domingo, 26 de junho de 2016

Perdas e danos

António Barreto
DN 20160626
Assim, de repente, para assombro de todos, a Grã-Bretanha (ou Reino Unido, ou Inglaterra, logo se verá) entregou a União Europeia à Alemanha e foi-se embora. A Europa ficou mais pobre. Menos livre. Menos diversa. Menos criativa. Mais fraca. Mais indefesa. Menos culta. Mais burocrata. Mais aborrecida. Menos atraente.
Não há quem possa compensar o que desaparece. Ninguém, nenhum país poderá preencher o vazio agora criado. O que a União Europeia perdeu, de facto, não tem substituição. Perdeu uma das nações mais antigas e influentes do mundo e da história. Talvez o povo com o maior apego à liberdade que se possa imaginar. A mais antiga e experiente democracia do mundo. O único país que não conheceu, nos últimos séculos, a ditadura. A mais consolidada tradição de autonomia individual perante o Estado. As Forças Armadas mais bem treinadas, mais organizadas e mais operacionais da Europa. A Polícia mais civilizada do mundo. Uma das mais fortes tradições sindicais. A língua mais falada por nativos e estrangeiros. Algumas das melhores universidades do mundo e as melhores universidades da Europa. Alguns dos melhores museus do mundo. A mais sofisticada cultura literária, musical, artística e científica. A primeira praça financeira da Europa e uma das principais no mundo.
As opiniões são as mais diversas e contraditórias que se pode prever. É natural. Mas a verdade é que estamos a iniciar um caminho (uns dirão que esse começo data de pelo menos dez ou quinze anos, de Maastricht e de Lisboa...) com mais obstáculos desconhecidos, mais riscos e ameaças do que se esperava desde há pelo menos seis décadas. Os alargamentos e o fim do comunismo foram factores de incerteza, mas sempre com esperança. Desta vez, o sabor é o da derrota e o odor é o do perigo iminente. Estão abertas as portas às forças centrífugas e aos separatismos, assim como aos devaneios extremos da direita e da esquerda e ao radicalismo. A mediocridade da maior parte dos dirigentes políticos nacionais e dos grandes burocratas europeus é tal que estão convencidos de que venceram esta batalha. Julgam que tudo vai ser mais fácil e que vamos ficar aliviados com a saída dos incómodos ingleses. A verdade, todavia, é que a União, Bruxelas e as potências europeias que sobram (Alemanha e França, já nem contando a Itália e a Espanha ou a Polónia) acabam de sofrer talvez a sua mais completa derrota. Apesar deste monumental desastre, o pior da União, isto é, do Conselho, da Comissão, do Parlamento, do Eurogrupo e do Banco Central ainda está para vir. As suas reacções, próprias de quem não aprendeu, virão agravar uma situação já de si dramática. As iniciativas da Alemanha e de Bruxelas já revelam uma indisfarçável vontade de represália. Depois da tormenta financeira, das dificuldades do euro e das crises das dívidas soberanas, após os ataques terroristas, ainda em plena crise de imigrantes e refugiados e sob a ameaça do radicalismo de esquerda e direita, a União Europeia entra definitivamente nos cuidados intensivos.
Confesso sentir raiva contra os ingleses que assim optaram por abandonar o barco comum e decidiram amputar a minha Europa e a minha União de tantos bens, de tanta história e de tanta tradição. Mas é uma raiva especial. Matizada pela alegria de saber que se tratou da decisão de um povo livre. Mesmo se errada ou perigosa, a decisão foi livre. Mais uma lição para os portugueses, que deixaram que todas as decisões europeias e constitucionais fossem tomadas sem a sua participação. Mais uma lição para os portugueses, que se limitarão, de futuro, a seguir o cortejo, a desejar que as coisas corram bem. Ou a esperar que não corram mal...

