terça-feira, 27 de setembro de 2016

O plano B é meter na gaveta o plano A!

O Insurgente SETEMBRO 26, 2016 RICARDO ARROJA

“A execução orçamental até Agosto de 2016 das Administrações Públicas (AP) registou um défice de 3.989,5 milhões de euros , inferior em 80,8 milhões de euros ao registado em igual período de 2015.”, na execução orçamental hoje (26/09) publicada pela DGO.

Como tenho vindo a apontar, a razão da descida do défice público, registada até agora, está (cada vez mais) na compressão da despesa de capital das administrações públicas (onde se inclui o investimento público), que até Agosto contraiu -8,7%, contrariamente à previsão de crescimento de +18,1% estabelecida no Orçamento do Estado para 2016. Esta compressão do investimento (observado em todos os domínios da administração pública, é de notar), a par de alguma contenção dos consumos intermédios (uma contenção que, no entanto, tem vindo a atenuar-se) e dos subsídios na despesa corrente, têm permitido até ao momento a redução do défice público. Mas o caminho está a estreitar-se. Por um lado, a despesa com pessoal e com juros mantém-se acima do esperado. E, por outro, a receita do Estado está muito, mas muito mesmo, abaixo da estimativa implícita ao OE2016. Assim, neste momento os dados conhecidos até ao final de Agosto indicariam (tudo o resto constante) um défice em contabilidade pública de aproximadamente 6.000 milhões de euros no final do ano, ou em contabilidade nacional (o que vale para Bruxelas) um défice de 4.700 milhões (2,7% do PIB).
Ora, como escrevi antes, a receita efectiva do (sub-sector) Estado não está a crescer nem de perto os 5,5% que o OE2016 antecipava. Na realidade, à data de Agosto, a receita efectiva está…a decrescer 0,1%! Ainda que a cobrança de IRS possa estar penalizada por notas de cobrança que derraparam nos prazos e que apenas se traduzirão em acréscimo de receita em Setembro, a verdade é que o IVA não descola (+0,3% vs previsão de +3,2%) e até mesmo o ISP está abaixo do esperado (+43,6% vs +62,2%) não obstante o aumento extraordinário de que este imposto foi alvo este ano (o que também não é surpresa tendo em conta que o consumo de gasolina continua a diminuir). Os dados parecem confirmar que até mesmo a mais conservadora estimativa oficial de crescimento económico para Portugal (a do FMI, que é de 1,0% em 2016) pode ter de ser revista em baixa. Eu continuo a trabalhar com um cenário de 0,8% a 1,0%, mas não há como fugir-lhe: a evolução das receitas do Estado está a surpreender pela negativa, e não é por falta de apetite das Finanças!
Agora, sabe-se que há no OE2016 despesa corrente no valor de 0,2% do PIB que pode ser cativada. A pergunta que eu faço é se as Finanças não o estão já a fazer? Se de facto já o estão a fazer, e portanto sem cativações adicionais para fazer sobre a despesa corrente, não se chegará à meta de 2,5% do PIB estipulada pela Comissão Europeia (nem muito menos aos 2,2% previstos no OE2016). E assim, com as pressões que se vão sentindo do lado da receita, restará apenas a compressão adicional do investimento público para dar a pancada final rumo às exigências da CE em 2016. Porém, e porque estas habilidades têm sempre vida curta, o seu adiamento não fará com que deixe de contar para as regras às quais Portugal aderiu no contexto da zona euro, em particular quanto ao défice estrutural em 2017 (como, aliás, o Conselho de Finanças Públicas e a própria CE vão alertando). De resto, não deixa de ser sintomático que, de acordo com o Expresso do último fim de semana, o défice nominal que o Governo pretende propor para 2017 seja de 1,8% a 2,2% do PIB, quando ainda há poucos meses se comprometeu (no Programa de Estabilidade 2016-2020) com 1,4%. A diferença (de 0,4% a 0,8% do PIB) provavelmente reside na despesa de capital que este ano poderá acabar por ser adiada. E daqui se poderá extrapolar qual teria sido o verdadeiro défice (nominal) em 2016.

