sábado, 10 de dezembro de 2016

Homilia no encerramento do Sínodo Diocesano e Ordenações

DOM MANUEL CLEMENTE CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA    08.12.16

Homilia no encerramento do Sínodo Diocesano e Ordenações 
Sem Maria, nada seríamos nem faríamos como Igreja
Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, celebração conclusiva do Sínodo Diocesano e Ordenações

Celebrar a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria é também vislumbrar-nos a nós mesmos como Deus a olhou a Ela: em função de Cristo e a partir de Cristo.
Em função de Cristo, pois, como ouvimos na Carta aos Efésios, é n’Ele que nos tornamos «santos e irrepreensíveis, em caridade».  Em Cristo, tornamo-nos no que Maria foi desde a sua Conceição: santos e irrepreensíveis, além de toda a mácula, pecado e desamor. 
Em Maria, Deus como que recriou a terra, para nela e dela poder nascer o Homem Novo, Jesus Cristo. Na medida em que Cristo for nascendo também em cada um de nós, a sua presença no mundo será mais manifesta, operante e salvadora. E em liberdade perfeita, como foi a dela, a «cheia de graça», assim saudada pelo Anjo. Porque a liberdade é do tamanho da caridade. Propriamente referida, não é a possibilidade negativa de escolher o mal: é, isso sim, a possibilidade positiva de fazer o bem, vencida a resistência do pecado.
Desde a sua Conceição, Maria foi inteiramente libertada para o bem, que é outro nome da vontade de Deus aceite e cumprida. Como ouvimos: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra». Nesta liberdade perfeita e incólume foi concebida, nesta liberdade concebeu a Cristo e O seguiu depois, do presépio à cruz e da cruz à glória.
Relembremos liturgicamente o arco completo da existência da Mãe de Cristo, para nele revermos o que em nós há de ser: Hoje, 8 de dezembro, é a sua Conceição Imaculada, para daqui a nove meses certos celebrarmos a sua Natividade, a 8 de setembro. A 25 de março lembraremos como concebeu Jesus, na Anunciação, e daí a nove meses, a 25 de dezembro, o Natal do seu Filho. Em Sexta-feira Santa encontrá-la-emos junto à Cruz; e a 15 de agosto, na Assunção, participando inteiramente da Páscoa do Senhor, para com Ele nos acompanhar «até ao fim do mundo» (cf. Mt 28,20).

É sempre a esta luz que, com Cristo e Maria, restauraremos uma existência imaculada, para nós e para os outros, na mesma graça libertadora e plena. Assim progrediremos com Maria no seguimento do seu Filho, até que a morte nos eternize na caridade divina, essa mesma que «nunca acabará» (cf. 1 Cor 13,8). 
Num percurso que também nos leva da conceção ao nascimento, do nascimento ao crescimento e até à morte natural, sempre acrescentado e nunca interrompível, em nós e nos outros. Sobretudo quando males do corpo ou tristezas da alma requeiram, isso sim, mais presença e companhia, de cada um a cada um, de todos a todos. Cuidados reforçados que, não só do ponto de vista clinico, chamamos “paliativos”, palavra ligada a “pálio”, que significa manto, envolvimento, cobertura e proteção.
Como Nossa Senhora da Conceição, Maria é também Padroeira de Portugal. Com este título a queremos invocar e imitar, alargando nós, como sociedade, um manto protetor aos que sofrem momentos difíceis e a roçar o desespero. Não nos dispensemos, por qualquer legalização abusiva, do bom apoio que lhes devemos, sempre no sentido da vida. Recuarmos neste ponto seria gravíssima limitação da liberdade autêntica, que apenas reside no viver e conviver.
Com o seu «manto tecido de luz» nos envolve a Mãe de Cristo. Tornemo-nos também nós numa “sociedade paliativa”, que corresponda com mais proximidade e maiores cuidados a qualquer dor que surja, a cada pessoa que sofra. De contrário avançaria a morte, que nem se há de pedir nem jamais se há de dar a ninguém. Entreabrir-lhe a mais pequena brecha seria rapidamente escancarar-lhe a porta larga das mais graves consequências – como já se sofrem nas sociedades que o fizeram.

Fixemo-nos agora em dois motivos fortes da nossa presença aqui: o Sínodo Diocesano, que concluímos e agradecemos, e as Ordenações que felizmente se seguem: 
Também nós, Patriarcado, nos acrescentaremos com Maria no amor de Deus e do próximo. Na Constituição Sinodal de Lisboa, hoje oferecida à Diocese, apresenta-se um conjunto de opções que são outras tantas coincidências com a primordial opção de Deus. Sim, de Deus, que, como aconteceu com Maria Imaculada, nos quer santos e em missão, em comunidade e crescimento na fé, em cada família e na resposta fiel à vocação pessoal; tudo sinodalmente levado, pois só em conjunto faremos o que devemos. 
Assim aconteceu com Ela, plenamente santa da santidade do seu Filho, em pronta missão na visita a Isabel, em comunidade do Presépio ao Pentecostes; a primeira iniciada no caminho cristão, mãe de Jesus e esposa de José, vocação cumprida sem recuo nem demora; e sinodalmente, pois não ia só.     
Com Maria, nossa Senhora e Mãe Imaculada, prossigamos sempre e sinodalmente também. A melhor receção do Sínodo Diocesano será essa mesma, de cada comunidade se perguntar ciclicamente pela concretização prática desta atitude marial de maior acolhimento e mais decidida missão, longe ou perto. 
Atitude “marial”, repito, pois a Maria nos confiou Jesus Cristo e sem Ela nada seríamos nem faríamos como Igreja. Na verdade, como no Prefácio cantaremos, na graça concedida a Maria começa a Igreja, seguindo-a na correspondência também: «Nela [Pai santo] destes início à Igreja, esposa de Cristo, sem mancha e sem ruga, resplandecente de beleza e santidade». Assim foi e só assim continuará a acontecer. 
A Imaculada Conceição foi em Maria a preparação pessoal para a incarnação de Cristo: Nova Terra para o Homem Novo. Desde o Batismo, caríssimos ordinandos, o mesmo Espírito que a guardou a Ela de todo o contágio do mal, trabalhou também em cada um de vós para serdes sacramento da presença diaconal ou sacerdotal de Cristo. Mantende os olhos na Imaculada, para serdes inteiramente límpidos de coração e gesto, na graça de Cristo de que sereis instrumentos.
Entregai-vos constantemente à proteção da Virgem Imaculada. Experimentareis a sua proximidade e incentivo, tão próprios dum coração materno, repassado de misericórdia divina. Com Ela acolhei a Cristo em vós e nos outros, em vós para os outros. Verificareis assim, verificaremos todos, as maravilhas de Deus, num contínuo Magnificat que sempre cantaremos. 

