quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Um Santo português




Il giorno 17 settembre 2014, Papa Francesco ha ricevuto in Udienza privata Card. Angelo Amato, S.D.B., Prefetto della Congregazione delle Cause dei Santi.
Durante l'Udienza, il Santo Padre ha autorizzato la Congregazione delle Cause dei Santi a promulgare i Decreti riguardanti:
….
O Sumo Pontífice aprovou os votos favoráveis da Sessão Ordinária dos Padres Cardeais e Bispos a propósito da canonização do Beato José Vaz, Sacerdote do Oratório de San Filipe de Néri, Fundador do Oratório da Santa Cruz dos Milagres na cidade de Goa; nascido em Benaulin (Índia) a 21 de Abril de 1651 e falecido em Kandy (Sri Lanka) no dia 16 de Janeiro de 1711.
Finalmente, Sua Santidade decidiu convocar proximamente um Consistório para a canonização do Beato José Vaz …
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Clube dos socialistas mortos


Ricardo Araújo Pereira
Crónica publicada na VISÃO 1123, de 11 de setembro
Quinta feira, 18 de Setembro de 2014 

Na qualidade de socialista falecido em 2005, venho felicitar a sua federação por possibilitar a participação de mortos no processo eleitoral

Exmo. Sr. Presidente da Federação do PS de Braga,
Na qualidade de socialista falecido em 2005, venho felicitar a sua federação por possibilitar a participação de mortos no processo eleitoral. Durante demasiado tempo, só pessoas vivas eram chamadas a votar, pelo que se saúda o alargamento do espectro eleitoral a espectros eleitores. A iniciativa de V. Exa. produz efeitos ideológicos que, tenho a certeza, hão-de marcar a história do socialismo. A velha divisa cubana "Socialismo ou morte" terá de merecer actualização, na medida em que a federação socialista de Braga demonstra que socialismo e morte não são conceitos que se excluam. Talvez em Cuba os cidadãos sejam obrigados a escolher "socialismo ou morte", mas em Braga podemos ter "socialismo e morte", tudo ao mesmo tempo. É, literalmente, o melhor de dois mundos: este e o outro.
Note que não falo em nome dos mortos-vivos, mas sim dos muito mais prosaicos mortos. Os mortos-vivos, pese embora a fama de que vêm gozando, não merecem direito de voto. As criaturas lendárias já estão muito bem representadas na vida política pelos vampiros. Acrescentar os mortos-vivos seria redundante. Os mortos, em contrapartida, nunca obtiveram representação política. O falecimento, ocorrência tantas vezes alheia à vontade do cidadão, retira-lhe o direito de voto, sem que seja apresentada uma justificação válida. A ausência de actividade cerebral não serve de desculpa, uma vez que também se verifica, quer em outros eleitores, quer em boa parte dos eleitos.
Como é evidente, coloca-se a questão de saber de que modo pode o morto participar no processo eleitoral, dadas as suas limitações. Neste ponto, permita-me que lhe apresente o meu sobrinho Nelson, que é bruxo em Esposende. É a ele que estou a ditar estas palavras. Por uma verba simbólica, o Nelson está disponível para colaborar com a concelhia do PS, transmitindo aos seus dirigentes a posição política de um vasto leque de defuntos. Todos os dias, o Nelson recebe a visita de inúmeras almas de antigos socialistas, ansiosos por participar na vida partidária. O morto, hoje em dia, já não se satisfaz com as tradicionais aparições fantasmagóricas em casa dos familiares para bater com portas e abrir torneiras. O defunto moderno quer continuar a ter uma palavra a dizer na vida cívica. O meu sobrinho Nelson pode ajudar a concelhia a registar as opiniões de antigos socialistas, por apenas dois euros por alma. No entanto, o Nelson está preparado para lhe oferecer um preço especial por atacado, a saber: 15 euros por cada palete de 10 defuntos.
Creia que somos muitos, neste lado, a querer participar. E está aqui um senhor chamado Engels que quer dar uma palavrinha a V. Exa. acerca do que é, na verdade, um partido socialista.
Com os melhores cumprimentos,
Fernando Manuel T. Guedes
Defunto

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Mário Nogueira, o verdadeiro ministro da Educação