Beato súbito

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 24/9/2016

A Igreja católica rejubila com a ‘beatificação’ do padre Jacques Hamel, mas a espontaneidade do extraordinário gesto pontifício não deverá servir de precedente a futuras beatificações ou canonizações.
No passado dia 14 de Setembro, festa da exaltação da Santa Cruz, o Papa Francisco celebrou, na capela da casa de Santa Marta, onde reside, uma Missa especial, porque evocativa do padre Jacques Hamel. Este sacerdote francês, já octogenário, foi barbaramente assassinado por terroristas islâmicos, no passado dia 26 de Julho, enquanto celebrava a Eucaristia em Saint-Etienne-du-Rouvray.
Na Missa papal, para além de alguns familiares do novo mártir, estava também presente uma representação da diocese de Rouen. Um pormenor significativo: a fotografia do padre Jacques foi colocada sobre o altar, junto às velas. Singularidade litúrgica certamente expressiva de que aquela celebração não era em sufrágio do presbítero degolado, mas em sua honra, pressuposta portanto a sua santidade. Por isso mesmo se diz que, os fiéis beatificados ou canonizados, foram ‘elevados aos altares’.
Na sua homilia, o Papa Francisco esclareceu que esse era o seu entendimento sobre o padre Hamel, que expressamente incluiu na “corrente de mártires” da Igreja católica, que remonta aos tempos apostólicos: “Os primeiros cristãos professaram Jesus Cristo pagando com a vida. (…). Esta história repete-se até hoje; e hoje na Igreja há mais mártires cristãos do que nos primórdios. Hoje há cristãos assassinados, torturados, presos, degolados porque não renegam Jesus Cristo. Nesta história chegamos ao nosso padre Jacques: ele faz parte desta corrente de mártires. Os cristãos que hoje sofrem — na prisão, com a morte ou com as torturas — por não negarem Jesus Cristo, mostram precisamente a crueldade desta perseguição”.
Ao afirmar, expressamente, que o padre Jacques Hamel “faz parte desta corrente de mártires”, o Papa Francisco proclamou a santidade deste sacerdote. É certo que o não fez de acordo com os procedimentos canónicos, que geralmente precedem e acompanham as beatificações e canonizações e que, neste caso, não foram observados, dada a evidência do martírio. Nestes processos, o mais importante é sempre a decisão pontifícia e como, em relação ao padre Jacques Hamel, o papa já se pronunciou publicamente, embora de forma informal, deve-se dar por assente o seu martírio. Pode-se pois afirmar que, na prática, beatificou o referido sacerdote francês porque, na conclusão da sua referida homilia, o Papa Francisco disse explicitamente que o padre Hamel “é um mártir, e os mártires são beatos”. Não disse – note-se – que poderá ser beatificado, mas que já é beato, porque foi mártir.
Uma questão que agora se põe, sobretudo aos canonistas e teólogos, é a de saber qual o alcance desta declaração pontifícia. É sabido que o Papa Francisco não é muito amigo dos formalismos curiais, privilegiando um exercício mais espontâneo e pessoal da sua autoridade papal. Deste jeito, chamou a si, de certo modo, as atribuições próprias da Congregação para as Causas dos Santos, à qual competia esclarecer se, efectivamente, o referido presbítero foi mártir, em cujo caso, sem necessidade da prova de um milagre atribuído à sua intercessão, procederia a sua beatificação. Tendo o Papa Francisco tomado uma posição pública sobre esta questão, já não faz sentido que a referida congregação se pronuncie sobre este particular. Este dicastério, não podendo em caso algum contradizer o Santo Padre, de quem recebeu as competências que exerce sobre esta matéria, só poderia agora emitir um veredicto consentâneo com a declaração pontifícia mas, sendo redundante, seria obviamente irrelevante.
Logo após a morte de São João Paulo II, muitos fiéis pediram a sua imediata canonização dizendo, em italiano, ‘Santo súbito!’, ou seja, ‘Santo já!’. Bento XVI entendeu contudo não aceder a essa exigência popular, porque a Igreja prefere não agir, em questões desta natureza, sob o impulso das emoções momentâneas, nem por pressão das multidões. Por esta razão, o direito canónico prescreve um intervalo mínimo de cinco anos, desde a morte do candidato aos altares e a abertura do correspondente processo de beatificação e canonização. Bento XVI dispensou, em relação ao seu antecessor, este prazo – como aconteceu também para a Santa Teresa de Calcutá e para a Irmã Lúcia, a vidente de Fátima ainda não beatificada – mas não as restantes formalidades, tais como o processo sobre a heroicidade das suas virtudes e a constatação científica de, pelo menos, um milagre póstumo, atribuído à sua intercessão. Ao fazê-lo, embora tenha atrasado a solene proclamação da santidade de Karol Wojtyla, certamente que a reforçou e beneficiou: se a mesma tivesse acontecido logo após a sua morte, como a multidão dos fiéis pediu, talvez alguém, mais tarde, duvidasse da sua pertinência.
A Igreja universal rejubila com a ‘beatificação’ do padre Jacques Hamel, mas a espontaneidade do extraordinário gesto pontifício, explicada pela excepcionalidade do caso, pode ser um precedente perigoso para outras expeditas beatificações ou canonizações. Não se trata apenas de defender uma antiga praxe, ou o formalismo da cúria romana, mas de garantir que uma tão transcendente decisão, que compromete a autoridade suprema da Igreja e a credibilidade dos seus beatos e santos, não seja tomada precipitadamente, por momentâneas razões emocionais ou devido a passageiras pressões multitudinárias.
À Esposa de Cristo, a Igreja católica, mais do que à mulher de César, não lhe basta ser honesta, precisa também de parecê-lo aos olhos inquisitoriais da opinião pública, nomeadamente no que se refere aos bem-aventurados fiéis que, em cumprimento do mandato bíblico (cf. Mt 5, 16), eleva aos altares.

Quem não deve não teme? Snowden discorda

Graça Canto Moniz
ionline 20160927

“Snowden”, de Oliver Stone, não é sobre um banal whistleblower. É um filme sobre um patriota, um admirador de Ayn Rand, um homem dedicado ao seu país que, com o passar do tempo, se apercebe da profundidade dessa sua ilusão. A fórmula usada neste filme não é inovadora, já a encontrámos de forma vincada no clássico sobre o Vietname “Born on the Fourth of July” (1989).

“Snowden” tem informação, dados. Computadores e vigilância. É esse o tema principal do filme (e o maior contributo de Snowden): a forma como as agências securitárias norte americanas, abençoadas por Obama, estão autorizadas, de forma discricionária e não sujeita ao controlo democrático, a monitorizar e violar a privacidade de quem entendam, sem terem sequer de justificar os critérios adotados na sua ação vigilante.
Aos que pelos dias de hoje defendem a filosofia simplista do “quem não deve não teme”, recomendo que vejam o filme com atenção, em particular o diálogo em que Snowden (interpretado de forma magistral por Joseph Gordon-Levitt) alerta a sua companheira para os perigos de não tapar a câmara do seu computador portátil. O filme e esta cena em especial recordam-nos que a privacidade não serve primariamente para proteger um “segredo” ou lançar um manto de fumo sobre aquilo que ilegitimamente queiramos esconder. Os seus defensores mais acérrimos. que como eu, fazem dela objeto de estudo, têm consciência de que a privacidade é um valor estruturante da pessoa humana, é um valor em si. Tem, assim, um sentido ontológico, caracterizando-se pela sua incomunicabilidade: a estrutura da pessoa é una e total, fechada, absoluta, impartilhável.
Quando se defende a privacidade, o que se visa proteger é o direito que cada um tem de construir o seu próprio ser, em diálogo consigo mesmo, assente na faculdade – mas não na obrigatoriedade – de partilhar com o mundo quem é, como é e como quer ser, para que o mundo compreenda, exclusivamente através e a partir de si, quem se quer ser ou quem já se é. Prima facie, esta é uma escolha exclusiva que compete a cada um definir: o que partilha, o que diz, o que mostra, como se dá a conhecer aos outros, sem que daí se deva concluir pela ilegitimidade da ação ou omissão. Podemos admitir não ser este um valor absoluto, como não são em sociedade todos os restantes valores estruturantes da pessoa humana, como a liberdade ou a propriedade.
As suas limitações, porém, devem ser excecionais e bem justificadas, em função e à luz dos princípios da proporcionalidade e da necessidade. A privacidade traduz-se também no direito que temos de controlar a nossa imagem, a forma como a projetamos no mundo, e a nossa identidade. É esse controlo que nos permite escolher as relações que temos com os outros, de amor, de amizade, de partilha de sonhos, dúvidas, inseguranças, pensamentos e ideias. É isso que nos permite ter controlo sobre a construção da nossa personalidade. Como diz o próprio Snowden, a privacidade é o “right to the self”. E foi a este amparo fundamental e natural do homem, enquanto ser social, que Snowden, com muitas e difíceis escolhas pessoais, dedicou a sua vida. Bem haja.

