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A mostrar mensagens de 2002

Sinais do acaso, sinais da necessidade: a inteligível extensão

Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Público, Sexta-feira, 29 de Novembro de 2002 Cada vez mais a questão é essa, para Night Shyamalan ou para mim: a quem falamos e quem nos ouve? Quem nos ouve e a quem falamos?

"Definitively I'm in the miracle side"

Manej Night Shyamalan

1 - Vou conversar hoje sobre "Signs", o último filme de M. Night Shyamalan. Como ainda acredito que a crítica ganha alguma coisa com a paixão, como me recuso a acreditar, segundo outro dia vi escrito, "que a globalização em que vivemos exige profissionais desapaixonados, por imperativo de nomadismo laboral", é com paixão que vos vou falar de "Signs", como foi com paixão que há uns anos vos falei de "The Sixth Sense" ou de "Unbreakable". Desde que vi o primeiro, comecei-me a convencer de que este realizador americano, de origem indiana, era um dos vários que valia a pena seguir com paixão. Até à data, não vejo razão para me desdizer, embora reconheça que na algóstase…

Liberdade de Educação e Liberdade de Informação

MÁRIO PINTO
Público, Segunda-feira, 25 de Novembro de 2002

No passado dia 16, participei activamente (devo dizê-lo desde já) numa tarde inteira de comunicações e debates, que teve lugar num anfiteatro da Fundação Gulbenkian, por iniciativa do Fórum para Liberdade de Educação, recentemente constituído por um conjunto de pessoas que criticam a intolerável estatização do nosso sistema escolar e defendem, para os alunos e famílias, a liberdade de escolha da educação e, por consequência, da escola.
Fiquei surpreendido com a grande afluência de pessoas - contaram-se cerca de mil, que não couberam no anfiteatro e tiveram de assistir noutras salas através de vídeo. Concluo daí que o cansaço do monopólio de um sistema escolar estatista, que produz resultados insuportáveis, começa finalmente a gerar um activo movimento de opinião a favor de mudanças que são urgentes - e, de resto, já se estão fazendo ou preparando em outros lugares.
A comunicação social, por seu lado, pouca ou nenhuma importânc…

Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política

Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política

Tornar este mundo mais belo

João César das Neves DN 20021104 A Humanidade nos últimos séculos foi dominada pelo sonho mais maravilhoso e estimulante da História: a busca de um mundo novo. A plausibilidade deste mito primordial fez nascer as maiores grandezas e as maiores misérias. Hoje, somos herdeiros do sonho, mas também da desilusão. O nosso desânimo sistémico nasce da sensação de termos experimentado tudo, sem atingir o sucesso prometido. Hoje já ninguém acredita. Mas agora alguém vem dizer que ainda há um caminho para o ideal.

O Ocidente viveu empolgado pelas tentativas de chegar a um mundo livre e justo que, em vários âmbitos e de múltiplas formas, pareceu possível realizar. Quase podemos relacionar cada um dos séculos com um dos seis campos dessa demanda: o espaço, a religião, a ciência, a economia, a política e a família.

O mundo moderno nasceu no século XV, quando as caravelas levaram a Europa a mundos realmente novos. Os Descobrimentos abriram perspectivas exóticas e inesperadas. Após milénios de miséria, …

Carta Apostólica "Rosarium Virginis Mariae"

Memórias do Vaticano II

Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Sexta-feira, 11 de Outubro de 2002

É bom que, ao escolher-se um tema que muito vivemos, lhe comecemos por tirar os espinhos antes de o transformar em imagem e em memória. Foi o que fiz. No Vaticano II, o vernáculo é o meu espinho e a minha espinha. Por isso o esconjurei ao principiar

1. No último dos seus romances - "A Alma dos Ricos", segundo tomo de "O Princípio da Incerteza" - Agustina Bessa Luís escreve a páginas tantas: "O que não entendemos é objecto de culto. Quando a Igreja Cristã tirou o latim da missa, perdeu muito da sua sacralidade."
Eis uma afirmação que plenamente subscrevo e há muitos anos sustento. Ainda nada sabia de latim, já ajudava às missas de monsenhor Porfírio da Cruz Quintella, prior da Golegã, na capela da casa do dr. Bustorff Silva, na Arrábida. A talha dourada da capela diziam-na recuperada ou desviada da nau "Portugal" da Exposição de 1940. O monsenhor trocava a Golegã pela Arrábida nos meses e…

Um livro esquecido

João César das Neves DN, 20020930 Uma das obras mais importantes da cultura ocidental está hoje praticamente esquecida. Além da volumosa perda civilizacional, o pior são as razões do desaparecimento, que manifestam uma grave desorientação do nosso tempo. Diz-se que a Legenda Aurea foi o livro mais lido no século XIV depois da Bíblia. Ele era, sem dúvida, imensamente popular e manteve--se assim nos séculos seguintes. O seu autor, Jacobo de Voragine (1230-1298), arcebispo de Génova beatificado em 1816, compilou as vidas dos santos do calendário romano de forma elegante, singela e sintética. Este conjunto de 182 pequenas histórias de santidade, do heróico ao humilde, do enternecedor ao empolgante, constitui sem qualquer dúvida uma sublime obra literária. Num tempo como o nosso, fascinado pela aventura, emoção e extraordinário, este livro parece feito à medida. Mais intenso que Indiana Jones, mais surpreendente que O Senhor dos Anéis, mais variado que Harry Potter, mais misterioso que as St…

