quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Escolher Israel

MIGUEL ESTEVES CARDOSO Público | 20/08/2014 - 01:33
Israel tem aproximadamente um amigo estrangeiro por cada mil amigos que têm os palestinianos.
Israel está cada vez mais sozinha. É fisicamente atacada pelos foguetes do Hamas mas é internacionalmente atacada por defender-se. Sim, os foguetes israelitas são mais poderosos e mortíferos do que os do Hamas. Mas se fosse ao contrário acham que o Hamas não usaria os foguetes mais assassinos para atacar Israel? Acham que o Hamas alguma vez os usaria só para contra-atacar, depois de um ataque israelita?
Há mais de uma guerra. Nesta guerra mais recente, a maioria (mas nunca a totalidade) dos israelitas está de um lado e do outro estão o Hamas e a maioria (mas nunca a totalidade) dos palestinianos.
Na guerra mais antiga, de um lado, está Israel e os aliados democráticos, cada vez mais titubeantes, que tem. E, do outro, estão todos os imensos países árabes mais o Irão e todos os outros países islâmicos.
Israel tem aproximadamente um amigo estrangeiro por cada mil amigos que têm os palestinianos. Nas guerras, é preciso ser-se de um lado ou de outro. Nas guerras pelos underdogs, basta fazer contas para perceber que, de todos os pontos de vista numéricos, geográficos e políticos, é Israel que é o underdog.
Por cada cem israelitas que querem um estado da Palestina quantos palestinianos querem Israel ao lado da Palestina? Um. Só os mais inteligentes e humanistas. Felizmente ainda são bastantes. Mas não são do Hamas.
É preciso escolher Israel – tanto pela causa de Israel como pela nossa.
O resto é cobardia, aldrabice, desprezo e estupidez.

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

O mundo esquecido que Pires Veloso representa

PAULO RANGEL Público | 19/08/2014 - 01:45
A sociedade civil que o mítico comandante da Região Militar do Norte tão bem representa, porque foi em certo momento o catalisador das suas ânsias, ansiedades e anseios, é afinal a sociedade civil que, por via de regra, sociólogos e outros académicos dão por inexistente em Portugal.
1. Morreu Pires Veloso. Não vou aqui evocar o militar, nem sequer o homem. O que me interessa ressaltar em Pires Veloso, mais do que o exacto lugar no processo revolucionário ou a dimensão ética da sua personalidade, é o mundo esquecido, ostensivamente esquecido, que ele representa. E curiosamente o mundo que ele representa, apesar de ele ter sido um militar, é o mundo da sociedade civil.
Uma sociedade civil, resistente, inconformada, organizada numa rede de malha densa. Uma sociedade civil que foi capaz de ousar a mudança e que o fez com plena consciência dos riscos. Uma sociedade civil que, pela sua acção quotidiana e discreta, típica de uma maioria silenciosa, foi capaz de impedir a deriva totalitária do PREC. Uma sociedade civil que, ainda que com aquele perfil discreto, mais de formiga do que de cigarra, não teve medo de encher as praças e as ruas nos momentos decisivos. António Pires Veloso, em mais do que um momento, foi o símbolo carismático dessa mobilização. O apoio que concitou e a força que recebeu não veio essencialmente dos quartéis; veio transversalmente desses pólos da sociedade civil.
2. Essa sociedade civil que o mítico comandante da Região Militar do Norte tão bem representa, porque foi em certo momento o catalisador das suas ânsias, ansiedades e anseios, é afinal a sociedade civil que, por via de regra, sociólogos e outros académicos dão por inexistente em Portugal. Sempre me suscitou grande perplexidade que a academia portuguesa, tão empenhada em estudar os grupúsculos de extrema-esquerda e o seu papel antes e depois da revolução, tão dedicada a investigar os crimes da polícia política e o destino posterior dos seus agentes, nunca se debruce sobre os movimentos e fenómenos sociais (ou, mais precisamente, sociológicos) que consubstanciaram o suporte à via moderada e pró-ocidental que saiu vencedora da querela revolucionária. Se fizesse esse estudo e se o fizesse cabal e competentemente, estou convencido que rapidamente se desvaneceria essa ideia feita de que Portugal não tem uma verdadeira sociedade civil ou de que a nossa sociedade civil é frágil, fruste e fraca. Quando se fala dessa mudança de curso no PREC, apenas emergem os nomes dos heróis militares (Ramalho Eanes, Jaime Neves e Pires Veloso) ou dos líderes políticos (à cabeça de todos, Mário Soares). Quando muito, surge o papel relevante do apoio de líderes políticos europeus e, em especial, do embaixador americano Franco Carlucci. Mas será plausível que uma tão significativa mudança não tivesse raízes, alicerces e alavancas no tecido social? Essa dita maioria silenciosa – que embora desejada por Spínola, só haveria de dar sinal de vida quase um ano mais tarde – não terá sido essencial para preparar o terreno em que as peripécias militares e estritamente políticas se haveriam de desenrolar?
3. Não tenho quaisquer dados científicos para corroborar esta minha intuição. Mas, pese embora a idade tenra, tenho a memória e a experiência, para lá do enorme número de testemunhos, de quem viveu o quotidiano empenhadíssimo de muitas famílias no Norte do país. O primeiro dado que habitualmente se despreza é o de o crescimento económico dos anos 60 e o marcelismo terem criado uma classe média burguesa com aspirações económicas e culturais. Uma classe média emergente que será, nos tempos conturbados da revolução, uma aliada objectiva de uma classe das famílias tradicionais, abastadas e de perfil aristocrático e, bem assim, de uma classe média ilustrada com frequência universitária (uma espécie de nobreza de toga, nem sempre coincidente com aquelas outras duas). Nestes estratos figuravam os pequenos e médios comerciantes, os funcionários públicos de perfil médio ou alto, os professores, os vendedores comissionistas, as profissões liberais, empresários, concessionários e agentes, os quadros médios e altos das empresas. Os três estratos – que, por comodidade, designaria por burguesia emergente, aristocracia tradicional e letrados – serão aliados altamente cooperantes nos períodos mais agitados. E virão essencialmente a sê-lo em torno de uma instituição: a escola. A escola dos filhos, seja a primária, a preparatória ou a liceal. Aí pontifica uma organização, as associações de pais que, em muitos casos, vai ser não apenas um regulador do caos reinante no ensino, mas a verdadeira célula de mobilização política destes sectores.
Se a escola era o espaço de encontro ou convergência, a Igreja com a sua sofisticada rede de penetração tinha sido o "articulador" e "doutrinador" desta solidariedade. Em especial, depois do Vaticano II, multiplicaram-se as redes de grupos cristãos muito voltados para aqueles nichos sociais (lembrem-se os "cursos de cristantande" ou as "equipas de nossa Senhora" ou, nas proximidades da Igreja, o movimento da Escola de Pais Nacional). Mesmo o fenómeno das associações de pais começou nos colégios católicos e, já depois do 25 de abril, foi replicado para as escolas públicas.
4. Lembro-me de o meu pai ter sido simultaneamente membro da direcção de três associações de pais (uma por cada filho e em cada escola), com três reuniões nocturnas por semana, em que se discutia tudo, desde os professores que decretavam recreio em tempo de aulas ou leccionavam português cursando medicina até à política mais pura e dura. Lembro-me de, por várias vezes, rumar à Avenida dos Aliados com toda a família para manifestações de apoio a Pires Veloso e à sua linha, contra o "Vasco Gonçalves, o Corvacho e o Fabião". E de no caminho termos de passar pelas barricadas do PC e de grupos da extrema-esquerda, queimando bandeiras e ameaçando os carros. Os pais não resguardavam os filhos, por mais novos que fossem. Os valores em causa eram demasiado importantes para alguém ficar em casa. É esse o mundo – que anda esquecido ou que alguém quer fazer esquecer – que Pires Veloso representa e que aqui lhe presta homenagem.

