domingo, 25 de janeiro de 2015

Oscillococcinum Cadabra

José Diogo Quintela, Público, 2015.01.25

Tenho a casa transformada em enfermaria. Neste momento, estão internados cinco Nenucos, três Barbies (tecnicamente, uma delas é Barbie-Sereia) e um Action Man. Padecem de gripe.

A minha filha é muito atenciosa com os pacientes. Está a levar a sua função terapêutica muito a sério. A minha mulher está convencida de que a miúda vai ser médica. A mim, pela maneira como ela trata as bonecas, dá-me mais a sensação que ela vai ser homeopata. É que os remédios que ela receita são colheradas de ar e pingos de água aplicados a partir de um biberon de brincar.

Como pai preocupado com o futuro, é óbvio que estou contente. A homeopatia não é tão prestigiante quanto a medicina, mas dá mais dinheiro. E o curso é mais fácil. Só é preciso aprender a medir porções, diluí-las e sacudi-las num recipiente. No fundo, é um curso de barman em que só se usa água. Aliás, qualquer pessoa que já teve preguiça de ir à despensa buscar uma embalagem de champô nova, preferindo antes encher de água e abanar a embalagem vazia de modo a recolher refugo de champô com que lavar a cabeça, é um homeopata em potência.

Todos os dias ouço um anúncio na rádio a recomendar que faça a prevenção da gripe com o Oscillococcinum, um produto homeopático. Ora, eu não sou cientista. Logo, tenho toda a qualificação necessária para me pronunciar sobre homeopatia. E diria que a prevenção da gripe com pílulas de açúcar só funciona se o vírus influenza estiver a fazer a dieta do Paleolítico. Sem ser para evitar os hidratos de carbono, não estou a ver outra razão que levasse um vírus a não querer instalar-se em alguém só porque toma pílulas de açúcar. A empresa que o vende garante que não tem efeitos secundários. Aí já estamos de acordo. É natural que não tenha, porque para ter um efeito secundário seria necessário que tivesse, anteriormente, um efeito primário.

O meu cepticismo não é dogmático. Mudo de opinião quando me mostrarem provas irrefutáveis

No entanto, a bem da verdade, tenho de reconhecer que o Oscillococcinum não é apenas açúcar. O seu ingrediente fantástico (no sentido de "estupendo" para os homeopatas; no sentido de "fictício" para as restantes pessoas) é um extracto de miudezas de pato, o que faz do Oscillococcinum uma sugestão de canja muito cara. Quando alguém toma um comprimido, há um círculo que se completa: o que começou com um pato termina num pato. Não consigo imaginar melhor definição de "holístico".

Os homeopatas garantem que depois das 200 diluições do extracto de pato, a água retém a memória de uma molécula do ingrediente original. Até agora, não se conseguiu provar que a água tenha memória. A existir, a memória da água é igualzinha à memória do vinho: quando o bebo, no dia seguinte também não me lembro de nada.

Atenção, o meu cepticismo não é dogmático. Mudo de opinião quando me mostrarem provas irrefutáveis. E a verdade é que fui agora ao quarto da minha filha e as doentes estavam todas perfiladas para uma aula de zumba. Tudo com ar bem-disposto. Tirando o Action Man.

O cerco que marcou a história do CDS há 40 anos

tsf2015.01.25

Há quatro décadas, o CDS era presidido pelo Diogo Freitas do Amaral à data do primeiro congresso do partido que foi interrompido com o famoso cerco no Palácio de Cristal.
 


Manifestações contra a realização do I Congresso do CDS, no Porto. 25 de janeiro de 1975.

Foi a 25 de janeiro de 1975. O CDS estava reunido no seu primeiro congresso, o partido era então liderado por Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa era o secretário-geral.
Reunidos no Palácio de Cristal, no Porto, hoje Pavilhão Rosa Mota, os centristas foram cercados por manifestantes da extrema-esquerda. Foi um dos episódios mais marcantes na história do partido.