sábado, 25 de junho de 2016

Eutanásia...uma questão de vida ou de morte

A falsa escolha e uma falsa solução

Miguel Poiares Maduro
Observador 24/6/2016

O Reino Unido irá descobrir que a verdadeira causa dos seus problemas e ansiedades não é a Europa mas a incapacidade da sua democracia nacional em adaptar-se a um mundo interdependente.
O que mais vamos ouvir dizer é que o resultado deste referendo é reflexo do distanciamento entre cidadãos e União Europeia e demonstra o quão necessário é que a UE atenda às preocupações dos seus cidadãos. Mas o que é que isso quer dizer exatamente?
Para perceber que, na verdade, isso nos diz (e ajuda) muito pouco basta pensar na diferença entre a crítica dominante à UE no Reino Unido e em Portugal. Os britânicos estão preocupados com o que contribuem para a solidariedade europeia, os portugueses estão preocupados com a pouca solidariedade europeia. Em Portugal várias vozes à esquerda virão agora defender que este referendo torna claro que se tem de reverter o Tratado de Estabilidade e reforçar os instrumentos de solidariedade. Mas em boa parte do norte da Europa a reação vai ser dizer que isto demonstra a necessidade de se aplicarem seriamente as regras do Tratado de Estabilidade e que não se deve promover uma União de transferências (como designam o reforço da solidariedade).
Quando se diz que a União Europeia não responde aos anseios dos cidadãos europeus esquece-se, com frequência, que esses anseios são, por vezes, totalmente opostos. O problema europeu é, portanto, outro: o de não oferecer um espaço político capaz de reconciliar esses anseios ou fazer os compromissos necessários entre o que anseiam os diferentes cidadãos europeus.
Para que a União Europeia consiga responder a este desafio é necessário começarmos por perceber que os desafios que enfrentamos não decorrem da UE mas sim da interdependência em que vivemos. Um mundo económica, social, ambiental e culturalmente integrado traz-nos muitas vantagens. Mais e melhores produtos e serviços, e mais baratos, ou maior liberdade de circulação de pessoas e ideias são apenas dois exemplos. Mas, neste mundo, somos crescentemente interdependentes. A crise financeira de um país comporta riscos para vários países. Um afluxo de refugiados num país transfere-se facilmente para outro. A ausência de controlos ambientais adequados num Estado pode ter um impacto ambiental terrível noutros Estados. Esta interdependência tem profundas consequências políticas. Significa que o que decidem as outras democracias nacionais tem impacto em nós e vice-versa. A política fiscal dos outros Estados afecta a capacidade competitiva das nossas empresas e, logo, a nossa capacidade de atrair investimento. Da mesma forma, se queremos ter confiança nos produtos e serviços que trocamos, temos de ter alguma harmonização dos critérios a que esses produtos e serviços estão sujeitos e isso exige estar disposto a negociar esses critérios com os outros. A ideia de que, neste mundo interdependente, podemos continuar a decidir sozinhos é falsa, puramente artificial.
O problema é que a prática política dominante em vez de contribuir para tornar transparente esta realidade alimenta-se desse artifício. Faz-se política nacional como se não fossemos interdependentes, gerando expectativas nos cidadãos que, no entanto, só essa interdependência pode garantir. Quando as expectativas não se cumprem culpam-se os outros de que dependemos para as cumprir… O populismo assenta no pressuposto de que seria possível ter todos os benefícios deste mundo interdependente sem termos que negociar essa interdependência.
Os apoiantes do Brexit foram eficazes em preservar esta ficção ao mesmo tempo que se alimentavam da insegurança que domina grande parte da sociedade britânica (e europeia). O Brexit ganhou porque a insegurança do status quo foi superior à incerteza das alternativas. Essa insegurança domina hoje uma fatia substancial dos europeus. Um erro das elites europeias tem sido o de presumir que a sua mundividência é a dos outros: que todos estão conscientes do mundo interdependente em que vivemos. Muitos europeus vivem num mundo globalizado mas com uma concepção do mundo ainda profundamente dominada pelo local. Neste contexto, é normal que a reação instintiva à crescente insegurança económica, social e mesmo física seja um regresso às fronteiras familiares onde se presume poder reconstituir a proteção perdida. Na verdade, essa não é a resposta, como os britânicos irão descobrir. Mas o regresso desse nacionalismo é a reação normal à erosão do contrato social, num contexto em que a política nacional continua a ser praticada como se não fossemos interdependentes e, na verdade, tirando até partido dessa ficção para ter ganhos políticos ou transferir responsabilidades.
É a conjugação entre o medo social dominante e os profundos problemas estruturais das nossas democracias nacionais que nos trouxe aqui. O referendo do Brexit foi apresentado por muitos como a sujeição da UE à democracia no Reino Unido. Na verdade, é antes mais um exemplo dos profundos problemas das democracias nacionais de que a UE é mais vítima do que culpada.
O principal problema democrático do referendo sobre permanecer ou não na Europa é que ele assentava numa falsa escolha. Boa parte do campo do Brexit, ao mesmo tempo que defendeu a saída, apresentava como alternativa um acordo com a União Europeia semelhante ao da Suíça ou a Noruega (no EEA). Só que a existência dessas alternativas é algo que não depende apenas deles… Não é claro que a UE esteja disposta a oferecer ao Reino Unido o mesmo regime que se aplica à Suíça ou à Noruega. O que é claro é que a posição negocial do Reino Unido será agora bem mais frágil na negociação desse regime. E o Reino Unido terá de ceder o necessário para obter o acordo desses 27 Estados-membros (alguns deles com interesses bem antagónicos ao que os que defendiam o Brexit pretendem). Talvez ainda mais irónico é que, mesmo que o Reino Unido obtenha essas alternativa desejadas, elas implicam, na prática, manter tudo o que detestam da União Europeia mas já sem voz para o contestar: da sujeição à legislação europeia e primado do Tribunal de Justiça Europeu à liberdade de circulação de pessoas (a Suíça até pertence ao Acordo Schengen…).
A saída do Reino Unido é má para a União Europeia e para o Reino Unido. A UE perde diversidade e abre-se um precedente perigoso. O Reino Unido irá descobrir que a verdadeira causa dos seus problemas e ansiedades não é a Europa mas a incapacidade da sua democracia nacional em adaptar-se a um mundo interdependente. Não será regressando ao nacionalismo e protecionismo que responderá aos desafios da globalização.
A progressiva desintegração europeia continuará até percebermos que o que impede a UE de responder eficazmente aos desafios que enfrenta é, ironicamente para quem é acusado de colocar em causa as democracias nacionais, a incapacidade das democracias nacionais responderem aos seus… Só se a União Europeia encontrar neste choque o impulso para contribuir para reorganizar a política e democracia na Europa (e não apenas na União Europeia) é que ainda pode vir a salvar… os Estados. Não se enganem, são os Estados e as suas democracias nacionais que, em última análise, estão em causa neste processo. A integração europeia começou, depois da Segunda Grande Guerra, como um instrumento para salvar o Estado dos excessos do nacionalismo. O desafio de hoje é o de continuar a cumprir essa missão num mundo bem diferente.

Sobre democracia

POVO 25.6.16 
"Um dos maiores problemas do nosso tempo é que nós somos governados por pessoas que dão maior importância a sentimentos do que a pensamentos e ideias"
Margaret Tatcher

Deus nasceu no exílio!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 25/6/2016

Segundo o relatório, para 2015, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) há, no mundo inteiro, 65,3 milhões de refugiados. “Se fossem um país, seriam o 21º maior do mundo”.
Segundo o relatório, relativo ao ano de 2015, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), divulgado no passado dia 20 de Junho, dia mundial do refugiado, há 65,3 milhões de pessoas vítimas da “perseguição, conflito, violência generalizada ou violação dos direitos humanos”. Segundo uma expressiva, mas dramática, analogia do mesmo relatório, se todos esses refugiados “fossem um país, seriam o 21º maior do mundo”, com seis vezes e meia a população actual de Portugal!
São impressionantes os dados registados nesse documento das Nações Unidas, sobretudo se se tiver em consideração que o número de refugiados sofreu, de 2014 para 2015, um incremento de 5, 8 milhões de pessoas, como se, em doze meses, mais de metade da população portuguesa se tivesse visto obrigada a exilar-se, dentro ou fora das próprias fronteiras nacionais. Com efeito, a ACNUR considera como refugiados tanto os que se viram obrigados a emigrar para o estrangeiro e, que, em 2015, eram 21, 3 milhões, como as pessoas deslocadas, por idênticos motivos, dentro do seu próprio país, e que nesse ano ascenderam a 40,8 milhões. A estes dois grupos há ainda que somar os 3,2 milhões de seres humanos que procuram asilo.
Também é referido que, uma parte significativa dos refugiados, procede de três países apenas: a Síria, que conta com 4,9 milhões de refugiados; o Afeganistão, com 2,7 milhões; e a Somália, com 1,1 milhões.
Quanto aos 3,2 milhões de refugiados que aguardam que seja deferido o seu pedido de asilo num país de acolhimento, é dramático o número de crianças “desacompanhadas ou separadas” das suas próprias famílias: 98.400! Quase o triplo das crianças abandonadas que, no ano precedente, fizeram o mesmo pedido: 34.300!
A dimensão desta tragédia humanitária tem sido uma das principais preocupações do Papa Francisco, que não se tem cansado de afirmar, com palavras e actos concretos de solidariedade, que a ninguém é lícito ignorar este drama. Nenhum Estado pode fechar as suas fronteiras aos homens, mulheres e jovens que procuram, fora do seu país, a paz e segurança que lhes foram injustamente negadas nas suas respectivas pátrias.
Neste sentido, a Alemanha tem protagonizado, em relação a todos os refugiados, uma generosa política de acolhimento. Mas, infelizmente, nem todos os governantes e cidadãos pensam da mesma forma, pois também há quem adopte uma atitude de indiferença, senão mesmo de acintoso desprezo, em relação às populações deslocadas. Com efeito, na sua edição do passado dia 15, o Le Figaro publicava uma notícia escandalosa: o município suíço de Oberwil-Lieli, que entre os seus habitantes conta com cerca de trezentos milionários, pagou 290 mil francos suíços, aproximadamente 270 mil euros, só para se poder dar ao luxo de não receber refugiados!
Se Vintila Horia, também ele refugiado, tivesse escrito agora o seu famoso romance Deus nasceu no exílio, talvez o seu título fosse: Deus é um refugiado! E foi-o, de facto, no seu filho Jesus Cristo que, pouco depois do seu nascimento, “teve de sofrer a violência incompreensível de Herodes, experiência que – como escreveu o Papa Francisco na sua segunda Exortação Apostólica – ainda hoje se repete tragicamente em muitas famílias de refugiados descartados e inermes” (A alegria do amor, 30).
É provável que, em pleno século primeiro, uma pequena família judia, como era a de Jesus, Maria e José, fosse ostracizada no Egipto, não só porque os estrangeiros estavam equiparados aos escravos, mas também porque o povo hebreu, tendo em conta as pragas que antecederam o seu êxodo para a terra prometida, não deixara boas recordações nesse país. Por isso, não terá sido fácil, para a sagrada família, o seu exílio egípcio. A grandeza histórica do reino dos faraós, atestada pelas magníficas pirâmides, tornava compreensível, sem contudo justificar, algum desdém por aquele pequeno povo errante que, muito embora fosse o escolhido por Deus, na realidade era, em termos políticos e sociais, de escassa importância.
Para um cristão, qualquer refugiado é como se fosse um outro Cristo, que há que respeitar na sua dignidade ferida e acolher com caridade, ultrapassando as diferenças de raça, religião e cultura. Portugal hospedou muitos judeus e crianças, sobretudo austríacas, durante a segunda Guerra Mundial. Também agora deve receber fraternalmente os refugiados que aqui pedirem asilo, honrando de novo a sua cristã tradição hospitaleira!