Lisboa, Santa Maria de Belém, 8 de dezembro de 2016

O grande educador sexual

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA   10.12.16   DN

Já no próximo ano letivo, uma criança com 5 anos pode aprender educação sexual no pré-escolar através de temas pedagógicos como este: "Desenvolver uma atitude positiva em relação ao prazer e à sexualidade." Cinco anos. 

Já aos 10 é possível assistirem a aulas sobre contracetivos e aborto. Dez anos. Não sei porquê mas em Portugal convive-se bem com o conceito do Estado Grande Educador: não aflige ninguém que o Estado nos entre pela casa dentro e imponha como é que os nossos filhos devem ser educados. Não é quais as competências que as crianças devem adquirir a Matemática, Geografia ou Português. Isso é fascismo. Não, é mesmo o que eles devem pensar, como devem ser formados. Imaginem que há por aí famílias que só querem explicar aos filhos o que é o aborto depois de eles saberem como nascem os bebés? Um perigo. Ora, na dúvida sobre quem são os pais, o Estado antecipa-se através dos bancos da escola a educar os filhos segundo os cânones de diretores-gerais de Educação e técnicos que lhes vão recarregando as armas com relatórios e estudos. Mas ninguém se chateia. O conteúdo do documento intitulado Referencial da Educação para a Saúde e o facto de ainda ninguém ter invadido o Ministério da Educação como consequência lógica deste documento é prova dessa indiferença. Se fosse eu a entrar em casa da minha vizinha para explicar à sua filha de 10 anos a diferença entre a interrupção voluntária da gravidez e a não voluntária ou a dinâmica positiva do prazer e da sexualidade, acredito que a minha vizinha chamasse a polícia. E bem. Mas, se for a professora de ciências, não faz mal nenhum. Afinal, ela está apenas a educar para a saúde.

Um Estado socialista como o nosso vai até onde o deixam ir e com a convicção perigosa de quem se acha mais habilitado do que os pais para educar os filhos. Seja em educação sexual, alimentação, religião ou laicidade. Um Estado como o nosso não toca à campainha para entrar em nossa casa. Entra. E é isto o mais sinistro do documento referencial: o abuso. É que estas são portas que não se abrem a estranhos e muito menos à figura abstrata que é o Estado.