«Manifestação dos "antifascistas"» a porta do Palácio de Cristal, no Porto. 25 de janeiro de 1975
Os trabalhos foram interrompidos a meio da tarde, como recorda o deputado José Ribeiro e Castro que foi um dos cercados nesse dia.
Em declarações à TSF, Ribeiro e Castro lembra que chegou a haver tiros e muitas ameaças. Foram horas de grande intensidade, o que para um jovem de 21 anos, que tinha à data Ribeiro e Castro, era um momento de grande adrenalina.


Aliança-Povo Forças Armadas à porta do Palácio de Cristal, Porto. 25 de janeiro de 1975.
Ribeiro e Castro admite que as coisas podiam ter acabado mal e que só não foi pior porque foi muito forte a pressão internacional para que as Forças Armadas interviessem para proteger os convidados estrangeiros.
Os trabalhos do congresso só foram dados como encerrados um mês depois, também no Porto, no Palácio dos Pestanas, numa sessão clandestina para aprovação dos documentos e para eleição dos órgãos do partido.


I Congresso Nacional do CDS no Palácio de Cristal, no Porto. Mesa do congresso. 25 de janeiro de 1975.

Amo a escola!

A Violetta e os ídolos dos nossos filhos

Inês Teotónio Pereira
ionline 2015.01.25


Da Violetta à Hannah Montana, de Britney Spears a Justin Timberlake, nós pais somos financiadores e motoristas
Não sei se estão estudados os ingredientes que são precisos para se ser ídolo infantil, mas a verdade é que nos últimos anos desenhou-se um padrão entre Hannah Montana, Britney Spears, Justin Timberlake, Justin Bieber, One Direction e agora a Violetta. Todos eles moveram multidões e juntaram pais e filhos em cantorias dentro do carro, nos concertos e na compra de todo o tipo de produtos que exploram e bem a imagem dos respectivos artistas. A grande novidade face aos ídolos das gerações anteriores, em que os jovens arrancavam cabelos e desmaiavam quando ouviam e tocavam nas estrelas de rock, é que a idade dos fãs diminuiu substancialmente. Agora os fãs são as crianças, o público das maiores estrelas tem menos de 12 anos. Quem hoje conseguir conquistar o coração de uma criança até aos 12 anos tem o sucesso garantido. Os jovens não dão metade do rendimento e os adultos estão cada vez mais segmentados. As crianças, por sua vez, têm duas vantagens imbatíveis: são fáceis de cativar quer visual quer musicalmente e têm um financiador muito mais generoso e ilimitado que o BCE: os pais. Os pais pagam o que for preciso para ver o filho sorrir e para satisfazerem os seus caprichos, mesmo que eles durem apenas um ano lectivo. Só se é pai uma vez e já se sabe que é difícil dizer "não" a uma criancinha amorosa que sabe de cor as músicas da Violetta e que ainda por cima faz as coreografias exemplarmente. Por isso, conquistar o coração de uma criança até aos 12 é o mesmo que conquistar o coração dos pais e os respectivos cartões de crédito. 

Todos estes ídolos infantis perceberam isso: falaram directamente para os miúdos através os canais infantis e deixaram que fossem as crianças a fazer as birras, as coreografias e a convencer os pais dos seus talentos. Uma vez mordido o isco, o resto torna-se cada dia mais fácil: multiplicam- -se os fãs ao ritmo do marketing fácil até que a moda se transforma em fenómeno. Todos estes ídolos tiveram o brilhantismo de conseguir fazer este bypass aos pais e no fim ainda lhes pedir dinheiro. A Violetta leva 75 mil pessoas ao Meo Arena este fim--de-semana, houve filas de horas para comprar bilhetes e houve até quem comprasse bilhetes por 500 euros. Só que dessas 75 mil pessoas pelo menos um terço são pais, o dinheiro é todo deles e não foi preciso gastar um tostão para os convencer a gastá-lo. Apenas precisaram de convencer os filhos. Nada de novo. 

Nada disto tem mal nenhum, apenas revela uma coisa: entre nós e os ídolos dos nossos filhos não está ninguém. Da Violetta à Hannah Montana, de Britney Spears a Justin Timberlake, nós pais somos essencialmente financiadores e motoristas. 