Falta paprika

JOÃO MIGUEL TAVARES  Público | 19/08/2014 - 02:55
Eu não sou dos que acusam o Tribunal Constitucional de proferir "decisões políticas". Parece-me perfeitamente natural que as suas decisões sejam políticas, na medida em que a Constituição é um documento político.
Estava eu a ler os dois últimos acórdãos do Tribunal Constitucional quando dei por mim a pensar em culinária. Não por a qualidade da prosa me ter aberto o apetite, porque nunca abre, mas por ter subitamente constatado que os portugueses compreenderiam muito melhor o pensamento exarado pelos distintos magistrados do Palácio Ratton se, em vez de um simples pronunciamento acerca da inconstitucionalidade de certas normas, nos fosse oferecida uma análise gastronómica dos decretos do governo.
Eu sei que à primeira vista esta minha proposta parece um apoucamento do Tribunal Constitucional e até uma violação da respeitabilidade do jornal PÚBLICO. Mas por vezes é preciso coragem para inovar. Ora, aquilo que melhor faz justiça ao pensamento dos nossos juízes-conselheiros é precisamente a abordagem culinária dos princípios da igualdade, proporcionalidade e protecção de confiança inscritos na Constituição, através dos quais o TC se tem entretido a chumbar praticamente tudo o que é corte nos vencimentos de funcionários públicos e reformados, bloqueando o ajustamento pelo lado da despesa.
O mais curioso é que se analisarmos os acórdãos logo reparamos que a argumentação utilizada pelo tribunal jamais vai no sentido de declarar "isto não se pode fazer". Os juízes nunca dizem que não se podem diminuir os salários do Estado, ou que não se podem despedir funcionários públicos, ou que não se podem cortar pensões – o que eles dizem invariavelmente é que "isto não se pode fazer assim". E quando o governo, em vez de fazer assim tenta fazer assado, também não pode ser assado – talvez frito ou cozido. O Tribunal Constitucional chumba os decretos do orçamento como a cozinheira do Solar dos Presuntos chumba os temperos da nova estagiária: "sal a mais!, alho a menos!, abusaste no azeite!, falta paprika!"
Reparem: o acórdão 574/2014 permite cortes nos salários a partir dos 1500 euros, mas apenas em 2014 e em 2015. A partir de 2016 já não. É o acórdão "tem sal a mais". Por sua vez, o acórdão 575/2014 impede a introdução de uma contribuição de sustentabilidade nas pensões, com o argumento de que não se trata de uma medida extraordinária, nem está integrada numa verdadeira reforma da Segurança Social. É o acórdão "falta paprika". Confesso que este é o meu favorito, porque nele vem incluída uma frase que certamente ficará para a história da jurisprudência portuguesa: "A medida não se apresenta como um modelo de reforma consistente e coerente em que os cidadãos possam confiar." Isto já nem sequer é uma questão de cozinha – isto já é o TC transformado na ASAE do governo. Não é a lei que está desconforme à Constituição. São os cidadãos que não podem confiar na medida apresentada por Pedro Passos Coelho. Como quem diz: há baratas em São Bento.
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Vamos cá ver. Eu não sou dos que acusam o Tribunal Constitucional de proferir "decisões políticas". Parece-me perfeitamente natural que as suas decisões sejam políticas, na medida em que a Constituição é um documento político. O que já não me parece nada natural é o TC agarrar-se consecutivamente a princípios gerais da Constituição para fazer deles leituras muitíssimo restritas. Voltamos à gastronomia: aquilo a que temos assistido não é a declarações de inconstitucionalidade por a comida estar estragada, mas sim por não ter o tempero certo. É uma inconstitucionalidade de baixas calorias, que deixa o país dependente do paladar de 13 juízes-conselheiros – e paralisado ao nível da papila gustativa.

segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Coisa rara nunca vista no país dos contrastes

RR online 18-08-2014 18:52 por Aura Miguel

Na Coreia do Sul aumenta o desenvolvimento e a riqueza. Mas também cresce o número de conversões e aumenta a fé católica, uma realidade impressionante, com cerca de 100 mil baptizados por ano.

Nos países onde há dinheiro, bem-estar, avanço tecnológico e consumo, a fé cristã está em queda. Já para não falar na Europa, onde nem todos são assim tão ricos, mas cujos católicos, em geral, têm mais que fazer do que ir à missa. 

Ora, na Coreia do Sul passa-se exactamente o contrário: quanto mais cresce o país - em desenvolvimento e riqueza - mais cresce o número de conversões e aumenta a fé católica, uma realidade impressionante, com cerca de 100 mil baptizados por ano (entre crianças, jovens e adultos). 

Coisa rara e nunca vista em tempos pós-modernos. E porquê? Os bispos coreanos dizem que a "culpa" é dos milhares de mártires que, há pouco mais de 200 anos, morreram por amor a Cristo. E que agora o seu sangue derramado faz germinar novos cristãos. 

O Papa ficou impressionado com o que viu. Não só pelas multidões que participaram nas missas que celebrou, mas pelo facto de os fiéis estarem ali de alma e coração, sem perder pitada. 

Esta postura dos católicos coreanos remete para dois momentos da visita que provocam a lógica do mundo. 

Primeiro, Francisco beatificou 124 mártires e apontou-os como modelo. O quê? Mártir como modelo nos dias de hoje? Porque não disfarçar a fé e safar-se? Ou talvez condescender com os que estão contra e encontrar um meio-termo, para ficar bem visto na sociedade...? 

Segundo, Francisco visitou, sem pressa, uma casa de acolhimento para crianças gravemente doentes, com profundas deformações e deficiências, muitas delas incapazes de comunicar. Crianças abandonadas pelos pais e pela sociedade coreana que raramente adopta meninos com problemas. 

Então o Papa não tem tanta coisa para fazer? Em tão poucos dias na Coreia e uma agenda tão intensa, logo vai gastar o tempo a saudar cada uma destas crianças e carinhosamente? Podia só entrar, dar a bênção e sair. (Sabe-se lá se elas percebem). 

Uma vez mais a lógica do mundo passa ao lado deste fenómeno. A resposta, no entanto, é bem simples e atractiva, tendo sido claramente testemunhada nestes dias pelo Papa e pelos católicos coreanos. Cristo é o amor mais importante da vida.

Portugal timelapse

Dois gráficos que explicam muita coisa

Observador | 18/8/2014, 12:22

Portugal tem problemas de crescimento anteriores à austeridade e que não se resolvem apenas com "vontade política". Se não começarmos por perceber essa realidade, não encontraremos nunca boas soluções
Portugal tem problemas de emprego? De sustentabilidade do seu sistema de pensões? De emigração de jovens qualificados? De défice público? De dívida gigantesca?
Há uma solução para todos estes problemas: enriquecer. Ou, por outras palavras, ter mais crescimento económico.
Esta é uma verdade tão auto-evidente que só neoliberais da pior estirpe não a aceitam. Só seres empedernidos podem defender a austeridade quando, com crescimento, ninguém teria de sofrer.
Posto assim, até eu estou de acordo: como mais crescimento económico todos, ou quase todos, os nossos problemas se resolveriam. Mais riqueza, mais dinheiro para distribuir, até – vejam lá – mais dinheiro para pagar as nossas dívidas.
Ouvindo os nossos políticos até parece que há uns, os que estão no Governo, que por "fanatismo ideológico" não querem crescimento; e outros, os que estão na oposição, que facilmente nos resolveriam todos os problemas, sem dor, sem "cortes" (muito menos "cortes cegos") apenas porque, com eles, haveria crescimento da economia.
Era bom que fosse tudo assim tão simples. Mas não é. Recentemente encontrei no sempre interessante blogue "Desvio Colossal", animado por Pedro Romano, dois gráficos que nos ajudam a perceber como isso do crescimento é uma coisa bem mais complicada. Aqui está o primeiro:
A originalidade deste gráfico é que utiliza uma escala diferente da habitual para ilustrar a evolução do nosso PIB per capita, isto é, da nossa riqueza por habitante. Trata-se de uma escala expressa em logaritmo que permite tornar linear uma função exponencial e perceber melhor as tendências da evolução dos números. Desta forma conseguimos ter uma noção mais clara do que nos sucedeu nos últimos 60 anos, desde 1950.
O que o gráfico torna muito evidente é que vivemos um período muito bom, em termos de crescimento, entre meados da década de 1960 e a revolução e que, a partir de viragem do milénio, o país estagnou. Nada que não soubéssemos, mas algo que esta representação gráfica torna bem mais evidente.
Nestes últimos 15 anos Portugal experimentou várias maiorias diferentes, conheceu cinco primeiros-ministros distintos, teve governos maioritários e governos minoritários. Nunca, porém, a nossa linha de crescimento do PIB per capita deu reais sinais de querer voltar ao anterior normal, isto é, ao crescimento.
O que é que nos aconteceu? As explicações são muitas, e há-as para todos os gostos, desde as que culpam mais o desenho do euro às que olham mais para os males internos que fizeram com que o país regredisse depois dessa mesma adesão ao euro. Não vou agora discuti-las, apesar de achar que ter essa discussão foi, é e continuará a ser indispensável, já que é essencial para perceber os nossos problemas, se preferirmos, os nossos limites.
Um outro gráfico do mesmo blogue faz um pouco mais de luz sobre as nossas tendências de fundo:
Aqui utiliza-se a percentagem de variação do PIB per capita utilizando a média móvel dos últimos dez anos. Desta forma eliminam-se as flutuações bruscas e tem-se também uma ideia mais clara das grandes tendências. Voltamos a encontrar apenas um período que se destaca da média – o tal final da década de 1960, início da da 1970 – e vemos como nos últimos anos caímos para valores negativos.
Nos últimos 140 anos isso só aconteceu por duas vezes: por volta de 1880, no final do fontismo, quando o desequilíbrio nas contas externas e o peso da dívida pública puseram um ponto final na política económica e desenvolvimentista da Regeneração; e na crise final da Monarquia, prolongando-se para os primeiros anos da República.
Os indicadores apontam para estarmos a atravessar um período igualmente crítico, provocado por factores que, sendo diferentes, têm pontos em comum, sendo claro que os nossos problemas são tudo menos passageiros.
Serve tudo isto apenas para reforçar um ponto: não há milagres e ninguém deve acreditar em milagreiros. O crescimento, a riqueza, não estão apenas à distância de umas eleições. Nem serão nunca obra de um "líder inspirador", como às vezes se julga.
Quem diz ou sugere o contrário vende ilusões. Perigosas ilusões.

