terça-feira, 4 de agosto de 2015

Lembrar o dia 6 de Agosto de 2014 - comunicado AIS


Fundação AIS convida portugueses a rezarem pelos cristãos perseguidos dia 6 de Agosto


Fundação AIS - Lisboa - 04 de Agosto de 2015

Há imensas datas, imensos rostos desta tragédia, mas a fuga de milhares de cristãos da planície de Nínive, no dia 6 de Agosto de 2014 ficará para sempre escrito na História como um dos símbolos maiores da perseguição aos cristãos nos tempos recentes.
Dia 6 de Agosto. Perante a chegada iminente dos homens de negro do auto-proclamado "Estado Islâmico" e a deserção das forças iraquianas e curdas dos "peshmergas", que asseguravam a defesa da região, milhares de pessoas não tiveram outra alternativa senão a fuga.
A cidade de Mossul esvaziou-se num instante num caos indiscritível que prenunciava já os tempos de sofrimento que todas aquelas famílias passaram a viver. Milhares de homens, mulheres e crianças fugiram com o que tinham vestido. Não houve tempo para mais.
Para trás ficou o que tinham. As casas, as roupas, os haveres, as economias de uma vida. Para trás ficou uma parte da vida. Para sempre. Desde o dia 6 de Agosto do ano passado, milhares de pessoas tornaram-se refugiados, passaram a depender da ajuda da comunidade internacional para sobreviverem.
Tinham casa, carro, empregos, sonhos. De um dia para o outro, milhares de cristãos em fuga passaram a abrigar-se em igrejas, em tendas, em contentores. O passado, para eles, está perdido, o presente é uma angústia e o futuro uma enorme incógnita.
Todos os meses, a Fundação AIS convida os portugueses a rezarem por estes cristãos que são, hoje em dia, um dos símbolos maiores da Igreja perseguida no mundo.
No próximo dia 6 de Agosto - numa iniciativa internacional que reúne todos os secretariados da Ajuda à Igreja que Sofre -, a Fundação AIS convida os portugueses a participarem numa jornada especial de oração por estes cristãos.
Em Lisboa, pelas 18h30, rezar-se-á o Terço, a que se seguirá a Santa Missa, pelas intenções dos Cristãos Perseguidos no Médio Oriente, em especial no Iraque. Esta jornada de oração ocorrerá no Mosteiro dos Jerónimos, mas todos são convidados a participar neste momento de oração, individualmente ou em comunidade, nas suas paróquias ou em família.
Todos temos o dever de mostrar a estes milhares e cristãos perseguidos que eles não estão sós, que não foram abandonados, que rezamos por eles. O Papa Francisco tem-nos interpelado constantemente sobre isto. "Dirijo-vos uma pergunta; não deveis responder em voz alta, mas só no coração: quantos de vós rezam pelos cristãos que são perseguidos? Quantos? Cada um responda no seu coração."
Além da oração, a Fundação AIS tem procurado, através da solidariedade dos seus benfeitores e amigos, ajudar estas comunidades cristãs que foram forçadas a fugir dos jihadistas do "Estado Islâmico".
Só durante o corrente ano, nos primeiros seis meses de 2015, a Fundação AIS já auxiliou estas comunidades com praticamente 2,800 milhões de euros, para a aquisição de bens de primeira necessidade, compra de comida e medicamentos e o aluguer de casas, estando previsto, para o curto prazo, o apoio a mais oito projectos, no valor de aproximadamente 1 milhão de euros.
Nas redes sociais vamos usar as hashtags #PrayForIraq #WeAreChristians #6thAugust

NOTA: Em todo o mundo existem milhões de pessoas que sofrem perseguição religiosa. Ajudar quem passa por estas situações e informar a opinião pública sobre as mesmas tem sido o mote da acção da AIS, uma organização dependente da Santa Sé cujo objectivo é apoiar projectos pastorais nos países onde a Igreja Católica está em dificuldade. A Fundação AIS tem secretariados nacionais em vinte e um países da Europa, América, Ásia e Oceânia, apoiando mais de cinco mil projectos todos os anos em cerca de 140 nações de todo o mundo.
A Fundação AIS agradece a colaboração dos MCS na divulgação desta informação!

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO
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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Tornou-se mãe aos 12 anos. A partir daí, tudo mudou

RR online 03-08-2015 10:00 por Filipe d’Avillez e Joana Bourgard
Vanessa, uma das 5819 adolescentes que foi mãe em 2004



A experiência mostra que a gravidez adolescente não tem de ser uma tragédia. Quem está no terreno para ajudar garante que não conhece quem se tenha arrependido de ter o filho e há histórias de sucesso, como da Vanessa.  
Tinha apenas 12 anos. O rapaz com quem estava era pouco mais velho, tinha 15. Duas crianças sem verdadeira noção daquilo em que se estavam a meter. 
“Tinha noção que isso acontecia... Mas aos outros. A nós nunca nos acontece nada, não é?”, diz Vanessa Silva, actualmente com 24 anos e funcionária num lar, em Alenquer.

Só que aconteceu mesmo. Vanessa engravidou, mas, na inocência dos seus 12 anos, levou meses a perceber. Nem o facto de não lhe aparecer a menstruação levantou suspeitas. “Eu era uma miúda. Eu queria era não ter, não sabia porque é que não acontecia. Quem deu conta mesmo foi o meu irmão mais velho, que estranhou, porque era ele quem nos pagava tudo. O meu pai, na altura, já era ausente. E estranhou que alguma coisa se passava para eu não pedir dinheiro para as coisas de mulher.”

A consulta no hospital confirmou as suspeitas, para desgosto e frustração do irmão mais velho, que, desde a morte da mãe e do abandono por parte do pai, cuidava da família de seis irmãos. “Eu era das mais novas e ele sentia que falhou. Era frustrante, porque ele matava-se a trabalhar para conseguir criar os irmãos e, no entanto, foi um bocado desilusão. E havia a preocupação de saber o que iria acontecer comigo, porque, naquele instante, ele percebeu que nunca mais ia voltar a ser a mesma coisa, tudo ia mudar.”