José Manuel Fernandes



17/9/2014, OBSERVADOR

Enquanto o nosso sistema educativo for tão centralizado e tão colonizado pelos sindicatos, enquanto os pais não puderem escolher a escola dos filhos, a abertura de cada ano escolar será sempre caótica
Segunda-feira, dia de início das aulas, a certa altura levantei a cabeça do computador e olhei para a parede onde estão as televisões. Que susto: Mário Nogueira em duplicado, em dois dos canais de notícias. Felizmente os aparelhos estavam sem som.
Depois interroguei-me: mas porque é que, num dia em que o foco deviam ser as expectativas de quem inicia, ou reinicia, as aulas, quem está por todo o lado é um sindicalista que há décadas não entra numa sala de aulas a não ser à frente de um piquete de greve? A resposta é simples: porque o nosso sistema educativo é, em muitos aspectos, mais fruto dos mários nogueiras deste país do que de muitos e sucessivos ministros da Educação. A forma como este ano lectivo voltou a abrir é uma boa ilustração deste paradoxo.
Perguntam-me porque é que, todos os anos, o arranque do ano escolar é sempre um drama. Porque é que faltam sempre professores. Porque é que tantas famílias só em cima da hora conhecem horários e regras. Porque é que há sempre protestos, manifestações, escolas fechadas a cadeado e por aí adiante. A resposta habitual remete para a incompetência do Ministério (uma incompetência historicamente comprovada, reconheça-se). Quem não gostar do ministro de turno, acrescentará que a culpa é dele. Quem preferir o discurso ortodoxo dos sindicalistas, acrescentará que é por se estar a desinvestir da "escola pública".
A verdade é outra: as dificuldades, maiores ou menores, que há todos os anos por altura da abertura do ano escolar são uma consequência directa do gigantismo paquidérmico do Ministério da Educação, do seu centralismo e da sua obsessão monopolista. É também uma consequência de o foco das suas políticas ser há muitos anos os professores, as suas carreiras e os seus direitos, e não os alunos e as suas famílias.
Basta olhar para o mastodonte. O Ministério da Educação não é só a maior "empresa" portuguesa, com mais de 150 mil funcionários e uma burocracia que vomita directivas sobre directivas. O ME é também uma empresa com milhares de locais de trabalho diferentes, com necessidades diferentes, mas que está capturado por interesses sindicais que o obrigam a tratar todos os funcionários e todos os candidatos a funcionários de forma uniforme e centralizada.
O nosso ministério é fruto de uma utopia estalinista – por muito estranho que possa parecer juntar utopia e estalinismo. A utopia é a de tratar todos os professores por igual, à ordem dos sindicatos. O estalinismo resulta da única forma de o conseguir: centralizando tudo. O sistema de colocação de professores leva estas políticas ao paroxismo.
Todos estarão recordados da crise das colocações em 2004. Nesse ano o sistema bloqueou e não havia forma de distribuir os professores pelas escolas. Mais uma vez, a culpa era da incompetência, talvez do computador. Poucos sabem com foi o problema resolvido: não cumprindo a lei. Eu explico. Nesse ano, após uma negociação entre a equipa de David Justino e os sindicatos, o sistema de colocação de professores passou a ser totalmente centralizado: todas vagas abriam ao mesmo tempo, todos os professores concorriam ao mesmo tempo, tanto os que queriam mudar de escola, como os que queriam apenas arranjar uma escola. Para cada lugar em aberto, era preciso ordenar os milhares de candidatos. Quando um professor da escola A conseguia lugar na escola B, abria um lugar na escola A que antes não estava a concurso. Era então necessário refazer todos os ordenamentos, vezes e vezes a fio. O computador não aguentou – nenhum aguentaria – pelo que fez-se um pequeno truque: para esses lugares não se recalculava tudo. Não era isso que dizia a lei, mas era isso que impunha a realidade. O problema lá se resolveu, desta forma algo kafkiana.
Dez anos depois voltamos a ter problemas com as colocações. Porquê? Porque o Ministério voltou a aceitar na negociação com os sindicatos a centralização de todas as colocações, agora para aquele grupo de escolas que pacientemente, lentamente, tinham vindo a conseguir alguma autonomia. É um absurdo: se as escolas têm autonomia, deviam poder escolher os seus professores de acordo com as suas necessidades e critérios. Mas é uma realidade: a lógica sindical é que exista um único patrão, a burocracia centralizada da 5 de Outubro, não as vontades descentralizadas das escolas, das suas equipas, das famílias cujas escolhas deviam respeitar.
A cereja em cima do bolo foi fazerem estas colocações seguindo uma fórmula que não respeita o que está escrito na lei, como demonstrámos aqui no Observador. Mas se esse comportamento mostra o nível de autismo do Ministério, não é nele que está o problema: o problema está em termos o sistema educativo mais centralizado, mais burocratizado e mais dependente das negociações com os sindicatos do Hemisfério Ocidental.
Num sistema educativo centrado nos alunos, as suas famílias pressionariam as escolas para ter os melhores professores e teriam a liberdade de escolher outra escola quando isso não acontecesse – escola pública ou mesmo escola privada. No nosso sistema a prioridade não é dar aos alunos o professor que melhor se adapta às suas necessidades, é dar aos professores a escola que está mais de acordo com as suas conveniências. E a perversidade de tudo isto reflecte-se no facto de acharmos que temos professores satisfeitos com os seus empregos é sinal de que temos boas escolas e boas aprendizagens, quando isso está longe de ser verdade. Ou é mesmo mentira.
Basta pensar em duas outras falácias sindicais adoptadas pelo discurso dominante: a de que com mais professores e com turmas mais pequenas teremos melhor educação. Ao analisar o mais recente relatório da OCDE Education At a Glance, a revista The Economist mostra como isso é falso. Mais: mostra como, apesar da evolução dos últimos anos, o sistema português continua a ser um modelo de ineficiência. Não é na remuneração dos professores ou na dimensão das turmas que reside o problema português: é em pensar-se que tudo se resolve a partir da 5 de Outubro, é em aceitar a chantagem sindical, é em não devolver a palavra às famílias, que deveriam poder "votar com os pés", trocando os seus filhos de escola livremente em função dos resultados obtidos.
Mais: uma das tragédias destes nossos tempos é vermos como um ministro que chegou a falar em "implodir a 5 de Outubro" acaba também ele prisioneiro desta máquina, desta lógica e, em última análise, prisioneiro de Mário Nogueira. Ele, e todos quantos vierem depois dele enquanto esta lógica não for alterada, vão continuar a ter insónias a cada abertura do ano lectivo, como meros CEOs de uma empresa tão gargantuesca como ingerível e ingovernável.