O norte da democracia

  • Rui Ramos Observador | 18/8/2014, 18:19
A integração europeia nem sempre favoreceu a sociedade e a economia nortenhas, fê-las mais fracas e mais dependentes. A democracia portuguesa perdeu com o fim do norte de Pires Veloso.
Morreu o general Pires Veloso, e a imprensa conseguiu lembrar-se que, em tempos, lhe chamaram o "vice-rei do norte". Prestadas as merecidas homenagens, talvez se justifique lembrar de que "norte" foi Pires Veloso o vice-rei. Em 1974, num país até então sujeito a censura e sem eleições livres, não existia ideia de que a população pudesse ter opções políticas, quanto mais que essas opções pudessem ser diferentes a sul e a norte. A ditadura tratara todos os portugueses com o mesmo paternalismo autoritário. As novas autoridades militares revolucionárias não mudaram demasiado a perspectiva. Quando se lembraram de marchar para o socialismo, lembraram-se também de ajudar o povo a acompanhar a marcha. Foi então que lhes ocorreu que talvez o "norte" fosse um caso especial. Não por que pudesse preferir outra filosofia política, mas por parecer, visto do Terreiro do Paço, mais distante, mais montanhoso, mais rural, mais católico, com mais sotaque – logo, mais "atrasado".
Como a maior parte da população portuguesa residia a norte, era preciso fazer alguma coisa. Felizmente, os militares revolucionários tinham aprendido os rudimentos da "guerra psicológica" em África. Decidiram assim sujeitar o povo do norte ao tratamento até aí reservado aos indígenas africanos, e lançaram as célebres campanhas de "dinamização cultural", com helicópteros a espantar rebanhos de ovelhas. Nesses tempos, os bandos esquerdistas rolavam à vontade por todo o país, e tanto impediam comícios do CDS em Lisboa como no Porto. Mantinha-se a esperança de um país homogeneamente socialista.
As eleições de 25 de Abril de 1975 foram a primeira grande surpresa. Afinal, os portugueses não queriam todos a mesma coisa. Os distritos a norte do Tejo votaram em massa, e votaram no PS e sobretudo nos partidos à sua direita, o PPD de Sá Carneiro e o CDS de Freitas do Amaral. O PCP, no auge da sua influência sobre as forças armadas e o Estado, teve votações ridículas nalguns dos distritos mais populosos do continente: em Viseu, por exemplo, 5 mil votos (2%), contra 100 mil para o PPD (44%), 50 mil para o PS (21%) e 40 mil para o CDS (17%).
Como se sabe, a votação animou o PS, o PPD e o CDS, mas nem por isso comoveu o PCP e a extrema-esquerda, que, sustentados nos quartéis de Lisboa, prosseguiram a ocupação do país. Depois do jornal República, foi a vez da emissora católica, a Rádio Renascença. Alguma coisa aconteceu então. O clero moveu-se, e com o clero, moveu-se o norte. Líderes religiosos como o arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva, ou o bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade, chefiaram enormes concentrações de fiéis a protestar contra as arbitrariedades dos aprendizes de marxismo em Lisboa. Entre Julho e Agosto de 1975, milhares e milhares de pessoas juntaram-se às manifestações anti-comunistas nas cidades e povoações do norte. Foi um dos maiores movimentos de massas da história de Portugal e assinalou, perante a infiltração comunista no Estado, a identificação de uma grande parte da população com o modelo da democracia ocidental.

M
anifestação anti-comunista em Braga, Verão de 1975
O norte era de facto outro país. Perante um sul de funcionários públicos e de latifúndios e grandes empresas — propriedades de velhas famílias protegidas pela ditadura, e depois nacionalizadas pela revolução –, estava este outro país de pequenos agricultores, pequenos empresários e emigrantes, na maior parte self-made men, ciosos das suas propriedades, ligados desde a década de 60 à Europa ocidental pelas exportações e pela migração, e unidos em comunidades ferozmente independentes, à volta das suas autoridades religiosas tradicionais. E curiosamente, era também a norte que estava a maioria da "classe operária", não em grandes unidades industriais, mas em pequenas fábricas espalhadas pelos campos. Foi esse povo que, no Verão de 1975, saiu em massa à rua, ao toque de sinos, para contestar o comunismo fardado de Lisboa. Em pouco tempo, as sedes do PCP e da extrema-esquerda conheciam, a norte, o destino que, a sul, tinham tido as dos partidos não-socialistas.
Não era a primeira vez que isto acontecia. Muitos lembraram-se, em 1975, da "Maria da Fonte", o levantamento popular anti-fiscal minhoto que provocara a queda de Costa Cabral em 1846. Em Lisboa, comunistas e extrema-esquerda, em pânico, chamavam aos nortenhos "reaccionários" e "terroristas". Apareceram de facto grupos de aventureiros violentos, uma espécie de "che guevaras" de direita, entusiasmados pela ideia de uma "guerra de libertação nacional" contra o comunismo lisboeta. Mas a maioria da população foi aquela que aplaudiu Freitas do Amaral quando este explicou, no enorme comício com que o CDS encheu o estádio das Antas, a 18 de Outubro de 1975, que pretendia viver num país "em todos terão o direito de singrar e de subir na vida, podendo em qualquer momento, apenas pelo seu mérito individual, ascender aos mais altos postos do Estado ou deixar de trabalhar por conta de outrem para se estabelecerem por conta própria".
Foi essa grande expectativa de promoção social pelo seu próprio esforço, numa sociedade livre, que o norte representou em 1975, num país onde era então suposto tudo vir a pertencer ao Estado e ser decidido pelo Estado. E foi esse norte que acolheu o brigadeiro Pires Veloso, quando tomou conta do comando da região militar, como o braço armado que até não tivera, mas também, pelas suas maneiras directas e desassombradas, como o símbolo da mítica franqueza popular nortenha perante uma Lisboa cortesã e florentina.
Hoje, comunistas e extrema-esquerda só se lembram do seu "povo" da cintura industrial de Lisboa, e preferem falar de Frank Carlucci quando explicam o fracasso da revolução. A memória da insurreição popular anti-comunista do norte é demasiado traumática para ser recordada, e no entanto, sem ela, os oficiais do "grupo dos 9", Mário Soares e Carlucci não teriam tido as possibilidades que tiveram (como aliás têm reconhecido).
Nos primeiros anos depois do PREC, foi no norte que esteve a maior parte da iniciativa privada, a exportar as roupas e a recolher as remessas da emigração que equilibravam as contas do país. Foi a norte que surgiram as primeiras grandes empresas e os primeiros bancos privados do pós-25 de Abril. Foi esse norte que deu à Aliança Democrática de Francisco Sá Carneiro, em 1979-1980, as suas maiores vitórias e a sua dimensão de movimento popular contra as limitações impostas à democracia pelo PREC. Foi esse norte que levantou o FCP como alternativa ao futebol "oficial" de Lisboa. Depois da década de 1980, a integração europeia nem sempre favoreceu a sociedade e a economia nortenhas, fê-las mais fracas e mais dependentes, enquanto os partidos políticos que tinham tido aí a sua base se instalaram no Estado lisboeta e na "Europa". A democracia portuguesa perdeu com o fim do norte de Pires Veloso.

Homilia do Santo Padre na Santa Missa pela Paz e Reconciliação

SANTA MISSA PELA PAZ E A RECONCILIAÇÃO

HOMILIA DO SANTO PADRE
Catedral de Myeong-dong (Seul)
Segunda-feira, 18 de Agosto de 2014


