quinta-feira, 28 de julho de 2016

Não sabem o que dizem

João César das Neves
DN20160728

Até há uns meses nunca contemplaria escrever um artigo assim. Em temas financeiros é preciso muito cuidado ao falar em público. Declarações negativas ou só ambíguas podem ter consequências drásticas e inesperadas. A base das finanças é a confiança, que pode ser abalada por frases imprudentes acerca da reputação de uma instituição. Sou apenas um académico sem qualquer influência real, mas mesmo assim a prudência recomenda nunca escrever um artigo destes.
Pior, a situação financeira está ao rubro. Não só o mundo ainda anda combalido, após uma das maiores crises da história, sofrendo já novos choques, não só as taxas de juro estão a níveis impensáveis, como a sucessão de assustadores casos bancários nacionais pôs os aforradores com os nervos em franja. Num clima tão explosivo, nunca escreveria um artigo assim.
Só que hoje parece que entrámos num mundo surrealista, onde os responsáveis fazem as declarações mais inacreditáveis, com ligeireza e insensatez que tocam as raias da loucura. Em particular, depois do passado dia 18, entrámos no reino da imbecilidade institucionalizada. Peço desculpa, mas assim vou escrever um artigo destes.
Tudo começou com uma situação inaudita, ao termos o governo apoiado por forças que há anos pressionam para que se faça uma reestruturação da dívida. E mesmo depois de terem tomado a posição de pseudocoligação, PCP e Bloco de Esquerda mantiveram a proposta. Dizer isso na oposição, como partidos extremistas e irrelevantes, ninguém levava a sério. Mas a histórica opção de António Costa colocou-os a dominar a situação, e tudo mudou de figura.
Como é que uma entidade com responsabilidades políticas pode apregoar que se deve reestruturar a dívida, enquanto o governo que apoia está todos os dias a pedir mais dinheiro emprestado? O problema não é terem ou não razão sobre essa necessidade, mas, precisamente se a tiverem, ser muito estúpido anunciar a urgência. A fazer-se, uma reestruturação deve ser súbita, disfarçada ou diluída num programa europeu. Nunca declarada.
A nossa dívida pública é enorme. Tão grande que não apenas o PCP e o Bloco, mas também os mercados financeiros têm fortes desconfianças de que a possamos sustentar. Apesar disso, os sucessivos governos têm garantido que cumprirão pontualmente todas as suas obrigações creditícias. Porquê? Na visão conspirativa dos esquerdistas isso só pode ser enfeudamento aos interesses do capital. Mas há outro motivo mais simples: uma reestruturação fica sempre horrivelmente cara. E aumenta de custo se for vaticinada.
A atitude é idiota, mas não teve grandes efeitos, provavelmente porque, apesar de tudo, ninguém ainda leva a sério quem tem tanta dificuldade em abandonar os hábitos irresponsáveis de agitador arrivista. Então chegou o dia 10 de Abril de 2016, quando o senhor primeiro-ministro deu uma grande entrevista ao DN e à TSF. Aí afirmou com naturalidade: "Acho que era útil ao país encontrar um veículo de resolução do crédito malparado, de forma a libertar o sistema financeiro de um modo que dificulta uma participação mais ativa nas necessidades de financiamento das empresas portuguesas." No dia seguinte, o The Wall Street Journal punha como título: "O primeiro-ministro português diz que um "banco mau" pode ajudar a economia".
Se fosse uma potência inimiga pretendendo minar a confiança na nossa banca, assustar os depositantes e impedir que investidores estrangeiros cá colocassem as suas poupanças, era compreensível a afirmação. Na boca de um primeiro-ministro atinge o delírio suicida. Isso não se diz, faz-se. Ele não fez, conversou sobre o tema. A partir dessa data toda a gente ficou a saber que a nossa banca está por um fio. A partir dessa data eu podia escrever um artigo destes. Mas não escrevi, até contemplar o que nunca acharia possível: ver um governo encostar uma pistola à cabeça de um banco ferido e serenamente puxar o gatilho.
No relatório que acompanha a carta que Mário Centeno enviou à Comissão Europeia, nas "Alegações fundamentadas de Portugal no âmbito do processo de apuramento de eventuais sanções", está escrito na página 8: "De acordo com a carta e compromisso da República Portuguesa sobre o Novo Banco, o banco será vendido até agosto de 2017; se não for, entrará num processo de liquidação ordeira." Ordeira!? Depois disto, quem quererá ter poupanças nesse banco? Sem as poupanças, quem quererá comprar o banco? Assim tenho de escrever este artigo: por favor, alguém diga a esses senhores para se calarem. Com dirigentes destes, não há sistema que resista.

A Taça das Zero Sanções

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 27/07/2016

O pior que pode acontecer a Portugal é a perpetuação das desculpas externas para esconder as incompetências internas.

Pronto. Já cá canta mais uma taça. Portugal continua a vencer na Europa. 
Contra todos as expectativas, e após um forte pressing final do adversário que levou o próprio treinador português a duvidar da vitória (“a situação aparentemente não está muito simpática para Portugal”, disse ontem António Costa), lá conseguimos erguer a Taça das Zero Sanções. Marcelo pode encomendar as medalhas. Todos estão contentes: o governo está contente porque Pierre Moscovici plagiou os seus argumentos epistolares em conferência de imprensa; o PS está contente porque ergueu a voz e Pedro Nuno “Até as Pernas Lhes Tremem” Santos foi enfim vingado; o Bloco está contente porque já não tem de referendar nada; o CDS está contente porque defende as zero sanções desde pequenino; o PSD está contente porque espera que a frase “contas de 2015” não mais seja invocada até à segunda vinda de Cristo à Terra; e o PCP… bom, o PCP não está contente, mas também não podia estar: no que diz respeito à Europa, o partido enveredou pelo anarco-sindicalismo e entende que a Comissão não tem o direito de passar multas, mesmo que sejam zero.
Já agora: eu também estou contente. Não por ser sensível ao patriotismo lamecho-pedinchão que tem dominado a canícula, mas por uma razão muito prática: agora, há menos uma desculpa à qual António Costa se agarrar. Ao longo dos últimos meses, o nosso querido primeiro-ministro colou-se como uma lapa ao discurso das zero sanções porque ele lhe permitia mil e uma distracções. Agora está na hora de dar o corpo pelas suas políticas e pelas políticas do seu Governo, sem a desculpa de que a Europa está malvadamente entretida a sabotar o seu keynesianismo de casino, impedindo a esquerda de regovernar e mostrar ao mundo o quão bestial e amiga do crescimento é a sua aposta no consumo interno e na devolução dos rendimentos aos funcionários públicos. Não há multa, não há injustiça, não há sanções – o Governo que leve a taça e comece finalmente a assumir as consequências dos seus actos.
O pior que pode acontecer a Portugal é a perpetuação das desculpas externas para esconder as incompetências internas. Sócrates teria sido um primeiro-ministro bestial se não fosse a malfadada crise das dívidas soberanas; Passos Coelho teria sido um primeiro-ministro bestial se não fosse o malfadado programa da troika e os chumbos do Tribunal Constitucional; António Costa teria sido um primeiro-ministro bestial se não fossem as malfadadas sanções e as imposições dos tratados que o impedem de conduzir o país até à terra onde escorre o leite e o mel. As políticas destes três senhores divergem, mas as desculpas, essas, convergem. É assim desde sempre. A ausência de uma cultura liberal e a falta de fé nas capacidades de cada um é compensada com a criação de uma extraordinária máquina de produzir desculpas que funciona a todo o vapor desde tempos imemoriais. É a máquina dos “ses”. Nós teríamos conseguido, se…; nós teríamos vencido, se…; nós teríamos atingido, se…
A Taça das Zero Sanções é menos um “se…” no nosso caminho, menos uma desculpa para juntar à pilha. Com a vitória, veio também a conta: consolidação de mais 450 milhões em 2016 e proposta para aumentar o IVA em produtos com taxa reduzida. Isso parece-se demasiado com o plano B que António Costa disse que não existia. Logo se verá. O fundamental é isto: dar espaço ao Governo para ganhar ou perder por si próprio. Sem mais “ses”. Sem mais desculpas.

