Globos de Ouro, elites de palha


ANTÓNIO PEDRO BARREIROS          OBSERVADOR           13.01.2018
Uma moral sexual radicada unicamente no consentimento é menos ética e mais vulnerável às relações de poder. Os Globos de Ouro teriam sido uma bela oportunidade para o dizer. Obviamente, não o foram.
Não acompanhei a cerimónia completa dos Globos de Ouro, nem estou certo de que sobrevivesse a tal bravata. A coisa, que terá perdido um milhão de telespectadores nos Estados Unidos em relação ao ano passado, parece ter oscilado entre o fervor auto-congratulatório e o activismo político. Os excertos que vi bastaram para me convencer de que o espectáculo está cada vez mais politizado e, por isso, é cada vez menos espectáculo. E tem cada vez menos a ver com cinema. Ainda assim, permite medir o pulso às elites culturais que temos e às sociedades que as ouvem.
A cerimónia acontece num momento delicado para a indústria cinematográfica. Uma profusão de denúncias tem posto a descoberto o modo como o assédio, a promiscuidade e o abuso sexual se normalizaram dentro do sector. O problema é demasiado vasto para que o possamos reduzir à questão da culpa individual. É o próprio ambiente, a cultura dominante de Hollywood, que se tornaram propensos à normalização do abuso. A mesma indústria que se deslumbra com a transgressão sexual e que faz negócio com a banalização do corpo não pode eximir-se de culpas pela cultura de violação que a tomou de assalto.
A cerimónia dos Globos de Ouro teria sido uma belíssima oportunidade para falar de tudo isto. De como o pudor não é um preconceito dos fortes, mas uma salvaguarda dos desprotegidos. De como uma moral sexual radicada unicamente no consentimento se torna menos ética e mais vulnerável às relações de poder. De como as famílias são o resultado natural da convivência humana e a célula fundamental das sociedades, e não um instrumento de opressão e domínio. Ninguém esperaria que os Globos de Ouro se transformassem num tratado metafísico ou antropológico. Mas não teria ficado mal aos grandes nomes da indústria cinematográfica sinalizar uma inflexão de rumo ou, pelo menos, fazer um reconhecimento de culpa. Obviamente, nada disso aconteceu.
Ao invés, a festa do cinema prestou-se a ser trincheira de uma guerra cultural. O humorista que a apresentou começou por pedir desculpa por não ser uma mulher. A meio do seu monólogo, convidou pessoas da assistência – duas actrizes caucasianas e outra asiática, uma actriz negra e um actor homossexual – a contar as piadas que ele, enquanto homem caucasiano e heterossexual, sentia não poder contar. Não era ironia. Era a ideia bizarra e aparentemente consensual de que a mesma piada, contada por pessoas de raças, sexos ou orientações sexuais distintas, tem um valor diferente. Nos Globos de Ouro, portanto, fez-se humor através da discriminação e da autocensura.
Há algo de suicida nesse triste espectáculo em que os agentes culturais se voltam contra a liberdade de expressão. Sobretudo, quando o fazem com gosto. Porém, é ainda mais macabro que a elite cultural se disponha a atacar as estruturas tradicionais da nossa civilização, vendo-as como arranjos opressivos e desiguais. Tragicamente, não estão sozinhos nesta sanha.
Os novos feminismos entretêm-se a denunciar a masculinidade tóxica e os privilégios estruturais que a sociedade patriarcal concede aos homens. Em Los Angeles, marcham pelo direito à nudez e, em Londres, aplaudem a proibição da nudez na publicidade. Em Portugal, pedem que se diga “todos e todas” e, no Reino Unido, querem pronomes neutros em relação ao género. Também os novos movimentos contra o racismo e a homofobia deixaram de celebrar o sucesso e a superação individual e cultivam agora a força das quotas e da identificação com o grupo. Nos campus universitários, empenham-se em proibir o discurso livre e em policiar as micro-agressões de que se dizem vítimas.
É perigosa a insistência neste novo individualismo, que atomiza as pessoas para depois as rotular de acordo com as suas características físicas dominantes, integrando-as numa narrativa vitimizadora e voltando-as contra a sociedade. Não se trata apenas do discurso excêntrico de um punhado de famosos em festa. É o vocabulário novo de uma guerra cultural que nos ameaça a todos. E, se queremos responder-lhe, precisamos mais do que nunca de um discurso conservador – embora não necessariamente moralista –, capaz de ir além da obsessão sensaborona com o défice e a economia e de formular um projecto cultural livre, fundado nos princípios civilizacionais do Ocidente.
Não imagino o que se escreverá, daqui a uns séculos, sobre nós; sobre os nossos complexos de culpa e as nossas vitimizações. Espero que possa escrever-se que não nos deixámos vergar por eles. Que não conseguiram calar-nos. E, sobretudo, que não tivemos vergonha de ser quem somos.
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