quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cristo no Jardim das Oliveiras

Gauguin (1889)
óleo sobre tela (73 x 92 cm)
Norton Museum of Art
West Palm Beach (Florida)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Papa recorda décimo aniversário da morte de São João Paulo II

Agência Ecclesia 01 de Abril de 2015, às 09:57
Francisco evoca «grande testemunha de Cristo sofredor»

Cidade do Vaticano, 01 abr 2015 (Ecclesia) - O Papa Francisco recordou hoje no Vaticano o décimo aniversário de morte de São João Paulo II (1920-2005), que apresentou aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro como "grande testemunha de Cristo sofredor".
"Amanhã 2 de abril ocorre o décimo aniversário da morte de São João Paulo II. Recordamo-lo como grande testemunha de Cristo sofredor, morto e ressuscitado, e pedimos-lhe que interceda por nós, pelas famílias, pela Igreja, para que a luz da ressurreição resplandeça sobre todas as sombras da nossa vida e nos encha de alegria e de paz", declarou, durante a audiência pública semanal desta semana, que reuniu milhares de pessoas.
Na tradicional saudação final aos jovens, doentes e recém-casados presentes no Vaticano, Francisco afirmou que o "exemplo e o testemunho" do Papa João Paulo II estão "sempre vivos", lembrando o seu "ardor e entusiasmo".
Karol Jozef Wojtyla, eleito Papa a 16 de outubro de 1978, assumindo o nome de João Paulo II, nasceu em Wadowice (Polónia), a 18 de maio de 1920, e morreu no Vaticano, a 2 de abril de 2005.
Entre os seus principais documentos, contam-se 14 encíclicas, 15 exortações apostólicas, 11 constituições apostólicas e 45 cartas apostólicas; realizou 104 viagens internacionais, incluindo três visitas a Portugal, em 1982, 1991 e 2000.
O Papa polaco foi beatificado por Bento XVI, seu sucessor, a 1 de maio de 2011 e foi canonizado a 27 de abril de 2014, por Francisco.
A Igreja Católica celebra a memória litúrgica de João Paulo II a 22 de outubro, data que assinala o dia de início de pontificado de Karol Wojtyla, em 1978, pouco depois de ter sido eleito Papa.
Na habitual resenha biográfica que é apresentada no calendário dos santos e beatos, João Paulo II é lembrado pela "extraordinária solicitude apostólica, em particular para com as famílias, os jovens e os doentes, o que o levou a realizar numerosas visitas pastorais a todo o mundo".
João Paulo II esteve no Santuário de Fátima em 1982, 1991 e, pela última vez, em 2000, altura em que beatificou os videntes Francisco e Jacinta Marto.
Nessas três visitas, sempre no mês de maio, passou ainda por Braga, Coimbra, Lisboa, Porto, Vila Viçosa, Açores e Madeira, somando-se uma escala técnica no aeroporto de Lisboa (2 de março de 1983), a caminho da América Central
A ida a Roma, em outubro 2000, da imagem original de Nossa Senhora de Fátima da Capelinha das Aparições, no Jubileu dos Bispos, consagrando-lhe o terceiro milénio, confirmou a particular ligação do Papa polaco com o santuário da Cova da Iria.
Simbolicamente, a bala que lhe atravessou o abdómen no atentado de 13 de maio de 1981 repousa hoje na mesma imagem da Virgem.

Desalento



O insulto despedaçou-me o coração
e eu desfaleço.
Esperei por compaixão e não apareceu,
nem encontrei quem me consolasse.
Misturaram-me fel na comida
e deram-me vinagre a beber.   
Sl 69, 21-22

