sexta-feira, 29 de novembro de 2002

Sinais do acaso, sinais da necessidade: a inteligível extensão

Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Público, Sexta-feira, 29 de Novembro de 2002
Cada vez mais a questão é essa, para Night Shyamalan ou para mim: a quem falamos e quem nos ouve? Quem nos ouve e a quem falamos?

"Definitively I'm in the miracle side"

Manej Night Shyamalan

1 - Vou conversar hoje sobre "Signs", o último filme de M. Night Shyamalan. Como ainda acredito que a crítica ganha alguma coisa com a paixão, como me recuso a acreditar, segundo outro dia vi escrito, "que a globalização em que vivemos exige profissionais desapaixonados, por imperativo de nomadismo laboral", é com paixão que vos vou falar de "Signs", como foi com paixão que há uns anos vos falei de "The Sixth Sense" ou de "Unbreakable". Desde que vi o primeiro, comecei-me a convencer de que este realizador americano, de origem indiana, era um dos vários que valia a pena seguir com paixão. Até à data, não vejo razão para me desdizer, embora reconheça que na algóstase dominante (insensibilidade à dor, insensibilidade ao prazer) seja difícil aos "profissionais desapaixonados" aceder ao mundo deste ocasionalista reencarnado nos séculos XX e XXI.

2 - A cena fundamental de "Signs" situa-se no último terço dele, quando os protagonistas, barricados em casa, aguardam o eminente ataque das criaturas vindas de outros mundos.


Na casa, estão dois irmãos, ambos agricultores nas infinitas planícies que rodeiam Filadélfia, cidade e paisagem obsessivos na obra de Shyamalan. O mais velho é Mel Gibson. O mais novo Joaquin Phoenix. Graham (Mel Gibson) fora, até há pouco, padre. Mas perdeu a fé quando a mulher morreu, num desastre de automóvel. Com os dois irmãos, estão os dois filhos de Graham, um rapaz e uma rapariga, ainda crianças (qual é o filme de Night Shyamalan em que as crianças não têm um lugar central, genialmente dirigidas?).


No horror daquela noite, Graham pergunta-se a certa altura se coisas como aquelas acontecem por acaso ou por alguma obscura razão. Dito de outro modo, pergunta-se (tudo quanto vimos e quanto já sabemos leva-nos a supor que, desde a morte da mulher, muitas e muitas vezes se pôs essa questão) se o acaso ou a necessidade governam o mundo das coisas e o das pessoas.


Joaquin Phoenix está convencido de que há uma razão, que há uma necessidade em tudo quanto acontece. Para o provar, conta a seguinte e pasmosa história.


Uma noite, poucos anos antes, numa festa, conheceu uma rapariga boa como o melhor milho que é o pão quotidiano da vida dele. Com o somar das horas e com o somar dos copos, as coisas começam a correr-lhe bastante de feição. A certa altura, senta-se num sofá com a rapariga e repara no olhar cada vez mais lânguido dela, na respiração cada vez mais estremecente dela. Decide-se a beijá-la. Mas está a mascar uma pastilha elástica. Discretamente, vira a cara para o lado e atira a pastilha elástica para um cinzeiro. Volta a inclinar-se sobre a rapariga, cada vez mais ofegante. Nesse mesmo momento, ela desata a vomitar. Joaquin Phoenix enganara-se nos sinais. Nem os olhos de carneiro mal morto, nem a respiração de vitela saltitante significavam o que ele supusera, mas eram o efeito de copos a mais. E Joaquin Phoenix retirou a moral da história: se não fosse a pastilha elástica e os segundos que mediaram entre a intenção do beijo e a sua quase concretização, ele tinha apanhado com o vomitado todo na própria boca. Talvez esse episódio o marcasse para sempre, criando-lhe para o resto da vida irreprimível repulsa por beijos e mulheres. A pastilha elástica salvou-o. Deus existe.


O público ri muito com esta história grotesca e absurda. Mas Mel Gibson não ri e não se convence. E o exemplo que opõe ao do irmão é o da morte da mulher. Esta foi atropelada por um condutor bêbedo, que adormeceu ao volante. O carro que a atropelou quase a cortou ao meio, mas por um daqueles fenómenos que às vezes acontecem (já falei neste artigo de casos de algóstase) o próprio automóvel lhe prolonga um pouco a vida e a impede de sofrer muito. A polícia decide não retirar o carro até que o marido chegue e possa ainda trocar algumas palavras com a mulher. Mel Gibson chegou, foi reconhecido e a mulher dá-lhe alguns conselhos sobre os miúdos e o modo como ele terá de se ocupar deles. Depois, diz-lhe uma frase aparentemente despropositada: "Agarrem esse taco e atirem-no com toda a força." Depois morre.


Para Graham, a explicação da frase é a seguinte: como os dois irmãos foram basebolistas e a mulher gostava imenso de os ver jogar, ela teve uma alucinação. Viu-os, como antigamente, num desafio de basebol e deu um grito de apoiante como em tempos tantas vezes tinha dado. Nada a perceber, nada a interpretar. As últimas palavras da mulher não faziam qualquer sentido. Para ele, a partir desse dia também nada fazia sentido, o que se voltava a verificar nessa inverosímil situação do ataque extraterrestre.


3 - Alguns saberão que há um cineasta francês, chamado Robert Bresson, que morreu há pouco tempo, cuja obra é uma permanente variação sobre o tema do que acontece pela Graça de Deus ou do que acontece por puro acaso. Alguns saberão que a questão do primado da Graça ou do primado das obras para a salvação das almas se prolongou ao longo de séculos de questões teológicas, desde Pelágio e Santo Agostinho até às querelas entre jansenistas e jesuítas no século XVII. Um dos nomes relevantes nessa grande questão filosófica do século XVII foi Nicolas Malebranche (1638-1715), que sempre procurou conciliar o cartesianismo com o pensamento de Santo Agostinho e com a origem neoplatónica desse mesmo pensamento.


Numa das suas obras mais célebres - Entretiens sur la métaphysique et sur la religion (1688) -, Malebranche dá dois exemplos que não andam muito longe dos exemplos de Night Shyamalan.


Sublinhando o primado da Graça, recorda, como tantos dos seus predecessores, o caso de São Paulo, que, enquanto se chamava Saulo, perseguiu cristãos com sanha e crueldade desmedidas. Quando um dia, na estrada de Damasco, cavalgava a toda a brida para chegar a tempo de matar mais uns cristãos, ouviu distintamente a voz de Deus perguntar-lhe: "Saulo, Saulo, porque me persegues?" Houve um enorme clarão, o cavalo estacou apavorado, Saulo caiu da montada e perdeu os sentidos. Quando os recuperou, converteu-se e mudou o nome para Paulo. A questão é: se Deus se manifestasse desta forma a todos os mortais, a fé não seria coisa muito difícil de crer. Porque é que, entre tantos, São Paulo foi o escolhido, ele que aparentemente nada fizera para merecer tal Graça e tudo para a desmerecer? A única resposta vem do que não tem explicação: a Graça de Deus.


Mas Malebranche dá um outro exemplo mais comezinho: a certo nobre francês foi dito que, num baile dessa noite, determinada senhora, loucamente apaixonada por ele, estaria vestida de determinada maneira, para que ele a pudesse reconhecer. Assim aconteceu, vieram a casar e a ser pais de filhos ilustres. Só muito mais tarde, o homem descobriu que, na noite da festa, a sua apaixonada, à última hora, trocara de fato com uma amiga. O encontro não foi predestinado? O encontro foi casual? Ou exactamente o contrário? Aliás, para Malebranche, o que vulgarmente se chama "causas" são as ocasiões em que Deus age para produzir efeitos.