Combater a pobreza

João Carlos Espada Expresso, 2002.09.22
«O dever moral de auxiliar os que precisam exigirá sempre medidas directas de alívio do sofrimento humano susceptível de ser aliviado; simultaneamente, para que essas situações se tornem menos prementes e generalizadas no futuro, devem ser criadas condições favoráveis ao comércio, à iniciativa empresarial e ao Estado de Direito.»
NO CONGRESSO da ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores) que desde ontem decorre em Lisboa, terei hoje o prazer de apresentar os resultados de uma investigação que foi solicitada por esta associação ao Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Durante um ano, dirigi uma equipa de investigação, com os mestres Hugo Chelo e Miguel Morgado, que procurou testar, isto é, confrontar com os factos, muitas das asserções hoje em voga sobre a riqueza e a pobreza no chamado mundo globalizado. O relatório final será hoje divulgado sob o título Riqueza e Pobreza (Cascais, Principia, 2002). Nele proc…

Vida com "ketchup"

João César das Neves DN 20020916 Hoje, é difícil saborear a vida. A sociedade mergulha-nos numa torrente tão avassaladora de interpelações, seduções e tentações que perdemos de vista a simples vida comum. Habitar nas nossas cidades significa ser permanentemente solicitado, agarrado e percutido pelos gritos de notícias, cartazes, discursos, manchetes, anúncios, concursos, ofertas, oportunidades, etc., etc. Uma tal enxurrada de estímulos acaba por nos toldar a sensibilidade.

A intensidade de informações e intimações que bombardeiam o homem contemporâneo é sem par na História. O frenesim da comunicação social, o fascínio da arte, o alvoroço da publicidade, o folclore da política, a omnipresença do divertimento, até a extravagância da moda constituem exigências permanentes sobre a nossa atenção a que não se consegue ser alheio. Quando é impossível realizar uma operação tão simples como comprar um sabonete sem suportar mensagens libidinosas, ou entrar num autocarro sem receber fascinantes ofe…

É o papa, gente!

ANTONIO MARCHIONNI Especial para o Estado (Julho de 2002)
O escritor Mario Prata viu o papa na televisão e viu que "ele estava babando". Ficou incomodado, segundo sua coluna de 26/6/2002 neste jornal, com o título "E o papa, gente?". O nosso escritor lança um grito cardíaco aos cardeais e ao povo cristão: pelo amor de Deus, tirem esta figura com mal de Alzheimer de nossos olhos, comprem para "o polonês" uma casinha numa montanha da Polônia, aposentem esse papa "caduco", que "atrasou a Igreja em pelo menos um século", ponham no lugar dele um belo exemplar de papa "jovem, vigoroso, esperto".
Ao ler o Mario com tanto dó do papa, tive dó do Prata. E sim, porque me perguntei: o que Mario Prata teria escrito, se tivesse visto na televisão Jesus Cristo pendurado na cruz? Jesus na cruz deve ter babado e muito mais.
Isto não impediu que o centurião (um militar, pensem!) exclamasse que Ele era mesmo o Filho de Deus, enquanto os escribas…

Jornal das Boas Notícias, 12

"Tu és donde?"

João César das Neves DN 2002.04.15
Nas últimas semanas esta modesta e pacata coluna foi bastante criticada por várias razões. Como sempre, não entro em polémicas. Não por falta de respeito aos críticos (respondo sempre escrupulosamente a todos os que se correspondem comigo), mas por grande respeito ao espaço que o DN generosamente me disponibiliza. Tenho o dever de o usar apenas em assuntos interessantes e actuais e nunca em questões que, no fundo, são de orgulho pessoal.
Mas estas críticas levantam um problema e suscitam uma reflexão relevante. De facto, os argumentos utilizados reduziram-se quase apenas à ideia de eu ser "de direita". Como, alegadamente, pertenço à "direita", o que quer que isso queira dizer, estou arrumado. Ninguém se interrogou se tinha ou não razão no assunto concreto. O importante é classificar, apregoar o que o outro é. Sempre a pergunta de Pilatos: "Tu és donde?" (Jo 19, 9) O interesse deste ponto está em revelar uma característica …

Jornal das Boas Notícias, 11

Jornal das Boas Notícias, 10

Católicos e política: razões para um empenho

Uma novidade

João César das Neves
DN, 20020204

Portugal está em crise. O que não é novidade. A economia anda aflita e a política desorientada, repetindo situações do passado, sem nada de novo na nossa acidentada história democrática. Mudam os actores e as circunstâncias, mas, no fundo, o enredo mantém-se. Eça, Ramalho e até Fernão Lopes e Diogo do Couto teriam uma sensação familiar, se hoje visitassem Portugal.Mas, no meio da repetição cinzenta, deve ser louvado o aparecimento de um elemento original, no nosso quadro político. Pode não ser muito bom nem genuinamente natural, mas, pelo menos na aparência, há uma novidade, nesta conjuntura.A novidade não está na crise económica. O problema que nos assola é financeiro, como tantos que tivemos, no passado. Tal como em 1977 e em 1983, mas também em 1560, 1605, 1837, 1847, 1869, 1891 e em tantos outros, andámos, nos últimos anos, a viver acima das nossas posses. Agora, vamos ter de passar uns tempos a apertar o cinto e pagar as dívidas. A origem do proble…

Jornal das Boas Notícias, 9