domingo, 26 de abril de 2015

Fátima: uma experiência


Rui Corrêa d'Oliveira
Mensageiro, Julho a Outubro de 2005

O intruso

Helena Matos | Observador | 26/4/2015

O PS rapidamente se juntou ao coro da indignação contra Cavaco, logo transformado em sustentáculo do Governo porque, como contra todas as previsões, a coligação se mantinha e o povo não se revoltava.
Quando Cavaco entrou no hemiciclo para presidir às cerimónias do 25 de Abril sabia que a sua vitória é precisamente essa: estarem todos a 25 de Abril de 2015 no lugar que os calendários eleitorais determinaram, sem antecipações nem quebras de rotina. É óbvio que Cavaco Silva teria preferido assinalar esta data num parlamento em que PSD e PS tivessem subscrito o acordo que lhes propôs em 2013. Mas nem Seguro podia aceitar tal proposta (ou achava que não podia) nem Passos ganhava alguma coisa com ela e por isso bastou-lhe deixar correr o tempo e as impossibilidades crescerem. Obviamente o acordo não se fez e de 2013 em diante o que restava a Cavaco era garantir que as “Eleições são na data prevista. Ponto final.” E serão. Essa é a sua maior vitória. O reverso dessa determinação foi tornar-se num intruso nessa República de que é Presidente. Podia não ter sido assim?
Quando Cavaco declarou “Eleições são na data prevista. Ponto final” estava-se em Novembro de 2014. António Costa derrotara Seguro há menos de dois meses e Sócrates não só ainda não fora preso como estava a ser paulatinamente tornado no próximo presidenciável socialista. No período que mediou entre Outubro de 2014 (as eleições no PS tiveram lugar a 28 de Setembro) e 22 de Novembro de 2014 (data em que Sócrates foi preso) a pressão para que Cavaco antecipasse as eleições ia em crescendo. (Depois da prisão de Sócrates essa pressão naturalmente abrandou deixando o pedido de antecipação das eleições de ser uma reivindicação política para se transformar numa espécie de oco recurso estilístico enfático.)
Subjacente à tensão mediática desses dias de Outubro e Novembro de 2014 está o traço do regime português que fez de Cavaco um intruso em Belém: o Presidente da República deve zelar pelo regular funcionamento das instituições e, em Portugal, entende-se que tal só acontece quando a esquerda possível, o PS, é governo. Em Outubro de 2014 o PS sentia-se capaz de ganhar as eleições e portanto exigir a sua antecipação parecia-lhe não só razoável como naturalmente legítimo. A Presidência da República é para os socialistas a casa mãe de um regime do qual e no qual eles são figuras maiores. Por isso ver Cavaco Silva em Belém foi uma imagem muito mais difícil de aceitar pelos socialistas do que vê-lo em São Bento.
A este entendimento dos socialistas junta-se o maniqueísmo da esquerda mais radical que tem nas candidaturas presidenciais socialistas o momento em que finalmente se senta entre os vencedores. Daqui decorre que para a esquerda o Presidente da República apenas pode representar essa República tutelada pela esquerda e não Portugal. A forma como Sampaio afastou Santana Lopes e o país reagiu a essa manobra palaciana como se ela tivesse reposto a ordem natural dos factos é sintomática da natureza aristocrática daquilo a que chamamos regime republicano e da concepção instrumental que a esquerda tem da Presidência da República. O próprio Presidente da República só é respeitado quando e na medida em que não esqueça este princípio não escrito mas inscrito. Assim não é de modo algum paradoxal que o desgaste da imagem de Cavaco Silva se tenha acentuado de forma notória quando o PS deixou de ser Governo.
A derrota dos socialistas nas eleições que tiveram lugar em Junho de 2011 não deixou certamente de ser vivida com alívio por Cavaco que há muito perdera a confiança em Sócrates e a quem não podia deixar de preocupar continuar a ver em São Bento alguém com a personalidade, o estilo de vida e a maneira de fazer política de Sócrates. Mas Cavaco não podia deixar de ignorar que para si o pior em termos de popularidade ia começar a partir de momento em que o Governo deixasse de ser socialista. Primeiro, porque a esquerda radical, que enquanto os socialistas estiveram no poder foi mantendo um mínimo de decoro institucional, logo deixou cair a máscara da civilidade. Depois porque o PS rapidamente se juntou ao coro da indignação contra Cavaco (logo transformado em sustentáculo do Governo porque, como contra todas as previsões, a coligação se mantinha e o povo não se revoltava) pois só Cavaco podia antecipar as eleições que garantiam aquilo que o PS tinha como certo: o regresso ao poder.
Não fazendo o que esperavam dele, Cavaco tornou-se um corpo estranho à aristocracia da República. A partir desse momento, comemorações do 25 de Abril como aquela que teve lugar em 2011, em que no Palácio de Belém, ao lado de Cavaco estiveram Eanes, Soares e Sampaio, tornaram-se irrepetíveis. Para a aristocracia da República partilhar o espaço das comemorações do 25 de Abril com Cavaco Silva passou quase automaticamente de concessão útil a acto contra-natura.
Mas se isto foi verdade até e durante os mandatos presidenciais de Cavaco pode estar a deixar de sê-lo: o PS, saído de cena Guterres, arrisca-se a ficar agarrado a candidaturas como a de Nóvoa que não só o afastam do centro como levam o centro a sair de casa para votar em quem quer que seja que não pareça saído de uma recriação de uma sessão de dinamização cultural da 5ª Divisão. (Nesse sentido Nóvoa é o melhor aliado de Marcelo Rebelo de Sousa que não por coincidência parece ter ganho asas nas últimas semanas.)
Para o PS em particular e para esquerda em geral a hipótese de perder as próximas presidenciais é real e, caso se verifique, será não apenas mais uma derrota eleitoral mas sim a confirmação da perda do estatuto de superioridade que até agora mantiveram. Goste-se ou não estamos num fim de ciclo. Sinal disso mesmo é o facto de no fim do dia 25 de Abril os comentadores já terem esquecido as comemorações, os discursos e os recados do Presidente. A apresentação da coligação por Passos e Portas preencheu os noticiários da noite.
Mas ganhe quem ganhar as próximas eleições presidenciais convém que se registe que o início não augura nada de muito animador: descemos de um patamar de possíveis candidatos pessoalmente muito fortes como eram Guterres e Durão, que tinham uma legitimidade, uma história e experiência próprias, para um nível de candidatos muito frágeis politicamente falando. Na lista de candidatos já anunciados ou prováveis nenhum deles tem experiência de governo, muito menos de instâncias internacionais (sim, é importante sobretudo num país pequeno) e nenhum deles teve um partido por trás como tiveram Cavaco, Sampaio ou Soares. (Marcelo Rebelo de Sousa não entra nesta enumeração pois o que lhe falta em experiência executiva sobra-lhe em habilidade política e impor-se-á ao PSD se assim o quiser. Resta contudo saber se Marcelo candidato se impõe a Marcelo comentador e sobretudo se Marcelo presidente, caso seja eleito, conseguirá impor-se a si mesmo!)
Pior: nenhum destes candidatos e candidatos a candidatos ouve há muitos anos menos do que aplausos. Por isso e para começar reverem as imagens dos momentos em que Cavaco Silva tem sido vaiado é um bom exercício de preparação e de Introdução à Política Portuguesa, esse espaço em que somos todos iguais mas uns têm sido mais iguais que os outros.