Conto de Páscoa

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2015.04.01

Fui visitar o meu amigo Vasco, que há uns meses fora nomeado administrador de uma grande multinacional. Do seu gabinete, no último andar da torre, tinha-se uma vista deslumbrante da grande cidade. Admirava eu o espectáculo quando ele murmurou.
"Do alto da cruz vêem-se todos os reinos do mundo."
Perante o meu espanto, explicou: "Sabes onde estás? Vê ali na parede. Aquele crucifixo marca este gabinete como o Calvário. Aqui é uma parte do Calvário; do grande Calvário que existe espalhado por todo o mundo. Jesus está crucificado e eu estou aqui crucificado com ele. Aqui é também o Calvário, como em milhões de outros locais, onde Jesus é hoje crucificado connosco. Aliás, como eu levo sempre um pequeno crucifixo no bolso, em todo o lado onde vou é também o Calvário. Na sala do Conselho, nos restaurantes onde faço as negociações, nas reuniões e nas fábricas que visito. Também aí está Jesus crucificado, e eu crucificado com ele."
"Julgava que gostavas deste posto!", disse eu espantado.
"Claro que sim. Mas sabes qual foi a primeira coisa que disse quando fui convidado? O que me veio à cabeça foi: "Primeira estação - Jesus é condenado à morte." Mais uma vez na minha vida começara a Via-Sacra. Assim este emprego faz parte da minha crucificação em união com a execução de Cristo. Nem queiras saber como isto me ajuda nos momentos maus, e são muitos, animando-me, pondo--me acima do sofrimento; porque, afinal, eu já estou crucificado, à espera da morte e ressurreição. Mas também me ajuda muito nos momentos bons, que também há, impedindo--me de me orgulhar e embriagar. Viver a vida crucificado aos pés da cruz, como um condenado junto a Cristo, muda tudo."
"Deves passar aqui bocados bem maus", disse eu compreensivo.
"Nem queiras saber. Mas, em geral, até acho a minha cruz bastante leve. Comparada com a vida de outros, a minha é doce e calma. Penso que isso se deve a eu ser tão fraco e débil. Jesus dá as provações conforme as capacidades de cada um. Aqueles que têm grandes sofrimentos mostram por isso serem pessoas fortes e capazes, com resistência. Aos franzinos como eu, o Senhor dá uma vida mais serena, com mais sucessos do que fiascos, porque não aguentaríamos a outra. Mas às vezes..."
"Ver a Administração como o Calvário é original."
"Enganas-te. Há muita gente a viver assim. E eu não comecei a pensar assim só agora. A primeira vez que percebi isto era ainda estagiário. Agora melhorei isso, mas no meu tempo os estagiários, acabados de chegar, eram forçados aos trabalhos mais aborrecidos e degradantes da empresa. Foi então que tomei o meu caminho como uma Via-Sacra, aceitando cada obstáculo, insulto e percalço como os de Jesus. Qualquer pessoa, em qualquer vida que tenha, pode sempre vivê-la aos pés da cruz. Eu, como sou gestor, sinto-a na empresa, mas muitos outros a sentem nas actividades variadas em que vivem. Um amigo meu... Tu deves conhecer, o António Pinto Leite, escreveu há uns anos um livro muito bom chamado O Amor como Critério de Gestão. Vale a pena ler. Eu não sei escrever livros, mas se escrevesse um chamar-se-ia: A Cruz como Instrumento de Gestão. Um dia até sou capaz de sugerir ao António que ele o escreva. Mas a cruz, além da gestão, é instrumento de tanta coisa mais..."
"Estava aqui a pensar que isto tem graça, precisamente porque toda a gente te acusa, e a ti e aos teus colegas, de serem capitalistas gananciosos e exploradores, gestores impiedosos e desumanos..."
"Eu sei. Acham que sou um demónio. Ou, pior, chefe de demónios. Mas isso alegra-me, porque foi também assim que trataram o Senhor Jesus: "É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios" (Mt 9, 34). Hoje em dia, os gestores e financeiros são mais desprezados e insultados, até pelos cristãos, do que as prostitutas e os publicanos do tempo de Jesus. Mas era com esses que Cristo gostava de estar. Rezo pelos fariseus que me acusam sem me conhecerem, e não os acuso, porque o Senhor está com os acusados e condena os acusadores. Cada vez que leio as notícias ou ouço conversas sobre mim ou a empresa sinto-me ainda mais identificado com o Senhor."
Nesse momento tocou o telefone. Fiz menção de sair mas ele indicou--me uma cadeira e atendeu. Não percebi quem era, mas tratava-se evidentemente de uma negociação que correra mal e o interlocutor culpava o Vasco disso. Inicialmente ele tentava justificar-se, mas ia ficando calado. Quando o telefonema acabou ele esteve alguns minutos silencioso, com os olhos em baixo. Depois olhou-me, sorriu e disse: "Sétima estação - Jesus cai pela segunda vez."

terça-feira, 31 de março de 2015

De Jesus a Judas, de Maria aos ladrões. As figuras da Páscoa

RR online 31-03-2015 11:39 por Filipe d'Avillez

Jesus é a figura principal da Páscoa, mas há muitos outros que desempenham papéis importantes.

Jesus 
Jesus Cristo é mais do que uma mera figura da história da Páscoa, mais até do que a sua figura principal: Jesus é a Páscoa. 
Tal como os judeus celebravam naquela data a abertura do Mar Vermelho que lhes permitiu escapar por entre as águas ao exército do faraó, Jesus, pela sua morte e ressurreição, permite à humanidade escapar ao domínio da morte, restaurando definitivamente a relação com Deus.
"Cristo carrega a cruz". Quadro de Eustache Le Sueur


Também a ressurreição não é apenas mais um detalhe da vida de Cristo. Sem ela, como diz São Paulo, toda a fé é vã e a vida de Jesus resume-se a mais uma história de um autoproclamado messias falhado, como tantos outros de tantas épocas da história. 
Não existem provas históricas do evento, como não existem de que não tenha acontecido. Aos cristãos basta a fé nos Evangelhos e na tradição recebida dos Apóstolos. Mas uma coisa parece certa: alguma coisa aconteceu, historicamente falando, que mudou aqueles homens que tinham aderido a Jesus. Alguma coisa os impeliu a darem-se totalmente por Ele, pregando a sua ressurreição e a sua vida até ao ponto do sacrifício das suas próprias vidas por Ele. 
Foi a Páscoa que aconteceu na vida daquelas pessoas e que continua a acontecer na vida de cristãos hoje. 