Vanessa foi encaminhada para a Casa de Santa Isabel, um centro de acolhimento do Apoio à Vida, vocacionado para acolher grávidas em situações difíceis. Os outros irmãos foram para diferentes instituições e as duas mais novas acabaram por ser adoptadas. Apesar de na altura ter custado, Vanessa não duvida que foi para melhor.

“Foi tudo melhor. Era egoísta da minha parte dizer que ia ser possível. Não ia. As duas irmãs mais novas tinham problemas de saúde e o meu irmão tinha a vida dele. Era um rapaz novo também, tinha de constituir a família dele, mas, coitado, ele tomava conta de nós como se fôssemos filhos, e não éramos.”


Joana Tinoco de Faria, psicóloga no Apoio à Vida 

Centenas de casos todos os anos Todos os anos em Portugal nascem centenas de bebés cujas mães têm menos de 15 anos. As gravidezes com 11 ou 12 anos são raras, mas existem. As razões por detrás são mais complexas do que podem parecer à primeira vista, explica Joana Tinoco de Faria, psicóloga do Apoio à Vida.

“Muitas vezes as gravidezes surgem, psicologicamente, como um grito inconsciente de autonomia e até de uma construção de um projecto de família desfasado, isto é, fantasioso, mas um grito por uma família própria, um porto de abrigo, em famílias em que isto se calhar não existe", declara.

Para muitos que assistem de fora a solução mais óbvia poderia parecer ser o aborto, mas a vontade das meninas muitas vezes é outra. Não é raro haver, nesses casos, uma pressão difícil de resistir. “Se ponderam abortar nesta etapa tem sobretudo a ver ou com a pressão da família, o que acontece com frequência e a família tem aqui um peso fundamental, sobretudo nestas idades, e normalmente é a família que não vê uma maternidade adolescente como uma possibilidade na vida daquela rapariga”, diz a psicóloga.

“Parece uma resolução, o chamado ‘desengravidar’, isto é, ‘engravidaste, mas vamos resolver o assunto’ e é frequentemente assim que é abordado este assunto. Acho que a família, grande parte das vezes acredita que está a fazer o melhor, porque sente que está a devolver à criança aquela infância. Resta saber se passar por uma experiência como o aborto, ainda que não se tenha a verdadeira consciência daquilo que se está a fazer, mais tarde não se vai fazer sentir de outras formas.”

No caso da Vanessa, o aborto legal não era opção. A Lara nasceu em Maio, já a mãe tinha 13 anos, mas a estadia na Casa de Santa Isabel prolongou-se por vários anos. A ideia da instituição é a de que as raparigas só saiam com um projecto de vida formado, como explica Fernanda Ludovice, directora do centro de acolhimento: “Gostamos que nos cheguem o mais cedo possível na gravidez, porque temos um espaço enorme para preparar a gravidez, vincular a mãe ao bebé, enquanto está dentro da barriga, mas, às vezes, não acontece assim.”

“Depois da gravidez, os primeiros tempos do bebé, para preparar a mãe para as coisas mais normais, como tomar banho, amamentar, passar à sopa... Todas essas coisas. Depois desses quatro ou cinco meses em que elas estão completamente centradas no bebé, e no seu papel de mãe, a preparação para o regresso ao mundo lá fora, à vida de trabalho, construção de competências ao nível profissional”, conclui.



Vanessa Silva

Engravidar existe, “desengravidar” não
Foi o que se passou com a Vanessa, que hoje em dia leva uma vida independente e segura, sustentando-se a si e à Lara com o fruto do seu trabalho. A menina de 12 anos já lá vai. “Saí a agradecer tudo o que fizeram por mim. Porque se não fosse a Casa de Santa Isabel eu não era quem sou hoje. Devia ser uma grande calona que não queria trabalhar, que não queria nada, mas sou completamente o oposto”, que é como quem diz, “se não fosse a Lara, não era eu.”

A verdade, porém, é que nem todas as meninas que engravidam têm a sorte da Vanessa. Algumas escolhem, ou são empurradas, para um caminho diferente e doloroso. Porque na verdade, o verbo “desengravidar” não existe.

A psicóloga Joana, que admite nunca ter acompanhado uma mulher que se arrependesse de ter tido o seu filho, recorda: “Uma vez fui a uma escola falar e quando estava a sair, houve uma rapariga que se aproximou de mim e que disse que gostava de falar comigo. Vinha de lágrimas nos olhos e disse-me: ‘Só lhe quero pedir um favor: Que falem disto a mais gente. Porque se eu soubesse o que sei hoje, se soubesse que havia ajudas, não tinha feito o que fiz.”

Apoio à Vida opera em Lisboa desde 1998. Todos os anos recorrem aos seus serviços cerca de 350 mulheres e pela Casa de Santa Isabel, que foi fundada em 2003, já passaram pelo menos 140 mães. A instituição tem um número grátis para quem precisa de ajuda: 800 20 80 90

Sexo e mercado

Francisco Sarsfield Cabral 
RR ONLINE 03-08-2015 
Para alguns, não existem limites do mercado quando se trata de sexo e prostituição. A Doutrina Social da Igreja tem repetidamente assinalado que o mercado, sendo útil dentro de certos limites, não os deverá ultrapassar.
A Amnistia Internacional quer debater a descriminalização da prostituição, reconhecendo-a como “direito humano”. A iniciativa foi contestada por estrelas de Hollywood, como Meryl Streep, Kate Winslet e Emma Thompson. 
Tornar a prostituição uma profissão como qualquer outra é reivindicação recorrente, mesmo em Portugal. Aliás, na Alemanha e na Holanda os “trabalhadores do sexo” são equiparados aos outros trabalhadores – pagam impostos, têm segurança social, etc. E o negócio da pornografia está a ganhar estatuto de respeitabilidade. 
Isto é defendido por muita gente que brama contra a mercantilização da vida. Para um marxista o mercado de trabalho no capitalismo, além de implicar a exploração pelos patrões, lida com as pessoas como se fossem coisas. A Doutrina Social da Igreja tem repetidamente assinalado que o mercado, sendo útil dentro de certos limites, não os deverá ultrapassar. 
Mas, para alguns (incluindo anti-capitalistas), não existem limites do mercado quando se trata de sexo e prostituição, onde a exploração e a mercantilização das pessoas atingem um nível degradante.