Este mundo não é nada como tínhamos imaginado

José Manuel Fernandes
Observador 28/7/2016

O multiculturalismo falhou porque ignorou a centralidade dos nossos valores. O laicismo também falhou pois ignorou que a modernidade não é só filha do Iluminismo, é também da tradição do cristianismo.

Não foi assim que imaginámos que ia acontecer.
Não imaginámos que a globalização, que muitos diziam que ia empobrecer os pobres, causasse afinal problemas nos países ricos. E por isso não vimos chegar Donald Trump, como antes não compreendêramos o significado do voto popular em Marine Le Pen ou em Nigel Farage.
Não imaginámos que aqueles que foram sendo acolhidos na Europa como imigrantes se voltassem tão violentamente contra os valores dessa mesma Europa. Não imaginámos que uma, duas gerações depois de chegarem continuassem não apenas a não estar integrados, como a recusar a integração.
Não imaginámos que, depois da revolução portuguesa de 1974, das transições democráticas na América Latina, desse maravilhoso ano de 1989 em que caiu o Muro de Berlim, os regimes autoritários voltassem a ter prestígio e até apoio popular. Tal como não imaginámos que a ideia de “primavera democrática” não tivesse o mesmo sentido, nem o mesmo destino, nas duas margens do Mediterrâneo.
Eu sei que houve muitos avisos. Que muitos alertaram para o excesso de optimismo. Que houve quem previsse uma viragem dos ventos, quem notasse que, na viragem do século, estávamos porventura a viver um momento de “viragem da maré”, e que vinham aí tempos menos previsíveis, mais turbulentos, com menos liberdade, com menos esperança.
Eu sei isso tudo, até porque várias vezes, ao longo destes anos, alertei para a necessidade de algum cepticismo: a História não é um processo com um só sentido, a ideia de que se pode forçar o Progresso (com P maiúsculo) é mesmo das mais perigosas.
Mas, convenhamos, não me recordo de alguém ter previsto esta espécie de “tempestade perfeita” em que parece estarmos a entrar neste Verão de 2016. E não, não é a economia, pois nunca houve tanta riqueza ao dispor de tantos no conjunto da Humanidade. E não, também não é guerra, pois a verdade é que também nunca, na história da mesma Humanidade, houve tão poucas guerras e, proporcionalmente, tão poucas pessoas a morrer de morte violenta.
Os eleitores de Trump ou Le Pen podem sentir-se deixados para trás pela globalização, mas não deixam por isso de ter acesso a níveis de conforto e de consumo que mesmo há uma ou duas gerações eram inacessíveis mesmo àquela pequena parte da população mais rica. Os terroristas de Nice ou de Ansbach ou de Bruxelas podem invocar discriminação, mas a verdade é que todos eles tinham acesso a níveis de protecção social ou a condições de liberdade inimagináveis nos países de onde vinham, ou de onde os seus pais tinham vindo.
Eu sei que porventura não devia estar a colocar num mesmo saco fenómenos que são muito diferentes, assim como associar num mesmo parágrafo eleitores inquietos com criminosos sem nome. Amalgamar tudo nunca é bom critério – mas também não é esse o meu objectivo. A preocupação é outra: é ter a imagem de conjunto. É ver como há certezas, ou expectativas, que se esboroam, escapando-se por entre os dedos das nossas mãos, tal areia fina.
É que é essa imagem que surpreende, e não apenas pela vertigem das notícias, que podem ser tão distintas como um motim racial nuns Estados Unidos presididos por Barack Obama, ou a eleição de Trump (por enquanto apenas como candidato republicano), a vaia dos delegados híper-radicalizados na conferência do partido democrata, a subida do populismo nacionalista e do extremismo de esquerda entre os eleitorados europeus, a opção de jovens educadas nas nossas escolas por deixarem os seus trajes europeus e regressarem à niqab ou mesmo à burka, enquanto outros defendem restrições à liberdade em nome do direita a não ser ofendido, tudo isto para não falar dos ataques de Orlando, de Nice, de Ansbach e, agora, de Saint-Étienne-du-Rouvray. O que teve por palco uma igreja. Aquele em que um padre de 86 anos foi degolado, numa encenação semelhante à realizada com os reféns do deserto sírio.
Essa é a imagem de um mundo que não imaginávamos possível ainda há poucos anos. Um mundo onde as democracias parecem mais frágeis, mais susceptíveis de sucumbirem perante as investidas do autoritarismo, do populismo ou do radicalismo, ou de tudo isto à mistura. Um mundo onde a convivência e a integração se revelam muito difíceis de conseguir, antes regridem. Um mundo que, afinal, não partilha valores que considerávamos, e consideraramos, universais, mas que uns contestam, outros repudiam, outros combatem de forma encarniçada.
Um dia vamos ter de discutir a sério as razões do refluxo da maré que parecia trazer liberdade e prosperidade para cada vez mais, e isto sem nos reduzirmos aos simplismos de culpar outros – sejam eles os mercados financeiros, a guerra do Iraque ou a ignorância das classes baixas e dos velhos que votam sempre mal. Nessa altura talvez compreendamos algumas coisas.
A primeira, é que as instituições que deram corpo às nossas democracias e que permitiram a nossa prosperidade não nasceram do nada e muito menos, como alguns sugerem, da rapina do tempo dos impérios. Essas instituições, sendo produto de uma longa maturação, têm raízes na cultura judaico-cristã que é – ou era, digo temerosamente – a do Ocidente. Um Ocidente que também é filho da tradição grego-romana e do iluminismo. Um Ocidente que também não pode esquecer que a solidariedade não existe sem uma forte ética do trabalho, que os cidadãos estão antes do Estado, que a democracia é sobretudo sobre regras, não sobre resultados. Se não percebermos que é tudo isto que faz (ou ainda faz) a nossa identidade, nem sequer perceberemos o que estamos a defender.
A segunda, é que temos de encontrar formas de adaptar as expectativas à realidade. Se é mentira que tenha existido um passado paradisíaco a que valesse a pena regressar, como sugerem muitas nostalgias, também é verdade que o grande desafio das nossas sociedades e dos nossos políticos vai ser o de viver com pouco ou nenhum crescimento. Há dois séculos que não sabemos o que isso é na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, pelo que temos pela frente o grande desafio de aprender a viver em democracias que já não vão conseguir oferecer o progresso material a que nos habituámos, geração atrás de geração.
A terceira, que temos mesmos de defender a nossa identidade e os nossos valores. Não somos nós que temos de nos adaptar, que temos de rever os nossos livros de História, reescrever as letras dos hinos ou deixar de venerar os grandes vultos da nossa cultura, de apreciar os monumentos que ergueram ou os livros que escreveram – são os que nos procuram em busca de uma vida melhor que devem integrar-se. A prosperidade que procuram não é independente dos valores que a tornaram possível – e esses são os nossos valores, não os deles. Como também não são os dos populismos nacionalistas ou dos radicalismos socialistas.
O multiculturalismo falhou porque desistiu da centralidade dos nossos valores como base do nosso modo de vida. O laicismo também falhou porque ignorou que a modernidade não é apenas filha do Iluminismo, é também herdeira da tradição do cristianismo, e que isso é válido mesmo para os ateus.
Nestes dias em que a sucessão de acontecimentos nos vai tornando quase imunes ao choque, porventura à indignação, e nestes tempos em que sinais tão diferentes e contraditórios fazem com que até seja difícil pensar, e ainda mais perceber, talvez o melhor antídoto para o desnorte seja o regresso ao essencial, e o essencial são os nossos valores, aqueles que são as referências, os pontos cardeais que temos de ter presentes no meio da tempestade – e no dia a dia deste tempo de muitos medos.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Padre Jacques Hamel