4 - No filme de Shyamalan, todos os sinais são ocasiões para produzir efeitos. Desde os enormes ciclos nas plantações de milho, até à água que a miúda se recusa a beber. Desde o livro ridículo sobre os extraterrestres até ao pobre ET que vemos no final, muito mais parecido com as criaturas dos anos 50, de Jack Arnold e de Eugene Lourié, do que com os sofisticados bonecos de Spielberg.


No final, Graham volta de novo a ser padre. Que aconteceu? Aconteceu que, na noite do combate com a tenebrosa criatura, que ele já sabia ser alérgica à madeira, os olhos lhe foram ter ao taco de basebol, pendurado numa parede. Nesse momento, ele percebeu que a última conversa da mulher não era uma recordação nostálgica do passado, mas uma visão premonitória do que estava para acontecer. E os dois irmãos, agarrando com toda a força o taco de basebal, conseguiram matar a criatura e salvar-se.


"Signs", filme de "suspense" e de extraterrestres, é igualmente um discurso sobre a Graça e sobre as obras, sobre o que Malebranche chamava a inteligível extensão. Não serve de nada dizê-lo a quem o sabe muito bem? Como escreveu Pascal: "Il vaudrait mieux le dire à ces autres personnes, dont vous parlez. Mais elles ne l'écouteraient pas." Cada vez mais a questão é essa, para Night Shyamalan ou para mim: a quem falamos e quem nos ouve? Quem nos ouve e a quem falamos?  

segunda-feira, 25 de novembro de 2002

Liberdade de Educação e Liberdade de Informação

MÁRIO PINTO
Público, Segunda-feira, 25 de Novembro de 2002


No passado dia 16, participei activamente (devo dizê-lo desde já) numa tarde inteira de comunicações e debates, que teve lugar num anfiteatro da Fundação Gulbenkian, por iniciativa do Fórum para Liberdade de Educação, recentemente constituído por um conjunto de pessoas que criticam a intolerável estatização do nosso sistema escolar e defendem, para os alunos e famílias, a liberdade de escolha da educação e, por consequência, da escola.
Fiquei surpreendido com a grande afluência de pessoas - contaram-se cerca de mil, que não couberam no anfiteatro e tiveram de assistir noutras salas através de vídeo. Concluo daí que o cansaço do monopólio de um sistema escolar estatista, que produz resultados insuportáveis, começa finalmente a gerar um activo movimento de opinião a favor de mudanças que são urgentes - e, de resto, já se estão fazendo ou preparando em outros lugares.
A comunicação social, por seu lado, pouca ou nenhuma importância noticiosa deu ao caso. Não há dúvidas: os órgãos de comunicação social fazem uma pré-selecção do que interessa ou não interessa como notícia. Os jornalistas esforçam-se por nos convencer de que são independentes. Independentes são, desde logo na sua liberdade de pré-seleccionar. Mas essa pré-selecção está indisfarçavelmente ligada a opções editoriais que são também ideológicas. Logo, independentes, sim, mas não isentas.

Esta é a natureza das coisas. Portanto, não vale a pena fazer grande questão. O ponto é outro: é que não há pluralismo. Porquê? Só vejo uma resposta: pecado de omissão de alguns.

Relendo Dostoiévski

Saiu recentemente mais uma edição do célebre romance de Dostoiévski: "Os irmãos Karamázov" (primeiro volume). Há anos que o tinha arrumado, numa velha edição francesa. Quis relê-lo e, confesso, fui direito ao tremendo episódio do Grande Inquisidor. É muito chocante, mas coloca-nos, poderosamente, perante as mais dramáticas tentações do Mal. Lá reencontrei a previsão do Grande Inquisidor, retroactivamente posta a Jesus: "Sabes ou não sabes que daqui a séculos a humanidade proclamará, pela boca da sua sabedoria e da sua ciência, que não existe o crime e que, portanto, também não existe o pecado, mas apenas existem os famintos? Dá-lhes primeiro de comer, e pede-lhes a virtude só depois."
A fome de que fala Dostoiévski é física, biológica. Talvez por isso, o autor ainda admitia que, depois de saciada a fome do corpo, se poderia exigir a virtude do espírito. Mas a fome que hoje lavra pelas nossas sociedades da Europa rica, já em grande medida libertas da fome biológica, é outra. É uma fome de sensações psíquicas e emoções bizarras, de todos os consumos e experiências "radicais", uma fome libertária, uma fome pela fome. Saciar esta fome não deixa ocasião posterior para a virtude, porque é uma fome do vício. Um exemplo da "comida" que excita essa fome é a má televisão que vamos tendo.

A degradação da televisão

Ficou célebre a opinião de reserva que, num tempo ainda precoce, em que muita gente embarcava em embriagadas visões optimistas sobre a televisão, Karl Popper emitiu sobre a televisão. Infelizmente, confirmam-se as piores expectativas. Apesar de já estarmos quase habituados ao panorama em grande parte nauseabundo das nossas programações televisivas, e de muitos de nós já terem desistido, por desolação, de insistir sobre o assunto (relembro a título de exemplo o pioneirismo de Maria de Jesus Barroso e declarações mais recentes de António Barreto, na sua coluna habitual), a indignação continua a manifestar-se inconformada. Alfredo Barroso escreveu recentemente, na sua prosa bem castigada mas quase violenta, no "Expresso" do passado dia 16, uma crítica lapidar, intitulada "um país de rabo ao léu". Com efeito! Mas o pior é que não se trata de um episódio isolado; e se verifica uma tendência que não pára (ou só parará um dia, por vómito colectivo final?).
Para colocar ao lado do programa descrito por Alfredo Barroso, li, há dias, que se tinha feito uma nova experiência televisiva: uma câmara colocada num caixão podia fornecer, durante longo tempo, um programa de televisão mostrando a decomposição de um cadáver. Li ainda, mais recentemente, que um médico alemão, que se celebrizou por apresentar esculturas feitas com corpos humanos plastificados, fez uma autópsia ao vivo para 300 pessoas e a TV, numa galeria de Londres.
E assim se vai desenvolvendo uma cultura e uma televisão de "Sodoma e Gomorra". Temos aqui um problema que vai ao âmago da questão da dignidade humana, mas também da democracia. O mercado, tão vilipendiado pelos que defendem o monopólio da educação escolar estatal, e também criticado pelos defensores dos direitos sociais contra a economia do neoliberalismo, é soberano na televisão - que de facto constitui uma rede educativa (deseducativa) e um grande negócio.
Quem, de entre alguns mestres que entre nós constantemente nos recordam a democracia e criticam o neoliberalismo, nos explica? E que dizer da apatia da nossa cultura tradicional de inspiração cristã?
A única consciência que pode andar em paz, por estes dias, é a consciência do relativismo pós-modernista, se for sincera. Pior, contudo, ainda são os mornos, aqueles que não são frios nem quentes. A esses, diz-se no Apocalipse: "Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno, vou vomitar-te da minha boca."
Sem embargo, porém, não é com esta condenação de excomunhão que termina o Apocalipse; mas sim com a promessa esperançosa de um reencontro.  

domingo, 24 de novembro de 2002

Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política


quinta-feira, 21 de novembro de 2002

Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política


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segunda-feira, 4 de novembro de 2002

Tornar este mundo mais belo

João César das Neves
DN 20021104
A Humanidade nos últimos séculos foi dominada pelo sonho mais maravilhoso e estimulante da História: a busca de um mundo novo. A plausibilidade deste mito primordial fez nascer as maiores grandezas e as maiores misérias. Hoje, somos herdeiros do sonho, mas também da desilusão. O nosso desânimo sistémico nasce da sensação de termos experimentado tudo, sem atingir o sucesso prometido. Hoje já ninguém acredita. Mas agora alguém vem dizer que ainda há um caminho para o ideal.