O significado da Missa (parte I) - Arcebispo D. Fulton Sheen

O significado da Missa (parte II) - Arcebispo Fulton Sheen

O leão Cecil e as redes sociais que também matam

Alexandre Homem Cristo | Observador 3/8/2015

É assustador como as redes sociais conseguem alterar o padrão ético e moral pelo qual nos guiamos, ao ponto de gerar mais indignação a morte de um leão do que atrocidades contra mulheres e crianças.
Um dentista americano, adepto de caça, atraiu e matou um leão no longínquo Zimbabué. O episódio comoveu o mundo, mereceu milhares de publicações em jornais internacionais e levou ao rubro as redes sociais, que perseguiram o caçador. Ora, eu sei que estamos em Agosto, e que talvez por isso o caso tenha gerado uma atenção mediática maior do que teria noutras alturas do ano. Mas, apesar disso, não deixa de ser um retrato importante dos nossos tempos, onde deixou de ser óbvio que a vida humana vale mais do que a vida animal, e onde as redes sociais tentam (e por vezes conseguem) alterar o nosso padrão moral.
Não vou defender o caçador, cujo acto não considero merecedor de defesa. Mas julgo impossível de deixar escapar a contradição assente no facto de gerar mais indignação a morte de um leão a milhares de quilómetros de distância do que as atrocidades contra homens, mulheres e crianças com que nos defrontamos frequentemente, seja em África pelas mãos do Boko Haram seja até na Europa e em Portugal. Não é só uma questão de proximidade, é sobretudo de princípio: afinal, não é razoável humanizar os animais, colocando humanos e animais no mesmo plano. Parece-me óbvio e consensual que, por mais que se defenda os direitos dos animais, numa situação limite, escolher entre salvar a vida a uma criança ou a um gato não nos deveria fazer hesitar. Só que, por via da intervenção das redes sociais, o óbvio deixou de ser óbvio. E é precisamente por esse motivo que o caso da morte do leão Cecil se tornou interessante: ele exemplifica como as redes sociais conseguem, para determinadas situações, alterar o padrão ético e moral pelo qual nos guiamos.
É um mundo estranho aquele que, por um lado, glorifica Dzhokhar Tsarnaev, o bombista da maratona de Boston que matou 3 pessoas e feriu mais de 250, elevando-o a ícone pop na capa da revista Rolling Stone, e, por outro, assiste ao linchamento público de Walter Palmer, o dentista americano que matou o leão Cecil. Facto é que, desde que a sua identidade se tornou conhecida, Walter Palmer ficou refém de um julgamento popular e sujeito a apelos à sua extradição para o Zimbabué, à aplicação excepcional da pena de morte, a ameaças concretas por parte de activistas, à divulgação da sua morada, à exposição da sua vida privada e a da sua família, à perseguição no seu local de trabalho (que teve de encerrar). A tudo e mais alguma coisa, sem dó nem piedade.
Não é caso inédito e, por certo, não será o último – há semanas, escrevi aqui sobre como as redes sociais reduziram a pó a carreira do cientista Tim Hunt. Mas, não sendo inédito, ilustra na perfeição como tudo em que acreditamos – o direito à privacidade, a salvaguarda da família, a presunção da inocência – pode ser derrotado por indignações em massa construídas com os 140 caracteres do twitter. Sim, o caso demonstra como esta cedência às redes sociais, tanto aqui como em outros casos, é errada. E, sobretudo, como é perigosa, pois legitima-as enquanto tribunais populares da modernidade, tão despóticos quanto os originais, e munidos de poder e influência assustadores. Hoje, ao serviço de egos anónimos movidos pela ilusão de que lhes compete castigar aqueles que não sofrem castigo, as redes sociais lincham com total impunidade.
É inútil acharmos que é possível alterar esta realidade e evitar que as redes sociais sejam o que são. Mas seria útil reflectir sobre como minimizar os seus efeitos, nomeadamente aprendendo a resistir-lhes. Por exemplo, nas instituições e empresas, impedindo que sejam elas a decidir acerca do mérito das pessoas – dispensar um colaborador porque está a ser linchado nas redes sociais (como sucedeu a Tim Hunt) só serve para reforçar o poder destas. Ou, nos jornais, detendo a tentação das audiências e não deixando que sejam as redes sociais quem decide o que é a notícia. É que, no final de contas, as redes sociais também matam – destroem vidas, carreiras e reputações. E, contra isso, também faz falta alguma indignação.