Anti-comunista, obrigada

CLARA FERREIRA ALVES   EXPRESSO   10.11.16

Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abril

Não estava à espera neste ponto da minha vida e neste ponto do século XXI, dobrado o século XX há uns aninhos, de ver aparecer a acusação. Anticomunismo. Parece que qualquer pessoa que não confie na bondade intrínseca de um acordo de governo com o Partido Comunista Português é anticomunista. Confesso ter nostalgia de muitas coisas, mas não desta. A de repensar o anticomunismo privado. Sou ou não anticomunista? E se for? A questão não é meramente ideológica, é existencial. É, por assim dizer, teológica. Cheguei à conclusão, depois de muito matutar, de que sou anticomunista. Acredito na economia de mercado, no capitalismo regulado e na iniciativa privada. Não acredito na coletivização da propriedade e da economia, na eliminação da competição nem na taxação intensiva do capital. O atual Partido Comunista não partilha estas minhas convicções. É coletivista, e foi sempre, ao contrário do que nos querem convencer, pragmático. O PCP foi sempre pragmático e anti-idealista por natureza. Nunca foi um partido romântico e só teve um panfleto literário romântico, os “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes. Tirando isto, o PCP é um bloco realista e de realismo social, no sentido que a palavra tinha no século XIX. Para o PCP, a marcha da História é marxista, o sentido da História é o da extinção do capitalismo (e não a sua regulação) e o da criação de uma nova consciência social, cívica e política nas mãos do proletariado e das suas vanguardas, organizadas em comités, ou no que lhes quiserem chamar, que controlem os meios de produção e os seus instrumentos financeiros. O PCP era isto. E é isto.
Por razões históricas, fui sempre anticomunista. E por razões ideológicas, também. Sou uma anticomunista que não tem vergonha de ser anticomunista e que tem e teve amigos comunistas (mais teve do que tem, porque tudo o que se relaciona com esta doutrina é, irremediavelmente, passado). Claro que podem ler nesta frase — “tenho amigos comunistas” — a mesma desconfiança que leem quando os homofóbicos dizem que têm amigos gays. E, já que falamos disso, o PCP sempre foi ferozmente antigay. Só se mudaram. Já lá iremos.
Sou anticomunista por razões históricas e profundamente temperamentais. Como boa individualista que sou, tenho horror a coletivismos impostos, e uma boa parte da minha adolescência e entrada na idade adulta foi passada a assistir e a resistir a isto. Posso mesmo dizer que, doutrinariamente, o que me definiu foi ser anticomunista. O fascismo tinha terminado no 25 de Abril. O fascismo foi outro regime totalitário que não percebeu a História. Comecemos pelo princípio.
Na Faculdade de Direito de Lisboa, os estudantes comunistas tinham o estranho hábito de decretar greves gerais sem consultarem todos os alunos nessa votação. Um aluno chegava à faculdade e diziam-lhe: hoje não entras, há greve. Há greve? Quem votou? Nós. Nós quem? Numa reunião secreta. Se foi secreta, como é que votámos? Nós votámos. Por causa desta discussão insana que despertava em mim instintos libertários e anarquistas, cheguei a furar uma ou duas greves com mais uns dementes como eu que não gostavam de ser paus-mandados. De um lado tínhamos os gorilas e do outro lado tínhamos as greves obrigatórias dos comunistas, que se arrogavam o monopólio da contestação. A UEC era formidável nisto, no monopólio da contestação, e quando o MRPP tentou furar este monopólio teve o apoio de boa parte dos estudantes, que estavam fartos da UEC e dos seus esbirros da MJT. A MJT era o braço armado dos comunistas e chegou a encerrar alunos dentro das aulas para bater nos maoistas à vontade depois de deixar sair os outros, os “cobardes”. Uma das vezes, escapuli-me por uma janela antes que a MJT entrasse armada de matracas e correntes de bicicleta. A MJT era o operariado da UEC para a porrada. O Movimento da Juventude Trabalhadora. Quando o COPCON entrou pela faculdade, dando cabo de tudo à passagem, esgueirei-me para Coimbra em “transferência secreta” (não podíamos fugir da revolução em curso) e implorei ao professor Rui Alarcão que me aceitasse na vetusta instituição. Em Coimbra, vigorava um comunismo soft. Os comunistas controlavam tudo muito civilizadamente. Sem pressões e mantendo o currículo académico. Restava o problema dos sovkhozes e dos kolkhozes. Sobrando em Direito professores comunistas que não abdicavam da coletivização dos bens e dos meios de produção, fomos obrigados a estudar marxismo coagidos pela frase: quem vier para as minhas provas escritas e orais defender a propriedade privada pode contar com um chumbo. Andei em guerra até ao fim do curso com um professor chamado Orlando de Carvalho, que jurou que me chumbaria em qualquer circunstância (deu-me 14 depois de eu ter encornado a sebenta toda, incluindo as cedilhas e os pontos e vírgulas e, salvo erro, a célebre nota 64). O Orlando era um comunista católico envergonhado. Era um coletivista desavergonhado e um misógino desembestado. Sem dinheiro para ir estudar para fora e fugir desta gente, achei que mais valia submeter-me e engolir a teoria, engolir os kolkhozes e os sovkhozes (que eram de outro professor comunista) e despachar-me daquilo. Foi o que fiz.
O Partido Socialista parecia-me, com Mário Soares e a doutrina do socialismo democrático, a única oposição responsável ao totalitarismo de Cunhal e dos militares que não queriam regressar aos quartéis. Estive na Fonte Luminosa, claro, e assisti ao lento e duríssimo processo da democratização de Portugal. Os comunistas eram o que tinham sido sempre, intratáveis e muito pragmáticos. Quem não era por eles era contra eles. Nunca entrevistei Cunhal até ao fim da vida dele porque sempre recusei mostrar-lhe a entrevista para ele editar à vontade. Não iria à Soeiro Pereira Gomes. Um dia, consegui negociar. Iria à Soeiro Pereira Gomes, mas editaríamos o texto juntos. No que eu não concordasse, não passaria a emenda. Cunhal aceitou, e a conversa resvalou para Shakespeare e o “Rei Lear”, que ele queria traduzir (acabar de traduzir). Não emendou nada da entrevista. Álvaro Cunhal, com perto de 80 anos, tinha adoçado e era uma figura intelectual respeitável que eu respeitava muito. Já não era o inimigo. Havia uma diferença entre conversarmos sobre Shakespeare — o “Rei Lear” é a minha peça favorita e era a dele, um tratado sobre o poder e a partilha do poder — e ter o doutor Cunhal a mandar na minha vida. Na verdade, anos antes, o doutor Cunhal quisera fazer de Portugal a jangada de pedra do estalinismo europeu. Uma espécie de little Bulgária. Do PCP tinham entretanto saído muitos dissidentes, enquistados com a ausência de democracia intrapartidária. Muitos desses dissidentes eram ou tinham sido comunistas ortodoxos, dos que aplaudiram de pé a entrada dos tanques do Pacto de Varsóvia em Praga. Eu estava, sempre estive e estarei com os dissidentes checos, com Václav Havel e com a democracia.
Em Portugal, o PCP sufocou todos os desvios à sua norma ou absorveu toda a contestação não emanada das suas instâncias representativas da massa. Da massa, sim, não da cultura de massas. Por um lado, o PCP tinha a tradição da clandestinidade e da coragem na clandestinidade e não admitia dissidências desta tradição. Julgava-se o único detentor da verdade contestatária (como se tinha julgado na Faculdade de Direito o único autor das greves estudantis). Por outro lado, a cultura de massas assente no individualismo era-lhe profundamente estranha. No meio literário português dominava largamente, não apenas através das instituições que controlava (da APE à SPA) como através dos compagnons de route sem filiação na extrema-esquerda radical e sem movimentos adequados à sua representação. O papão da direita e um esquerdismo social unia esta gente. Mais um certo aggiornamento chique que, pensavam erradamente, o PCP lhes conferia. A Festa do “Avante!” era um dos altares desta missa. O PCP pode ter muitos defeitos, mas nunca foi um partido estúpido, embora tenha sido apanhado desprevenido com a queda do Muro de Berlim. Quem não foi? O PCP olhou para Gorbachev primeiro com ódio e depois com incredulidade. O império soviético desmoronava-se. Os que acreditaram numa mudança de mentalidades dentro do PCP depressa foram expelidos ou condenados pela inquisição do partido. O PCP não mudara. O mundo mudara sem ele.