A minha Martinha

Inês Teotónio Pereira
DN2016.06.25
O meu filho diz que eu e o pai temos 3 anos. Faz sentido: só somos pais dele há três anos. É o filho mais novo e para ele a Terra não gira à volta do Sol mas à volta dele. No outro dia apanhou uma flor - mais uma para mim, pensei. Mas não: "É para a minha Martinha", disse ele. A Martinha tem o cabelo preto ondulado. É linda e um bocadinho mais baixa do que ele. Tem bochechas de bebé e não há boneca que lhe chegue aos calcanhares. Eu encanto-me com o "minha" quando ele fala da Martinha. É verdade que para o meu filho é tudo dele. A casa é dele, a escola é dele, o carro é dele e até o Ruca é dele. Mas a Martinha é dele doutra maneira. É dele porque gosta dela e não por posse. Com a Martinha ele porta-se bem. É ela que às vezes o manda para trás como qualquer menina com qualquer rapaz. Se calhar não vão ser amigos para sempre. Ou vão. Se calhar nunca mais se vão ver quando mudarem de escola. Mas não interessa. O que interessa é a flor. Dizem os especialistas que é aos 3 anos que as crianças começam a interagir verdadeiramente com outras crianças, a conquistarem amigos e a brincarem juntos. A dar coisas até. Também não interessa: qualquer explicação sociológica sobre esta flor polui a história e murcha a flor. O que interessa é que ele é querido e ela a querida dele. Ele é um trapalhão a falar e pega na flor com a mão toda. Esborracha flores. Mas, se falasse bem, se calhar não tinha apanhado a flor e se soubesse pegar nelas se calhar tinha vergonha de a dar. O que é mesmo giro nas crianças é que elas não falam, aquilo que se faz é que lhes interessa. Elas não combinam brincadeiras: brincam; não fazem declarações de amor: dão pedras, flores ou lagartixas. Um bocado de relva também serve. Se falassem, as crianças estragavam tudo. Assim como nós estragamos quando nos empenhamos em educar ou a estreitar relações com conversas. No final do dia aquilo que interessa é dar. E qualquer coisa serve. Não sei o que é que a Martinha fez com a flor ou sequer se ela chegou inteira às suas mãos. Ele diz que sim, mas o que ele diz vale o que vale. O que vale é que ele tenha pedido colo para chegar à flor que queria dar à "minha Martinha". O resto é conversa de treta.