POVO 28.07.16 
Vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram
Ap 6, 9

PÉRE JACQUES HAMEL

Pére Jacques Hamel estava ali, servindo o Senhor, quando em nome de um deus que não existe, (porque não há nenhum deus que exija a morte, que fomente o ódio, que enalteça a morte dos outros), é barbaramente morto, decapitado, como se por acaso o Deus de infinito amor não recebesse com superlativo amor, aquele que perde a cabeça, (porque apaixonado se deixa guiar pelo coração), no Seu seio, e não fizesse a festa no Céu por aquele que foi sacrificado pelo “rebanho”.

Decapitado ou morto por leões, numa europa que cada vez mais se aproxima dos circos romanos, onde se matava em nome de nada e os cidadãos se compraziam com o espectáculo, anestesiados por governantes corruptos e débeis na vontade, na força e no carácter.

Não, não pode haver vingança a ser servida, mas tão só a realidade dos factos, a justiça que deve ser exercida e exigida, e a demonstração que a civilização tocada por Cristo, é muito melhor do que o ódio que poderia humanamente ser aceitável contra tais indivíduos, porque é uma civilização tocada pelo amor, em que o mandamento principal depois do amor a Deus, é o amor aos outros, mesmos àqueles que nos fazem mal.

É que se nos deixarmos levar por esse ódio, então damos-lhes a vitória, porque perdemos o que de mais sagrado nos une a Deus, que é amor a Ele e aos outros.

Dizem-nos vários relatos dos martírios dos Santos de Deus no Circo de Roma, que eles cantavam, louvavam a Deus, enquanto morriam.

Sem deixarmos a tristeza tão humana inerente à perca de uma vida humana dedicada a Deus, demos também nós graças a Deus por este Seu filho, Jacques Hamel, e alegremo-nos porque temos um Santo no Céu a interceder por nós.

Rezemos também pelos seus algozes, por muito que nos custe, na certeza de que Jacques Hamel junto de Deus, Lhe diz neste momento: Perdoa-lhes Pai, que não sabem o que fizeram!

Tudo e sempre para a maior glória de Deus, nosso começo e nosso fim, nossa confiança e esperança, nossa vida eterna em plenitude.