Maria, mãe de Jesus


Maria vai surgindo ao longo dos Evangelhos, sempre com uma presença discreta, desde o momento em que dá o seu "sim" ao anjo da Anunciação. 
Embora não seja referida muitas vezes, pelas indicações que existem, calcula-se que Maria acompanha Cristo, vivendo com Ele e com os seus discípulos e, ao contrário de tantos destes, é das poucas pessoas que não O abandona mesmo na hora da morte. 
Segundo os evangelistas, Maria estava aos pés da cruz quando Jesus foi crucificado, recordando talvez a profecia de Simão, aquando da apresentação do menino Jesus no Templo, 33 anos antes: "Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." 
Dirigindo-se a Maria, Simão completou: "E uma espada transpassará a tua alma". 
Tal como outros mistérios e eventos da vida de Cristo, Maria guarda tudo isto no seu coração, sem entender verdadeiramente, até que no domingo seguinte a ressurreição torna-se a chave que permite compreender tudo o resto. 
A tradição cristã coloca ainda Maria com os apóstolos quando Jesus faz descer sobre eles o Espírito Santo, enchendo-os de coragem e fé para anunciar a Boa Nova a todos os povos. 

Maria Madalena


Maria Madalena era claramente uma pessoa muito próxima de Jesus e essa proximidade manteve-se até ao final. Quando praticamente todos tinham abandonado Cristo, só ela, o apóstolo João, Nossa Senhora e a sua irmã, é que permanecem aos pés da cruz. 
Maria Madalena volta a destacar-se no relato bíblico no Domingo de Páscoa por ser a primeira pessoa a chegar ao túmulo. Em três dos Evangelhos são várias as mulheres que vão ao sepulcro para tratar do corpo de Jesus. Fazem-no só no domingo de manhã porque na sexta-feira não teriam tempo antes do pôr-do-sol, altura em que começavam a observar as disciplinas do sábado, que as impediam de exercer esse tipo de trabalho. 
Mas no Evangelho de São João só se refere Maria Madalena e nessa narrativa consta que ela encontrou o sepulcro aberto e vazio. A discípula começou a chorar, porque pensava que alguém tinha roubado o corpo de Jesus. É a chorar que encontra um homem que pensa ser o jardineiro, a quem pergunta onde colocaram o seu mestre. 
Basta que Cristo pronuncie o seu nome e imediatamente Maria o reconhece por quem é. Atirando-se aos seus pés, recebe de Jesus uma ordem: "Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que eu vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus". 

Pedro



Homem de entusiasmos, São Pedro aparece frequentemente nos Evangelhos a dizer ou a fazer a coisa errada, embora com a melhor das intenções. As narrativas da Paixão e da Páscoa não são excepção. 
Esta faceta revela-se logo na Quinta-feira Santa, quando Jesus começa a lavar os pés aos seus discípulos. Pedro, sem compreender, recusa o gesto de forma imperativa. Jamais! Mas quando Jesus lhe explica que se não lhe lavar os pés Pedro não poderá acompanhá-lo no Reino de Deus, o apóstolo muda de discurso e diz que, nesse caso, que lhe lave não só os pés mas também as mãos e a cabeça. 
Mais tarde, no Jardim das Oliveiras, Pedro é o único que reage com violência quando Judas chega com o seu séquito para mandar prender Jesus. Puxando da espada, corta uma orelha a um dos guardas. É aqui que Jesus o repreende, deixando para a posteridade uma das expressões mais usadas na Bíblia: "Quem vive pela espada, morre pela espada". 
Pedro segue então com João para tentar ver para onde levaram Jesus e aí, apesar de horas antes ter garantido que preferia morrer do que trair o seu mestre, nega-o três vezes, tal como tinha sido previsto. 
Então, Pedro desaparece de cena e só reaparece no Domingo de Páscoa, a correr para o túmulo de Jesus, depois de as mulheres terem dito que o corpo de Cristo não está no sepulcro. 
Diz uma tradição antiga que São Pedro ficou com canais cravados na cara, de onde escorreram as lágrimas de arrependimento que chorou por ter negado Jesus, mas certo é que essa infidelidade foi a última, e mesmo quando foi crucificado, o apóstolo pediu para o pendurarem de pernas para o ar, por não ser digno de ter uma morte igual à de Cristo. 