A atitude intelectual totalitária que caracteriza o PCP deixou como legado a anemia intelectual portuguesa. O neorrealismo deixou de ser dominante, mas não chegou a ser substituído por movimentos herdeiros da modernidade e do modernismo. Nem por um esboço de pós-modernismo importado de Paris. Esta é a nossa tradição. Os grandes intelectuais portugueses sentiram-se sempre exilados dentro do seu país, como Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill, ou exilados reais, como Jorge de Sena. Ou como Eduardo Lourenço, que sofreu a ansiedade da separação. E havia os açorianos, uma casta especial de solipsistas, de Vitorino Nemésio a Natália Correia. São, todos, navegadores solitários. Pessoa teve a sorte de ter tido a geração de Orpheu a fazer-lhe companhia.
Basta ir a Londres e à Tate Modern, e visitar a exposição “The World Goes Pop”, para ver como Portugal não consta desta revolução. É a única ditadura ocidental dos anos 60 e 70 que não teve representantes e cultores pop. Não teve movimento pop. Não teve a anarquia pop. O protesto pop. A arte pop. O Brasil teve, a Argentina teve, o México teve, a Espanha teve, o Chile teve. Portugal não teve. Devemos isto ao PCP e à hegemonia do PCP num país pequeno e sem mercado de ideias, vinculado ao Estado e aos ditames e subsídios e cargos do Estado. A única escritora portuguesa que verdadeiramente escapou a esta hegemonia foi Agustina Bessa-Luís, e por isso ela permanece o ícone intelectual da direita (da nova direita) e por ela é exaltada e venerada. Agustina era o triunfo do individualismo desde que decidira escrever “A Sibila”. Agustina detestava os comunistas, não por serem comunistas mas por não serem livres. Tive com ela esta discussão e sei que as palavras de Agustina eram diferentes das palavras de todos os outros escritores, incluindo os liberais cosmopolitas que estavam próximos do PS, como Sophia de Mello Breyner ou David Mourão-Ferreira. Agustina não é, não era, nunca foi de esquerda. Nunca precisou de uma moral de esquerda, tal como esse lúcido libertário chamado Mário Cesariny de Vasconcelos.
Para a nomenclatura do PCP, ser de esquerda era mais benéfico do que ser comunista, quando se tratava de escritores. Controlando as instituições, o PCP resistia a dar prémios literários a José Saramago. Porquê? Dava-os aos outros e não a ele. Deu a José Cardoso Pires e a Paulo Castilho ou Mário Cláudio. Nunca deu a “Memorial do Convento” e a “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Porquê?
Assente-se que Álvaro Cunhal não gostava de Saramago. Nem pessoalmente nem literariamente. Cunhal era um esteta, um romancista falhado, e nem no estilo nem na receção crítica do estilo, relacionados com a pureza do neorrealismo, podia identificar-se com a retórica do escritor-estrela dos comunistas. Saramago era um maneirista inspirado pelo padre António Vieira e o Século de Ouro espanhol, e mais depressa apanhariam Cunhal a aplaudir a subversão existencialista de um Albert Camus do que um missionário jesuíta do século XVII. Saramago era um escolástico, e Cunhal abominava a escolástica. Ninguém reparou nisto. Foram mais rivais do que Eça e Camilo foram. E o PCP nunca gostou de estrelas.
E a direita? A direita portuguesa foi sempre preguiçosa e tendencialmente analfabeta. Quando digo a direita, digo o capital, os capitalistas portugueses. Simbolicamente gordos e anafados como nas caricaturas de Vilhena, nutriam pelos socialismos e pela social-democracia um ódio rancoroso e viviam no passado. Sá Carneiro foi tolerado por eles, não foi amado. Até nascer o novo capital, o das novas empresas e grupos e dos novos assalariados de luxo do novo capitalismo português, a direita era uma caricatura sem ideologia com uma ou duas figuras excecionais na indústria, como António Champalimaud. Ficara presa à nostalgia do antigo regime, sem particular engrandecimento da memória imperial, às vezes por ignorância, e a uma postura cívica sem mestre intelectual. Os raros ativistas letrados e revolucionários desta direita sentiam-se órfãos. Como dizia um deles, a direita portuguesa era do género: vão andando que depois vou lá ter. Os outros converteram-se e decidiram trabalhar com quem estivesse no poder. Nascia gente na banca e nas empresas, produto da democracia e da pequena burguesia dos partidos, que não se revia na direita mumificada. Esta ficou à espera de D. Sebastião e chegou a ver nos traços endurecidos de Aníbal Cavaco Silva, um membro do povo que tinha tudo para lhes ser estranho, a face do salvador. Como vira em Salazar.
Neste ambiente, PCP e PS dominaram tudo. Dominaram a literatura, dominaram a música, o teatro, o cinema, a fotografia, as artes, o jornalismo, a crítica, tudo. Foi preciso esperar pela agonia do século XX para esta dominação se atenuar. A revolução tecnológica capitalista pôs-lhe cobro de vez.
No século XXI, amigos meus que tinham sido comunistas desde crianças, como Miguel Portas, confessavam a sua desilusão com o comunismo e a crença numa nova esquerda. O que Miguel Portas fez, e só fez, foi tentar experiências de esquerda que escapassem à ditadura intelectual comunista. Revistas, jornais, intervenções, plataformas e, finalmente, a criação do Bloco de Esquerda. Pressagiei que as alianças entre estes esquerdistas ilustrados e estrangeirados e os radicais da extrema-esquerda e de partidos como a UDP não seria um casamento feliz. Não foi. As tensões dentro do Bloco desaguaram nas dissidências do Bloco. Assisti a isto mais ou menos por dentro e discuti isto muitas vezes. O Bloco era importante para as causas ditas fraturantes, porque o PCP era um partido ferozmente conservador e antirrevolucionário nos costumes. Tendo criado a sua moral, a sua igreja e a sua liturgia, o PCP nunca transigia. Era nisso simétrico da direita reacionária. A aliança tática entre PS e Bloco permitiu “desbloquear” certa legislação que andava pendurada há anos na boa consciência de católicos e de direitistas.
O contributo de forças como o PCP e o Bloco para a democracia portuguesa é importante, apesar destes desníveis. Mas só é importante por ter sido enquadrado e travado pelo socialismo democrático dos socialistas e a social-democracia dos sociais-democratas.
Tal como o PSD, o PS tem sofrido um desgaste e uma desvalorização intelectual preocupantes. O PS de homens como António Arnaut ou Mário Soares já não existe. Nem sequer existe o PS de António Guterres. O PS de hoje divide-se entre os socratistas, com tudo o que de nefasto essa denominação representa, os oportunistas e os apoiantes de qualquer chefe que conduza ao poder um grupo de gente que sabe que o partido precisa de lançar mão do aparelho de Estado para sobreviver politicamente. Junte-se ao caldo meia dúzia de jovens idealistas sem maturidade. À direita, o “ideologismo” (chamar-lhe ideologia seria um manifesto exagero) pseudoneoliberal de Passos Coelho e dos videirinhos amestrados, de que Relvas é a caricatura apurada, forneceu a uma gente desavinda pela História o último pretexto para a união.
Uma união que nunca se consumaria. O PS não é coletivista. Não foi. Não será. É um velho partido de católicos e de maçons que se sente ameaçado e está a jogar póquer fechado com altas paradas. E a direita de Passos perdeu esta jogada, num espanto emudecido que não provocou um texto, um pretexto, um protesto. A direita portuguesa continua a dizer: vai andando que já lá vou ter. Deixou a contestação aos jornalistas e articulistas que julga protetores do statu quo. Esta nova aliança das esquerdas descambará em novas direitas, seguramente.
A destruição do centro, à esquerda, e a insensatez de quem nos tem governado, à direita, tornaram o combate ideológico um combate tribal, como o futebol. Um combate onde não vingam a inteligência e a ilustração. Muito menos a memória. Não é preciso invocar a Europa e a sua putativa falência, ou o diktat de Bruxelas, para concluir que o PS abriu a boceta de Pandora. Convencidos de que os comunistas mudaram, os socialistas serão, como recusaram historicamente ser, chantageados por um partido que joga aqui a sua derradeira cartada da História. O comunismo acabou em toda a parte, mas não aqui, não aqui. E não acabou aqui porque a desigualdade e a pobreza que a direita exalta em Portugal como regra de vida comum, como modo operativo de um capitalismo egoísta, autodidata e desmembrado, são a bandeira do PCP. São o seu eleitorado. Juntem-lhe os funcionários públicos num país envelhecido onde todos dependem do Estado, da banca aos artistas, e temos a explicação do anacronismo chamado Partido Comunista Português. Tal como o capital, o trabalho sabe defender-se.
O Partido Socialista meteu-se nesta querela sem ter trunfos na manga. Perdeu as eleições, e isso faz toda a diferença na potestade. O PS não tem sobre o PCP e o BE um direito potestativo. São eles que o têm, e exigirão a submissão. Não sei como sairá disto. Sei que das duas uma. Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abril. E, talvez, para o fim do regime saído do 25 de Abril.
Quanto a mim, sou o que sempre fui. Portuguesa e anticomunista, obrigada. Nisso, não mudei.

