Livros para férias

JOÃO CARLOS ESPADA Público 21/07/2014
Dois livros politicamente incorrectos encabeçam a minha lista semestral de leituras para férias.
Dois livros politicamente incorrectos encabeçam a minha lista semestral de leituras para férias. O primeiro é de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, sob o título The Fourth Revolution: The Global Race to Reinvent the State (Allen Lane, 2014). A obra leva a sério o tema sempre tão falado entre nós, e sempre tão adiado, o da chamada reforma do Estado (que em inglês, por acaso, não se escreve com maiúscula).
A minha segunda sugestão de leituras para férias é o mais recente livro de Rodney Stark, How the West Won (ISI Books, 2014). O autor retoma o argumento apresentado em The Victory of Reason (2010) e apresenta uma espécie de guia politicamente incorrecto para a história do ocidente. Muitos mitos correntes são desafiados, como o da "escuridão" da Idade Média, ou o da oposição entre cristianismo e ciência moderna, ou o do progresso técnico-científico como produto de planos centrais financiados pelo dinheiro dos contribuintes. Talvez não menos actual seja o mito de que os "particularismos" dos Estados-Nações constituem um obstáculo ao progresso da Europa num mundo globalizado. Stark recorda com abundante evidência empírica que o pluralismo – político, cultural, económico e social – inerente aos Estados-Nações europeus constituiu um elemento decisivo para a ascendência europeia e ocidental.
Costuma ser dito que o Estado-Nação é apenas mais uma construção social, como tantas outras, podendo por isso vir a ser superado – à semelhança de tantas outras convenções sociais que no seu tempo foram consideradas perpétuas. Não vejo nada de significativo a opor a essa asserção. Ela apenas ilustra que o futuro está aberto e não é susceptível de previsão ou planeamento. Mas daí não se conclui que as instituições sociais herdadas são arbitrárias, ou que podem ser mudadas por simples decreto político, ou, pior ainda, que tentativas de mudar por decreto não terão custos que podem superar os ganhos planeados.
É este argumento de prudência e abertura que procuro desenvolver no meu livro Portugal, a Europa e o Atlântico (Aletheia, 2014), com Prefácio de Manuel Braga da Cruz. Trata-se de um alerta contra voluntarismos centralizadores e uniformizadores na interpretação do projecto europeu, acompanhado da defesa empenhada, mas pluralista, desse mesmo projecto europeu.
O tema da Europa e do lugar de Portugal na Europa tem sido, aliás, motivo de vários livros recentes que merecem destaque. José Medeiros Ferreira, pouco antes de nos deixar precocemente, publicara Não Há Mapa Cor-de-Rosa: A História (Mal)Dita da Integração Europeia (Edições 70); José Manuel Félix Ribeiro escreveu Portugal: A Economia de uma Nação Rebelde (Guerra e Paz); Teresa de Sousa publicou, com Prefácio de António Vitorino, Europa Trágica e Magnífica; e João Ferreira do Amaral é o autor de Em Defesa da Independência Nacional, com Prefácio de José Pacheco Pereira.
Há um curioso contraste entre os temas comuns a estes livros e os temas comuns ao nosso debate político-mediático sobre a Europa. Neste último, discute-se sobretudo quem deve pagar as dívidas de quem e quem deve ocupar os lugares na Comissão Europeia. Nos livros acima referidos, por contraste, estes temas estão quase ausentes. O grande tema comum é o da natureza do projecto europeu e o da sua desejável evolução futura – que pode não coincidir com a mais provável. Não será muito arriscado prever que o tema comum daqueles livros virá gradualmente a ocupar mais espaço no debate político-mediático. Neste sentido, estas leituras de férias podem ser um investimento sábio para as grandes controvérsias europeias que se avizinham.
No mesmo sentido, se o leitor quiser realmente investir num tema perene e sem qualquer actualidade aparente, a escolha deve residir em A Batalha de Castelo Rodrigo, por Manuel Braga da Cruz (Cruz Editores, 2014). Num volume ricamente ilustrado e detalhadamente documentado, o autor recorda uma batalha hoje esquecida – mas que foi decisiva para a independência nacional – que ocorreu a 7 de Julho de 1664, há 350 anos.
Essa batalha, explica o autor, significou a derrota de uma estratégia de chegar a Lisboa e conquistar Portugal entrando pela Beira. Curiosamente, essa estratégia fora vencida em Aljubarrota, trezentos anos antes, e seria de novo derrotada nas Linhas de Torres, cento e cinquenta anos depois. São demasiados anos para serem ponderados no bulício do dia-a-dia. Talvez por isso mesmo, constituam bom tema de reflexão durante as férias.

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