João


De todos os discípulos de Jesus, São João era o mais novo e, por isso mesmo, aquele de quem se esperava menos responsabilidade. Mas acaba por ser o único que permanece perto de Jesus mesmo até ao fim. 
Quando Cristo é preso, a maioria dos discípulos foge, mas João e Pedro ficam perto dele, acompanhando-o até ao palácio onde estava a ser interrogado pelos sacerdotes. 
Mas quando Jesus é elevado na cruz, Pedro já desapareceu de cena e dos discípulos só João permanece para acompanhar as mulheres mais próximas de Cristo. 
Do alto da cruz, Jesus pede ao discípulo para cuidar da sua mãe e a ela para encarar João como seu filho. 
João volta a aparecer em cena na manhã de Páscoa. Quando as mulheres dizem que o corpo de Jesus desapareceu do sepulcro, João e Pedro correm para lá para ver com os seus olhos. 
João, sendo mais novo, chega primeiro mas, numa clara referência à primazia de Pedro entre o grupo, não obstante o facto de ter negado Jesus dias antes, o discípulo mais novo espera e deixa-o entrar primeiro. 
É nessa altura que encontram as ligaduras removidas e o túmulo vazio, começando verdadeiramente a acreditar que Cristo ressuscitou. 

Judas



Na história da Páscoa, Judas é sem dúvida o vilão. 
A atitude dos fariseus e dos sacerdotes é justificada pela sua preocupação em evitar uma rebelião, a de Pilatos pelo medo de represálias por parte dos seus superiores. Mas Judas é simplesmente um traidor. 
O discípulo de Cristo não se limita a entregar o amigo, lucra com isso. Trinta moedas de prata é o preço indicado no Antigo Testamento para compra e venda de escravos, o que tem um simbolismo importante. 
Depois de ter saído da Última Ceia para ir ter com os sacerdotes, Judas lidera um grupo de homens armados que encontra Jesus no Monte das Oliveiras e o prende. O sinal usado por Judas para mostrar quem é Jesus é um beijo, precisamente um gesto de amizade e intimidade. 
A história de Judas contrasta com a de outras figuras da Bíblia, como o Bom Ladrão e São Pedro, que se arrependem dos seus pecados e acabam reconciliados com Jesus. 
Judas não é capaz de pedir esse perdão e acaba por ceder ao desespero, matando-se. 

Simão de Cirene



A Bíblia fala pouco de Simão de Cirene, dizendo apenas que ele foi obrigado pelos guardas a ajudar Jesus a carregar a cruz. 
O facto de ter sido obrigado e não se ter oferecido parece retirar valor ao acto e, se fosse só por essa ajuda involuntária, dificilmente se perceberia porque é que ele ganhou tanta importância na tradição cristã. 
Mas há um detalhe aparentemente menor mas que poderá ter toda a importância. Na tradição do Médio Oriente, as pessoas tendiam a ser identificadas em referência ao seu pai. Mas, no Evangelho de São Marcos, Simão de Cirene é apresentado como "pai de Alexandre e de Rufino". 
O facto de serem mencionados os filhos é entendido como indicação de que eles eram conhecidos dos primeiros cristãos e isso, por sua vez, é visto como prova de que Simão de Cirene se teria convertido, pelo que os seus filhos eram também cristãos. 
Ora, a confirmar-se esta teoria, Simão de Cirene passa a ser visto sob outra luz: como alguém que, apesar de ter entrado para a história de Jesus involuntariamente, acabou por ser de tal forma transformado por Ele que mudou radicalmente de vida. 

Verónica 



Na história da Paixão, Verónica é a mulher que limpa a face a Jesus quando ele está a caminho do Calvário para ser crucificado. 
A história, contudo, não é referida na Bíblia, pertencendo unicamente a tradições posteriores. Estas tradições são até elaboradas, havendo uma que identifica Verónica com a mulher doente, que se curou quando tocou na orla do manto de Jesus. 
A história de Verónica está ligada também a uma relíquia. Consta que no pano que foi usado para limpar a cara de Cristo ficou marcada, milagrosamente, a sua imagem. 
Verónica tem também um valor simbólico importante, representando as mulheres de Jerusalém que se comoveram e choraram por Jesus, mostrando assim que a condenação popular não foi universal e que ainda havia quem se compadecia de Cristo. 

Nicodemos



A Bíblia apresenta muitas vezes Jesus em oposição aos fariseus e aos sacerdotes, mas sabemos também que Cristo, em termos de crenças, era da facção dos fariseus e Nicodemos comprova também que alguns destes acreditavam nele. 
Nicodemos só aparece no Evangelho de São João e a sua história é claramente de conversão. 
No terceiro capítulo, o fariseu vai ter com Jesus para discutir os seus ensinamentos. Quando se apresenta nota-se claramente que vem com boa vontade e disposto a acreditar em Cristo. Mas é importante o detalhe que diz que ele faz a visita de noite, provavelmente com medo de ser visto pelos outros fariseus. 
Já quando Jesus é julgado diante do Sinédrio, Nicodemos é dos únicos que tem coragem de levantar a voz em sua defesa. De nada serve, mas pelo menos não fica calado. 
Mais tarde, depois de Cristo ter sido crucificado, precisamente na altura em que era mais conveniente disfarçar a sua fé, Nicodemos assume-a e é ele quem leva os óleos e os perfumes para tratar o cadáver de Jesus. 
Um detalhe interessante é a quantidade de perfumes e óleos levados, que pesavam mais de cem libras. Segundo São João, isto só seria expectável para uma funeral real, sendo interpretado por isso como um símbolo da crença na realiza divina de Jesus. 