Na morte de um leão

Henrique Pereira dos Santos | Ambio | 2015.08.03

Nos últimos dias tem havido uma grande comoção pela morte de um leão no país onde todos os dias morre gente por pura incompetência e venalidade do seu governo.
Um dos muitos argumentos usados para alimentar esta comoção dramática é o argumento da crueldade e do sofrimento causado ao animal pelo seu abate, sempre assente numa leitura estritamente emocional dos factos, sem a menor sombra de racionalidade.
Este argumento tem a sua raiz na substituição da humana, bem humana, responsabilidade de compaixão pelos animais pela ideia de que os animais são sujeitos de direito à felicidade e ausência de sofrimento.
Esta substituição é em grande parte sustentada numa visão idealizada da natureza e do mundo que identifica a dor e o sofrimento com o mal, como se a dor, o sofrimento e a morte não fossem tão intrinsecamente naturais como a vida, a alegria e a felicidade.
Para os que pensam que o abate de um leão por um predador como o homem é mais cruel e causadora de sofrimento ao animal que a morte natural dos animais selvagens, talvez seja bom lembrar que os animais selvagens não têm reforma, não vivem suavemente os seus últimos dias, pelo contrário, são vítimas da sua perda de vigor e capacidades, morrem escorraçados dos seus grupos sociais, vítimas de doenças, de fome, muitas vezes em agonias lentas de horas ou mesmo semanas, se por acaso ainda conseguem obter o mínimo de alimento sem que se tornem eles próprios presa de outros.
É bom lembrar que esta transferência da necessidade de conservação das espécies - uma necessidade estritamente humana, para o resto da natureza é absolutamente igual que se criem ou extingam espécies - para a necessidade de conservação dos indivíduos tem sido responsável por problemas sérios de conservação e, ainda recentemente, deu origem a uma extravangante tomada de posição de distintos académicos ligados à conservação na natureza, contestando a necessidade de combate a espécies invasoras.
Não é apenas indiferente para a conservação que se expandam as ideias relacionadas com os direitos dos animais, é mesmo um problema sério com o qual os conservacionistas fariam melhor em se preocupar, abandonando a tradicional condescedência para com ideias realmente nefastas e que muitas classificamos com tendo até algum efeito benéfico para a consciência ambiental.

domingo, 2 de agosto de 2015

A importância de se chamar Cecil

Catarina Nicolau Campos, senzapagare, 2015.08.02

Cecil era um leão que vivia numa área protegida no Zimbabué. Os seus passos eram seguidos por investigadores de Oxford, era um animal considerado sociável e particularmente fotogénico – as suas fotografias pela internet são mais que muitas. Era um leão conhecido na região, e no mundo, de uma grande beleza, e do qual gostavam todos quantos o conheciam.

Na passada semana, numa caçada, Cecil acabou decapitado e sem pele. O seu perpetrador, Walter Palmer, cidadão norte-americano, médico dentista, pelos vistos, caminha para o mesmo destino.

Para além das ameaças de morte, do Pólo Norte ao Pólo Sul, manifestações de revolta, insultos e pedidos de extradição, a administração de Obama decidiu também abrir um inquérito ao que terá ocorrido, a fim de se apurarem as devidas responsabilidades, e de que a punição seja exemplar.

Palmas.

Pela mesma altura foi divulgado um vídeo que mostra a directora da Planned Parenthood, uma associação americana que promove e colabora na prática de abortos nos Estados Unidos da América, a vender órgãos de bebés em troca de somas avultadas de dinheiro e outros gozos materiais, tais como, por exemplo, um Lamborghini. 

A seguir ao vídeo, outro, e outro.... Tráfico de órgãos de bebés. Bebés que são mortos e desmembrados. A troco de dinheiro, muito dinheiro. Sob a máscara de “saúde sexual e reprodutiva”. Seguido do choque inicial, que levou a que muitas empresas, como a Coca-Cola, Xerox ou a Ford, se desvinculassem da Planned Parenthood, a reacção do Partido do mesmo Obama: outro inquérito. Mas desta feita não para apurar responsabilidades, não para punir exemplarmente, mas para silenciar, para compactuar, para fingir que este horror não existe. Um inquérito para averiguar, pasme-se, a legalidade das imagens obtidas. 

E agora, o silêncio.

O sepulcral silêncio dos media, das televisões, das rádios, das redes sociais. O silêncio que esconde o sangue dos inocentes. Onde estão as manifestações, as petições à Casa Branca, o choro, a indignação, a revolta, a vontade de fazer desaparecer esta gente da face da Terra? Onde estão os corações inflamados de justiça e de compaixão? A coragem de fazer frente, de proteger quem não pode ser protegido, de gritar por quem não consegue falar, de garantir a liberdade e defender a dignidade de quem tem a mesma Natureza? Onde está a identidade, a consciência de cada um?

Para onde caminhas tu, ó Homem, para onde caminhamos nós, nesta selva em que um rugido de um leão é mais importante que um choro silenciado de uma criança?


Luís Botelho Ribeiro (1967-2015)

correio da manhã, 2015.08.02
Luís Botelho Ribeiro (1967-2015) Líder e fundador do partido Portugal Pró-Vida. O líder e fundador do partido Portugal Pró-Vida, Luís Botelho Ribeiro, morreu no sábado, aos 47 anos, após doença prolongada, informou a direção política nacional em comunicado. O velório realiza-se na capela mortuária de Paredes e o funeral segue este domingo, às 11h00, para o cemitério de Paredes. Natural de Santo Tirso, Luís Botelho Ribeiro, doutorado em engenharia, foi candidato, pela coligação PPM/PPV, à presidência da Câmara Municipal de Guimarães nas eleições autárquicas de 2013, tendo concorrido, como suplente, às eleições europeias de 2014. Foi igualmente candidato às legislativas de 2009 e 2011. Há dois anos, o Portugal Pró-Vida, um dos primeiros partidos europeus explicitamente a favor da vida, desenvolveu uma campanha de recolha de assinaturas visando a realização de um referendo sobre o valor da vida. O partido, fundado em 2009, a partir do movimento contra a despenalização do aborto, de 2007, rege-se por princípios da doutrina social da Igreja Católica e da democracia cristã. 

Mataram o Cecil, valha-nos Deus!

