O dia mundial do doente e o erro da eutanásia

SOFIA ALMEIDA COSTA GUEDES    FACEBOOOK  11.02.2018

Hoje dia 11 de Fevereiro de 2018, gostava de lembrar algumas pessoas que na sua doença me abriram novos horizontes de humanidade.
Conheci a Toninha, no ano 2001, numa das várias visitas que fiz no contexto do Presépio na Cidade. Foi no Hospital de São José, quando uma voluntária me pediu para ir junto de uma senhora com 57 anos que estava há 13 anos deitada numa cama, ligado à todas as máquinas possíveis, completamente imóvel, apenas a cabeça movia-se um pouco, mas a sua razão, clareza, memória eram de tal maneira claras que pareciam fazer-nos ultrapassar a sua tão débil condição.
Era como podemos imaginar uma pessoa revoltada, zangada, com uma enorme vontade de denunciar coisas terríveis que tinha sofrido, sobretudo quando não conseguia falar. Rejeitava a hipocrisia e por isso foram raras as pessoas que com ela conseguiram um relação.

Mas comigo, alguma coisa aconteceu que depois de me gabar uma camisola que levava, trazendo a sua memória uma idêntica que tinha usado quando estava bem e saía à rua... me perguntou se eu poderia voltar a visitá-la. Não imaginava eu como iria nascer dai uma história de amizade que durou ate à sua morte.
Foram três anos, em que todas as terças feiras, ia ao seu econtro. Tive tempo de a conhecer, de escutar as suas imensas aventuras passadas, da forma como ficou doente e como tinha perdido tudo. Nem roupa aguentava no corpo. Mal lhe podiam tocar, cortar as unhas, etc. o banho demorava horas, porque a sua doença tinha como consequência uma sensação de dor, 100% acima do normal. Apenas a cabeça não lhe doía.
Aprendi que nos momentos que conversávamos, e o tubo que a mantinha a respirar, por vezes saltava e eu tinha que o voltar a pôr. Ensinou-me tudo isso, para que durante as minhas visitas não houvessem interrupções de enfermeiras. Mostrou-me todos os seus pequenos mas importantes tesouros, como uma velha televisão, umas fotografias da sua juventude, caixas com coisas que ia pedindo.
Depois de nos conhecermos melhor e de me dizer que não acreditava em Deus e menos em Jesus, um homem que tinha morrido pregado numa cruz, sem poder fazer nada, tal como ela, combinamos que não falaríamos d’Ele. Eu respeitei.

As tardes que passávamos juntas, serviram
para eu perceber como uma pessoa naquelas condições pode-nos tocar tanto, pode entrar na nossa vida e remexe-lá totalmente.
Decidimos escrever um livro. E eu claro cheia de ideias, sempre que as apresentava, sentia uma enorme frustração, porque raramente acertava com as suas ideias. Tornamo-nos grandes amigas, houve vezes que discutimos e até nos zangamos. E não obstante as nossas circunstâncias serem tão diferentes, naqueles momentos estavamos de igual para igual. A nossa dignidade unia-nos e fazia-nos crescer em humanidade.

Um dia, a Toninha pediu-me se eu podia ir aos estúdios de uma canal de televisão, participar num programa sobre “eutanásia” enquanto ela seria entrevistada a partir da sua cama de hospital. Confesso que fui,mas com muito medo do que ela iria dizer! E a verdade e que ela não falou nunca de eutanásia, mas no desejo e no direito de ter e saber de outros tratamentos ou formas de qualidade de vida, para o seu caso. Eu apenas falei da minha amizade e “trabalho”com ela.
Esse programa foi o princípio de um outro capítulo da nossa amizade, quando um recluso da prisão de Alcoentre a vê na televisão e consegue autorização para lhe escrever a. E assim foi! Um dia chegou uma carta que li à Toninha, eu que já era a amiga/ponte com tudo o que era exterior aquele quarto de hospital. Nessa carta, ele apresentava-se. Chamava-se Luís Filipe e contava que também ele estava preso há 13 anos, uma coincidência curiosa, que os unia pela prisão que ambos viviam. Foi a primeira de muitas cartas, já que a partir daí eram quase semanais. Muito foi escrito e muito me fez entrar no mundo dos absurdos, mas onde a esperança nunca me tinha parecido tão evidente e verdadeira.
Um dia, a Toninha recebe uma carta em que o Luis Filipe mostra a sua tristeza, a sua solidão dizendo-lhe que aproveitasse bem as visitas que recebia, já que ele desde há muitos anos que não tinha ninguém, ninguém que o visitasse. A sua vida era andar 15 passos até a uma janela e através das grades olhar a rua. Depois era voltar e contar esses 15 passos. 
Foi um momento de uma grande dor, mas ao mesmo tempo de uma busca de sentindo incrível .
A Toninha na sua enorme força na fragilidade, deixou cair umas lágrimas, que rapidamente se transformaram em reposta. Pediu-me para escrever de volta, dizendo que na verdade devia agradecer a presença de amigos, mas que ele devia agradecer os 15 passos que dava todos os dias. Pediu-lhe que lhe descrevesse o que via e lhe contasse, pois ela a única coisa que via eram uns fios no tecto. Foi uma lição de vida que me marcará até ao fim dos meus dias.

Entretanto a sua saúde foi-se deteriorando e o tema Deus voltou. Primeiro dizendo que não acreditava em Deus, pelas suas circunstâncias, culpav-O. Depois foi-me pedindo que lhe falasse do que eu conhecia, das minhas peregrinações, porque e como rezava, até ao ponto de pedir para falar com o capelão do hospital.
Pediu-me que encontrasse o filho, que vivia no Brasil, para lhe pedir se viesse a Portugal a visitasse, tinham-se zangado, durante os seus tempos de revolta. Encontrei o filho, falei-lhe da nossa amizade e se ele podia fazer a vontade à mãe.
Mais para o fim, quando a visitava pedia-me para rezar baixinho, e dar-lhe a mão, que tinha de ser com tanto cuidado, como se a sua vida estivesse nesse gesto.

Uma semana antes de morrer pediu-me que ficasse junto dela, porque sabia que estava preparada para partir. Na véspera o filho foi visita-lá, e morreu numa 6af Santa, o dia em que se festeja aquilo que ela não queria ver. Eu não estava presente, porque estava num retiro de Quaresma, mas organizamos o seu enterro na 2af depois da Páscoa, o dia da Ressurreição de Jesus. 
Depois enviei uma carta em meu nome ao Luís Filipe comunicando a morte da Toninha. Respondeu-me agradecendo a companhia que lhes tinha feito e deu-me o seu mais valioso tesouro, um poster de João Paul II.
Trazer à memória os nossos doentes, é lembrar que todos o seremos mais dia menos dia e nesse sofrimento podemos encontrar o sentido da vida.
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