O Ocidente viveu empolgado pelas tentativas de chegar a um mundo livre e justo que, em vários âmbitos e de múltiplas formas, pareceu possível realizar. Quase podemos relacionar cada um dos séculos com um dos seis campos dessa demanda: o espaço, a religião, a ciência, a economia, a política e a família.

O mundo moderno nasceu no século XV, quando as caravelas levaram a Europa a mundos realmente novos. Os Descobrimentos abriram perspectivas exóticas e inesperadas. Após milénios de miséria, opressão e labuta, nascia o sonho de abandonar a terra velha e começar tudo de novo, livre dos arcaicos erros, azares e conflitos. O europeu de Quatrocentos gritou por liberdade e sonhou com uma sociedade nova.

No século seguinte, a demanda da novidade foi aplicada à mais determinante das realidades, a religião. A Reforma de Lutero e Calvino representa a mesma busca das caravelas, mas no campo eclesial. Só que, se no âmbito geográfico essa ânsia se revelou pacífica e proveitosa, na área doutrinal a luta foi sumamente perturbadora e feroz. As «guerras religiosas» ensanguentaram o continente por mais de cem anos. As cicatrizes duram ainda hoje.

No século XVII a busca passou para o campo científico. O tempo de Galileu e Newton abriu novos mundos intelectuais e experimentais, cujo valor ainda não se esgotou. Seguiu-se, no século XVIII, o campo económico. A «revolução industrial» aplicou as ideias da ciência e rasgou oportunidades inesperadas na prosperidade e no conforto. Estes foram os sucessos mais duráveis da busca multissecular.

Então, o século XIX orientou-se para o campo político. E voltou o sangue e a turbulência. As novas ideologias e sistemas derrubaram velhos privilégios e disparidades arcaicas. Mas também geraram revoluções e lutas, que a ciência e a economia ajudaram a tornar destruidoras. Quando a essas se juntaram as conquistas geográficas, as guerras foram mundiais.

Finalmente, o século XX, herdeiro dos avanços na distância, na teologia, na natureza, na riqueza e no poder, tentou revolucionar a mais íntima das dimensões, a família. Generalizaram-se realidades como a promiscuidade, o adultério, o divórcio, a homossexualidade, o aborto, a pedofilia. Os ganhos face à família opressiva foram muitos, mas o sofrimento é enorme. E mais profundo e surdo que nunca, por se situar na própria identidade pessoal.

É difícil descrever o entusiasmo apaixonado com que em cada época, navegantes, reformadores, estudiosos, empresários, revolucionários, hippies e tantos outros, se empenharam em cada uma destas buscas. O ser humano acreditou sempre a fundo e jogou tudo no mundo novo que se abria. O novo milénio nasce repousando na apoteose desses ganhos: a aldeia planetária e o diálogo de religiões, a hegemonia científica e a globalização económica, o ideal democrático e a liberdade sexual. Mas o ser humano não está mais feliz. Sente-se mais perdido que nunca.

Afinal, o tal mundo novo nunca chegou. E o abandono das antigas referências criou um vazio e uma confusão avassaladoras, sobretudo na fé, na ideologia e na intimidade. Sente-se uma ânsia de valores, de orientação, a que ninguém dá resposta. Temos mais do que nunca e sentimo-nos os menores de sempre. Já tentámos tudo. Só falta mesmo o ideal prometido.

Há dias, um dos poucos homens que ainda fala com autoridade ao mundo, apontou um caminho para a vida perfeita. A sua solução situa a busca num plano diferente das anteriores: dentro do ser humano, não fora. O papa João Paulo II, na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae sugere uma via surpreendente para o mundo novo: rezar o terço todos os dias.

Trata-se de uma oração singela e vetusta, quase ingénua. Mas a sua finalidade é a mesma das grandiosas demandas dos últimos séculos: «Como se poderia fixar os olhos na glória de Cristo ressuscitado e em Maria coroada rainha, sem desejar tornar este mundo mais belo, mais justo, mais conforme ao desígnio de Deus? (...) Longe de constituir uma fuga dos problemas do mundo, o rosário leva-nos assim a vê-los com olhar responsável e generoso, e alcança-nos a força de voltar para eles com a certeza da ajuda de Deus e o firme propósito de testemunhar em todas as circunstâncias «a caridade, que é o vínculo da perfeição» (Col 3, 14).» (op. cit. 40). Ao mundo desorientado, o papa aponta este «caminho de contemplação» (op. cit. 5), que leva, de facto, ao mundo novo: rezar o terço todos os dias. Após tantos esforços, por que não tentar?

quarta-feira, 16 de outubro de 2002

Carta Apostólica "Rosarium Virginis Mariae"

Rosario Da Virgem Maria

sexta-feira, 11 de outubro de 2002

Memórias do Vaticano II

Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Sexta-feira, 11 de Outubro de 2002


É bom que, ao escolher-se um tema que muito vivemos, lhe comecemos por tirar os espinhos antes de o transformar em imagem e em memória. Foi o que fiz. No Vaticano II, o vernáculo é o meu espinho e a minha espinha. Por isso o esconjurei ao principiar

1. No último dos seus romances - "A Alma dos Ricos", segundo tomo de "O Princípio da Incerteza" - Agustina Bessa Luís escreve a páginas tantas: "O que não entendemos é objecto de culto. Quando a Igreja Cristã tirou o latim da missa, perdeu muito da sua sacralidade."
Eis uma afirmação que plenamente subscrevo e há muitos anos sustento. Ainda nada sabia de latim, já ajudava às missas de monsenhor Porfírio da Cruz Quintella, prior da Golegã, na capela da casa do dr. Bustorff Silva, na Arrábida. A talha dourada da capela diziam-na recuperada ou desviada da nau "Portugal" da Exposição de 1940. O monsenhor trocava a Golegã pela Arrábida nos meses estivais. O reumático apoquentava-o e andava apoiado em muletas. "Olha, o monsenhor a remos", disse o Vasco Santana, que o conhecia de miúdo e do Ribatejo e já não o via há eternidades. Aos fins de tarde, o bom do velho, que não tinha acólitos nas redondezas, ensinou alguns miúdos de casas próximas a ajudar a missa. Os estranhos rituais das abluções eram-me tão misteriosos como essa língua, com que, logo de entrada, eu respondia ao "Introibo ad altare Dei" do sacerdote com o "Ad Deum, qui laetificat juventutem meam". E Alguém ou Algo me alegrava de facto, nesse latim que primeiro me ensinaram a pronunciar (com as acentuações eclesiais) e só depois me ensinaram a traduzir, pelos meus 8-9 anos. E em latim respondi aos oficiantes - em Portugal e no mundo - desde essa idade até aos 30, quando o vernáculo substituiu o alfabeto dos segredos.
Li já não sei onde que a "revolução litúrgica" se teria inspirado numa frase de João XXIII: "Quando penso nas belas orações que disse e vós não compreendeis..." Com a devida vénia, neste caso acompanhada por tudo quanto significou e significa para mim o "bom Papa João", neste caso não o sigo. É o que não compreendemos que é o mais belo e transcendente. Quando tudo se passou a entender (se é que se entende), o mistério desapareceu. E desapareceu a "catolicidade", que me fazia ouvir as mesmas palavras no Japão e na Patagónia, na Sibéria e na Nova Zelândia. "Ad utilitatem quoque nostram totiusque Ecclesiae suae sanctae" Não perceberam? Ainda bem.