Manifesto pela Abolição dos Trabalhos de Casa

Maria João Marques | OBSERVADOR | 17/9/2014

Não há qualquer motivo de ordem não sádica para esperar que crianças, depois de passarem a manhã e metade da tarde nas escolas, percam mais do seu dia repetindo o que fizeram na escola.
Pego no mote dado por este texto no Observador para falar numa causa que deveria juntar todas as mães e todos os pais com prole em idade escolar: a abolição da peste epidémica que são os trabalhos para casa (ou como o meu filho mais velho, garboso frequentador do 3º ano, diz, Tortura Para Crianças).
Às vezes ouço pessoas referirem-se aos TPC como algo que molda o caráter das crianças, que lhes ensina a primazia do dever (donde o irritante nome 'deveres') face aos prazeres da vida que já lhes estão disponíveis; no fundo, são a bala de prata que leva os estudantes ao sucesso académico e até, no caso de jovens em risco, lhes evita uma vida entregue ao crime ou, pelo menos, à mandriagem.
Eu apresento-me como prova de que essa teoria está errada. Sempre devotei de forma consistente um ódio razoável aos TPC e já na primária me lembro de ter a professora a enviar notas à minha mãe por ausência de TPC realizados. Lembro-me até de um incidente (talvez na sequência de tais notas) em que o conflito entre o poder maternal e a minha pessoa, à volta de uma conta de dividir, foi tão violento que eu decidi (sem disso informar o poder competente, claro) que não ia aprender a fazer contas de dividir quando a divisão era por números com dois ou mais algarismos (as por um algarismo não valia a pena desaprender). E passei assim todos os anos (e nada mal), saltando as contas de dividir nos testes de matemática, até que lá para o 8º ano me ensinaram divisões com polinómios, o mecanismo era tão evidente que eu não podia alegar não o entender (a matemática é para se perceber em vez de decorar, e aprovo as medidas programáticas que têm ido nesse sentido e fogem do ensino tradicional da disciplina) e, embora contrariada por abandonar a resolução dos meus 8 ou 9 anos, comecei a fazer divisões por números de mais de dois algarismos. (Confortada, apesar de tudo, por naquela altura já não aparecem exercícios destes nos testes, pelo que havia já pago gloriosamente o preço da minha rebelião da infância).
Também me recordo de, no Secundário e quando havia esgotado o número permitido de faltas de material, copiar os trabalhos de casa de inglês pelas minhas amigas no intervalo antes dessas aulas. Isto é tanto mais sintomático do desprezo aos TPC (sistema a ser combatido pela subversão das regras) quanto eu nunca copiei num teste – nem nunca proporcionei que copiassem por mim (pela mesma razão que nunca usaria uma carteira de imitação de uma marca conceituada: horror ao postiço).
Ora nada disto me impediu de ser sempre boa aluna a matemática, ter tirado um curso que usa matemática já complexa e, na verdade, estudar para os exames de matemática (i.e., fazer exercícios) dava-me muito prazer. Também hoje leio muito mais livros (e jornais e…) em inglês do que em português. Nem tal desamor aos TPC me impeliu a abraçar uma vida de ilegalidade nem a descurar os meus deveres como mãe de família, profissional ou cidadã. Na verdade tenho muito orgulho por sempre ter entendido que, depois de saída do colégio às quatro meia, era o que faltava gastar o resto do meu dia a fazer TPC. Primeiro queria brincar e desenhar e, mais tarde, ler aquilo que me apetecia em vez do que os professores recomendavam.
Nos casos de escolas que apenas têm aulas de manhã ou de tarde, pode justificar-se que enviem alguns TPC diariamente. E no 3º ciclo ou no secundário evidentemente há disciplinas (matemática e pouco mais) que necessitam de treino e justificam trabalhos de casa. Mas não há qualquer motivo de ordem não sádica para esperar que crianças, depois de passarem a manhã e metade da tarde nas escolas, percam mais do seu dia – em vez de estarem a descansar ou a brincar – repetindo o que fizeram na escola. Isto para além de argumentos válidos como infernizar a vida das famílias e potenciar conflitos entre progenitores e prole cansados. (Há os inválidos, como não criar 'assimetrias' aos alunos sem famílias que ajudem nos TPC – desde quando o objetivo da escola é nivelar todos por baixo em vez de promover o potencial de cada aluno?)
Dispensam-se contudo lirismos (que acordam os meus instintos bélicos ou, pelo menos, sarcásticos) do calibre (parafraseio) 'peça ao adolescente que leia um artigo no jornal e resuma'. Eu desiludo: ou as famílias têm por hábito comentar e debater notícias, políticas, eventos relevantes ou não esperem que estas conversas surjam por encenações planeadas.
Os meus filhos são incentivados a ouvir e perguntar e comentar as conversas dos adultos (as disponíveis aos seus ouvidos, evidentemente, e oh se são argumentativos) e este verão entusiasmaram-se sem medida com o 'banco bom' e o 'banco mau'. Mas ficaria algo desapontada se, chegados à adolescência, num momento de fraqueza meu lhes pedisse para lerem e resumirem um texto de um jornal e não fizessem questão de me ignorarem e falarem do tema mais superficial que lhes ocorresse (outra coisa seria recomendar-lhes lerem, e comentarem só se lhes apetecesse, algo que os entusiasmasse). Se há dever que os filhos têm é castigar as coreografias pretensiosas dos pais.

É correcto castigar os filhos?

Pe. Rodrigo Lynce de Faria


Amar os filhos é amar a sua liberdade, como Deus faz com cada um de nós. No entanto, amar a liberdade dos filhos não é a mesma coisa que uma despreocupada indiferença sobre como eles a utilizam. Este ponto parece-me importantíssimo para entender o fracasso de muitas teorias educativas actuais.

