quarta-feira, 4 de março de 2015

A chave da vida

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2015.03.04

A literatura de cordel que domina as nossas páginas e écrans baseia-se na divisão radical em bons e maus: o herói e as vítimas são excelentes e o vilão não tem perdão, numa lógica unidimensional. Na era da informação, esta falácia tem passado para a vida concreta, com terríveis consequências.
O axioma maniqueu, oposição radical de preto e branco, é cada vez mais predominante, pois a explosão de divertimentos impõe um inevitável simplismo de conteúdos e processos. Ultimamente, na ânsia de variar, floresce o anti-herói, que repete o defeito, invertendo as cores: os maus afinal são bons e os bons são maus, caindo na mesma ingenuidade. É corrente ver bruxos (Harry Potter), dragões (Como Treinares o Teu Dragão), demónios (Hellboy) e outros malvados tradicionais no papel positivo, ficando para vilões os heróis anteriores. Militares, polícias ou políticos, que deviam estar do nosso lado, são fonte do mal. Parece inovador mas é tão linear como a tacanhez criticada, além de promover a perversão.
A verdade, que conhecemos pelo menos por introspecção, é que todos somos cinzentos, e muito mais complexos do que parecemos. Nem a pureza incólume nem a depra- vação irremissível existem debaixo do sol. Vemos em nós e nos outros, todos os outros, o melhor e o pior, misturados numa combinação inextricável. Os grandes artistas são-no precisamente por captarem estes cambiantes, dando profundidade e ambiguidade às suas personagens.
Se a mesquinhez se limitasse ao campo literário e cénico, as coisas não seriam tão preocupantes como vê-la espalhar-se na vida real. Não são apenas as páginas de romances e cenas de filmes, mas folhas dos jornais e peças de noticiários que tresandam a maniqueísmo. A cada passo ouvimos acusações de malvadez radical contra fundamentalistas ou capitalistas, Europa ou partidos, enquanto outros, do Syriza a Obama, surgem infalíveis. Ou vice-versa. Pior, atrever-se a duvidar do simplismo da condenação ou exaltação implica repúdio automático e definitivo.
Qual é a alternativa ao postulado maniqueu? A resposta, muito mais antiga que a doutrina dominante, precisa de ser lembrada. Se até os mais perfeitos têm falhas e os piores bandidos mantêm certa dignidade e beleza, se todos estamos convencidos de ter razão e todos temos sempre alguma, por pouca que seja, a distinção válida não é tanto entre certo e errado, mas entre amar ou não o próximo.
Terroristas e banqueiros, pedófilos e patrões, por muito nocivos que sejam, devem ser respeitados, mesmo quando punidos e reprimidos. Mas como suportar crimes que bradam aos céus? Só é possível estimar os inimigos a partir da verdade e bondade que, apesar de tudo, mantêm no fundo da sua humanidade. Soa estranho apresentar isto como novidade, por estar na base consensual da nossa cultura. Não existem dúvidas de que na essência da civilização está aquele homem que afirmou aos sacerdotes e doutores, que se achavam bons, que prostitutas e corruptos, que se sabia serem maus, entrariam antes deles no Reino dos Céus (cf. Mt 21., 31). Foi Jesus, 2000 anos antes da troika, quem disse que devemos amar os nossos inimigos (Mt 5, 44), mostrando com a sua vida, e sobretudo com a sua morte, as razões desse amor.
Esta abordagem não elimina maldades nem ilude problemas. Limita-se a adicionar-lhes benevolência, compre-ensão, caridade, que são a única via real para a solução dos piores conflitos. "À pergunta "onde iríamos parar se renunciássemos à violência [contra os agressores] e apostássemos no perdão?", pode-se responder com estoutra: "Onde iríamos parar se não existissem perdão e absolvição, se saíssemos de cada injustiça de que somos vítimas com uma nova injustiça - olho por olho, dente por dente?"" (pág. 173).
Esta frase é de um dos mais geniais livros recentes, agora traduzido em português: A Misericórdia, do cardeal Walter Kasper (Principia, 2015); aquele texto que o Papa Francisco, em mais um gesto inesperado, divulgou na alocução do Angelus de 17 de Março de 2013. Misturando rigor técnico com linguagem sugestiva, sem fugir às questões cruciais e dolorosas, o volume muda radicalmente o nosso enfoque. A resposta ao mal insuportável, à justiça indispensável, aos embates inevitáveis e sofrimentos inaceitáveis, é a "experiência originária de Israel, que foi igualmente a experiência dos primeiros cristãos, a saber, a fidelidade de Deus em situações difíceis e humanamente sem saída, experimentada de forma reiterada ao longo da história" (156). Porque a misericórdia é o "principal atributo de Deus" (105, 112).

terça-feira, 3 de março de 2015

Por que ataca Tsipras Portugal e Espanha?

José Ribeiro e Castro, Av. da Liberdade, 2015.03.03


O tom com que Tsipras atacou Portugal e Espanha, neste fim-de-semana, surpreendeu. As acusações foram, nada mais, nada menos, de que os governos português e espanhol quiseram «derrubar o governo do Syriza» e «levar a Grécia para o abismo». Foi ao ponto de sustentar mesmo, a apimentar o quadro, que Portugal e Espanha formaram um «eixo contra Atenas» (designação sugestiva...) e afirmou não ter dúvidas sobre que se tratava de um plano deliberado e bem urdido: «O plano era – e continua a ser – o de provocar desgaste e derrubar o nosso Governo ou forçar-nos a uma rendição incondicional, antes que o nosso trabalho começasse a dar fruto e antes que o nosso exemplo afectasse outros países.»