A armadilha

Helena Matos
Observador 26/9/2016

Como é possível que, vivendo nós aprisionados nas sucessivas ondas de indignação-condenação promovidas pelos radicais, não vejamos os moderados a ser capazes de trazer os seus assuntos para o debate?
30 de Outubro de 1793. A guilhotina espera-os. Tudo aquilo que nos últimos anos os aproximou e separou está-lhes consumado nos rostos. É como se ainda acreditassem que a sua verve os tornará imortais. Que no fim se lhes fará justiça. Que talvez o povo compreenda… Não sabem ainda que o silêncio e a indiferença serão a sua companhia no percurso que dentro em poucas horas os levará da prisão até ao cadafalso.
“O último jantar dos Girondinos” – é esta a designação por que se conhece este quadro – retrata com alguma liberdade a última refeição de um grupo de deputados que, também com alguma liberdade, podemos definir como moderados, durante a Revolução Francesa. A Revolução Francesa é o tempo a que temos de voltar sempre (ou pelo menos eu volto) quando se procura entender a causa não apenas da insanidade que em dados momentos parece apoderar-se das sociedades mas sobretudo confrontar a incapacidade dos moderados, frequentemente superiores em votos e apoios, para travarem, antes do desastre, a vertigem destruidora que os radicais impõem aos demais.
Este quadro encerra o drama da França em 1793 e o drama das sociedades que, como a portuguesa, têm a sua matriz na Revolução Francesa: como é que os radicais, invariavelmente minoritários, acabam a exercer o poder e a impor as suas agendas? Como é que não há uma iniciativa, uma proposta, uma mudança que não acabem integradas nas agendas dessa gente que tem como fim não melhorar o sistema mas sim destruí-lo? Como é que os moderados se deixam cair na armadilha dos radicais, acabando invariavelmente a fazerem belos discursos entre si, enquanto lá fora as vítimas da demagogia se amontoam? E sobretudo como é possível que, vivendo nós aprisionados nas sucessivas ondas de indignação-condenação promovidas pelos radicais, não vejamos os moderados a ser capazes de trazer os seus assuntos para o debate? Esse torpor com que as sociedades assistem à destruição dos valores da moderação quando em simultâneo vivem momentos de exaltada indignação perante qualquer facto ou tema que venha do lado radical é um dos principais factores de desagregação do que de mais civilizado existe no mundo pós Revolução francesa. O nosso mundo.
Por exemplo, como entender tendo em conta o alarido que acompanha tudo o que se prende com a segurança na saúde que, além deste artigo de Luis Carvalho Rodrigues, tenha passado quase em silêncio o pedido de demissão do presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST)? Como recordou aqui mesmo no Observador Luis Carvalho Rodrigues, o presidente do IPST, professor Hélder Trindade, “foi mandado comparecer no parlamento para explicar às luminárias do BE as razões de um abuso inaudito: apesar da proibição de incluir nos questionários feitos aos dadores de sangue perguntas sobre o seu comportamento sexual, tais perguntas continuavam a ser feitas. O professor Hélder Trindade bem tentou explicar que há uma diferença entre “orientação” sexual e “comportamento” sexual, e que o “contacto sexual de homens com outros homens” (e não a orientação hetero ou homossexual) comporta um risco especialmente elevado para doenças como a SIDA: não se livrou da acusação de preconceituoso e homofóbico. Que as suas posições fossem suportadas por todos os estudos epidemiológicos dos últimos trinta anos foi absolutamente irrelevante para os seus inquisidores.”
Nascerá este silêncio do medo de ser considerado “preconceituoso e homofóbico”? Talvez, mas não só. Perante o tropel de absurdos, ridículos e grosserias, instala-se um misto de fatalismo e cansaço. Para que serve contestar agora aquilo que mais cedo ou mais tarde os radicais irão acabar por fazer passar? Há seis anos que o BE apontara o Instituto Português do Sangue como um dos seus objectivos. E logo todos percebemos que mais cedo ou mais tarde levariam a melhor no seu propósito de impor que se subestimassem os conhecimentos sobre a existência de grupos de risco nas dádivas de sangue.
É certo que, quando em 2010, o BE fez a sua primeira proposta para que se acabasse com a “discriminação” inerente a considerar a promiscuidade sexual dos potenciais dadores de sangue como factor de risco, o então presidente do Instituto Português do Sangue, Gabriel Olim, declarou aos jornalistas alto e bom som: “A proposta do BE choca com tudo o que é realidade internacional. Quero saber no que é que se basearam para elaborar essas recomendações.” Seis anos depois, o presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação acabou a pedir a demissão e já ninguém perguntou porquê. Nem há tempo porque amanhã outro nome estará na berlinda para – caso não faça o que lhe é devido – se tornar no bombo da festa dessa encenação jacobina da luta dos bons iluminados conta os maus das trevas da reacção.
Uma encenação cujo guião é o do vale tudo e o seu contrário. Lembram-se da igualdade entre o sexos? Pois as activas feministas que outrora combatiam pelos direitos das mulheres agora nem querem ouvir falar de mulheres nem de homens e arengam sobre o género. Ao certo não se sabe quantos são os géneros, ou se todos os géneros convergirão num único género nem como se atinge a igualdade de género mas ai de quem mostrar dúvidas. Isto naturalmente portas adentro culturalmente falando porque se se estiver a falar dos muçulmanos, que como se sabe estão livres do pecado original do patriarcado cristão, a libertação passa por tolerar que nas cidades europeias as mulheres andem de rosto completamente tapado e sejam atendidas por equipas médicas exclusivamente femininas. Confuso? Pois mas o melhor é não dizer nada porque logo vêm as acusações de intolerância e preconceito.
E de racismo podemos falar? Sim mas apenas para referir a discriminação que os brancos exercem sobre os negros. O contrário não existe. Muito menos se pode abordar o racismo entre os negros – são “diferenças ancestrais”. Ou por exemplo, o papel que, no continente africano, os muçulmanos tiveram na escravatura: para boa parte dos alunos das nossas escolas a escravatura é uma invenção e um exclusivo dos brancos para com os negros. No ponto a que chegámos já não lhe chegam o presente e o futuro. O próprio passado tem de ser revisto, como se em qualquer tempo ou lugar do mundo os bons fossem projecções dos nossos activistas de hoje: os westerns agora incluem mulheres comboys e também negros e chineses em iguais desempenhos e qualquer rainha de um país católico no século XIII passa a feminista avant la lettre.
Na verdade não admira que os radicais explorem à exaustão todas as hipóteses de discussão generosamente colocadas ao seu dispor pelo sistema que pretendem destruir. O que perturba é a recorrente incapacidade dos moderados para denunciar a sua má-fé. A candura com que embarcam na discussão sobre os chavões de cada momento. Agora estamos na fase do “combate às desigualdades”, uma expressão que nada diz e tudo permite. Sejam os desígnios bolivarianos do primeiro-ministro que cada vez mais longe da matriz democrática do seu partido aposta na radicalização como forma de governação. Sejam as contas pantomineiras da deputada Mariana Mortágua sobre o novo imposto a recair sobre os mais ricos que por via desse tributo irão tornar possível, nas contas tipo cordão humano da deputada, aumentar em dez euros as pensões mais baixas. (Já agora para o próximo ano tributa-se quem, para aumentar de novo as pensões mais baixas que obviamente não deixam de ser as mais baixas? E no seguinte?… Como é óbvio dentro de meia dúzia de anos estaremos a tributar os pensionistas com pensões baixas para custear os aumentos das pensões baixíssimas.) Sejam ainda as acções de pressão do PCP para que o Estado se torne no garante do seu poder: sigam-se com particular atenção as iniciativas já anunciadas, por exemplo, pela CGTP no âmbito do “direito à negociação coletiva”, expressão que traduzida da língua de pau quer dizer reforço do poder dos sindicatos que em cada dia que passa contam com menos filiados e mais garantismos jurídicos.
A incapacidade dos moderados para mobilizar as sociedades para travarem os processos de radicalização leva não só à desagregação da vida comum como que se tenha de esperar pela evidência do desastre – quando não que os próprios radicais desatem a combater-se a si mesmos – como condição sine qua non para que se consiga não acabar com o radicalismo mas colocá-lo no campo que é o seu, o das margens.
Como se vê e sabe o jantar dos Girondinos é uma espécie de refeição interminável para a qual os moderados estão permanentemente convidados.
PS. Depois dos cartazes a promover a amamentação em público pretende a CML agora dinamizar a saída do armário dos homossexuais idosos. Sem querer distrair a CML dessa sua vocação de engenharia social, resta a dúvida: a que entidade cabe conceber passeios e ruas onde as mães, independentemente de amamentarem em público ou não, possam circular com um carrinho de bebé e os idosos, sejam eles hetero ou homossexuais, consigam andar com segurança?

