre uma escolha derradeira entre a resignação ou a revolta... entre participar no destino ou lutar contra ele
A liberdade é um dever. Não se trata de ter opções à escolha, mas tão-só de assumir uma, e, obedecendo a si mesmo, segui-la até ao fim. Ser livre não é uma questão de poder... é muito mais que isso. É o direito de seguir a direito.
Ser livre obriga a ser autêntico, desigual. Imagina-se um plano que se pode e deve ir alterando, mas que se vai cumprindo... somos uma obra em construção permanente, rumo a uma identidade tanto mais única quanto autêntica.
O homem livre lança-se no presente, projeta-se para o futuro, não espera de forma passiva pelas circunstâncias propícias, procura-as, e, se não as há, sonha-as e constrói-as. Sem grandes inquietações ou ansiedades... Há sempre muito mais possibilidades do que aquelas que aparecem à primeira vista. É essencial compreender sempre que assim como o passado está fechado, o futuro está aberto! Tudo pode ser diferente, hoje mesmo.
Tudo quanto se faz, fica feito. A dinâmica do tempo leva-nos a ter que, a cada momento, decidir e seguir adiante, sem nunca mais ser possível voltar ali, àquele instante concreto. Ser livre é querer seguir para diante.
Ser livre é estabelecer as próprias leis. A liberdade é um compromisso. Quando escolhemos, escolhemo-nos, perante nós mesmos, perante os outros e perante o mundo. Não basta ser independente para ser livre. Quem não se compromete, não sonha e não faz um caminho não é livre... passa a vida a encontrar culpados e a declarar-se inocente.
Ser responsável não é um estado passageiro, mas uma atitude interior que se joga no espaço e no tempo. É o que permite uma vida boa, em comunidade, em que cada um assume, de forma livre, as falhas de todos os outros.
A liberdade é respeito. Só quem reconhece o valor do outro é digno de reconhecer o seu. O outro é e será sempre um ser livre. Posso permitir-me ajudá-lo, mas não substitui-lo na responsabilidade de se escolher a si mesmo. Posso ajudar mas não criar. Amar alguém é aceitá-lo, tal como é, sem contar com supostas evoluções previsíveis... ninguém deixa de evoluir, é certo, mas sempre e só a partir de dentro.
A liberdade é uma lucidez. Uma luz que permite reconhecer o absoluto valor de cada vida. Não se vive de ilusões. Não se vive de mentiras. Não se vive de desejos. É na verdade da realidade concreta que se constrói a nossa existência. Apesar das condições impostas pela natureza e pela sociedade em que vive, cada um de nós deve ser senhor de si mesmo, lutar por se tornar superior a tudo o que tenta dominar sem o seu acordo. Apesar de todos os constrangimentos, haverá sempre uma escolha derradeira entre a resignação ou a revolta... entre participar no destino ou lutar contra ele.
Pode compreender-se o valor de alguém pela forma como narra e interpreta o seu passado, as responsabilidades que atribui a si e aos outros... poucos são os que têm consciência do protagonismo que têm na própria vida.
Não faz sentido amor sem liberdade, nem liberdade sem amor. A vontade é livre e aspira ao melhor. Mesmo quando escolhe o mal é porque ali julga ver um bem. A liberdade não é um fim, mas o meio pelo qual se chega ao bem. O amor é a perfeição da liberdade. Uma decisão que me compromete tanto a mim quanto ao outro. É por aí que me posso libertar do meu egoísmo e chegar a ser mais do que... eu.
Só é livre quem resiste à maldade e não desiste da felicidade... quem assume a responsabilidade de não deixar que os seus sonhos se tornem impossíveis.

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