"O sul é vermelho!"
A coisa não podia ser mais delirante.

Jamais se ouvira algo assim nas relações entre governos europeus; e, por isso, o ataque causou estranheza, tendo sido logo criticado por terceiros atentos como uma «falha», enquanto Tsipras já aparenta sinais de recuo e surge a falar na necessidade de «diálogo» e de evitar «qualquer má interpretação». Ao mesmo tempo, declara negar a necessidade de criar «inimigos externos», um velho tique dos leninistas, mas deixa a dúvida sobre se isto não será outra velha táctica de mestre Lénine: dois passos em frente, um atrás.

A questão é saber por que motivo Tsipras, um líder político experiente e de sucesso, fez efectivamente aquilo. E fê-lo exactamente na primeira reunião do comité central do Syriza, pós-eleições.

A única explicação objectiva está na proximidade de eleições legislativas em Portugal e Espanha. O Syriza, junto com os seus compadres espanhóis e portugueses, aspira a vitórias do Podemos em Espanha e de uma amálgama de esquerda em Portugal (PS/BE/Livre e mais-não-sei-o-quê-que-por-aí-se-anda-a-formar). 

A estratégia é simples: por um lado, alimentar o discurso anti-troika e os sentimentos anti-germânicos; por outro lado, apontar que os governos à direita estão do lado dos "maus" (os alemães) contra os "bons" (os gregos). Tudo envolvido na "heroicidade" dos "guerreiros negociadores gregos" e no glamour de Varoufakis. No fim de tudo, passada a fase dos PIGS e dos PIIGS, sonham vir a entoar, em coro: "O Sul é vermelho!" Talvez até cantando de novo a Internacional.

Que Espanha escapou por um triz à troika, que os programas de ajustamento correram fundamentalmente bem na Irlanda e em Portugal e que só falharam na Grécia porque não cumpriu quase nada - é o que não interessa. Que os "bravos negociadores" gregos tiveram que ceder quase tudo, diante do banho da realidade - é o que importa pôr e manter na sombra. Que os governos Rajoy e Passos Coelho defendem os interesses portugueses e a capitalização dos sacrifícios feitos e não estão ao serviço nem de alemães, nem de gregos - é o que importa desacreditar.

É fundamental que o governo grego arrepie caminho e mostre sentido de responsabilidade. Não vem mal ao mundo que os partidos afins tenham relações interpartidárias e se apoiem mutuamente, isto é, que o Syriza se relacione com o Podemos e o BE, se é assim que gostam. Mas querer transformar o Conselho Europeu num tabuleiro de estratégias e tácticas eleitorais seria uma responsabilidade completa e um caminho suicidário, que se pagariam muito caro. Faria muito mal à própria Grécia e seria mais uma deriva para o desastre de que a Europa não precisa nada.

O lugar para protestar, governo a governo, é pela diplomacia e embaixadores, não por métodos que sejam apelidados de "queixinhas". Passos Coelho fez bem em desmentir o alegado "protesto" em Bruxelas e o respectivo folhetim que se armou. Mas o assunto é sério. E merece ser analisado e tratado com seriedade e determinação nos termos apropriados e com impecável rigor, quer no plano das relações bilaterais, quer no funcionamento multilateral das instituições europeias.

O Conselho Europeu não é um bando de rapazes, de cachecol, bandeiras e autocolantes, entretidos em campanhas eleitorais. É uma instituição de que depende o futuro da Europa e dos cidadãos europeus.

Afinal como estamos?

Não convinha nada que as próximas eleições dependessem das gafes de Costa em reuniões com investidores chineses ou dos conhecimentos que Passos tinha em 1999 sobre o regime da segurança social. 