Marinha Grande, 26 de Julho de 2016
Joaquim Mexia Alves

(Des)Culpa Ateia

Maria João Marques
Observador 20160727

Sem surpresa, o atentado de Rouen causou uma reação pavloviana da nossa esquerda jacobina. Até o primeiro-ministro entendeu não reagir mesmo depois de o ISIS reivindicar a bela ação durante uma missa
Que semana atroz. A degolação de um padre católico ontem em França introduziu na Europa aquilo que tem sido uma característica do extremismo islâmicos nos últimos tempos: perseguir os cristãos. Um dos primeiros raptos do ISIS, ainda grupelho desconhecido, foi de um padre jesuíta. Ora, sem surpresa, ontem o atentado de Rouen causou uma reação pavloviana da nossa esquerda jacobina.
Ou falta de reação, em alguns casos, e igualmente sintomática. Por exemplo o primeiro-ministro, que não reagiu mesmo depois de o ISIS reivindicar a bela ação durante uma missa. Um ataque direto à religião maioritária dos seus governados não lhe mereceu comentário oficial. Nem no twitter, onde se embaraça com frequência a propósito de demasiados assuntos: durante a noite do atentado de Nice perorou em francês; disse a correr umas banalidades sobre amor inspiradas em Corín Tellado depois do atentado de Orlando; e – a mais estonteante – escreveu do atentado de Munique que o terror veio ‘do nada’.
(Se faz favor ninguém informe António Costa do avião que explodiu por cima de Lockerbie. Ou que a 11 de setembro de 2001 morreram quase três mil pessoas nas Torres Gémeas. Porque, por um lado, Costa tem todo o ar de ser pessoa para apreciar viver feliz na ignorância. E, por outro, está muito calor, e a notícia assim de chofre do terror islâmico não surgir do nada em 2016, pelo contrário, já matou muitos milhares de pessoas, ainda lhe provocava uma indisposição. O que, em calhando, o poderia levar a tornar-se ainda mais emocionalmente carente do que o habitual, e o senhor já nos envergonha o suficiente em estado normal a pedir ‘palavras de carinho’, em vez de sanções, à instituição hiper-burocrática que é a União Europeia, habituada a que os políticos discutam impostos, fundos e indicadores económicos em vez dos seus devaneios emocionais.)
Já Fernanda Câncio, que funciona como uma espécie de definidora de tendências da esquerda socialista (por quem é absolutamente reverenciada, talvez pela sua destemida defesa das mais absurdas e ruinosas políticas socráticas), reagiu. Dizendo no twitter que uma notícia, dando conta do reconhecimento de que os atacantes de Rouen eram tropa do ISIS, era ‘fazer a propaganda do Daesh’. Como se trata de uma jornalista – pelo que se pode presumir que vê como um bem as populações estarem informadas do que de relevante se passa no país e no mundo – que, tanto quanto sei, não sugeriu a sonegação de informações sobre os atentados de Orlando, Nice, Paris ou Bruxelas, ficamos desconfiados que o desconforto repentino com as notícias da brutalidade do ISIS se deve à qualidade de religioso católico do degolado e não à seita de assassinos islâmicos.
De facto, em certos meios um padre brutalmente assassinado por islâmicos é algo que mais vale ficar nas gavetas da polícia, não vamos incomodar as pessoas com estes assuntos tão sem importância. Ainda se fosse ao contrário, imaginem lá bem a comoção que seria por toda a comunicação social, os êxtases que teria a fação jacobina de esquerda, se um católico ultra-conservador a assassinasse um clérigo muçulmano numa mesquita europeia. Isso sim, mereceria ser noticiado até à exaustão. Agora apresentar os católicos como vítimas? Era o que faltava. O jornalismo (jacobino) não foi feito para isso.
Na semana passada teci umas considerações sobre os europeus que se tornam cúmplices dos islâmicos violentos ao tão obcecadamente denunciarem quem enumera os perigos para a Europa da imigração muçulmana, ao mesmo tempo que encontram as justificações mais alucinadas para os atos dos terroristas islâmicos e pregam. Esta semana houve acrescentos. Agora, pelos vistos, a culpa dos atentados é das notícias sobre os atentados. Pessoas (por acaso islâmicas) perfeitamente normais, integradas, amigas do seu amigo e amantes de fotografias de gatinhos ouvem na TV que um maluco muçulmano disparou sobre este e aquele. Vai daí, são tomadas – assim com Ben Gazzara num dos meus filmes preferidos, Anatomia de um Crime, de Otto Preminger – por um ‘impulso irresistível’ e quando dão por elas mataram meia dúzia a eito. É uma explicação perfeitamente plausível para o terrorismo islâmico.
Peguemos no degolador de Rouen. Estava referenciado como extremista islâmico perigoso e em prisão domiciliária com pulseira eletrónica. Já tinha tentado juntar-se ao ISIS na Síria. Donde: é evidente que assassinou um senhor de 86 anos por causa das notícias que leu no tablet.
A morte do padre católico também nos lembra que para a esquerda jacobina não interessa se existem tribunais da sharia na grande Londres, dispensando justiça (muita tosse) à margem da lei britânica. O que lhes dá ataques de nervos é, por exemplo, usarem dinheiro dos contribuintes para pagarem um bom projeto educativo que uma ordem religiosa disponibiliza a uma população de miúdos carenciados. Se os islâmicos ajudarem a escaqueirar o que sobra da cultura judaico-cristã (ou greco-cristã, como alguns preferem) – que é a nossa e que não por acaso permitiu a emergência da sociedade mais livre e tolerante de todos os tempos – em boa verdade então são companheiros de armas da esquerda jacobina. Que, de resto, adora abusar da alegada necessidade de não ofender o islão (no seu pedestal) para atacar, até, as celebrações católicas de Páscoa e Natal.
Duas coisas são certas. Uma: para responder ao terrorismo não podemos confiar nos líderes políticos que escancararam as portas aos refugiados (Merkel), ou que diziam que os terroristas viajavam de avião (Guterres). (O bombista do festival de Ansbach foi um migrante que supostamente fugia da guerra). Duas: a falta de garra na oposição às barbaridades islâmicas várias na Europa – por exemplo as burqas, símbolo da mulher-que-vale-menos-que-gado – é filha do desprezo jacobino pela cultura europeia, que inclui a herança cristã.

Padre Jacques Hamel martirizado em França

Igreja e nação

Leonídio Paulo Ferreira
DN 20160727

O padre Kordula falou-me do "altar de 11 metros visível a dois quilómetros para a última missa onde estarão dois milhões de pessoas"; o governador Pilch, da região da Malopolska, garantiu-me que "a Polónia é segura e hospitaleira"; a família Wolski mostrou-me o jardim onde ia montar tendas para acolher 300 peregrinos; o cardeal Dziwisz reivindicou com orgulho que em Cracóvia "chega a não haver lugar dentro das igrejas aos domingos"; o brasileiro Huguenin, que coordena as redes sociais da Jornada Mundial da Juventude, confessou-se deslumbrado com "os coros belíssimos" que acompanham as missas; e o bispo Ryz disse-me esperar que a vinda do Papa relembre os polacos da "tradição de tolerância jaguelónica, uma das nossas grandes dinastias". Estive há pouco tempo na Polónia em reportagem e pude testemunhar o entusiasmo com a visita de Francisco e a força do catolicismo.
Trata-se de um grande momento para o país que é sempre relembrado nestas horas como a pátria de João Paulo II, mas que é um velhíssimo bastião católico, tendo celebrado agora os 1050 anos do batismo de Mieszko I. Aliás, não se pode compreender a nação polaca sem perceber o papel histórico da Igreja. Muito antes de João Paulo II, ainda como cardeal de Cracóvia, proteger os dissidentes do regime comunista, já o clero tinha mostrado valentia preservando a nação mesmo quando o Estado desapareceu, como entre 1795 e 1918, retalhado entre a Rússia, a Prússia e a Áustria.
Cracóvia ficou sob influência dos austríacos, católicos como os polacos, e isso ajudou a que o prestígio cultural da cidade, com a antiquíssima Universidade Jaguelónica, sobrevivesse, assim como o peso da tradição religiosa. Ora, é esta Cracóvia feita de cultura e de fé que recebe o Papa que nasceu na Argentina, o fim do mundo visto da Polónia, mas tão capaz de entusiasmar as massas como fazia João Paulo II.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Já vimos este filme. E não acabou bem