Carlo Acunti : um 'geek' de computadores a caminho de ser santo

WWW.ALETEIA.ORG   03.12.16

Em 24 de Novembro, 2016, o Cardeal Angelo Scola fechou a fase diocesana do processo de canonização de Carlo Acutis, um rapaz italiano de 15 anos que morreu em 2006 de leucemia. Ele era um adolescente se dedicou à oração e à missa diária assim como à programação de comutadores, edição de filmes, criação de websites e edição e design de banda desenhada. 

De acordo com o site do seu processo de canonização  o “Carlo era talentoso em qualquer coisa relacionada com computadores, já que os seus amigos e os adultos com formação em engenharia informática consideravam-no um génio. Todos ficavam impressionados com a sua capacidade de entender os segredos dos computadores que eram normalmente acessíveis apenas a quem tivesse terminado a universidade. 

Quem diz que não podes ser santo?
Um dos seus mais significativos projectos informáticos foi catalogar todos os milagres eucarísticos do mundo. Começou o projecto com 11 anos e escreveu na altura: Quanto mais comungarmos mais nos tornaremos como Jesus, para que nesta terra possamos experimentar o Céu.  Depois pediu aos pais para o levarem a todos os locais dos milagres eucarísticos, dois anos e meio depois o projecto estava completo. 



   Carlo Acunti em Fátima (local de milagre eucarístico)


Acutis investigou mais de 136 milagres eucarísticos que ocorreram aos longo dos séculos em diferentes países do mundo e que foram reconhecidos pela Igreja e coleccionou-os num museu virtual. Além de criar o website para este museu virtual, ajudou a criar uma exposição em painéis que viajou à volta do mundo. 

De acordo com o painel introdutório, "Só nos Estados Unidos, graças à assistência das instituições Knights of ColumbusThe Cardinal Newman Society e The Real Presence Association and Education, com o apoio do Cardeal Edmond Burke a exposição foi recebida em centenas de paróquias e mais de 100 universidades. Os painéis viajaram os 5 continentes e inspiraram muitos com as suas impressionantes fotografias e belíssimas histórias.  

Acutis disse uma vez, "Estar sempre perto de Jesus, esse é o plano da minha vida". Na sua curta vida na terra atingiu esse objectivo e permaneceu junto a Jesus em tudo o que fazia, fosse a rezar durante horas em frente ao Santíssimo Sacramento, a criar websites, ou a ir à escola como qualquer outro adolescente normal. 

