Ela vai onde outros não querem ir. "Na Europa, perdemos a noção da realidade"


RR online 21 Mar, 2016 - 19:02 • Aura Miguel
Já passou por campos de refugiados na Síria e garante que aprendeu muito com a riqueza humana daquela gente que perdeu tudo, excepto a fé. Catarina Bettencourt, directora em Portugal da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, em entrevista.

Catarina Bettencourt passa a vida a conhecer realidades difíceis que, na maior parte dos casos, não abrem telejornais, nem vêm nas primeiras páginas dos jornais. A directora em Portugal da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre garante que o seu modo de encarar a vida mudou no confronto com as prioridades dos que são perseguidos por motivos religiosos.
Como tem sido o seu trabalho nos últimos tempos?
Infelizmente, os últimos tempos têm sido tempos dramáticos. Estamos a assinalar os 70 anos da II Guerra Mundial e estamos a viver num mundo em que não nos passaria pela cabeça ser possível voltar a viver. Como o Papa nos tem dito com frequência, vivemos uma “III Guerra Mundial aos pedaços”. Na Ajuda à Igreja que Sofre recebemos diariamente contactos de quem está no terreno –
há muitos conflitos, a maioria deles não são falados na comunicação social. Para além dos que toda a gente fala, da Síria e do Iraque, não nos podemos esquecer dos países de África, todos eles com tantas dificuldades, com conflitos gravíssimos entre etnias. Há mais de 60 milhões de pessoas deslocadas no mundo por causa destas questões, mas esta questão da guerra tem sido o que nos tem tocado muito e de onde nos chegam mais testemunhos.
Por exemplo?
Estou-me a lembrar de uma irmã que está na Síria e com quem falo regularmente. Ela fala-nos das dificuldades do dia-a-dia, mas também da alegria de estar presente e junto das pessoas. Está em Aleppo, onde não há electricidade desde Novembro, não há água, não há roupa, não há comida, nem bens essenciais, mas está lá e quer estar. Este é o testemunho mais bonito que recebemos diariamente: o destas irmãs e destes padres que, apesar de todas as dificuldades, de saberem que podem ser apanhados num ataque, raptados, querem estar juntos do seu povo, querem dar o testemunho do que é ser cristão no meio das dificuldades.
Vamos por partes. Por exemplo, África.
Se pensarmos em África, onde a presença da Igreja é extremamente forte junto dos mais pobres, conseguimos ter a percepção exacta do que se está a passar.
E consegue definir o que se está a passar?
Por exemplo, no Sudão do Sul, já vários missionários tiveram que sair e abandonar as suas missões por causa de um conflito étnico. Mas, apesar de todas estas dificuldades e de muitas das congregações terem chamado todos os seus missionários, há alguns que se mantêm porque não podem abandonar aquelas pessoas, pois se a Igreja deixa de estar presente, ficam abandonados por tudo e por todos.
Mas é um paradoxo, porque os missionários permanecem e depois tratam-nos mal. Estou a pensar, por exemplo, no caso das Missionárias da Caridade no Iémen que cuidavam de idosos e foram mortas.
Sim, há sempre esses casos de mártires que, apesar de todo o bem que fazem junto da população, também ficam à mercê do que lhes possa acontecer e colocam a sua vida nas mãos de Deus. Acham que o seu lugar é ali, apesar de saberem que têm grandes probabilidades de serem raptadas, violadas e até mesmo mortas. É esse o testemunho extraordinário, é o bonito do testemunho cristão, é o estar junto daqueles que precisam da nossa ajuda, apesar de a nossa vida também estar em risco.
Esteve em campos de refugiados do Médio Oriente. Quer contar a sua experiência?