Essa despreocupada indiferença ― camuflada, talvez, por um aparente respeito pela liberdade ― pode ser sinal de um amor imaturo. Um amor que, a todo o custo e a qualquer preço, teme passar um mau bocado ou fazê-lo passar. Um amor que, no fundo, não acredita em que existe um verdadeiro bem e que vale a pena lutar por ele.
Como dizia um inglês: «Todas as pessoas são educadas em Inglaterra. O problema é que a maior parte delas está mal-educada». Penso que esta frase poderia ser pronunciada com toda a propriedade no nosso país. Não basta tentar educar. É necessário educar bem. E isso, evidentemente, exige esforço da parte dos pais. Exige, algumas vezes, saber dizer que não. Exige, em certas ocasiões, saber corrigir.

Os pais não podem tolerar qualquer comportamento da parte dos seus filhos com a "desculpa" de que respeitam a sua liberdade. O amor genuíno deseja sempre o verdadeiro bem da pessoa amada. E ― atenção ao pormenor de capital importância ― está disposto a sofrer por isso, se for necessário.

Muitos pais não corrigem ― omitem-se! Preferem não levantar ondas, deixam andar! É verdade que essa atitude é apropriada em muitas ocasiões ― mas não em todas! Sobretudo, não é adequada quando estão em jogo comportamentos de especial importância para a formação do carácter dos filhos. Se nessas ocasiões os pais se omitem, estão a enganar-se a si próprios. E, quando se dão conta disso, costuma ser demasiado tarde. Já diz o povo: "É de pequenino que se torce o pepino".
Estas reflexões suscitam perguntas que, no contexto actual, são consideradas politicamente incorrectas: «Em certos casos, pode-se dar um castigo aos filhos? Ou é melhor educar sempre sem esses métodos "antiquados"? Ofende a Deus que os pais castiguem os seus filhos?».

Em primeiro lugar, um esclarecimento oportuno: quando uso a palavra "castigo" nunca a considero sinónima de violência. São conceitos completamente diferentes. A violência nunca é educativa, nem construtiva, nem formativa.

Também não defendo que o castigo seja o melhor modo de educar. Nem o único. E muito menos o ideal. A única coisa que digo é que, algumas vezes, pode ser necessário na educação o castigo dos filhos por parte dos pais. Castigo prudente, moderado, dando as razões oportunas e sempre sem violência de nenhum tipo.
No entanto, como alguém dizia, oferecer confiança e animar os filhos ― com paciência ― costuma dar muitos melhores resultados.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Liberdade e responsabilidade pessoal



Para Popper, o conflito que no século XX opôs as democracias liberais do Ocidente aos totalitarismos nazi e comunista foi, nos seus traços essenciais, um conflito semelhante ao que opôs a democracia ateniense à tirania espartana, no século V aC. As modernas democracias liberais são herdeiras de um longo processo de abertura gradual das sociedades fechadas, tribais e colectivistas do passado – processo que terá tido início em Atenas e noutras civilizações marítimas e comerciais como a da Suméria, e que recebeu um contributo decisivo do Cristianismo.
               A sociedade aberta e os seus inimigos João Carlos Espada

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

A face pouco oculta de Sócrates

 José António Lima | SOL | 15/09/2014 

José Sócrates apareceu televisivamente muito indignado contra aqueles que insistem "abusivamente na tentativa de envolverem" o seu nome no processo Face Oculta
Fica por esclarecer a real amplitude e gravidade política do conteúdo das escutas, entretanto destruídas, das suas conversas com Vara
Ora, manda a verdade que se diga que o difícil é desligar o seu nome deste processo judicial. Porque foram os seus amigos, pessoais e partidários, de Armando Vara aos Penedos, que foram apanhados em flagrante em crimes de corrupção e burla.
Porque foi no seu consulado à frente do Governo que se criou o clima político propício para se desenvolverem, sem entraves, estas negociatas ilícitas assentes no tráfico de influências.
E, sobretudo, porque fica por esclarecer a real amplitude e gravidade política do conteúdo das escutas, entretanto destruídas, das suas conversas com Vara.
Em 2009, o procurador de Aveiro e o juíz de instrução do caso Face Oculta decidiram extrair duas certidões visando incriminar, num outro processo, o então primeiro-ministro pela "prática de atentado contra o Estado de Direito".
Sabe-se que estaria em causa, nessas escutas, o controlo e manipulação de órgãos de comunicação social pelo Governo de Sócrates – visando a marginalização de órgãos e jornalistas 'desafectos', com esquemas como a compra da TVI pela PT, para calar as vozes incómodas dessa televisão. Nesses anos, no SOL sentimos bem na pele as pressões políticas e tentativas de asfixia financeira por parte do poder socrático.
Sabe-se, também, que o PGR e o presidente do STJ da altura, contrariando a investigação de Aveiro, consideraram que as escutas não justificavam a instrução de um processo criminal. Talvez por impreparação para lidarem com um caso tão inédito e complexo, ou por receio de que o país não tivesse condições para ver cair um 1.º-ministro às mãos da Justiça, ou por afinidade ideológica ou amiguismo (Pinto Monteiro e Noronha Nascimento fizeram questão, depois, de marcar presença no lançamento de um livro de Sócrates) – fosse lá pelo que fosse, o então chefe do Governo foi poupado a um processo melindroso.
Sócrates quer convencer-nos, agora, que nada tem a ver com o processo Face Oculta. E fala depreciativamente dos "pistoleiros do costume". Devem ser aqueles, seus conhecidos, que trocam robalos por sucata.