Não tens que ser bom aluno para ser santo 
A sua mãe disse sobre ele “A sua imensa generosidade tornava-o interessante a todos: os estrangeiros, os deficientes, as crianças, os mendigos. Estar junto do Carlo era como estar perto de uma fonte de água fresca. [ele] compreendia o verdadeiro valor da vida como dom de Deus, como uma tarefa, uma resposta a dar ao Senhor Jesus, dia a dia, na simplicidade.” , Continuou a sublinhar, “Devo salientar que ele era um rapaz normal que era alegre, sereno, sincero e prestável e que adorava ter companhia, gostava de ter amigos.”

Ele permanece uma inspiração, especialmente aos adolescentes que duvidam poder ser santos e normais ao mesmo tempo e individualmente únicos. “Todos nascem como originais," mas muitos morrem como fotocópias". Morrer como um original, maninha Carlo, era ser guiado por Cristo, e olhá-Lo constantemente. 

Apesar de ter levado uma vida de oração devota - ia à Missa todos os dias - o Carlo estava muito interessado em ser um adolescente no século XXI. Além dos seus interesses que eram muito vastos, encontrava também tempo para trabalho voluntário com crianças e idosos porque, dizia ele, "O nosso objectivo tem que ser o infinito e não o finito. O infinito é a nossa terra. Somos sempre esperados no Céu."  

A próxima fase no processo de canonização é enviar o conjunto de todos os trabalhos biográficos para Roma para serem revistos pela Congregação para a Causa dos Santos. Se aprovado, a causa para a canonização de Carlo Acutis avançará e o Santo Padre  poderá declará-lo venerável.”





Frase do dia

"Deus deu-nos um estado 'inculto' para que o fizéssemos tornar-se cultura; e depois, com esta cultura, fazemos as coisas que nos levam ao estado 'inculto'!

Papa Francisco, Polónia  27.07.16

Carta aberta ao Canal Panda

BERNARDO VALLE DE  CASTRO    10.12.16


Exmo. Sr. Dr. Pedro Mota Carmo,
CEO da Dreamia, 
Produtora dos canais temáticos
Panda e Panda Biggs


Caro Pedro,
(Desculpe o tratamento pelo primeiro nome, não o tome como falta de respeito. Não é. Se um dia me responder a este e-mail, terei todo o gosto em ser tratado apenas como Bernardo.)
O meu nome é Bernardo do Valle de Castro, tenho 34 anos, casado e pai de três filhos.
Muitas vezes vou a casa de amigos e, para poder estar à conversa com eles, os filhos deles ficam a ver televisão. É um alívio, um sossego!
Sempre que passo os olhos pelos bonecos que estão a dar, no entanto, dá-me aquela sensação de nostalgia: “Os desenhos animados que eu via em pequeno é que eram bons! Desenhos bem-feitos, histórias calmas, giras.”. Mas enfim, como não sou dado a nostalgias, não me interesso em continuo à conversa.

Uma vez por outra, quando tenho um bocadinho mais de paciência, fico a ver um bocado os desenhos animados e de quase-nostálgico, fico preocupado: não só os desenhos animados não são nada como os que eu via em pequeno (nem têm que ser, claro!), como são, a meu ver, feios, com personagens parvas, ridículas, com histórias absurdas, com diálogos maus, deseducativos, graves. Não percebo nada de “como é que se capta a atenção dos expectadores infantis”, mas a sensação que dá ao observador comum é que aquilo é realmente mau…e os miúdos comem com aquilo sem qualquer critério.

Naturalmente, em nossa casa, não temos televisão. Os meus filhos vêm o que eu os deixo ver: o critério sou eu quem lhes dá. Ainda são pequenos. Mais velhos, verão outras coisas, conversando comigo e com a minha mulher, e quando já souberem pensar por eles, verão o que quiserem, claro. Não temos televisão mas temos computador e internet e facebook e alguns amigos com televisão atentos aos programas de dois dos seus canais: Panda e Panda Biggs – o tal da diversão, que os filhos dos meus amigos vêem muito.

Ultimamente tenho visto excertos destes dois canais, que me têm chegado por facebook. Digo sem exagero que, quem tenha bom senso, não pode ficar senão horrorizado com aquilo. Na verdade, não é horrorizado com aquilo: é horrorizado com a hipótese de miúdos de 4, 5 e 6 anos verem aquilo sem qualquer critério, só porque os pais, coitados, querem estar a descansar. Pergunto-lhe, sem ser em tom de provocação (não é mesmo essa a minha intenção. Não me conhece, mas garanto-lhe.), se já alguma vez viu aqueles canais? É assustador.

Fui, então, ver quem era a entidade responsável pelos canais Panda e percebi que era uma empresa chamada Dreamia. A partir daí foi fácil: linked in e cheguei ao nome do CEO da empresa – o seu, desde há 2 anos e 10 meses.
Não sei quais são as funções de um CEO de uma empresa responsável por estes canais. Provavelmente não é sua a função da escolha da programação, mas imagino que seja seu o papel de supervisão geral, nem que seja pelas pessoas responsáveis pela escolha dos conteúdos dos seus canais. Por isso é a si que dirijo esta carta, para lhe expor a minha preocupação e algumas dúvidas que tenho.

Penso nas motivações que o levaram a aceitar este cargo: teria uma ideia para os seus canais? Uma linha orientadora? Um conteúdo que gostava de apresentar? Talvez fosse mais empresarial, o seu propósito, e tenha querido apenas assegurar que os seus canais seriam cada vez mais líderes de audiências, no matter what!

