terça-feira, 15 de Abril de 2014

“Eu não vou acabar na terra, vou ressuscitar em Cristo”

RR online 15-04-2014 13:08 por Aura Miguel

Duas mulheres, que vivem intensamente a vida presente, falam da serenidade com que encaram a morte.  

A morte é a maior certeza de cada um, mas como é que a encaramos? Quem ama a vida pensa na morte? Com desassossego ou com serenidade? Na semana em que os cristãos de todo o mundo reflectem sobre o mistério pascal, da morte e ressurreição de Cristo, a Renascença foi à procura do testemunho de pessoas que vivem profundamente, mas que encaram a morte com serenidade. 

"Quem gosta de viver não pode ter medo de morrer. Vejo que há muitas pessoas que encaram a hora da morte como algo tormentoso, que gera angústia e faz com que o fim da vida não seja vivida com tanta plenitude", considera Isabel Jonet, fundadora do Banco Alimentar. 

Ajudar pessoas a morrer é um desejo muito concreto que partiu da própria experiência que Isabel teve, também, com a morte do pai, de quem estava ao lado quando morreu. Foi uma experiência tão forte que tive a certeza que queria poder ajudar pessoas a poderem passar para a outra vida. 

"Às vezes vejo pessoas que têm medo de morrer porque não estão em paz com aquilo que achavam que poderiam ter feito. Quando digo que gostava de ajudar pessoas a fazer essa passagem com mais serenidade é sem recriminações. Muitas vezes as pessoas que não se deixam libertar é porque têm recriminações e arrependimentos e penas de coisas que não fizeram. Acho que essas penas devem-se ter ao longo da vida e não naquele momento." 

E, quando se acompanha alguém nestas circunstâncias, o que é que se diz quando a vida terrena chega ao fim? "Estamos de passagem nesta terra e o nosso céu começa na terra. Está nas nossas mãos fazer o nosso céu. Aquilo que pode vir tem de ser melhor." 

Nosso matrimónio apontou para a eternidade 
Leonor Ribeiro e Castro é outra pessoa que nunca fugiu dos desafios que a vida lhe lançou. Mãe de 13 filhos e com uma actividade incansável a favor da promoção da vida e da dignidade humana, perdeu o seu marido há poucas semanas: "No dia de São José ele perguntou, o que é que São José tem reservado para mim este ano? Eu respondi, o Céu amor. Ele morreu no dia seguinte." 

Leonor e Fernando Ribeiro e Castro viveram uma vida feliz e intensa. Três semanas depois de ficar viúva, Leonor aceitou falar do assunto: "Há uma saudade profunda, uma dor de quem muito ama, muito sofre, é uma dor física, de quem quer apertá-lo, ouvir a porta, a voz. Tudo acabou. Mas não houve morte. Está na tal viagem. O navio partiu, já está no Céu." 

Com a eternidade no horizonte, Leonor e Fernando receberam a notícia da doença incurável: "O nosso matrimónio apontou sempre para a eternidade. A missão de um casal é ajudar a levar o outro para o Céu. Dizemos isso aos noivos, apontem para a eternidade." 

As razões de esperança que animam a vida Leonor servem para todos. E isso leva-a a deixar conselhos para que a vida aconteça a todos, na Terra e no Céu! 

"Procurem um sacerdote, conversem com um sacerdote sobre a eternidade. Não se fala da eternidade, não se fala de Céu. Fala-se muito de Inferno, falta falar de Céu. É preciso ir morrendo aqui para aquilo que é morte e não deixa que a vida aconteça, tanta coisa que provoca isso, se formos morrendo para isso, quando chegar o dia, não há morte." 

"Isto é uma passagem, e temos de a fazer o melhor possível. E eu não vou acabar na terra, porque se Cristo ressuscitou, e eu acredito nessa ressurreição, eu vou ressuscitar com Cristo. A minha fé diz-me isso. Mas passa por uma paixão", conclui.

20th Workshop APDR - Domus Carmeli, Fátima (Portugal), 27-28 April 2014




"FAMILY AND REGIONAL DEVELOPMENT"
20th Workshop APDR
Domus Carmeli, Fátima (Portugal), 27-28 April 2014


The 
Portuguese Association for Regional Development brings together scientists that discuss the interactions of man with the territory or, in other words, the issues related to the development of people and places. The mobilizing themes evolve according to fashions and so it´s going talking about the location of public and private efforts, and the location and size of the companies and the interactions between them, migration, desertification of the peripheries and congestion of the centres. There are also sectoral issues with strong spatial reference that come to the floor like tourism, communications, infrastructure, environment, agriculture and transport. The discourse on recognizable entities such as SMEs, NGOs, IPSS, municipalities, stakeholders, state and multinationals is also important for the regional development. And do not forget the names of evolving terms such as human capital, cultural, social and institutional issues; economies of scale, agglomeration or context. All these concepts and models that connect them are important and help us to realize and understand regional development.

The strange thing is that we never speak explicitly on Family and Regional Development. There is some literature on economic development and family on the role of women in development and on social capital and development. Talking about other settings, family is sometimes referred to as an obstacle to development in Africa or as an intrinsic part in the development process in China.

However it seems to clearly avoid the term family and regional development even though it appears the family dimension in educational processes, in ownership regimes and in the spatial distribution of their budgets, on corporate sustainability, in dynamic migration, transport systems, networks of communication, the environment of housing and many other dimensions that influence the development of people and places.