Da minha vida à vossa [exposição sobre a vida de don Giussani no 10º aniversário da sua morte]


sábado, 25 de abril de 2015

O LENTO CAMINHO DA VIRTUDE

José Luís Nunes Martins 
Facebook | 25 de abril de 2015 
O caminho que sobe é o mesmo que desce. A prática de uma qualquer virtude supõe a realização de uma grande quantidade de atos no mesmo sentido. Não há heróis de um gesto só. Ninguém chega a ser bom de um momento para o outro. As grandes obras são consequência de percursos em que a vontade se sobrepõe à natureza passiva repetidas vezes.
A virtude, tal como a vida, nunca é um hábito.
Um vício submete sempre a vontade, levando-a a desistir e a entregar-se, de cada vez que é seduzida a cair. O caminho que leva a uma qualquer perdição faz-se de forma progressiva. Ninguém chega a ser mau de súbito. Os grandes disparates aparecem na sequência de outros disparates, menores, que vão corrompendo com paciência e determinação os alicerces da nossa liberdade, a fim de que, convencidos de que somos mesmo assim, aceitemos fazer o que nos prejudica e arruína a nossa verdadeira felicidade.
São mais os hábitos que temos do que aqueles que reconhecemos… O medo do desconhecido leva muitos a nunca se afastarem dos trilhos que já conhecem. As rotinas são difíceis de combater, pois instalam automatismos no lugar onde deviam comandar a espontaneidade e a liberdade. Há muita gente que chega a um certo momento da sua vida e pára de evoluir, deixando de se aperfeiçoar. Julgam ter-se encontrado… mas perderam-se. Na verdade, nenhum homem é estático, garantido e consumado. Só os mortos assim são…
O aperfeiçoamento pessoal a que todos somos chamados supõe firmeza, tranquilidade e sacrifícios contínuos. Ultrapassar estes sofrimentos pequenos é bem mais difícil do que enfrentar um ou outro dos grandes. A virtude passa muito pela renúncia e pelo sofrimento, e estes, quando em doses mínimas persistentes, conseguem tocar na nossa intimidade. Eis um dos grandes e mais simples segredos da virtude: resistir à insistência constante das pequenas tentações.
Ser virtuoso é fazer aquilo que, sendo possível, a muitos parece impossível. Na verdade, será sempre mais fácil do que parece. A dificuldade está em mantermos a mesma atitude face às mais diversas formas que o mundo encontra de nos inquietar e desviar do nosso melhor caminho. E depois há a solidão... os verdadeiros heróis não têm plateia e não contam com ela. Escolhem o que é certo porque é certo, nunca para obterem a aprovação de um qualquer julgamento alheio.
É longe do olhar dos outros que me revelo como sou. Um herói, um vilão ou uma insignificância comum…
Qualquer vida se torna absurda quando quem a devia governar se deixa levar pela estagnação dos mesmos hábitos…
Nada acontece por acaso e não há saltos inexplicáveis. Muitas vezes, será a nossa limitação de compreender que justifica que julguemos ser caos o que é uma ordem superior. Todos os momentos têm um sentido, seja a subir ou a descer. A virtude perfeita dos heróis simples é construírem, passo a passo, uma fuga à parte egoísta da natureza de cada um de nós. A verdadeira coragem e ousadia passam por não sermos normais, vulgares, mas sim extraordinários na nossa forma de lidar com a vida e com o tempo que nos são dados. Em paz, devemos fazer guerra à preguiça das fraquezas… e, em silêncio, resistir às tentações de tudo quanto não nos engrandece.
Devemos ser prudentes e justos, exercitando a nossa razão em favor do nosso maior bem, da nossa alegria mais profunda.
Devemos ser fortes e temperantes, buscando sempre garantir toda a pureza possível para as nossas emoções.
Inteligência sensível, coração forte.