À custa do nosso sangue

Luis Carvalho Rodrigues
24/9/2016, 22:12122

O mundo não se juntou para conspirar contra os homossexuais e os problemas de autoestima de grupos minoritários não podem ser resolvidos à custa da segurança colectiva em temas como a doação de sangue

Há coisa de um ano, o presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) foi mandado comparecer no parlamento para explicar às luminárias do BE as razões de um abuso inaudito: apesar da proibição de incluir nos questionários feitos aos dadores de sangue perguntas sobre o seu comportamento sexual, tais perguntas continuavam a ser feitas. O professor Hélder Trindade bem tentou explicar que há uma diferença entre “orientação” sexual e “comportamento” sexual, e que o “contacto sexual de homens com outros homens” (e não a orientação hetero ou homossexual) comporta um risco especialmente elevado para doenças como a SIDA: não se livrou da acusação de preconceituoso e homofóbico. Que as suas posições fossem suportadas por todos os estudos epidemiológicos dos últimos trinta anos foi absolutamente irrelevante para os seus inquisidores. O que o presidente do IPST dizia não estava conforme com a cartilha aprovada pelos activistas do politicamente correcto, logo não era aceitável.
Já em 2009 a secretária de Estado da Igualdade (do governo PS), fervorosamente secundada pela ILGA, “desafiava” o presidente do então Instituto Português do Sangue (IPS) a retirar dos questionários feitos aos dadores perguntas “discriminatórias” e do “foro privado”, a saber: se o dador “nos últimos seis meses teve novo(a) parceiro(a) sexual” e se “alguma vez teve contactos sexuais a troco de dinheiro ou drogas”. Para a secretária de Estado da Igualdade e para a ILGA, o facto de o IPS, baseando-se no estado da arte sobre as vias de transmissão das doenças infecciosas, considerar como factores de risco a promiscuidade sexual, a prostituição e a toxicodependência, e pretender questionar os potenciais dadores sobre esses temas em entrevistas sujeitas a sigilo profissional, constituía uma intolerável “discriminação”, que devia ser, como todas as prepotências, “desafiada”.
Agora a Direcção-Geral da Saúde emitiu uma norma onde se aceita a dádiva de sangue de “homens que tenham feito sexo com outros homens”. Desde que – atenção – o candidato não tenha relações com outros homens há mais de um ano. Deixemos de lado a extraordinária ideia de que alguém possa estar disposto a ser celibatário durante um ano apenas para poder dar sangue. A questão que interessa é: para quê? Qual é a utilidade desta norma?
O problema não é que uma decisão política se sobreponha a considerações técnicas. O problema é a ausência de racionalidade da medida. Não se está a resolver nenhum problema real. Ninguém é prejudicado por não dar sangue. Não se perde o emprego, não se é perseguido na rua. As normas que os activistas da ILGA e o BE contestam não são sequer exclusivas dos homossexuais. Aplica-se o mesmo tipo de reserva a qualquer pessoa que tenha relações sexuais com doentes de SIDA, hepatite B ou C, ou com pessoas oriundas de regiões onde essas doenças são endémicas, ou com novos parceiros. O mundo não se juntou agora para conspirar contra os homossexuais.
Esperemos que o bom senso dos profissionais prevaleça mais uma vez. Os problemas de auto-estima de grupos minoritários não podem ser resolvidos à custa da segurança colectiva. O despacho do ministério da Saúde que, meses atrás, encomendava à DGS a norma agora publicada, já apontava que “em situações de dúvida deverá sempre aplicar-se o princípio cautelar de segurança máxima”. Que é como quem diz: podem, mas é melhor não.
Médico

Verdade e mentira

POVO 27.09.16 
"Para a mentira ser segura
E atingir profundidade
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade"
António Aleixo
poeta popular algarvio(1899-1949)

A declaração do sr. primeiro-ministro sobre o que ele entende por uma sociedade decente deu origem a mais uma polémica acerca do caminho que o nosso país está a trilhar. João Carlos Espada no seu artigo de ontem desmonta com muita categoria a falácia da enorme generosidade da frase "cada um contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades". Do outro lado e em tom de chacota, apesar de achar que os académicos como ele "devem contribuir para o contexto e a inteligibilidade do discurso na nossa sociedadeRui Tavares entre várias considerações de interesse público mais que duvidoso, atribui a mais antiga autoria daquela frase a Jesus Cristo na parábola dos Talentos.
Não está mal para um historiador moralista que acusa os outros de fracas fontes de informação: fica aqui a parábola dos talentos como aparece em Mateus 25, 14-30. O contexto é a explicação do Reino dos céus recorrendo a várias analogias. Nesta, há uma clara chamada à liberdade e responsabilidade pessoais: claramente o oposto da frase que Rui Tavares lhe atribuiu. Há qualquer coisa de verdade, contudo, como avisa o poeta Aleixo: a primeira metade da frase. De facto, o versículo 15 explica que os talentos foram dados a cada um "conforme a sua capacidade".