Duvido sinceramente que alguém no seu lugar nunca se tenha posto a questão: “Qual a função da televisão? Dado o incrível poder deste aparelho, interessará questionar-me sobre se a televisão tem ou deve ter alguma função, já que é tão espectacularmente influenciadora? Tudo se deve resumir, realmente, ao descartar absoluto da responsabilidade no «só vê quem quer?»”. Pergunto-me se alguma vez o Pedro se terá feito alguma destas perguntas. Sendo ou não sua a responsabilidade da escolha da programação, o Pedro lidera a entidade responsável por ela. Que poderosa responsabilidade, a sua!

Sei que também tem outros canais – não apenas os vocacionados para crianças. E se, aí sim, me aprece mais claro o “só vê quem quer, seja bom ou mau o conteúdo”, no que toca aos canais infantis penso que a questão não pode deixar de se colocar. Apetecia-me ilustrar algumas passagens dos desenhos animados que passam nos dois Pandas, mas quero manter o nível desta carta e não o baixar ao nível perverso dos desenhos animados infantis que infinitas crianças vêem pelo nosso país fora, formando os critérios de futuros portuguesinhos, formação essa para a qual, em parte, obviamente, o Pedro contribuiu.

Já lhe perguntei antes se o Pedro alguma vez viu aqueles canais. Quero acreditar que sim. Por isso, pergunto-me também se deixaria um filho seu ver aquilo. Espero sinceramente que não. É realmente mau demais para ser verdade.
Tenho curiosidade para, um dia, me sentar numa mesa das vossas, onde estão a decidir que programas comprar para serem reproduzidos nos canais Panda: não consigo mesmo perceber qual o critério que é usado para decisões dessas. Não que a televisão tenha que ter carácter educativo para as crianças, e que esse seja o critério com base no qual compram os vossos programas: só os vê quem quer, por isso podem pôr lá o lixo inteiro, que, no limite, a responsabilidade é dos pais. Agora, o conteúdo daqueles desenhos animados é propositadamente deseducativo! Parece que, nessa tal mesa redonda onde essas coisas são decididas, os seus colegas assumem o direito de colocarem o que querem como uma obrigação de subserviência ao lixo que vos chega.

Se, por hipótese meramente académica, fizéssemos um teste, e colocássemos uma criança a ver exclusivamente os canais Panda durante vários dias, nos seus tempos livres em casa, o resultado seria certamente uma criança perturbada: os seus comportamentos adaptar-se-iam aos dos seus heróis, aos dos seus exemplos, aos dos seus pequenos ídolos animados.
Ups! Isto não é uma hipótese meramente académica: esta é a realidade diária de milhares de crianças portuguesas que estão presas ao lixo que vêem durante duas horas. (Desculpe a linguagem, mas sou mais pela verdade que pelos eufemismos).

Se calhar, afinal, sou saudosista, porque gostava muito mais dos desenhos animados que eu via quando era pequenino, porque recebi com as suas personagens critérios que me acompanharam à medida que cresci: a procura da beleza, da história bem contada, das personagens exemplares com quem nos queremos identificar, do bem e do mal, do certo e do errado, dos crescidos que estão lá para nos ajudar e são referência. Enfim, tudo, absolutamente tudo o contrário do que hoje é possível ver nos desenhos animados que os meus filhos não vêm mas que os filhos de pessoas de quem gosto vêm.

Caro Pedro, não me tome a mal este meu desabafo: é o de alguém naturalmente preocupado com o mundo no qual os seus filhos crescerão, e onde tanta coisa é o contrário absoluto do que lhes quero ensinar. Se faz favor, perceba que não podia ficar calado!

Com amizade,
Bernardo do Valle de Castro

Silêncio e Respeito

MIGUEL ESTEVES CARDOSO      PÚBLICO      10.11.16

Tudo na vida conspira para que a bolha em que vivemos se torne cada vez mais pequena, parecida e convivial. Filtramos tudo até só estarmos com pessoas que são como nós, pensam como nós e gostam, mais ou menos, das mesmas coisas do que nós. As discussões não são discussões nem podem ser. São simples confrontos de diferenças de opinião.

É bom sair da bolha e ir ler o que dizem as pessoas que não são como nós. A leitura é ideal porque não podemos responder-lhes, interrompê-las ou conversar com elas.

Isto de não conversar é muito bom. Lendo e ouvindo damos uma verdadeira oportunidade a quem lemos e ouvimos. Num debate não há nem pode haver debate profundo. Há debate profundo - e eficaz - quando prescindimos da nossa intervenção para tentar entender o que outra
pessoa quer dizer. Cabe-nos interpretá-la. Mas sem incomodá-la.

Não se pode denunciar credivelmente o politicamente correcto sem conhecer alguns dos debates sobre as melhores maneiras de falarmos uns com os outros, respeitando as identidades e as ideias de cada um.

É verdade que esses debates, quase sempre entusiásticos e muitas vezes sofisticados, ocorrem dentro de bolhas, de mundos limitados e bem defendidos.

Mas é lá que se aprende que é tudo uma questão de respeito. E, no sentido mais antigo e prestável, de etiqueta e de diplomacia. Começa logo pelas formas de tratamento e pelos comportamentos mais bem-educados. É por isso que se chama má educação. A ignorância é a causa podre do desrespeito. Respeitar é conhecer.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Consulta pública do Referencial para a Educação da Saúde

Foi prorrogado o período de consulta do referencial de educação para a saúde. A direcção geral de educação convida os interessados a enviar sugestões de melhoria do documento, devidamente fundamentadas, até às 12:00h do dia 19 de dezembro de 2016, para dseeas@dge.mec.pt.