Queridos irmãos e irmãs!
A minha estadia na Coreia está a chegar ao fim e não posso deixar de agradecer a Deus pelas muitas bênçãos que concedeu a este amado país e, de maneira particular, à Igreja na Coreia. De entre tais bênçãos, conservo de modo especial a experiência, que vivemos juntos nestes últimos dias, da presença de tantos jovens peregrinos originários de todas as partes da Ásia. O seu amor por Jesus e o seu entusiasmo pela propagação do seu Reino foram uma inspiração para todos.
A minha visita culmina agora nesta celebração da Santa Missa, em que imploramos de Deus a graça da paz e da reconciliação. Esta oração reveste-se departicular ressonância na Península Coreana. A Missa de hoje é, sobretudo e principalmente, uma oração pela reconciliação nesta família coreana. Jesus diz-nos, no Evangelho, como é poderosa a nossa oração, quando dois ou três se reúnem em seu nome para pedir qualquer coisa (cf. Mt 18, 19-20). Muito mais o será, quando um povo inteiro eleva a sua instante súplica ao céu!
A primeira leitura apresenta a promessa feita por Deus de restaurar na unidade e na prosperidade um povo disperso pela desgraça e a divisão. Para nós, como para o povo de Israel, é uma promessa cheia de esperança: indica um futuro que Deus está desde já a preparar para nós. Mas esta promessa está inseparavelmente ligada com um mandamento: o mandamento de retornar a Deus e obedecer de todo o coração à sua lei (cf. Dt 30, 2-3). O dom divino da reconciliação, da unidade e da paz está inseparavelmente ligado à graça da conversão: trata-se de uma transformação do coração, que pode mudar o curso da nossa vida e da nossa história, como indivíduos e como povo.
Nesta Missa, naturalmente escutamos essa promessa no contexto da experiência histórica do povo coreano, uma experiência de divisão e conflito que já dura há mais de 60 anos. Mas o premente convite de Deus à conversão chama também os seguidores de Cristo na Coreia a examinarem-se sobre a qualidade da sua contribuição para a construção duma sociedade justa e humana. Chama cada um de vós a reflectir sobre o testemunho que dá, como indivíduo e como comunidade, de compromisso evangélico com os desfavorecidos, os marginalizados, com aqueles que não têm emprego ou estão excluídos da prosperidade que muitos usufruem. Chama-vos, como cristãos e como coreanos, a repelir com firmeza uma mentalidade fundada sobre a suspeita, a confrontação e a competição, optando antes por favorecer uma cultura plasmada pelo ensinamento do Evangelho e pelos mais nobres valores tradicionais do povo coreano.
No Evangelho de hoje, Pedro pergunta ao Senhor: «Quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?» O Senhor responde: «Digo-te, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt 18, 21-22). Estas palavras tocam o coração da mensagem de reconciliação e de paz indicada por Jesus. Obedientes ao seu mandamento, pedimos diariamente ao nosso Pai do Céu que perdoe os nossos pecados, «assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Mas, se não estivéssemos prontos a fazer o mesmo, como poderíamos honestamente rezar pela paz e a reconciliação?
Jesus pede-nos para acreditar que o perdão é a porta que leva à reconciliação. Quando nos manda perdoar aos nossos irmãos sem qualquer reserva, pede-nos para fazer algo de totalmente radical, mas dá-nos também a graça de o cumprir. Aquilo que, visto duma perspectiva humana, parece ser impossível, impraticável e às vezes até repugnante, Jesus torna-o possível e frutuoso com a força infinita da sua cruz. A cruz de Cristo revela o poder que Deus tem de superar toda a divisão, curar toda a ferida e restaurar os vínculos originais de amor fraterno.
Assim, a mensagem que vos deixo no final da minha visita a Coreia é esta: tende confiança na força da cruz de Cristo; acolhei nos vossos corações a sua graça reconciliadora e partilhai-a com os outros. Peço-vos que deis um testemunho convincente da mensagem de reconciliação de Cristo nas vossas casas, nas vossas comunidade e em todas as esferas da vida nacional. Estou confiante que vós, num espírito de amizade e cooperação com os outros cristãos, com os seguidores de outras religiões e com todos os homens e mulheres de boa vontade que têm a peito o futuro da sociedade coreana, sereis fermento do Reino de Deus nesta terra. Então as nossas orações pela paz e a reconciliação subirão até Deus de corações mais puros e, pelo dom da sua graça, hão-de alcançar aquele bem precioso por que todos suspiramos.
Por isso, rezemos pelo aparecimento de novas oportunidades de diálogo, encontro e superação das diferenças, por uma incessante generosidade na prestação de assistência humanitária aos necessitados, e por um reconhecimento sempre mais vasto de que todos os coreanos são irmãos e irmãs, membros duma única família e dum único povo. Falam a mesma língua.
Antes de deixar a Coreia, quero agradecer à Presidente da República, a Senhora Park Geun-hye,às Autoridades civis e eclesiásticas e a todos aqueles que de alguma forma ajudaram a tornar possível esta visita. De modo especial, quero dirigir uma palavra de gratidão pessoal aos sacerdotes da Coreia, que diariamente se empenham no serviço do Evangelho e na edificação da fé, da esperança e da caridade do Povo de Deus. A vós, como embaixadores de Cristo e ministros do seu amor de reconciliação (cf. 2 Cor 5, 18-20), peço que continueis a construir laços de respeito, confiança e cooperação harmoniosa nas vossas paróquias, entre vós e com os vossos Bispos. O vosso exemplo de um amor sem reservas ao Senhor, a vossa fidelidade e dedicação ao ministério, bem como o vosso empenhamento caritativo com os necessitados contribuem enormemente para a obra de reconciliação e paz neste país.
Queridos irmãos e irmãs, Deus chama-nos a voltar para Ele e a escutar a sua voz, e promete estabelecer-nos sobre a terra numa paz e prosperidade maiores, como os nossos antepassados nunca conheceram. Possam os seguidores de Cristo na Coreia preparar a alvorada daquele dia novo em que esta terra do calmo amanhecer gozará das mais ricas bênçãos divinas de harmonia e de paz! Ámen.

«Oração dos Fiéis»
Prece pelo Cardeal Filoni e o Iraque:
«Pelo Cardeal Fernando Filoni, cuja presença estava prevista entre nós, mas não pôde vir por ter sido enviado pelo Papa ao povo atribulado do Iraque, para ajudar os irmãos perseguidos e espoliados e todas as minorias religiosas que sofrem naquela terra. Que o Senhor o acompanhe na sua missão!»

Catedral de Myeong-dong


Não há desgraças grátis

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 20140818

Numa catástrofe só há más soluções, mas são melhores do que nada. Estas duas ideias, apesar de evidentes, são sempre difíceis de entender precisamente devido à catástrofe. A discussão à volta da recente queda do Grupo Espírito Santo (GES) é típica deste diálogo de surdos, como foram as conversas durante a crise económica. Acusar o Banco de Portugal do descalabro do GES só mostra incompreensão do problema, como antes dizer-se que a política do Governo ou da troika empobreceram Portugal. O GES e o País caíram com a crise. A política apenas serve para depois distribuir a perda pelos vários grupos envolvidos. Naturalmente, ao receberem o seu quinhão, todos se dizem injustiçados, porque acreditavam ficar imunes. Isso é ilusão, porque não há crises grátis.
O paralelo dos dois casos não é fortuito, porque afinal o terramoto é o mesmo. A queda do GES em 2014 é um episódio da terceira fase da via particular que Portugal escolheu para lidar com o colapso mundial de 2008. Podíamos ter feito de outro modo desviando ou adiando o peso. O que nunca poderíamos era evitar os enormes custos do buraco global.
Alguns países, como os EUA, aguentaram o embate em cheio. Sofreram muito, limparam o sistema e recomeçaram a crescer; em 2011 a economia americana recuperou o nível de 2007, anterior à queda. Portugal optou por um caminho diferente. Grande parte da nossa economia também sofreu o embate inicial, com falências, desemprego, perda de rendimentos. Mas certos sectores da sociedade, como o Governo e o GES, preferiram negar o desastre, pedir dispensa, adiar medidas, reclamar direitos adquiridos. Assim, só na segunda fase, a partir de 2011 e com a chegada da troika, se começou um ajustamento a sério, afectando sectores protegidos pelo Estado: funcionários, pensionistas, serviços e afins. Estes fizeram mais barulho do que todos e ainda negam a necessidade dos cortes ou prometem revertê-los. Em 2014, seis anos após o choque e com o ajustamento alegadamente terminado, começa a terceira fase. Então, surpreendentemente, vêm à tona velhos e enormes buracos, escondidos todo este tempo.
A aberração do GES é espantosa. Primeiro por se tratar do mais antigo e central grupo da economia portuguesa, sempre no cume do poder. Depois por ter mantido tantos anos uma fachada triunfante, cobrindo as ruínas. O episódio atingiu já dimensão histórica por, segundo o Financial Times, estar no "topo da tabela dos piores aumentos de capital de sempre na indústria financeira" (5 de Agosto), anulando o investimento em dois meses. Indiscutível é que desabou uma das peças mais imponentes e centrais da economia portuguesa. Não há soluções adequadas. A resposta do Banco de Portugal a 3 de Agosto não é boa pois, entre os escombros, dessas já não há. Barafustar e apontar inconvenientes é repetição óbvia e ociosa. Queixas e críticas são compreensíveis, mas o grupo ruiu; resta resgatar nos destroços os valores recuperáveis. O governador, como lhe competia, salvou a parte central do edifício, o banco. No meio da desgraça, tal sucesso deve contentar-nos, pois a sua queda teria efeitos devastadores em toda a sociedade.. Além disso, envolvendo um Fundo de Resolução, pretendeu, se tudo correr como previsto, não afectar o défice orçamental. Risco há sempre. Desabando uma das peças mais nucleares da economia, toda a sociedade portuguesa sofrerá, e não pouco. Viver por cá e dizer-se alheio exigindo imunidade é não entender o que aconteceu.
Porque ruiu o GES? Por erros graves após a crise global de 2008. Porquê só em 2014? Devido ao caminho escolhido por Portugal para lhe responder. A crise é antiga e dura, mas alguns, afectados como todos, conseguiram defender-se ao longo de todo o ajustamento. Uns às claras, sob o Tribunal Constitucional, outros no silêncio das influências políticas ou de forças económicas. Mas todos os que cá vivemos nos últimos 20 anos somos parte do problema. Cedo ou tarde, esta verdade vem ao de cima. Uma coisa é certa: só quando o sistema estiver limpo recomeça a crescer.