A cada um segundo a sua paranóia

RUI TAVARES Público 26/09/2016

Decididamente por aquelas bandas há gente apostada em replicar a receita que tão bons resultados tem dado ao mundo.
Estava eu posto em sossego quando o telemóvel me alertou: “Costa usa definição de comunismo para descrever a sua sociedade ideal”.
Alvoroçado, tentei identificar que página das “365 Receitas de Criancinhas para o seu Pequeno-Almoço” teria António Costa mencionado desta vez. Fui ver: José Manuel Fernandes, ex-diretor do Público e agora no Observador, revelava ao mundo que o primeiro-ministro de Portugal dissera num debate parlamentar que “uma sociedade decente é uma sociedade onde cada um contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades”. Senti-me espoliado dos três segundos que demorei a perceber que tinha caído numa armadilha para caçar cliques na internet.
Passado dois dias, decidi fazer qualquer coisa de útil com o tempo perdido e fui procurar de novo o artigo. Corri a página de opinião do Observador de cima a baixo e não achava o texto de José Manuel Fernandes. O que vi, porém, era preocupante: segundo uma boa maioria dos cronistas da casa, está em curso no nosso país uma guerra contra a classe média, tal como definida pelos seguintes critérios: 1) possui imobiliário no valor de mais de um milhão de euros, 2) detém conta bancária com mais de 50 mil euros depositados, e 3) é proprietária de um ou mais colégios privados. Destaco dois artigos de historiadores, por acreditar que os meus colegas devem contribuir para o contexto e a inteligibilidade do discurso na nossa sociedade. O artigo mais recente de Fátima Bonifácio tinha por título “Ódio de Classe” (facto curioso: num arco de quarenta anos os ex-esquerdistas podem sempre reciclar os mesmos títulos que usavam dantes mas agora na direção oposta). O artigo mais recente de Rui Ramos tinha por singelo título “O Assassinato das classes médias”. Sim. Assassinato. Talvez por aparecer no dicionário antes de “Genocídio”.
Decididamente por aquelas bandas há gente apostada em replicar a receita que tão bons resultados tem dado no mundo atual: de cada um segundo o seu preconceito, a cada um segundo a sua paranóia.
Nos EUA, metade da população está convencida de que Obama é um muçulmano nascido no Quénia. Por cá, o artigo de José Manuel Fernandes termina com esta amorosa referência: “recorde-se que António Costa é filho de Orlando Costa, escritor e militante do Partido Comunista, e de Maria Antónia Palla, jornalista que sempre foi próxima do PS”. Quando redescobri o texto verifiquei que afinal ele não estava na secção onde eu procurava, de opinião. Por incrível que pareça, estava nas notícias.
Tenho então uma notícia para dar a José Manuel Fernandes. A frase que citou de António Costa foi de facto também escrita por Marx. Mas antes disso foi usada pelo reformista Louis Blanc, pelo filósofo iluminista Étienne Morelly, pelo autor dos Atos dos Apóstolos na Bíblia e por Jesus Cristo na Parábola dos Talentos. Coisas que José Manuel Fernandes poderia ter descoberto na Wikipédia. Que, evidentemente, ele nunca usa: a Wikipédia só pode ser comunista. Afinal, é escrita por cada um segundo as suas possibilidades e lida por cada um segundo as suas necessidades.

Parábola dos talentos

Parábola dos talentos (Mt 25, 14-30)

14«Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. 15A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. 
16Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. 17Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. 18Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
19Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. 20Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: 'Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.' 21O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.'
22Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: 'Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.' 23O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.'
24Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: 'Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.' 26O senhor respondeu-lhe: 'Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. 27Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.' 28'Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. 29Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.'»

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Uma rosa-dos-ventos para a Escola Pública

JOSÉ EDUARDO LEMOS 
Público 23/09/2016

A Escola Pública ou tem um rumo bem definido e é capaz de prestar um serviço educativo cuja qualidade atraia os cidadãos, ou definhará como serviço público.

A recente discussão em torno dos contratos de associação com escolas privadas extravasou o campo da Educação e, rapidamente, se retomou a velha, mas sempre renovada, polémica política e ideológica sobre o papel do Estado na sociedade. A discussão radicalizou-se tanto que, qualquer opinião sobre a “Escola Pública”, correrá o risco de ser capturada por um dos extremos em conflito e utilizada a favor ou contra as respetivas teses. Tentarei escapar à atração destes “campos gravitacionais” opostos.
A educação escolar é um serviço público assegurado pelo Estado a todos os cidadãos em idade escolar. O Estado tem vindo a garantir este serviço sobretudo, ainda que não exclusivamente, através dos estabelecimentos públicos de ensino. É neste contexto que se utiliza, frequentemente, a expressão “Escola Pública”. Defender a Escola Pública tem sido entendido, pois, como defender as escolas do Estado e o serviço de educação por estas fornecido aos cidadãos.
Neste texto, também tentarei defender a “Escola Pública”, não tanto através de gastos slogans, mas sim através de algumas ideias simples, bem compreendidas pela população, sobretudo por quem tem filhos nas Escolas.

A primeira ideia é esta: a missão da Escola pública, hoje, não é tanto a de garantir que todos os jovens em idade escolar a frequentem, mas sim a de garantir, logo à partida, uma educação escolar de qualidade a todos os que a procuram ou a ela recorrem. Esta diferença é crucial: não se espera que todos os jovens frequentem estabelecimentos públicos de ensino, antes exige-se que o Estado garanta uma educação de qualidade a todos os que frequentam qualquer um deles.
Daqui decorre, por um lado, que uma Escola pública que não garanta uma educação de qualidade não colherá o respeito nem a confiança da população que serve e, mais cedo que tarde, perderá alunos para outras Escolas, públicas e privadas. Por outro, ao centrarmos a missão da Escola Pública não na quantidade de jovens que serve, mas sim na qualidade da formação/educação que presta, torna-se óbvio que não é encerrando as Escolas privadas que se defende as públicas. Antes pelo contrário, os portugueses darão mais valor e defenderão com mais denodo a Escola Pública quando constatarem que a educação por esta oferecida aos jovens cidadãos é, no mínimo, de tão boa qualidade como a que é oferecida pela Escola Privada.