A um passo do suicídio coletivo

Miguel Angel Belloso
DN 20160624

Em outubro de 2014 fizemos uma entrevista a Pablo Iglesias, o líder do partido radical Podemos, homólogo do Bloco de Esquerda, que foi capa da Actualidad Económica e que ainda pode ser vista no YouTube.
Entre as suas muitas ideias peregrinas estava não só a de aumentar o salário mínimo, o que conduz diretamente ao desemprego, como também a de estabelecer um ordenado máximo. Limitar a remuneração das pessoas, o que não passa pela cabeça de ninguém com senso comum, apresentou-se-me como uma proposta disparatada, mas o inefável Iglesias surpreendeu-nos com o exemplo da Suíça, onde, segundo dizia então, os cidadãos não podiam ganhar mais de 12 vezes o salário mínimo legal. Nós ficámos estupefactos, mas quando a seguir investigámos o assunto reparámos que o Sr. Iglesias nos tinha mentido, como é o seu estilo, e mais ainda nestes momentos de campanha eleitoral em que decidiu vestir o seu pensamento destrutivo com uma pele de cordeiro. Com efeito, na original Suíça submeteu-se a referendo limitar os salários dos executivos, mas esta iniciativa foi refutada na consulta, quase um ano antes de Iglesias ter feito manhosamente eco de tal possibilidade, dando-a como certa.
A Suíça voltou a ser notícia, felizmente. Há três semanas, os cidadãos também recusaram maciçamente a proposta de referendo para generalizar um rendimento garantido de quase 2300 euros para todos os habitantes do país. Nunca se saberá exatamente a razão pela qual cada um rejeitou uma benesse deste tipo. Ocorrem-me as que a lógica dita: o enorme custo orçamental da medida, a história de uma nação profundamente apegada ao valor do trabalho e a prudência de quem detesta fazer experiências perigosas. Não podendo ser de outra maneira, os intelectuais de esquerda estavam por trás da iniciativa argumentando que um país tão rico não pode permitir que alguns dos seus cidadãos vivam pior do que outros, sem ter em conta as suas capacidades, os seus méritos e a sua determinação para dar o melhor de si próprios. Queriam financiar a sua loucura, como a esquerda sempre faz, espoliando os melhores, os que se destacam: por exemplo, projetando um imposto sobre as transações eletrónicas. Na Suíça o desemprego é de 3,5%, abaixo do que é considerado pleno emprego, as ajudas sociais são generosas e o rendimento per capita é o dobro do espanhol.
Mas em Espanha os partidos de esquerda, incluindo o Ciudadanos - que tem mais inclinação para a esquerda do que para o centro -, há muito tempo que reivindicam as mesmas bagatelas, quer seja um rendimento garantido para todos ao estilo suíço, que é a ideia extremista do embusteiro Iglesias, quer seja um complemento salarial garantido, que é o que propõem, com alguns matizes, tanto o Partido Socialista como o Sr. Rivera - o líder do Ciudadanos -, quer seja um emprego público assegurado, que é a última ideia descabelada do socialista Pedro Sánchez. A ideia é consolidar no imaginário público o signo da derrota - a impossibilidade de reconstruir com base no esforço o seu próprio destino -, prender os cidadãos à dependência inexorável do Estado e decretar a condenação fiscal dos melhores, com impostos cada vez mais altos e intoleráveis.
A tudo isto a Suíça disse não. Durante os últimos anos, os suíços, em vários referendos, opuseram-se ao aumento do salário mínimo, conscientes de que poderia destruir o nível de emprego de que desfrutam, opuseram-se a limitar o salário máximo, porque tal possibilidade acabaria com qualquer tipo de incentivo para progredir na vida, e recusaram há poucos dias um rendimento garantido generalizado, para os mais desfavorecidos e para os que têm mais, porque tal eventualidade representa a destruição de qualquer das motivações que induzem as pessoas a trabalhar em prol de um futuro melhor e é uma autêntica bomba-relógio para o potencial de geração de riqueza que todos temos, sobretudo se somos postos à prova. A pergunta-chave neste momento, a dois dias apenas de haver novas eleições no meu país, é porque há tantos espanhóis dispostos a votar naquelas opções que os suíços recusaram reiteradamente. As últimas sondagens revelam um panorama igualmente desolador ao que se produziu nas anteriores eleições de 20 de dezembro passado. A direita dirigida por Mariano Rajoy vencerá, mas sem os votos suficientes para formar um governo estável. O Podemos, que se apresenta em coligação com os antigos comunistas, pode transformar-se na segunda força política, afastando para um terceiro lugar o Partido Socialista, que é quem governou Espanha durante mais tempo, mas que entrou numa fase de deterioração alarmante; e o Ciudadanos, que é um novo partido que não sabe se está mais à esquerda do que à direita, ocuparia a quarta posição.
Mas o realmente inquietante neste cenário é que todos os partidos, com a exceção matizada da direita, prometem no seu programa um aumento da despesa pública, uma subida dos impostos e uma maior intervenção do Estado na economia, que é justamente o que não convém ao país se quiser continuar a ter um alto ritmo de crescimento económico e de criação de emprego. À exceção do PP, todos propõem um rendimento garantido generalizado, ou um seu sucedâneo, e um incremento das políticas redistributivas e de proteção social, esquecendo que o segredo de polichinelo da prosperidade das nações é a competitividade das suas empresas e a produtividade dos seus trabalhadores, acompanhadas de um Estado pequeno, austero e eficaz, em que as inevitáveis ajudas comunitárias se dirijam em exclusivo aos que não podem ganhar a vida por si próprios.
As advertências sobre o que pode acontecer no meu país no caso de o resultado eleitoral vir a ser o que as sondagens refletem são numerosas e muito claras. Um Parlamento tão fragmentado como o que aquelas anunciam tornaria muito difícil a luta contra o défice e a continuidade das reformas para promover o crescimento. Pior ainda, a possibilidade de haver um governo de esquerda no qual o Podemos e o inefável Pablo Iglesias tivessem um grau de influência considerável conduzir-nos--ia diretamente à recessão e ao afastamento da União Europeia, na qual voltámos a ganhar um lugar destacado depois da nefasta gestão de Zapatero. As cartas estão em cima da mesa, os eleitores têm, neste momento, mais informação do que nunca sobre o que está em jogo, muita mais do que a 20 de dezembro passado. Só há que ter esperança que acertem, apesar de sabermos da inclinação natural e atávica que muitos países têm, o meu em especial, para se suicidar coletivamente.

A esquerda só cede quando fica sem dinheiro

Camilo Lourenço
Jornal de Negócios, 2016.06.24
Em 1978 Mário Soares meteu o socialismo na gaveta porque Portugal ficou sem dinheiro e precisou do FMI para obter dinheiro nos mercados internacionais. Em 1983 a cena repetiu-se, com novos contornos: o governo socialista foi obrigado a abrir os setores da banca e seguros à iniciativa privada. Em 2011 voltou a acontecer a mesma coisa: o governo de Sócrates precisou da Troika porque os mercados porque já ninguém emprestava dinheiro Portugal.
O que é que isto mostra? Que a esquerda só cede (na questão orçamental e nas reformas estruturais) quando fica sem dinheiro. As organizações internacionais que nos "policiam" deviam tomar nota deste pormenor: se querem que Portugal faça as tais reformas estruturais, e ponha ordem nas suas finanças públicas, só têm de esperar pela próxima vez que nos faltar dinheiro. Com exigências bem mais exigentes do que as de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2016