A semana passada, António Costa deu a entender a um grupo de investidores chineses, no Casino do Estoril, que o Portugal de Passos Coelho era "diferente" do Portugal de José Sócrates, no sentido em que estaria em melhores condições para justificar investimentos. Entre os socialistas, houve de tudo: estados de alma, apartes, silêncios. Entre os outros, houve o resto: denúncia, chacota, ironia.
Para quase toda a gente, a questão consistiu em determinar o que convém às aspirações socialistas. A solução não é tão fácil como os críticos de Costa insinuaram. Costa precisa dos votos dos portugueses para ganhar as eleições, mas também do dinheiro dos chineses para governar o país. Por isso, interessa-lhe fazer constar que Portugal está pior, para que os eleitores escolham outro governo, mas também que Portugal está melhor, para que os capitalistas chineses invistam no país. O que lhe aconteceu não foi apenas uma gafe, mas a manifestação das suas contradições de líder da oposição a pensar já na chefia do governo.
Mas o problema de Costa não é só esse, e não é só dele. Aceitando que lhe interessa dizer o que por um lado diz aos portugueses e o que por outro lado diz aos chineses, quando é que diz a verdade? Também não é fácil resolver a questão. É um facto que o país está pior, porque os impostos são mais pesados e o desemprego aumentou, mas também é um facto que o país está melhor, não apenas porque o BCE garante que não faltará dinheiro, mas porque diminuíram os grandes desequilíbrios que em 2011 puseram toda a gente a prever a bancarrota de Portugal e a sua expulsão do Euro. Dizer que o país está pior é tão verdade como dizer que o país está melhor.
Toda a gente tem mais ou menos consciência disto. Daí os debates serem tão inconclusivos e as sondagens tão incertas. Esse é o risco, porque no estado em que o país está — melhor ou pior do que em 2011, conforme as opiniões  –, importa que as próximas eleições sejam decisivas, no sentido de darem um mandato claro a uma maioria bem definida. E para isso, a grande questão não pode ser apenas saber como correram os últimos quatro anos, se pretendermos julgar esta maioria, ou os últimos vinte anos, se desejarmos também julgar este Partido Socialista. Isso é muito importante, mas mais importante ainda é os portugueses decidirem finalmente como querem e podem ser governados.
ministro Miguel Poiares Maduro tem razão, ou melhor, deveria ter razão: "nas próximas eleições, o país vai escolher entre duas formas de governar". Oxalá seja assim, oxalá haja mesmo essa escolha. Para Maduro, os portugueses vão optar entre "aqueles que entendem que governar é confundir um Estado forte com um Governo omnipresente" e aqueles que "entendem que ter um Estado forte, por vezes, exige um Governo que saiba bem as fronteiras entre aquilo que é a esfera da política, da economia e da justiça". António Costa, como é óbvio, descreveria de outra maneira os termos da opção. Mas sejam quais forem esses termos, falta saber se a nossa elite política consegue formular os seus projectos de um modo suficientemente plausível para justificar um debate e uma escolha. O que não nos convinha nada era que a próxima estação eleitoral dependesse de pequenos incidentes, do que Costa diz em reuniões com investidores estrangeiros, ou dos conhecimentos que Passos Coelho tinha em 1999 sobre o regime da segurança social.

Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado



Mt 23, 12

segunda-feira, 2 de março de 2015

As quatro fases da hollandização de Costa

 observador 2/3/2015

100 dias depois, entre as linhas vermelhas de socialismos europeus e do Syriza, António Costa está como Hollande: num beco sem saída

A realidade superou a ficção e aquilo que se dizia apenas por piada parece estar a concretizar-se: António Costa é Hollande em português. E se hoje o podemos afirmar sem ser piada é porque, com as devidas diferenças, o percurso de Costa se traçou em paralelo ao de Hollande. Por outras palavras, após 100 dias de liderança do PS, António Costa está em vias de completar o seu processo de hollandização (esta palavra devia existir) que, como se sabe, se segmenta em quatro fases.
primeira corresponde à fase messiânica, que subsiste numa ilusão de grandeza suportada pelas elevadas expectativas dos seus apoiantes. Hollande, quando vence as eleições presidenciais francesas, em Maio de 2012, não faz a coisa por menos. No seu discurso de vitória, aponta ao céu: aquela era "uma grande data para França, um novo início para a Europa e uma nova esperança para o mundo". O entusiasmo era de tal modo contagiante que António José Seguro definiu o momento como uma "nova primavera para os povos europeus".
Ora, dois anos depois, António Costa seguiu as pisadas do francês. Elevado nas primárias socialistas como o único capaz de oferecer ao PS um rumo alternativo ao do governo, Costa convenceu-se que era um primeiro-ministro à espera da tomada de posse – o governo estava nos seus últimos dias e uma nova maioria estava a ser construída pelos socialistas. Um mês depois das primárias, só se falava em eleições antecipadas (até que Sócrates foi detido e nunca mais se tocou no assunto).
No início, corre sempre tudo bem. Mas, depois, vêm os problemas. E, com eles, a segunda fase: a manifestação da incapacidade em construir uma alternativa credível e sustentável às políticas de austeridade. Passada a euforia da vitória eleitoral, o francês viu as suas ideias sucumbirem ao teste da realidade. De facto, Hollande não conseguiu estar ao nível das suas promessas eleitorais, que passavam por arrumar a austeridade na gaveta e renegociar o texto do Tratado Orçamental europeu. Ora, por seu lado, enquanto candidato a primeiro-ministro, António Costa apresenta-se cheio de ideias que não enuncia. Abdicou de dizer o que pensa, o que propõe e em que consiste o carácter inovador da política do PS (e por isso está debaixo de fogo). Onde Hollande tentou e não conseguiu, Costa não conseguiu porque nem sabe como tentar.
O choque das elevadas expectativas socialistas com essa incapacidade política conduz à terceira fase da hollandização – a da obsessão pelas sondagens e do receio da impopularidade. Poucos meses após a sua chegada ao Palácio do Eliseu, Hollande batia recordes. Nunca, antes dele, um presidente francês havia sido tão impopular e nenhum vira as sondagens deixarem de lhe ser favoráveis tão rapidamente. Por cá, António Costa justificou o seu assalto à liderança do PS através de resultados eleitorais e sondagens. Para ele, eram insuficientes os desempenhos do seu partido até então e, com ele, o partido certamente cavalgaria nas sondagens até à maioria absoluta. Só que os portugueses não têm correspondido a essas ambições. As sondagens mais recentes dão ao PS de Costa apenas um resultado idêntico ao de Seguro e um empate técnico com a coligação PSD-CDS. Exactamente aquilo que o próprio Costa antes qualificara de insuficiente.
Eis que se atinge a quarta e última fase: a conversão envergonhada ao neoliberalismo, que fecha o círculo do processo de hollandização. Depois de se elevar as expectativas, de não lhes corresponder e das repercussões no apoio popular, vem a resignação. E a de Hollande atingiu com estrondo a política francesa neste mês de Fevereiro. Sem apoio parlamentar dos socialistas franceses para aprovar a Lei Macron (um conjunto de medidas para liberalizar a economia), o governo francês forçou a sua implementação através de um mecanismo constitucional controverso e sujeitou-se a uma moção de censura. Hollande não poderia estar hoje mais isolado e longe de ser o inimigo da austeridade que pretendeu ser.
No caso de Costa, a sua conversão iniciou-se agora e é inevitavelmente mais discreta. Porque estamos em ano eleitoral. E porque, não sendo chefe de governo, não tem de tomar decisões difíceis como as de Hollande. Mas as suas declarações a empresários chineses são claras no reconhecimento (implícito) do sucesso das políticas nacionais no recuperar da economia portuguesa. Afinal, para Costa, a austeridade teve os seus méritos.
Ironia à parte, é expectável que esta hollandização não fique sem consequências. No congresso do PS (Novembro 2014), Pedro Nuno Santos (deputado e apoiante de António Costa) lançou o aviso: o que os franceses "não perdoam é que uma derrota da direita e uma vitória do PS [francês] não tenham correspondido a uma mudança de políticas". Isto é, os apoiantes de Costa traçaram-lhe uma linha vermelha. E 100 dias depois, entre as linhas vermelhas de socialismos europeus e do Syriza, António Costa está como Hollande: num beco sem saída.

