Escancarai as portas à misericórdia

D. Javier Echevarría
Observador 27/7/2016

A intuição de S. João Paulo II — que propôs aos jovens estas jornadas há já 30 anos — arraigou firmemente na vida de raparigas e rapazes — católicos ou não — do mundo.

Mais uma vez reunir-se-ão, junto ao Santo Padre, centenas de milhares de jovens procedentes de todo o mundo. Deixarão as suas casas, os estudos ou as atividades quotidianas, por alguns dias, para celebrar em conjunto a beleza da fé cristã e da Igreja santa.
A intuição de S. João Paulo II — que propôs aos jovens estas jornadas há já 30 anos — arraigou firmemente na vida de raparigas e rapazes — católicos ou não — do mundo. Agora, esta Jornada de 2016 volta às raízes geográficas e espirituais do santo Pontífice polaco: ali a misericórdia será de novo a chispa capaz de acender tantos desejos de entrega a Deus, de disposição de serviço aos outros. Nos ouvidos dos que atravessarem a Europa, a caminho de Cracóvia, ressoarão as palavras que surpreenderam o mundo e que continuam a ser atuais: Não tenhais medo! Escancarai as portas a Cristo!
Seguindo os passos de S. João Paulo II e de S. Faustina Kowalska — que nos falam da Misericórdia de Deus — serão dias em que será proposto aos jovens que abram as portas da alma, para descobrir a misericórdia. Com efeito, temos de evitar o risco de que a misericórdia seja apenas uma bonita palavra, capaz de encher discursos, frases sonantes ou canções, mas que não se torne viva no nosso ser e na nossa atuação. Por isso, o Papa Francisco nos apresenta muitas oportunidades — esta JMJ é um exemplo — para a experimentar e encarnar.
A misericórdia de Deus identifica-se com Ele, por isso brota do seu próprio mistério. Para descobrir o seu conteúdo, é preciso acolhê-la, e o melhor modo de o fazer — o caminho mais direto e jubiloso— passa pela confissão das nossas faltas no Sacramento da Penitência. Deixar nas suas mãos as nossas ofensas permite-nos compreender até que ponto o Criador nos ama. “Jesus Cristo — dizia S. Josemaria — está sempre à espera que voltemos para Ele, precisamente porque conhece a nossa fraqueza.”. Oxalá muitos jovens regressem de Cracóvia com o olhar mais limpo e a alma alegre por se terem posto nas mãos da graça divina, por terem sentido o abraço do Pai divino que sempre espera o nosso regresso. Não tenhamos medo, escancaremos as portas à misericórdia de Deus! Esta atitude reconduz-nos ao bem, se o tivermos perdido, e gera novos desejos de amor.
A misericórdia ganha força em nós também quando a exercitamos. Tal é o seu poder, porque possui a capacidade de encher uma vida, de transformar uma existência cinzenta na força poderosa, positiva e pacífica que a nossa sociedade necessita. Um saudável inconformismo caracteriza a alma jovem, como explicava S. Josemaria: “Quando era novo fui rebelde e agora continuo a sê-lo. Porque não me dá na gana protestar por tudo sem dar uma solução positiva, não me dá na gana encher de desordem a vida. Revolto-me contra tudo isso! Quero ser filho de Deus, ter intimidade com Deus, portar-me como um homem que sabe que tem um destino eterno e tem de passar pela vida fazendo todo o bem que puder, compreendendo, desculpando, perdoando, convivendo…”
Estes dias na Polónia proporcionar-nos-ão muitas circunstâncias para nos exercitarmos na misericórdia, no espírito de serviço: o convívio com pessoas desconhecidas, os momentos de espera, o calor e o frio, as horas escassas de sono ou outras incomodidades dar-nos-ão oportunidade para atender e ajudar os outros como o faria Jesus Cristo. Oxalá com esta experiência, cada um regresse à sua casa com um propósito — concreto e pessoal —, que contribua para difundir o poder da ternura de Deus por todos os cantos deste mundo.
Se fizermos destes dias uma escola de misericórdia, cada peregrino voltará ao seu lugar de origem com a mochila carregada de esperança, capaz de distribuir a mãos cheias o tesouro inesgotável que guarda uma alma que se deixou abraçar pelo Senhor.
Prelado do Opus Dei

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