A defesa da honra Pátria
Saragoça da Matta
ionline 3 Jan 2014
ionline 3 Jan 2014
Comemoremos, pois. Chegamos a 2014 vilipendiados,mas ainda com hino e bandeira
Na manhã de 11 de Janeiro de 1890 era recebido em Lisboa um telegrama proveniente do governo britânico. Nele o governo de sua majestade britânica ordenava a Portugal a retirada imediata de todas as forças militares e científicas da região que hoje é ocupada pelo Zimbábue, entre Angola e Moçambique.
Esse telegrama, historicamente conhecido por "ultimato britânico de 1890", surgiu por uma razão simples: Portugal desejava unificar o território de Angola com o território de Moçambique, tendo Serpa Pinto iniciado a ocupação pelo lado oriental e Paiva Couceiro adentrado pelo continente africano de ocidente.
Claro que esta pretensão, mais que legítima à luz do que decorria do tratado emergente da Conferência de Berlim, nunca poderia proceder, pois conflituava com os planos comerciais da Companhia Britânica da África do Sul, que desejava ligar o Cairo ao Cabo por via férrea.
Convém recordar que precisamente por força do "acordado" na Conferência de Berlim, Portugal perdera o Congo português a favor da Bélgica (salvo Cabinda), o Sul de Angola para a Alemanha e a Guiné para a França. Assim, se a legitimidade ocupacional deveria ser, a partir de então, aferida pela ocupação efectiva, e não histórica, então Portugal limitava-se a ocupar efectivamente território entre duas das suas possessões.
Perante o ilegal ultimato britânico, a França e a Alemanha fizeram ouvidos de mercador e o Reino Unido recusou sempre qualquer jurisdição arbitral internacional. Assim, Portugal meteu a viola no saco e desistiu da pretensão de união das duas colónias. Foi o fim do mapa cor-de-rosa.
No plano interno, porém, as consequências foram violentas: três dias após o ultimato caiu o governo. Toda a intelectualidade republicana urrava contra a fraqueza da monarquia e a responsabilidade da coroa pela vergonha internacional que Portugal havia sofrido. Foi uma mancha não mais esquecida na história da monarquia portuguesa, ainda agitada aquando das pré-revoluções republicanas do início do século xx. A coroa estava totalmente desacreditada internamente, mas externamente nunca ninguém insultou el-rei D. Carlos.
123 anos passados, e num espaço de dois mesitos, a República Portuguesa, vivendo atolada num resgate financeiro que maquilhou a bancarrota, foi achincalhada por uma ex-colónia que a mandou bugiar por ter dinheiro suficiente para a comprar por dez réis de mel coado; vê um ex-primeiro-ministro, agora alto comissário das Nações Unidas, ser aviltado como "um socialista português transformado em burocrata não eleito" que diz "tolices" ( sic); e vê o chefe de Estado ser chamado "infantil" por um ministro de um estado que a comunidade internacional diz ser um narcoestado.
Desta feita, porém, nem um suspiro da ética republicana se ouviu a defender a honra pátria!
Sobrou o discurso de Natal do chefe do governo a lembrar termos quase 900 anos de história.
Comemoremos, pois. Chegamos a 2014 vilipendiados, mas ainda com hino e bandeira!
Advogado, escreve à sexta-feira
Pub
Pub
Pub


Comentários