2. A constituição sobre a liturgia, que substituiu o latim pelas "línguas vivas", autorizou a concelebração, permitiu a comunhão sob duas espécies, reformou o missal e o breviário, bem como o ritual dos sacramentos (entre muitas outras reformas menores, como, por exemplo, a abolição da missa "pro petitione lacrimarum", a que fiz referência na minha última crónica), foi promulgado no fim da segunda sessão do Concílio Vaticano II, em Dezembro de 1963. O texto foi votado 78 vezes e aprovado, finalmente, com 2147 votos a favor e 4 contra. Ao que parece, os bispos acharam que se acabava com "um isolamento sem sentido", que não tinha razões bíblicas mas apenas históricas. Mas não serão históricas todas as razões incluindo as bíblicas? Por mim, falo. Nunca mais "senti" na missa o que nela sentia antes do concílio e não creio que isso se deva, apenas, às minhas crises de fé, de esperança e de caridade. Como recordou Ficino, quinhentos anos antes do concílio, "não era sem razão que os antigos colocavam uma esfinge, pintada ou esculpida, sobre as portas dos templos. Mostrando essa imagem, demonstravam que das coisas de Deus não se deve falar publicamente, a não ser por enigmas."

3. É bom que, ao escolher-se um tema que muito vivemos, lhe comecemos por tirar os espinhos antes de o transformar em imagem e em memória. Foi o que fiz. No Vaticano II, o vernáculo é o meu espinho e a minha espinha. Por isso o esconjurei ao principiar.
Posso agora dizer, como é verdadeiramente digno e salutar, que se comemora hoje - 11 de Outubro de 2002 - o 40º aniversário do início dos trabalhos conciliares, em Roma, a 11 de Outubro de 1962.
Outro dia perguntaram-me se eu me lembrava do que fiz nesse dia. Não me lembro. Mas lembro-me muito bem que estava em casa da Maria Leonor e do Nuno Bragança, quando, à hora do jantar, o Nuno chegou a casa a dizer que o Papa tinha anunciado, em São Paulo-Fora-de-Muros a 18 cardeais, a sua intenção de convocar um concílio. Foi a 25 de Janeiro de 1959, cinco meses menos um dia antes do nascimento do meu filho mais velho.
O Papa era João XXIII, eleito a 28 de Outubro de 1958, aos 77 anos. Quando se soube dessa eleição, o mesmo Nuno - sempre o mesmo Nuno - comentou comigo que o Espírito Santo talvez se tivesse distraído um bocadinho. Depois do longo pontificado de Pio XII (1939-1958) dizia-se que a Igreja precisava de um "papa de transição", que não reinasse muito. Um papa que não fizesse ondas. Será que havia esse tempo a perder, perguntava-me e perguntava-se o Nuno. Mas a homilia de coroação já foi uma surpresa. Ao assumir-se como bispo de Roma, "irmão de todos os bispos do universo", retirando a primazia à chefia da Igreja universal, tão proclamada por Pio XII, João XXIII espantou pela vez primeira (ou pela segunda, já que a escolha do nome também deixara muitos perplexos, pois que joões papas os não havia desde o século XIV).
Mas a 25 de Janeiro de 1959 aconteceu muito mais. Um concílio? Ninguém pensava nisso. E muito menos num concílio para aproximar a Igreja do mundo então contemporâneo. Daí o nosso entusiasmo nesse dia. Algo ia mudar. Uma nova era. Um concílio - o 22º da história da Igreja - ia fazer parte da nossa história, quase cem anos depois do Vaticano I, que não era santo do nosso altar.
4. Reforma da Igreja como povo de Deus. Diálogo com os outros cristãos. Diálogo com o mundo. Durante os trabalhos pré-conciliares, estes foram os três grandes vectores de orientação do pensamento de João XXIII. Marcaram igualmente a primeira sessão conciliar (Outubro a Dezembro de 1962), a sessão que "tomou o pulso à Igreja". Depois, foi a "Pacem in Terris". Depois, a morte de João XXIII (3 de Junho de 1963, aos 81 anos, cinco anos incompletos de pontificado). Mas quem viveu esses anos, por exemplo em Portugal, recorda um clima como nunca mais se viveu na Igreja. Aqui, a política deu-lhe um tempero especial. O reinado de João XXIII coincidiu com o exílio do bispo do Porto, com as primeiras manifestações de católicos contra o regime, com o "Santa Maria", com o fim da Índia portuguesa e com o começo da guerra de África, com os movimentos estudantis, com os livros da Morais, com o aparecimento da "Pragma" e de "O Tempo e o Modo". A propósito de tudo, discussões frementes e veementes. O baluarte católico era o primeiro dos bastiões do salazarismo a mostrar rombos. A "Seara Nova", revista marxista, publicava o retrato do Papa na primeira página, coisa inimaginável nos quarenta anos de vida da revista. Em meios muito conservadores, rosnava-se que já tinha havido outro João XXIII, anti-Papa. Quem se seguiria?
Quanto rezámos para que o sucessor fosse esse cardeal Montini que já tínhamos sonhado ver suceder a Pio XII. E foi Paulo VI. No dia a seguir à eleição, visitei Mário Dionísio, então meu colega como professor no Camões, que estava hospitalizado. Marxista dos quatro costados, militantemente agnóstico, saudou-me com um largo aceno: "Vocês agora têm um Papa a valer." Sorri-lhe, orgulhoso.
Mas cedo começaram algumas reticências sobre o novo Papa. "Forma Pacelli, fundo Roncalli", dizia-se. Quando saiu a "Ecclesiam Suam", primeira encíclica de Paulo VI, escrevi em "O Tempo e o Modo" um artigo que procurava desesperadamente provar (ou "poeticamente" provar, como me acusava, de Roma e da Capela Sinistra, o Manuel Lucena, que me recordava que o mais poético nem sempre é o mais verdadeiro) que Paulo VI evoluía na continuidade do seu predecessor.
Foi mais difícil sustentá-lo na 3ª sessão (14 de Setembro a 21 de Novembro de 1964) e na 4ª (28 de Setembro a 8 de Dezembro de 1965). Em 1964, no mesmo "O Tempo e o Modo" um certo Manuel Frade já via nos textos conciliares "muito mais da multissecular sabedoria da Igreja do que daquele pouco da 'loucura de Deus' de que todos os homens têm fome". E acrescentou: "O milagre não se deu."
Mas, se institucionalmente se não deu (e dos milagres aos cismas, vai às vezes um passo, como recordou outro padre conciliar), para mim esses anos - anos da Concilium, que a Helena Vaz da Silva espalhou por Portugal e pelo Brasil - foram anos milagrosos.
Quem me tirasse esses anos não me tirava tudo, mas tirava-me muito. Como escreveu José Bergamín, esses foram anos em que "on respire au Vatican / Une aura si idyllique / Que le Diable devient chrétien / Tout en restant catholique".  