Se é bom ou mau os nossos filhos de sete e oito anos terem estes ídolos tão cedo, não sei, nem ponho em causa o talento de cada um deles. Sei apenas que cada vez mais os pais têm menos influência nas paixões e nos gostos dos filhos e que estes fenómenos, que nascem apesar de nós, fazem com que os nossos filhos sejam adolescentes bem mais cedo do que a idade da adolescência. Com apenas oito anos, as nossas crianças entretêm-se com séries que não são mais do que telenovelas e deliram com modelos que há uns anos só despertavam interesse em raparigas de 14 anos. As Cindies e as Barbies ganharam vida e em vez de brincarem às bonecas as nossas filhas mais pequeninas sonham agora com romances e com desgostos de amor. 

Tudo isto seria natural se os mesmos pais tivessem a mesma coerência no que diz respeito à liberdade, à segurança, ao sucesso e ao futuro dos seus filhos. Mas não. Se por um lado não se importam que as suas crianças tenham os ídolos que elas bem entenderem e que os escolham antes de terem idade para irem para a escola sozinhas, por outro lado não as deixam subir às árvores, vivem obcecados com a influência que a música "Atirei o Pau ao Gato" possa ter no desenvolvimento das suas crias - não vão elas atirar paus aos gatos por causa da música - e receiam que o cigarro do Lucky Luke possa instigar os petizes a viciarem-se no tabaco. A falta de controlo nos ídolos dos nossos filhos equilibra-se com o exagero no controlo de coisas inócuas. Porquê? Também não sei. Mas enquanto este paradoxo não se resolve resta-nos esperar para ver em que modelo sexual a Violetta se vai tornar, cumprindo a tradição da clássica Britney Spears e da irreconhecível Miley Cyrus. 

Gula, o desejo devorador

José Luís Nunes Martins
ionline 2015.01.25

O açúcar e o álcool permitem um quase esquecimento dos planos a longo prazo. Aposta-se tudo no agora e despreza-se o que vem depois.
Muitas pessoas tentam compensar as suas carências emocionais através dos bens materiais. Há quem coma e beba para assim tentar preencher os seus desertos interiores, para dessa forma se evadir da realidade.

O açúcar e o álcool permitem um quase esquecimento dos planos a longo prazo. Aposta-se tudo no agora e despreza-se o que vem depois. Mas, na verdade, há sempre um depois... e será tanto pior, quanto menos nos preocuparmos com ele.

A procura excessiva de satisfações materiais, em especial através da comida e bebida, revela vazios tremendos e valores trocados. Devemos alimentarmo-nos para viver e não o contrário. O que devemos integrar em nós, o que nos faz ser maiores e melhores, não é o que conseguirmos devorar. Isso apenas nos incha... de um vazio cada vez maior.

Pouco importa se é pelo excesso de quantidade, pela exigência da qualidade, pelo requinte da preparação, pelo preço, ou até pela forma ávida com que se come e bebe, sem que sequer se permite saborear (chegam a chamar-lhe comida rápida), a gula é sempre uma paixão desordenada e exigente, uma espécie de requinte que é, na verdade, um verdadeiro veneno para a nossa felicidade.

A gula é um vício que não costuma envergonhar quem o tem. Há até quem assuma a sua capacidade de devorar tudo sem qualquer timidez, de sorriso nos lábios... ser guloso chega mesmo a apresentar-se como uma qualidade!

Hoje cultiva-se o corpo, como se não fossemos nós algo muito mais profundo. O resultado é quase sempre desastroso: quem tem um corpo escultural, julga que isso é tudo quanto importa; quem o não tem, julga que isso é sinal de que não tem valor algum.

É frequente que o corpo e o espírito se encontrem em conflito. Importa respeitar o corpo, mas sem qualquer tipo de submissão aos seus caprichos. São alimentos, necessidades e interesses diferentes, mas o espírito tem de dominar o corpo.

Há quem embeleze o seu exterior a fim de ultrapassar algumas dimensões menos boas do interior, e há quem aposte no equilíbrio do que está na base do seu ser, moderando sempre os seus impulsos e não se deixando devorar pelos seus próprios desejos.   