Os dois ladrões



O Novo Testamento não nos diz, mas, segundo a tradição, os nomes de dos dois ladrões crucificados com Jesus eram Dimas e Gestas. 
A passagem relativa a estes dois homens é uma das mais marcantes de toda a Paixão. Jesus é crucificado juntamente com ladrões, comprovando que está mesmo a ser tratado como um criminoso. 
De certa forma os dois ladrões representam a humanidade. Todos pecadores, os homens olham para Cristo no auge do seu sacrifício e reagem de duas maneiras diferentes. 
Uns gozam e criticam, como fez Gestas: "Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós". Mas outros comovem-se e convertem-se, como fez Dimas: "Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez. E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino." 
Dimas tem ainda a particularidade de ser a única pessoa a quem Jesus garante a salvação, quando responde: "Ainda hoje estarás comigo no reino do meu Pai", uma promessa que revela como até os maiores pecadores se podem salvar, caso se arrependam e se convertam antes da morte. 
A Igreja de tradição siríaca, no Médio Oriente, pegou nesta história e criou um poema chamado "O ladrão e o querubim", que consiste de um diálogo entre Dimas e o anjo que guardava a porta do paraíso. O homem comparece, conforme Cristo lhe prometera, no próprio dia, mas, uma vez que Jesus ainda não ressuscitou (e a humanidade ainda não foi redimida), o querubim continua a ter ordens para não deixar entrar ninguém. 
Os dois discutem longamente e a cena termina quando Dimas retira uma cruz e mostra que é com essa autoridade que ele exige entrada. Perante a força do símbolo da Cruz, o querubim cai prostrado no chão e Dimas entra para o paraíso. 
Noutra história apócrifa, conta-se que a Sagrada Família foi abordada por ladrões quando se dirigia ao Egipto para fugir aos soldados de Herodes. O bando seria liderado por Dimas e Gestas e, apesar de Gestas não mostrar piedade pela situação da família, Dimas acaba por intervir e impedir o assalto. 

Pilatos




Pôncio Pilatos é uma figura central da história da Páscoa. 
Enquanto representante do Imperador em Jerusalém, só ele tem o poder de condenar Jesus à morte, conforme pedem os sacerdotes. 
Jesus é por isso apresentado ao governador e os dois mantêm um dos mais interessantes diálogos de todo o Novo Testamento. 
Quando Jesus afirma que quem é da verdade escuta as suas palavras, Pilatos concentra em apenas uma frase toda a mentalidade relativista que, para a Igreja, marca a sociedade moderna: "O que é a verdade?" 
Noutra altura Pilatos puxa dos seus galões e informa Cristo que ele tem o poder de o libertar ou mandar matar, mas a resposta de Jesus esvazia-lhe completamente o ego: "Nenhum poder terias sobre mim se não te tivesse sido dado de cima". 
E é precisamente isso que Pilatos comprova com o seu comportamento. Apesar de acreditar na inocência de Jesus, essa convicção não se sobrepõe ao medo que sente tanto da multidão como dos seus superiores. Tem poder, mas não sabe usá-lo a favor do bem – um problema bem actual. 
As referências a Pilatos atingem o seu clímax quando, vendo frustrada a sua última esperança de conseguir a libertação de Jesus pelo facto de a multidão ter preferido soltar o salteador Barrabás, o governador manda vir um recipiente com água e lava, literalmente, as suas mãos do crime que está prestes a acontecer. Nesse momento se vê de que serve, realmente, o poder de que tanto se gabara poucos minutos antes. 
Pilatos fica, por isso, bastante mal visto nos relatos evangélicos. Mas existe a possibilidade de ter havido alguma redenção. Algumas igrejas orientais, nomeadamente a Etíope e a Arménia, consideram que Pilatos acabou por se arrepender, converter e morrer mártir por Cristo, uma tradição que não existe, contudo, na Igreja Católica. 