Fé, razão e universidade. Recordações e reflexões (versão oficial)

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA BENTO XVI
A MÜNCHEN, ALTÖTTING E REGENSBURG 
(9-14 DE SETEMBRO DE 2006)

DISCURSO DO SANTO PADRE 
AOS REPRESENTANTES DO MUNDO CIENTÍFICO
E CULTURAL DA BAVIERA NA AULA MAGNA 
DA UNIVERSIDADE DE REGENSBURG

Terça-feira, 12 de Setembro de 2006

"Fé, razão e universidade. Recordações e reflexões"
Eminências 
Magnificências 
Excelências 
Ilustres Senhores 
Gentis Senhoras

     É para mim um momento emocionante encontrar-me de novo na universidade e poder mais uma vez pronunciar uma lição. Os meus pensamentos, contemporaneamente, voltam àqueles anos em que, depois de um grande período passado no Instituto superior de Freising, comecei a minha actividade de professor académico na universidade de Bonn. Era em 1959 ainda o tempo da velha universidade dos professores ordinários. Para cada uma das cátedras não existiam nem assistentes nem dactilógrafos, mas em compensação havia um contacto muito directo com os estudantes e sobretudo também entre os professores. Encontrávamo-nos primeiro e depois das lições nas salas dos professores. Os contactos com os historiadores, os filósofos, os filólogos e naturalmente também entre as duas faculdades teológicas eram muito estreitos. Uma vez por semestre fazia-se o chamado dies academicus, no qual professores de todas as faculdades se apresentavam diante dos estudantes de toda a universidade, tornando assim possível uma experiência de universitas uma coisa à qual também o Senhor, Magnífico Reitor, se referiu há pouco isto é, a experiência, o facto de que nós não obstante todas as especializações, que por vezes nos tornam incapazes de comunicar entre nós, formamos um todo e trabalhamos no todo da única razão com as suas várias dimensões, estando assim juntos também na responsabilidade comum pelo recto uso da razão este facto torna-se experiência viva.
     Sem dúvida, a universidade era orgulhosa também das suas duas faculdades teológicas. Era claro que também elas, interrogando-se sobre a racionalidade da fé, desempenham uma obra que necessariamente faz parte do "todo" da universitas scientiarum, mesmo se nem todos podiam partilhar a fé, para cuja co-relação com a razão comum se comprometem os teólogos. Esta unidade interior no universo da razão não foi perturbada nem sequer quando certa vez filtrou a notícia de que um dos colegas dissera que na nossa universidade havia algo de anormal: duas faculdades que se ocupavam de uma coisa que não existia de Deus. Que mesmo perante um cepticismo tão radical seja necessário e normal interrogar-se sobre Deus através da razão e isto deva ser feito no contexto da tradição da fé cristã: no conjunto da universidade, isto era uma convicção fora de questão.
     Tudo me voltou à mente, quando li a parte publicada pelo professor Theodore Khoury (Münster) do diálogo que o douto imperador bizantino Manuel II, Paleólogo, talvez durante os meses do Inverno de 1391 em Ankara, teve com um persa culto sobre cristianismo e islão e sobre a verdade de ambos. Talvez tenha sido depois o próprio imperador quem escreveu, durante o assédio de Constantinopla entre 1394 e 1402, este diálogo; explica-se assim por que os seus raciocínios sejam referidos de modo muito mais pormenorizado do que os do seu interlocutor persa. O diálogo alarga-se sobre todo o âmbito das estruturas da fé contidas na Bíblia e no Alcorão e detém-se sobretudo sobre a imagem de Deus e do homem, mas necessariamente também sempre de novo sobre a relação entre as como se dizia três "Leis" ou três "ordens de vida": Antigo Testamento, Novo Testamento, Alcorão. Não desejo falar disto nesta lição; gostaria de tratar só um assunto bastante marginal na estrutura de todo o diálogo que, no contexto do tema "fé e razão", me fascinou e me servirá como ponto de partida para as minhas reflexões sobre este tema.
     No sétimo colóquio (διάλεξις, controvérsia) publicado pelo Prof. Khoury, o imperador enfrenta o tema da jihād, da guerra santa. Certamente o imperador sabia que na sua sura 2, 256 se lê: "Nenhuma coacção nas coisas de fé". É uma das suras do período inicial, dizem os peritos, em que o próprio Maomé ainda não tinha poder e estava ameaçado. Mas, naturalmente, o imperador conhecia também as disposições, desenvolvidas sucessivamente e fixadas no Alcorão, sobre a guerra santa.
     Sem se deter em pormenores, como a diferença de tratamento entre os que possuem o "Livro" e os "incrédulos" ele, de modo tão brusco que nos surpreende, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: "Mostra-me também o que Maomé trouxe de novo, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como a sua ordem de difundir através da espada a fé que ele pregava".
     O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão duro, explica minuciosamente as razões pelas quais a difusão da fé mediante a violência é irracional. A violência está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. "Deus não se apraz com o sangue diz ele não agir segundo a razão "σὺν λόγω", é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem quiser levar alguém à fé precisa da capacidade de falar bem e de raciocinar correctamente, e não da violência e da ameaça... Para convencer uma alma racional não é necessário dispor nem do próprio braço, nem de instrumentos para ferir nem de qualquer outro meio com o qual se possa ameaçar de morte uma pessoa...".
     A afirmação decisiva nesta argumentação contra a conversão mediante a violência é: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus. O editor, Theodore Khoury, comenta: para o imperador, sendo um bizantino que cresceu na filosofia grega, esta afirmação é evidente. Para a doutrina muçulmana, ao contrário, Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está relacionada com nenhuma das nossas categorias, mesmo que fosse a da racionalidade. Neste contexto Khoury cita uma obra do conhecido islamita francês R. Arnaldez, o qual ressalta que Ibn Hazm chega a declarar que Deus não estaria relacionado nem sequer com a sua própria palavra e que nada o obrigaria a revelar a nós a verdade. Se fosse a sua vontade, o homem deveria praticar também a idolatria.
     A este ponto abre-se, na compreensão de Deus e por conseguinte na realização concreta da religião, um dilema que hoje nos desafia de maneira muito directa. A convicção de que agir contra a razão esteja em contradição com a natureza de Deus, é apenas um pensamento grego ou é sempre válido e por si mesmo? Penso que neste ponto se manifeste a profunda concordância entre o que é grego no sentido melhor e o que é fé em Deus sobre o fundamento da Bíblia. Modificando o primeiro versículo do Livro do Génesis, o primeiro versículo de toda a Sagrada Escritura, João iniciou o prólogo do seu Evangelho com as palavras: "No princípio era o λόγος". É precisamente esta a mesma palavra que o imperador usa: Deus age "σὺν λόγω", com logos. Logos significa ao mesmo tempo razão e palavra uma razão que é criadora e capaz precisamente de se comunicar mas como razão. Com isto João deu-nos a palavra conclusiva sobre o conceito bíblico de Deus, a palavra na qual todos os caminhos muitas vezes cansativos e sinuosos da fé bíblica alcançam a sua meta, encontram a sua síntese.
     No princípio era o logos, e o logos é Deus, diz-nos o evangelista. O encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não era um simples caso. A visão de São Paulo, diante da qual se tinham fechado os caminhos da Ásia e que, em sonho, viu um Macedónio e ouviu a sua súplica: "Vem para a Macedónia e ajuda-nos" (cf. Act 16, 6-10) esta visão pode ser interpretada como uma "condensação" da necessidade intrínseca de uma aproximação entre fé bíblica e o interrogar-se grego.
     Na realidade, esta aproximação já tinha sido iniciada desde há muito tempo. Já o nome misterioso de Deus na sarça ardente, que afasta este Deus do conjunto das divindades com numerosos nomes afirmando apenas o seu "Eu sou", o seu ser, é, em relação ao mito, uma contestação com a qual está em íntima analogia a tentativa de Sócrates de vencer e superar o próprio mito. O processo iniciado na sarça alcança, no Antigo Testamento, uma nova maturidade durante o exílio, onde o Deus de Israel, agora privado da Terra e do culto, se anuncia como o Deus do céu e da terra, apresentando-se com uma simples fórmula que prolonga a palavra da sarça: "Eu sou".
     Com este novo conhecimento de Deus caminha em sintonia uma espécie de iluminismo, que se expressa de maneira drástica no escárnio das divindades que seriam apenas obra das mãos do homem (cf. Sl 115). Assim, não obstante toda a dureza do desacordo com os soberanos helenistas, que queriam obter com a força a adaptação ao estilo de vida grego e ao seu culto idolátrico, a fé bíblica, durante a época helenista, ia interiormente ao encontro da parte melhor do pensamento grego, até chegar a um contacto recíproco que depois se realizou especialmente na literatura sapiencial tardia.
     Hoje nós sabemos que a tradução grega do Antigo Testamento, realizada em Alexandria a "Septuaginta" é mais que uma simples tradução (que talvez se deva avaliar de modo pouco positivo) do texto hebraico: de facto, é um testemunho textual distinto e um especifico e importante passo da história da Revelação, no qual se realizou este encontro de uma forma que para o nascimento do cristianismo e para a sua divulgação teve um significado decisivo. No fundo, trata-se do encontro entre fé e razão, entre autêntico iluminismo e religião. Partindo verdadeiramente da natureza íntima da fé cristã e, ao mesmo tempo, da natureza do pensamento grego já fundido com a fé, Manuel II podia dizer: Não agir "com o logos" é contrário à natureza de Deus.
     Honestamente é preciso anotar a este ponto que, no final da Idade Média, se desenvolveram na teologia tendências que rompem esta síntese entre espírito grego e espírito cristão. Em contraste com o chamado intelectualismo agostiniano e tomista iniciou com Duns Scott uma orientação voluntária, a qual no fim, nos desenvolvimentos sucessivos, levou à afirmação de que nós de Deus só conheceremos a voluntas ordinata. Para além dela existiria a liberdade de Deus, em virtude da qual Ele teria podido criar e fazer também o contrário de tudo o que efectivamente fez.
     Aqui vêem-se posições que, sem dúvida, se podem aproximar às de Ibn Hazm e poderiam conduzir até à imagem de um Deus-Arbítrio, que não está relacionado nem com a verdade nem com o bem. A transcendência e a diversidade de Deus são acentuadas de modo tão exagerado, que também a nossa razão, o nosso sentido do verdadeiro e do bem já não são um verdadeiro espelho de Deus, cujas possibilidades abismais permanecem para nós eternamente inalcançáveis e escondidas por detrás das suas decisões efectivas.
Em contraste com isto, a fé da Igreja sempre se ateve à convicção de que entre Deus e nós, entre o seu eterno Espírito criador e a nossa razão criada exista uma verdadeira analogia, na qual como disse o Concílio Lateranense IV em 1215 sem dúvida as diferenças são infinitamente maiores que as semelhanças, mas contudo não até ao ponto de abolir a analogia e a sua linguagem. Deus não é mais divino pelo facto de que o afastamos para longe de nós num voluntarismo puro e impenetrável, mas o Deus verdadeiramente divino é aquele Deus que se mostrou como logos e como logos agiu e age cheio de amor em nosso favor. Sem dúvida, o amor, como diz Paulo, "ultrapassa" o conhecimento e é por isto capaz de compreender mais do que o simples pensamento (cf. Ef 3, 19), contudo ele permanece o amor do Deus-Logos, para o qual o culto cristão é, como diz ainda Paulo "λογικη λατρεία" um culto que concorda com o Verbo eterno e com a nossa razão (cf. Rm 12, 1).