A sociedade aberta e os seus inimigos

JOÃO CARLOS ESPADA Público, 15/09/2014 
Quando a notícia me chegou, estava então a leccionar na Universidade de Brown, nos EUA, apressei-me a voar para Londres e ainda pude estar no funeral de Popper. Nessa noite, viajando de carro com Ralf Dahrendorf entre Londres e Oxford, mantivemos longos períodos de silêncio. O nosso herói tinha partido. Mas o seu exemplo e os seus ensinamentos ficavam connosco.Na próxima quarta-feira, passarão exactamente 20 anos sobre a morte de Karl Popper, a 17 de Setembro de 1994.
Dei conta do funeral de Popper neste mesmo jornal, onde também era cronista naquela data. Talvez não seja despropositado recordar hoje o grande filósofo austro-britânico e algum do vasto legado intelectual que nos deixou.
Embora Popper tenha sido sobretudo um filósofo da ciência e do conhecimento, o seu livro mais famoso foi A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos — uma obra de filosofia política que escreveu entre 1938 e 1943, durante o exílio voluntário na Nova Zelândia, e que apresentou como o seu "esforço de guerra" em defesa das democracias ocidentais contra os totalitarismos nazi e comunista.
O livro, originalmente publicado em língua inglesa em 1945, é geralmente apontado como um dos mais influentes do século XX. Entre nós, foi inicialmente publicado em 1990, pela Editorial Fragmentos, e foi reeditado pelas Edições 70 em 2012.
A Sociedade Aberta foi aplaudida por filósofos, políticos e estadistas de várias inclinações políticas democráticas, à esquerda e à direita. Em Portugal, Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral, declararam-se admiradores do velho filósofo. Tive o privilégio de acompanhar cada um deles em visitas privadas a casa de Karl Popper, em Kenley, perto de Londres, em 1992 e 1993, respectivamente.
O impacto imediato da publicação de A Sociedade Aberta e os seus Inimigos centrou-se na sua crítica demolidora do marxismo, em nome da tradição da liberdade e responsabilidade pessoal.
Em primeiro lugar, Popper reconheceu e elogiou o impulso moral humanitário e "melhorista" subjacente à doutrina de Marx, o impulso para melhorar a sorte dos nossos semelhantes e aliviar o sofrimento humano susceptível de ser evitado. Mas, simultaneamente, acusou a doutrina de Marx de ter abandonado e até "atraiçoado" esse impulso moral humanitário que lhe dera origem, em troca de uma ideologia dogmática e destituída de moral, ou moralmente relativista. Por outras palavras, Karl Popper condenou a mensagem moral de Marx em nome dos próprios princípios morais humanitários de que Marx se reclamara.
Em segundo lugar, Popper dissecou o conteúdo substantivo da doutrina de Marx, agora separada do seu impulso moral, e acusou-a de reaccionária. Colocou-a sem hesitações ao lado das ideologias contrárias à sociedade aberta, as ideologias totalitárias, de esquerda ou de direita, como o nacional-socialismo, ou nazismo, e o fascismo, que "continuam a tentar derrubar a civilização e regressar ao tribalismo". Por outras palavras, Karl Popper condenou a doutrina de Marx em nome da ideia de progresso de que Marx se reclamara.
Em terceiro lugar, Popper criticou duramente a ilusão do "socialismo científico" que Marx acabara por colocar no centro da sua doutrina. Popper mostrou que o "socialismo científico" simplesmente não existe. Trata-se de uma superstição primitiva e profundamente contrária à atitude científica, uma superstição dos que "acreditam que sabem, sem saberem que acreditam", a que Popper chamou de historicismo. Por outras palavras, Popper criticou a doutrina de Marx em nome da atitude científica de que este se reclamara.
Para Popper, o conflito que no século XX opôs as democracias liberais do Ocidente aos totalitarismos nazi e comunista foi, nos seus traços essenciais, um conflito semelhante ao que opôs a democracia ateniense à tirania espartana, no século V aC. As modernas democracias liberais são herdeiras de um longo processo de abertura gradual das sociedades fechadas, tribais e colectivistas do passado – processo que terá tido início em Atenas e noutras civilizações marítimas e comerciais como a da Suméria, e que recebeu um contributo decisivo do Cristianismo.
É esta sociedade aberta que está hoje de novo sob ataque cerrado do fundamentalismo islâmico e, em grau menor, da autocracia russa. Resta saber se ainda queremos defendê-la, ou se vamos render-nos à vulgata politicamente correcta, segundo a qual a culpa dos ataques que sofremos é sempre de nós próprios — da sociedade aberta do Ocidente, a que os seus inimigos chamam capitalista e imperialista.

