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A verdade sobre nós próprios

A verdade sobre nós próprios Qualquer criança intui que está neste mundo por algum motivo. Diante da clássica pergunta: «Que queres ser quando fores grande?», não lhe passa pela cabeça responder: «Nada». Se o fizer, como diz H. Azevedo, é conveniente pôr-lhe o termómetro. O mais natural é que a criança pressinta que está chamada a representar o seu papel no teatro desta vida. Um cristão sabe que não há nenhum papel mais maravilhoso para “representar” do que aquele que Deus tem previsto para ele. A este “papel” chamamos vocação. A vocação não é outra coisa que o encontro com a verdade sobre nós próprios. É uma verdade que dá sentido à nossa vida. É uma verdade que responde à pergunta mais radical: porque é que eu existo? A vocação, além disso, é uma verdade que interpela directamente o sentido que possui a liberdade. Sou livre para quê? Tanto faz escolher uma coisa como outra? Será que sou livre apenas para escolher a pasta de dentes num supermercado? Se a liberda...

28 de Janeiro - S. Tomás de Aquino

Se o principal objectivo de um comandante fosse preservar o seu navio, mantê-lo-ia no porto para sempre S. Tomás de Aquino

O mistério da direita

João César das Neves DN 2016.01.28 Portugal é um país de esquerda. Os cidadãos, sempre rebeldes e desconfiados da autoridade, gostam de um Estado protector e interveniente. "Liberal" é insulto comum e a concorrência costuma ser considerada injusta e desumana, enquanto se promovem subsídios, apoios e regulamentos. Não há dúvida de que a ideologia nacional pende claramente para o socialismo. Este facto levanta questões interessantes. Sobretudo porque, pelo menos desde 1834, são as forças à direita quem mais têm governado o país. Durante os 77 anos do chamado liberalismo, os partidos cartista e regenerador estiveram no poder 56% do tempo. Na república, os "48 anos de fascismo" dominam esmagadoramente mas, mesmo considerando apenas o período constitucional desde 1976, o PSD esteve no poder 20% mais tempo do que o PS. Como explicar o paradoxo? O primeiro aspecto é doutrinal. Por cá a direita não segue a linha típica dessa orientação, abraçando muitas ideias ha...

Cavaco Silva sai com chave de oiro

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Maria Teixeira Alves, Corta-fitas , 2016.01.25 O Presidente da República  vetou  a adopção pelos homossexuais e as alterações à lei do aborto. É a medida que se impunha. Fê-lo no dia a seguir às eleições que escolheu o seu sucessor, Marcelo Rebelo de Sousa, que tem em comum os mesmos valores.  Podemos tirar daqui uma de duas conclusões. Cavaco Silva sabia que ia vetar as leis que a esquerda se apressou a aprovar assim que conseguiram tirar o PSD/CDS do Governo (de tal maneira é a coisa mais importante para a esquerda que foi a primeira medida a ir ao Parlamento - que obsessão!). Se o fizesse antes podia prejudicar a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente e por isso (combinado) anunciou o veto quando a eleição já não estava em risco. Pode também ser visto como um presente envenenado que Cavaco Silva deixa ao seu sucessor. Até onde vai a ditadura do consenso de Marcelo? O consenso pode muito bem ser uma ditadura. Dada a falta de liberdade que lhe...

35 horas, subvenções e fantasias

Luís Aguiar-Conraria Observador 27/1/2016, 7:35 O Estado português foi à falência em 2011. Negar isto é negar a realidade. Pensar, argumentar e decidir sem ter isto em conta é como pensar, argumentar e decidir num mundo de fantasia. Sempre que uma empresa vai à falência, não há princípio de confiança que proteja os seus credores, ou, pelo menos, parte deles. Grosso modo, hierarquizam-se os credores e usam-se os activos que sobram da empresa para lhes pagar, na medida do possível, seguindo a hierarquia definida. Os portugueses têm tido aulas intensivas sobre este processo com os vários bancos e empresas que foram à falência nos últimos anos. No caso de um banco que entra em insolvência, no topo da hierarquia estão os depósitos bancários de baixo valor, depois depósitos bancários de elevado valor, depois detentores de dívida sénior e por aí fora. E, claro, muita gente fica com os seus investimentos a arder, especialmente os que ...

Réplicas e tréplicas das presidenciais

PAULO RANGEL Público 26/01/2016 Que ninguém subestime o valor e o peso desta capacidade de comunicação directa com os cidadãos: ela representa um activo potente e com enorme potencial. É preciso dizê-lo sem tibiezas: depois de tantos anos de desencanto com a classe política, dá gosto que uma pessoa com a estatura cultural e intelectual e com o percurso cívico e político de Marcelo Rebelo de Sousa se tenha disponibilizado para ser Presidente da República. Basta ter na retina a escolha do local para fazer o discurso da vitória e ter no tímpano o eco desse mesmo discurso para nos apercebermos dos patamares que a política portuguesa foi chamada a subir. Ao longo da pré-campanha e da campanha Marcelo foi capaz de revelar que não era apenas uma pessoa invulgarmente inteligente, coisa que já todos sabiam e que alguns, aliás, receavam. Marcelo foi também capaz de mostrar que era senhor de uma poderosa e sábia inteligência emocional. E, até mais do que isso, que era senhor de uma sóbria emo...

Je suis estátua romana com nu

Maria João Marques Observador 27/1/2016 Ia escrever sobre a abstenção quando apanhei no twitter a notícia de que o governo italiano tinha coberto as estátuas de nus do Museu Capitolini para que não ofendessem o suscetível presidente do Irão Já tinha um texto escrito, só a precisar de revisão e apuro do tom cáustico e irónico, a verberar os moralistas anti-abstenção que atacam em cada ato eleitoral, e a explicar como a abstenção é, algumas vezes, mesmo aquilo que os políticos e os partidos merecem e de forma nenhuma um desinteresse pela política e pela participação. Mas não estava destinado a ser, porque de repente apanhei no twitter a notícia de que o governo italiano tinha coberto as estátuas de nus do Museu Capitolini para que estas não ofendessem o suscetível presidente do Irão, pelas Europas em visita oficial. E depois de se ter dissipado o encarnado que tomou conta do meu campo de visão com esta notícia, lá me decidi que afinal devia escrever sobre os governantes que ...