Quem se entrega desregradamente à comida e à bebida perde a capacidade de saborear os detalhes... os temperos... Mas a temperança é o equilíbrio. Uma ordem saudável onde tudo tem o seu lugar e valor. Nunca menos do que se necessita, nem mais do que é conveniente.

Talvez não seja um problema grave que alguém se delicie com um bombom cujo custo daria para comprar pão para a refeição de uma família inteira. O problema grave será comer uma caixa inteira e, ainda assim, não ficar satisfeito...

Num mundo em que sofrem e morrem de fome milhões de pessoas, talvez não seja estranho que a obesidade seja também um problema. O mundo está desequilibrado. Há também quem sofra de fome por estimar mais aquilo que uma imagem de si que deseja do que a sua saúde e paz. Um dos piores males da gula é que impede, os que ela consegue devorar, de pensarem e ajudarem todos os seres humanos a quem falta o essencial.

É algo estranho que seja quem mais tem, quem mais ainda queira ter... a lógica do consumo é linear e bruta: absorver e destruir, a fim de poder sempre consumir mais... absorver e destruir... absorver e destruir... uma fome insaciável que corrói por dentro. Uma úlcera.

As sensações não são emoções. Pouco do que nos chega através dos sentidos, nos enche o coração. O prazer não é a felicidade.

Importa saborear a vida e tudo quanto nela há de bom, deliciarmo-nos com a bondade do mundo ao nosso alcance. O pão nosso de cada dia é algo tão essencial quanto excelente!


«Lógica utilitária» põe em causa utilidade do homem

Agência Ecclesia
 

Fabrice Hadjadj disse no II Encontro Nacional de Leigos que facilmente se pode passar do «desperdício à jihad» e que a legitimidade do humano deve procurar-se «no céu»


Porto, 24 jan 2015 (Ecclesia) – O ensaísta Fabrice Hadjadj afirmou hoje no II Encontro Nacional de Leigos como se pode "sair da crise económica e antropológica atual" e que "diante da ameaça da "lógica utilitária", tem de procurar "uma legitimidade no céu".
"Quando a presença do homem sobre a terra já não vai de si mesmo, é necessário encontrar-lhe uma legitimidade no céu", afirmou o filósofo e antropólogo francês na conferência e abertura do Encontro de Leigos, sobre o tema "Recolocar o homem no centro"
"O verbo é «recolocar» e não «colocar». Recolocar implica o retorno a um lugar original, e não a um lugar arbitrário", afirmou o diretor do Instituto Europeu de Estudos Antropológicos Philanthropos (Suíça) no Centro de Congressos da Alfândega do Porto.
Para Fabrice Hadjadj "humanismo antropocêntrico colapsou" e o humano "não é mais que um desperdício, ou antes um material para fabricar um alegado super-homem, na realidade uma espécie de engrenagem no grande dispositivo mundial", permitindo que se passe do  "desperdício à jihad".
A aparente perda de legitimidade do humano sobre a terra motivou, para o conferencista, a emergência de "três figuras anti-humanas", "três pseudo paraísos": do "cyborg", "bonobo" e do "kamikaze", que se opõem entre si, mas "estão de acordo para desprezar o humano no homem".
Para o conferencista, "a presença do homem sobre a terra não está somente ameaçada, mas que não tem mais legitimidade no horizonte puramente mundano", afirmou.
"Eis portanto como se põe a questão do humano nos nossos dias. Eis o «desafio antropológico» sem precedente ao qual devemos fazer face, e que é na verdade um desafio teologal – um formidável apelo à evangelização", defendeu o conferencista.
Para Fabrice Hadjadj, a evangelização é o anúncio do "Deus feito homem" e não de Deus, porque "em nome de Deus" é possível "desprezar o homem e cair num anti-humanismo teocêntrico".
"Não super-homem, mas simplesmente homem. Não chefe religioso organizando razias, mas pobre trabalhando com as suas mãos, pedindo de beber a uma Samaritana", recordou.
O filósofo francês considera que "para começar a sair da crise económica e antropológica atual, seria necessário reencontrar não só o sentido de Deus e do espírito, mas também e sobretudo o sentido da família e da filiação, da paternidade e da maternidade".
Fabrice Hadjadj defende uma economia enquanto "virtude moral", que impeça o desperdício e promova estilos de "vida simples", reconhecendo a "superioridade da mesa familiar sobre a tablet eletrónico" e que possibilite "a proximidade e a transmissão familiar".
Fabrice Hadjadj propôs a salvaguarda da dignidade da pessoa humano que consiste em "recetividade e responsabilidade", mais do que "plenitude".
"Podeis colocar o homem ao centro, mas a primeira coisa que ele fará, se for verdadeiramente humano, é descentrar-se", garantiu Hadjadj porque "o homem é aberto ao mundo e interessa-se por aquilo que ultrapassa a sobrevivência da sua espécie".
O II Encontro Nacional de Apostolado dos Leigos (ENL) decorre no Centro  de Congressos da Alfândega do Porto, sábado, dia 24, sobre o tema "Recolocar o Homem no centro da sociedade, do pensamento e da vida".