O aquecimento global arrefeceu a esquerda fracturante

Alexandre Homem Cristo | OBSERVADOR | 15/9/2014

O aquecimento global estagnou. O facto representa uma derrota política da corrente ideológica que usou a ciência para legitimar o seu radicalismo contra o capitalismo.
Diz a esquerda fracturante que o aquecimento global é uma evidência dos nossos tempos – e só alguém cego e pleno de má-fé poderia pôr em causa o que é evidente. É este o ponto de partida para qualquer debate sobre o assunto, que tem como cenário uma previsão apocalíptica quanto ao futuro do planeta. E com uma causa simples de identificar: a poluição causada pelo homem. Ou seja, o aquecimento global é resultado directo da acção humana, nomeadamente de um modo de vida ligado ao ócio, ao individualismo e ao consumo. Em suma, ao capitalismo. Foi esta a convicção que dominou o debate público e, durante anos, foram raros os que se atreveram a desconfiar. Até porque, como sempre nos relembravam, nunca se tratou de uma questão de opinião ou de visão política, mas de ciência – isto é, de factos incontestáveis e, consequentemente, de evidências.
Só que, recentemente, as evidências deixaram de ser evidentes. De acordo com um artigo publicado na reputada revista "Science", o aquecimento global estagnou no início deste século e, tudo indica, assim permanecerá até cerca de 2030. Isto apesar do aumento das emissões de gases com efeito estufa – ou seja, isto apesar da acção humana –, sendo o oceano Atlântico a (provável) principal explicação para o fenómeno. Ora, a descoberta é particularmente relevante, por duas razões principais: mostra como é complexo o equilíbrio de factores que têm influência sobre o clima (e como sabemos pouco acerca desse equilíbrio), e mostra que a acção humana não é o factor dominante nessa relação. Dito de forma simples, a conclusão é que, por mais que tantos o desejem, o homem não controla o clima.
De facto, acreditar no contrário foi sempre demasiado fácil. Essa relação de causalidade entre a acção do homem e o clima impõe uma visão do mundo que nos é querida: a de que o homem é a razão e a causa de tudo. Da mesma forma que, na idade média, se acreditava que tempestades e terramotos eram castigos divinos pelos pecados humanos, hoje há quem identifique num furacão a consequência directa da exploração petrolífera. A ciência substituiu a religião, mas o raciocínio manteve-se – continuamos a acreditar que tudo depende só de nós.
Mas mais do que fácil, foi útil acreditar. Politicamente útil. Porque o que verdadeiramente interessa é o carácter político da alegada relação causal entre a acção humana e o clima. Essa não foi um acidente, foi deliberada. E não foi imposta pela ciência, foi mesmo uma opção ideológica. Para alimentar os activismos e moralizar debates. Para fixar o modo de vida ocidental como raiz da ameaça à sustentabilidade do planeta. Para impor como solução a ruptura com esse modo de vida. Para, no fundo, fazer do aquecimento global o alibi para legitimar a luta contra o capitalismo e a defesa do socialismo. Durante décadas, funcionou. Manifestos, protestos, agendas fracturantes. Houve de tudo. Agora, está na hora de virarmos a página.
Olhando para trás, é de certo modo chocante verificarmos que tanta gente tenha escolhido acreditar numa relação de causalidade tão fragilmente demonstrada em termos científicos. Sim, porque a questão-chave nunca foi reconhecer que há aquecimento global ou que a acção humana pode contribuir para o efeito estufa (isso está efectivamente demonstrado), mas sim o estabelecer de uma relação causa-efeito entre a acção humana e esses fenómenos climatéricos. Esse salto lógico, que nunca foi devidamente sustentado, foi rápida e acriticamente aceite. Confirmou-se a regra: uma boa mentira, para ser credível, tem de ter uma ponta de verdade.
Obviamente que nada disto significa que o ambiente não deva ser cuidado ou que, perante estas descobertas, ganhámos o direito de esburacar a camada de ozono à nossa vontade. Nada disso. O que está em causa é uma dupla lição. A de que o homem não controla tudo. E a desta importante derrota política. A de uma corrente ideológica que usou a ciência para esconder o seu radicalismo contra o capitalismo. Pela ciência se ergueu. Pela ciência caiu.

15 de Setembro - Nossa Senhora das Dores

As sete dores de Nossa Senhora
ALBRECHT  DURER c. 1500
óleo sobre tela 189x 138 cm
Alte Pinakothek, Munich e Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden.

Nossa Senhora das Dores 
A festa de hoje liga-se a uma antiga tradição cristã. Contam que, na Sexta-feira da Paixão, Maria Santíssima voltou a encontrar-se com Jesus, seu filho. Foi um encontro triste e muito doloroso, pois Jesus havia sido açoitado, torturado e exposto à humilhação pública. Coroado de espinhos, Jesus arrastava até ao Calvário a pesada cruz, para aí ser crucificado. Sua Mãe, ao vê-lo tão mal tratado, com a coroa de espinhos, sofre de dor. Perdendo as forças, caiu por terra, vergada pela dor e pelo sofrimento de ver Jesus prestes a morrer suspenso na cruz. Recobrando os sentidos, reuniu todas as suas forças, acompanhou o filho e permaneceu ao pé da Cruz até o fim.
Inicialmente, esta festa foi celebrada com o título de "Nossa Senhora da Piedade" e "Compaixão de Nossa Senhora". Depois, Bento XIII (1724-1730) promulgou a festa com o título de "Nossa Senhora das Dores".
Somos convidados, hoje, a meditar os episódios mais importantes que os Evangelhos nos apresentam sobre a participação de Maria na paixão, morte e ressurreição de Jesus: a profecia do velho Simeão (Lucas 2,33ss.); a fuga para o Egipto (Mateus 2,13ss.); a perda de Jesus aos doze anos, em Jerusalém (Lucas 2,41ss.); o caminho de Jesus para o Calvário (João 19:12ss.); a crucificação (João 19,17ss.); a deposição da cruz e o sepultamento (Lucas 23,50ss.). 