segunda-feira, 30 de setembro de 2002

Um livro esquecido

João César das Neves
DN, 20020930
Uma das obras mais importantes da cultura ocidental está hoje praticamente esquecida. Além da volumosa perda civilizacional, o pior são as razões do desaparecimento, que manifestam uma grave desorientação do nosso tempo. Diz-se que a Legenda Aurea foi o livro mais lido no século XIV depois da Bíblia. Ele era, sem dúvida, imensamente popular e manteve--se assim nos séculos seguintes. O seu autor, Jacobo de Voragine (1230-1298), arcebispo de Génova beatificado em 1816, compilou as vidas dos santos do calendário romano de forma elegante, singela e sintética. Este conjunto de 182 pequenas histórias de santidade, do heróico ao humilde, do enternecedor ao empolgante, constitui sem qualquer dúvida uma sublime obra literária. Num tempo como o nosso, fascinado pela aventura, emoção e extraordinário, este livro parece feito à medida. Mais intenso que Indiana Jones, mais surpreendente que O Senhor dos Anéis, mais variado que Harry Potter, mais misterioso que as Star Wars, a Legenda tem tudo para agradar às audiências. A coragem dos mártires, a surpresa dos milagres, o heroísmo das virtudes; princesas, dragões, demónios e tiranos, santos e pecadores, tudo lá aparece. Conhecemos também a vida dos famosos, como a de Nossa Senhora e Madalena depois da Ressurreição, os actos dos Apóstolos após os Actos, a origem de Judas e da Santa Cruz, etc. Tudo isto numa obra de imenso interesse histórico e artístico, alto valor literário, moral e cultural. A grande maioria da arte sacra, vitrais, frescos, poemas, e até os nomes de terras e locais, só são compreensíveis com base neste livro, onde se inspiraram milhares de artistas e autores. Formando a cultura, a estética, a consciência e o carácter dos leitores, tudo o recomenda para as nossas estantes. Mas, após séculos de intensa leitura, a Legenda Aurea quase desapareceu no século XIX. Ficou por fazer a indispensável edição crítica. Sem o texto estabelecido cientificamente, as edições são poucas e de qualidade variável. Está acessível em cuidada tradução inglesa na Princeton University Press, francesa na GF--Flammarion, entre outras. Em português nada. Porquê? O cientifismo triunfante montou nos últimos 200 anos talvez o ataque mais feroz e implacável que a religião alguma vez suportou. Alegando-se detentora da verdade indiscutível, a ciência desafiou abertamente a fé, em particular a cristã, com a acusação de ficção mítica e fabulosa. A resposta foi simples. O cristianismo aceitou o desafio e tornou-se a crença mais estudada, analisada e esquadrinhada de sempre. A História, Arqueologia, Antropologia, Linguística, até a Física e Química, foram usadas para pôr em causa os factos e afirmações da Igreja. As descobertas e resultados desses estudos foram excelentes. Mas, se teve efeitos muito interessantes, o esforço gerou algumas perdas significativas. A busca do rigor e demonstração na fé apagou a espontaneidade, a devoção, a arte. Desde o ataque furioso dos cientifistas, os cristãos passaram a tomar uma atitude de acanhamento, quase vergonha. Alvos de permanente discussão e dúvida, os crentes habituaram-se a justificar-se, a pedir licença para falar, a prestar vassalagem à cultura dominante. As consequências foram drásticas. No tempo que mais exterioriza os sentimentos, desapareceram as procissões, as penitências públicas e manifestações de fé. No tempo da promoção da arte, a liturgia empobreceu e escondeu-se a arte sacra. No tempo das convicções, partidos e manifestações, apenas a Igreja faz cerimónia. Há liberdade para se dizer o que se quiser, mas afirmar um princípio religioso é subjectivo e arbitrário, remetido para a intimidade. As asneiras são livres, até arrogantes; só a devoção é tímida. Foi esta a causa do esquecimento da Legenda Aurea. Ninguém duvida que o livro mistura narrativas verdadeiras com contos fabulosos. No esforço de demonstrar a verdade histórica do cristianismo, ele foi um dos primeiros sacrificados. A perda foi injusta, além de insubstituível. O autor tinha consciência do problema e fez o possível para o corrigir. O volume não é um conjunto de mitos («legenda» não significa «lendas» mas «leituras», do verbo latino «legere», ler). Está ordenado pelo calendário, celebrando cada santo na sua festa e incluindo capítulos sobre Advento, Epifania, Paixão, Todos os Santos, etc. Constitui, portanto, um livro paralitúrgico, revelando ao povo a personalidade celebrada em cada dia. O autor tem também um cuidado extremo em indicar as suas fontes, para evitar falsificações. E, quando cita um episódio um pouco mais incrível, ele próprio refere a sua dúvida. Trata-se pois de uma obra séria e respeitável, onde abundam os elementos hagiográficos de devoção popular. Esse é precisamente o seu valor. A fé não é apenas acreditar no Credo, seguir os Mandamentos, rezar o Pai-Nosso. É também viver a Legenda Aurea. Pobre a geração que a despreza.

domingo, 22 de setembro de 2002

Combater a pobreza

João Carlos Espada
Expresso, 2002.09.22

«O dever moral de auxiliar os que precisam exigirá sempre medidas directas de alívio do sofrimento humano susceptível de ser aliviado; simultaneamente, para que essas situações se tornem menos prementes e generalizadas no futuro, devem ser criadas condições favoráveis ao comércio, à iniciativa empresarial e ao Estado de Direito.»

NO CONGRESSO da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores) que desde ontem decorre em Lisboa, terei hoje o prazer de apresentar os resultados de uma investigação que foi solicitada por esta associação ao Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Durante um ano, dirigi uma equipa de investigação, com os mestres Hugo Chelo e Miguel Morgado, que procurou testar, isto é, confrontar com os factos, muitas das asserções hoje em voga sobre a riqueza e a pobreza no chamado mundo globalizado. O relatório final será hoje divulgado sob o título Riqueza e Pobreza (Cascais, Principia, 2002). Nele procurámos reunir evidência empírica relevante com base em estudos e relatórios internacionalmente credíveis, todos devidamente identificados e hoje facilmente acessíveis - logo, facilmente controláveis. Os resultados que encontrámos contrariam e desafiam vigorosamente muitos dos pressupostos ainda hoje correntes na nossa atmosfera intelectual.
Verificámos que o crescimento económico contribui decisivamente para melhorar as oportunidades do maior número, incluindo os mais pobres. Observámos que os países com economias mais ricas são também aqueles em que as classes médias cresceram, tornando por isso mais baixos os índices de desigualdade e, além disso, elevando decisivamente o nível de vida de todos, incluindo os mais pobres.
Para esse crescimento, observámos que a abertura das economias nacionais ao comércio internacional é em regra uma condição favorável e não desfavorável. Os países pobres que começaram a abrir as suas economias ao exterior nas décadas de 1980 e 1990 registaram elevadas taxas de crescimento anual do PIB «per capita», bem como taxas positivas de convergência com os países já desenvolvidos. Em contrapartida, os países pobres que permaneceram fechados revelam taxas de crescimento muito baixas e taxas de convergência negativas.
A abertura ao comércio internacional de países pobres como a Índia, a China, a Tailândia, ou o Uganda e o Botswana, entre outros, parece explicar porque a pobreza absoluta desceu no mundo em termos percentuais entre 1987 e 1998. Apesar de o aumento populacional neste período ter ocorrido sobretudo em países pobres, a verdade é que a população nesses países aumentou mais (cerca de 825 milhões) do que o número de pessoas pobres (15,69 milhões).
Observámos também que outros factores surgem associados ao crescimento económico: a protecção e estabilidade dos direitos de propriedade; o reconhecimento pelos governos da liberdade de empreendimento e do papel central da empresa e do empresário; o reforço das garantias legais fornecidas pelo Estado de Direito, onde se destaca, entre outros, o controlo da corrupção - designadamente a corrupção governamental.
Para aqueles que se preocupam realmente com a pobreza no mundo de hoje, isto terá certamente consequências: o dever moral de auxiliar os que precisam exigirá sempre medidas directas de alívio do sofrimento humano susceptível de ser aliviado; simultaneamente, para que essas situações se tornem menos prementes e generalizadas no futuro, devem ser criadas condições favoráveis ao comércio, à iniciativa empresarial e ao Estado de Direito.