José Manuel Fernandes
Observador 25/7/2016
De repente o "optimista irritante" passou a pessimista envergonhado. O que não deveria surpreender quem conhece os alçapões que se podem esconder por trás do discurso da "execução orçamental exemplar"
Parece que o primeiro-ministro está a descer da estratosfera – mas só em privado, claro, falando para os seus à porta fechada. Aí o “optimista irritante” transforma-se num pessimista desconcertante e envergonhado. Seria caso para dizer que mais valia tarde do que nunca, mas a verdade é que quando a esmola é grande o pobre desconfia – e nós já não temos nenhuma razão para confiar em António Costa, apenas para desconfiar do que estará a tramar para se safar na próxima curva da estrada.
Não é necessário ser um céptico militante, como é o meu caso quando escuto certas “narrativas” políticas, para já estar cansado com a repetição obsessiva, ad nauseam, de que tudo está a correr bem com a execução orçamental, tão bem, mas mesmo tão bem, que esses números se transformaram no principal argumento contra as sanções de Bruxelas. Agora que essa estratégia parece ter dado com os burrinhos na água, o nosso primeiro passou à fase em que se queixa aos seus deputados de que os socialistas europeus não são assim tão solidários como isso, ou mesmo que, afinal, “os tempos não estão formidáveis”. Só lhe falta admitir – há-de também acabar por acontecer – que a execução orçamental, afinal, também não está formidável.
Eu, que já ando nisto há uns anos e vivo com o defeito de ter alguma memória, olho para este filme e vem-me logo outro à cabeça. Com guião e representação em 2009, tendo no papel principal um outro primeiro-ministro (José Sócrates) mas contando, no aconchego dos gabinetes, com alguns dos mesmos guionistas, em particular com alguns dos mesmos artistas na apresentação de “execuções orçamentais” maravilhosas. Nesse ano eleitoral passámos meses a ter boas execuções orçamentais e um défice controlado – na altura passámos os meses necessários até às eleições legislativas de 27 de Setembro. Depois o dique rebentou e o défice “controlado” explodiu para 9,8%, o maior registado até então em 40 anos de democracia. Mais tarde soube-se que, entre outros truques, o governo de então tinha como que “congelado” o valor do défice ao longo do ano contra as previsões e os avisos de organismos públicos como a Direcção-Geral de Contribuições e Impostos.
Em 2011 o filme foi mais ou menos o mesmo, numa primeira reprise mais curta e mais dramática, e podemos recordar as fanfarras de então na imagem abaixo, que reproduz duas célebres capas do Expresso publicadas no mês de Fevereiro desse ano. Todos nos recordamos do que se passou uns meses depois, tanto com o FMI como com o défice, apesar do registo quase gongórico destas duas notícias.
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Duas semanas separam estas duas capas do Expresso publicadas em Fevereiro de 2011. Todos sabemos o que se passou a seguir.
Neste momento todos os sinais de alarme começam a acender. Por todo o lado. Sendo que agora há uma diferença grande relativamente a 2009 e 2011: as nossas contas são muito mais escrutinadas do que então eram, Bruxelas tem, e pede, muito mais informação, o BCE e o FMI também enviam regularmente as suas equipas que, mesmo sem actuarem com o grau de intrusão dos anos da “troika”, não deixam de fazer o seu escrutínio, até porque já conhecem algumas das manhas da casa. Daí que o famoso “plano B” nunca tenha desaparecido dos cenários de Bruxelas.
Para se entender do que falamos quando torcemos o nariz à “excelente execução orçamental” é preciso começar por perceber que os números que tanto entusiasmam António Costa e Mário Centeno, os da execução orçamental mês a mês, só nos revelam uma parte da realidade pois são em “contabilidade pública”, isto é, apenas reflectem as entradas e saídas de dinheiro mês a mês. É uma contabilidade de tesouraria.
Sem entrar em grandes detalhes, a verdade é que o défice que interessa não é esse, mas sim o relativo aos compromissos realmente assumidos pelo Estado. Por exemplo: se um hospital comprar um medicamento e não o pagar de imediato, essa despesa não é contabilizada na síntese mensal da execução orçamental (em contabilidade pública), apenas será contabilizada nas avaliações trimestrais do Instituto Nacional de Estatística (em contabilidade nacional).
É por isso que é tão relevante perceber a evolução das dívidas do sector público – e se fala tanto da evolução das dívidas na saúde, aquelas que não desaparecem por haver “cativações” pois, apesar de já existirem notícias de que há hospitais a pedir papel higiénico a doentes, a verdade é que tem crescido aceleradamente o número de facturas por pagar (eram 605 milhões em Maio só nos hospitais EPE, um valor que começou a disparar a partir de Janeiro deste ano).
Mas as dívidas que vão ficando por pagar representam apenas uma pequena parte do que se está a tentar esconder com os “fantásticos” números da execução orçamental, pois há também pagamentos em atraso à União Europeia, atrasos nas devoluções de IRS e adiamentos em transferências para empresas públicas, tudo operações que deverão surgir mais tarde ou mais cedo nas contas públicas, como surgiram em 2009 e 2011 – agora, como então, o que se está a fazer é uma gestão política do momento em que se deixa de esconder a realidade.
Por outro lado, as famosas cativações que nas últimas semanas surgiram como uma espécie de “arma secreta” para evitar uma derrapagem nas contas públicas também de pouco valem se não se tiverem realizado as reformas ou reestruturações que evitem que os serviços gastem o dinheiro que têm no seu orçamento, sendo que nuns casos elas só serão mesmo possíveis deixando salários por pagar (o que não irá acontecer, suponho), ou então deixando os carros das polícias parados por falta de gasolina, para dar só um exemplo. De resto recordemos que a primeira vez que se falou de cativações no Orçamento de 2016 foi para se ficar a saber que o Governo tinha recuado na aplicação dessa medida no ensino superior.
Temos pois razões de sobra para desconfiarmos. E para estarmos inquietos. Até porque em tudo o mais não faltam outros sinais vermelhos a piscar. A começar, naturalmente, pela falta de crescimento da economia. A última previsão conhecida, a do Núcleo de Estudos sobre a Conjuntura da Economia Portuguesa (NECEP) da Universidade Católica, aponta para apenas 0.9% de crescimento este ano, metade da previsão do Governo. O principal factor a influenciar este estancar da economia portuguesa é a falta de investimento, por absoluta falta de confiança dos agentes económicos, receosos de colocarem o seu dinheiro em negócios que ficam na dependência dos humores da “geringonça”. Um dos exemplos mais recentes é o da decisão do grupo Navigator (o novo nome da Portucel) de suspender um investimento de 120 milhões na sua fábrica de Cacia, investimento que tinha anunciado em Setembro do ano passado mas que a empresa parou por causa de exigências feitas pelos Verdes na altura da formação do actual Governo.
Mas como se isto não fosse suficientemente inquietante, sabemos agora o que está a representar a famosa, e “miraculosa”, aposta desta maioria no consumo como forma de “estimular” a economia e o crescimento: no primeiro trimestre, revelou o INE, a poupança foi negativa pela primeira vez desde que há registos comparáveis, isto é, as famílias gastaram mais do que tudo o que receberam em salários, pensões e rendimentos do capital. Pior: essa despesa em consumo foi sobretudo nos chamados “bens duradouros”, o que trocado por miúdos significa automóveis. Ou seja, bens importados. Ou seja, o “estímulo ao consumo das famílias” está a estimular a economia dos países que exportam para Portugal.
Brilhante, sem dúvida, e um sinal de que não são só os partidos que não aprenderam nada com erros dos anos em que o país viveu acima das suas possibilidades (eu sei que esta ideia irrita muita gente, mas é rigorosamente isso que nos aconteceu desde que o euro criou a ilusão de que éramos ricos). O Orçamento de 2015, o último da anterior maioria, já era um orçamento eleitoralista (como na altura assinalei) e por isso não admira que a sua execução, sem medidas extraordinárias, tenha ficado naquele limiar (2,8% de défice? 3,05%? 3,2%? Ninguém se entende, nem em Lisboa nem em Bruxelas) que abriu as portas às sanções. As loucuras evidentes do Orçamento de 2016 (do irrealismo dos seus pressupostos ao populismo de certas “reversões”) apenas escancararam ainda mais essas portas, como se torna evidente quando Bruxelas não pede medidas sobre o passado (ainda não inventámos a máquina do tempo), mas relativas ao futuro, começando já pelo que falta de 2016.
Tudo isto encaixa bem num padrão sobre o qual escrevi há mais de dois anos, quando notei que nós já só queríamos voltar à boa vida. Tudo isto mostra como a falta de juízo é doença que nos custa mesmo a extirpar.
Definitivamente estamos a assistir a um remake, com novos actores e algumas novidades, como o equilibrismo da “geringonça”, assim como algumas piruetas no guião e nos adereços, com destaque para o cachecol da selecção de Mário Centeno. Alegram a fita, mas tudo o resto é demasiado parecido para poder acabar muito melhor – o que também não quer dizer que este filme acabe já amanhã, até porque, pelo menos por enquanto, o Presidente não deverá facilitar. Pode ser até que o diga nas audiências que marcou com os partidos e os parceiros sociais, numa espécie de aviso à navegação dos que, de repente, parecem ter perdido o “optimismo irritante” e já só estar com a cabeça em eleições antecipadas.
PS. Já depois de escrito e publicado este artigo, o Governo divulgou os dados da execução orçamental de Junho. Apesar de os apresentar como muito positivos, os números têm aspectos muito inquietantes, que não vou desenvolver aqui. Fico-me pelo último gráfico da última página do relatório da Direcção-Geral do Orçamento:
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O que é significativo e importante neste gráfico é perceber as tendências: em 2015 o anterior Governo prosseguiu um esforço, que vinha do tempo da troika, de ir diminuindo o volume dos pagamentos em atraso; em 2016 o actual Governo inverteu esse processo e já vamos com mais 225 milhões a mais de pagamentos em atraso relativamente ao ponto de partida. A saúde é o sector mais afectado: só em Junho o saldo dos pagamentos em atraso nos hospitais EPE aumentou 75 milhões de euros.