FOME DE FELICIDADE

José Luís Nunes Martins
Facebook 28 de fevereiro de 2015

Quase todos temos carência de uma vida melhor... por isso buscamos novas e melhores formas de lidar com o mundo, à procura da felicidade que julgamos merecer. 
Precisamos tanto de pão como de uma vida boa. Nem sempre lutamos por ambos com a mesma força. Alguns conformam-se e desistem da sua felicidade. Esta fome, que não sossega, corrói ainda mais o interior dos que a ignoram. 
Somos o reflexo direto daquilo que alimentamos. 
Esta fome boa de um mundo melhor passa por dar de comer a quem tem fome, vivendo a caridade de uma forma tão concreta quanto eficaz, tão humana quanto divina. 
A fome é um problema grave, à espera de solução… apesar de já estarmos no século XXI. Quanta riqueza foi, é e será resultado da condenação à fome de outros? Trata-se de uma violência silenciosa que se baseia na indiferença. Um muro de silêncio e escuridão… que erguem os que escolhem fingir. 
Talvez a fome de amor verdadeiro seja uma das causas deste lento holocausto. Leva alguns a tentarem saciar a sua fome de felicidade com bens materiais e não olham a meios para alcançar isso que julgam que os satisfará. E têm castelos com 20 quartos onde a sua solidão é maior do que em qualquer outro lugar. Têm muitas camas, mas não têm paz nem sono nenhum. Têm quase tudo! Falta-lhes apenas... o essencial.
Como pode alguém ser feliz sem solidariedade nem comunhão? Terá paz e conseguirá sorrir de costas voltadas para o mundo? Olhará para onde?
Deixar de comer isto ou aquilo, ao contrário de nos entristecer, pode ser a forma certa para compreendermos que somos capazes de nos dominar, que não temos que ser escravos dos nossos apetites mais inoportunos, que podemos ser muito mais do que um simples corpo que alcança a satisfação das suas necessidades. 
O que é essencial na nossa vida? O que não é? Por que razão perdemos o nosso tempo e as nossas forças com o que não é? A alguns bastará uma hora ou duas sem comer para começarem a valorizar os alimentos que têm ao seu dispor e que julgam, na esmagadora maioria do tempo, serem insignificantes e sem valor. 
Há até quem – imagine-se – chegue a medir a sua riqueza pela capacidade que tem de gerar desperdício... 
Claro, quantas vezes só nos damos conta do valor de algo depois de o perder... ou de ficar privado dele, ainda que de forma temporária.
Mais do que uma pessoa isolada, cada um de nós é membro de uma comunidade. A nossa responsabilidade vai muito para além de garantir a nossa subsistência individual. Importa saber e sentir que somos parte de diversas famílias… sendo a maior de todas a humanidade. Temos obrigações em cada um delas. Uns assumem-nas, outros não… como em qualquer família.
Quando a minha existência significar alento e alimento para outra pessoa, estarei no caminho certo... rumo ao melhor do mundo e ao melhor de mim.
É o egoísmo de uns que condena outros à fome. Bastava percebermos que só é mesmo nosso aquilo que tivermos sido capazes de dar… 

Porque é que nos trata assim?

Madalena Fontoura   Fundação Maria Ulrich, 2015.03.02


Passei o fim-de-semana, rodeada de grandes educadores. Um dom inestimável, mas não um acaso. Procuro estas ocasiões porque tenho claro que só educo se me deixo educar.
Desta vez, fiquei desafiada por uma certa professora de Português e Francês, que ensina numa escola estatal de uma pequena cidade nortenha. Contava-me que via o ensino do Francês perder terreno em relação ao Espanhol. Na sua opinião, o motivo é apenas a facilidade da língua espanhola, mais parecida com a nossa. Entende que o Francês é mais enriquecedor para os alunos, mais diferenciador no seu currículo e mais interessante do ponto de vista académico, pelo que resolveu ir à luta e juntar os alunos com ela.