Barbárie e civilização

JOAO CÉSAR DAS NEVES
DN 2014.09.15

A Rússia anexou a Crimeia, na primeira violação de fronteiras da Europa desde 1945, começando o que ameaça ser um terrível conflito. No Iraque e Síria, sempre tão turbulentos, surge agora o Estado Islâmico (IS), com terríveis massacres e proclamando a 29 de Junho um califado mundial. Que já tem concorrência, pois o sangrento Boko Haram da Nigéria declarou outro califado global a 24 de Agosto. Como podem coisas destas acontecer hoje?
A pergunta, muito comum, esconde enorme ingenuidade. Porque razão havia de hoje ser melhor que ontem ou antigamente? Que temos nós de especial que nos torna imunes ao vandalismo? Coisas destas sempre aconteceram e vão acontecer. Como sempre teremos patetas que se surpreendam com elas.
Exaltar a civilização e contrapô-la à barbárie é razoável, hoje como antigamente. Mas se uma das culturas mais avançadas e sofisticadas da história, como a Alemanha dos anos 1930, cai na selvajaria nazi, das mais abjectas de sempre, isso devia vacinar-nos contra a tolice de nos dizermos imunes à bestialidade.
Vladimir Putin é um político irresponsável e violento, coisa comum em todos os países do mundo. Putins há muitos. Mais assustador do que as suas infâmias é que elas lhe concedam enorme popularidade nacional. Há menos de um ano o apoio nas sondagens do presidente russo era miserável, atingindo níveis invejáveis precisamente após esta violação do direito internacional e da decência humana. Mas os russos não são monstros, selvagens ou lunáticos. São pessoas como nós, humanas como nós, vendo o outro lado do problema.
Não é preciso ser monstro, selvagem ou lunático para pactuar com ideais, propostas e acções inaceitáveis. Por exemplo, pacatas donas de casa portuguesas têm dito coisas incendiárias acerca da troika ou do Governo. Se a crise em Portugal continuar mais uns anos, não só os lusitanos apoiarão as loucuras de um qualquer Putin que apareça, mas vemos já vários candidatos ao lugar.
Nesta triste história a única coisa aberrante, embora compreensível, é que os países ocidentais estivessem prestes a desmantelar a NATO, considerada obsoleta. A virtude deste terrível acto de Putin foi mostrar a tolice, ainda a tempo de correcção.
O califado é ainda menos estranho do que a invasão da Crimeia. Basta olhar para o caos do Médio Oriente e Norte de África dois anos após a romântica Primavera Árabe para o compreender. A imprensa ocidental tem pintado o IS como uma força terrorista primitiva. De facto, as atrocidades são inqualificáveis, mas essa descrição mostra enormes deficiências. Se consideramos o fenómeno das dezenas de milhares de jovens europeus que têm acorrido à região para se alistarem nessas forças, entende-se como as coisas são muito mais complexas. Essas pessoas não são monstros, selvagens ou lunáticos. São exactamente como nós ou os nossos filhos. Usam o Facebook, dizem piadas, gostam de comida de plástico, e anseiam pela ordem e a paz interior que o islão lhes promete. Como nós gostamos de ter ordem e paz interior.
As pessoas que consideram esses acontecimentos surpreendentes esquecem as terríveis críticas que elas mesmas têm feito à sua própria sociedade noutras circunstâncias. Muitos dos que dizem que a Europa está perdida, que os nossos líderes são trogloditas e o sistema vai derrocar, logo a seguir afirmam não entenderem como podem os russos ou iraquianos odiarem tanto o Ocidente. Esses povos, afinal, limitam-se a levar a sério aquilo que nós mesmos dizemos sobre nós.
Os horrores da Ucrânia, Iraque e Síria, como Egipto, Líbia, Nigéria e tantos outros, deviam, não levar-nos a classificar russos ou árabes, mas a pensar em nós. Assim vemos como somos muito piores e muito melhores do que achamos. A Europa, tendo abandonado a religião, desmantelado a família, comercializado a cultura e corrompido as instituições, não se pode surpreender que os outros povos a desprezem e seduzam os seus jovens. Mas, apesar das crises, livre de ditadores e fanáticos, massacres e caos, a Europa permanece um dos melhores cantinhos do planeta.

Como se decapita o Estado Islâmico?

LEONÍDIO PAULO FERREIRA
DN2014.09.15

Se fosse um país, o Estado Islâmico (EI) perderia em horas a guerra com os Estados Unidos. Mas o território do tamanho de Portugal, a população de oito milhões e os 30 mil homens em armas são enganadores. E adivinha-se que apesar da nova estratégia de Obama, da solidariedade dos europeus e até da disponibilidade dos árabes para bombardearem os jihadistas, derrotá-los não será nada fácil.
Foi o avanço-relâmpago sobre Mossul em junho que revelou a força do EI. Não só conquistou a segunda cidade do Iraque como mostrou a fraqueza do exército, com soldados em fuga e a esquecer as armas. Sabia-se que era a reencarnação da Al-Qaeda no Iraque e que tinha aproveitado a guerra na Síria para mostrar serviço, atrair combatentes e alargar ambições. O mundo descobria uma eficaz máquina de guerra e de terror.
Suspeita-se que o génio militar venha de certos ex-oficiais do exército de Saddam. A invasão americana de 2003 deixou a minoria sunita encurralada, pois Bush filho mandou purgar as casernas e sanear a administração. O revanchismo dos xiitas, novos senhores de Bagdad, fez o resto. E aqueles que eram base de apoio do laico Saddam reconverteram-se em jihadistas.
Há aqui semelhanças com o que se passou no Afeganistão. Punidos após o 11 de Setembro pela aliança com a Al-Qaeda, os talibãs pareciam acabados quando o mullah Omar foi visto a fugir de moto, mas 13 anos depois controlam boa parte do país. A explicação é que a etnia pastune insiste em vê-los como bastião contra os líderes pró-América de Cabul. E distinguir entre talibãs e aldeãos é impossível.
Será esse, também, um dos desafios maiores no Iraque. Bombardear colunas de viaturas militares é fácil nesta era de drones. Garantir que Mossul fica livre de fanáticos do Estado Islâmico é outro assunto. Pode haver dez a 12 mil estrangeiros nas fileiras do grupo, até muitos europeus, mas a base da sua influência são os sunitas iraquianos, como Al-Baghdadi, o homem que proclamou já o califado e que não exclui reconquistar para o islão os Balcãs e a Península Ibérica.
Claro que o EI, tão radical que até a Al-Qaeda o critica, não é invencível. Uma América determinada, e incentivada até pelo Irão, é temível. Mas é preciso evitar que uma vitória seja ilusória. Isso significa prevenir que opções tão lógicas como armar os curdos não abram em breve outra frente, que o impacte na Síria não favoreça o regime de Assad ou que as concessões ao Irão não empurrem as monarquias do Golfo para novos apoios aos fundamentalistas sunitas. Outro risco é os emires sofrerem contestação interna por enviarem os seus caças bombardear árabes ao serviço de Obama.
Decapitar o EI implica, pois, mais do que lançar bombas. Só a estratégia militar não resultou com a Al-Qaeda e os talibãs. Não será agora que bastará, por muito que se deseje o fim de terroristas que perseguem cristãos e outras minorias, degolam jornalistas e até prometem invadir o Ocidente.