In Gilles Duranton and Andres Rodriguez-Pose article (Economic Geography 85 (1): 23-47) 2009 say that while the literature recognizes the role of institutions in development there are less common studies on regional development and the the family. And although that article reaches some interesting correlations there is a great space to explore that challenges us.

This workshop aims, on the one hand, to introduce the family dimension in the analysis of regional development and, on the other hand, to include spatial reflections on family and development. There is definitely a starting point since much has been said about family and regional development. This meeting is a cross road for prospective cognitive models that integrate family and regional development, methods of observation that allow to test ideas and decision support tools that consider the dynamics and effectiveness of family capital.

Key-note speakers:
Professor of Economic Geography at the LSE
Vice-President of the European Regional Science Association
President-Elect of Regional Science Association International

Professor of Economics at the CATÓLICA-LISBON School of Business & Economics
President of the Scientific Council of CATÓLICA-LISBON

For more information see:  http://www.apdr.pt/evento_20 

Thank you for your kind attention and support. We look forward to meet you at the conference.

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Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Regional
Universidade dos Açores | Rua Capitão João D'Ávila | 9700-042 - Angra do Heroísmo
Tel/Fax: (+351) 295 332 001 | http://www.apdr.pt | E-mail: apdr@apdr.pt;
Contribuinte n.º PT 501 644 180 | Associação privada sem fins lucrativos
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Eutanásia

Luís Cabral RR online 15-04-2014
Dentro de algumas décadas, quando a Europa compreender os erros em que caiu ao submeter-se à ideologia utilitarista, o que é que as pessoas pensarão de nós?

A marcha da cultura da morte não para. Recentemente, a Bélgica passou uma lei que efectivamente legaliza a eutanásia de crianças.
Infelizmente, a eutanásia, tal como a eugenia, não é um fenómeno do século XXI. Basta recuar ao regime nazi para nos depararmos com estes e outros crimes contra a humanidade.
Por vezes pergunto-me o que é que as pessoas pensavam na Alemanha durante os anos 30 e 40? Estariam informados sobre o que se passava? Teriam alguma possibilidade de protestar contra os crimes cometidos pela máquina nazi?
Por vezes pergunto-me também: dentro de algumas décadas, quando a Europa compreender os erros em que caiu ao submeter-se à ideologia utilitarista, o que é que as pessoas pensarão de nós? Provavelmente farão as mesmas perguntas que nós agora fazemos a respeito dos nossos predecessores.

Brendan Eich? Like!

RR online 09-04-2014 19:55 por José Luís Ramos Pinheiro

Defendo a liberdade, e não proponho a demissão de quem pensa diferente, mas eu estou do lado do senhor Brendan Eich: continuo a ver o matrimónio como uma união entre um homem e uma mulher.

Fixem este nome – Brendan Eich. Trata-se de um gestor norte-americano que acabou de ser forçado a demitir-se da administração da empresa que criou o motor de busca Firefox, apenas duas semanas depois de ser nomeado.
E o que fez de mal este senhor - Brendan Eich - para merecer a demissão? 
Agora, não fez nada. Mas há seis anos tinha feito um donativo de mil dólares, para uma organização na Califórnia que defendia o casamento como uma instituição reservada à união entre um homem e uma mulher.
Seis anos depois, as organizações que alegadamente defendem direitos dos homossexuais desenvolveram uma feroz campanha para que a empresa do Firefox demitisse o seu administrador. E a empresa, alérgica a polémicas e temendo perder clientes, fez-lhes a vontade, pressionando Brendan Eich a sair da administração.
Brendan Eich não usou a empresa (que administrou durante duas escassas semanas) para fazer valer os seus pontos de vista. Limitou-se a exercer em liberdade e em consciência os seus direitos constitucionais, sem envolver a empresa que na altura não administrava. 
Estamos perante uma aberração. A liberdade de uns impede a liberdade de expressão de outros. E, pelos vistos, pode ainda pôr em causa o direito ao trabalho de um cidadão que defenda no espaço público as suas convicções.
Imagine-se o contrário. Que alguém defensor do casamento gay fosse obrigado a demitir-se, por exprimir as suas opiniões e por contribuir financeiramente para uma organização que defenda as mesmas ideias. Perante tal erro, o que não se diria? Quantas vezes ouviríamos falar, nesse caso, do regresso da Inquisição?
Pois bem, algo parecido parece querer impor-se, por uma mão implacável que aspira a transformar as (suas) convicções em pensamento único, subjugando consciências e amedrontando inteligências.
Defendo a liberdade, e não proponho a demissão de quem pensa diferente, mas eu estou do lado do senhor Brendan Eich: continuo a ver o matrimónio como uma união entre um homem e uma mulher. 
Não se trata de uma questão religiosa, mas de um princípio básico do Estado de direito: assegurar a liberdade de expressão, sem que o exercício dessa liberdade ponha em causa a segurança, o emprego e todos os direitos cívicos seja de quem for.

