A luz de uma benção

  JOSÉ TOLENTINO      EXPRESSO   29.12.2018

A palavra bênção tem um sentido ao mesmo tempo amplo e direto. A derivação mais próxima podemos encontrá-la no termo latino benedictio que significa “dizer bem”. Parece algo muito elementar, mas, vida fora, rapidamente percebemos que não é assim. É mais corrente calar e omitir do que dizer. É mais fácil dizer mal do que dizer bem. Não sei o que nos aconteceu como civilização, mas a verdade é que as boas notícias nos embaraçam e entediam, quase que evitamos falar delas, enquanto que as más provocam uma curiosidade viral, uma excitação, um interesse redobrado.
Não há patologia pior do que esse definhar da alma, esse olhar cheio de preconceitos que depois se torna pequeno e amargo, esse juízo que se deixa capturar no defeito e no peso da imperfeição e depois não voa, depois ignora o que seja a leveza. Não há exercício mais esterilizante do que essa espécie de ressentimento expresso como anátema em relação à vida, esse totalitarismo da lamúria que, sem darmos conta, nos asfixia, essa incapacidade de romper com a engrenagem da maldição sobre tudo e sobre todos, e a que nem nós próprios escapamos. “Dizer bem”, contudo, é a nossa vocação primordial, porque só isso acorda a consciência de que cada um de nós é o portador autorizado de uma indestrutível bênção, e só esse é o modo de fazer justiça ao espantoso milagre que é estarmos vivos. Dizer o bem é conectar-se com aquela verdade mais profunda, que é o puro vínculo da ordem do ser, perfurando e relativizando as contingências, as circunstâncias, as opacidades, as contradições, os desvios. Sem esse ancoramento compassivo à raiz do ser, à arquitetura primária de toda a vida, nós não chegamos a compreender verdadeiramente o desabalado e misterioso pulsar da própria existência. Colocamos demasiado o acento na compreensão racional, e a razão é clamorosamente insuficiente para interpretar a vida. A razão precisa ser complementada amiúde com a ordem do coração.
Creio que cada um de nós depende — porque a vida é dom e confirmação reiterada do dom — daquilo que a bênção desencadeia. E, por isso, é tão importante buscar a bênção, colocar-se do seu lado luminoso, ativá-la e exercitá-la em nosso redor. Quando pensamos no que representa efetivamente “dizer (o) bem”, apercebemo-nos de que não se trata de elogiar um aspeto ou de destacar uma circunstância: é um movimento mais abrangente e radical. “Dizer (o) bem” é tocar o inteiro significado, é aludir à integralidade da viagem e não apenas a um troço do caminho. “Dizer (o) bem” é reavivar o sentido do destino. Essa natureza ampla está bem patente nas fórmulas tradicionais de bênção, como aquela bíblica do Livro dos Números: “Que o Senhor te abençoe e te proteja;/ faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça!/ volte para ti a sua face e te dê a sua paz!”. Ou como na antiga bênção irlandesa: “Que o caminho venha ao teu encontro,/ que o vento sopre leve nos teus ombros./ Que o sol brilhe sobre o teu rosto sem o ferir,/ e as chuvas caiam serenas nos teus campos./ E até que de novo eu te veja,/ Deus te guarde em cada dia na palma da sua mão.”
Podemos abençoar, porque somos uma bênção, isto é, somos protagonistas de uma história que o amor e o dom tecem. Sabemos “bem dizer”, porque há um bem original alojado em nós, como nossa raiz e nosso futuro. E esse património de bênção amplia-se e fortalece-se na medida em que o gastarmos generosamente, abençoando todos e tudo à nossa volta. O tempo desfataliza-se quando o deslocamos da sombra da maldição e o recolocamos na órbita da bênção.

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