O dilema de uma mãe socialista

Inês Teotónio Pereira
ionline 2015.04.25

Eu, tal como o PS, compro tudo aos meus filhos sem vergonha nenhuma e prometo-lhes o céu e a terra só para poder ver o telejornal descansada
Estava eu a ler o programa eleitoral socialista e pela primeira vez em toda a minha vida – que já vai mais longa que o regime democrático – identifiquei-me pessoalmente com o PS. Até à data eu tinha a convicção profunda de que em minha casa só os meus filhos eram socialistas e apenas os pais continuavam a ser as mesmas duas pessoas lúcidas que sempre foram. Estava enganada, o programa do PS levou--me a concluir que afinal eu também sou uma mãe socialista. Cheguei a esta curiosa conclusão porque percebi que o PS lida com os portugueses da mesma forma que eu lido com os meus filhos.
O PS, segundo o seu programa eleitoral, promete o que tem e o que não tem e com estas promessas tem esperança de vir a ter a votos. As contas não batem certo, as previsões são baseadas na esperança e até faz tábua rasa de tudo o que tem dito até aqui. Ora eu sou igualzinha com os meus filhos: também lhes prometo tudo na esperança que eles me obedeçam e cumpram as suas obrigações. Digo uma coisa num dia e outra coisa noutro dia só para fazer chegar a água ao meu moinho e nem me preocupo com a coerência das minhas promessas porque as batalhas diárias não dão espaço para preocupações dessa ordem.
Nós, eu e o PS, fazemos tudo para atingir os nossos resultados: o PS votos e eu que os miúdos vão para a cama. Até hoje eu achava que esta não era a melhor forma de educar crianças, que não devia prometer tanto e muitas vezes não conseguir cumprir. Achava ingenuamente que os estava comprar e que isso era mau. Mas graças ao PS percebi que não, que não é mau. É que segundo o economista do PS João Galamba comprar votos é um mero exercício de democracia.
Obrigada, João Galamba, já somos dois democratas.
Eu, tal como o PS, compro tudo aos meus filhos sem vergonha nenhuma e prometo-lhes o céu e a terra só para poder ver o telejornal descansada. Prometo-lhes chupas se eles tirarem boas notas, rebuçados se se calarem, cinema se se portarem bem, a chucha ao bebé se ele comer a sopa, etc. E a verdade é que muitas vezes não cumpro essas promessas. Não é por mal, é que muitas vezes não tenho tempo para os levar ao cinema, raramente tenho chupas em casa e na maioria dos casos nem me lembro do que prometi. Enfim, vivo a subornar os meus filhos e a fazer-lhes promessas falsas. Não por votos, como o PS, mas por causas muito menos nobres, como seja o sucesso escolar deles, o meu sossego, eles comerem legumes, etc. A minha veia democrata e socialista é de tal forma latejante que até lhes prometo que se estudarem podem vir a ser economistas do PS, assinar manifestos e até chegar a ministros.
Ora aquilo que eu achava que era uma fragilidade maternal, um erro pedagógico, uma forma de compensar a minha falta de autoridade e de verdade, afinal não é. Este é um dos casos em que os fins justificam os meios, ensinou-me o PS. Eu compro os meus filhos para eles fazerem o que eu quero, o PS faz o mesmo com os portugueses para ganhar eleições.
São ambos bons fins e ao que parece até são democráticos.
Mas eu ainda tenho muito a aprender com o PS e gostava sinceramente que outro programa eleitoral ou outra qualquer declaração do economista João Galamba me ensinassem. O meu grande problema, que aproveito para partilhar com o PS, é que os meus filhos já me toparam e eu sinto-me mal. Eu sei que o PS não tem esta preocupação e já ultrapassou estes dilemas morais, mas ainda sou verde nestas coisas do socialismo e por isso tenho uma dúvida: o PS nunca tem vergonha? 

«Pecadores sim, corruptos não»

José Maria C.S. André | «Correio dos Açores», «Verdadeiro Olhar», «ABC Portuguese Canadian Newspaper», 26-IV-2015

Já é a terceira vez em poucos anos. Nos momentos menos inspirados da galhofa política, o Governo francês entretém-se a brincar com o Vaticano.
Nicolas Sarkozy escolheu para embaixador no Vaticano um divorciado, recasado. Fartou-se de insistir, até se convencer de que o Papa nunca o aceitaria. Escolheu em alternativa um homem que vivia com o seu marido (devo pôr aspas?). Fartou-se outra vez de esperar… Até que, finalmente, compreendeu que era melhor seguir uma estratégia diferente.
Agora, o Governo de François Hollande volta ao jogo, nomeando um homossexual para embaixador junto do Papa. Os jornais franceses noticiaram que o núncio em Paris teve uma conversa pessoal com o indigitado, pedindo-lhe para desistir. Passaram 4 longos meses e o impasse já é escândalo nos jornais de todo o mundo. Inclusivamente, alguns jornalistas asseguram que o próprio Papa Francisco recebeu o nomeado, num encontro muito discreto, para lhe fazer ver a situação. Perante as críticas, o Governo francês louva o currículo do indigitado e informa que ele é muito recatado acerca das suas tendências. O facto é que o Papa terá diligenciado aquele contacto reservado com ele, mas não recebe as suas cartas credenciais.
Não se sabe quanto tempo é que o Governo francês precisa para resolver o impasse, nem sabemos em que medida aprendeu alguma coisa. Com três episódios em poucos anos, tem material abundante para estudo e revisão de matéria.
O Papa Francisco tem sido muito claro a explicar a diferença entre «pecadores e corruptos», entre aquele mal que devemos ajudar a superar e aquele outro que, mantendo o respeito por todos, não podemos aceitar.
Fraquezas, todos temos. Por isso, em vez de nos acusarmos mutuamente, devemos apoiar-nos. Às vezes, a amizade pode consistir em elogiar, outras vezes requer a coragem de dizer uma verdade incómoda. Em qualquer caso, os outros têm direito a ser estimados, com as suas qualidades e os seus defeitos. Deus não nos pede para os julgar, mas para os amar e, se for preciso, para perdoar. Deus e os outros têm muito que nos perdoar… oxalá não nos falte a humildade de o reconhecer.
Ser corruptos, como diz o Papa Francisco, é outra coisa. É organizar-se para fazer o mal, gostar de estar errados e trabalhar para isso. Um ladrão pode ser um pecador que sucumbe ao vício, mas gostaria de não ser fraco. Um explorador da injustiça, com regulamentos em dia e contabilidade organizada, está mais próximo da figura do corrupto. Analogamente, um marido infiel ou um sujeito violento podem ser aquele tipo de pecadores que o Papa não quer julgar, mas compreender e ajudar. O dono de uma clínica de aborto, ou um vendedor de armas ou de drogas, correspondem provavelmente ao conceito de corrupto, que o Papa classifica como uma degradação mais terrível.
Jesus também fazia esta distinção. Chegou a dizer que as prostitutas iam chegar primeiro ao Céu (Mt 21, 31) e há casos desses, bem documentados no Evangelho.
Por outro lado, não poupou uns certos justos, aparentemente certinhos, mas contentes com o mal. «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade» (Mt 23, 23).
O nosso Papa Francisco tem sido exemplar a abrir-nos os olhos e o coração para acolher todos os que precisam de apoio. Instituiu mesmo um Ano de Misericórdia, para nos reconciliarmos uns com os outros e sobretudo com Deus, em particular por meio do Sacramento da Confissão. Ao mesmo tempo, é firme. Não admite ligeirezas a brincar com o mal. Todos recordam aquele «quem sou eu para julgar?» e a continuação dessa frase: «O problema não é ter essa orientação homossexual. Devemos ser irmãos. O problema é fazer lóbi por essa orientação, ou lóbis de avarentos, lóbis políticos, lóbis maçons, tantos lóbis. Esse é o pior problema». De vez em quando, o Papa recorda o Inferno e a realidade do Demónio, para percebermos aonde vai parar a reinação.