segunda-feira, 16 de setembro de 2002

Vida com "ketchup"

João César das Neves
DN 20020916
Hoje, é difícil saborear a vida. A sociedade mergulha-nos numa torrente tão avassaladora de interpelações, seduções e tentações que perdemos de vista a simples vida comum. Habitar nas nossas cidades significa ser permanentemente solicitado, agarrado e percutido pelos gritos de notícias, cartazes, discursos, manchetes, anúncios, concursos, ofertas, oportunidades, etc., etc. Uma tal enxurrada de estímulos acaba por nos toldar a sensibilidade.

A intensidade de informações e intimações que bombardeiam o homem contemporâneo é sem par na História. O frenesim da comunicação social, o fascínio da arte, o alvoroço da publicidade, o folclore da política, a omnipresença do divertimento, até a extravagância da moda constituem exigências permanentes sobre a nossa atenção a que não se consegue ser alheio. Quando é impossível realizar uma operação tão simples como comprar um sabonete sem suportar mensagens libidinosas, ou entrar num autocarro sem receber fascinantes ofertas comerciais, a vida está muito estranha. Mas essa é a nossa condição habitual, sem já darmos conta.

Os estímulos, ansiosos por obter a nossa atenção (por razões económicas, políticas, artísticas, etc.), têm de apelar aos elementos mais baixos e veementes do ser humano: a adrenalina, o sexo, o susto, o orgulho, o prazer. Nas nossas cidades sofisticadas, berra continuamente a voz do instinto mais animalesco.

Os efeitos são bem visíveis nos jovens, naturalmente mais sensíveis e vulneráveis, e manifestam-se através de uma inflação explosiva de tédio. A classificação mais usada por eles é a de "seca". Não há pachorra para as coisas normais da vida. À primeira vista, esta opinião parece vir de uma reflexão, mas em breve se nota que a questão está não no objecto, mas no sujeito. Eles são, de facto, incapazes de apreciar uma enorme parte da beleza do mundo.

Este problema está longe de ser apenas dos jovens. Todos nós sentimos o terrível fastio sistémico. Habituados a uma alta intensidade de estímulo, a nossa sensibilidade embotou relativamente a múltiplos aspectos da realidade. As consequências estão à vista. Quase desapareceram as conversas, os passeios, os jogos de salão, substituídos pela televisão, videojogos e desportos. Ignoram-se as mais belas obras da humanidade. Não se lê Victor Hugo (quanto mais Cervantes ou Aristóteles?), porque lhe faltam os inevitáveis monstros, vampiros e mágicas. Não se aprecia Gershwin (quanto mais Beethoven ou Bach?), por ausência dos decibéis frenéticos e ritmados. Não se compreende Rodin (quanto mais Rembrandt ou Miguel Ângelo?), por ausência de mensagens agressivas de cartaz. Não se liga à estética de Coppola (quanto mais ao preto e branco de Capra ou Hitchcock?), por moderação nos efeitos especiais, sangue e sexo. Acusar o sistema desta situação é fuga às responsabilidades. O sistema oferece em grande profusão Hugo e Aristóteles, Rodin e Rembrandt, Coppola e Beethoven. O que falta não é acesso. É paciência. Perdemos a sensibilidade para o sofisticado.

O aborrecimento total é o mesmo que o de Jacinto de A Cidade e as Serras (livro sem violência e sex appeal). Mas mais boçal. Os cem anos desde a novela póstuma de Eça serviram para popularizar a maçada paralisante do meu Príncipe. E reduzir as serras redentoras.

Já está tudo visto. Nada admira. Tudo maça. A não ser o superlativo. Daí a espiral de provocação em que têm de embarcar anúncios, concursos, entretenimentos, até notícias. Tudo dispara para o insólito, só para manter as audiências. Há já tempos que o obsceno é banal. Chegámos ao momento em que só resta o cruel, o selvagem, o perverso.

É corrente prever daqui as consequências mais funestas, da doença psíquica à decadência dos costumes. Temem-se os aspectos viciantes e a manipulação económica, a promoção dos medíocres e a desorientação de critérios, a injustiça social e degradação moral. Esses medos são, de facto, muito exagerados. A natureza humana tem grande capacidade de adaptação. A sociedade actual, apesar de tudo, não se mostra mais neurótica e desequilibrada que as anteriores (é bom lembrar muito das anteriores). Nós vivemos sem susto em ambientes que poriam em pé os cabelos dos nossos avós. Já se passara o mesmo com os avós deles. Temos, é verdade, novos e graves males, mas libertámo-nos de outros. E, afinal, a culpa deles não vem só daqui, pois os factores contributivos são miríade.

O principal problema desta situação não é, pois, moral, económico ou político. É espiritual. A consequência dos excessos é o embotar dos sentidos, impedindo de viver a vida em pleno. Passamos o tempo num mundo de ilusão embriagante. Perdemos o equilíbrio e a finalidade. Vivemos o dia-a-dia como aqueles que encharcam a refeição com temperos, maionese, mostarda ou caril. Toda a comida lhes sabe ao mesmo. Se não tivermos cuidado, os estímulos baratos levam-nos a viver intensamente, mas com a vida a saber a ketchup.

naohaalmocosgratis@vizzavi.pt

quarta-feira, 31 de julho de 2002

É o papa, gente!

ANTONIO MARCHIONNI
Especial para o Estado (Julho de 2002)

O escritor Mario Prata viu o papa na televisão e viu que "ele estava babando". Ficou incomodado, segundo sua coluna de 26/6/2002 neste jornal, com o título "E o papa, gente?". O nosso escritor lança um grito cardíaco aos cardeais e ao povo cristão: pelo amor de Deus, tirem esta figura com mal de Alzheimer de nossos olhos, comprem para "o polonês" uma casinha numa montanha da Polônia, aposentem esse papa "caduco", que "atrasou a Igreja em pelo menos um século", ponham no lugar dele um belo exemplar de papa "jovem, vigoroso, esperto".

Ao ler o Mario com tanto dó do papa, tive dó do Prata. E sim, porque me perguntei: o que Mario Prata teria escrito, se tivesse visto na televisão Jesus Cristo pendurado na cruz? Jesus na cruz deve ter babado e muito mais.