o melhor do que aí vem não será melhor do que o pior do que aí está

Blasfémias 24 JUNHO, 2016
by 
20160227_LDD001_facebookComeço por dizer que considero o projecto comunitário a mais generosa e nobre realização política dos nossos tempos, que foi um privilégio ter vivido nela e beneficiado dela, e que vejo o resultado do referendo inglês como uma tragédia de consequências incalculáveis. Apesar da retórica contra-corrente e dos exercícios múltiplos de história alternativa, a verdade é que, graças a ele, a Europa comunitária viveu, de 51 até aos dias de hoje, um extenso período de paz, desenvolvimento e prosperidade, de que todos beneficiámos, inclusivamente os seus críticos mais violentos. Isto, para mim, é o essencial.
Como qualquer realização humana, o processo comunitário é naturalmente sujeito a inúmeras críticas. Infelizmente, quando vejo que elas unem a extrema-esquerda e a extrema-direita, sou levado a desconfiar. É que é próprio da metodologia dos extremos realçar o negativo, para excitar as consciências e disso tirar dividendos rasteiros, obscurecendo e denegrindo o que é positivo. E, inequivocamente, apesar dos muitos aspectos negativos da integração europeia, as suas vantagens são-lhe infinitamente superiores, embora raramente sejam referidas quando é debatida sob o efeito das paixões.
Não pretendo fazer aqui a história desse processo, mas gostaria de realçar dois ou três aspectos que me parecem, nesta hora verdadeiramente dramática, não deverem ser esquecidos.
O primeiro, que a construção comunitária foi sempre um processo assumido de integração económica e política, e não um mero processo de cooperação internacional. O que foi criado em 51, e reforçado em 57, tinha por objectivo a partilha comum de soberania nacional em instituições supranacionais, e não apenas o derrube de fronteiras alfandegárias entre os estados-membros para a livre circulação de mercadorias. Um Mercado Comum, objectivo liberal que os tratados sempre enunciaram, não se fica pela livre circulação de mercadorias, mas de pessoas, capitais, bens e serviços. Isso não se conseguiria pela criação de um Zollverein geograficamente alargado (embora o Zollverein tenha proporcionado a unificação da Alemanha…), mas pela criação de condições para que as mercadorias sejam acompanhadas pelas pessoas e pelos capitais.
O segundo, que este processo deveria prosseguir pela integração gradualista e horizontal entre os estados-membros e os cidadãos através de «pequenos passos» (Jean Monnet), acreditando no chamado efeito de «spillover», segundo o qual os efeitos benéficos da partilha de espaços de soberania conduziriam a um estreitamento natural da integração, mas sem dirigismos ou imposições verticais de decisões políticas fundamentais e estruturantes. Infelizmente, não foi isso que aconteceu em Maastricht.
O terceiro e último é que a integração económica é sempre política, como é óbvio, e que isso também foi sempre assumido desde o início do processo. Naturalmente, a integração política não é sinónimo de unificação ou de perda integral de soberania, mas também não foi isso que aconteceu na Europa, apesar dos muitos erros cometidos ao longo dos anos.
É chegado, então, o momento de dizer que considero a integração comunitária europeia o único projecto verdadeiramente liberal que conheço na História (e, aqui, a «História» vai em maiúsculas…), e, perdoem-me a sobranceria, escuso-me a explicar porquê. As evidências são claríssimas e falam por si mesmas. Obviamente que este projecto teve inúmeras derivas burocratizantes e construtivistas, mas os liberais têm de começar a aprender que (felizmente) vivemos em sociedades plurais e que não pensamos todos da mesma maneira. Por consequência, é natural que a ordem comunitária tenha reflectido, também, aquilo de que não gostamos. Mas, honra lhe seja feita, o seu acervo fundamental – a liberdade de comércio, de circulação de pessoas, capitais e mercadorias, a defesa dos princípios liberais da propriedade e da iniciativa privada – permaneceu sempre intocado, e disso todos beneficiámos. Em Portugal, por exemplo, foi graças à União Europeia que a parte marxista da nossa Constituição Económica foi seriamente afectada. Um enorme ganho de que somos devedores.
O que correu mal, então, para se ter criado uma forte corrente europeia contrária à União? Infelizmente, e ao contrário daquilo que muitos hoje festejam, o que o Brexit e o êxito das Le Pens dessa Europa fora reflectem é o reforço dos motivos que levaram aos insucessos da União Europeia e não a sua diminuição. À esquerda e à direita, quando se critica «esta» Europa é porque ela não «resolveu» o problema do desemprego e das crises económicas de alguns dos seus estados-membros. Mas não é a ela que compete enfrentar esse problema, mas às pessoas dos estados-membros. O que se pede, então, não é mais liberdade económica, mas mais socialismo. E é esta demagogia que tem parcialmente triunfado nas nossas sociedades e que, em boa medida, deu ontem a vitória ao Brexit. Infelizmente, muitos liberais parecem contentes com isso.
Uma última palavra para dizer que, obviamente, a precipitação para a União Europeia de Maastricht, em 91, foi um erro, porque prematura, e que o Euro seria um erro sempre e em quaisquer circunstâncias. O receio francês (e inglês, diga-se…) da reunificação alemã causou uma aceleração contra-natura de um processo de integração que eventualmente lá teria chegado por outras vias e com melhores condições. Mas o peso da História é sempre determinante, e a memória, ao tempo ainda muito fresca, do que uma Alemanha unificada fizera num passado recente, levou a um salto artificial de construtivismo político, que hoje todos pagaremos. A União Europeia acelerou artificialmente a integração política de duas maneiras: com o aumento dos espaços da soberania integrada e com a generalização da co-decisão. Isto criou um poder de direito e de facto para o directório da União, ao qual faltou uma verdadeira Constituição política que lhe fixasse as regras fundamentais e os limites. Infelizmente, muitos liberais rejubilaram com o fracasso do Tratado Constitucional, esquecendo-se do verdadeiro sentido e alcance de uma Constituição. Mas, uma vez feita a asneira, a questão sobre o futuro da União Europeia tem sido mal colocada. Ela deveria ser esta: temos a certeza de que destruir Maastricht nos levará ao que existia antes dele, admitindo que fosse melhor do que aquilo que lhe sucedeu?
Dito doutro modo: há mundos melhores e piores para se viver. E tenho as maiores dúvidas de que aquele que se avizinha para a Europa dos próximos anos seja melhor do que o que conhecemos nas últimas décadas.

Discurso integral (video e texto) do discurso de David Cameron depois dos resultados do referendo 'Brexit'



