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Agora vou-te dar uma pica no olho

LAURINDA ALVES   OBSERVADOR  30.05.17 Ser médico é uma vocação, ser pai de cabeceira é uma imposição. Se fosse possível passar ao lado desta realidade, todos os pais passariam sem qualquer hesitação, pois ninguém quer ver um filho sofrer. Arrepia, não arrepia? A ideia é sinistra, mas a certeza de que vai mesmo acontecer é ainda mais apavorante. Apetece fugir e não parar de correr até termos a certeza de que ninguém vem atrás de nós, de seringa na mão. Falo por mim, que nunca fui exposta a tamanho pesadelo, mas acho que também posso falar pela esmagadora maioria de seres humanos que não lidam bem com a ideia de agulhas espetadas no corpo e, muito menos, nos olhos. Escrevo porque sei de um rapazinho de 4 anos que foi à urgência de um hospital e passou por isto na semana passada. Não só estava no auge do sofrimento físico como bastou o médico dizer a frase assassina, enquanto mostrava o raio da seringa com a agulha ao alto, para o miúdo ficar num cúmulo de nervos e an...

Ser Vivo

MARTA D'OREY   FACEBOOK Ser vivo é complexo. Exige moléculas, átomos, partículas e uma imensidão invisível de linhas e entrelinhas que escapam ilesas ao olho nu.  Funcionar não exige engenho até se dar o curto-circuito. Dar à manivela não endurece o músculo, até ao dia em que o faz doer. Respirar é simples, até deixar de o ser.  A doença muda o olhar. O que temos sobre nós, o que os outros têm sobre quem somos, e, o foco principal enquadra o filme da vida num ecrã maior. P orque a perfeição só é percebida, quando deixa de o ser, e o que se tem só se faz sentir quando já não há nada a perder. Dentro de mim, tenho uns pulmões sem direito ao título, e o garantido de uma inspiração que preenche o peito é um ideal longínquo preso em cordas e amarras que me afogam o ar. Não vou mentir, porque dói. Não vou mentir, porque é um sufoco desesperante suplicar por oxigénio. Não vou mentir, porque quando a realidade se começa a distorcer, é a minha vida que desvanece. E ...

Os bastidores do SNS

LEONOR XAVIER    04.01.16    PÚBLICO Ao longo de três semanas internada num grande hospital de Lisboa, fui ganhando um especial sentido do tempo. Na azáfama dos dias e no silêncio das noites, que ali correm sem pausas nem paragens, fui aprendendo os sinais dos bastidores, em que milhares de pessoas anónimas nos cuidam, nos guardam, nos protegem. Cumprem as prescrições dos médicos e cumprem a vocação da misericórdia, em modo de assistência e tratamento àqueles que sofrem. De tantos que são os seus nomes próprios, é difícil distingui-los a todos e a todas, bom exercício de concentração é lembrar-lhes as feições e personalizá-los, na circunstância em que somos doentes e nos tornamos um humano objeto, centro absoluto da sua atenção. Dizem-me que são cerca de 120 mil no país inteiro os enfermeiros, os auxiliares, os administrativos nos hospitais e centros hospitalares integrados na rede de saúde pública. Não conheci os invisíveis que se ocuparam de mim, não sei q...

Carta aos internistas

LUÍS CAMPOS    04.01.16    PÚBLICO A situação atual vai piorar nas próximas semanas nos hospitais, e é sobre nós que este agravamento se vai abater. Não é só um problema de mais camas é também de ter quem cuide dos doentes internados nessas camas. As palavras deste breve texto dirigem-se a todos os internistas, incluindo internos em formação, homens e mulheres, que se entregam abnegadamente a cuidar dos doentes nos hospitais e que, nesta altura do ano, têm que responder ao massivo aumento de admissões nas urgências e de internamentos, numa sobrecarga que testa os seus limites físicos e psíquicos. Estas palavras dirigem-se aos internistas que nas urgências, com as mesmas equipas reduzidas de sempre, sofrem a angústia de ter dezenas de doentes à espera de serem observados, de ver acumular os doentes internados em macas, porque não há vagas nas enfermarias, de ser interno e ter de tomar decisões porque o assistente está ocupado na reanimação, internista...

PR condecora ex-presidente da Sogrape pelo combate contra ELA

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TSF 03 DE OUTUBRO DE 2016 - 18:16 Marcelo Rebelo de Sousa condecorou com a Ordem do Mérito Salvador Guedes, doente com esclerose lateral amiotrófica, criador do movimento "Todos contra ELA". Salvador Guedes é ex-presidente da Sogrape e foi condecorado por Marcelo durante a inauguração da nova delegação da Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica, que vai funcionar junto do hospital Conde Ferreira. Pelo "exemplo inspirador" e pela "coragem", o Presidente da República condecorou Salvador Guedes. Sentado numa cadeira de rodas, o ex-presidente da Sogrape não conseguiu reagir com palavras à condecoração de Marcelo, porque a doença o fez perder capacidades de comunicação. Coube ao irmão, atual CEO da empresa, essa tarefa. Fernando Guedes explicou que Salvador continua com capacidades emocionais, psicológicas e intelectuais. A ELA- esclerose lateral amiotrófica foi detetada em Salvador há quatro anos. Viajava muito, deixo...