Tempos difíceis

POVO 26.07.16 
Maus tempos, tempos difíceis - é o que as pessoas costumam dizer; mas vivamos bem e os tempos serão bons.
Nós somos os tempos. Tal como somos, assim serão os tempos
St. Agostinho de Hipona

O narcisismo de Ronaldo, a “cobardia” de Santos

Enrique Pinto-Coelho
Observador 24 Julho 2016

A dependência de Ronaldo tem inconvenientes e virtudes. No fim, é o capitão que ganha - e um comentador de sucesso não é necessariamente bom treinador. A análise de Enrique Pinto-Coelho.
A estas alturas do campeonato, já quase ninguém se lembra – e, na verdade, pouco importa, porque entretanto Portugal foi, é e será, durante os próximos quatro anos, campeão da Europa. Mas o Euro 2016 começou mal para a seleção, em particular para Cristiano Ronaldo. Depois do empate contra a modesta Islândia, quando ainda ninguém suspeitava (nem sequer os islandeses) que ia ser uma das revelações do torneio, o tablóide alemão Bild acusou o craque português de ser “o vaidoso mais arrogante do mundo” e de um pecado supostamente maior: recusar-se a trocar de camisola com Gunnarsson, capitão do pequeno país insular e herói instantâneo de todos os que, com mais ou menos frequência e agressividade, adoram criticar CR.
Um vídeo demonstra que Ronaldo tinha dito que trocariam de camisola nos balneários, e o próprio Gunnarsson desmentiu o boato publicado pelo Bild. Mas o mal estava feito. A ansiedade do madeirense, que tinha tudo para bater vários recordes na competição, começou a aumentar, acentuada pelo coro de acusações e também porque, depois de falhar várias oportunidades contra a Islândia, voltou a ficar sem pontaria contra a Áustria. Pior ainda: atirou um penálti ao poste.
A qualificação de Portugal estava em risco. Na manhã do terceiro e último jogo da fase de grupos (o decisivo duelo com a surpreendente Hungria, que parecia ter recuperado o brilho perdido), a paciência do capitão chegou ao limite. O famoso episódio do microfone que acabou num lago retratou o estado de nervos de Ronaldo, mas sobretudo a falta de consideração de alguns meios e a hipocrisia de aqueles que o acusaram das coisas mais disparatadas. Um dos ataques mais patéticos partiu do – até então invisível – presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Em vez de criticar uma reação condenável, mas inócua, afirmou tratar-se de um “crime contra a liberdade de informação”. A estação lesada considerou o gesto “muito grave” e chegou a dizer que a atitude de CR envergonhava a nação.
Nenhum destes arautos dos bons costumes teve em conta as atenuantes, mas tornaram-se subitamente compreensivos quando o craque bisou naquela noite e salvou o país de uma eliminação prematura. No dia seguinte, talvez ciente da antipatia que tinha gerado, o Correio da Manhã levantou o polegar: “Ronaldo estás perdoado”.
Sorte e talento
Para bem e para mal, CR está habituado a carregar a equipa às costas – quer no Real Madrid, quer na seleção. A “ronaldodependência” tem algumas virtudes, mas também inconvenientes que convém não ignorar: o jogo torna-se mais previsível e o peso da responsabilidade pode ser excessivo para um só jogador, mesmo quando é estimulada pelo próprio e mesmo tratando-se de um superatleta.
Dentro e fora do campo, Ronaldo não deixa que ninguém lhe faça sombra. Raramente permite aos outros bater livres ou grandes penalidades, invocando, porventura, o razoável facto de ser um dos maiores especialistas mundiais em ambos os lances. No jogo contra a Hungria, A Besta acordou finalmente e marcou dois golos decisivos. O primeiro de calcanhar, uma obra-prima que deveria ter sido escolhido, ex æquo com o remate de bicicleta do suíço Shaqiri, o mais artístico do Euro (em vez disso, os internautas da UEFA escolheram o disparo do húngaro Gera que abriu o marcador contra Portugal).
Antes de marcar o definitivo empate a três, CR tinha assistido Nani no primeiro golo, o que significa que participou em três dos quatro golos de Portugal na fase de grupos (ou seja, as estatísticas do costume, só ao alcance de um sobredotado). Mas o golo mais decisivo para Portugal na primeira fase foi obra de outro islandês: Traustason marcou aos 94 minutos contra a dececionante Áustria, relegando Portugal para o terceiro lugar do grupo F e – milagrosamente, por causa do novo formato alargado – afastando-a da chamada “rota da morte”, a zona mais difícil do quadro onde se encontravam, entre outras, as temíveis Espanha e Alemanha.
“Acho que o fator sorte também faz parte, principalmente numa competição tão curta”, tinha avisado Cristiano antes de chegar a Marcoussis. No final do torneio, o antigo capitão alemão, Philipp Lahm, confirmou que o futebol “é imprevisível” e que, desta vez, “o vencedor em sorte foi Portugal”. Mas o novo colega de Renato Sanches no Bayern também reconheceu que os “jovens talentos portugueses não viajaram até ao topo do futebol internacional por coincidência ou à custa da sorte. Realizaram o sonho deles devido ao talento, trabalho árduo e disciplina, com Renato Sanches a servir como exemplo perfeito”.
O azar, o elemento que tantas vezes perseguira Portugal no passado – contra a França em 1984, a Grécia em 2004 e a Espanha em 2012 (“as coisas são decididas por pequenos detalhes e o penálti de Bruno Alves bateu na barra, ao passo que o de Fàbregas entrou graças ao poste”, admitiu Del Bosque na ressaca do título há quatro anos) – desassombrou finalmente o país que mais meias-finais europeias (quatro) tinha disputado no século XXI.