Terça-feira da Semana Santa - O beijo de Judas

Terça-feira da Semana Santa

«[Judas] aproximou-se de Jesus, dizendo: «Mestre!»; e beijou-O. Os outros deitaram-Lhe as mãos e prenderam-no» (Mc 14,45ss)

A paz é um dom da ressurreição de Cristo. No limiar da morte, Ele não hesitou em dar essa paz ao discípulo que O entregou: beijou o traidor como se beija um amigo fiel. Não penseis que o beijo que o Senhor deu a Judas Iscariotes foi inspirado por qualquer sentimento que não fosse a ternura. Cristo já sabia que Judas O trairia. Sabia o que significava esse beijo, que era normalmente um sinal de amor, e não Se furtou a ele. A amizade é assim mesmo: não recusa um último beijo àquele que vai morrer; não retira essa última prova de ternura aos entes queridos. Mas Jesus esperava também que esse gesto sobressaltasse Judas e que, espantado pela sua bondade, ele não traísse Aquele que o amava, ele não entregasse Aquele que o beijava. Assim, esse beijo foi dado como um teste: se o reabilitasse, seria um laço de paz entre Jesus e o seu discípulo; mas, se Judas O traísse, esse beijo criminoso tornar-se-ia a sua própria acusação. 

O Senhor disse-lhe: «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?» (Lc 22,48) Onde está a conjura do inimigo? Onde se esconde a sua manha? Todo o segredo virá a ser descoberto. O traidor trai-se antes de trair o seu mestre. Entregas o Filho do homem com um beijo? Feres com o selo do amor? Derramas sangue com um gesto de ternura? Trazes a morte com um sinal de paz? Diz-me que amor é esse? Dás um beijo e ameaças? Mas esses beijos, pelos quais o servo trai o seu Senhor, o discípulo o seu mestre, o eleito o seu criador, esses beijos não são beijos, são veneno.
São Máximo de Turim (?-c. 420), bispo
Sermão 36; PL 57, 605

segunda-feira, 14 de Abril de 2014

A solução é ter muito filhos

Henrique Raposo
Expresso Segunda feira, 14 de abril de 2014

Sim, ter filhos nunca foi tão difícil. Além do problema já referido , convém relembrar que os fedelhos de hoje são adolescentes aos doze. A infância passou a ter o prazo de validade de um iogurte; a Blitzkrieg que transforma a relação pai-filho na linha Oder-Neisse chega mais cedo. Depois, nós vemos perigos em todo o lado. Um homem sozinho no parque é um pedófilo em potência e as crianças não podem andar sozinhas na rua, nem recados podem fazer. Porquê? Há carros a mais, a rua já não é um espaço de brincadeira, o progresso material roubou-nos essa infância despreocupada, o "sim, vai pra rua brincar" desapareceu da linguagem. Além disso, estamos sempre a ver raptores em cada esquina. Já não sabemos quando é que foi, se foi em Portugal ou nos EUA, mas sabemos que vimos na TV um caso de rapto e aquela imagem vaga ficou a pairar. Nunca desligamos, nunca relaxamos.
Existe ainda a constante atmosfera medicalizada, todas as mães e pais são sub-médicos que entram em pânico ao mínimo indício de febre. Como não estamos habituados à dor e muito menos à dor de crianças , saímos disparados para as urgências sem necessidade. Nunca desligamos, nunca relaxamos. E este stress permanente é reforçado pelo problema principal: estamos sozinhos. Eu ainda fui educado por uma cooperativa familiar e comunitária que dividia o fardo com a minha mãe.  Mas hoje em dia as famílias são demasiado pequenas e, sobretudo, estão espalhadas. Uns estão aqui, outros em Carnaxide, aqueles em Queluz, outros ainda estão na terra, etc., etc. Às vezes, nem os avós estão por perto. É por isso que eu percebo a malta com dinheiro, sim, percebo e invejo o exército de babás. Permitem desligar, permitem relaxar. 
Um pai e uma mãe não chegam, é preciso a presença de avós, tios, primos mais velhos, vizinhos, ou a alternativa: uma ou duas profissionais. Ora, como estou longe da família e como sou um pé rapado sem acesso ao maná composto por babás e nannys, resta-me uma solução para encontrar a libertação: ter muitos filhos. Parece paradoxal mas não é. Todas estas ânsias resultam de uma coisa muito simples: ainda só tenho uma filha. Quando tiver mais, serei um pai mais relaxado, com menos dramas na cabeça. Já não verei perigos no parque e na rua, a febre já não será um bicho de sete cabeças, a adolescência precoce dos mais velhos não será um problema porque ainda estarei concentrado na infância dos pequenos e, acima de tudo, não estarei tão cansado porque os mais velhos ajudarão a criar os mais novos. Sim, a solução é ter filhos como um coelhinho endemoniado por pilhas duracel. Irei relaxar, irei desligar. 

Segunda-feira da Semana Santa: «Deixa que ela o tenha guardado para o dia da minha sepultura!»

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Segunda-feira da Semana Santa

«Deixa que ela o tenha guardado para o dia da minha sepultura!»
Beato John Henry Newman (1801-1890), presbítero, fundador do Oratório em Inglaterra
Sermão «As lágrimas de Cristo no túmulo de Lázaro», PPS, t. 3, n° 10

«Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. […] Então Jesus começou a chorar» (Jo 11,17.35). Porque chorou Nosso Senhor diante do túmulo de Lázaro? […] Chorou por compaixão pelo luto dos outros […]; chorou ao ver a angústia do mundo […]. 