Text of David Cameron’s Speech After ‘Brexit’ Vote
The New York Times, 2016.06.24
The full text of the statement delivered by Prime Minister David Cameron after British voters in a referendum elected to leave the European Union:
The country has just taken part in a giant democratic exercise  perhaps the biggest in our history. Over 33 million people  from England, Scotland, Wales, Northern Ireland and Gibraltar  have all had their say.
We should be proud of the fact that in these islands we trust the people with these big decisions.
We not only have a parliamentary democracy, but on questions about the arrangements for how we are governed, there are times when it is right to ask the people themselves, and that is what we have done.
The British people have voted to leave the European Union, and their will must be respected.
I want to thank everyone who took part in the campaign on my side of the argument, including all those who put aside party differences to speak in what they believed was the national interest.
And let me congratulate all those who took part in the “Leave” campaign for the spirited and passionate case that they made.
The will of the British people is an instruction that must be delivered. It was not a decision that was taken lightly, not least because so many things were said by so many different organizations about the significance of this decision.
So there can be no doubt about the result.
Across the world people have been watching the choice that Britain has made. I would reassure those markets and investors that Britain’s economy is fundamentally strong.
And I would also reassure Brits living in European countries, and European citizens living here, that there will be no immediate changes in your circumstances. There will be no initial change in the way our people can travel, in the way our goods can move or the way our services can be sold.
We must now prepare for a negotiation with the European Union. This will need to involve the full engagement of the Scottish, Welsh and Northern Ireland governments to ensure that the interests of all parts of our United Kingdom are protected and advanced.
But above all this will require strong, determined and committed leadership.
I am very proud and very honored to have been prime minister of this country for six years.
I believe we have made great steps, with more people in work than ever before in our history, with reforms to welfare and education, increasing people’s life chances, building a bigger and stronger society, keeping our promises to the poorest people in the world, and enabling those who love each other to get married whatever their sexuality.
But above all restoring Britain’s economic strength, and I am grateful to everyone who has helped to make that happen.
I have also always believed that we have to confront big decisions  not duck them.
That’s why we delivered the first coalition government in 70 years to bring our economy back from the brink. It’s why we delivered a fair, legal and decisive referendum in Scotland. And why I made the pledge to renegotiate Britain’s position in the European Union and hold a referendum on our membership, and have carried those things out.
I fought this campaign in the only way I know how  which is to say directly and passionately what I think and feel  head, heart and soul.
I held nothing back.
I was absolutely clear about my belief that Britain is stronger, safer and better off inside the European Union, and I made clear the referendum was about this and this alone  not the future of any single politician, including myself.
But the British people have made a very clear decision to take a different path, and as such I think the country requires fresh leadership to take it in this direction.
I will do everything I can as prime minister to steady the ship over the coming weeks and months, but I do not think it would be right for me to try to be the captain that steers our country to its next destination.
This is not a decision I have taken lightly, but I do believe it is in the national interest to have a period of stability and then the new leadership required.
There is no need for a precise timetable today, but in my view we should aim to have a new prime minister in place by the start of the Conservative Party conference in October.
Delivering stability will be important, and I will continue in post as prime minister with my cabinet for the next three months. The cabinet will meet on Monday.
The governor of the Bank of England is making a statement about the steps that the bank and the Treasury are taking to reassure financial markets. We will also continue taking forward the important legislation that we set before Parliament in the Queen’s Speech. And I have spoken to Her Majesty, the Queen, this morning to advise her of the steps that I am taking.
A negotiation with the European Union will need to begin under a new prime minister, and I think it is right that this new prime minister takes the decision about when to trigger Article 50 and start the formal and legal process of leaving the E.U.
I will attend the European Council next week to explain the decision the British people have taken and my own decision.
The British people have made a choice. That not only needs to be respected  but those on the losing side of the argument, myself included, should help to make it work.
Britain is a special country.
We have so many great advantages.
A parliamentary democracy where we resolve great issues about our future through peaceful debate.
A great trading nation, with our science and arts, our engineering and our creativity respected the world over.
And while we are not perfect, I do believe we can be a model of a multiracial, multifaith democracy, where people can come and make a contribution and rise to the very highest that their talent allows.
Although leaving Europe was not the path I recommended, I am the first to praise our incredible strengths.
I have said before that Britain can survive outside the European Union, and indeed that we could find a way.
Now the decision has been made to leave, we need to find the best way.
And I will do everything I can to help.
I love this country  and I feel honored to have served it.
And I will do everything I can in future to help this great country succeed.

24 de Junho - S. João Baptista


Tu menino serás chamado profeta do Altíssimo porque irás à Sua frente a abrir os Seus caminhos
Lc 1, 75

XXXI Consagração da Cidade de Lisboa


Cabeça fria. Com o “Brexit” temos de ver as vantagens de termos “menos” Europa

José Manuel Fernandes
Observador 2016.06.24

Não é tempo de despeito ou rancor, antes de compreender o mal-estar europeu que levou ao Brexit. A mensagem que os britânicos reforçaram é que os povos não querem nem "mais" Europa nem mais integração
Se estivesse no Reino Unido e tivesse votado no referendo, teria votado pelo “remain”. Estou por isso desiludido com o resultado de hoje. Desiludido e preocupado, mas espero que todos saibam ler os resultados com a cabeça fria e não entrem já num jogo de passa culpas ou nume espiral de fuiga em frente. Ou eleitores falaram, é necessário respeitá-los. E perceber que se a história de Europa mudou hoje, cabe à Europa encarar esta crise como uma oportunidade.
Como português com muitas reservas relativamente ao actual processo de integração europeia, sinto que o Reino Unido vai fazer imensa falta. Sem ele a Europa pode desequilibrar-se ainda mais a favor dos que defendem o reforço de uma integração que os povos não desejam e mais transferências de poder. Sem ele o peso da Alemanha (mesmo podendo eu defender muitas das políticas da chanceler Merkel) será excessivo e sem ele haverá menos vozes a criticar os evidentes défices democráticos da União. Mas não vale a pena chorar sobre leite derramado: se quisermos mitigar os riscos do futuro temos de trabalhar para ter o Reino Unido o mais próximo possível da União Europeia, não agir com arrogância e de forma retaliatória.
Nestes últimos dias as palavras mais avisadas que ouvi a um dirigente da União Europeia foram as de Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, durante uma reunião de democratas-cristãos no Luxemburgo: “Obcecados com a ideia de uma integração instantânea e total, não reparámos que as pessoas comuns, os cidadãos da Europa, não partilhavam o nosso euro-entusiasmo”. Mas disse ainda mais, com grande sensatez: “O espectro de uma ruptura ameaça a Europa e não me parece que a melhor resposta seja a visão de uma federação. Temos de compreender as necessidades deste momento histórico”.
Penso por isso que o que este momento histórico nos diz é que a Europa deve abandonar de vez a ideia da bicicleta, tão cara a Jacques Dellors, e por uma razão simples: nas bicicletas não há marcha-atrás. Ora o que resultou claro neste referendo britânico é que é necessário perceber que o divórcio é tão grande entre o rumo percebido da Europa e as opiniões públicas de tantos países que, se déssemos a palavra a outros povos, poderíamos contar com mais decisões semelhantes à deste referendo pela saída da União Europeia.
Com a vitória do “leave” o principal erro a evitar é o de achar que, sem os “chatos” dos ingleses, podemos acelerar o caminho para “mais Europa”. E o principal risco a enfrentar é o deste resultado desencadear um processo imparável em direcção oposta, isto é, de desintegração da Europa.
Se o “remain” tivesse ganho a tentação de manter tudo como está seria grande. Com a vitória do “leave” isso não é opção, pelo que o caminho que me parece mais razoável é o de encontrar formas de as nações recuperarem alguns dos poderes que foram cedendo a Bruxelas (ou a Frankfurt), devolvendo aos povos a sensação de que controlam os seus destinos.
Sejamos claros: hoje o problema já não é o de saber se há ou não democracia a nível europeu, pois pode-se sempre argumentar que o Parlamento Europeu é eleito por voto universal e directo e que, no Conselho Europeu, se sentam os governos legítimos de 28 democracias. Hoje o problema é que o compromisso europeu se tornou num monstro que não agrada a ninguém e que funciona, ao mesmo tempo, como um excelente bode espiatório para os fracassos a nível nacional. Os gregos e os portugueses culpam Berlim (ou Bruxelas) pelas suas dores, e os alemães queixam-se dos compromissos que foram obrigados a aceitar por causa de gregos e portugueses. Esta tensão não é passageira nem tende a diminuir, antes deverá continuar a aumentar.
Mas há mais e pior. Anos a fio foram-nos vendendo a ideia de que os males da zona euro, por exemplo, eram consequência da sua insuficiente integração. À união monetária faltava, por exemplo, uma união bancária. Agora que temos aí a união bancária estamos a perceber na pele quais as consequências. Será que estamos contentes. Da mesma forma se falou da falta de mais governo económico, e por isso aumentaram-se os poderes de supervisão de Bruxelas sobre os orçamentos nacionais, um movimento que obriga os parlamentos nacionais a submeterem-se a Bruxelas, como acaba de suceder com o nosso. Alguém acha realmente que isso fez da Europa um espaço mais democrático e de Bruxelas uma capital europeia mais simpática? Não, não foi isso que sucedeu, pelo que poupem-nos à tentação de quererem carregar no acelerador.
Paradoxalmente o caminho tem de ser aproximarmo-nos mais do que quase sempre defendeu o Reino Unido, e afastarmo-nos dos cantos de sereia dos utópicos adeptos do “mais Europa” custe o que custar. O caminho, numa Europa que não tem condições para pensar que uma mesma política pode servir as muitas realidades diferentes dos seus países, é permitir que existem mais políticas diferenciadas. Ou seja, que existam mais variações nos ritmos de integração e também mais Europa “à la carte”.
O que é que isso pode implicar? Que tenhamos de regressar, na medida do possível, a uma Europa mais “mercado comum” (a Europa que melhores provas prestou) e menos “união política” (a Europa que mais problemas criou). Paradoxalmente necessitamos do Reino Unido, mesmo que fora da União Europeia, para fazermos esse caminho com sucesso.
Não esqueçamos, por muito tristes que estejamos com a escolha do eleitorado britânico, que o Reino Unido continua e continuará a fazer muita falta à Europa e aos seus equilíbrios. Portugal em particular não pode descartar a proximidade de um país que, por comparação com a Europa continental, é mais atlanticista, é mais adepto da abertura dos mercados, é mais cioso do cumprimento rigoroso das regras democráticas, desconfia mais de modelos uniformes e tem uma cultura política que favorece a tentativa e erro, assim como um saudável equilíbrio de poderes.
Na negociação que agora se abre – e que durará até dois anos, nos termos do artigo 50º do Tratado de Lisboa – é por isso do nosso interesse manter o Reino Unido o mais integrado possível com a União Europeia. Temos nisso vantagens económicas evidentes e podemos ter nisso muitas vantagens políticas. Não se deve pois seguir o caminho advogado por algumas cabeças mais quentes, que ameaçaram Londres com fechar-lhe as portas do mercado europeu, um caminho que agravaria qualquer crise económica que o Brexit possa desencadear. Quando menos alterações houver nas regras de funcionamento dos mercados no espaço europeu, melhor para todos.
Volto por isso ao ponto por onde comecei: o tempo é de ter a cabeça fria, não o de agir motivado pelo rancor ou pelo despeito.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Não é a economia, estúpidos