Sumo-sacerdotes



A Bíblia refere dois sumo-sacerdotes que conspiraram para mandar matar Jesus: Anás e Caifás. Nestes dois líderes do judaísmo de então concentra-se toda a elite religiosa de Jerusalém no tempo de Jesus. 
A situação dos sumo-sacerdotes não era nada invejável. Sabendo que os romanos temiam uma insurreição, que esmagariam sem piedade, os sumo-sacerdotes vêem a chegada triunfal de Jesus com a maior preocupação. Para eles trata-se de apenas mais uma figura messiânica. 
Não obstante, o Evangelho deixa claro que os sacerdotes tomaram conscientemente a decisão de mandar matar um homem inocente para daí retirar um "bem maior": poupar o povo a um massacre e São João atribui a Caifás a expressão: "É conveniente que um só homem morra pelo povo". 
Neste plano dos sumo-sacerdotes, Judas é uma personagem-chave. É ele quem, estando por dentro do grupo mais próximo de Jesus, está em posição de o trair no seu momento de maior vulnerabilidade. 
Jesus é preso na madrugada de Sexta-feira Santa e conduzido ao Sinédrio, onde se reuniam os líderes religiosos dos judeus. Sabendo que ele era inocente, os sacerdotes arranjam falsos testemunhos, mas acaba por ser com base nas palavras de Jesus, que diz ser Filho de Deus, que o condenam por blasfémia. 
Mas em Israel, naquela era, o monopólio da pena capital pertencia aos romanos e é por isso que os sacerdotes entregam Jesus a Pôncio Pilatos e arranjam forma de garantir a presença de uma multidão que recuse a sua libertação, levando à sua crucificação pública. 
Os Evangelhos apresentam ainda a hipocrisia dos líderes religiosos que obrigam Pilatos a sair do seu palácio, no qual não podem entrar para não se tornarem impuros e, por isso, não poderem celebrar a Páscoa. 
A grande preocupação de Caifás, Anás e o seu séquito – seguir a letra da lei mesmo enquanto condenam à morte um inocente – é assim sublinhada. 

Multidão



Os Evangelhos contam que quando Jesus entrou em Jerusalém foi recebido de forma triunfal pela multidão, que o aclamou como rei. 
Bastam alguns dias para que outra multidão se reúna para pedir a crucificação de Jesus. É esta multidão que, confrontada com a possibilidade de libertar Cristo ou Barrabás, opta pelo salteador e exige que Jesus seja morto. 
Mas seria a mesma multidão? Este é um assunto que motiva grande discussão entre os estudiosos da Bíblia. Por um lado, a história revela a facilidade com que as pessoas são manipuladas quando se encontram em grupo (e, nesse sentido, é uma lição intemporal). Mas outra teoria é de que se trata de grupos completamente diferentes. 
À chegada a Jerusalém Jesus teria sido saudado e aclamado essencialmente por pessoas que, como ele, vinham da Galileia e que poderão mesmo ter viajado juntos para a grande festa na capital. Eram pessoas que já conheciam Jesus e o seu ministério de três anos. Esta tese é suportada pelo Evangelho de São Mateus, que diz o seguinte: 
"E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia, clamava: Hossana ao filho de David! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hossana no mais alto dos céus! Quando ele entrou em Jerusalém, alvoroçou-se toda a cidade, perguntando: Quem é este? A multidão respondia: É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia." (Mt. 21, 9-11) 
Ora, se Jesus era desconhecido em Jerusalém ao ponto de a maioria do povo ter de perguntar quem ele era, então é natural que a multidão que o aclamou fosse constituída de facto por galileus que o conheciam já. 
Já o povo que se concentrou para apelar à sua morte, segundo esta teoria, seria composta por gente local, sobretudo pessoas arregimentadas pelos sumo-sacerdotes que procuravam a morte de Jesus. 
Seja como for, os gritos da multidão naquela Sexta-feira Santa é a representação máxima da rejeição da luz e da verdade por parte dos israelitas, tal como São João refere no início do seu Evangelho: "Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam." (João 1,10-11) 

Fontes das imagens: 
Maria e Pilatos: iluminuras etíopes; Dois ladrões: iluminura do Evangelho de Rábula; Nicodemos: pintura de Henry Ossawa Tanner; Sumo-sacerdotes: "Jesus diante do Sinédrio", de Alessandro Mantovani; Pedro: pintura de Guercino; Simão de Cirene: imagem exposta na Galeria Nacional do Zimbabué; Verónica: estátuta no Vaticano de Francesco Mochi; Multidão: ícone moderno copta

Padre que reabilita toxicodependentes diz que "homem é mais do que uma ficha médica"

RRonline 31-03-2015 20:59 por Aura Miguel 

"Homem é mais do que uma ficha médica"