Auto da Barca da Morte

P. Gonçalo Portocarrero de Almada |OBSERVADOR 25/4/2015

Em Portugal convivem, pacificamente, judeus, cristãos, muçulmanos e muitas outras pessoas dos cinco continentes e não há, graças a Deus, forças políticas significativas que sejam racistas ou xenófobas
Os números são aterradores: 800 pessoas do norte de África, entre as quais meia centena de crianças, afogaram-se, no passado dia 19, no Mediterrâneo, algures entre as costas da Líbia e a ilha de Lampedusa. Procuravam um mundo melhor e encontraram a morte, no que foi o maior naufrágio de migrantes no mare nostrum.
O elevado número de pessoas em causa não constitui, contudo, uma novidade. Segundo dados oficiais italianos, só nestes últimos dias foram resgatadas, por navios da marinha mercante, cerca de dez mil pessoas em situação análoga. Mas, nem todos os que partem das costas mediterrânicas, conseguem chegar ao destino. Muitos ficam pelo caminho, vítimas de naufrágios devidos à sobrelotação das embarcações, à falta de condições de segurança dos navios e, sobretudo, à criminosa irresponsabilidade dos armadores e das tripulações que se dedicam a este infame tráfico de vidas humanas.
Mesmo os que logram chegar à Europa sãos e salvos, ou seja, vivos, correm o risco de serem repatriados, se não lhes for dada uma nova pátria. Só no ano passado entraram, na União Europeia, mais de um milhão e cinquenta mil refugiados de diversas proveniências. As ilhas de Malta e de Lampedusa e as costas italianas, alvos preferenciais desta desesperada migração, dada a sua proximidade com o norte de África, são incapazes de acolher todos os que fogem da fome, da guerra e dos fundamentalismos islâmicos, que continuam a dizimar tantos cristãos, como as centenas de jovens nigerianas sequestradas e violadas pelo Boko Haram, ou os etíopes recentemente assassinados pelo Estado islâmico.
O mais impressionante apelo foi, mais uma vez, o do Papa Francisco, que não em vão escolheu Lampedusa para a sua primeira viagem pastoral. Referindo-se às 800 vítimas mortais, recordou que “eram homens e mulheres como nós, irmãos nossos, que procuravam uma vida melhor. Esfomeados, perseguidos, feridos, explorados, vítimas da guerra, que iam em busca da felicidade”. Mas encontraram a morte, talvez ante a indiferença generalizada de muitos cidadãos comunitários, para já não mencionar a hostilidade dos partidos políticos xenófobos, em ascensão em alguns países europeus.
O primeiro-ministro de Malta também deplorou “a maior tragédia de sempre no Mediterrâneo”, lamentando que os países mais expostos a este fluxo migratório estejam praticamente sós neste combate. Este drama não é apenas italiano, ou maltês, mas internacional. Embora já seja tarde para salvar as vítimas mortais deste terrível naufrágio, é imperioso que não tenha sido em vão o sacrifício destas vidas.
Portugal tem uma antiga e honrosa tradição hospitalária. Aceitou, durante a segunda guerra mundial, muitos judeus perseguidos, geralmente de passagem para outras paragens, e não poucos jovens austríacos carenciados, que aqui encontraram famílias que os hospedaram, como se fossem seus filhos. No nosso país convivem, pacificamente, judeus, cristãos, muçulmanos e muitas outras pessoas dos mais variados credos, ou sem nenhuma religião, procedentes dos cinco continentes. Não constam, graças a Deus, forças políticas ou ideológicas, com significativa expressão nacional, que sejam racistas ou xenófobas.
As nossas autoridades honrariam esta fidalga hospitalidade e sã convivência multicultural, a que não é estranha a nossa matriz cristã, se também agora se disponibilizassem para acolher alguns desses refugiados. Também temos a nossa quota-parte na resolução deste drama humanitário porque, como escreveu Saint-Exupéry, “cada um é responsável por todos. Cada um é o único responsável. Cada um é o único responsável por todos”.
No Auto da Barca do Inferno contracenam, entre outros, um anjo, um fidalgo, um frade, um judeu, um corregedor, um onzeneiro, um parvo, um enforcado e, ainda, o diabo e um seu companheiro. Assim andam misturados, neste mundo, o trigo e o joio que, contudo, não se devem confundir.
Não se pode omitir a protecção que é devida aos espoliados, mas sem desistir da responsabilização criminal dos que o primeiro-ministro italiano apelidou de “contrabandistas de pessoas” e “esclavagistas do século XXI”. Assim o fez a Igreja, durante séculos, lutando contra a escravatura, que também em países cristãos se praticava. Para os que traficam e exploram vidas humanas inocentes não pode haver dó nem piedade, porque não há misericórdia possível para o diabo. Não terá sido por acaso que este e o seu companheiro são, na aludida peça de Gil Vicente, os barqueiros do batel infernal. Como agora, por sinal.