Terceiro dia

"Juntem-se num só lugar as águas que estão debaixo do céu, para que apareça o solo firme". E assim se fez. Ao solo firme Deus chamou "terra" e ao ajuntamento das águas, "mar". E Deus viu que era bom.
Gen 1, 9-10

sábado, 24 de janeiro de 2015

Um leopardo


Observador 20150124 Paulo Portas

Nos 50 anos sobre a morte de Winston Churchill, Paulo Portas escreve no Observador sobre "Um leopardo" - um político "que talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea".



Winston Churchill rivaliza com Oscar Wilde na evocação de citações brilhantes, umas vezes atribuídas adequadamente, outras indevidamente. Este mero facto contém uma reputação. Churchill poderia ter feito, dito e escrito coisas ainda com maior génio e grandeza. Para efeito deste artigo, recordo apenas uma, tomando emprestada a tradução portuguesa – delicada, convenhamos – sobre a atitude com que Churchill mobilizava os seus e despachava o inimigo: "Continuem a moer-lhes o juízo".
Curiosamente, a ascensão de Churchill à categoria de sagrado histórico acontece num mundo e numa era em que, provavelmente, ele não conseguiria fazer a política que fez. Diria mesmo mais: Churchill talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea. Isso vai a crédito dele e a débito do mundo em que vivemos. Churchill era o que era e não disfarçava: um aristocrata e um homem do Império, o que hoje provocaria urticária e preconceito.

Fumava e bebia sem demasiada mesura, o que sem dúvida suscitaria nos dias que correm o habitual coro de "fascismos higiénicos" e conveniências sociais. Tinha, deliciosamente, mau feitio e bom carácter, precisamente a equação oposta face à correção política que faz sucesso provisório de não poucos políticos telegénicos e publicitários. Ia contra a corrente com a força de um verso solto e tonitruante, e se necessário mudava de Partido para não mudar de ideias – todo um desafio às conveniências moderninhas. Tinha sentido de humor e sentido da história: duvido que o primeiro correspondesse à ideia de gravitas que a mediania oficializada hoje estabelece, e tenho a certeza, quanto ao segundo, que poucos pregariam a persistência que ele pregou quanto à questão que para ele era essencial: bater-se pela centralidade da Grã-Bretanha num mundo em que a reorganização das potências lhe escapava.
Estes dados são suficientes para perceber que Winston Churchill não se daria especialmente bem numa era sem memória – a nossa -,e numa política de pequenas frases que pretendem resumir, até ao nível mais básico da estupidificação, problemas complexos – o que ouvimos por esse mundo fora todos os dias.
Winston Churchill não se daria especialmente bem numa era sem memória – a nossa -, e numa política de pequenas frases que pretendem resumir, até ao nível mais básico da estupidificação, problemas complexos