JN 02.08.2015
AZEREDO LOPES

O leão Cecil, bicho mais célebre do Zimbabwe e arredores, foi morto e decapitado por um dentista norte-americano. A Internet incendiou-se, depois pegou fogo aos meios de comunicação mais tradicionais e finalmente fez arder a razão.
Não sou caçador nem pescador e, no que a seres ex-vivos diz respeito, limito-me a consumir aquilo que outros tenham criado, abatido, condicionado e preparado para a panela ou para ser comido cru. Mas isso sou eu, citadino empedernido. Se o desejo aperta para a galinha de cabidela, nenhuma angústia. Telefono à dona Olga, que por sua vez comunica à mãe, que por sua vez escolhe o bicho a sacrificar, a sangrar e a depenar para ser entregue nuzinho. Eu só pago o devido. Não sei, nem quero de todo saber, como foi o galináceo. Serei um hipócrita? Certamente, e bastante assumido.
Mas Cecil era, pelos vistos, mais do que um leão: era o leão. E Walter Palmer, dentista norte-americano do Minnesota, teve azar. Era só um idiota que caçava troféus, agora percebe o que custa ter-se metido com o leão errado, e não com um dos outros 49 que, por ano, são mortos como troféu no Zimbabwe. Tivesse morto e decapitado o leão José Alberto, o leão Joaquim ou o leão Albano, e ninguém queria saber. Matou Cecil, meteu-se numa alhada daquelas e até tem cartazes à porta do consultório, o mais ternurento dos quais diz "Arde no Inferno".
O destrambelhamento é das doenças mais profundamente contagiosas. Por isso, lá está, há quem queira extraditar o dentista para o Zimbabwe, onde decerto lhe tratariam das cáries ou de outras partes mais pudendas do corpo.
Ora, na mesma semana, foi conhecido um vídeo que mostra um polícia a assassinar um condutor negro desarmado. Quase ninguém ligou. Na mesma semana, na Síria foram violados, torturados e assassinados seres humanos, entre eles uma mulher, decapitada a pedido e como prenda de casamento. E quase ninguém ligou.
As coisas não são comparáveis, responder-me-ão. Ou, então, não tem o cu a ver com as calças. Pois eu acho que tem. Se dentista cometeu um ilícito, que responda por ele. Erigi-lo a anti-Cristo é no entanto ridículo, é grotesco e é insultuoso.
Azar teve Samuel Dubose, o condutor negro que morreu com uma bala na cabeça. Não se chamava Cecil.

Francisco quer milagres (mas milagres a sério)


José Maria C.S. André

Correio dos Açores,  Verdadeiro Olhar,  ABC Portuguese Canadian Newspaper,  Spe Deus,  2-VIII-2015


O Papa espera muito deste próximo sínodo sobre a família. A parte mais interessante será a conclusão final, que o Papa reservou para si. Pediu aos bispos colaborações francas, leais, que o ajudassem na sua missão, mas explicou-lhes que essa missão – confiada pelo próprio Cristo ao Papa – não era delegável.
Alguns sentiram a falta da participação activa do Papa durante as primeiras controvérsias, quando ele, em vez de tomar partido, insistia em que cada um ouvisse os outros e, sobretudo, pedia orações, orações, orações. Parece que o povo cristão tem correspondido, a julgar pelas pessoas que retomaram o terço e as paróquias que organizaram tempos de adoração eucarística.
Noutro plano, o Papa Francisco começou uma catequese muito serena, muito profunda, sobre a família. Sem dar a entender que criticava este ou aquele, propôs-se ajudar a Igreja a olhar a família numa perspectiva diferente. Passou a ser regra que, nos encontros mais concorridos do pontificado (por exemplo nas Filipinas, ou há dias em Guayaquil), o Papa escolha este tema, sempre numa perspectiva evangélica, jamais em tom polémico.
Um dos apelos surpreendentes do Papa Francisco é chorar. Num encontro memorável com milhares de padres da diocese de Roma, perguntava-lhes directamente se, naquele presbitério, se tinham secado as lágrimas. As ofensas à dignidade humana, a deslealdade na quebra dos compromissos deviam comover-nos. Onde é que estão as lágrimas?
Este apelo foi tão genuíno que ninguém o tomou por um recurso de retórica. Pelo contrário, vejo gente que finalmente percebeu a doutrina da Igreja, gente que não se convencia com declarações de direitos e de deveres, mas ficou desarmada com um Papa que admite publicamente que chora e apela aos seus padres para se comoverem.
Outro dos apelos do Papa é para experimentarmos a misericórdia de Deus, para confiarmos no seu projecto de felicidade e abrirmo-nos à contrição e à emenda de vida.
Em Guayaquil, comentando a cena das bodas de Caná, o Papa falou assim das bacias de água destinadas às limpezas. «O vinho novo, o melhor vinho, como diz o mestre-sala, nasce das tinas da purificação, quer dizer, do lugar onde todos tinham deixado o seu pecado; nasce do “piorzinho”, porque “onde abundou o pecado, aí sobreabundou a graça”. Em cada uma das nossas famílias e na família comum que todos formamos, não se descarta ninguém, ninguém é inútil. Pouco antes de começar o ano jubilar da misericórdia, a Igreja celebrará o sínodo dedicado às famílias (...). Convido-vos a intensificar as vossas orações por esta intenção, para que até aquilo que nos parece impuro – a água das tinas –, aquilo que nos escandaliza ou nos assusta, Deus o possa transformar em milagre, fazendo-o passar através da sua “hora” [o Papa explicou que a “hora” de Jesus se referia à sua Paixão]. A família tem hoje necessidade deste milagre».
Outro ponto importante da mensagem do Papa Francisco é que quer milagres, milagres a sério. Não se contenta com falsas soluções, aposta no milagre completo. A embrulhada já não tem remédio? Está tudo perdido? Pelo contrário, tudo se recompõe! O Papa acredita em milagres, quer uma coisa verdadeiramente divina, que nos vai chegar pelas mãos de Maria.
«Toda esta história começou porque “não tinham vinho” e tudo se resolveu porque uma mulher – Nossa Senhora – esteve atenta, soube deixar as suas preocupações nas mãos de Deus e actuou com sensatez e coragem».
O caminho de reconciliação que Deus nos aponta pode parecer áspero, na direcção oposta à felicidade. Mas não, o milagre acontece:
«O vinho melhor está para vir, para aqueles que hoje vêem tudo a derrubar-se. Segredem aos ouvidos, até acreditarem: o melhor vinho está para vir. Sussurre-o, cada um no seu coração: o vinho melhor está para vir. Digam aos desesperados e àqueles com pouco amor: tenham paciência, tenham esperança, façam como Maria, rezem, trabalhem, abram o coração, porque vai chegar o melhor dos vinhos. Deus abeira-Se sempre das periferias daqueles que ficaram sem vinho, daqueles que só têm desencorajamento para beber; Jesus tem predilecção por oferecer o melhor dos vinhos àqueles que, por uma razão ou por outra, sentem que já partiram todas as ânforas».
Por algum motivo o Papa insiste tanto na oração.