Como é fácil descentrarmo-nos!


sexta-feira, 24 de abril de 2015

Pe. Vitor Feytor Pinto apresenta "Os católicos e o 25 de Abril" - ciclo de conferências Pensamento e Cultura



Jornada de oração pelos cristãos perseguidos - 25 de Abril


Momentos decisivos

Há momentos em que é preciso escolher entre viver a sua própria vida plenamente, inteiramente, completamente, ou assumir a existência degradante, ignóbil e falsa que o mundo, na sua hipocrisia, nos impõe.
Oscar Wilde

Lançamento do livro "Que fazes aí fechada?" 27 de Abril

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Bem - Aventurados | Apresentação da exposição de Pintura e Desenho (9 de Maio - 17:00)

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E se os sírios de hoje fossem os judeus de ontem?

Graça Franco | RR online 23-04-2015 18:50 
No domingo vamos dizer: #somostodospessoas

No próximo domingo lembremo-nos do que pedimos ao mundo que fizesse por Timor. Vistamo-nos de branco ou coloquemos nas nossas janelas uma faixa branca e unamo-nos em oração ou silêncio (para os que não forem crentes) pelos mortos do Mediterrâneo, num gesto de luta pelos direitos humanos dos que fogem às várias guerras de África e buscam na Europa o direito a alcançar o progresso e viver em Paz. 
O desafio #somostodospessoas, a que a Renascença se associa em união com uma série de organizações católicas como a CNJP (Comissão Nacional Justiça e Paz), responde ao apelo do Papa Francisco contra a globalização da indiferença. Vale a pena fazer esse pequeno gesto. Basta pensar na força que teve a multiplicação de iniciativas simbólicas no caso de Timor emprestando-lhe voz. 
Proponho que lhe somemos um pequeno exercício de consciência. Aproveitemos essa pausa para lembrar o cenário da II Guerra Mundial, pensando no exemplo do cônsul português em Bordéus. Também ele teve de pensar no custo de salvar da morte milhares de judeus concedendo-lhes o almejado visto. Ou os salvava do desespero ou os condenava à morte certa e abafava a voz da consciência com a desculpa de que tinha que garantir o futuro dos seus 14 filhos. 
Afinal, acatando as ordens de Salazar, não estava a fazer mais do que "cumprir o seu dever" e isso lhe bastaria para salvar a sua carreira diplomática continuando uma vida cómoda e desafogada. 
Aristides de Sousa Mendes era um homem rico e de sucesso, mas acabou expulso do MNE, obrigado a recorrer à "sopa dos pobres", com toda a sua família porque optou por, contrariando as ordens de Lisboa, passar 30 mil vistos a refugiados em fuga do terror nazi. 
Hoje, justamente, consideramo-lo um herói. Quando pensamos nas contas feitas pelo comité de direitos humanos da ONU, que nos fala de uma previsão de um milhão de refugiados sírios só nos próximos cinco anos e na necessidade urgente de lhes conceder asilo, vemos que o mundo não mudou tanto quanto gostaríamos. 
Em certa medida é toda a Europa que enfrenta o dilema de Sousa Mendes. Antes de ponderar os riscos, antes de metermos mais uma vez a cabeça na areia para não os vermos chegar às nossas praias (ao ritmo de dez mil ao mês), antes de fazermos contas à nossa capacidade de acolhimento e integração, à nossa comodidade e segurança, antes mesmo de pensarmos no dever de garantir o direito ao trabalho e ao futuro dos nossos filhos, vale a pena pensar que se deve sobrepor a tudo isso o simples dever de salvar estas vidas em desespero porque #somostodospessoas. 
Isto não implica abdicar da obrigação de procurar soluções sólidas indo à raiz do problema e combatendo-o nas suas várias frentes. A começar numa acção séria e concertada internacionalmente que trave o crescendo de loucura, de terror associado ao extremismo religioso de forças como o ISIS, a Al-Qaeda ou o Boko Haram, e a acabar no dever de solidariedade económica, combatendo a pobreza extrema e ajudando o desenvolvimento do continente perdido. 
Tudo isto sem cair na armadilha hipócrita dos paliativos que apenas servem para nos calar a consciência. Foi isso que a Europa fez nos últimos dois anos. 
Basta comparar os meios financeiros disponíveis: 9,3 milhões de euros/mês contra os actuais 2,9 milhões para perceber que nunca a operação "Triton" (para resgate de náufragos e combate ao tráfico ilegal de pessoas no Mediterrâneo), em curso, poderia ter a eficácia da anterior operação "Mare Nostrum". 
A redução de meios foi acompanhada de uma alteração substancial no objectivo: a primeira visava o salvamento dos náufragos e entrega à justiça dos traficantes (mesmo em águas internacionais) e a actual limita-se à faixa até 30 milhas da costa, o que dificulta o resgate dos náufragos, mas não garante a redução das partidas. 
A comparação de meios aéreos afectos deixa ainda mais claro o desinvestimento: três aviões, quatro helicópteros e duas aeronaves não tripuladas deram lugar a dois aviões e um único helicóptero (o italiano) sem reforço de meios navais que repusesse o desequilíbrio. Podíamos continuar, mas não vale a pena porque na génese da decisão de mudança de rumo estava a tese de que a uma maior segurança na viagem estaria sempre assegurado um maior incentivo à tomada de risco. A "Mare Nostrum" acabou porque na Europa venceram as vozes dos que a achavam demasiado eficaz. 
Contudo, a Europa avara, que se empenha em poupar num mês o que gasta na realização de uma cimeira, não discutirá os custos de uma operação de salvamento de meia-dúzia de turistas perdidos num veleiro em risco. 
Os últimos três meses provam que as teses do "incentivo" não tinham razão. Apesar de muito maior risco, o número de emigrantes em fuga do continente africano subiu em exponencial: nos primeiros três meses deste ano registaram-se 30 vezes mais mortes (quase duas mil contra meia centena até Abril do ano passado) e nem isso impediu um ritmo de chegadas sem precedentes. Quem tem de escolher entre a morte certa por permanecer em terra e o risco quase certo de morrer no mar não pensa duas vezes. 
É aqui que a Europa mostra a sua incapacidade de ler o mundo. Na quarta-feira, o arcebispo do Iraque dizia, em Portugal, que os europeus deixaram de perceber o valor da Paz. É esse valor muito superior ao bem-estar económico que leva boa parte dos peritos a aconselhar uma nova politica oficial de concessão de vistos a refugiados, que combata o tráfico, mas tenha em conta a dimensão do problema real, envolvendo os 29 países europeus. Uma acção concertada e que não recai em mais de 80% sobre os seis do costume (Alemanha, Itália, Grécia, Suécia, França e Holanda), responsáveis pela quase totalidade dos 163 mil vistos de asilo despachados em 2014. 
Nas contas da ONU, feitas por François Crépeau, e citadas pelo "Guardian", só no caso sírio a Grã-Bretanha deveria preparar-se para acolher 14 mil novos refugiados ano até 2020. É desta nova dimensão que estamos a falar.