Em contrapartida, o que Winston Churchill conseguiu, pouquíssimos conseguiriam se os dilemas fossem os mesmos, agora. De facto, a verdade mais profunda de Winston Churchill – tão profunda que se tornou lendária – é a persistência indómita na defesa do interesse nacional. Assim na paz e na guerra e, sobretudo, entre as duas pavorosas guerras mundiais que conheceu. A isso juntava uma convicção não negociável sobre a natureza do totalitarismo. É por isso que Churchill avisou mil vezes contra o rearmamento alemão e estigmatizou o apeasement. É também por isso que se tornou no único primeiro-ministro possível em tempo de guerra, colapsadas as amenidades de uma diplomacia de fraqueza. Fê-lo como conservador e dificilmente podia ser de outro modo, porque os conservadores, facto difícil de perceber para cá da Mancha, são o único Partido do mundo com o baptismo carismático do one nation party (em tempo de guerra, que interessam as classes, os géneros, as etnias ou as orientações? Só interessa a Nação e nada mais do que a Nação).
Actuava como pensava. Não transportou os dissídios do tempo em que fora um heterodoxo para o Gabinete de Guerra; perdoou a adversários, fez um governo de concentração e manteve o Parlamento eleito, embora exigisse só dar certas informações à porta fechada. Absolutamente lúcido quanto ao carácter bárbaro de Estaline e presciente quanto ao pavor do comunismo, aliou-se com a União Soviética para derrotar o Reich; se mais tempo tivesse vivido, certamente o dedicaria a apressar o fim do que designou por "cortina de ferro". Se admitirmos com razoável veracidade que o século XX europeu foi o século dos totalitarismos, qualquer deles bebendo na fonte de uma ilusão revolucionária que, note-se, começou em 1789 como Burke teorizou por antecipação, o que é certo e seguro é que Churchill esteve sempre do lado certo, quando apenas e nada menos do que a sobrevivência da liberdade estava em causa.
                
Ao longo de uma vida política extensíssima, Churchill enganou-se algumas vezes e acertou muitíssimas mais. Mas quando se diz que o povo inglês foi ingrato com ele, despedindo-o democraticamente após o triunfo de 1945, devemos ter presente que Churchill viu as coisas com um módico de compreensão diferente. Pouco dado a deixar qualquer ponta solta, Churchill venceu a guerra, perdeu as eleições e voltou a ganhá-las, em tempo de paz.
Estas extraordinárias proezas só se explicam como recurso aquela que será, porventura, a mais rara das qualidades churchilianas. Refiro-me à sua nula concessão ao espírito de derrota, que costuma ser resultado acumulado do medo e da melancolia. Em muitos momentos da sua vida, Winston Churchill teve dúvidas e hesitou nas decisões. Mas em nenhum momento se permitiu democratizar a dúvida, ou espalhar o mísero grau moral que assalta os que não querem combater só para não arriscar perder o combate. Churchill era manifestamente de outra cepa: se tivesse ido por aí, teria insultado as vidas inglesas perdidas em defesa de uma bandeira e de um país. Guardava para poucos as sensações dos black dog days. Preferia empregar a sua energia vital naquela pragmática do dia que ficou célebre: action this day! Não dava grande espaço aos desencorajados do único dever: lutar.
Winston Churchill teve dúvidas e hesitou nas decisões. Mas em nenhum momento se permitiu democratizar a dúvida, ou espalhar o mísero grau moral que assalta os que não querem combater só para não arriscar perder o combate.