A Associação Vale de Acór dedica-se há 21 anos a recuperar toxicodependentes. Em todos eles, pobres ou ricos, há uma coisa em comum: "querem fugir à dor e ao sofrimento", diz o fundador da associação, Pedro Quintela.
É um padre com uma vasta experiência de acompanhamento de casos difíceis, de gente esmagada pelo consumo de drogas e outras atribulações da vida. Pedro Quintela fundou há 21 anos a Associação Vale de Ácor, em Almada. Diz que o ambiente de uma comunidade é regenerativo: "O homem ultrapassa muito o que diz o boletim clínico do próprio homem." 
A Associação Vale de Acór é uma instituição particular de solidariedade social, sem fins lucrativos, que trabalha desde 1994 no âmbito da recuperação de dependentes. 
"Todos temos dentro de nós uma capacidade regeneradora", diz o padre da diocese de Setúbal em entrevista ao programa "Terça à Noite", da Renascença. 
O método da Associação Vale de Acór aposta na logoterapia. Quintela explica porquê: "O que nos cura não é mexer muito no passado, como as correntes freudianas; não é a pretensão sobre o presente, como dizem outras correntes. Aquilo que me pode libertar do que está a acontecer de negativo e destrutivo, é encontrar para a vida um significado, um sentido". 
O padre sublinha a urgente necessidade de olhar para a pessoa no seu todo, sem a reduzir aos seus problemas ou erros. Recorda o caso do Joaquim, que "veio de um hospital público para morrer, com uma patologia irreversível e que hoje ainda lá está". 
"Mais importante do que a tragédia pessoal é a absoluta consciência destas pessoas de que precisam de salvação", afirma.
Ouvir a entrevista integral aqui

Forever youg

Afonso Reis Cabral | Observador 31/3/2015

Não há dia sem que o discurso dos eternos jovens nos perturbe. Os 30 são os novos 20, os 40 os novos 30, os 50 os novos 40. Só a minha avó não tem o privilégio de os 100 serem os novos 90.
Embora façam parte do ofício, desconfio dos adjectivos. Demasiadas vezes fogem à essência das coisas. São excesso em relação ao que é puro. Em especial quando os desbaratamos, cravados nas palavras ao acaso. Têm o efeito de parecerem belos, pouco mais. Crescem na maneira comum de falar, de expor as coisas, e a certa altura deixamos de nos entender.
Os que mais me incomodam são aqueles que vêm às costas da idade. Jovem. Tomemos como exemplo 25 anos. Os 25 anos que hoje faço. Caminho para fora de jovem, e é normal e bom que isso aconteça. Aliás, é inevitável. Mas em 25 anos nasce e morre um burro; fazem-se filhos e livros, mais livros do que filhos; ao ritmo de passeio daríamos pelo menos uma volta ao mundo, isto se não parássemos num sítio bonito; e a oliveira de Santa Iria da Azóia, indiferente ao caminho dos anos, deixa cair um ramo. A lista continua, e poderia não acabar. Mas em 25 anos, desgraçadamente, não conseguimos sair da Terra do Nunca.
Sim, pouca vida, talvez não chegue para a saber de cor, mas já é demasiada para caber num único adjectivo. (Nem imagino o que sentirão os que chegaram ao outro lado da idade, quando lhes atiram «idoso» para cima.)
Mais do que jovens, agora somos adolescentes até muito tarde. Explico-me mal. Agora somos vistos como adolescentes até muito tarde. Tarde de mais. Será mau uso do adjectivo ou mau uso da realidade? Não estou certo de que o problema esteja na linguagem, apesar de esta abranger tudo. Talvez seja reflexo de uma sociedade envelhecida e infantilizada. Os dois não jogam bem. Ou até de uma sociedade esquecida.
Vemos a juventude como bálsamo, oásis. Paraíso perdido. Esquecemo-nos de que a vida tem durezas em qualquer idade e que a sabedoria nem sempre vem com os anos. Ao mesmo tempo, desconfiamos da juventude. Achamo-la saída da Casa dos Segredos. Confundimos jovens com imbecis. Com incapazes. A imaturidade torna-se excesso de zelo. É este o mal de falhar os adjectivos, de forçá-los a um estereótipo.
E depois dá nisto: Peter Pans de 35, 40, 45. A dada altura deixa de fazer sentido usar adjectivos. Nós próprios, do lado de cá, caímos no ridículo de nos acharmos de facto adolescentes, embora tenhamos 20, 25, 30 anos. Retardamos a maioridade, pensamo-nos pequenos, delegamos, entregamos esse bem na mão dos outros. Deixamo-nos levar. Acreditamos mesmo que continuamos teenagers. Não há dia sem que o discurso dos eternos jovens nos perturbe. Os 30 são os novos 20, os 40 os novos 30, os 50 os novos 40. Só a minha avó não tem o privilégio de os 100 serem os novos 90.
A vida é tão diversa que não permite reduções. Com certeza teremos menos experiência, mas o ser humano, na sua estrutura, a determinado momento (quando ao certo não sei, certamente mais cedo do que se supõe) ultrapassa as limitações, e também os privilégios, do adjectivo jovem. Acontece que esse limiar é mais e mais uma bola, e nós crianças atrás dela. Chegamos perto, damos-lhe um pontapé e a ela foge-nos. Menorizamo-nos quando nos deixamos fechar num adjectivo. Prefiro a liberdade.
Depois há ser-se jovem de outra forma. Essa esconde-se do adjectivo. É a única que vale a pena. Claro que quero ser jovem para sempre. Felizmente isso não depende da idade.