Foi uma experiência extraordinária, muito rica a nível pessoal, porque olhamos para pessoas que perderam tudo, pessoas que, de um dia para o outro, tiveram de fugir das suas casas, porque lhes fizeram um ultimato: ou convertes-te, ou pagas o imposto, ou serás morto. E como ninguém se converteu ao islão, nem ninguém tinha dinheiro para pagar, a única solução seria fugir, uma vez que as ameaças eram reais. Fugiram sem nada, absolutamente, só com a roupa que traziam no corpo, muitos deles sem documentos pessoais, sem os seus bens, sem amigos nem familiares, que se foram perdendo.
Em Agosto de 2014, quando estas pessoas chegaram aos campos de refugiados pensavam que ia ser uma situação temporária (ficariam uma ou duas semanas e, depois, regressariam às suas casas). Mas, quando lá estive, as pessoas aperceberam-se que não seria assim. E já passaram quase dois anos e a situação continua.
Recusaram converter-se. Talvez fosse essa a sua maior riqueza de que não quiseram abdicar
Sim, a maior riqueza deles é a fé. Falei com várias pessoas de várias religiões, porque no Médio Oriente, há uma grande mistura, desde os drusos, os turquemenos, os yazidis, desde os cristãos, os caldeus, os assírios… São pessoas com uma fé extraordinária. Perderam tudo, mas não perderam o mais importante. Foi esse o testemunho que eles me deram. E com alguns cristãos com que falei, foi extraordinário ter visto pessoas que viviam numa caravana com dez metros quadrados, em que não tinham nada, mas que, apesar de tudo, diziam que tinham tudo, porque tinham Deus do seu lado e que apenas Deus lhes bastava. E sabiam que Deus lhes iria dar tudo o que precisavam…
Como é que alguém de um país calmo como Portugal encara esta postura?
Foi perceber que, muitas vezes, os nossos problemas, as nossas dificuldades do dia-a-dia não são nada, comparadas com aquelas. Nós perdemos o essencial da nossa vida, fugimos do essencial, desta fé, da religião, do estar junto de Deus, junto de Cristo, de dar este testemunho diariamente. Acho que o maior testemunho que estas pessoas estão a dar é dizerem que têm tudo e só Deus lhes basta, quando vejo que não têm absolutamente nada. Isto foi para mim um choque, no sentido de pôr os pés no chão e me aperceber da graça que temos de estarmos aqui e de tantas vezes nos queixarmos de coisas que não têm qualquer valor.
As nossas prioridades deviam ser reorientadas e repensadas?
Penso que sim e penso que estes tempos que estamos a viver são também um grande desafio e uma grande oportunidade para nós, cristãos.
Mas não pensa que há muita indiferença e que as pessoas pensam “aquilo é tão longe, o que é que eu posso fazer”?
Sim, há muita indiferença, infelizmente, embora, se pensarmos realisticamente, não é assim tão longe. Ou seja, quando estas pessoas todas começam a chegar à Europa, há quem comece a despertar para a realidade; quando estas pessoas que estão a sofrer com a guerra e com as perseguições estão a chegar à nossa casa, começamos a perceber. Tenho visto uma mudança de postura (por vezes, não é a reacção que nós devíamos ter) e nós, cristãos, devíamos acolher, aceitar e ajudar o outro.
Foi este o desafio que trouxe dos campos de refugiados. Não tenho poder para acabar a guerra, nem poder para acabar com todos os conflitos, mas posso fazer a diferença ao pé de mim e posso dar um testemunho diário do que é ser cristão, deste saber perdoar, de ver aquelas pessoas que perderam tudo por causa de um grupo e que, apesar de tudo, me dizem, com grande verdade e sinceridade, que já perdoaram e que rezam por aquelas pessoas. Isso eu posso fazer, posso dar este testemunho no meu dia-a-dia, na minha família, nos meus amigos, no meu local de trabalho, na minha área de influência, eu posso fazer essa diferença. É essa a grande mensagem que nos dão todas as pessoas que vivem em situações-limite.