Além de ser o melhor chefe aliado, Churchill foi várias coisas mais, o que aliás só revela uma independência de vida que o ajudou a pensar na independência da sua ilha. Foi militar com não pequeno grau de excitação – e poderia ter morrido. Foi jornalista – ou talvez melhor, repórter que anteciparia o escritor. Foi tribuno, e experimentou tanto a solidão como a glória. Foi governante e legislador, sobretudo conhecido por se ter interessado – apesar ou talvez por causa da sua infância privilegiada – por temas sociais.
Devemos ser cuidadosos com as réplicas que ignoram um século de distância e diferenças de contexto, mas há um Churchill social que nunca foi um Churchill socialista. Havia nele um sentido moderado do progresso que, na boa lógica conservadora, apontava para reformas que prevenissem revoluções. Interessou-se pela sorte dos mineiros e operários; preocupou-se com as condições de vida das viúvas; aceitou medidas de redistribuição e está vinculado ao salário mínimo nalgumas indústrias. Queria alargar o voto das mulheres e era sensível à questão da pobreza. É certo que nasceu em tempo vitoriano e não desdenhava grandezas do passado. Mas, também o é que Churchill via mais à frente e aceitava inovar socialmente para preservar o equilíbrio fundamental da sociedade. Um conservador atento à questão social não é um paradoxo (como cá se pensa). É realismo lúcido que se materializa em humanidade.
Numa altura de exaltação e fascínio pelas ditaduras, pelo "super-homem" ou pelo "homem novo" e de descrença no parlamentarismo, Churchill obteve o triunfo da vontade democrática. A democracia, contra as modas ideológicas, não era uma fraqueza. Pelo contrário, quando inspirada e motivada, conseguia conquistar e vencer uma guerra.
Para isto, além de lutar nas frentes de combate, o Primeiro-Ministro britânico lutou, convenceu e venceu na frente interna. Usou a imprensa, para ganhar argumentos e opiniões, escreveu artigos e até promoveu fugas de informação; num tempo em que os debates no parlamento não podiam ser transmitidos, usou a difusão pela rádio, para chegar a cada casa, aos ouvidos de qualquer pessoa. Acreditou na pessoa comum para vencer as pretensas "raças superiores". Apoiou as novas ideias, as novas técnicas, fez desenvolver os tanques e o radar, usou a estatística como base para as políticas governamentais e modernizou alguma coisa a administração.
Passam hoje cinquenta anos do fim de uma das mais fabulosas vidas que percorreram e definiram o mundo contemporâneo. Não deve ter existido outra pessoa que tenha ganho o prémio Nobel da literatura, colocado um álbum no top 5 (dos seus discursos) e bebido – dizem – cerca de 42.000 garrafas de champanhe. Entretanto, venceu uma guerra mundial e salvou o mundo ocidental. Um verdadeiro leão, comentava-se. Talvez mais um leopardo, no sentido viscontiano da vida e, no caso dele, da vitória.

