A letícia dentro da normalidade II : A companhia

INÊS AVELAR SANTOS  11.01.17   WWW.REVISTAPASSOS.PT  


A Companhia

A par da vocação para o ensino, foi também no ISA que o Pedro conheceu aquela que seria a sua mulher de 43 anos - Leonor (“Minhoca”). Em sua casa, conta-me como se conheceram: “No dia 10 de Janeiro de 1973 e tornámo-nos logo amigos inseparáveis! Passado um ano era altura de dar um sentido àquela amizade”. Depois de dois anos de namoro decidiram casar, em 1976. “Casámos no fim do quarto ano da faculdade, por duas razões, a primeira é que já tínhamos meios de subsistência – éramos os dois monitores [ele de matemática ela de química] – e a segunda razão foi que o namoro estava maduro, digamos assim; e, portanto, a partir daí, só há dois caminhos ou acaba o namoro ou desemboca no casamento!”.
Viveram os primeiros 4 anos de casados naquela que é hoje a Quinta do Barrão, no Carregado. Na altura era uma garagem que transformaram num pequeno apartamento. Entretanto “a ideia da ida para os Estados Unidos surge do gosto que ele tinha em fazer o doutoramento e por outro lado, do pouco atractivo que era a vida académica cá”. Chegaram a Davis, Califórnia, em 1980. Em 1981 nasce Inês e “vivemos dois anos em que tudo correu bem!”.
Em 1983 nasce Leonor... “Foi uma experiência muito dolorosa! Notámos logo que era doente, porque tinha uma deficiência física visível e também problemas psíquicos”. Leonor sofre de uma doença que, à data, não estava identificada, nem nos EUA nem em Portugal. Não fala e não come nem anda sozinha. Nos primeiros 6 meses, a mãe tinha muita dificuldade em alimentá-la, ficando com pouca energia para tratar de tudo o resto. “Neste período era o Pedro quem fazia tudo em casa. E por esta razão atrasou o doutoramento”.
Em 1985 Pedro começava a ser preciso de volta no ISA e decidem voltar. Minhoca lembra que “o embate com Portugal foi extremamente difícil, do ponto de vista do impacto de uma família com uma criança tão doente como a Leonor. Nós habituámo-nos nos Estados Unidos a andar com ela para todo o lado, e fomos ensinados pelos americanos que não existem dramas, existem circunstâncias, e a coisa avança assim!”

A reaproximação da Igreja. Leonor acabaria por morrer em Fevereiro de 1989, com uma septicemia. Até então Pedro e Minhoca tinham-se lentamente afastado da Igreja. Conta-me que diante do corpo de Leonor em cima de uma marquesa na sala de tratamentos começaram a lembrar a vida com ela. “Naquela conversa eu de vez em quando dizia sim, mas ela já não está aqui! E continuávamos a falar e eu sim, mas ela já não está aqui! Quer dizer, eu olhava para ela e tinha a certeza que aquilo que verdadeiramente interessava nela já não estava ali! E depois saímos dali e eu pensava, mas se já não está ali, onde é que está?” E, pela nossa catequese, sabíamos que só podia estar no Céu! E essa certeza absoluta de que ela estava no Céu foi o que nos deu aos dois a certeza absoluta da vida eterna. E foi essa certeza da vida eterna que nos fez recomeçar a prática religiosa”.
Por esta altura, numa Missa de Corpo Presente ouvem o Padre dizer que a sua certeza na vida eterna era tal, que tinha entregue a sua vida por Cristo. Impressionados com isto, descobrem que o Padre João é pároco em Santos e passam a ir lá à missa. Um dia, o Padre João fala da Escola de Comunidade e anuncia que se vai começar a estudar um novo livro (Em busca do rosto do Homem) - “Dissemos que sim àquele convite que o Padre João disse às pessoas todas que estavam na igreja e a nossa ligação ao movimento parte daí, da Escola Comunidade. Aquilo que nós líamos e ouvíamos – mesmo as perguntas que se faziam – explicavam melhor aquilo que vivíamos; e foi isso que nos entusiasmou!”.

Um entusiasmo que fez nascer uma disponibilidade sem medida: “Aquilo que o movimento nos propunha, nós fazíamos! E tudo a que dissemos que sim e que nos foi pedido foi um bem para nós. Foi um bem porque nos ajudou a crescer na fé e na amizade com pessoas com quem aprendemos a ter mais fé”.
Um sim decidido e dado sempre em conjunto, quer nas coisas em que participavam os dois, como os cursos de preparação para o matrimónio que fizeram durante anos a pedido do Padre João, quer naquelas em que Pedro se empenhava directamente e Minhoca garantia os bastidores em casa com as filhas, como o trabalho na campanha do referendo ao aborto em 1998 – que daria origem ao Povo.

Entretanto, a família voltaria a crescer... “A partir de certa altura, a nossa família éramos nós os dois, a Inês e a Leonor no Céu – nunca deixou de ter sido levada em consideração – sabíamos bem que ela fazia parte e estava no Céu. E pronto, realmente, a Leonor tinha morrido sem a gente saber o que ela tinha tido, sem diagnóstico nem nada, portanto havia alguma apreensão...”. Por esta altura os amigos diziam-lhes vão viajar, descansem! “Mas”, lembra Minhoca com vivacidade, “o coração não era aquilo que pedia!”.

Constança nasce em 1991... “rapidamente percebemos que ela também tinha problemas. Aí já foi tudo mais rápido, mais sereno, foi muito diferente, tínhamos outra companhia”.
Desta companhia viriam a fazer parte Madalena e Fernando. Tal como os Aguiar Pinto, chegados a Portugal com filhos pequenos depois de vários anos fora, foi a amizade ao Padre João que os fez conhecer as ENS e, depois, o CL. Madalena recorda que “nós vivemos muitos anos fora e achávamos que podíamos perfeitamente viver sem companhia e foram o Pedro e a Minhoca que foram insistindo connosco”.

Sobre o Pedro, têm dificuldade em falar sem se comover. Para Fernando, “o que o caracterizava era a seriedade, no sentido de que tomava as coisas pelo seu valor, seriedade na maneira de encarar as coisas e encarar a vida”. Já Madalena recorda que “o Pedro tinha uma presença serena e discreta, mas tudo o que ele dizia era para ouvir!”. Lembrando-se de quem só o conheceu através do Povo, fazem-me tomar nota: “mas era completamente terra-a-terra, com uma bonomia, uma boa disposição... E com os pés perfeitamente assentes na terra, não havia nada de abstracto, filosófico ou metafísico, não! Olhava para as circunstâncias concretas da vida como aquilo que Nosso Senhor nos propõe para ser o nosso caminho; e ele vivia isso, discretamente, bem- disposto, com bom humor, mas com aquele relativo low profile.”

Sobre estes dias, Minhoca conclui: “Eu sei que Deus só pede coisas boas. Parto daqui também quanto à morte do Pedro, mesmo que custe, mesmo que não tire a falta que o Pedro me faz...agora não tenho ninguém para perguntar: “o que acha disto?”. Tenho muitas coisas para tratar, mas peço ajuda, sempre que preciso peço ajuda! As pessoas são-nos dadas para isso, e também é uma caridade pedir, aprendemos isto no movimento. É uma caridade, porque a vida não é para nos fecharmos!” 
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