Mas houve outros pensamentos que também provocaram as suas lágrimas. Como foi conquistada esta benesse prodigiosa em favor das duas irmãs? À sua própria custa. […] Cristo traria vida aos mortos pela sua própria morte. Os seus discípulos tinham tentado dissuadi-Lo de regressar à Judeia, com medo de que O matassem (cf Jo 11,8); e os seus medos concretizaram-se. Ele foi ressuscitar Lázaro e a fama desse milagre foi a causa imediata da sua prisão e crucifixão (cf Jo 11,53). Ele sabia disso tudo com antecedência […]: viu a ressurreição de Lázaro, a refeição em casa de Marta, com Lázaro à mesa, uma grande alegria, Maria a homenageá-Lo durante a refeição festiva derramando um perfume muito caro sobre os seus pés, os judeus acorrendo em grande número, não apenas para O verem mas também para verem Lázaro, a sua entrada triunfal em Jerusalém, a multidão que gritava «Hossana», as pessoas que testemunhavam a ressurreição de Lázaro, os gregos que tinham vindo adorar a Deus durante a Páscoa e que quiseram vê-Lo a todo custo, as crianças que participavam da alegria geral — e depois os fariseus conspirando contra Ele, a traição de Judas, o abandono dos seus amigos, a cruz que O recebeu. […] 


Ele pressentiu que Lázaro regressava à vida à custa do seu próprio sacrifício, que Ele descia ao sepulcro que Lázaro deixara, que Lázaro iria viver e Ele morrer. As aparências seriam invertidas: houve uma festa em casa de Marta mas a última Páscoa de amargura seria unicamente sua. E Ele sabia que aceitava esta inversão de bom grado, pois tinha vindo do seio de seu Pai para expiar com o seu sangue os pecados de todos os homens e assim fazer ressuscitar do túmulo todos os crentes.

Universidade e pluralismo

Público 14/04/2014
A ideia de universidade emergiu na Europa de uma cultura comum, por sinal cristã, mas não de um plano comum
Costuma ser dito que ignoramos o Brasil à nossa própria custa. Na semana passada tive oportunidade de observar como isso é verdade. Passei a semana no Rio Grande do Sul, primeiro no 27.ª edição anual do Fórum da Liberdade, depois num colóquio sobre a ideia de universidade na América Latina. Em ambos os casos, pude testemunhar a existência de uma vibrante sociedade civil e de uma forte cultura pluralista.
O Fórum da Liberdade é promovido anualmente pelo Instituto de Estudos Empresariais. Tem lugar na PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) de Porto Alegre e reúne cerca de cinco mil pessoas durante dois dias. A ideia de liberdade é discutida em vários painéis temáticos, este ano dedicados à educação, saúde, democracia e Estado de direito, finanças públicas, e livre mercado. Marcelo Rebelo de Sousa e André Azevedo Alves foram os dois oradores portugueses num vasto programa com oradores brasileiros, norte-americanos e latino-americanos.
O tema da liberdade voltou a estar presente no colóquio mais restrito que se seguiu ao fórum, dedicado à ideia de universidade na América Latina. Durante três dias, universitários brasileiros, latino-americanos e portugueses debateram o tema num ambiente de grande abertura intelectual. No centro dos debates estavam três interrogações centrais: (1) como deve ser entendida a ideia clássica de universidade?; (2) como é que essa ideia foi entendida e/ou ignorada na América Latina?; (3) qual é a viabilidade da ideia clássica de universidade nos tempos actuais?
Sobre a ideia clássica de universidade, estudámos e discutimos textos de John Henry Newman, do chileno Andres Bello (cujo nome foi recentemente adoptado por The Economist para a coluna de opinião semanal sobre a América Latina), do espanhol Ortega y Gasset, do inglês Oakeshott e de Michael Polanyi. Em todos eles se encontra a mesma preocupação de distinguir a universidade da mera formação profissional ou técnica, e de preservar um espaço de educação humanista claramente separada da doutrinação político-ideológica.
Esta ideia clássica de universidade tem estado presente no Brasil e na América Latina, mas sofreu distorções e ameaças de vários tipos. Textos dos brasileiros Antonio Paim e Simon Schwartzman recordaram algumas das visões ideológicas que procuraram capturar e instrumentalizar a ideia clássica de universidade: o positivismo no século XIX, o marxismo e o fascismo no século XX.
É possível detectar pelo menos três traços comuns principais nos diferentes entendimentos do positivismo, do marxismo e do fascismo a respeito da universidade. Em primeiro lugar, todos eles vêem a universidade sobretudo como um instrumento ao serviço de um propósito que é exterior à universidade. Em segundo lugar, todos eles assumem que a universidade deve adoptar um modelo único, obrigatório, igual para todos, e centralmente planeado. Finalmente, todos eles defendem a submissão da universidade ao poder político.
É importante recordar que todas estas visões instrumentais da universidade – quer do positivismo, quer do marxismo, quer do fascismo – foram defendidas em nome da modernização, da ciência e da técnica, e da ideia de futuro como corte com o passado. Essas ideias foram apresentadas contra as clássicas visões  pluralistas associadas ao liberalismo e ao cristianismo – visões que foram acusadas de serem prisioneiras do passado.
Uma pergunta pode talvez ser pertinente: porque é que os positivistas, os marxistas e os fascistas não criaram simplesmente universidades privadas de tipo positivista, marxista ou fascista? Porque é que apresentaram sempre a sua proposta como a única verdadeira ideia de universidade, que tem de ser centralmente desenhada e adoptada por todos?
Uma resposta possível é que positivistas, marxistas e fascistas acreditavam que sabiam, sem saberem que acreditavam. Essa arrogância fatal – como lhe chamaram Karl Popper e F. A. Hayek – levou-os ao erro crucial de imaginar que todas as instituições são produto de um plano anterior à sua própria emergência. Mas não são. A ideia de universidade emergiu na Europa de uma cultura comum, por sinal cristã, mas não de um plano comum. E no centro da cultura europeia comum, a cultura ocidental, estava um traço distintivo relativamente às culturas orientais centralizadas: a ideia de pluralismo e de autonomia da universidade.
Professor universitário, IE-UCP