SER OU NÃO SER CHARLIE


Pedro Vaz Patto, Público, 2015.01.24

                  Foi com viva comoção que muitos assistiram à grande manifestação que se seguiu aos atentados de Paris, um grito de repúdio do terrorismo. A frase mais ouvida, Je suis Charlie, para muitos exprimia, antes de tudo, a solidariedade para com as vítimas, mesmo da parte de quem nunca se identificou com a linha ideológica do jornal Charlie Hébdo.
                  Mas por detrás dessa palavra de ordem também se nota a vontade de apresentar o estilo que tem caraterizado esse jornal (a sátira que não reconhece limites e ofende gravemente o que há de mais sagrado para crentes de várias religiões) como o ícone mais representativo da sociedade de liberdade e tolerância em que vivemos e queremos continuar a viver. Isto já não me parece aceitável.
                  Subjacente a esta ideia está um conceito de liberdade individualista, que não se detém diante do respeito pelo outro, pela sua dignidade e pela sua sensibilidade. Para esta visão, só a própria liberdade será sagrada; mas uma liberdade que se torna vazia, um fim em si mesmo e não um meio para alcançar a verdade e a realização pessoal no relacionamento com os outros.
                  A liberdade de expressão tem limites em qualquer sociedade livre e democrática.
                  Quem instiga à prática do crime e do terrorismo (como fazem alguns dos mentores de atos como os dos atentados de Paris) claramente ultrapassa esses limites. Nesta ocasião o próprio governo francês participou, pelo crime de propaganda do terrorismo, de um polémico ator, Dieudonné, que afirmou: Je suis Coulibaly (um dos autores de um dos atentados). Em Itália decorre atualmente uma campanha contra o racismo em que se afirma, numa alusão ao insulto racista: «as palavras também podem matar».  Em sistemas jurídicos como o português, a difamação e a injúria (isto é, a imputação a outrem de factos desonrosos e a emissão pública de juízos atentatórios da honra de outrem) são crime. Há que distinguir a crítica de atos, que deve ser livre, da ofensa que atinge a dignidade da pessoa visada, seja ela quem for.
                  O que é próprio das sociedades livres e democráticas é o livre debate de ideias. A crítica da religião islâmica, como a da religião cristã ou das religiões em geral, não pode deixar de ser livre. Nem há que temer esse debate e essa crítica, porque às ideias pode sempre responder-se com outras ideias, e a Verdade impõe-se por si, pela luz e força que lhe são intrínsecas. É diferente da crítica motivada às religiões a falta de respeito pelos símbolos e figuras tidos por sagrados, o achincalhar gratuito desses símbolos e figuras, a ofensa aos sentimentos religiosos das pessoas. Às ideias pode responder-se com outras ideias e assim se gera o diálogo e o debate. Os insultos já saem fora do diálogo e do debate racional. Surge sempre a tentação de responder aos insultos com outros insultos, e assim se gera a violência verbal, que nada tem a ver com o debate que é próprio de sociedades livres e democráticas.
                  É verdade que os tribunais são cada vez mais reticentes no reconhecer o respeito pelos sentimentos religiosos das pessoas como limite à liberdade de expressão. Talvez isso se explique pelo peso da memória de épocas em que a religião serviu para limitar a liberdade de expressão de ideias, ou também por preconceito laicista (não liberal) contra a religião. Parece que há "dois pesos e duas medidas": aceitam-se mais facilmente limites à liberdade de expressão noutros âmbitos, como quando estão em causa discriminações em razão da raça, ou, mais recentemente, da orientação sexual (desapareceu a sátira a pessoas homossexuais que, há alguns anos, era muito comum em programas humorísticos, e isso é de saudar, mas já não o é a tentativa de limitar a expressão de ideias contrárias à prática homossexual).
                  Mas não pode ignorar-se que para muitas pessoas, não só uma ofensa verbal pode ferir mais do que uma ofensa física, como a ofensa ao que para elas é mais sagrado, aos seus sentimentos religiosos, fere mais do que uma ofensa à sua pessoa ou à sua família.
                  Nada disto justifica o homicídio terrorista, ou atenua a sua gravidade. Matar e odiar invocando o nome de Deus é também uma blasfémia (di-lo o Catecismo da Igreja Católica, no seu nº 2148), talvez a mais grave de todas.
                  Mas a alternativa ao fanatismo fundamentalista não é a liberdade sem limites, nem uma sociedade onde nada é sagrado. A alternativa ao fundamentalismo é uma sociedade de diálogo entre religiões e entre crentes e não crentes. Um diálogo que comporta a liberdade do debate de ideias e da crítica, mas também o respeito pelo outro e pela sua sensibilidade. O diálogo serve para construir a paz e a fraternidade, o insulto não serve.

Aqui vamos nós


24/01/2015 - 05:48

Este ano faço 60 anos. Vou dividi-los como se fosse morrer em Julho em quatro períodos de 15 anos.

Este ano faço 60 anos. Vou dividi-los como se fosse morrer em Julho em quatro períodos de 15 anos. Sem esta histeria melodramática jamais seria forçado a chegar a conclusões.
Nos primeiros 15 anos não se sabe no que se acredita. Tem-se pouca informação. Mas sabe-se, saudavelmente (e dura até à velhice), o que não se quer, que é muita coisa, para não dizer tudo o que existe.
Aos 30 anos, depois de muita informação, sabemos o que queremos e mais: tudo fazemos para que os outros queiram a mesma coisa que nós. Descobrimos a grande verdade e temos pena do resto do mundo, que continua tragicamente iludido.
Aos 45 anos já não nos esforçamos tanto para nos informarmos e desistimos de converter os que não pensam como nós. Aceitamos que não há maneira de pensarmos todos a mesma coisa. Mas dói-nos que assim seja.
Aos 60 anos damos graças a Deus (ou ao suplente secular) por haver tantas maneiras de pensar (e acreditar) diferentes da nossa. O que mais nos comove é a generosidade da dúvida ou a multiplicidade de certezas duvidosas: o que vem dar ao mesmo.
Aos 75 anos, se calhar, percebe-se que a diversidade é apenas um regime de escolhas em que só uma resposta é certa. É verdade, afinal, que quanto mais envelhecemos, mais nos fechamos aos outros, ao exterior e até a nós mesmos.
Aos 90 anos (que correspondem a seis ciclos de 15 anos) tudo isto parecerá uma brincadeira de quem cometeu o erro de falar decisivamente quando estava a dois terços do filme. Ou do fim. Seja.