A segunda ideia é esta: a defesa da Escola Pública passa, incontornavelmente, pela valorização da educação escolar, a qual se constitui como o melhor veículo de ascensão social, o melhor complemento da educação familiar e o melhor e menos oneroso mecanismo de formação e integração de cidadãos plenos e ativos na sociedade.
Valorizar a educação escolar exige dos seus agentes e, especialmente, daqueles que a tutelam, uma Escola Pública de qualidade, na qual os profissionais são respeitados e os alunos são exigentemente avaliados. Uma Escola em que exigência, disciplina, rigor e trabalho são valores estimados pelas famílias, pela comunidade e pelo Estado. Uma Escola onde se ensina o valor da responsabilidade pessoal e se combate a impunidade, onde os alunos se sentem apoiados, em segurança e motivados para o estudo e para a obtenção de bons resultados escolares.

A terceira ideia é esta: defender a Escola Pública é reforçar o seu caráter institucional e a relação de proximidade às populações que serve; é defender e respeitar a sua independência face a quaisquer interesses que não a educação dos jovens; é respeitar os seus órgãos de administração e gestão, escolhidos pela comunidade educativa, reconhecendo-lhes competência e responsabilidade pela definição e execução do projeto educativo e pela gestão dos recursos próprios e/ou colocados à sua disposição.
Daqui decorre que defender a Escola Pública é defender e lutar para que a mesma se liberte do excessivo centralismo que atualmente a tolhe e dificulta a ação educativa. É defender que a Escola Pública deve ter muito mais autonomia do que aquela de que efetivamente dispõe.

A quarta e última ideia é esta: a Escola Pública não se defende com políticas erráticas nem com medidas avulsas, algumas delas promotoras do facilitismo e da mediocridade, outras promotoras de melhorias artificias do sucesso escolar e, tantas outras, que respondem a interesses que nada têm a ver com a melhor educação para os alunos.
Nem se defende com medidas que, favorecendo sem critério conhecido umas Escolas públicas em desfavor de outras, criam condições para uma concorrência desleal entre elas e, em última análise, geram desigualdades no tratamento dos cidadãos. Comparem-se as deploráveis instalações de algumas Escolas com as magníficas construções da Parque Escolar.
Nem se defende nenhuma Escola pública criando a ilusão de que a sua sobrevivência enquanto organização não depende da qualidade do serviço prestado, mas sim da garantia de frequência de um determinado número de alunos, mesmo contra a vontade e a preferência dos pais. Não creio que sejam eficazes medidas que, visando assegurar o funcionamento de qualquer Escola pública, a coloquem sob uma redoma protetora da oferta (e da concorrência) de outras escolas, públicas ou não-públicas.
A Escola Pública ou tem um rumo bem definido e é capaz de prestar um serviço educativo cuja qualidade atraia os cidadãos, ou definhará como serviço público deixando de cumprir o generoso objetivo que justifica a sua existência.
Presidente do Conselho das Escolas

"É inacreditável que hoje se passeiam mais os cães do que as crianças"

DN20160926
Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa  
Há mais de 40 anos que o investigador Carlos Neto trabalha com crianças e está preocupado com o sedentarismo. "Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos"
A falta de autonomia das crianças é culpa das famílias ou das escolas que também as ocupam demasiado tempo?
Eu diria que temos de encontrar um conjunto de fatores para explicar o fenómeno, porque não se pode pôr culpas a ninguém em particular. Veja-se a cidade de Lisboa e o inferno que é às seis da tarde e às oito da manhã e a maneira como as famílias têm de se encarregar de distribuir a vida dos filhos no tempo escolar e para além da escola. Por outro lado, não há uma política habitacional pensada do ponto de vista de criar uma mobilidade saudável no crescimento e no desenvolvimento dos jovens. Só dessa maneira é que se pode compreender o que é que está a acontecer com o baixo índice de mobilidade que temos em Portugal. Os estudos que fizemos em 16 países demonstram que ficámos em 14.º lugar. Muito abaixo dos países escandinavos, onde essa mobilidade é muito elevada, onde têm uma autonomia muito grande e vivem a natureza e o território da cidade de forma plena. Em Portugal, e nos países do Mediterrâneo, a situação é muito complexa, porque há perigos diversos e depois há medos que se instalaram na cabeça dos pais.
Mas esses perigos não existem também nos países nórdicos?
Eles têm uma filosofia de organização do tempo e do espaço completamente diferente. Significa que os nossos jovens e crianças têm muita dificuldade em ter essa autonomia desde muito cedo, porque encontram diversos constrangimentos. Desde o trânsito, o fenómeno da urbanização, a maneira como o tempo escolar e o tempo de trabalho dos pais está organizado. Por outro lado, ganhou-se um medo enorme de as crianças andarem autónomas na rua. A rua desapareceu, está em extinção como local de jogo, de brincadeira, de encontro de amigos. O problema da socialização é uma das questões mais importantes que se colocam hoje na nossa juventude e nas culturas de infância. Temos aqui um problema muito sério que só pode ser resolvido com medidas corajosas e arrojadas do ponto de vista político.
Isso significa facilitar os transportes, criar espaços verdes?
Espaços verdes, política habitacional mais adequada à política educativa e também à gestão do tempo de trabalho dos pais. Está tudo demasiadamente formatado e as crianças e jovens precisam que isso seja desconstruído para a vivência do corpo em situações mais espontâneas e mais naturais, do espaço construído e do espaço natural da cidade. Quando falamos em índice de mobilidade baixa, isso significa que temos de atuar em várias frentes para tornar mais sustentável uma vida feliz e com sucesso das crianças e jovens porque elas merecem. E acima de tudo uma perspetiva de não repressão do corpo em movimento porque o sedentarismo não é só físico, é também mental, social e emocional. A investigação científica tem demonstrado claramente que quem mais faz atividade física, mais brinca na infância, mais tem relação com os amigos, são crianças que normalmente têm mais sucesso no futuro, mais rendimento escolar e obviamente têm um índice de felicidade e de empatia muito maior.
Mas hoje as crianças quase só se relacionam com as outras em atividades organizadas.
Praticamente está tudo organizado quer do ponto de vista das atividades no meio escolar quer nas atividade extraescolares. Se isto ainda não bastasse têm depois uma cultura de ecrã muito agressiva. É muito natural ver crianças à volta de uma mesa de café e não se falam, estão todas a olhar para o iPhone. O corpo em movimento é fundamental para todo o desenvolvimento, não só emocional, também cognitivo, social e emocional. A escola tem de urgentemente mudar o modelo de funcionamento, quer na organização curricular quer na forma como as crianças são mais ou menos participativas. Temos de dar uma espécie de um trambolhão na sala de aula, no sentido de tornar as aulas mais ativas por parte das crianças.
Falta uma política de brincadeira?
Há alguns sinais interessantes do Ministério da Educação de tentar que a vida na escola não seja uma coisa tão formal e tão séria, isto é, de ter tempos mais disponíveis para expressão dramática, educação física, música, dança ou um conjunto de atividades que consigam que o corpo disponibilize maior capacidade expressiva, de empatia, de modo a tornar os cidadãos mais cultos, com maior capacidade de ética e de cidadania e portanto não estar apenas centrado nos rankings. Está provado cientificamente que crianças com maior nível de atividade física e relacional no recreio aprendem mais na sala de aula. Portanto, não podemos querer crianças sedentárias ou a ouvir um conhecimento que muitas vezes não lhes interessa. O ensino não pode ser isto no século XXI.
"Temos que dar uma espécie de trambolhão na sala de aula, para as aulas serem mais ativas"
A gestão do tempo da família também tem de mudar?
Temos de dar um ar fresco a este país, este país não pode estar com esta depressão enorme em que temos pais e professores esgotados, porque as crianças reparam em tudo. Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos, e há professores que já não têm capacidade de perceber a importância dessa atividade espontânea do que é correr atrás de uma bola, subir a uma árvore, fazer um jogo de grupo no recreio ou pura e simplesmente subir o muro e tentar descobrir o que está do lado de lá. Ou ter locais secretos. Como é que nós promovemos a saúde pública e mental numa perspetiva de maior cidadania, de maior empreendedorismo e de maior grau de felicidade? É isso que está em causa quando falamos em promover o corpo em movimento. Nunca foi tão importante o papel dos pais e da família na educação dos filhos no que diz respeito à implementação deste tipo de atividades. Sair com as crianças para a rua e brincar, desfrutar a natureza. Os pais têm de ter mais tempo disponível para fazer este tipo de atividades. É inacreditável que hoje se passeiem mais os cães do que as crianças. Inacreditavelmente faz-se hoje um esforço inadmissível de tornar os robôs mais humanos e ao mesmo tempo estamos a robotizar o comportamento humano.