Carta-convite Peregrinação Lisboa - Fátima de Comunhão e Libertação


domingo, 14 de Setembro de 2014

Glórias britânicas


José Maria André

Acabaram-se as minhas férias no Reino Unido, durante as quais assisti a aulas muito interessantes sobre a história da Igreja naquele país. Aprendi imenso.
Os historiadores ingleses não escondem alguma página triste, como a perseguição aos católicos (ainda não completamente abolida em certos aspectos práticos), no entanto, o balanço é extraordinário, até na lucidez com que este povo olha o seu passado.
Um ponto alto da história britânica é a participação política. A democracia foi arraigando e no século XVIII já era uma conquista civilizacional razoavelmente consolidada.
Outra das glórias do país é a abolição da escravatura moderna. A escravatura já desaparecera na Europa nos primeiros séculos do cristianismo e assim continuou durante toda a Idade Média, mas depois, com os descobrimentos marítimos, voltou. Reagiram os Papas, alguma gente de bom coração esforçou-se por libertar os escravos e proporcionar-lhes melhores condições mas, apesar de pequenos êxitos, os interesses económicos prevaleceram e a Europa voltou a praticar a escravatura. Foi em Inglaterra, no final do século XVIII, que a situação se alterou, sobretudo graças a William Pitt e a William Wilberforce (lembram-se do filme «Amazing Grace»?).
William Pitt, considerado o melhor Primeiro-Ministro inglês, chegou ao cargo com 24 anos de experiência, ou, para o dizer de forma mais clara, foi Primeiro-Ministro com 24 anos de idade. Dizia-se que «would not last out the Christmas season» (não ia chegar ao Natal), mas sobreviveu 17 anos, com vários êxitos eleitorais retumbantes. Pitt ficou na história pelo sucesso económico e social, pela «revolução» na política monetária, por vitórias militares (como a batalha de Trafalgar, que aniquilou a armada napoleónica, desejosa de invadir a Grã-Bretanha). Sobretudo, Pitt ficou conhecido pela sua integridade pessoal e pelas causas cívicas em que se empenhou, principalmente a abolição da escravatura, conseguida ao fim de duas décadas e meia de esforço conjunto com o seu amigo William Wilberforce.
Outro objectivo de William Pitt era mitigar a perseguição aos católicos, mas o rei Jorge III opôs-se, com o argumento de que isso iria contra o juramento que fizera ao tomar posse como rei. Em consequência, Pitt demitiu-se. Entretanto, já tinha conseguido que o espírito prático dos ingleses aceitasse algumas mudanças. Por exemplo, convenceu-os de que era melhor os padres católicos serem formados no seu país do que terem de ir estudar para o estrangeiro, nomeadamente para França, expostos às loucuras ideológicas da Revolução Francesa. Com esse argumento de sentido prático, conseguiu que um rei ferreamente anticatólico fundasse e financiasse a Maynooth University, em 1795, uma universidade católica!
O grande colaborador de Pitt, William Wilberforce, homem de profunda religiosidade, também tinha simpatia pelos católicos. Tentou, sem êxito, que o catolicismo fosse aceite e que os católicos pudessem ser funcionários públicos e até ser eleitos para o Parlamento. Grande parte da família Wilberforce converteu-se ao catolicismo durante o século XIX e isso teve grande eco, porque eram personalidades de grande craveira e muito estimadas.
Outro exemplo do espírito prático dos ingleses é a forma como promoveram a escolaridade. Em vez de criarem escolas estatais, apoiaram as boas escolas. Foi deste modo que as escolas católicas floresceram com o apoio do Estado, porque tinham prestígio académico e eram preferidas por muitas famílias, apesar de o número de católicos na época ser ínfimo. Esta política fez com que a taxa de alfabetização chegasse a 100% no Reino Unido, um século antes de alcançar 10% em Portugal e em muitos outros países do mundo.
Ainda hoje, quando os ingleses falam de «escola pública» referem-se a qualquer escola, porque são todas apoiadas pelo Estado, a começar pelas católicas. Quando lhes explico que em Portugal «escola pública» significa «escola estatal», eles abrem a boca de espanto: vocês deixam que os funcionários públicos fiquem com o vosso dinheiro e decidam a educação dos vossos filhos?
Há coisas que ultrapassam a capacidade de compreensão dos ingleses.

José Maria C. S. André
«Correio dos Açores», «Verdadeiro Olhar», 14-IX-2014


Um aspecto da Maynooth University, uma universidade católica fundada por um rei anticatólico, num país onde o catolicismo era perseguido.

Em baixo, pormenor da capela da Maynooth University.