O partido da democracia

JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DN | 2014.04.14

Celebrando os 40 anos do 25 de Abril, é momento de avaliações a vários níveis. Questão interessante é determinar o partido mais notável deste já longo período democrático. Temos um regime parlamentar com os partidos no núcleo central do sistema. Qual é o mais marcante?
A situação é ambígua. Considerando a lista dos concorrentes às eleições constituintes de 25 de Abril de 1975 surge uma surpresa: dos 12 partidos de então, só dois constam dos actuais boletins de voto: Partido Socialista e Partido Popular Monárquico. Outros dois mudaram de nome (PPD e CDS) e um concorre apenas em coligação (PCP). Os sete restantes simplesmente desapareceram (MDP, FSP, MES, UDP, FEC, PUP, LCI). Isto confirma algo óbvio: o nosso panorama político, tal como o País, mudou muito em 39 anos.
Outra face do mesmo vê-se nas últimas legislativas em 2011: dos 17 partidos e coligações concorrentes, cinco foram fundados já neste século (MEP, PAN, PND, PPV e PTP), com mais três na viragem do milénio (BE, PNR e PH). Desde as eleições já nasceram mais dois (MAS e L). Isso aponta para a volatilidade política como regra do nosso espectro partidário. Mas tal conclusão é ilusória. De facto, só três partidos participaram nos governos constitucionais desde 1976, e apenas dois deles os lideraram. Tal significa que existe mercado para serviços partidários fora do poder, mas também que Portugal tem uma estrutura doutrinal bastante estável. Criou-se até o conceito novo de "partidos do arco da governação" para o expressar.
 Podemos aprofundar esta linha constatando que, uma vez no Governo, todos os partidos têm comportamento paralelo, independentemente da linha ideológica. Vivemos uma época de consenso nacional, onde as grandes opções de fundo estão feitas, restando apenas elementos de competência ou retórica para distinguir as formações. Assim, objectivamente, nestes 40 anos existiram realmente duas únicas linhas políticas coerentes, a que está no poder e a que está na oposição, com diferentes partidos desempenhando esses papéis. É muito curioso ver como o mesmo agrupamento faz para, ao sair ou entrar no Executivo, inverter a sua posição sobre os temas.
Pretender eleger o partido da democracia implica, portanto, defrontar estes dois obstáculos: excesso de volatilidade formal combinado com demasiada persistência efectiva. Este é o paradoxal rosto do nosso espectro partidário.
Tomando agora os critérios para escolher o partido mais notável, a variedade também domina. Considerando o número de militantes, o vencedor é claramente o PSD, que tem quase mais que todos os outros partidos somados. O segundo, em posição destacada, é naturalmente o PS, com cerca de 75% do primeiro. Mas se o padrão escolhido for a longevidade na chefia do executivo de novo a vitória é do PSD, mas a menor distância do PS, embora metade do seu tempo no poder fosse em coligação, sobretudo com o CDS, mas também com o PS.
Falando em flexibilidade ideológica, o partido centrista, embora mais pequeno, detém o recorde, pois já teve coligações com os outros dois, doutrinalmente bastante afastados. Em termos de sucesso súbito, ninguém bate o PRD, também o recordista na rapidez da extinção.
No entanto, o partido mais notável da nossa democracia não é nenhum destes, mas o Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses, PCTP/MRPP. Na vigência da Constituição de 1976, ele foi o único partido que concorreu sozinho em todas as 30 eleições partidárias (13 legislativas, 11 autárquicas e 6 europeias). Nunca se retirou, nunca desistiu e nunca fez alianças. Nunca elegeu para a Assembleia da República, Parlamento Europeu ou câmaras municipais, e teve derrotas presidenciais do líder Garcia Pereira em 2001 e 2006. Nos 44 anos desde a fundação, a 13 de Setembro de 1970, o que tem para mostrar são sete mandatos em assembleias municipais (um em cada eleição de 1982, 1993, 1997, 2001 e 2005 e dois em 2013) e 11 em assembleias de freguesia (três em 1979, dois em 1976, 1997 e 2013 e um em 1993 e 2001). Isto é dedicação democrática!