E imagino que vivem com sofrimento
Com muito sofrimento, com muitas necessidades, com uma angústia, sem saberem qual vai ser o futuro dos seus filhos e da sua família, sobre o que lhes vai acontecer. Mas têm a tal confiança e colocam as suas vidas em Deus. Encontrei um homem, com cerca de 60 anos, que estava completamente desorientado. Era um iraquiano e disse que nunca imaginou que, no fim da sua vida, lhe acontecesse isto. A mulher dele ficou ferida na fuga e estava com um problema grave de saúde. Depois de falarmos um pouco, ele disse: “Não sei o que vou fazer, mas confio em Deus. Ele vai-me apontar o caminho certo, para mim e para a minha mulher; é só isto que eu quero, é só isto que eu peço”. Portanto, esta confiança total, o colocar a vida nas mãos de Deus, para mim – que estive ali e ouvi estes testemunhos –, foi como que um abanar na vida, um olhar para a nossa vida de forma diferente.
Quem passa por essa experiência que a Catarina passou e regressa, por exemplo, à vida quotidiana de Lisboa, sente diferença? 
Um grande contraste. E o grande contraste foi logo quando cheguei ao aeroporto. Saí do Iraque, aquele aeroporto não tem absolutamente nada, e, quando cheguei a Frankfurt, é o oposto, é o tal consumismo, o tal perder completamente a noção do que é necessário, do que é real e onde devemos centrar a nossa vida. Foi logo o primeiro grande contraste: “Meu Deus, onde eu estou agora e onde eu estive há sete ou oito horas”…
Nós, na Europa, perdemos a noção da realidade. Mas temos agora, com a chegada de todas estas pessoas, a oportunidade de olhar e ver no outro um meu irmão, aquele que precisa de mim. Não aquela pessoa que vai roubar o meu lugar, o meu espaço, que me vai tirar todos os meus confortos. Trata-se do meu irmão que pede a minha ajuda. É isso que o Evangelho nos pede: acolhermos o outro. Além disso, estamos a viver este Ano da Misericórdia, em que o Papa nos pede para vivermos esta misericórdia como cristãos e que os cristãos dêem testemunho. Por isso, esta é uma oportunidade e um grande desafio para nos recentrarmos no essencial da nossa vida.
Acha que, dessa maneira, a vida passa a ser melhor, que se vive com mais gosto, apesar das dificuldades?
Vive-se com mais gosto e com mais alegria. Por exemplo, as missas e celebrações em que participei foram das mais vivas que eu alguma vez vivi. Mais vivas no sentido em que são pessoas com uma fé extremamente forte e profunda e cientes do que é importante…
Os cristãos da Europa andam mais distraídos?
Sim, porque há tanta coisa à nossa volta para nos distrair… Enquanto ali, apesar de todas as dificuldades, as pessoas têm alegria porque sabem que Deus lhes dá tudo e que lhes vai dar tudo o que necessitam. Nesse sentido, são mais felizes do que nós porque não estão à espera de ter este mundo e o outro; querem o essencial para a nossa vida. Portanto, se colocarmos estas pessoas num país sem guerra e com segurança elas são infinitamente mais felizes e vivem muito melhor e mais centradas no que é verdadeiro e no que é real do que nós, que temos tudo. Por isso, é um choque tremendo chegar a um campo de refugiados e ver que mil pessoas têm de partilhar uma casa de banho, uma cozinha, o sítio onde colocam a roupa e o sítio onde fazem tudo…
Portanto, as comodidades não são tudo na vida.
Não, não são tudo na vida. De facto, essas pessoas são extremamente felizes e essa felicidade vê-se nas celebrações extremamente vivas, apesar de todos saberem que estão juntos numa eucaristia e numa igreja que pode ser atacada a qualquer momento. Eu ouvi uma coisa extraordinária de um leigo. Disse-me: “Se eu tenho de morrer, prefiro morrer dentro da igreja, porque estou mais próximo do Senhor”.
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