Diz-me com quem andas

MIGUEL ALVIM 
Público 24/09/2016

Um programa paupérrimo e desonesto, que compromete o nosso futuro colectivo.

A frase-chave que sustenta a geringonça da esquerda a voar baixinho desde a noite das últimas eleições legislativas tem direitos de autor.
Disse na ocasião o líder dos comunistas: "Neste novo quadro político, o PS só não forma Governo porque não quer. Nada o impediria de se apresentar disponível (…)", salvaguardando ser necessário, por parte dos socialistas, uma "vontade de ruptura com a política de direita".
Há dias, na Festa do Avante, o partido comunista esclareceu aquela frase para a geral em dois pontos para quem tivesse dúvidas:
  1. O actual quadro político traduziu-se não na formação de um Governo de esquerda, mas sim na formação e entrada em funções de um Governo minoritário do PS, com o seu próprio programa.
  2. A nova relação de forças no parlamento permite ao PCP e ao PEV condicionar decisões e serem "determinantes e indispensáveis à reposição e conquista de direitos".
O Bloco de Esquerda (a outra peça do mecanismo) subscreve a todos os títulos e literalmente por baixo, na disputa política em curso do óscar pelo melhor actor do condicionamento das decisões.
Do tipo “um diz mata e o outro diz esfola”.
O plano de voo da geringonça metia dó de tão simples e pobrezinho (na visão que o PCP e o BE têm do povo de que “para quem é, bacalhau basta”)
Levava inscrito à cabeça a reposição de salários e pensões, o controlo público da banca e a reversão de vários processos de privatização de empresas estratégicas.
A qualquer preço, sem pensar no futuro colectivo de Portugal e dos Portugueses, porque sim.
Projectava o aumento do salário mínimo nacional para 600 euros (não interessa saber como suportar esse aumento).
Alargava-se depois a várias fantasias mais ou menos descabidas, como a renegociação da dívida externa e o abandono de Portugal da moeda única.
No fim a abjecção de borrifar sobre as massas iliteratas e acéfalas um poderoso opiáceo: todas as causas fracturantes em cima da mesa já!
O resto é nada de nada ou o mote de que a crise a paguem os ricos ou que a pague a Igreja ou pura e simplesmente que a paguem os outros.
Nada sobre o bom funcionamento da economia.
Nada sobre investimento estrangeiro.
Nada sobre a diminuição da obscena carga fiscal que sobrecarrega as classes médias e pesa sobretudo sobre o sector privado.
Bem pelo contrário, com a ameaça da sobrecarga fiscal no imobiliário.
Nada sobre a liberdade de educação.
Nada sobre mérito e responsabilidade.
Nada sobre boas regras e sãos deveres.
Nada sobre reforma do sistema político.
Nada sobre a reforma do caríssimo e despesista mapa autárquico.
Só direitos.
Um programa paupérrimo e desonesto.
Ao serviço de uma agenda tipicamente corporativa de quem vive do domínio e da usura do Estado e do sector público.
Que compromete o nosso futuro colectivo.
E, já agora, que no caminho matou o compromisso e a moderação.
Compromisso e moderação a que o PS nos habituou.
Uma agremiação que agora e para futuro só pode resvalar politicamente para a mais funda irrelevância.
E Costa?
Costa realmente não é moderado, nem socialista.
Trabalhou com Sócrates.

