A ideologia do género é demoníaca?

in: Actualidade religiosa, 2016.006.26

Pe. Paul Scalia
Quando o cardeal Sarah esteve em Washington para um evento, há pouco tempo, referiu-se três vezes à ideologia do género como “demoníaca”. Mais recentemente o arcebispo Coakley, da Cidade de Oklahoma, utilizou o mesmo termo em idêntico contexto e o mesmo fez o bispo Paprocki, de Springfield, em relação ao casamento homossexual. É uma palavra forte, certamente. Mas a maioria das pessoas não percebem bem o alcance. Alguns consideram que se trata meramente de hipérbole para descrever algo que não é apenas mau, mas muito, muito mau. Outros consideram que se trata de um juízo apressado dos adversários, diabolizando-os. E depois há aqueles que consideram que se trata de um exagero de fanáticos religiosos, que já não regulam bem de qualquer maneira. 

Mas “demoníaco” é na verdade um juízo sóbrio e esclarecedor do pensamento por detrás da ideologia do género. Não é um juízo de intenções. Não significa que as pessoas que defendem a ideologia do género são demoníacas, ou estão possessas. Significa, antes, que o raciocínio e os resultados daquela filosofia – independentemente da inocência com que é defendida – estão em linha com os desejos, as tácticas e os ressentimentos do próprio Belzebu. 

A ideologia do género repete uma mentira básica do demónio: “Sereis como Deuses” (Gen. 3, 5). Esta mentira está na verdade por detrás de todas as tentações. Todo o pecado deriva do desejo orgulhoso de suplantar Deus. Mas no campo da sexualidade humana tem uma gravidade maior. 

Deus cria; o homem é criado. Deus dá existência; o homem recebe a existência. A ideologia do género propõe uma versão alternativa: Nós somos os nossos próprios criadores. Num dos seus últimos discursos, e talvez um dos mais importantes, o Papa Bento XVI disse:

Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: “Ele os criou homem e mulher” (Gn. 1, 27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem. O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo… Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação… Chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser...

E se concluirmos que os nossos corpos não estão em linha com o que determinámos ser, então alteramo-los de acordo. É contra isto que o Papa Francisco aconselha: “Não caiamos no pecado de pretender substituir-nos ao Criador. Somos criaturas, não somos omnipotentes. A criação precede-nos e deve ser recebida como um dom. Ao mesmo tempo somos chamados a guardar a nossa humanidade, e isto significa, antes de tudo, aceitá-la e respeitá-la como ela foi criada.” (AL, 56)

Existe também um ódio demoníaco pelo corpo. No livro “Vorazmente Teu”, C.S. Lewis refere-se ao ressentimento do demónio pelo facto de Deus ter favorecido os “bípedes calvos… [animais] gerados numa cama”. Porquê este ódio? Talvez porque o corpo e a alma humana são um só. A alma, tendo tanto em comum com a natureza angélica, está unida ao corpo, que tem tanto em comum com a natureza animal. O diabo considera isto pessoalmente ofensivo. Ele procura (tal como todos podemos verificar) desfazer esta união – dividir-nos da nossa carne, virar a alma e o corpo um contra o outro. Com grande perícia, leva-nos a adorar o corpo num instante e odiá-lo no minuto seguinte. A morte – a separação entre o corpo e a alma – foi, claro, a sua maior vitória.

Existe ainda o facto de a Palavra se ter tornado carne. O grande acto de generosidade de Deus para connosco apenas agrava a inveja do demónio. O Filho de Deus assumiu a natureza humana, incluindo o corpo humano. Ele salvou-nos não apenas nesse Corpo, mas através dele. Porque é que esta dignidade havia de nos ser dada a nós, tão inferiores aos serafins, e não a ele, o mais elevado dos anjos?

Adão e Eva depois de terem pecado
O homem caído nunca está em paz com o seu corpo. O Cristianismo procura sarar essa divisão. Mas a ideologia do género procura codificá-la, com base no princípio de que não existe uma verdadeira relação entre o corpo e a alma. A divisão entre os dois é de tal forma absoluta que se pode ser uma coisa fisicamente e outra espiritualmente.

O ódio demoníaco contra a procriação está ligada de perto com isto. O demónio não pode procriar, mas o homem pode. O homem e a mulher cooperam com Deus, gerando uma nova pessoa. O demónio tem inveja disto porque Deus é generoso. Como é evidente, a ideologia do género rejeita a complementaridade entre masculino e feminino e aquilo que a sua união alcança. 

O Senhor pega em verdades naturais – corpo, casamento e família – e usa-as como modelo e meio para a sua obra salvífica. Ele é a Palavra feita carne, o Esposo, filho de José e de Maria, que nos torna membros da família de Deus. Apercebemo-nos do significado da oferta que Jesus faz do seu corpo na Cruz e na Eucaristia, precisamente porque sabemos que o corpo tem significado. A união permanente, fiel e de vida oferecida entre marido e mulher permite-nos compreender o que significa dizer-se que Cristo é o esposo e a Igreja a sua esposa. 

A perda destas verdades naturais inibe, por isso, a nossa capacidade de compreender o sobrenatural e compreender a salvação. Se o corpo humano não tem significado intrínseco – se não nos diz nada sobre nós e se pode ser ajustado ao nosso gosto – então como podemos apreciar as palavras “este é o meu Corpo”?

Se não temos qualquer experiência vivida da complementaridade entre homem e mulher, entre esposo e esposa, então não podemos compreender o facto de Cristo, o Esposo, ter dado a vida pela sua Esposa. E também não conseguimos compreender o significado de Deus enquanto Pai, Deus enquanto Filho, Igreja enquanto Mãe, etc. O Demónio tem todo o interesse em despojar-nos destes sinais naturais do sobrenatural. 

Como é evidente, estas tendências não surgiram do nada. São as suas tácticas habituais. Vimo-las em acção durante a revolução sexual, na contracepção, aborto e fertilização in vitro. A ideologia do género assenta sobre estas fundações e promove-as como nunca. 

O reconhecimento da dimensão demoníaca pode ser útil. Mas deve também levar-nos a um exame de consciência – para ver até que ponto caímos nas suas armadilhas, através dos nossos pequenos actos de auto-exaltação orgulhosa (que na verdade é uma forma de autocriação), pelo nosso desprezo e maus tratos do corpo (nosso e dos outros), pela falta de castidade (que ridiculariza o poder da procriação), pela forma como dificultamos a aproximação dos outros a Deus. 

Alguns de nós podemos reconhecer a dimensão demoníaca da ideologia do género. Mas todos devemos arrepender-nos por termos cedido a ela. 


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 26 de Junho de 2016 em The Catholic Thing)

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