     A aqui mencionada recíproca aproximação interior, que se teve entre a fé bíblica e o interrogar-se sobre o plano filosófico do pensamento grego, é um elemento de importância decisiva não só sob o ponto de vista da história das religiões, mas também sob o ponto de vista da história universal um elemento que nos compromete também hoje. Considerado este encontro, não surpreende que o cristianismo, apesar da sua origem e de alguns seus desenvolvimentos importantes no Oriente, tenha por fim encontrado a sua marca historicamente decisiva na Europa. Podemos expressar isto também inversamente: este encontro, ao qual se acrescenta sucessivamente ainda o património de Roma, criou a Europa e permanece o fundamento do que, com razão, se pode chamar Europa.
À tese que o património grego, criticamente purificado, seja uma parte integrante da fé cristã, opõe-se o requerimento da deselenização do cristianismo um requerimento que desde o início da idade moderna domina de modo crescente a pesquisa teológica. Visto mais de perto, podem-se observar três ondas no programa da deselenização: apesar de estarem relacionadas entre si, elas nas suas motivações e nos seus objectivos são claramente distintas uma da outra.
     A deselenização emerge primeiro em ligação com os postulados da Reforma do século XVI. Considerando a tradição das escolas teológicas, os reformadores vêem-se diante de uma sistematização da fé condicionada totalmente pela filosofia, isto é, perante uma determinação da fé a partir de fora em virtude de um modo de pensar que não derivava dela. Assim a fé já não se apresentava como palavra histórica viva, mas como elemento inserido na estrutura de um sistema filosófico.
     A sola Scriptura ao contrário procura a forma pura primordial da fé, do modo como está presente originariamente na Palavra bíblica. A metafísica aparece como um pressuposto derivante de outra fonte, da qual é necessário libertar a fé para a fazer voltar a ser totalmente ela mesma. Com a sua afirmação de ter que pôr de lado o pensar para dar espaço à fé, Kant agiu com base neste programa com uma radicalidade imprevisível para os reformadores. Com isto ele ancorou a fé exclusivamente à razão prática, negando-lhe o total acesso à realidade.
     A teologia liberal dos séculos XIX e XX trouxe uma segunda onda no programa da deselenização: seu representante eminente é Adolf von Harnack. Durante o tempo dos meus estudos, como nos primeiros anos da minha actividade académica, este programa era fortemente operante também na teologia católica. Como ponto de partida era feita a distinção de Pascal entre o Deus dos filósofos e o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob. No meu discurso em Bonn, em 1959, procurei enfrentar este assunto e não pretendo retomar aqui todo o discurso. Mas gostaria de tentar ressaltar pelo menos em síntese a novidade que caracterizava esta segunda onda de deselenização em relação à primeira.
     Como pensamento central sobressai, em Harnack, o regresso simplesmente ao homem Jesus e à sua mensagem simples, que viria antes de todas as teologizações e, precisamente, também antes das helenizações: seria esta mensagem simples que constituiria o verdadeiro ápice do desenvolvimento religioso da humanidade. Jesus teria dado um adeus ao culto em favor da moral. Em conclusão, Ele é representado como pai de uma mensagem moral humanitária.
     A finalidade de Harnack no fundo é reconduzir o cristianismo em harmonia com a razão moderna, libertando-o, precisamente, de elementos aparentemente filosóficos e teológicos, como por exemplo a fé na divindade de Cristo e na trindade de Deus.
Neste sentido, a exegese histórico-crítica do Novo Testamento, na sua visão, coloca novamente a teologia no cosmos da universidade: teologia, para Harnack, é algo essencialmente histórico e, portanto, estrictamente científico. O que ela indaga sobre Jesus mediante a critica é, por assim dizer, expressão da razão prática e por conseguinte também sustentável no conjunto da universidade. Na base encontra-se a autolimitação moderna da razão, expressa de maneira clássica nas "críticas" de Kant, que entretanto foi ulteriormente radicalizada pelo pensamento das ciências naturais. Este conceito moderno da razão baseia-se, em síntese, num resumo entre platonismo (cartesianismo) e empirismo, que o sucesso técnico confirmou.
     Por um lado pressupõe-se a estrutura matemática da matéria, a sua por assim dizer racionalidade intrínseca, que torna possível compreendê-la e usá-la na sua eficiência concreta: este pressuposto básico e, por assim dizer, o elemento platónico no conceito moderno da natureza. Por outro lado, trata-se da utilizabilidade funcional da natureza para as nossas finalidades, onde só a possibilidade de controlar verdade ou falsidade mediante a experiência fornece a certeza decisiva. O peso entre os dois pólos pode, segundo as circunstâncias, estar mais de uma ou mais da outra parte. Um pensador tão estreitamente positivista como J. Monod declarou-se platónico convicto.
     Isto exige duas orientações fundamentais decisivas para a nossa questão. Só o tipo de certezas derivantes da sinergia de matemática e empírica nos permite falar de cientificidade. O que pretende ser ciência deve confrontar-se com este critério. E assim também as ciências que se referem às coisas humanas, como a história, a psicologia, a sociologia e a filosofia procuravam aproximar-se deste cânone da cientificidade. Contudo, é importante para as nossas reflexões o facto de que o método como tal exclui o problema Deus, apresentando-o como um problema acientífico ou pré-científico. Portanto, com isto encontramo-nos diante de uma redução do leque de ciência e razão que é obrigatório pôr em questão.
     Voltarei ainda sobre este assunto. Neste momento é suficiente ter presente que, numa tentativa de conservar o carácter de disciplina "científica" da teologia à luz desta perspectiva, do cristianismo restaria apenas um miserável fragmento. Mas devemos dizer mais: se a ciência no seu conjunto é apenas isto, então é o próprio homem que, com isto, sofre uma redução. Mas as interrogações propriamente humanas, isto é, as do "de onde" e do "para onde", os questionamentos da religião e do ethos, não podem encontrar lugar no espaço da razão comum descrita pela "ciência" entendida deste modo e devem ser deslocados no âmbito do subjectivo. O sujeito decide, com base nas suas experiências, o que lhe parece religiosamente sustentável, e a "consciência" subjectiva torna-se portanto a única exigência ética.
     Mas, desta forma o ethos e a religião perdem a força de criar uma comunidade e terminam no âmbito da discricionalidade pessoal. Esta é uma condição perigosa para a humanidade: verificamos isto nas patologias ameaçadoras da religião e da razão patologias que necessariamente devem manifestar-se, quando a razão é limitada a tal ponto que as questões da religião e do ethos já não lhe dizem respeito. O que permanece das tentativas de construir uma ética partindo das regras da evolução ou da psicologia e da sociologia, é simplesmente insuficiente.
     Antes de chegar às conclusões que todo este raciocínio tem por finalidade, devo mencionar ainda em breve a terceira onda de deselenização que se difunde actualmente. Em consideração do encontro com a multiplicidade das culturas hoje há quem goste de dizer que a síntese com o helenismo, realizada na Igreja antiga, teria sido uma primeira inculturação, que não deveria vincular as outras culturas. Isto deveria ter o direito de retroceder até ao ponto que precedia aquela inculturação para descobrir a simples mensagem do Novo Testamento e inculturá-la depois novamente nos seus respectivos ambientes.
     Esta tese não é simplesmente errada; contudo é grosseira e imprecisa. De facto, o Novo Testamento foi escrito em grego e tem em si o contacto com o espírito grego um contacto que se tinha maturado no desenvolvimento precedente do Antigo Testamento. Sem dúvida existem elementos no processo formativo da Igreja antiga que não devem ser integrados em todas as culturas. Mas as decisões de fundo que, precisamente, se referem ao relacionamento da fé com a investigação da razão humana, estas decisões de fundo pertencem à própria fé e são os seus desenvolvimentos, conformes com a sua natureza.
     Com isto chego à conclusão. Esta tentativa, feita apenas em linhas gerais, de crítica da razão moderna a partir do seu interior, não inclui absolutamente a opinião de que agora se deva voltar atrás, à época anterior ao iluminismo, rejeitando as convicções da era moderna. Aquilo que no desenvolvimento moderno do espírito é válido, é reconhecido sem hesitações: todos estamos gratos pelas grandiosas possibilidades que ele abriu ao homem e pelos progressos no campo humano que nos foram proporcionados. O ethos da cientificidade, afinal, é como Vossa Magnificência mencionou vontade de obediência à verdade e, por conseguinte, expressão de uma atitude que faz parte das decisões fundamentais do espírito cristão.
     Por conseguinte, a intenção não é retracção, nem crítica negativa; ao contrário, trata-se de um alargamento do nosso conceito de razão e do seu uso. Porque com toda a alegria diante das possibilidades do homem, vemos também as ameaças que sobressaem destas possibilidades e devemos perguntar-nos como podemos dominá-las. Só o conseguiremos se razão e fé estiverem unidas de uma nova forma; se superarmos a limitação autodecretada da razão ao que é verificável na experiência, e lhe abrirmos de novo toda a sua vastidão. Neste sentido, a teologia, não só como disciplina histórica e humano-científica, mas como verdadeira teologia, ou seja, como interrogação sobre a razão da fé, deve ter o seu lugar na universidade e no amplo diálogo das ciências.
     Só assim nos tornamos também capazes de um verdadeiro diálogo das culturas e das religiões um diálogo do qual temos urgente necessidade. No mundo ocidental domina amplamente a opinião de que só a razão positivista e as formas de filosofia dela derivantes sejam universais. Mas as culturas profundamente religiosas do mundo vêem precisamente nesta exclusão do divino da universalidade da razão um ataque às suas convicções mais íntimas. Uma razão, que diante do divino é surda e rejeita a religião do âmbito das subculturas, é incapaz de se inserir no diálogo das culturas.
     Contudo, a razão moderna típica das ciências naturais, com o seu elemento platónico intrínseco, tem em si, como procurei demonstrar, uma pergunta que a transcende juntamente com as suas possibilidades metódicas. Ela mesma deve simplesmente aceitar a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais actuantes na natureza como um dado de facto, sobre o qual se baseia o seu percurso metódico. Mas a pergunta acerca do porque deste dado de facto existe e deve ser confiada pelas ciências naturais a outros níveis e modos do pensar à filosofia e à teologia.
     Para a filosofia e, de maneira diferente, para a teologia, ouvir as grandes experiências e convicções das tradições religiosas da humanidade, especialmente a da fé crista, constitui uma fonte de conhecimento; recusar-se significaria uma limitação inaceitável do nosso ouvir e responder.
     Vêm-me à mente a este ponto uma palavra de Sócrates a Fédon. Nos diálogos precedentes tinham sido tratadas muitas opiniões filosóficas erradas, e então Sócrates diz: "Seria muito compreensível se alguém, devido à irritação por tantas coisas erradas, para o resto da sua vida desprezasse qualquer discurso sobre o ser ou o denegrisse. Mas desta forma perderia a verdade do ser e sofreria um grande dano".
     O ocidente, desde há muito tempo, está ameaçado por esta repulsa contra os questionamentos fundamentais da sua razão, e assim poderia sofrer unicamente um grande dano. A coragem de se abrir à vastidão da razão, não a rejeição da sua grandeza este é o programa com que uma teologia comprometida na reflexão sobre a fé bíblica, entra no debate do tempo presente. "Não agir segundo razão, não agir com o logos, é contrário à natureza de Deus", disse Manuel II, partindo da sua imagem cristã de Deus, ao interlocutor persa. Para este grande logos, para esta vastidão da razão, convidamos os nossos interlocutores no diálogo das culturas. Encontrá-la nós próprios sempre de novo, é a grande tarefa da universidade.