Julho de 2015: um milhão de fiéis na Missa em Guayaquil.

Julho de 2015: um milhão de fiéis na Missa em Guayaquil.
Julho de 2015: um milhão de fiéis na Missa em Guayaquil.

Moral da história

Sónia Morais Santos, Cocó na fralda, 2015.07.28

Ontem fui tratar das matrículas dos miúdos. 
Estava a preencher a ficha da Madalena e, tal como fiz sempre, quando chegou ao item "Educação Moral e Religiosa", preenchi o quadradinho do "Não se inscreve". Depois, parei. Olhei para ela e lembrei-me de todas as vezes que a apanhei a rezar. Da ida a Paris e de ter pedido para acender uma velinha na basílica de Sacré Coeur. Das suas insistentes perguntas por Jesus. Do pedido para ser baptizada. E então perguntei-lhe, como se ela soubesse responder-me:
- Tu queres ter Educação Moral e Religiosa?
Ela olhou-me com aqueles olhos de curiosidade e desejo de aprender.
- O que é isso?
- É para saberes mais sobre Jesus.
- Quero!!!
E foi então que, pela primeira vez desde que sou mãe, pus uma cruzinha neste item. 

A ditadura da infância mais que perfeita

Helena Matos | Observador 2/8/2015

É um dos meu terrores: discutir políticas de natalidade. Mal ouço a expressão, sempre dita com um ar solene, por pivots e políticos, é como se estivesse diante mim o Obélix a perguntar ao Astérix qual era o papel das abelhas e das cegonhas no aparecimento dos bebés.
As políticas de natalidade são as novas cegonhas: oficialmente trazem os bebés. Mas tal como jamais se viu um bebé no bico de uma cegonha (e a minha geração bem que se esforçou por tal avistamento!), está por encontrar o primeiro bebé nascido graças àquilo a que pomposamente se chama políticas de natalidade. Ou então, se alguns bebés nasceram graças a essas políticas, nomeadamente aquelas que passam por mais abonos e subsídios, cabe perguntar que mal fizeram essas crianças e os demais cidadãos para terem de conviver com pessoas que têm filhos se lhes pagarem para tal.
Claro que há circunstâncias que ajudam quem tem filhos, como as licenças e os horários flexíveis, mas infelizmente entre nós desapareceu mais rapidamente o papel selado que a rigidez dos horários de trabalho! Fundamental seria também acabarmos com a maldita cultura do presentismo que leva umas almas sem mulher, homem, gato, cão, periquito ou livro que lhes apeteça rever em casa, a reproduzir na hora de sair do trabalho o síndroma “eu não hei-de ser o primeiro a parar” dos congressos estalinistas: ali ninguém parava de bater palmas, aqui ninguém se levanta para sair e empatam, empatam, tentando desse modo provar que trabalham muito.
A única forma socialmente aceitável de quebrar o presentismo é anunciar que se tem o gato ou o cão doentes. Ou a precisar de passear. Aí todos se mostram solidários. Já se for por causa de um filho é sempre um escolho, uma questão a ter em conta na hora de atribuir àquela pessoa um cargo de responsabilidade. Afinal não foi ela irresponsável q.b. para ter avançado para tal encargo apesar de todos os avisos sobre o entrave para a carreira que os filhos representam?
(Se discutir as políticas de natalidade faz parte dos meus terrores o termo carreira aplicado à profissão é um dos meus ódios de estimação. O que é uma carreira? Percebo a carreira dos eléctricos, das camionetas e dos autocarros. Mas o que será a carreira do condutor desses transportes? E de ser caixa de supermercado? Ou jornalista? O que será essa coisa chamada carreira em nome da qual é suposto que se abdique de tudo? Regra geral, chamamos carreira a empregos pagos assim-assim, desempenhados por pessoas mais ou menos irrelevantes que se acreditam insubstituíveis. O resto são trabalhos, empregos ou cargos, transitórios como tudo na vida, e para cujo desempenho ter responsabilidades familiares, seja de filhos ou outras, é um valor acrescentado de realidade.)
Mas voltemos às neocegonhas, ou seja, às políticas de natalidade. Sei por experiência própria como as circunstâncias económicas, o presentismo e a rigidez laboral condicionam a vida de quem tem filhos. Sobretudo de quem não se ficou pelo casalinho e teve de ouvir os sábios “Já pensaste?!…” Mas a grande condicionante deste século XXI na hora de ter filhos chama-se complicadismo, conceito que traduzido de forma simples quer dizer que a maternidade deixou de ser algo natural na vida dos jovens adultos para se tornar na mais temerosa das tarefas a que alguém pode meter ombros.
Face ao espalhafato criado em torno da maternidade e da paternidade o que me admira não é que as pessoas tenham menos filhos. O que não entendo mesmo é como ainda existe gente com coragem para meter ombros a tal empreendimento.
Ter um filho tornou-se uma tarefa imensa. Um saber-ciência algures entre a exactidão das matemáticas e a imprevisibilidade do mundo do oculto em que cada sinal de febre, birra, más notas ou grama a mais é um sinal inequívoco do falhanço dos pais em geral e das mães em particular. Tudo o que as crianças fazem e não fazem, tudo o que não lhes aconteceu e devia ter acontecido (ou vice-versa) é visto, analisado e ponderado como o resultado daquilo que os pais disseram, deram e fizeram. A gravidez tem de ser perfeita, o parto um momento sublime, a amamentação um equivalente da demanda do Santo Graal que nunca se sabe como deve terminar, a introdução dos alimentos uma viagem ao mundo dos produtos sem isto e sem aquilo. Caso isto não se cumpra no seu todo ou em parte lá vêm a perturbação, a disfunção e outras coisas tenebrosas já conhecidas e por conhecer.
Angustia-me pensar o que vai ser destes pobres pais e dos seus filhos no dia em que estes últimos tenham finalmente de sair da escola A onde as crianças só comem legumes biológicos; ou da escola B onde aprendem por um método natural (nas outras, as não naturais enfiam-lhes um capacete e ligam-lhes eléctrodos à cabeça!) e do sítio C onde como actividade extra-curricular se ensina filosofia a crianças que ainda não têm a dentição de leite completa.
Esta ditadura da infância perfeita é das coisas mais assustadoras que me foi dado ver e tudo indica que veio para ficar tanto mais que proliferam os filhos únicos. (E só Deus sabe os trabalhos e complicações que uma mulher em dedicação exclusiva a um ser humano é capaz de inventar!) Para cúmulo os nados e criados nesse espaço-tempo da infância perfeita tendem não só a manter-se como eternas crianças – já viram aqueles matulões compêlos a despontar nas pernas e umas mães ansiosas a puxarem-lhe a mala de rodinhas? – como a acreditar com convicção que todos os outros devem condicionar as suas vidas e atitudes para que eles não se traumatizem.
No Observador até vinha esta semana uma lista daquilo que os pais não devem fazer para não envergonhar os filhos. Supõe uma pessoa que seriam referidos actos como roubar, burlar ou não cuidar da família. Nada disso. No limite creio que até matar não constrangeria muito os inquiridos desde que os progenitores não disparassem sobre leões. (Já agora, o leão Cecil era lindíssimo e não percebo o prazer de disparar sobre leões. Mas ao contrário dos habitantes humanos do Zimbabwe, o leão Cecil teve comparativamente uma vida longa que, acrescente-se, na Natureza terminaria de uma forma não menos cruel.)
Mas voltemos aos pais que envergonham os filhos. Entre outras coisas devem os pais evitar dançar na presença dos filhos ou simplesmente cantar na cozinha. É que face a esses comportamentos os filhos que claro cantam e dançam o que lhes apetece e quando lhes apetece, ficam envergonhados. E logo traumatizados, e logo com problemas afectivos. Só não percebi se os pais podem ousar essas manifestações longe do olhar dos filhos ou se mesmo assim estes ficam consternados porque outros os podem avistar em tais atitudes.
Enfim, tal como no pretérito tempo em que as cegonhas traziam os bebés, um bocadinho de realidade faz muita falta. E já agora uma boa dose de bom senso ajudaria à demografia muito mais que as políticas ditas de natalidade.