Isto não impediu que o centurião (um militar, pensem!) exclamasse que Ele era mesmo o Filho de Deus, enquanto os escribas (os intelectuais, pensem!) ironizavam o final infeliz daquele pobre judeu, tão parecido com o pobre "polonês". Tenho a leve impressão que o nosso escritor simpatize com aqueles escribas, mesmo que se declare católico, de um catolicismo caseiro, cozinhado à moda do Leonardo Boff, por ele citado em oposição preferida ao Pontífice. Ouso achar que o do Prata não é o catolicismo dos 300 mil fiéis ajoelhados na Praça do Bernini enquanto "o papa babava", nem o catolicismo da Mãe que recolheu em seus joelhos o corpo mutilado e malcheiroso do Filho.

Senhor Prata, o mistério da Igreja Católica transcende o pragmatismo de uma multinacional conduzida por um manager. Pense no catolicismo do Santo Tomás, curvado diante da Hóstia consagrada: "Adóro te devóte, látens déitas." (Te adoro devotamente, divindade escondida.) Pense no catolicismo do meu pai, quando tirava a sua boina consumpta de camponês, se ajoelhava diante da televisão em nossa pobre cozinha e fazia a cruz, seguindo as mãos do papa.

Procure ver no papa, para além da baba, o sinal da unidade eclesial pensado por Deus, aquele Deus que desejou tornar-se visível em forma de homem e deseja continuar visível em forma de papa.

"O discípulo não é maior que seu Mestre", ensinou o próprio Mestre. O papa é aquele que repete Jesus sofredor, que mostra sua dor ao mundo do alto da colina, sua voz inaudível e eloqüente, seu corpo perfurado por três projéteis como o corpo do Mestre transpassado pela lança. Já há doentes de todos os quadrantes, os quais anteriormente escondiam envergonhados a sua ferida corporal e hoje fazem da doença um ensino e uma revolução, impulsionados pelo sofrimento público do papa, que irá ao Canadá, onde milhões de pessoas, sabedoras da baba e do mal de Alzheimer, aclamá-lo-ão em ruas, estádios e templos. Senhor Prata, pelo céu, não esconda seus pais octogenários, como escreveu que faria. Leia a Carta Apostólica "Da Dor Que Salva", deste mesmo papa em 1984, sobre o significado cristão da dor.

Junte-se, católico que se diz, aos seguidores da cruz, uma cruz que, com o passar do viço da carne, será reservada também a você, a mim, como script misteriosamente obrigatório para a beatitude total.

O católico, mesmo condoendo-se dos fatos de pedofilia recordados pelo escritor, sabe que existem 500 mil sacerdotes no mundo e 700 mil irmãs, os quais anunciam em seu corpo a existência de realidades acima do nosso sexo e dinheiro. Resistindo bravamente à avalanche sexual do século e dos vários Big Brother, estes heróis, com derrotas iguais às nossas, fermentam uma Igreja que, em força da espiritualidade do celibato, é a instituição mais numerosa, mais forte, mais unida e mais universal do planeta. Quando a tormenta materialista e genital tiver passado, saberemos que os ideais preservados galhardamente por este papa terão triunfado como patrimônio do Espírito. Há milhões, dentro e fora do Brasil, que já consideram papa Woityla o homem do século, deste século por ele definido "grandioso e tremendo", ele que, entre os inúmeros feitos invisíveis aos distraídos, circulou na Esplanada das três religiões em Jerusalém como bastião moral do mundo e derrubou o muro de Berlim sem golpe ferir.

A lógica do católico profundo é outra da lógica do mundo. Também na espiritualidade do sexo como na condenação do aborto, contrariamente ao "liberou e matou geral", para o qual a praça secularizada pretenderia o aval pontifício. O mundo programa a vida até o caixão, o católico programa seus atos até o eterno.

Pertence à essência da adesão católica acolher a figura e a palavra do papa como um dom do Pai, com fé devotada e gozosa. Quem se sente aflito neste catolicismo universal tem liberdade total de migrar para sua crença pessoal, sem caiar-se de católico e ensinar com categorias racionalistas os aderentes aos mistérios revelados da Igreja, Corpo Místico de Cristo. "Ne, sútor, últra crépidam", disse o pintor grego Apele ao sapateiro que, após criticar a sandália de um quadro, quis criticar todo o quadro: "Não vá, sapateiro, além do sapato."

Quem dirige e salva a Igreja, mais que um manager musculoso, é o Espírito Paráclito, que prometeu: "Estarei convosco até o fim dos tempos." Nos semblantes do servo sofredor, qual é João Paulo II, ferve a Mente Eterna.

Ele se humilhou e "o Senhor exaltou-o e deu-lhe um nome acima de todo nome" (Fil. 2, 6-11). É o Papa, gente!

segunda-feira, 15 de abril de 2002

"Tu és donde?"

João César das Neves
DN 2002.04.15

Nas últimas semanas esta modesta e pacata coluna foi bastante criticada por várias razões. Como sempre, não entro em polémicas. Não por falta de respeito aos críticos (respondo sempre escrupulosamente a todos os que se correspondem comigo), mas por grande respeito ao espaço que o DN generosamente me disponibiliza. Tenho o dever de o usar apenas em assuntos interessantes e actuais e nunca em questões que, no fundo, são de orgulho pessoal.

Mas estas críticas levantam um problema e suscitam uma reflexão relevante. De facto, os argumentos utilizados reduziram-se quase apenas à ideia de eu ser "de direita". Como, alegadamente, pertenço à "direita", o que quer que isso queira dizer, estou arrumado. Ninguém se interrogou se tinha ou não razão no assunto concreto. O importante é classificar, apregoar o que o outro é. Sempre a pergunta de Pilatos: "Tu és donde?" (Jo 19, 9)
O interesse deste ponto está em revelar uma característica típica do nosso tempo. Vivemos numa era em que quase nunca se fala de certo ou errado, de bem e mal. Interessa apenas saber com quem se alinha, se pertence aos nossos ou aos outros. Numa cultura que se afirma de tolerância e democracia, a ânsia dos rótulos e dos partidos cria uma censura de facto muito mais tacanha e injusta que a tradicional.
Usamos mais adjectivos que qualquer época anterior, mas os termos "bom" e "mau", "verdadeiro" e "falso" quase não são utilizados e parece que perderam muito do seu significado. Essas palavras são vistas como dogmáticas e discutíveis e apenas podem aparecer em frases que lhes destróiem o sentido como "não tem mal nenhum", "cada um tem a sua verdade". O relativismo reinante acha mesmo que não há qualquer referência absoluta que determine, de forma objectiva, o correcto e o ordenado. Depois, como é óbvio, é incoerente, porque simplesmente não é possível viver sem a busca da verdade e do bem. Toda a gente precisa de um terreno sólido para se apoiar e não pode viver em cima da nuvem diáfana do opinativo. Daí o domínio de classificações rígidas como "direita" e "esquerda", "progressista" ou "conservador", que, curiosamente, são tomadas por uns como boas e outros como más, mas sempre usadas mais dogmatica e intolerantemente do que alguma vez se usou as de "bom" e "mau". Mas conheço pessoas boas à esquerda e à direita; ouço opiniões verdadeiras de muitos lados.
A visão moderna parte de um fundamento válido. Neste mundo não existe o bem perfeito ou o mal absoluto. Qualquer bem tem alguma falha e não existe mal sem aspectos positivos. Esta é uma certeza que os sábios sempre afirmaram. Mas isso não pode impedir a busca incessante do bem que caracteriza a nossa vida. O que define o animal humano é esta dualidade: viver na imperfeição, sempre aspirando ao ideal perfeito.
Nesta demanda universal do sublime, a época moderna partiu da hipocrisia dos antecessores, a quem acusou de adorarem modelos defeituosos. De facto, o Romantismo tornou a busca do bem tolamente triunfal. Os heróis míticos eram artificialmente inumanos, angelicamente postiços. Em reacção, os contemporâneos caíram no extremo oposto. Com paixão pelo paradoxo, começaram a louvar a fortaleza dos fracos, a virtude dos ladrões, a beleza do feio. O modelo passou a ser o anti-herói. Depois de Oliver Twist, Tom Sawyer e o vagabundo de Charlot caiu-se agora no paroxismo de Harry Potter, onde os bons são bruxas e feiticeiros e os rebuçados sabem a lodo. O mal e o bem estão invertidos. Esta inversão manifesta-se em múltiplas áreas. Na arte, pela beleza que concedemos ao grotesco; na política, pela irresponsabilidade que atribuímos aos nossos responsáveis; na sociedade, pela antipatia do sucesso, da riqueza, da honra.
Este esforço de procurar o bem no que a Humanidade tende a achar mal é, em si, muito louvável. Foi Jesus Cristo quem, mais que ninguém, ensinou a respeitar as prostitutas, a justificar os estrangeiros, a ver a felicidade nos leprosos. Foi com Ele que apareceram paradoxos como "últimos que são primeiros", "amar os inimigos", "quem se exalta ser humilhado", "perder a vida para a salvar", "bom ladrão".
Mas é preciso não confundir, como tantos pretendem, a posição moderna com a atitude de Jesus. Os contemporâneos não são aqueles que, como Cristo, procuram a dignidade e a bondade em todos e indicam as portas da salvação a qualquer um, sejam cegos, estrangeiros, drogados ou adúlteros. Porque hoje não se consegue ver nenhuma dignidade nos banqueiros, nos banquetes, na globalização e no império americano.
No fundo, são tão preconceituosos como os fariseus. Jesus acolheu a mulher adúltera e o centurião romano; recebeu a pecadora, mas fê-lo num jantar em casa do respeitado Simão.
Eu não sou "de direita", que julga bons os banqueiros e más as prostitutas, nem "de esquerda", que aprova as prostitutas e reprova os banqueiros. Eu sou de Cristo, que sabe que todos são pecadores e todos se podem salvar na humildade e na caridade.