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domingo, 17 de Agosto de 2014

Florença: a Europa tem luz própria

VIRIATO SOROMENHO MARQUES
DN 2014.08.17

Melhor remédio do que o ar puro das montanhas ou a brisa iodada do mar, para curar os corações de europeus destroçados pela miséria intelectual e moral que hoje avassala o Velho Continente, é mergulhar no minúsculo coração de Florença. Num raio de 500 metros, tendo por centro a Piazza della Signoria, está tudo o que impede a existência da Europa de ser considerada um erro divino. A ideia da dignidade humana como autonomia ali se pressente nas ruas habitadas por Pico della Mirandola, por Maquiavel, e antes por Dante. Os riscos de fanatismo, estão assinalados no chão da Piazza, onde a breve teocracia de Savanarola ardeu com o seu criador. Também lá vibra o esplendor da arte em todas as formas. Na escultura, o David (1501), de Miguel Ângelo, o Perseu (1554), de Cellini. Na pintura, a colecção Uffizi, doada pela poderosa família Medici ao povo de Florença, exibe um espólio incalculável, onde brilham Botticelli e Leonardo da Vinci. Subindo a Costa di San Giorgio, deparamos com uma casa onde viveu e trabalhou Galileu, um dos pais fundadores da ciência moderna. Mas o mais terno e frágil símbolo de Florença é El Ponte Vecchio, a mais antiga travessia sobre o Arno, construída em 1345. No dia 3 de agosto de 1944, as tropas alemãs, sob o comando do marechal Kesselring, tentaram atrasar o avanço das colunas blindadas dos aliados. Todas as pontes sobre o Arno foram destruídas. Todas, menos uma. El Ponte Vecchio foi salva, no meio da violenta retirada. Uma recente placa de mármore presta homenagem ao homem que mais contribuiu para salvar esse ícone da alma europeia: chamava-se Gerhard Wolf (1896-1971). Era o cônsul alemão na cidade, desde 1940! Quando a Europa enlouquece, só os homens capazes de heroísmo ético resgatam um ténue fio de esperança para a geração seguinte.

A matemática do Irão

JORGE ALMEIDA FERNANDES Público | 17/08/2014 - 13:32
"Há uma única palavra para comentar esta notícia: finalmente!"
A iraniana Maryam Mirzakhani, 37 anos, é a primeira mulher a receber a Medalha Fields, o mais relevante prémio na matemática. "Encontro uma única palavra adequada para comentar esta notícia: finalmente!" — declarou Elisabetta Strickland, chefe da delegação italiana ao Congresso Internacional dos Matemáticos que decorre em Seul. "Há anos que me bato para trazer à luz a excelência feminina na matemática e este ano esperava esta vitória." Desde a criação do prémio, em 1936, não consta nenhum nome de mulher – até 13 de Agosto de 2014.
A Fields não distingue um grande matemático mas aquele que faz uma "descoberta excepcional". A Fields não se ganha com técnica mas com inventividade, diz o francês Cédric Villani, premiado em 2010. Mas sem técnica, não se vai a lado nenhum. "A imaginação e o rigor são duas das três qualidades essenciais de um matemático. A terceira é a tenacidade." De resto, como os poetas, os matemáticos dizem-se sujeitos a "iluminações".
Todas estas marcas estão patentes em Maryam, cuja genialidade e originalidade são reconhecidas pela comunidade matemática. Por trás de cada descoberta há um percurso e é este o que aqui interessa focar.
O ayatollah e as mulheres
Veio do Irão. Fez o doutoramento em Harvard, ensinou em Princeton e mudou para Stanford, onde vive com o marido e a filha de três anos. Observou numa entrevista: "Gostaria de dizer que o sistema de educação iraniano não é o que as pessoas aqui podem imaginar. Quando estive em Harvard, tinha de explicar incessantemente que, enquanto mulher, tinha o direito de frequentar a universidade."
Afirma Nasin Azadi, colaborador do Libération em Teerão: "Ela é um puro produto do sistema educativo iraniano. (...) Foi educada no Liceu Farzanegan de Teerão, que depende da 'Organização para o desenvolvimento dos talentos brilhantes', cujo objectivo é descobrir alunos sobredotados ou, pelo menos, os melhores através de concursos nacionais."
Os escolhidos fazem os seus estudos em estabelecimentos específicos com programas muito mais exigentes. Maryam frequentou depois a Universidade Sharif de Teerão, onde só entra uma ínfima minoria dos candidatos num concurso ultra-exigente e onde a qualidade do ensino é muito elevada.
Para estimular os estudantes o Irão promove competições entre universidades. Em 1985, aderiu às Olimpíadas Internacionais de Matemática, para jovens. Foi aí que Maryam anunciou o seu talento: medalha de ouro em 1994 e 1995. Em 1998, o Irão foi o primeiro classificado, batendo os Estados Unidos.
O sistema de ensino combina duas vertentes, o ensino de massas e o ensino de elite. Tal como combina escola pública com escola privada. Foi a resposta a duas necessidades diferentes: a democratização do ensino e a formação de quadros de alta qualificação.
Depois da Revolução Islâmica de 1979, o ayatollah Khomeini ordenou a "islamização do ensino". Não se tratava de um mero regresso ao passado mas da tentativa de combinar o ensino religioso com o ensino científico moderno — mas sem "as perversões da cultura ocidental". Milhares de professores foram demitidos e os programas reescritos. E houve uma medida ideológica de grande impacto: a abolição do ensino misto nos níveis secundário e médio.
Qual foi o efeito? Alargar exponencialmente a entrada das mulheres no ensino. As famílias conservadoras passaram a deixar as filhas fazer cursos. Em 1978, as mulheres representavam 37% da população do secundário e 29% da universitária. Em 2004, elas representavam 57% da universidade e uma taxa mais alta nos ramos científicos.
Prevê-se que dentro de dois ou três anos, as mulheres obtenham 70% dos diplomas universitários. Elas dão-se bem com os concursos e com a competição. Que transformações sociais, económicas e de mentalidade anuncia isto? Os ultraconservadores reagiram e, na era de Ahmadinejad, quiseram impor quotas máximas para as mulheres e reservar aos homens o acesso a muitos cursos. Várias universidades o fizeram. Permanece a disputa sobre as turmas mistas. Não há uniformidade.
As autoridades gostam que os seus "génios" façam o doutoramento nas mais prestigiadas universidades ocidentais — caso de Maryam, que foi para Harvard trabalhar sob orientação de Curtis McMullen, um Fields Medal. Aceitam que eles aí fiquem a ensinar, na expectativa de que, mais tarde, voltem ao Irão. Muitos bolseiros assinam contratos de regresso. Hoje, 76% dos seus "matemáticos olímpicos" ensinam nos EUA ou na Grã-Bretanha. Teerão está agora a braços com um brain drain: segundo o Banco Mundial, entre 2009 e 2013, 300 mil jovens iranianos decidiram ir trabalhar para o estrangeiro.
Sem resolver o conflito do nuclear e pôr fim às sanções, o Presidente Hassan Rouhani terá dificuldade em inverter o movimento e em tirar partido das elites que o país forma. É o círculo vicioso em que o regime se encontra encerrado.
A mais rentável ciência
Porquê o relevo dado à matemática que levou, por exemplo, a espalhar pelo país "casas da matemática" para elevar a formação dos estudantes e professores?
Por um lado, a República Islâmica queria demonstrar as suas capacidades científicas à escala internacional. Por outro, as matemáticas não são uma disciplina entre outras. "Mudam o mundo", escreve o investigador francês Idriss Aberkane. "Se são fontes de beleza e deslumbramento, são mais prosaicamente uma excepcional fonte de desenvolvimento económico. Sem experiências nem materiais dispendiosos, utilizando o espírito, um papel e um lápis, o matemático muda silenciosamente o mundo e gera acessoriamente milhões de milhões de dólares em valor económico in futurum."
O Irão recebeu o prémio do seu investimento. E Maryam Mirzakhani devolveu com dividendos a dívida para com o Irão, que ela faz sempre questão em sublinhar.
Rouhani escreveu-lhe na quarta-feira. "Hoje, os iranianos podem sentir-se orgulhosos de que a primeira mulher que jamais ganhou a Medalha Fields seja sua compatriota. Sim! O mais competente deve ocupar a mais alta posição e deve ser o mais respeitado. Todos os iranianos, onde quer que estejam no mundo, são valores da nossa terra, e eu, como representante da nação iraniana, louvo as suas realizações científicas. Espero que a sua vida seja sempre plena de felicidade e sucesso."
Maryam quebrou uma barreira histórica.