Impressionou-me o seu entusiasmo, tão genuíno, e livre de qualquer pretensão de carreira. Esta Professora é das mais antigas da escola e também dá Português, pelo que a perda de turmas de Francês não lhe causa nenhum prejuízo laboral. Tem várias razões de ordem profissional e pessoal para não se dar a mais trabalhos do que os legalmente exigidos. Mas olha-se para ela e percebe-se que estes discursos, laborais, legais e outros que tais, não têm nada a ver com a sua paixão educativa.
Criou a "Semaine de la Francophonie", cheia de eventos. Os alunos fartam-se de trabalhar e estão radiantes. Um dos destaques são os crepes, que eles cozinham e vendem, apresentando-se impecáveis nos seus aventais bleu-blanc-rouge. Além do sucesso gastronómico, o lucro paga todos os gastos, incluindo os ditos aventais. O outro destaque é a apresentação de um filme francófono. O que há de especial é que o filme não é projetado na escola, mas sim no auditório municipal, com uma sessão em horário escolar e outra mais tardia para as pessoas da cidade poderem assistir. Um impacto cultural que provoca e atrai.

Mas a professora é conhecida por ser exigente. E aqui há tempos vieram uns resultados nada animadores, com vários alunos abaixo do seu potencial. A professora ralhou. Um dos alunos perguntou: "Porque é que nos trata assim?". "Assim como?" perguntou ela. "Ralha, mas depois está sempre connosco a fazer coisas". Com a prontidão com que faz crepes bem franceses, respondeu: "É porque gosto muito de vocês".

Neste fim-de-semana, a Professora de Francês nortenha e eu, juntamente com umas centenas de pessoas, lembrávamos um grande educador: um padre italiano que, nos anos 50, em plena crise de certezas, deixou o ensino da Teologia no seminário para dar aulas de Religião numa escola secundária. O que começara como um gesto aparentemente insignificante gerou um movimento de jovens e, mais tarde, de adultos, que passou as fronteiras do país e cresce, geração atrás de geração. Um dia, abordado por um jornalista, à porta de um evento, onde era esperado com entusiasmo por milhares de pessoas, à pergunta de "porque é que o seguem assim?", respondeu, com um sorriso alegre e uma voz firme: "porque acredito no que digo".

Começo esta semana, pedindo para viver assim. De modo que aquilo que digo, faço e sou brote da riqueza daquilo em que acredito. Como o padre italiano. E o amor aos meus alunos me torne criativa e incansável. Como a professora de Francês.

Oração pelos cristãos perseguidos

Faz aos outros o que gostarias que fizessem a ti



Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados.
Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco».
Lc 6,36-38

Dou-me conta que mais do que a minha reacção habitual ao Evangelho de hoje – não faças aos outros o que não queres que te façam a ti – o que Jesus realmente propõe é fazer e não apenas "não fazer": faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti. Perdoa; também gostarias de ser perdoado. Dá; porque gostarias de receber. Ama: porque és amado.


domingo, 1 de março de 2015

De incidente em incidente até à derrota de Portugal

As declarações de Costa só foram polémicas porque existe em Portugal a destrambelhada ideia de que, perante a realidade, a oposição só pode dizer mal e o Governo só pode dizer bem. 