À custa do nosso sangue

Luis Carvalho Rodrigues 24/9/2016, 22:12122 O mundo não se juntou para conspirar contra os homossexuais e os problemas de autoestima de grupos minoritários não podem ser resolvidos à custa da segurança colectiva em temas como a doação de sangue Há coisa de um ano, o presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) foi mandado comparecer no parlamento para explicar às luminárias do BE as razões de um abuso inaudito: apesar da proibição de incluir nos questionários feitos aos dadores de sangue perguntas sobre o seu comportamento sexual, tais perguntas continuavam a ser feitas. O professor Hélder Trindade bem tentou explicar que há uma diferença entre “orientação” sexual e “comportamento” sexual, e que o “contacto sexual de homens com outros homens” (e não a orientação hetero ou homossexual) comporta um risco especialmente elevado para doenças como a SIDA: não se livrou da acusação de preconceituoso e homofóbico. Que as suas posições fossem suportadas por ...

Ontem

Visão | 01.09.2016 António Lobo Antunes A quimio, muito dura de facto, foi tremenda. Felizmente, depois de dois ou três dias de um mal estar enorme eu conseguia escrever. Aguentei. Sabe Deus como aguentei. As enfermeiras do Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria ajudaram-me muito Ontem fui à consulta de Oncologia do Hospital de Santa Maria e devo possuir de facto a saúde de aço que me dizem que tenho: aos oito meses entrei subitamente em coma com uma meningite. Os meus pais eram então muito novos, com vinte e tal anos, ele era médico havia pouco tempo e estava em Lagos, com a mulher e o garoto, a fazer a tropa num quartel qualquer. Imagino a angústia que foi viajar de Lagos até Lisboa, sem automóvel, com poucos comboios e um bebé em coma nos braços. Lagos-Faro e depois Faro- -Lisboa, o que significou quase um dia de viagens ronceiras e esperas com o seu menino a morrer. Ao chegarem levaram-me directamente para o Hospital de Santa Marta, nessa época o hospital escola...

A senhora Hoff

João Taborda da Gama DN 20160703 Passou despercebido em Portugal, mas no mês de junho assistiu-se a um bonito espetáculo na arena da idiotia das organizações internacionais. A senhora Elizabeth Hoff é a representante da Organização Mundial da Saúde na Síria. De que se foi lembrar a senhora Hoff, sendo que é representante de uma organização das Nações Unidas num país onde grassa uma sangrenta guerra civil, onde centenas de milhares de pessoas morreram, onde há milhares de deslocados, onde o ISIS mata como mato, onde os russos bombardeiam a bombar? De dar um puxão de orelhas aos sírios para largarem o cigarrinho, que andam a abusar, e que isso lhes faz mal à saúde. Isto deve ter deixado o sírio típico a tremer como varas verdes: que importa que 80% da eletricidade tenha sido cortada, que o desemprego tenha quadruplicado, que 80% vivam agora na pobreza? Que importa até que a esperança média de vida tenha descido 20 anos nos últimos cinco? Nada disto importa, porque fumar prejudic...

A mudança de género e a antipsiquiatria

Pedro Afonso Observador 25/4/2016 Mudar de género não é a mesma coisa que “mudar de penteado”, pois tem um impacto psicológico, familiar e social profundo. Seria uma enorme irresponsabilidade expulsar a psiquiatria deste processo. Foi noticiado recentemente que o Bloco de Esquerda defende uma alteração da legislação, tendo em vista possibilitar que qualquer cidadão, a partir dos 16 anos de idade, possa apresentar um pedido de mudança de sexo, dispensando para o efeito um relatório clínico. A atual lei de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil (Lei n. 7/2011 de 15 de Março) limita este procedimento as pessoas maiores de idade, que não se mostrem interditas ou inabilitadas por anomalia psíquica, e a quem seja diagnosticada perturbação de identidade de género (também designada como transexualidade). É ainda necessário a apresentação de um relatório (subscrito por um médico e um psicólogo) que comprove o diagnóstico. Mudar de género não é a mesma coisa que “mudar d...

Visitar os enfermos

"Que riqueza é estar de boa saúde, como nós! Mas temos o dever de pôr a nossa saúde ao serviço daqueles que não a têm. Agir de outro modo seria uma traição a esse dom de Deus.". Beato Pedro Jorge Frassati no dia do 115º aniversário do seu nascimento (6 de Abril de 1901)

Os meus doentes são uns heróis

Edna Gonçalves Observador 24/3/2016 Para atender adequadamente os doentes em fim de vida não basta a reforma do SNS, é também fundamental a reforma na Segurança Social que permita suportar algumas das despesas com os cuidados paliativos Sou médica do Sistema Nacional de Saúde (SNS) há 27 anos e é neste âmbito que trabalho exclusivamente em Cuidados Paliativos (CP) pelo que, perante tudo o que se tem dito e escrito nos últimos tempos nos meios de comunicação social sobre eutanásia e “morte com dignidade” não posso deixar de afirmar bem alto: os meus doentes são uns heróis! Os treze anos de trabalho exclusivo com pessoas portadoras de doença incurável, avançada e progressiva, primeiro no Serviço de CP do IPO-Porto e desde 2008 no Serviço de CP do Centro Hospitalar de São João, têm-me permitido confirmar que é muito mais fácil cuidar que ser cuidado. E num país onde são escassos os suportes sociais e económicos para os que querem cuidar os seus familiares ou amigos, não posso...