As ideias de Trump

Jaime Nogueira Pinto
DN 20160926

Ao contrário dos conservadores do establishment que não se atrevem a pegar nas questões nacionais e a falar aos deplorables, Trump conseguiu chegar aos homens comuns, em guerra com as elites, que os abandonaram
Segunda-feira, 26 de Setembro, pelas 09.00 da noite (duas da manhã de dia 27, hora de Lisboa), vai dar-se o já chamado "debate do século": Hillary Clinton versus Donald Trump. O duelo de 90 minutos vai ser moderado por Lester Holt, do NBC Nightly News.
Continuidade e ruptura
O centro da campanha eleitoral é a política interna mas a política externa conta sempre e Hillary procurará levar a conversa para aí - e daí para a alegada ignorância e inexperiência de Trump e para o facto de alguns dos mandarins do establishment republicano e conservador da Defesa, dos Negócios Estrangeiros e da Intelligence o criticarem ao ponto de admitirem cruzar a linha da lealdade partidária. É o que farão o general Brent Scowcroft, ex-NSC de George H. Bush, e Richard Armitage. Também Chester Crocker e Eliot Cohen, sem que tivessem apoiado Clinton, exprimiram já reservas quanto à capacidade geopolítica de Trump.
A política exterior de Hillary será uma política de continuidade, na linha do internacionalismo liberal: business as usual em relação aos seus predecessores - Obama mas também George W. Bush, que, com toda a família, tem combatido Trump. E os Bush contam na Florida, onde Hillary e Trump estão empatados.
Mas terá Trump uma política externa além das invectivas anti-islâmicas e antilatinas? Será Trump apenas um retórico básico, que ameaça tudo e todos com muros e fronteiras, que combate o livre comércio e proíbe os muçulmanos de entrarem nos Estados Unidos?
Joshua Mitchell, politólogo de Georgetown, publicou no Politico Magazine um texto intitulado "Donald Trump does have ideas - and we"d better pay attention to them".
O regresso da fronteira
Começando por citar Tocqueville - "na América as ideias são uma espécie de poeira mental" -, Mitchell enumera os programas políticos reduzidos a slogans das sucessivas Administrações: New Deal (Roosevelt), Containment (Truman), New Frontier (Kennedy) War on Poverty (Johnson), Silent Majority (Nixon), Star Wars (Reagan). Para Mitchell, Trump tem de facto ideias, só que são ideias fora ou contra o sistema: contra a globalização, as "identidades", a political correctness e o consenso bipartidário em política externa. Mitchell resume assim o ideário de Trump:
  1. As fronteiras e a política de imigração têm importância.
  2. Os interesses nacionais devem passar à frente dos chamados interesses globais.
  3. O empreendedorismo e a descentralização são essenciais.
  4. O discurso politicamente correcto é hipócrita e irrealista e deve ser repudiado.
Depois da vitória na Convenção republicana, Trump teve um péssimo mês de Agosto, causado pelos seus desmandos retóricos contra grupos étnicos, americanos e estrangeiros e pelo seu pronto aproveitamento pelos media.
Hillary ultrapassou-o, assumindo uma liderança confortável, entre oito e dez pontos, mas a partir da mudança da equipa de conselheiros e estrategas, do encontro com o presidente Peña Nieto do México e de uma maior cautela na comunicação, Trump recuperou: não só no confronto nacional, onde está colado a Hillary, como, e mais importante, em swing states, como a Florida, o Ohio e a Carolina do Norte.
Porque é que Trump, apesar de Trump ou pour cause, conta, e porque é que o seu discurso é eficaz? Primeiro porque as fronteiras contam para a identidade política, para a soberania e para a segurança e depois porque a desregulação teve efeitos trágicos na economia e na sociedade americanas, desertificando cidades e regiões industriais. Trump e Saunders pegaram no tema e até Clinton passou a anunciar medidas punitivas para os deslocalizadores e a deixar passar um certo cepticismo quanto aos tratados projectados de comércio livre.
Da imigração
Os Estados Unidos - e o resto das Américas - foram feitos por imigrantes, pelas dezenas de milhões de emigrantes europeus que ali aportaram, entre o fim das guerras napoleónicas e a Grande Guerra de 1914-18. Michael Cimino, o realizador de The Deer Hunter e de Heaven"s Gate, defendia essa teoria - os americanos eram os imigrantes, melhor, os filhos dos imigrantes. Só que uma coisa foi a chegada às terras grandes e vazias do continente de famílias de europeus cristãos, trabalhadores, cheios de esperança e de vontade de vencer; outra, é a imigração de hoje, tantas vezes controlada por máfias criminosas de passadores e explorada por empresários sem escrúpulos que alimentam o sistema dos ilegais que lhes baixam os custos do trabalho.
O controlo da imigração não é xenofobia é um direito do Estado e os imigrantes já não são aquilo que talvez nunca tivessem sido mas que, ainda assim, ainda era passível de idealização: a bela fraternidade eslava do Deer Hunter, a caçar veados nas frias manhãs da Pensilvânia, em vésperas de partir para o Vietname.
Trump argumenta que a elite bipartidária internacionalista - políticos, banqueiros, jornalistas - redireccionou interesseiramente as lealdades políticas para uma suposta humanidade ou uma vaga consciência universal em vez do que para ele devia estar no vértice da lealdade política: a nação próxima e concreta, a humanidade possível.
Heresia económica
Puxando pelos seus galões (para alguns discutíveis) de empresário de sucesso, Trump sustenta que uma baixa radical dos impostos trará de volta à América capital emigrado para as periferias baratas ou aparcado em paraísos fiscais. Grande parte da sua agenda económico-social contradiz a ortodoxia do GOP, que preza a liberdade de comércio e as virtudes da globalização. Ao defender uma economia regulada, que proteja as indústrias e os empregos americanos na América, Trump sabe que está a incorrer em pecado mortal; sabe também que reincide nas ofensas graves ao mercado livre quando propõe a subida dos salários, a segurança social e a assistência médica, embora com privatização parcial.
Tudo isto lhe valeu a desconfiança de grandes doadores republicanos, como os irmãos Koch. No fim de Agosto, Hillary tinha reunido 542 milhões de dólares e Trump 402 milhões.
Mas além da questão nacional, o ponto em que Trump mais se distingue de Hillary é na guerra à correcção política. Nesse sentido, Trump é muitas vezes o inimigo número um de Trump. Não se pode - sobretudo quando se tem a inimizade de 80% dos media norte-americanos e de 90% dos internacionais - desqualificar um juiz americano porque é de origem mexicana; ou falar em proibir de entrar no país um quarto da humanidade (em que se incluem alguns dos grandes investidores e aliados dos EUA) só porque é muçulmana.
Embora a correctíssima Hillary não se tenha inibido de insultar outros muitos milhões de patrícios seus num círculo de progressistas chiques de Nova Iorque, chamando "deplorables" e racistas aos partidários de Trump, há que considerar o desconto de que beneficia entre os comunicadores, sempre benevolentes para com estes e outros "pecadilhos" da candidata democrata, como as histórias confusas dos e-mails do State Department e da Fundação Clinton.
De um modo rude, às vezes brutal, às vezes errático, Trump pegou na outra realidade política. Os Estados Unidos e a Europa são orientados intelectualmente por um pensamento único, que soube e sabe apresentar os seus preconceitos ideológicos como princípios nobres e verdades universais. A Realpolitik que voltou a regular o mundo é tabu no Ocidente. Daí a revolta das classes médias e trabalhadoras.
O candidato Trump tem ares e modos de spoiled child, de filho de pai rico, arrogante, extravagante e solipsista. Hillary é de outro género - uma mulher fria, determinada e ambiciosa, uma Lady Macbeth que joga todas as cartas, até a feminista. Qualquer um dos dois tem mais inimigos do que amigos entre os eleitores.
No entanto, ao contrário dos conservadores do establishment que não se atrevem a pegar nas questões nacionais e a falar aos deplorables, Donald Trump conseguiu chegar aos homens comuns, em guerra com as elites, que os abandonaram. Até talvez por ser um filho pródigo dessas mesmas elites, um outcast aventureiro, um extraterrestre a quem tudo é censurado mas logo depois também desculpado. A 9 de Novembro saberemos o fim desta história.