Terça-feira Santa

«Darás a vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo, sem que Me tenhas negado três vezes».  
Jo 13, 30


«Em verdade te digo: não cantará o galo, antes de Me teres negado três vezes!»

Comentário de Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja 
Tratado sobre São Lucas 10, 49-52, 87-89

Irmãos convertamo-nos: tomemos cuidado para que não ocorram entre nós disputas de precedência para nossa perdição. É verdade que os apóstolos discutiam entre si (cf Lc 22,24), mas isso não é desculpa para nós: é um convite a tomarmos cuidado. É certo que Pedro se converteu no dia em que respondeu ao chamamento do Mestre, mas quem pode afirmar que a sua própria conversão foi repentina? 
O Senhor dá-nos exemplo. Nós tínhamos necessidade de tudo; Ele não precisa de ninguém e, no entanto, apresenta-Se como mestre de humildade, servindo os seus discípulos. 
Pedro, rápido de espírito, mas ainda frágil nas disposições do corpo (cf Mt 26,41), foi prevenido de que iria negar o Senhor. A Paixão do Senhor encontra imitadores, mas não iguais. Assim, não censuro Pedro por ter negado o Senhor; felicito-o por ter chorado. Uma coisa vem da nossa condição humana, a outra é um sinal de virtude, de força interior. 
Mas, se nós o desculpamos, ele não se desculpou. 
Preferiu acusar-se do seu pecado e justificar-se com uma confissão, em vez de agravar o seu caso com negações. E chorou. 
Pedro chorou, mas não se desculpou. Quem não se pode defender pode lavar-se: as lágrimas lavam as faltas que nos fazem corar quando as confessamos de viva voz. 
As lágrimas confessam a falta sem tremer ; as lágrimas não pedem perdão e, no entanto, obtêm-no. 
Boas lágrimas, as que lavam a falta! E aqueles para quem Jesus olha sabem chorar. Pedro negou uma primeira vez e não chorou, porque o Senhor não estava a olhar. Negou uma segunda vez, ainda sem chorar, pois o Senhor ainda não estava a olhar. Negou uma terceira vez; Jesus olhou para ele e ele chorou amargamente. Olha para nós, Senhor Jesus, para que saibamos chorar os nossos pecados.

Novo alento

Anteontem, na sessão de encerramento do Meeting Lisboa conheci o Miguel Araújo, fundador dos Azeitonas. Despertou-me a atenção o facto de procurar nas suas letras cantar a normalidade, o português médio, o José Faria dos Santos. Porém, o que o intrigava era como é que no meio desta banalidade geral todos encontravam como que por feitiço, sempre um novo alento
Ontem, ao ler o artigo do José Manuel Fernandes no Observador dei-me conta que, na sessão de sábado da manhã em que tinha participado, lhe tinham perguntado "se sabia explicar o contraste entre o país… onde muita gente andava a tentar dar a volta à vida e muitas empresas estavam a reinventar-se para voltarem a crescer, e o país … todos os dias retratado na generalidade da comunicação social, um país sempre a anunciar a catástrofe iminente ou a lamentar mais uma desgraça". O debate que daqui resultou, diz José Manuel Fernandes, "alterou o estado de espírito algo sombrio com que entrara naquela enorme tenda junto do CCB onde decorria esse evento, o Meeting de Lisboa". Entendi isto como sendo o José Manuel Fernandes a dizer que tinha saído do Meeting "com um novo alento".
Hoje ao entrar na Tapada da Ajuda, onde trabalho, a chegada visível da Primavera deu-me "um novo alento".
Hoje foi o funeral de um agrónomo com notoriedade pública, o Engº Armando Sevinate Pinto, e que foi também, um homem livre, corajoso e que nunca sacrificou a sua liberdade de expressão às conveniências. 
À saída, um colega confidenciou-me que, apesar de serem politicamente adversários, tinha um enorme respeito pela liberdade de pensamento e de acção do Armando Sevinate Pinto. Saí dali "com um novo alento".
Qual é então o feitiço?
A beleza da natureza que desperta do sono do Inverno, o entusiasmo dos jovens que procuram dar a volta à vida mesmo em circunstâncias difíceis e a percepção de que a humanidade verdadeira não passa sem ser reconhecida são sinal de uma realidade positiva que tem a sua raiz no presente mas é também promessa de futuro. 
É esta promessa de futuro que identifico como o novo alento do homem normal cantado pelo Miguel Araújo.
Neste início de Semana Santa o drama da paixão e morte de Jesus seria um desalento se Jesus não tivesse ressuscitado?, pergunta Paulo Rangel