Sou cristão porque...

sábado, 1 de agosto de 2015

Santidade


A vingança de um judeu errante

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 1/8/2015

Um judeu britânico, nascido austríaco, ‘vingou-se’ dos cristãos que, em 1938, o salvaram de uma morte certa pelos nazis, criando um fundo para o resgate dos cristãos perseguidos no Médio Oriente
Arthur George Weidenfeld é um jovem britânico que, no próximo dia 13 de Setembro, cumpre 96 primaveras. Nasceu austríaco e tinha 18 anos quando, em 1938, o exército nazi ocupou o seu país. Sendo judeu, o mais certo é que tivesse sido deportado para um dos numerosos campos de concentração onde, com toda a probabilidade, encontraria a morte, como tantos outros judeus e não só. Mas teve a sorte ou, melhor dizendo, a graça de ter quem o libertasse desse mais do que provável destino. Com efeito, foi socorrido por cristãos, que também providenciaram a sua emigração para a Grã-Bretanha, onde conseguiu residência e trabalho.
Desde então, Weidenfeld, a quem a rainha Isabel II fez par do reino e barão, sente-se em falta para com os que o salvaram, porque entende que lhes deve a sua sobrevivência, seriamente ameaçada depois da anexação da Áustria pelo terceiro Reich. Os anos decorridos desde então – mais de setenta! – não bastaram para esquecer essa dívida de gratidão e, por isso, quis ‘vingar-se’ dos seus benfeitores de 1938, criando um programa que se propõe resgatar os cristãos que são perseguidos nos países do Médio Oriente, sobretudo pelo auto-intitulado Estado Islâmico, responsável pelo assassinato de milhares de seguidores de Cristo. O Weidenfeld Safe Havens Fund propõe-se resgatar aproximadamente dois mil cristãos, na Síria e no Iraque, durante os próximos dois anos.
Apesar da dimensão trágica do referido genocídio, poucas têm sido as vozes que se levantaram para condenar esta implacável perseguição religiosa, que todos os dias ceifa novas vidas. O Papa Francisco parece ser a excepção que confirma a regra, pois tem-se referido com frequência a este novo holocausto. Mas os seus alertas ainda não tiveram o condão de despertar a comunidade internacional, que parece mais interessada em resolver a crise financeira do que defender os milhares de cristãos que estão em perigo iminente de vida na conturbada região do próximo Oriente, no Paquistão – onde a católica Ásia Bibi, condenada à morte por blasfémia, continua presa – na Nigéria, no Sudão, etc.
Ainda a 9 de Julho passado, o Papa confessou a dor que lhe vai na alma: “é consternados que assistimos à perseguição de cristãos no próximo Oriente e noutras partes do mundo”, onde “tantos dos nossos irmãos e irmãs são perseguidos, torturados e mortos pela sua fé em Jesus”, nomeadamente no Iraque e na Síria, onde não só alguns cristãos são decapitados, por razão da sua fé, como os sobreviventes são forçados a converterem-se ao islamismo. Não obstante a insistência dos apelos, as organizações políticas e humanitárias optaram até à data, ao que parece, por um cúmplice alheamento.
Graças a Deus, esse não foi o caso do lorde Weidenfeld, que em boa hora tomou a iniciativa de lançar esta operação de resgate de cristãos perseguidos na Terra Santa e em toda a região. Segundo informação veiculada pela Lugar-Tenência de Portugal da Ordem do Santo Sepulcro, uma organização pontifícia mundial ao serviço dos Lugares Santos e das respectivas comunidades cristãs, este projecto, apesar de só ter algumas semanas de vida, já expatriou, para a Polónia, cento e cinquenta cristãos sírios.
Não obstante a natureza humanitária da operação, surgiram algumas críticas ao carácter confessional do apoio que este fundo presta. Arthur George Weidenfeld explicou, no entanto, que a iniciativa nasceu da dívida contraída por ele e por muitos outros jovens judeus, integrados nos Kindertransports, para com as confissões cristãs que os salvaram, levando-os para Inglaterra.
Há quem diga que os judeus são muito ‘vingativos’ e materialistas e, se assim for, o promotor desta iniciativa não é excepção. Contudo, a sua ‘vingança’ é muito especial, porque é expressão da sua gratidão e totalmente desinteressada. Uma atitude que ele quereria ver partilhada por todos os membros do seu povo: “nós, os judeus, devemos também ser gratos e fazer alguma coisa pelos cristãos em vias de extinção”.
No entanto, o barão Weidenfeld não tem razão quando afirma que, como não pode salvar o mundo todo, contenta-se com ajudar alguns cristãos. A verdade é que, ao contrário do que afirma, quem salva um seu irmão, seja ou não cristão, salva-se a si mesmo e salva o mundo também.

