Marx e o Turco Mecânico

J. BRADFORD DELONG Público 13/04/2014 
O economista Suresh Naidu comentou-me uma vez que existiam três grandes problemas com a ciência económica de Karl Marx. Primeiro, Marx pensava que o aumento do investimento e da acumulação de capital diminuía o valor do trabalho para os empregadores, diminuindo também o poder negocial dos trabalhadores. Segundo, ele não conseguia compreender totalmente como a melhoria real das condições materiais de vida da classe trabalhadora poderia acompanhar uma crescente taxa de exploração – isto é, uma parte menor do rendimento destinada ao trabalho. E, terceiro, Marx estava obcecado com a teoria do valor-trabalho.
O segundo e terceiro problemas continuam a ser enormes erros analíticos. Mas, embora a crença de Marx de que o capital e o trabalho eram substitutos, e não complementares, fosse um erro na sua época, e durante mais de um século depois disso, poderá não ser um erro nos dias de hoje.
Reflictamos deste modo. Os humanos possuem cinco competências nucleares, no que respeita ao mundo do trabalho:
• Mover coisas com músculos grandes.
• Manipular finamente coisas com músculos pequenos.
• Usar as mãos, bocas, cérebros, olhos, e ouvidos para garantir que os processos e procedimentos correntes acontecem do modo que é suposto acontecerem.
• Empenhar-se na reciprocidade social e na negociação para nos manter a todos a empurrar na mesma direcção.
• Pensar em novas coisas – actividades que produzem resultados que são necessários, convenientes, ou luxuosos
As primeiras duas opções incluem empregos que encaramos tipicamente como sendo de "colarinho azul". Grande parte das restantes três opções corporiza empregos que encaramos tipicamente como sendo de "colarinho branco".
A chegada da Revolução Industrial – a máquina a vapor para geração de energia e a metalurgia para construção de maquinaria – diminuiu grandemente a necessidade de músculos e dedos humanos. Mas aumentou enormemente a necessidade de ciclos humanos olho-ouvido-cérebro-mão-boca, tanto para ocupações de colarinho azul como de colarinho branco.
Com o tempo, os preços reais das máquinas continuaram a cair. Mas os preços reais dos ciclos de controlo cibernético necessários para manter as máquinas a funcionar devidamente não caíram, porque cada ciclo de controlo necessitava de um cérebro humano, e cada cérebro humano requeria um processo de quinze anos de crescimento, educação, e desenvolvimento.
Mas não existe qualquer lei rígida dos salários que requeira que as tecnologias da energia e da manipulação da matéria avancem mais rapidamente que as tecnologias da governação e do controlo. A direcção do progresso tecnológico actual é no sentido de mover grande parte das componentes de controlo de processos e procedimentos, tanto de colarinho azul como de colarinho branco, dos humanos para as máquinas.
Quantos de nós poderão ser contratados para serviços pessoais, e como poderão esses empregos ser altamente remunerados (em termos absolutos)? A visão optimista é que aqueles, como eu, que dão por si a temer a distribuição salarial relativa do futuro como uma fonte de desigualdade gigantesca e de desequilíbrio de poder, sofrem apenas de uma falha de imaginação.
Marx não viu como a substituição dos trabalhadores têxteis por teares automáticos poderia originar qualquer outra coisa para além da baixa dos salários dos trabalhadores. Afinal, o volume da produção não seria capaz de se expandir o suficiente para empregar todos aqueles, que perderam o seu trabalho de tecelão manual, como guardas de máquinas ou como vendedores de tapetes, ou seria?
Seria, mas o erro de Marx não foi um erro original. Um século antes, os fisiocratas Franceses Quesnay, Turgot, e Condorcet não viram como a parcela da força de trabalho francesa empregue na agricultura poderia cair abaixo dos 50% sem produzir a ruína social. Afinal, num mundo de agricultores sólidos, artesãos úteis, aristocratas dissolutos, e lacaios, a procura por itens manufacturados e lacaios era limitada por quanto os aristocratas podiam utilizar. Portanto, um declínio no número de agricultores não poderia produzir outro resultado para além da pobreza e da mendicidade generalizada.
Nem Marx nem os fisiocratas poderiam imaginar as muitas e boas coisas bem pagas que conseguiríamos fazer quando deixássemos de precisar de empregar 60% da força de trabalho na agricultura e outros 20% na fiação manual, na tecelagem manual, e no transporte terrestre por cavalo e carroça. E hoje, a visão optimista é que aqueles com riqueza excedentária continuarão a pensar em muitas coisas para todos os outros fazerem, para tornarem as suas vidas mais convenientes e luxuosas, e que a engenhosidade dos ricos ultrapassará a oferta de trabalho dos pobres e transformará os pobres em classe média.
Mas, dado o rápido desenvolvimento das tecnologias de governação e controlo, a visão pessimista merece atenção. Neste cenário, pedaços da terceira opção permanecem teimosamente impermeáveis à inteligência artificial e continuam a ser entorpecedoramente aborrecidos, enquanto a quarta opção – o empenho na reciprocidade social e na negociação – permanece limitada. Bem-vindos à economia da exploração virtual, em que a maior parte de nós está acorrentada a secretárias e ecrãs – inúmeras engrenagens impotentes do Turco Mecânico da Amazon, para sempre.

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