Ser parte da solução



Não encontre defeitos, encontre soluções. Qualquer um sabe queixar-se
Henry Ford (1863-1947)

O preso que assaltava bancos

José António Saraiva | SOL | 23/04/2015 
O Correio da Manhã publica coisas horríveis, com as quais me não identifico minimamente e que chegam a causar-me repulsa, mas também tem notícias interessantes que nenhum outro jornal traz. Um destes dias deparei-me com esta notícia extraordinária:
Os criminosos têm de ser julgados e condenados, devendo cumprir penas pelo que fizeram. Mas a reinserção na sociedade é decisiva, caso contrário vão continuar a cometer crimes pelo resto da vida
“Tânia Moço traça e vigia os alvos, discutindo os pormenores com Mário Rocha nas visitas que lhe faz em Vale de Judeus, Alcoentre, ou através do telemóvel que o namorado esconde na prisão. E o recluso, já em final de uma pena superior a 20 anos, aproveita as saídas precárias que a Justiça lhe dá para assaltar bancos à mão armada na Grande Lisboa”.
Segundo o jornal, dez agências (Av. de Roma e Av. da Igreja, em Lisboa, Forte da Casa, em Vila Franca de Xira, Alverca, Fogueteiro, Carnaxide, Monte Abraão, em Sintra, Benavente, Carregado e Mem Martins) foram assaltadas desde Janeiro de 2014, rendendo 20 mil euros. Continua o CM:
“O assaltante, de 49 anos, foi ontem apanhado em flagrante numa operação da Unidade Nacional de Contraterrorismo, da Polícia Judiciária, quando fazia o seu décimo ataque a um banco, pelas 11h30, em Mem Martins, Sintra. Já regressou ao meio prisional, onde viveu grande parte da sua vida, perdendo agora as benesses das saídas precárias e o telemóvel, com internet, que escondia na cela. Mário Rocha geria, inclusive, a partir da cadeia, a sua página de Facebook”.
E a notícia conclui:
“Quanto a Tânia, namorada do assaltante, com 35 anos, também foi ontem detida por suspeita de participação nos crimes. Além de ser a mentora dos roubos, escolhendo os bancos a atacar, é a condutora nos assaltos - transportando o cúmplice e esperando por ele no carro, com o qual arrancam depois os dois a alta velocidade”.
Noutra notícia associada, podia ler-se: “Mário Rocha tem uma canção de sua autoria no YouTube, intitulada De Ti. 'Tantos anos separados, por erros do passado. Não quero mais viver assim, longe de ti'“.
De facto, Mário Rocha estava quase a terminar a pena e ia sair brevemente da prisão, regressando aos braços da amada. Só que, apesar do que diz a letra da canção, continuou a cometer até hoje os ditos “erros” que o tinham levado à cadeia - e agora vai permanecer mais uns bons anos atrás das grades.
Esta história dava um filme. É uma espécie de Bonnie and Clyde, um casal que assalta bancos, mas com ingredientes que tornam o enredo muito mais insólito e rocambolesco: é que Mário Rocha assaltava agências bancárias estando preso, o que o colocava à partida fora da lista dos suspeitos. Com o pequeno senão da coincidência entre as suas saídas precárias e os assaltos - mas não sei se a Polícia chegou a estabelecer essa relação.
Dá vontade de fazer paródia com este caso. Um homem que a partir da prisão alimenta a sua página no Facebook e contacta com o mundo, que tem uma música com a sua história no YouTube, e que aproveita as visitas da namorada para combinar assaltos a bancos, é uma notável personagem cinematográfica.
Mas o problema é sério. E não me refiro apenas a este indivíduo - mas a todos os que estão presos e que, quando saem, muito dificilmente conseguem libertar-se do mundo do crime. E, com mais dificuldade ainda, consegue reintegrar-se na sociedade.
Num país com tanto desemprego, quem é que emprega um ex-presidiário? Quem confia num homem que fez assaltos, fraudes ou matou mesmo pessoas com as próprias mãos?
E quando um ex-presidiário não consegue arranjar trabalho, tornou-se um potencial delinquente. Até porque muitas vezes a família o abandonou: a mulher deixou-o, os filhos esqueceram-no, os pais deixaram de lhe falar. E todos os conhecimentos que ele tem cá fora são ligados ao crime. Como é que um homem destes se vai reintegrar?
Este é um dos problemas sérios da nossa sociedade. É evidente que os criminosos têm de ser julgados e condenados. Têm de cumprir penas pelo que fizeram. Mas a reinserção na sociedade é absolutamente decisiva, caso contrário vão continuar a cometer crimes pelo resto da vida. Até porque, como todos sabemos, as prisões são muitas vezes escolas de delinquência em lugar de serem locais de regeneração. Os presos saem de lá piores do que eram quando entraram.
É certo que em muitas prisões há aulas e que os detidos podem ir progredindo escolarmente. E também podem frequentar cursos profissionais e trabalhar em oficinas, exercitando os seus métiers de origem. Isso já é importante.
Mas o mais importante de tudo é mesmo a reintegração, a reinserção na sociedade a todos os níveis - profissional, social e familiar. Sem isso, a probabilidade de um delinquente voltar ao mundo do crime é enorme.
Só que o caminho para o conseguir é demasiado duro e difícil. Para se reintegrar, um ex-presidiário vai ter de constituir outra família, de procurar outro círculo de amigos, de encontrar emprego. Quantos têm força para o fazer?
A história de Mário Rocha é extraordinária pelo facto de executar assaltos durante o próprio período em que cumpria pena de prisão. Mas as histórias de gente que sai das prisões e não encontra alternativa senão voltar à vida anterior, porque todas as portas se lhe fecham, são inúmeras. Assim, o Estado tem de se ocupar seriamente deste tema. Todos os dias as cadeias lançam na rua potenciais delinquentes - e o perigo que isso representa para a sociedade é enorme.
Uma das grandes vantagens de Portugal, no turismo mas não só, é ser um país relativamente seguro, quando comparado com outros do chamado terceiro mundo e mesmo com alguns da Europa. Se perdermos esta vantagem, se nos tornarmos um local perigoso, a nossa imagem como país e como destino turístico atractivo vai por água abaixo.
Mas o principal problema é mesmo o drama de quem, tendo cumprido uma pena de prisão, não vê qualquer futuro à sua frente.