Comunistas, eutanásia e injeção atrás da orelha

JN 04.03.2016 JOSÉ MANUEL SILVA Já se viveu o pavor dos comunistas, que comiam criancinhas ao pequeno-almoço e matavam velhinhos com uma injeção atrás da orelha. Ninguém tinha visto, mas todos tinham ouvido dizer, portanto, era verdade... Afinal, o 25 de Abril veio desmontar o boato laboriosamente construído pelo Estado Novo. Atualmente, "todos" têm a certeza, até porque a querem ter, para mais facilmente justificarem a sua legalização, que a eutanásia "por baixo do pano" é comum nos hospitais portugueses, com a conivência cúmplice de médicos e enfermeiros! Porém, afinal, ninguém assume que viu, ninguém denunciou nenhum caso concreto, mas todos ouviram dizer... Pessoas que não distinguem eutanásia, distanásia ou ortotanásia, que pensam que "desligar a máquina" ou a sedação terminal são eutanásia, que não sabem que não é necessário antecipar a morte "a pedido" para se morrer com dignidade e sem sofrimento, que desconhecem os recursos da...

Quer perder peso? Pergunte-me. Como McDonald"s

João Taborda da Gama DN 2016.02.28 Isabel do Carmo escreveu nesta semana sobre impostos, sinto-me por isso à vontade para escrever sobre dietas. Então cá vai: foram dez quilos. Dez quilos, é isso mesmo. É o que diz a balança no dia dos dois meses da minha primeira dieta. Eram noventa, agora são oitenta. Qualquer dia ainda arranjo abdominais, avisou-me uma das minhas filhas. Abdominais era coisa que não existia no meu tempo: havia rabos, músculos nos braços, outras saliências e perturberâncias (sic), mas não se falava de abdominais. A culpa é do Figo e do Rui Costa que apenas se preocupavam com o cabelinho, e não perceberam que podiam ativar a marca da sua barriguinha, como fez o Ronaldo anos mais tarde. Já para não falar do Futre ou do Rui Barros, que até devem achar esta conversa meio esquisita. Em dois meses de regime tenho aprendido muita coisa. Por exemplo, quando me meti nesta aventura não antecipei que há uma diferença entre fazer-dieta e fazer-uma-dieta, e que quem faz-...

Comunicado da Ordem do Médicos

A Ordem dos Médicos foi surpreendida por declarações da Bastonária da Ordem dos Enfermeiros que, num programa radiofónico, afirmou taxativa e assumidamente que a “eutanásia” já é praticada nos hospitais portugueses e que terá visto médicos sugerirem a administração de insulina a doentes em situação terminal para lhes causar o coma e provocar a morte, mesmo sem ‘pedido’ do doente! Independentemente das posições individuais relativamente à legalização da “eutanásia”, o teor destas declarações é extraordinariamente grave, pois envolve médicos e enfermeiros na alegada prática encapotada de crimes de homicídio em hospitais do SNS. Assim, considerando que: a) Se a Ordem dos Médicos não se pronunciasse sobre estas declarações estaria a legitimá-las implicitamente, b) A forma como as declarações são proferidas transmite a ideia de que a eutanásia possa ser uma prática relativamente comum e tacitamente aceite e praticada por médicos e enfermeiros, o que certamente irá prejudicar gravemen...

Impostos e gordura

ISABEL DO CARMO Público 24/02/2016 O neoliberalismo tem-se relacionado com o aumento da obesidade. O neoliberalismo faz mal à saúde. Isto anda mesmo tudo ligado. Tanto o Estado Social como o Estado Austeritário baseiam a sua estrutura económico-financeira sobre os impostos. O que se tem que analisar é de quem tiram e para onde tiram. E em qual dos conceitos é que se baseia o poder instalado em Bruxelas e nos “mercados”, quando tomam a nova solução governamental portuguesa como um inimigo a perseguir, tanto mais quanto pode ser um mau exemplo. O fundamento do Estado Social estabelecido na Europa depois da II Guerra Mundial, pelo qual lutaram trabalhadores e o Partido Trabalhista na Grã-Bretanha e os Partidos Socialistas e Sociais-Democratas do Norte europeu, consiste numa forma de redistribuição do rendimento em que se vai buscar impostos a um lado, para tornar possível um Orçamento de Estado disponível para uma estrutura social com saúde e ensino universais e gratuitos e uma s...