A estratégia era simples e resultara com Sócrates: não se detalham as propostas sobre a forma como se pensa governar. Na Assembleia da República, o deputado socialista Alberto Costa defendeu mesmo que a apresentação de propostas pode "perturbar a avaliação" dos eleitores e ainda ontem, aqui no Observador, Ferro Rodrigues declarava "Faz mais sentido não avançar com propostas ou proclamações que depois não são possíveis de levar à prática depois das eleições" o que nos deixa a terrível pergunta: e das outras, aquelas que são possíveis de levar à prática depois das eleições, o PS vai continuar sem falar?
A estratégia do PS passava então pela criação de incidentes: a viagem de Maria Luís à Alemanha foi transformada num caso. Na TVI24 Santos Silva declarava mesmo que "aquela fotografia de Maria Luís ao lado de Wolfgang Schäuble podia bem ser o cartaz eleitoral nº 1 do Partido Socialista". Entretanto, nos tempos em branco dizia-se mal de Cavaco Silva, exercício que é uma espécie de ocupação dos tempos livres dos socialistas. No fim a vitória era certa. Em teoria, claro.
E eis que quando menos o esperava, o Largo do Rato vê cair-lhe em cima um incidente por causa de umas declarações perfeitamente razoáveis de António Costa. Declarações essas que só foram polémicas porque existe em Portugal a destrambelhada ideia de que, perante a realidade, a oposição só pode dizer mal e o Governo só pode dizer bem. No limite desta usança do reino temos o PCP e respectivo conglomerado sindical que desde Novembro de 1975 garantem que Portugal está pior a cada dia que passa, o que a ser verdade faria de nós uma horda de famintos errantes na Terra porque 40 anos vezes 365 dias a perder qualidade de vida teria no mínimo provocado um genocídio entre os portugueses.
(Para o PCP o país esteve bem governado desde o 28 de Setembro de 1974 até ao 25 de Novembro de 1975: nessa época as greves eram antipatrióticas – o Secretário de Estado do Trabalho, Carlos Carvalhas, não só recusou debater a Lei Sindical na RTP como o Governo considerou tal debate inoportuno – e os sindicatos arrebatados com a revolução ora transformavam um Domingo de Outubro no Dia de Trabalho para a Nação ora faziam peregrinações à Praça de Londres para agradecer ao ministro Costa Martins e ao Secretário de Estado Carlos Carvalhas o seu labor em prol do socialismo e da defesa dos trabalhadores.)
Mas o culto da inverosimilhança, que é uma característica folclórica dos partidos que precisamente por esse privilégio-fraqueza se excluem das soluções de governo, torna-se um factor perverso do funcionamento da democracia quando se chega aos grandes partidos: ao optarem por desenhar um quadro o pior possível da situação, as oposições ficam pelo desenho do apocalipse e privam-se de dizer como governariam. Já o governo resguarda-se na tese de que não há alternativa às suas opções.
Esta recusa do PS e do PSD a definirem o que os separa ideologicamente torna obviamente mais difíceis as alianças entre ambos os partidos – negociar nesta indistinção pode ser sempre interpretado pelos respectivos eleitorados como uma traição – e a nós condena-nos a um confronto político fulanizado, sem substância, que um jornalismo cada vez mais sentado amplia ao ritmo insuportável dos chiliques das redes sociais.
Mas o aspecto mais surpreendente desta polémica é que ela revelou um líder socialista inesperadamente desorientado: a não ser que pretenda ajudar as operadoras de comunicações móveis e contribuir para que o BE deixe de ser um agrupamento em vias de extinção, António Costa não está mesmo a pensar repetir a graça de mandar sms justificativos aos militantes? É que vem aí uma campanha para as legislativas e se reagir assim de cada vez que interpretam polemicamente as suas palavras acabará a mandar sms à dúzia de hora a hora.
Costa chegou a presidente da CML sem ter de travar debates a sério – nas últimas eleições municipais nem sequer houve debates nas televisões – durante anos gozou de uma excelente imprensa e, agora que passou para o primeiro plano, não parece saber lidar com as críticas e muito menos com as polémicas. A esta fragilidade, que terá de resolver rapidamente, junta António Costa um tremendo problema: as razões por que muitos o quiseram ver como secretário-geral. E nenhuma dessas razões Costa consegue resolver porque umas são do domínio da Fé – muitos socialistas acreditaram que bastaria substituir Seguro por Costa para que o PS galgasse nas sondagens e agora sentem-se desiludidos porque o seu pensamento mágico não está a funcionar! – e as outras, propiciar as condições para um retorno de José Sócrates, acabaram frustradas, o que não quer dizer que os seus promotores estejam vencidos e muito menos convencidos de que Sócrates não voltará a liderar os socialistas.
António Costa levou anos a calcular o momento certo para avançar para a liderança. Escrevi-o várias vezes a respeito desse e de outros percursos calculados com rigor: na política quem muito calcula pouco acerta. E assim Costa, que parecia ter feito tudo bem, escolheu um péssimo momento para avançar, ou melhor dizendo para finalmente atender à vaga de fundo que há muito o queria colocar à frente dos socialistas. Acontece que na mesma vaga ia uma candidatura presidencial, a de Sócrates: condecorações, livros, elogios por Ferro Rodrigues na AR… preparavam o auspicioso caminho para Belém do anterior líder socialista. Aliás, caso Sócrates não tivesse sido detido, neste momento boa parte da máquina socialista estaria arrebatadamente a tratar da sua campanha presidencial.
E aí está o busílis da questão: ao contrário daquilo que Ferro Rodrigues declarou ao Observador, o problema para os socialistas não é Sócrates estar preso. Costa tem gerido bem a questão da prisão de Sócrates – presumo que com certa fúria interna de alguns notáveis! O problema está sim na relação que o PS mantém com Sócrates enquanto político. Por muito impactantes que sejam as imagens de Sócrates a ser levado dentro de um carro da polícia, na hora de votar o problema dos portugueses é com outra imagem, com aquela em que o antigo primeiro-ministro aparece a fazer o pedido de ajuda externa. Ora ao apostar no argumentário de que está tudo pior, e ao obrigar um secretário-geral a dar o dito por não dito simplesmente porque este afirmou que o país está melhor do que em 2011, o PS criou um gigantesco problema a si mesmo: está a dar como adquirido que considera 2011 melhor do que a actualidade, coisa tecnicamente impossível de conseguir enquanto o video de Sócrates a fazer o pedido de ajuda externa não for retirado da internet em nome do direito ao esquecimento. O país não está bem, longe disso, mas está de facto diferente e diferente para melhor quando se compara com 2011.
Entendamo-nos: não tenho qualquer dúvida de que, caso o governo actual fosse socialista, que tivesse conseguido os mesmos resultados e que tivesse sido chamado a desempenhar funções após um pedido de ajuda externa efectuado por um primeiro-ministro social-democrata (posteriormente detido por suspeitas de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção) o PSD provavelmente já teria mudado de nome, a sua direcção teria sido completamente renovada e os novos dirigentes viveriam um largo ostracismo até que fossem novamente considerados pessoas ao lado de quem se podia sair nas fotografias. Que nada disso tenha acontecido ao PS só prova que ele é de facto o partido matricial do regime. Mas se os grandes partidos em Portugal e ao contrário do que aconteceu na Grécia e está a acontecer em Espanha e em França não se abatem (ainda), a verdade é que em 2015 uma campanha eleitoral em que não se discutem propostas mas sim incidentes será um desastre para o país e um factor de degradação para todos. A começar pelo PS e pelo PSD.