Jamaal, o muçulmano que se ofereceu para morrer com os cristãos

23-04-2015 14:45 por Filipe d’Avillez
Mais de uma semana depois do massacre de perto de 30 cristãos somalis pelo Estado Islâmico, surge a história improvável de Jamaal Rahman: podia ter-se salvo, mas preferiu não abandonar o amigo. Acabou por morrer com ele.
Chamava-se Jamaal Rahman e não era suposto estar ali. 

O vídeo divulgado pelo autodenominado Estado Islâmico indicava que os homens ajoelhados no chão algures na Líbia, preparados para morrer, eram todos cristãos da "Igreja Etíope hostil" e que por isso iam pagar com a vida, como já tinham feito 21 cristãos coptas antes deles e tantos outros na Síria, no Iraque e no Quénia. 
Mas Jamaal Rahman não era fiel da Igreja Ortodoxa Etíope, nem sequer era cristão. Era muçulmano e esse facto teria sido suficiente para o salvar, caso ele não tivesse feito o impensável. 
Jamaal ofereceu-se para ser refém para que o seu amigo cristão não morresse sozinho. 
A informação foi avançada pela publicação MissionLine, do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras (PIME), que identifica como fonte um combatente do Al-Shabab, o grupo terrorista islâmico que combate na Somália, país que faz fronteira com a Etiópia. 
Haverá diferentes versões sobre aquilo que se passou. Uma diz que Rahman se converteu ao cristianismo a caminho da Líbia, mas a segunda, considerada mais provável pelo PIME, é de que ele se ofereceu como refém para não abandonar o seu amigo cristão e talvez na esperança que a presença de um muçulmano entre o grupo de detidos levasse os captores a mostrar alguma misericórdia. 
Essa esperança morreu na praia, literalmente, mas o exemplo de Jamaal está agora a ser apresentado como prova de solidariedade inter-religiosa, numa altura em que as relações entre muçulmanos e cristãos estão particularmente difíceis, sobretudo no Médio Oriente e África. 
A história de Jamaal assemelha-se à de Mahmoud Al 'Asali, um professor universitário de Mossul que, aquando da ocupação da cidade pelo Estado Islâmico, se manifestou publicamente contra a expulsão dos cristãos, acabando por ser morto também.