Saudades do Decreto-lei n.º 217/74

José Manuel Fernandes, Blasfémias, 13 Abril, 2014

Vai por aí uma grande excitação com o valor do salário mínimo em 1974 e 1975. Até se diz que foi um grande impulso para a economia, apesar de Portugal ter conhecido logo a seguir, em 1975, a maior recessão (-5,1%) dos últimos 50 anos (pelo menos).
Mas esquecem-se outros aspectos curiosos do famoso decreto-lei n.º 217/74, promovido pelo ministro do Trabalho de então, Avelino Pacheco Gonçalves (o segundo militante comunista do Governo Palma Carlos, pois o outro era o próprio Álvaro Cunhal).
Além de estabelecer os famosos 3.300$00 como SMN, um valor que, de acordo com o calculador do site da Pordata, representaria hoje 443 euros (como não consigo perceber como é que o Expresso fez a conta de mais de 500 euros, fico-me por esta referência), esse decreto-lei também congelou todos os salários superiores a 7.500$00. A valores de hoje isso corresponderia a congelar todos os salários superiores a 1008 euros (calculador da Pordata). Imagino que os autores da notícias e comentários não ficariam felizes se isso acontecesse aos seus actuais salários…
Mas há mais. O mesmo decreto-lei congelou as rendas em todo o país. Prometeu que seria apenas por um mês, foi por muitos anos, com as consequências conhecidas.
Por fim, "para evitar a especulação", foram também congelados todos os preços. Com pouco sucesso. Em 1974 a inflação chegaria aos 26,%, um valor que só seria ultrapassado em 1977 (26,7%) e 1984 (28,5%). Com a particularidade de dessas duas vezes ter coincidido com as anteriores vindas do FMI.
Há saudosismos que são muito reveladores.

domingo, 13 de Abril de 2014

Europa unida pela vida - Por cada “Um de Nós”

ISILDA PEGADO | Voz da Verdade | 2014.04.13
Está a nascer a primeira Federação Europeia de movimentos que defendem a Vida e a Família.
A partir da Iniciativa Europeia de Cidadãos "One of Us", que recolheu dois milhões de adesões até ao final de Outubro passado, está em marcha um vivo e bem sustentado Movimento a favor da constituição de uma Federação Europeia.



Nos encontros em que, desde há dois anos, temos participado é cada vez mais clara esta unidade que parte da consciência dos problemas que estão a surgir no Velho Continente – Europa. As diferentes delegações nacionais relatam o drama do aborto que se vive em cada cidade, o combate travado contra a cultura dominante que elimina o Homem, e a Família é abalroada por sucessivas leis.
Parece que todos vivemos as mesmas dificuldades. E por isso também a grande adesão à Iniciativa "One of Us".
A Iniciativa de Cidadãos está agora na Comissão Europeia em fase de audição. Após o que, será formalmente admitida em todos os órgãos da União Europeia.
Mas simultaneamente, há um Povo que nasce daquela Iniciativa, se juntou por um objectivo e percebe que não pode parar este "comboio em marcha".
As redes de contactos humanos multiplicaram-se. As "marchas pela Vida e Família" são uma constante em diferentes cidades europeias. A troca de textos e de argumentos tornou-se uma prática. E o afecto humano também nos acompanha. Sabemos os nomes uns dos outros.
Falta agora formalizar a Federação Europeia. Os estatutos estão feitos. Terá sede em Bruxelas e naturalmente que a sua incidência será em larga medida sobre a actividade legislativa que na União Europeia se desenvolve. Isto é, há claramente uma atenção política às questões da defesa da Vida e da Família no Parlamento Europeu. A Federação Europeia terá uma comissão executiva cujos membros hão-de representar as diferentes realidades geográficas da Europa.
De 8 a 10 de Abril, o Parlamento Europeu agendou a "Semana da Vida", que culminou no dia 10 com um grande encontro de responsáveis nacionais de Movimentos Pró-Vida e Deputados ao Parlamento Europeu.
O Homem confrontado com as questões que interpelam a sua natureza, o seu Ser, procura soluções, que respondam ao coração de uma forma verdadeira.
Vivemos num tempo de conflitos de direitos e deveres, de questões e respostas difíceis. A ciência e a técnica que tanto avançaram nos últimos anos proporcionam formas de vida com outros desafios. Porém, estes podem pôr em causa a própria humanidade? Aquela Verdade que responde ao Coração?
Estar envolvido numa amizade e companhia que nos ajuda a discernir, a encontrar caminhos, a aprofundar saberes, dá a cada um de nós a dimensão Universal a que sempre se aspira. Encontrar a resposta que sirva o Homem todo e não seja a mera soma de alguns (pseudo) Direitos, é hoje o nosso desafio.
Hoje, em Bruxelas, a ver nascer uma Federação Europeia para cada "Um de Nós", para o Homem.

Fé é plenitude de vida. É seguir Jesus na Cruz

P. DUARTE DA CUNHA | Voz da Verdade | 2014.04.13

Se em mim, e em tantos outros, vejo que a experiência da fé é de uma plenitude de vida, é porque a fé não é apenas uma convicção subjetiva da existência de Deus. Ela é muito mais. Ela envolve a pessoa toda. A fé cristã é um encontro, ou melhor, uma comunhão de amor com Jesus Cristo, e tem que ver com a pessoa inteira. Infelizmente no nosso tempo é fácil ter a sensação de que a vida está fragmentada numa soma de instantes e "partes". Não é estranho que neste ambiente a fé seja pensada e vivida como se fosse apenas uma dessas partes. Com isso ela perde a sua força e deixa de ser atraente.