Escola no Chiado - Apresentação



Os problemas de Costa não estão nos seus primeiros 100 dias. Estão nos próximos 200

Costa tem, como diz o povo, "feito de mula", evitando falar e comprometer-se. É compreensível. Não sabe o que a Europa lhe vai permitir prometer, nem sabe que sarilhos ainda criarão os mitos do Syriza

Vai pelas hostes socialistas algum alvoroço sobre "problemas de comunicação", "tiros no pé", "falta de propostas", "desilusão". Ao cabo dos seus primeiros 100 dias, António Costa não transformou o partido aos olhos dos portugueses, como mostram as sondagens, e ele próprio esteve muito longe de se transfigurar no "salvador" que tantas expectativas criou ao ser eleito já lá vão cinco meses.
Porém, se olharmos com alguma frieza para o que podia António Costa ter feito para hoje a situação ser radicalmente diferente, chegamos a uma conclusão simples: é muito mais difícil ser líder do PS do que parece, porque é muito difícil ser líder de qualquer partido socialista na Europa de 2015. António José Seguro tinha alguma razão quando insistia, à beira do desespero, que o sofrível resultado eleitoral do PS nas Europeias do Verão passado era, mesmo assim, o segundo melhor resultado de um partido socialista nessas eleições, só superado pelo dos camaradas italianos, esses beneficiando nessa altura de ventos especialmente favoráveis.
Costa, que anda nisto há muitos e muitos anos, tem consciência desta situação. E é por isso que vai fazendo de mula, evitando falar e comprometer-se, pois sabe que quem anda à chuva molha-se. E para aqueles lados está a chover imenso.

1. Onde está o PS? No centro-esquerda ou cada vez mais próximo da esquerda radical?

O primeiro problema de Costa é saber onde situar o seu PS: no centro-esquerda, onde sempre esteve e onde obteve os seus melhores resultados eleitorais, ou mais à esquerda, para cobrir um flanco que, como se vê por essa Europa fora, mas é sobretudo evidente em Espanha e na Grécia, pode estar vulnerável?
Costa, como político pragmático, tem por certo consciência que o PS português só não se encontra numa situação parecida às do PASOK ou do PSOE porque teve a sorte de não ter de ser ele a aplicar o memorando da troika (agora chamada "as instituições"). É certo que o assinou e até foi o principal responsável, de longe, pelos seus termos e pelas suas metas, mas beneficiou do conforto de a partir daí estar na oposição e ser apenas treinador de bancada. Mais: mesmo que a "troika" não tivesse chegado na altura em que chegou, por via de um PEC IV, ou PEC V, ou PEC VI, o PS teria tido de apertar a tarracha como o fizeram os socialistas espanhóis, mesmo sem a presença dos inspectores das "instituições". Ou seja, teria tido um desgaste que não teve.
Quem quer tenha este realismo sabe, tem de saber, que não pode fazer grandes promessas. Não se trata de não ter ainda elementos ou estudos para poder concretizar essas promessas, é pura e simplesmente não as poder fazer. Pela razão simples de que o nosso futuro, tal como o dinheiro de que vamos dispor, deixou de estar nas nossas mãos ou de depender da nossa vontade. Foi isso mesmo que o próprio António Costa reconheceu esta semana no Lisbon Summit promovido pela Economist: "Numa União a 28 não é possível prometer um resultado que depende de negociações com várias instituições, múltiplos governos, de orientações diversas. Como se tem visto nas últimas semanas, é um erro definir uma estratégia nacional que ignore a incerteza negocial e se bloqueie numa e única solução."

2. Uma dor de cabeça chamada Syriza. Ou Podemos.

Penso que Costa não podia ser mais claro: o futuro não está nas suas mãos, não se espere muito do seu programa de governo, contentem-se lá com "uma visão para uma década" e não peçam muito mais.
É possível que, aqui há uns meses, ele ainda julgasse que podia um dia ser concreto, é possível que ao adiar a apresentação do programa para Junho ainda pensasse poder contar com uma definição mais a seu gosto das políticas europeias. Mas com o Syriza o céu caiu-lhe, literalmente, em cima da cabeça. A emergência foi tal que foi a correr dar uma entrevista ao Público quase só sobre a crise grega, porventura para deitar alguma água fria em algumas moleirinhas esquentadas da sua própria direcção política.
As primeiras quatro semanas de Syriza foram suficientes para que caíssem por terra alguns dos argumentos mais vezes repetidos pelo PS, em especial pelo PS de Costa. O primeiro desses argumentos é que tudo seria diferente se, em Portugal, estivesse um governo que levantasse a voz à Europa. O Syriza experimentou esse caminho e acabou por capitular, tendo tido apenas ganhos de causa semânticos. O segundo é que haveria espaço para uma grande renegociação das dívidas, talvez mesmo uma conferência europeia, mas tal ideia morreu quando o presidente do Eurogrupo, por sinal um socialista, disse em Atenas que essa conferência até já existe e chama-se… Eurogrupo.
Mas as dores de cabeça criadas pelo desenvolvimento da crise grega não se ficaram por aqui. Estão já marcados dois novos embates entre o Eurogrupo e a Grécia, ambos de desfecho altamente incerto, um para os finais de Abril, outro, porventura o decisivo, para finais de Junho. Como o que o PS pode ou não escrever no seu programa eleitoral depende muito de como acabarem essas duas rondas negociais com Atenas, a tinta ameaça secar nas canetas socialistas ainda antes de estas terem chegado a alinhar algumas ideias mais concretas no papel.