Homilia do Santo Padre na Missa conclusiva da VI Jornada da Juventude asiática

SANTA MISSA NA CONCLUSÃO DA VI JORNADA DA JUVENTUDE ASIÁTICA
HOMILIA DO SANTO PADRE
Castello de Haemi
Domingo, 17 de Agosto de 2014


Queridos jovens amigos!
«A glória dos mártires resplandece sobre vós»: estas palavras, que fazem parte do tema da VI Jornada Asiática da Juventude, são de consolação para todos nós e dão-nos força. Jovens da Ásia, vós sois herdeiros dum grande testemunho, duma preciosa confissão de fé em Cristo. Ele é a luz do mundo, é a luz da nossa vida! Os mártires da Coreia, e tantos outros em toda a Ásia, entregaram seus corpos aos perseguidores; mas, a nós, entregaram um testemunho perene de que a luz da verdade de Cristo afugenta todas as trevas e o amor de Cristo triunfa glorioso. Com a certeza da sua vitória sobre a morte e da nossa participação nela, podemos enfrentar o desafio de ser seus discípulos hoje, nas nossas situações de vida e no nosso tempo.
As palavras, sobre as quais acabamos de reflectir, são uma consolação. A outra parte do tema desta Jornada – «Juventude da Ásia, levanta-te!» – fala-vos de um dever, de uma responsabilidade. Consideremos brevemente cada uma destas palavras. Antes de mais nada, a expressão «da Ásia». Reunistes-vos aqui, na Coreia, vindos de toda a parte da Ásia. Cada um de vós possui um lugar e um contexto próprios, onde sois chamados a espelhar o amor de Deus. O Continente Asiático, permeado de ricas tradições filosóficas e religiosas, continua a ser uma grande delimitação que espera o vosso testemunho de Cristo, «caminho, verdade e vida» (Jo 14, 6). Como jovens que não apenas vivem na Ásia, mas são filhos e filhas deste grande Continente, tendes o direito e o dever de tomar parte plena na vida das vossas sociedades. Não tenhais medo de levar a sabedoria da fé a todos os campos da vida social!
Além disso, como jovens asiáticos, vedes e amais, a partir de dentro tudo o que é belo, nobre e verdadeiro nas vossas culturas e tradições. Ao mesmo tempo, como cristãos, sabeis também que o Evangelho tem a força de purificar, elevar e aperfeiçoar este património. Através da presença do Espírito Santo, que vos foi dado no Baptismo e selado na Crisma, podeis, em união com os vossos pastores, apreciar os inúmeros valores positivos das diferentes culturas da Ásia. Além disso, sois capazes de discernir aquilo que é incompatível com a vossa fé católica, o que é contrário à vida da graça enxertada em vós com o Baptismo, e os aspectos da cultura contemporânea que são pecaminosos, corruptos e levam à morte.
Voltando ao tema desta Jornada, detenhamo-nos agora sobre a palavra: «Juventude». Vós e os vossos amigos estais cheios do optimismo, de energia e de boa vontade, característicos desta estação da vossa vida. Deixai que Cristo transforme o vosso natural optimismo em esperança cristã, a vossa energia em virtude moral, a vossa boa vontade em amor genuíno que sabe sacrificar-se! Este é o caminho que sois chamados a empreender. Este é o caminho para vencer tudo o que ameaça a esperança, a virtude e o amor na vossa vidas e na vossa cultura. Assim a vossa juventude será um presente para Jesus e para o mundo.
Como jovens cristãos – quer sejais trabalhadores ou estudantes, quer tenhais já iniciado uma profissão ou respondido à chamada para o matrimónio, a vida religiosa ou o sacerdócio –, não constituís parte apenas do futuro da Igreja: sois uma parte necessária e amada também do presente da Igreja! Vós sois o presente da Igreja! Permanecei unidos uns aos outros, aproximai-vos cada vez mais de Deus, e, juntamente com os vossos Bispos e sacerdotes, gastai estes anos na edificação duma Igreja mais santa, mais missionária e humilde – uma Igreja mais santa, mais missionária e humilde –, uma Igreja que ama e adora a Deus, procurando servir os pobres, os abandonados, os doentes e os marginalizados.
Muitas vezes, na vossa vida cristã, sereis tentados – como os discípulos no Evangelho de hoje – a afastar o estrangeiro, o necessitado, o pobre e quem tem o coração despedaçado. E no entanto são sobretudo pessoas como estas que repetem o grito da mulher do Evangelho: «Senhor, ajuda-me!» A invocação da mulher cananeia é o grito de toda a pessoa que está à procura de amor, aceitação e amizade com Cristo. É o gemido de tantas pessoas nas nossas cidades anónimas, a súplica de muitos dos vossos contemporâneos, e a oração de todos os mártires que ainda hoje sofrem perseguição e morte pelo nome de Jesus: «Senhor, ajuda-me!» Muitas vezes, é um grito que brota dos nossos próprios corações: «Senhor, ajuda-me!» Dêmos resposta a esta invocação, não como aqueles que afastam as pessoas que pedem, como se a atitude de servir os necessitados se contrapusesse a estar mais perto do Senhor. Não! Devemos ser como Cristo, que responde a cada pedido de ajuda com amor, misericórdia e compaixão.
Finalmente, a terceira parte do tema desta Jornada: «Levanta-te!» Esta expressão fala duma responsabilidade que o Senhor vos confia. É o dever de estarmos vigilantes, para não deixar que as pressões, as tentações e os pecados – os nossos ou os dos outros – entorpeçam a nossa sensibilidade à beleza da santidade, à alegria do Evangelho. O Salmo Responsorial de hoje convida-nos repetidamente a «estar alegres e cantar com alegria. Ninguém que esteja a dormir pode cantar, dançar, alegrar-se. Nada de bom espero, quando vejo juventude que dorme… Não! «Levanta-te!» Caminha! Caminha! Caminha para diante! Queridos jovens, «o Senhor nosso Deus nos abençoou» (Sal 67, 8); d'Ele, «alcançamos misericórdia» (cf. Rom 11, 30). Com a certeza do amor de Deus, ide pelo mundo, fazendo com que, «em consequência da misericórdia usada convosco» (Rom 11, 31), os vossos amigos, os colegas de trabalho, os concidadãos e todas as pessoas deste grande Continente «alcancem finalmente misericórdia» (cf. Rom11, 31). É justamente por esta misericórdia que somos salvos.
Queridos jovens da Ásia, faço votos de que, unidos a Cristo e à Igreja, possais seguir por esta estrada que certamente vos encherá de alegria. E agora que estamos para nos aproximar da mesa da Eucaristia, dirijamo-nos a Maria nossa Mãe, que deu ao mundo Jesus: Sim, ó Maria nossa Mãe, desejamos receber Jesus! No vosso carinho maternal, ajudai-nos a levá-Lo aos outros, a servi-Lo fielmente e a honrá-Lo em todo tempo e lugar, neste país e na Ásia inteira. Ámen.
Juventude da Ásia, levanta-te!