Portugal teve alguma sorte na final, numa bola ao poste de Gignac; mas também dias antes, num remate ao mesmo poste direito do húngaro Elek. Nesse jogo, Dzsudzsák marcou duas vezes com bolas desviadas pela defesa portuguesa, o que significa que nem tudo foram rosas. Mas, acima de tudo, a equipa nacional – e o selecionador mais do que ninguém – mostrou sempre convicção, uma fé à prova de acasos que culminou na merecida vitória em Saint-Denis, protagonizada por outra escolha polémica de Fernando Santos. Ninguém em Portugal apostava um euro por Éderzito Lopes, do mesmo modo que ninguém acreditou no treinador quando prometeu que só voltaria a casa a 11 de julho.
Quando a seleção defrontou a Croácia, muitos acharam que os oitavos estavam no papo. Eu, que acompanho a imprensa espanhola e tinha acabado de assistir à derrota de La Roja contra os balcânicos, receava o pior. Com o seu pragmatismo inabalável (“todos os adversários são fortíssimos”, repetiu vezes sem conta), Fernando O Sábio soube anular o meio-campo mais elogiado do torneio. O talento de Luka Modrić e Ivan Rakitić (cérebros do Real Madrid e do Barcelona) passou despercebido numa noite em que nem Perišić nem Mandzukić, dois avançados letais, tiveram ocasiões claras. Portugal chegou mais forte ao prolongamento – uma virtude que soube conservar até ao dia da final – e a cabeça de Quaresma apareceu aos 117 minutos para eliminar uma das principais candidatas ao título.
O triunfo do esforço
Na partida contra os croatas, a equipa mostrou várias das características que a definiram ao longo do torneio: se é verdade que foi, demasiadas vezes, contida e aborrecida, também o é que soube progredir e sofrer, ser paciente, escolher o caminho mais seguro a cada momento. Além de fugir a sete pés de favoritismos, Fernando Santos não escondeu a sua obsessão pelo equilíbrio, palavra-chave sublinhada a vermelho no manual do futebol moderno. A ideia é simples: atacar implica correr riscos e desorganizar a defesa. Quando acusaram Portugal de jogar “feio”, o selecionador respondeu: “Aborrecido foi para os croatas, que foram para casa”. Também voltou a garantir que os jogadores iriam “morrer em campo para dar uma alegria ao povo” e elogiou uma faceta pouco vistosa, mas pelo menos tão importante como marcar golos: “A arte de defender também é uma grande arte”.
A ideia é simples: atacar implica correr riscos e desorganizar a defesa. Quando acusaram Portugal de jogar “feio”, o selecionador respondeu: “Aborrecido foi para os croatas, que foram para casa”. Também voltou a garantir que os jogadores iriam “morrer em campo para dar uma alegria ao povo”
A seguinte vítima foi a Polónia, que aproveitou um erro de Cédric para marcar logo aos três minutos. Noutras circunstâncias, Portugal ter-se-ia desmoronado: basta recordar a primeira parte contra a Alemanha no Mundial 2014, que acabou 3-0. A Pólonia não é a Alemanha, mas ainda assim: desta vez, a mentalidade era outra. Aos poucos, as figuras polacas perderam brilho – em particular Lewandowski, que depois de marcar o seu único golo em França não voltou a deixar rasto. A equipa do Leste foi de mais a menos – exatamente o oposto do rival, que viu nascer uma estrela nesse dia: Renato Sanches, autor do golo que conduziu Portugal às grandes penalidades.
O primeiro a bater foi CR. Em vez de reservar-se para o fim, como tinha feito na meia-final contra a Espanha em 2012 (não houve quinto penálti por causa dos erros de Moutinho e Alves), marcou o primeiro da série. A seguir bateu Sanches, que com 18 anos deu uma lição de maturidade e coragem. O “miúdo” deu um passo em frente num cenário onde muitos, incluindo alguns dos maiores astros do Olimpo futebolístico – de Zico a Messi, passando por Platini e Baggio – hesitaram, falharam ou arranjaram desculpas para não ter de bater. A angústia do penálti pode ser de tal ordem que um capitão da Alemanha, o veterano Matthäus, alegou ter as solas gastas para não assumir uma grande penalidade contra a Argentina, na final do Mundial 1990 (o golo foi marcado por um defesa, Brehme).
A irrepreensível série de Portugal – Moutinho, Nani e Quaresma também não tremeram – brilhou ainda mais por contraste com as prestações de Schweinsteiger, Pellè e Zaza, os piores desde os onze metros no Alemanha-Itália da jornada seguinte. Mas nem assim abrandaram as críticas a Fernando Santos. Em Portugal, muitos não perdoaram que tivesse encostado Sanches ao lateral direito na segunda parte, ou questionaram decisões ainda menos transcendentes.
“Os cães ladram, a caravana passa”, teria dito Mourinho. Santos limitou-se a baralhar e dar de novo, sem medo de mudar as suas cartas a cada novo desafio. Guarda-redes suplentes à parte, utilizou os outros 21 jogadores que tinha levado a Marcoussis, administrando cansaços e estados de forma, alturas, posições… sempre em função das exigências dos rivais e dos cronómetros. “Atendendo ao tom da competição, a vencedora não podia ser outra que a equipa de Santos, solvente na gestão do grupo, perita na abordagem das partidas, a mais bem preparada para padecer num torneio longo, espesso e eterno, tão gremial e solidária no relvado que soube impor-se mesmo sem Cristiano Ronaldo”, escreveu Ramón Besa no El País. “Foi o triunfo de um homem esforçado, simples e comum como Fernando Santos, a melhor resposta ao vedetismo e à grandiloquência, ao mediatismo e à cultura que preza o impacto, ao espectador impaciente e exigente de hoje”.
Alvos preferidos