Raquel Abecasis
RR online 23 jun, 2016

Os ingleses, como sempre na Europa, deram o passo inspirador.

O referendo Inglês prova que temos andado a viver de pernas para o ar. Desde a célebre proclamação de Bill Clinton “it´s the economy stupid”, tudo passou a girar em função disso até que a mais inteligente invenção do mundo ocidental - a União Europeia - entrou em crise, não por causa da crise económica, mas porque os europeus não comem economia, não dormem com a economia, não vestem economia e não servem economia nos campos de refugiados.
Se alguma coisa devemos aprender com os Ingleses que, não por acaso, são a mais antiga e “melhor” democracia do mundo, é que não há preço para a liberdade, nem uma civilização que custou sangue, suor e lágrimas durante séculos a construir se entrega de mão beijada em nome de uma qualquer recuperação económica.
Os ingleses, como sempre na Europa, deram o passo inspirador para que os europeus, seja qual for o resultado do referendo, pensem a sério no porquê de uma insatisfação generalizada com a União Europeia, que nos tem dado paz, prosperidade, desenvolvimento e acima de tudo um modo de vida que “ainda” é invejado em todo o mundo (haja em vista o fluxo de refugiados e emigrantes que apesar da forma como os tratamos ainda arriscam tudo para virem viver connosco).
Estava na hora de acordarmos para a vida e gritarmos: É a Europa estúpidos!

Quando as pessoas querem pagar impostos

José Miguel Pinto dos Santos
Observador 23/6/2016

Haverá um nível abaixo do qual as pessoas fugem à evasão fiscal? E quando os governos começarem a ter em conta este limite, e tributam de modo socialmente aceitável, que será dos paraísos fiscais?

Em geral, as pessoas sentem aversão a serem tributadas. É uma antipatia que se assemelha à repugnância que têm pela dor. Fere ser obrigado a pagar parte considerável do rendimento, ganho com tanto esforço, em sede de IRS. Magoa ver o preço de um produto, necessário ou simplesmente desejado, 23% mais caro por causa do IVA. No entanto, será que esta repulsa é instintiva, automática e independente da carga fiscal?
Recentemente passou-se a observar o comportamento bizarro de pessoas começarem a querer pagar impostos onde antes os evitavam. Apesar de todos os esforços das finanças, senão em controlar a vida sexual, pelo menos em fiscalizar a atividade económica, ainda são comuns algumas perversões no comportamento tributário dos cidadãos, geralmente denominadas “fuga ao fisco”. Por exemplo, quando se contratam aulas de piano ou serviços de mudanças, no momento de combinar o preço, ainda se ouve a pergunta: “quer fatura?” Esta questão funciona não só como pedido de informação, mas igualmente como aviso, senão mesmo como convite a um ilícito.
Esta prática também é comum na atividade de reabilitação urbana. Quem faz obras em casa ou no prédio, nunca quer fatura. Este comportamento poder-se-ia considerar compreensível se tivéssemos apenas em conta uma poupança de 23% no preço da obra. No entanto, para poupar os 23%, o proprietário está a prescindir de todas as garantias & proteções que uma fatura lhe proporciona, quanto mais não seja contra defeitos na obra. Ao optar por não querer fatura está implicitamente a considerar que os riscos de ter um problema com um cano ou uma janela ou uma inspeção são suficientemente bem compensados por uma poupança de 23% na empreitada.
Mas o verdadeiramente interessante, do ponto de vista fiscal, começou quando o município de Lisboa lançou o programa RE9. Este conjunto de nove medidas, que não abrange toda a cidade, inclui o incentivo fiscal de as obras de reabilitação serem tributadas à taxa reduzida de IVA, isto é, 6%.
O que aconteceu com a sua implementação? Nas áreas não abrangidas pelo RE9, as pessoas continuam a não querer fatura. Mas naquelas outras, do outro lado da rua, onde o programa está a ser aplicado, toda a gente começou a querer pagar IVA. Porquê? Pode ser que o benefício de uma evasão fiscal de 6% não compense a perda das garantias do empreiteiro mais o risco de ser apanhado numa infração tributária, enquanto uma de 23% compensa. Ou pode ser que a maioria considera que um IVA de 23% é opressivo e injusto, imposto apenas devido a uma despesa pública crónica, diarreica e cancerosa, enquanto acham que 6% é um nível aceitável e comportável para o cidadão. O que levanta a questão: haverá um nível abaixo do qual as pessoas passam a querer fugir à evasão fiscal? E quando os governos começarem a ter em conta este limite, e começarem a tributar de modo mais socialmente aceitável, o que irá acontecer aos paraísos fiscais?
Professor de Finanças, AESE Business School, e André Alvim, Empreendedor

Concerto N.ª Sª do Castelo - apoio à construção 2ª. fase Mosteiro de Nossa Senhora do Rosário das Monjas de Belém.