A fé que nos salva não é, portanto, uma simples convicção intelectual, mas também não é, de modo nenhum, um sentimento subjetivo. Ela responde às grandes questões da pessoa: de cada pessoa e de todas as pessoas. A fé abraça todas as dimensões da vida humana. Nesse sentido, ela é, sem dúvida, uma experiência pessoal, que requer uma interioridade que dialoga com Deus, mas também exige uma pertença à Igreja, que é uma comunidade cuja natureza mais profunda é a de ser o corpo do próprio Cristo.
Se a fé introduz o crente numa vida nova e responde aos anseios da pessoa humana, é porque recupera a unidade da pessoa, tantas vezes perdida nos múltiplos fragmentos de que é composto o quotidiano e porque gera laços de amor que une as pessoas. Não podemos, porém, pensar que a fé chega e tudo está feito. Ela é um caminho. No concreto do dia a dia, a fé é seguimento de Cristo na Igreja, o que quer dizer que é "pegar na Cruz" e seguir Jesus. Este é o caminho da vida em abundância e é este o anúncio cristão. Querer aligeirar o peso da cruz ou adocicar o anúncio cristão, pensando tornar a fé mais fácil, significa afastar-se de Cristo e, por isso, da vida plena. Somos chamados a ajudar os outros não para convencê-los a abandonar a cruz, mas para os ajudar a carregar a cruz, como Simão de Cirene fez com Jesus. Tal como a fé pessoal é participação na fé da Igreja, também o carregar da cruz é algo de profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, é partilhado pela Igreja. 
O que é, no fundo, a nossa cruz? Em parte podemos dizer que ela coincide com as circunstâncias da vida. É aí onde a vida acontece, com toda a sua dramaticidade, e, por isso, é aí que experimentamos o peso do sofrimento e muito especialmente do pecado. Jesus pede-nos para abraçar a vida real para o encontrar aí e vencer com a Sua graça e misericórdia o pecado. Ora o que aprendemos com a Páscoa é que a plenitude de vida coincide com a cruz porque coincide com o amor de que a cruz é sinal. Claro que se a cruz for reduzida ao peso das circunstâncias – tantas vezes muito complicadas – não faz sentido, mas se a cruz é amor e comunhão com Jesus ela torna-se já participação na vida gloriosa de Jesus e essa é a felicidade. Faz parte da vida cristã pegar na cruz e seguir Jesus. Contudo não é a cruz que em si salva, mas Jesus na Cruz, ou seja, no dom da Sua vida. Isto quer dizer que pegar na cruz é antes de mais nada abraçar Jesus na vida. É a relação com Jesus que importa.
Jesus salva-nos na cruz porque o Seu amor é total. Essa é a totalidade de vida, a unidade de vida e, por isso a felicidade que buscamos. Quando dizemos que é necessário pegar na cruz para nos salvarmos não devemos pensar que a salvação virá como prémio a quem pegou na cruz. Aliás, a cruz não tem valor por ser pesada, mas por ser amor, por ser acolhimento de Deus – ela é um sim a Deus – e da Sua misericórdia que leva à conversão, e, consequentemente, é um colocar-se ao serviço dos outros.
Temos, porém, um grande problema, é que não é possível a uma pessoa humana dar-se plenamente sem ser libertada. O pecado fecha o homem em si, dificulta o dom de si. A fé, por isso, que confere a unidade à pessoa, é também libertadora. A Páscoa é festa de libertação porque é a festa do dom total de Cristo que nos faz participar na Sua vida de ressuscitado que não é uma vida fácil mas uma vida dedicada aos outros e oferecida a Deus. É deste modo que a plenitude de vida se torna experiência e deixa de ser um sonho. 
Com as possibilidades técnicas e científicas surgiu no nosso mundo o sonho de que a felicidade seria a ausência da cruz. E com isso foi-se inventando um novo cristianismo, baseado em ideais longínquos como a paz no mundo e o fim da pobreza. Em vez de cada um pegar na sua cruz passou-se a falar à distância! Em vez de nos inclinarmos a ajudar o próximo falamos dos problemas globais! Pretende-se tirar Jesus da Cruz para ficar apenas o Jesus do Monte das Bem-aventuranças. Mas nunca se pode selecionar partes de Jesus. A missão da Igreja, que não se anuncia a si mesma mas a Cristo, coincide com o anúncio do Cristo total.

Vale de Lágrimas

D. NUNO BRÁS
Voz da Verdade, 2014.04.13
Confesso que a expressão "gemendo e chorando neste vale de lágrimas" da Salvé Rainha a comecei por entender como fruto de um cristianismo pessimista, vivido essencialmente a pensar na cruz do Senhor, e a achar que tudo, no mundo, era mau. Por isso compreendo tantos que têm dificuldade em rezar esta antífona que faz parte da nossa tradição mariana. Certamente (e digo-o sem qualquer tom de crítica) reconheço que muitos a rezarão naquele tom resignado e derrotado.
Mas devo, igualmente, confessar que rezo hoje aquela oração como expressão grande da fé.
É que, por muito que nos esforcemos, de um modo ou de outro, qualquer ser humano vive momentos de sofrimento e de solidão, de abandono e mesmo desespero, de morte. Não vale a pena criar a ilusão (nem sequer e muito menos nas crianças) de que a vida será sempre um caminho de vitórias e sucessos, de alegrias e conquistas. Mesmo as "estórias" que terminam com o célebre "e foram muito felizes para sempre" começaram ou passaram por um ou vários momentos de dificuldade dos seus protagonistas.



