Coração de cão

Nuno Serras Pereira
Logos, 2013-01-11

Desde a mais tenra idade que fui habituado a conviver com cães nas casas das minhas avós, de um tio, de uma vizinha e de um outro propínquo, sendo que com eles sempre me dei bem e eles comigo. Nunca nutri porém um vínculo de intimidade identificando-me à sua condição canina ou imaginando-os dotados de uma dignidade transcendente igual à dos seus donos.

Quando tinha quinze anos, os meus irmãos mais velhos bem como vários amigos falavam da existência de uma temível fera, um "lobo d' Alsácia" avantajado, de nome Apolo, que aterrorizava os transeuntes daquela zona da praia da Parede, onde estávamos de férias. Ora sucedeu que um dia indo eu sozinho pelo passeio à beira da linha do caminho-de-ferro avisto do outro lado da rua um homem passeando o que me pareceu ser um "pastor alemão". Num repente desatou numa corrida furiosa em minha direcção. O dono bem o chamava: Apolo! Apolo! Apolo; mas ele continuou a sua investida doida, enquanto eu, literalmente gelado, paralisei. Chegado ao pé de mim afirmando-se nas patas traseiras ladrava-me à volta do pescoço e da cara, que bem senti a quentura do seu espumoso bafo feroz. O proprietário do "melhor amigo do homem", mantendo-se no passeio contrário, bradava-me: Não se mexa! Não se mexa! Apolo! Por amor de Deus, por amor de Deus, não se mexa, mas não se mexa mesmo. Apolo! Apolo! A mim bem me apetecia responder-lhe: pode ter a certeza (absoluta) que não vasquejarei, nem mesmo tremerei. Mas se até a respiração continha, arreceado da minúscula oscilação pulmonar, como me atreveria a articular uma palavra que fosse. Não saberei dizer quanto tempo aquilo demorou, poderei, não obstante, adiantar que para mim foram séculos de pavor, milénios de terror. Alfim, a besta ferina acatou as imperiosas vozes de "sargento dos comandos" que o dono lhe vociferou. Permaneci, no entanto, por bastante tempo, numa imobilidade marmórea preventora da probabilidade de novos ataques sanhudos. O homem seguiu impávido o seu caminho, sem colocar um açaimo, uma trela que fosse, naquele embravecido animal; sem sequer um pedido de desculpas, um conforto psicológico que fosse a um adolescente amedrontado com a iminência de ser despedaçado pelo melhor "amigo" do dono, mas indubitavelmente o mais selvagem inimigo de desconhecidos.

A comunicação social informou, há pouco tempo, que um cão trucidou a dentadas cruéis uma criança de 18 meses de idade. Era de esperar que se levantasse um enorme clamor - tanto mais que todos os anos somos confrontados com matanças semelhantes de idosos e de crianças pelos "melhores amigos dos homens", de indignação e de reivindicação de uma proibição das perigosas raças caninas em território nacional (já sei que há um coro bem orquestrado de vozes que afirmam peremptoriamente que tal coisa não existe, mas é indesmentível que os cães matadores são sempre de determinadas cepas, bem identificadas). Seria de esperar que houvesse movimentos maciços lastimando esta vítima tão inocente e indefesa. Mas, não. Em vez disso, uma petição na Inter-rede recolheu, num dia ou dois, dez mil assinaturas para que a besta-fera não fosse abatida, como manda a lei. Monstruosa afinal é a criança! A vítima é o cãozarrão! Abaixo e morte às crianças! Viva e liberdade aos brutos canídeos! De facto, numa sociedade que se acostumou, com o alto patrocínio do estado e dos políticos que nele mandam, a liquidar com fervor e alegria as crianças nascentes, a que foi abocanhada e estraçalhada só pode surgir como mais uma temerosa inimiga não só das mulheres como dos cães. 

Não cuidem precipitadamente que eu seria incapaz de firmar uma petição para salvar da morte matada um cão. Posso muito bem fazê-lo com a maior das boas-vontades, desde que não haja discriminação e se incluam por isso outras criaturas igualmente preciosas tais como porcos, javalis, cabritos, borregos, vacas, vitelas, perus, galinhas, perdizes, codornizes, formigas, vespas, melgas, moscas, mosquitos, etc., etc.

Neste país, tão humanista, seis meses não são suficientes para recolher quatro mil assinaturas para uma petição que pretende acabar com o criminoso abate, legalmente organizado e financiado, de dezenas de crianças quotidianamente, mas dois dias são-no para conseguir dez mil firmas de modo a evitar o abate duma besta furiosa. Lá diz o Evangelho: onde estiver o teu tesouro aí está o teu coração. Se o tesouro de muitos é o perro, como está à vista de todos, então será caso para concluir que essa gente tem um coração de cão.

11. 01. 2013

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