PREC e Alves dos Reis

Pedro Braz Teixeira
ionline 2015.08.01

O que se sabe sobre o que a Grécia poderia ter feito deve acordar os seus parceiros europeus.
Nos últimos dias tem sido revelado um conjunto de informações sobre o plano B da Grécia, que parece um misto de PREC com Alves dos Reis. 
Em Dezembro do ano passado, ainda antes das eleições de 25 de Janeiro, o futuro (hoje já ex) ministro das Finanças, o histriónico Varoufakis, planeou o regresso à dracma de forma rocambolesca. Aparentemente, o sistema informático do Ministério das Finanças seria assaltado por um amigo de infância do ministro que criaria um sistema de pagamentos alternativo. Ou seja, a Grécia sairia do euro pela porta do cavalo, sem negociações, a pior forma possível de retirada. Felizmente, Tsipras não lhe deu autorização para avançar com o plano, o que foi o melhor para todos, a começar pelos gregos.
Em Julho, um dos componentes do Syriza, a Plataforma de Esquerda, organizou uma reunião para preparar a saída forçada do euro, que previa a prisão do governador do Banco da Grécia caso este resistisse e o assalto da entidade que imprime notas. Seguindo as desvairadas indicações, as notas aí existentes (menos de metade do que os conjurados estimavam) poderiam ser usadas para importar combustíveis e alimentos de primeira necessidade.
O lado mais PREC disto tudo é que havia jornalistas à porta do hotel onde decorria aquela conspiração, a quem os políticos relataram o que se passou, como se fosse imaginável algum golpe com sucesso poder informar previamente a comunicação social. O lado Alves dos Reis consiste em quererem apropriar-se de notas emitidas, com a particularidade de o delinquente português ter agido no maior dos segredos e os seus homólogos gregos se prepararem para o imitar com o maior dos espalhafatos. Como é que lhes pôde passar pela cabeça que aquelas notas não seriam imediatamente consideradas forjadas e não aceites por ninguém?
Os disparates desde que o Syriza chegou ao poder já foram tantos que já há vários gregos, entre presidentes de autarquias, que colocaram Varoufakis em tribunal, esperando-se ainda o levantamento da sua imunidade parlamentar, podendo seguir-se novas acusações a outros políticos no governo. 
Numa primeira apreciação, tudo isto é terrível e deve ser alvo de críticas e até das perseguições judiciais referidas. No entanto, num plano mais elevado, o que se sabe até agora do que poderia ter acontecido é demasiado grave e tem de ser interpretado como consequência da situação que os dois primeiros programas de austeridade criaram na Grécia. Em geral, detesto a argumentação de que é a “sociedade” que cria os delinquentes mas, neste caso, parece-me que se aplica a ideia de que foram as circunstâncias que geraram o potencial desastre que, felizmente, nem sequer chegou a concretizar-se.
É (quase) totalmente inútil criticar severamente os ex-ministros pelo que se preparavam para fazer. É urgente que os parceiros internacionais tomem consciência de que, se os dois primeiros pacotes de “ajuda” criaram este quase desastre, então o terceiro tem condições de criar algo muito mais grave e que é bem possível que não possa ser evitado atempadamente. Por isso, é urgente suavizar as condições impostas há poucas semanas.
Em alternativa, era útil que os gregos deixassem de olhar com tanto horror para a saída do euro, ao ponto de terem feito Tsipras engolir um acordo impossível. A partir do momento em que passe a haver uma maioria a reconhecer o inevitável, este ou qualquer outro primeiro-ministro helénico já poderá negociar uma retirada em condições relativamente favoráveis. 
Parece que o programa imposto à Grécia se destina a criar esse mesmo estado de espírito, mas fá-lo duma forma arriscada, porque parece que a pretende empurrar para o desespero. O grande problema é que este é muito mau conselheiro e os desastres mais descontrolados podem acontecer em resultado disso mesmo.