Contudo, hoje (como sempre) não são necessárias "estórias". Basta ter os olhos abertos para o mundo humano que nos envolve. E se não estamos nós a passar por algum momento difícil, olhemos à nossa volta – e não precisamos de procurar muito: o desemprego, as famílias destroçadas e desunidas, a falta de sentido para a vida… todas aquelas misérias materiais, morais ou espirituais, a que fazia referência a mensagem da Quaresma do Papa Francisco, estão bem ali, ao nosso lado. E, não raras vezes sentimo-nos impotentes para dar uma ajuda, pequena que seja, àqueles que passam por esses momentos difíceis.
É por isso que o grito cristão que, por intermédio da Virgem Maria, se dirige a Deus, a partir deste "Vale de Lágrimas" que é a vida humana, mais do que expressão de alguém resignado à sua sorte, é antes o reconhecimento de que apenas Deus pode, verdadeiramente, resolver as lágrimas humanas – nossas e de tantos que vivem connosco.
O Domingo de Ramos ou da Paixão une essas duas realidades. Também Deus, em Jesus de Nazaré, experimentou (e como!) o "Vale de Lágrimas" que quis fazer seu; mas, ao mesmo tempo que o vive de um modo plenamente humano, mostra que não será nunca a morte a ter a última palavra. Esta será sempre pronunciada por Deus, e será sempre uma palavra de amor, de vida eterna!

O país do respeitinho

ALBERTO GONÇALVES DN 20140413
Vai para três semanas, José Rodrigues dos Santos entrevistou, julgo que pela primeira vez, José Sócrates no programa semanal que este mantém na RTP (e que os contribuintes que nunca vêem aquilo pagam). De acordo com o que li (pertenço ao grupo de contribuintes que ignoram, e financiam, aquilo), Rodrigues dos Santos, sendo um jornalista e não um serviçal prestável, aproveitou a oportunidade para questionar o Eng. Sócrates acerca da "reestruturação" da dívida, que em 2011 este achava trágica e agora acha fundamental.
Como acontece sempre que o contrariam, e sobretudo sempre que é contrariado por si próprio, o Eng. Sócrates não apreciou o desplante. Durante o programa, mostrou-se desnorteado. Depois do programa, mandou os seus súbditos na imprensa e nas "redes sociais" denunciarem a falta de ética de Rodrigues dos Santos, e se entendermos por "ética" a subserviência de tantos portugueses a certos poderosos, o argumento não era descabido. Rodrigues dos Santos, normalmente educado, respondeu através do Facebook. A coisa passou.
No último domingo, repetiu-se o encontro e, desta vez, foi o Eng. Sócrates a aproveitá-lo para acusar Rodrigues dos Santos de ser o advogado do diabo, de carecer de inteligência e de papaguear (cito) ideias de outros. Rodrigues dos Santos deixou-o falar e, no fim, apenas acrescentou o seguinte: "Registo o insulto, mas não vou responder." Se eu tivesse visto o momento em "directo", teria ouvido a bofetada ecoar no país profundo. Já o país superficial, leia-se novamente o da opinião publicada e das "redes sociais", preferiu destacar a lição do grande estadista ao aprendiz de jornalismo, enfim reduzido à sua insignificância pela sofisticada verve do popular "engenheiro".
Vamos por partes. Em primeiro lugar, a lendária verve demorou quinze dias a amanhar uma resposta, para cúmulo uma resposta tão brilhante quanto se esperaria da personagem em causa. Entretanto, o pormenor da "reestruturação" terrível versus "reestruturação" maravilhosa continuou por explicar.
Em segundo lugar, é fascinante notar que o tipo de gente que, por ordens expressas ou iniciativa pessoal, apareceu a caluniar o "desrespeito" de Rodrigues dos Santos pela excelsa figura do Eng. Sócrates é o mesmo tipo de gente que anda por aí a ofender - com indiscutível direito e discutíveis razões - os governantes e o Presidente da República. Nos meios adequados, o exercício é considerado corajoso e fundamental.
Em terceiro lugar, talvez valha a pena lembrar a ligeira diferença de critérios. Há tempos, o Eng. Sócrates concedeu uma entrevista ao Expresso na qual insultava com à-vontade diversos políticos nacionais e estrangeiros incapazes de se defender ali. Pelos vistos, isso é frontalidade. Pedir ao Eng. Sócrates para comentar as próprias afirmações é um escândalo. Fica registado.
Em quarto lugar, dá gosto ver o empenho da classe jornalística, sempre tão corporativa, em ignorar o ataque sofrido por Rodrigues dos Santos. Aconselha-se que este não leve a atitude a peito: se o perpetrador tivesse sido alguém da "direita", o "pivô" seria hoje um símbolo da resistência ao "fascismo" - com direito a homenagem nas comemorações de "Abril".
Por fim, todo o episódio prova que, após 40 anos a fingir remover Portugal do atraso, não se consegue remover o atraso de Portugal.

Jesus Cristo é o Senhor



Cristo Jesus, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.)
Fil 2, 6-8