3. A esquerda socialista europeia está sem programa

Estes dilemas socialistas têm um pano de fundo: a esquerda socialista está sem programa e sem foco em toda a Europa. A seguir à queda do Muro de Berlim os socialistas ainda tentaram uma "terceira via", um socialismo com ingredientes daquilo a que acintosamente chamam neoliberalismo, e políticos como Guterres, Blair e Schroeder até conseguiram alguns sucessos eleitorais seguindo essa via, mesmo quando muitos grunhiam nas bases dos seus partidos. Não nos esqueçamos, por exemplo, que o primeiro-ministro que mais privatizou em Portugal foi Guterres e que o político que mais mudou as leis laborais na Alemanha foi Schroeder. Mas, para sua desgraça, esse equilibrismo só foi possível enquanto houve dinheiro e, sobretudo, enquanto se viveu na ilusão de que estávamos num tempo em que o capitalismo superara as suas crises cíclicas e se podia beneficiar da bonança de longos períodos de crescimento económico.
O dilema actual da generalidade dos partidos socialistas dos países desenvolvidos da Europa Ocidental é que, cada um à sua maneira, estão a ser vítimas do seu próprio sucesso, isto é, da concretização do modelo de sociedade que sempre defenderam: economia de mercado com Estado Social. E estão a lidar mal com os dilemas que as necessidades de reforma desse mesmo Estado Social coloca. Enquanto foi possível ir aumentando os impostos, foi possível pagar as promessas que se iam fazendo, mas isso começou a acabar ainda na década de 1970 nos países nórdicos e em Inglaterra. Mais tarde acreditou-se que o dinheiro barato poderia substituir os impostos que faltavam, e muitos começaram a endividar-se, mas tal levou depressa a descalabros como o grego e o português.
Agora a única esperança de muitos socialistas, sobretudo nos países do sul da Europa, é que sejam outros – os países do Norte – a pagar as suas despesas, em nome da "solidariedade". É isso que está por detrás de muitas propostas que o PS tem acarinhado, da mutualização da dívida à possibilidade, por exemplo, de políticas sociais europeias. Acontece que os eleitorados a quem se pede essas transferências sabem que também eles precisam do seu dinheiro para pagar um Estado Social que, mesmo sem lhe acrescentar novas valências, todos os anos consome mais dinheiro e mais dinheiro. E servem de muito pouco os choradinhos, sobretudo quando, como sucede com os gregos, as transferências de fundos da União para Atenas são superiores a tudo o que, neste momento, Atenas paga de juros da sua gigantesca dívida.
É por isto que o PS e António Costa não têm conseguido sair de generalidades sobre a aposta na educação, na inovação ou no aumento da competitividade: é que não sabem como poderão pagar as suas promessas porque já nem sabem como conseguirão pagar uma Segurança Social que todos os anos exige mais recursos ou uma Saúde cada vez mais cara porque há novos medicamentos, novos tratamentos e mais exigência ao mesmo tempo que temos uma população cada vez mais envelhecida.
Durante muitas décadas os socialistas europeus estiveram protegidos de grandes dissidências à esquerda pela presença de partidos comunistas cuja ligação à URSS limitava as possibilidades do seu crescimento eleitoral. Mas agora, quando surgem os Syrizas e os Podemos a fazerem o tipo de discurso que uma boa parte da base eleitoral dos socialistas sempre gostou de ouvir, todos os Costas desta velha Europa se sentem acossados.

4. A sombra do preso nº 44

No caso do nosso Costa, como se todas estes problemas não fossem suficientes num tempo em que os eleitorados se tornaram mais exigentes, e pedem aos candidatos para fazerem contas, ainda tem de viver com mais duas sombras que são também duas imprevisibilidades.
A primeira é a tímida recuperação económico que estamos a viver prosseguir, tornando menos pesada a carga que o governo carrega aos ombros. E mais fácil o seu discurso.
A segunda é a de Sócrates, uma sombra que para mais ameaça crescer nos próximos meses e cair sobre a campanha eleitoral. Costa deve estar a antecipar a tempestade, senão não teria gerido de forma tão cínica e tão calculista a sua única deslocação a Évora, a sua rápida visita ao preso nº 44.
A história tem pois destas ironias: o homem que calculou todos os timings para só ocupar o palco no timing certo e ter pela frente uma autoestrada que o levaria ao poder, é o mesmo homem que não consegue controlar qualquer timing, que não consegue sequer saber o que deve pensar e defender. Não gostava de lhe estar na pele, sobretudo depois das expectativas que suscitou.