Transcreve-se abaixo o conteúdo das páginas 69 à 82 deste documento que podem encontrar por inteiro aqui



AFETOS e EDUCAÇÃO PARA A SEXUALIDADE

A Organização Mundial de Saúde define a sexualidade como “uma energia que nos motiva para encontrar amor, contacto, ternura e intimidade; ela integra-se no modo como sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, por isso, influencia também a nossa saúde física e mental”. A sexualidade está presente no nosso dia-a-dia e, por isso, a sua abordagem não pode estar confinada a uma “disciplina”. Sendo a escola um lugar habitado por crianças e jovens, cujas idades são atravessadas pelos fenómenos de transformação corporal e psicológica ligados ao crescimento natural, é nela que se vivem alguns dos primeiros e mais impressivos sentimentos e emoções decorrentes do desenvolvimento sexual. A sexualidade é vivida pelas crianças e jovens de formas diversas, de acordo com a vivência familiar, escolar e enquadramento socio-económico.
Nos vários ambientes que a escola proporciona os alunos experimentam a sua sexualidade, quer seja nas suas brincadeiras, no estudo e nos namoros, mas também na relação com os docentes e trabalhadores da escola. Ela está presente nas conversas, nos jogos, nas quezílias, mas também nos conhecimentos científicos. A educação para a sexualidade para ter os resultados desejáveis terá de dirigir-se à escola como um todo, penetrar em todos os seus ambientes, envolver todos os seus membros, aproveitar todos os momentos para, através de acontecimentos emocionais estruturados, construir modelos que promovam os valores e os direitos sexuais, sobre os quais os jovens possam desenvolver a sua própria identidade e o respeito para com os outros.
A sexualidade suporta afetos, que se manifestam sob a forma de emoções, sentimentos e paixões, acompanhados sempre da impressão de dor ou prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza. Existe uma vida afetiva que permanentemente nos faz aceitar ou rejeitar um acontecimento, um contexto, uma pessoa ou até um espaço. Cuidar dos afetos na escola assume uma importância significativa pois, depende das ligações afetivas, positivas ou negativas, uma melhor ou pior aprendizagem, relações interpessoais mais ou menos satisfatórias e em consequência atitudes e comportamentos mais ou menos positivos. Desenvolver os afetos na escola será uma alavanca importante para o sucesso escolar dos seus alunos.


Subtemas:






BIBLIOGRAFIA:  

  • BRANDES, Donna; PHILLIPS, Howard, Manual de jogos educativos 140 jogos para professores e animadores de grupos, Moraes editores Psicologia e pedagogia http://jucienebertoldo.files.wordpress.com/2013/05/140-atividades-e-jogos-sobre-sexualidade-e-sc3a1ude.pdf

  • WORLD HEALTH ORGANISATION, Regional Office for Europe and BZgA (2010) - Standards for Sexuality Education in Europe - A framework for policy makers, educational and health authorities and specialists 

  • FORRETA, Fátima; MARQUES, António Manuel; VILAR Duarte (2002) Os afetos e a sexualidade na educação pré-escolar: um guia para educadores e formadores, Lisboa: Texto Editora. 

  • FORRETA, Fátima; MARQUES, António Manuel; VILAR Duarte (2002) Educação sexual no 1o ciclo: um guia para professores e formadores, Lisboa: Texto Editora. 

  •   FRADE, Alice [et al] (2003);Educação sexual na escola: guia para professores, formadores e educadores, Lisboa: Texto Editora, 2001, 4a ed.; 5a ed. 

  • FREITAS, Filomena; PEREIRA, Maria Manuela (2001) Educação sexual: contextos de sexualidade e adolescência, Lisboa: Edições ASA. 

  •   LOPEZ Sanchez (2005) La Educacion SexualF. Editorial Biblioteca Nueva.

  •   CAMACHO, Helena; SANTOS, Ana Cristina; e OGANDO Clara (2001); Adolescendo: educação da sexualidade na escola da teoria à prática; Lisboa: Didática Editora. 

  •   F., Amarú, LOPEZ Sanchez; Prevención de los abusos sexuales de menores e educación sexual, Ediciones 2000.page81image16416 page81image16576
  •   It’s All One Curriculum: Guidelines and Activities for a Unified Approach to Sexuality, Gender, HIV, and Human Rights Education. Population Council, New York, 2009. www.itsallone.org 

  •   CARPINTERO, Eugénio Prevenção de riscos associados ao comportamento sexual- gravidez não desejada, DST e SIDA, Edições APF. 

  •   VILAR, D. (2003) Falar disso: a educação sexual nas famílias de adolescentes, Edições Afrontamento, Lisboa. 

  •   BENASULIN, A.; VILAR, D.; PINTO, P.; GIL, S.; LAMEIRAS, S:; YASMINA, G. (2006) A Orquídea & O Beija-Flor - Sobrevoando as Questões Sexuais dos Jovens, Areal Editores 

  •   JOCELYNE, Robert; JO-ANNE, Jacob (2009) A minha sexualidade- até aos 6 anos, Porto Editora. 

  •   JOCELYNE, Robert; JO-ANNE, Jacob (2011) A minha sexualidade- dos 6 aos 9 anos, Porto Editora. 

  •   JOCELYNE, Robert; JO-ANNE, Jacob (2011) A minha sexualidade- dos 9 aos 13 anos, Porto Editora. 

  •   BANCROFT, J et al. (2003) Sexual development in childhood, Indiana University Press, Bloomington. 

  •   UNESCO (2009a). International technical guidance on sexuality education. Vol. I Rationale for sexuality education. Paris. http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001832/183281e.pdf.

  •   UNESCO (2009b). International technical guidance on sexuality education. Vol. II Topics and learning objectives. Paris.  http://data.unaids.org/pub/ExternalDocument/2009/20091210_international_guidance_sexuality_education_vol_2_en.pdf
  •   Saúde Sexual e Reprodutiva www.saudereprodutiva.dgs.pt/ 

  •   Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA http://pnvihsida.dgs.pt 

  •   International Planned Parenthood Federation www.ippf.org 

  •   The European Society of Contraception and Reproductive Health www.contraception-esc.com

  •   Aids Action Europe www.aidsactioneurope.org

  •   UNAIDS www.unaids.org