Um PS alternativo

Paulo Tunhas | Observador 23/4/2015, 8:18

Gastar o que não há, ou quase de certeza não haverá, produzirá dinheiro. Aparentemente, é esta ideia que subjaz ao “cenário macroeconómico” do PS. O capitalismo socialista vê aqui um círculo virtuoso.
Ninguém no seu perfeito juízo, face à possibilidade do PS vir a ganhar as eleições, deseja vê-lo sem um programa de governo credível e, sobretudo, nas mãos de gente que durante anos e anos andou a girar em torno de Sócrates ou que segue os conselhos de Mário Soares na sua última e terrível encarnação. Porque, a ser este último o caso, a fatal consequência seria metermo-nos numa valente alhada da qual a nossa preciosa pele sairia muito chamuscada. É no entanto difícil imaginar, olhando para o que o PS mostra ao conjunto da população, mesmo àquela que não é aficionada da política, como pode António Costa mudar esse triste estado das coisas. De qualquer maneira, não custa enumerar uma pequena lista de obras mentais que caberia levar a cabo.
Em primeiro lugar, António Costa deveria esforçar-se por mudar António Costa. Entusiasmou-se com o Syriza, depois não. Quis um candidato presidencial, depois outro, para no fim, pelo menos no fim de até agora, se contentar com o que Soares lhe impõe. Faz um discurso aos portugueses, e depois outro aos chineses. Quer um retorno ao “vocabulário” da esquerda, supostamente colonizado pelo da direita, e depois entusiasma-se com o Estado “empreendedor”. Entre muitas outras coisas. Com tanta hesitação, para que queria Guterres? Ele próprio basta.
Em segundo lugar, António Costa poderia bem levar o PS a abandonar a tentação lírica que se lhe tornou quase uma segunda natureza. Comparar os aviões da TAP às caravelas dos descobrimentos não dá. E o excessivo apelo à linguagem do coração, além de já não comover ninguém por aí além, falseia o debate político. Contrapor aos “cofres cheios” o sofrimento das pessoas releva da pura e simples desonestidade: o sofrimento seria bem maior caso o Estado não pensasse no amanhã. O “Sermão na Montanha” ocupa na nossa tradição um papel crucial, mas não certamente como cartilha política.
Em terceiro lugar, António Costa devia criticar sem tergiversações aquilo que declaradamente vai contra o interesse nacional. A greve dos pilotos da TAP, por exemplo. Não o fazer torna-o patentemente evasivo e não cria sem dúvida em ninguém a ilusão de uma vasta sabedoria política. A não ser que ele acredite verdadeiramente que Mário Soares tem razão quando afirma que com o PS no poder não haverá mais greves de comboios, metros e TAP. Tanta fé nas possibilidades taumatúrgicas da sua pessoa excederia claramente o verosímil. Mas, enfim, António Costa já acreditou em José Sócrates, ao ponto de aceitar ser o seu número dois, e tudo é possível.
Em quarto lugar, António Costa deveria incitar as várias cabeças do PS a procurarem um outro significado para a palavra “socialismo” que não se resuma ao estatismo e à fixação nas empresas nacionalizadas e “de bandeira” (horrível expressão). O problema não é uma questão de vocabulário: é de conteúdos. Do velhíssimo vocabulário da esquerda, qualquer português que leia jornais e televisão está muito a par.
E a demanda de ideias novas não se faz descobrindo um livro que nos dê uma martelada na cabeça. Mas é o que, mais uma vez, está a acontecer. Segundo as últimas notícias, os socialistas dispõem-se agora a “pensar grande” e a avançar com espírito visionário, sob o impulso da senhora Mariana Mazzucato, autora de um livro intitulado “Estado Empreendedor”. Os exemplos dados em Portugal pela académica em questão foram os dos Estados Unidos. O PS ficou entusiasmado. Depois da Finlândia e depois da Irlanda, como nos idos de Sócrates, Portugal, para o PS, vai querer ser como ele de repente descobriu (erradamente) que são os Estados Unidos.
Uma coisa é certa. O PS quer consumo, muito consumo, consumo a rodos, na velha tradição do capitalismo. Com a diferença (em parte relativa) que é o Estado que vai pôr toda a gente a consumir, acrescida de uma outra diferença (desta vez absoluta): que o quer fazer com dinheiro que não há. Gastar o que não há – ou quase de certeza não haverá – produzirá dinheiro. Aparentemente, é esta ideia que subjaz ao recente “cenário macroeconómico” do PS. O capitalismo socialista vê aqui um círculo virtuoso. Mas, como se sabe, a melhor maneira de transformar um círculo virtuoso num círculo vicioso é afagá-lo constantemente. E os regulares afagos socialistas do passado mostraram-nos os muito desagradáveis resultados de tal prática.
Em quinto lugar, e quase resumindo tudo, António Costa deveria procurar para o PS um firme ponto de ancoragem na realidade. O que presume o abandono do culto da misteriosa “vontade política”, que é o que se pede normalmente quando a realidade resiste ao que nos dá mais jeito. Como se, por exemplo, o aeroporto de Beja (um exemplo entre muitos) não funcionasse por falta de “vontade política”. Há resistências da realidade que devem ser a primeira coisa a ter em conta quando se quer agir politicamente, e muitas delas são insusceptíveis de serem vencidas por qualquer mágica acção da vontade.
Reconhecer estas coisas e mais algumas serviria sem dúvida para o PS de António Costa, ganhando as eleições ou não, ajudar a que Portugal se tornasse uma sociedade mais decente, simultaneamente consciente da realidade e obedecendo ao imperativo da busca da justiça, uma sociedade melhor. Seria, de resto, uma boa forma de comemorar o 25 de Abril no que de mais valioso teve.
Mas, desgraçadamente, tudo indica que se trata de um sonho dificilmente realizável. As ilusões do passado formam um núcleo persistente que se cristalizou numa identidade inamovível para além de algumas agitações de superfície. A tentação lírica persistirá e os espúrios argumentos do coração, com o seu inevitável cortejo de indignações, continuarão a saltar para a boca de cena sempre que os argumentos substantivos falharem. O pequeno tacticismo substituirá um verdadeiro sentimento de responsabilidade. O “socialismo” continuará preso à simples fixação no Estado como tutor burocrático da sociedade. E a confiança na magia da “vontade política” permitirá continuar a ignorar altivamente a realidade empírica.
Se não for assim, chapéu para António Costa. Mas quem hoje ainda acredita que não vai ser assim? Um PS alternativo não passa verossimilmente de uma figura da imaginação.