Carapaus de corrida e tiros pela culatra

João Pedro Henriques
DN20160623

Gostava de perceber o processo mental que leva um governo - e, no caso, um ministro das Finanças - a promover uma conferência de imprensa, para não dizer nada sobre a CGD, exatamente 90 minutos antes de se iniciar um jogo de futebol da seleção nacional, no qual grande parte do país está com os olhos postos (para já não falar no facto de ser na véspera do referendo no Reino Unido).
Se bem os entendo, os spin doctors governamentais devem pensar que assim contam com uma atenção pública desatenta e sobretudo com a impossibilidade de os partidos (a oposição mas também os aliados da "geringonça") reagirem de forma audível em tempo real. Imagino os pulos de alegria que esses cavalheiros e cavalheiras devem ter dado ontem logo pela manhã quando viram Ronaldo a tirar o microfone a um jornalista da CMTV e atirá-lo para um lago (o microfone, não o jornalista). O futebol é o ópio do povo e mais ainda quando o adornam com episódios virais.
Pode pensar-se que na ação governamental o que conta é a competência com que são geridos os dossiês e não tanto a forma como se comunica. Sim, mas. A competência é o essencial, mas na comunicação afere-se a forma como um corpo político - é do governo que falamos - se sujeita ao escrutínio dos eleitores. Porque é pela comunicação, intermediada pelo jornalismo, que se diz aos eleitores o que se faz e o que não se faz e se lhes permite verificar se palavra dada foi mesmo palavra honrada ou nem por isso.
Ora isso - o escrutínio popular da ação política - é uma trave mestra no processo democrático. Um governo que abre as decisões ao olhar público é um governo que respeita o processo democrático. Um governo que esconde as suas decisões não respeita o processo democrático. E um governo que abre o processo de decisão mas o faz numa altura em que pensa que está tudo a olhar para o lado é um governo que só finge que adere ao processo democrático - e acima de tudo um governo de carapaus de corrida que vê nos eleitores uma massa uniforme de idiotas.
Nessa medida, a conferência de imprensa governamental marcada para noventa minutos antes do jogo decisivo da seleção acaba por ser bastante reveladora - bastante mais do que os spin doctors presumiriam inicialmente. Ao querer tapar a informação sobre a CGD fingindo que se está a mostrar alguma coisa, o governo o que revela é ter medo do assunto. Se calhar o que importa mesmo no inquérito parlamentar é o que se está a passar agora no banco público e não o que se passou há quase dez anos. Mas enfim: dias depois de uma deputada do PS, Gabriela Canavilhas, pedir publicamente o despedimento de uma jornalista por discordar do que escreveu, isto acaba por não surpreender.

O empate triunfal

MIGUEL ESTEVES CARDOSO Público 22/06/2016

Viva a selecção portuguesa e a nossa infinita capacidade para o sofrimento!

Só há duas maneiras inteligentes de passar: com a nota mínima ou com a nota máxima. Ou com 9,5 valores ou com 20. Tudo no meio é excesso de esforço para muito pouca glória.
Portugal foi triunfal a empatar com a Hungria. Dois golos húngaros foram sortudos. Os três golos portugueses foram inequivocamente planeados e justos.
A selecção portuguesa teve um azar monumental, mas mesmo assim conseguiu passar. Mandou o azar dar uma volta. Sabendo que três é a conta que Deus fez jogou 3 vezes para ganhar 3 pontos e ficar em terceiro lugar.
Tenho para mim que um grande empate é preferível a uma vitória meramente merecida. É muito difícil empatar quando se está a perder. E Portugal esteve a perder três vezes. E três vezes, triunfalmente, empatou.
A selecção nunca deixou que os húngaros ficassem muito tempo a pensar que estavam a ganhar. Com uma pressa, precisão e uma capacidade de finalização que fez questão de esconder até agora, tratou de marcar os golos necessários à medida que os chatos dos húngaros iam elevando, desnecessariamente, o marcador.
A Portugal e a Cristiano Ronaldo convinha dar uma impressão de incapacidade de marcar golos, para mais bem enganar os nossos próximos adversários.
Os húngaros foram na fita e tentaram repetidamente ganhar a partida, forçando Portugal a mostrar o jogo. Os ingleses não estavam a gostar nada da ideia de jogar contra Portugal, mas a heróica Islândia safou a Inglaterra e agora serão os croatas a olhar para a força com que Portugal reage aos golos com que a ofendem e a sentirem-se mal servidos pela sorte.
Só a Áustria foi eliminada do nosso grupinho. Acabaram-se as brincadeiras. Já mostrámos que não precisámos da sorte para sermos apurados. Mas agora agradecíamos que o raio do azar, qual podengo esganado, nos largasse as pernas.
Viva a selecção portuguesa e a nossa infinita capacidade para o sofrimento!

Dar bons frutos

POVO 22.6.16 
Se alguém sente que Deus lhe pede que se comprometa na reforma da sociedade, isso é um assunto entre essa pessoa e o seu Deus. Todos nós temos o dever de servir Deus segundo o apelo que sentimos. Eu sinto-me chamada ao serviço dos indivíduos, a amar cada ser humano. Nunca penso em termos de massa, de grupo, mas sempre nas pessoas concretas. Se pensasse nas multidões, nunca iniciaria nada; é a pessoa que conta; acredito nos encontros cara a cara. 
A plenitude do nosso coração transparece nos nossos actos: a forma como me comporto com os leprosos, com este ou aquele agonizante, com este ou aquele sem-abrigo. Por vezes, é mais difícil trabalhar com os vagabundos do que com os moribundos dos nossos hospícios, porque estes estão em paz, na expectativa, prontos a partir ao encontro de Deus. Mas, quando se trata de um bêbado que protesta, é mais difícil pensar que estamos frente a frente com Jesus escondido nele. Como devem ser puras e amáveis as nossas mãos para manifestarem compaixão para com essas pessoas! 
Ver Jesus na pessoa que está espiritualmente mais pobre exige um coração puro. Quanto mais desfigurada estiver a imagem de Deus numa pessoa, tanto maiores devem ser a fé e a veneração na nossa busca do rosto de Jesus e no nosso ministério de amor junto dela... Façamo-lo com um sentimento de profundo reconhecimento e piedade. O amor e a alegria de servir devem ser à medida do carácter repugnante da tarefa a realizar. 
Beata Teresa de Calcutá
(comentário deo Evangelho quotidiano de 22 de Junho de 2016)