Quem pode salvar o SNS?


Esta semana visitei o SNS. A urgência não era das mais graves, mas tinha potencial. A PEG (gastrostomia) do nosso filho Pedro danificou-se, pondo em risco a possibilidade de o alimentar nos dias seguintes. Era preciso, acima de tudo, mostrar a alguém e delinear um plano de ação, a curto, ou mais provavelmente, como estamos habituados no SNS, a médio prazo. 

Cheguei à urgência do HSM às 10:00 e às 11:30, estava a sair com a PEG substituída. Nesta hora e meia, foi à triagem, foi visto na urgência, foi recebido no piso de cirurgia pediátrica numa sala de tratamentos onde lhe foi retirada a estomia danificada e substituída por uma nova. Ainda lhe conseguimos dar um benuron para ir mais confortável para casa e ainda consegui cruzar-me com uma amiga com o filho internado, para um dedo de conversa com ela e com a educadora do serviço… e isto tudo em 1 hora e meia! Tendo em conta que cheguei a estar 10 horas só na urgência, em ocasiões passadas, custa a acreditar. Confesso que estava preparada para uma jornada inteira e só sair de lá com uma consulta marcada. 


Conto isto com um misto de satisfação e medo. Satisfação, porque saí daquele hospital uma cliente satisfeita. Resolvi o meu problema e em pouco tempo. Mas custa-me partilhar publicamente porque este tipo de atendimento não é a regra, mas a excepção no SNS. Há tantos outros clientes com muitas razões para estarem insatisfeitos. E quanto mais alta a fasquia, maior a desilusão no dia em que as coisas não correm de feição. Por isso no SNS, a nossas expectativas são sempre muito bem geridas, para que possamos resignar-se a um atendimento pior e um tratamento a médio ou longo prazo.

Volto no entanto àquele dia, àquela hora e meia. Em plena greve dos enfermeiros, num SNS a sangrar… O que é que aconteceu?! O que é que aconteceu de extraordinário? O que aconteceu,foi acontecendo. Uma relação humana de 6 anos com uma criança doente. Uma estima crescente, uma compaixão diferente. E, igualmente decisivo, uma generosidade recente que fez com que nós tivéssemos o material para fazer a substituição sem depender do sistema de custos do hospital. 

Do SNS veio a disponibilidade humana, que quem conhece sabe bem que ela existe e em larga escala! Da sociedade civil e da responsabilidade social de uma empresa, vieram os recursos materiais. Com este episódio começo a vislumbrar uma resposta para a pergunta latente dos últimos meses… Quem pode salvar o SNS? 


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