sábado, 9 de março de 2002

Católicos e política: razões para um empenho


020309Catolicosepolitica

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2002

Uma novidade

João César das Neves
DN, 20020204


Portugal está em crise. O que não é novidade. A economia anda aflita e a política desorientada, repetindo situações do passado, sem nada de novo na nossa acidentada história democrática. Mudam os actores e as circunstâncias, mas, no fundo, o enredo mantém-se. Eça, Ramalho e até Fernão Lopes e Diogo do Couto teriam uma sensação familiar, se hoje visitassem Portugal.Mas, no meio da repetição cinzenta, deve ser louvado o aparecimento de um elemento original, no nosso quadro político. Pode não ser muito bom nem genuinamente natural, mas, pelo menos na aparência, há uma novidade, nesta conjuntura.A novidade não está na crise económica. O problema que nos assola é financeiro, como tantos que tivemos, no passado. Tal como em 1977 e em 1983, mas também em 1560, 1605, 1837, 1847, 1869, 1891 e em tantos outros, andámos, nos últimos anos, a viver acima das nossas posses. Agora, vamos ter de passar uns tempos a apertar o cinto e pagar as dívidas. A origem do problema veio do descontrolo do Orçamento e da sofreguidão dos organismos públicos, como até a UE notou. Não há nada de novo sob o Sol! Nem o facto de estarmos no euro e em perfeita abertura na Europa traz novidades significativas. Uma dívida é sempre uma dívida e paga-se sempre de forma semelhante.A principal diferença, face às crises anteriores, é que desta vez o endividamento foi acumulado não em época de turbulência e dificuldade, mas em anos de crescimento. Isso revela uma irresponsabilidade acrescida, na política dos últimos anos, e pode significar maiores custos, nos próximos. Mas não chega, para mudar a natureza do problema.A novidade não está, também, na crise política. As eleições autárquicas foram desfavoráveis ao partido do Governo, como tem sucedido sempre, nas últimas décadas. Foi insólita a demissão do senhor primeiro-ministro, interpretando resultados que não o justificavam, como ele próprio afirmou nas semanas anteriores. Revela fragilidade política e anímica e também um interesse em proteger a imagem pessoal para combates futuros, acima das responsabilidades do momento. Não é propriamente uma novidade, na vida nacional.Assim, no meio da crise económico-política, que fez as delícias dos intriguistas profissionais, como sempre, tudo se desenrolou como de costume. O País está desamparado e o povo em expectativa. Os partidos mostram desorientação e avidez e afirmam convicções, sem de facto saberem como vão sair do buraco. O que é tudo menos caso único, na nossa herança secular. Em tudo isto, ressoam as velhas diatribes de Rafael Bordalo Pinheiro, o "regabofe" da Primeira República e até as maquinações de Fernão Peres de Trava e do conde de Andeiro. Não há nada de novo, na nova geração de crises nacionais.Mas há um pequeno aspecto disfarçado, que é original e muito influente. Pela primeira vez na sua longa história, o Partido Socialista mostra-se disposto a fazer uma aliança de governo à sua esquerda, com o Partido Comunista Português. Isso é, de facto, um elemento que traz influências inesperadas, no quadro institucional da nossa democracia moderna.Todos nos lembramos como, logo em 1975, o PCP declarou, triunfante, que havia uma "maioria de esquerda", na Constituinte. Essa afirmação foi repetida mais cinco vezes (1976, 1983, 1985, 1995 e 1999), ao longo das nove eleições para a Assembleia da República. Em todos estes casos, essa constatação significava um convite implícito ao PS para uma coligação de governo com os comunistas.Mas todos nos lembramos, também, como o dr. Soares e o eng.º Guterres recusaram sempre essa possibilidade, preferindo governar sozinhos em minoria (1976, 1995 e 1999), fazer alianças com o CDS (1978) ou com o PSD (1983), mas nunca juntarem-se a um partido que consideravam estalinista empedernido. A afirmação central era que o socialismo democrático, sendo indiscutivelmente de esquerda, estava mais longe da "democracia popular" marxista do que dos partidos democráticos ocidentais. Deste modo, a expressão "maioria de esquerda" foi sempre recebida com um sorriso pelas cúpulas do PS.Hoje, pela primeira vez após Abril, a liderança socialista abre a possibilidade de uma aliança governativa com o PCP, após as eleições de 2002. Isso, não mudando a natureza da crise, contribui com um detalhe que pode ser muito significativo, nos próximos tempos. Mas o que se alterou para o justificar? Não foi certamente o PCP, o partido que mais manteve a sua ideologia e atitude, numa louvável coerência e estabilidade desde a sua fundação. Também o PS não modificou a sua inserção, prática e doutrina. As mudanças tácticas não impedem que o partido de hoje seja o mesmo de sempre. Qual é, pois, a causa da mudança?O motivo é, apenas, a orfandade em que a demissão de Guterres deixou o PS. O partido sabe que só pode continuar a governar com o apoio do PCP. Assim, a única motivação visível para esta novidade é a vontade de permanecer no poder. O que não se pode considerar, de facto, uma grande novidade.naohaalmocosgratis@vizzavi.pt

Jornal das Boas Notícias, 9

JBN09