Por cá, na véspera da final, o DN publicou um “Almoço Com” o inefável Rui Santos, ilustrado com uma caricatura de André Carrilho. Na conversa com João Céu e Silva, o comentador desportivo invocou o “fator de sorte e de aleatoriedade que não tem que ver com mérito” como explicação para o êxito da seleção, antes de arremeter contra o jogo que a levou até à final: “Já disse que fizemos uma primeira fase a jogar um futebol lamentável e isso não pode ser apagado. (…) Partimos como favoritos e a Islândia, a Áustria e a Hungria não deviam ter-nos feito tremer. Jogámos como um União da Madeira ou um Tondela contra o Benfica, o Sporting ou o Porto”, atirou. “Não foi essa a estratégia montada por Fernando Santos?”, perguntou então o jornalista. “Não vou nisso, é um treinador defensivo. Fernando Santos é um treinador com medo, que prefere esperar e jogar no não erro do que investir num jogo de qualidade ou positivo. Explorámos a oportunidade de um campeonato fraco, por isso estar entre os quatro que chegam à final é diferente de estar entre os quatro melhores. Se apanhássemos uma grande equipa não estávamos na final”, concluiu o entrevistado.
Depois de despachar o treinador, Santos disparou contra o seu alvo preferido: “É bom recordar o trajeto do Cristiano Ronaldo na seleção e o que aconteceu na Federação Portuguesa de Futebol para o integrar e fazer dele o número um em tudo. Até os outros jogadores foram obrigados a mudar de atitude para entrar no clube do Cristiano, que é também a seleção portuguesa. Dito isto, estou à espera de que o José Mourinho se canse de ganhar dinheiro e que chegue rapidamente à seleção nacional. Porque a seleção precisa dessa exigência e de ter os melhores. Deve ser o topo e Mourinho é o único que estará sempre por cima dos jogadores. Viu-se isso no episódio do João Moutinho e da marcação do penálti: o Cristiano não deve ser uma vedeta inativa, mas fez uma coisa que cabe ao treinador. Isso nunca poderia acontecer.”
De uma tacada, o homem que monopolizou a verdade desportiva em Portugal consegue desprestigiar o maior artilheiro da história de Portugal (e o jogador europeu mais determinante da última década), sugerir que Fernando Santos não escolheu os melhores (outra alusão a Ronaldo?), acusar Mourinho de ser ganancioso e lamentar, contudo, que não esteja no comando da seleção (em detrimento de Santos) para impedir que o capitão tente desinibir os colegas nos momentos decisivos, ou talvez para que arrefeça a sua ambição sem limites.
Rui Santos tem todo o direito de preferir Mourinho, obviamente. Mas custa entender tal abundância de cizânia a escassas horas de uma festa histórica, pouco depois de uma vitória incontestável sobre o País de Gales – a grande revelação do torneio, apesar da Islândia – certificada com dois remates de CR7 (o primeiro deles, de cabeça, elogiado até pelo Bild; o segundo foi desviado por Nani). Santos terá as suas razões para suspirar por Mourinho, mas o jogo bonito nunca foi uma característica do The Special One, muito menos uma prioridade. Nos tempos de Pep Guardiola no Barcelona, Mourinho não se importou de pôr todo um Real Madrid a jogar como “um União da Madeira ou um Tondela” contra o rival catalão. Mas Santos tem razão numa coisa: se Mourinho treinasse a seleção em vez do Manchester United, Ronaldo dificilmente seria o líder que levou Portugal à final em Saint-Denis; Nani não teria sido o avançado maravilhoso que brilhou em França (e o melhor sócio de CR dentro e fora do campo) e Pepe – de longe o melhor central do torneio – nem sequer estaria entre os convocados.
Elogios e críticas
Três dias depois do feito, o espanhol Santiago Segurola (jornalista que, por sinal, também escreve no DN) reivindicou a “vigência” de Pepe no Euro, conquistado, “como qualquer torneio”, com um grande desempenho dos centrais. Depois de evocar o papel quase anónimo do brasileiro Piazza em México 1970, de Passarella em 78 e de Scirea em 82, Segurola enumera as virtudes do jogador naturalizado português: “Pepe teve de resolver uma quantidade espantosa de situações defensivas, no um contra um, no jogo aéreo, por antecipação, na ala direita devido a algumas fraquezas de Cédric e nas fricções, onde ganhou uma elevadíssima percentagem de duelos”. Mais: “Tem 33 anos e mantém a ligeireza, a elasticidade e a rapidez para resolver os problemas que tanto detestam os veteranos. Não se tratou de um mês mágico. As suas últimas épocas foram excecionais, e a passada especialmente”. Os elogios prosseguem, mas, a dada altura, o cronista aborda os “preconceitos, alguns deles muito merecidos” que pesam sobre o jogador, protagonista de atos de violência “inadmissíveis”.
Segurola também aproveita o perfil de Pepe para retratar o “legado divisório” de Mourinho no clube merengue: “Dias antes da final da Taça do Rei, em 2013 frente ao Atlético de Madrid, na sua última partida como técnico do Real, Mourinho aniquilou publicamente Pepe, que tinha feito uma moderada defesa de Casillas. ‘Não é preciso ser muito inteligente para saber que estamos a falar de frustração. Não é fácil para um homem de 31 anos ser atropelado por um de 19’, declarou o técnico português em alusão a Varane, que não convocou Pepe para a final que o Real perdeu no Bernabéu. Ninguém imaginaria agora uma decisão desse calibre, motivada pelo despeito e o ego descontrolado. A prova é evidente. Três anos depois daquele alegado epitáfio, Pepe não se deixa atropelar por ninguém”.
Os mourinhistas como Santos tendem a ignorar o lado escuro do seu ídolo, mas antes de abandonar a capital espanhola batendo a porta de trás, El Especial semeou a discórdia no balneário do clube que representara durante três épocas. Além de Pepe, atacou Ronaldo, Sergio Ramos e todos aqueles que, desenganados após inúmeras maquinações e indignidades, quiseram recuperar a normalidade e o bom nome de Casillas, acusado de traição e usado pelo treinador como bode expiatório dos seus fracassos.
De uma tacada, o homem que monopolizou a verdade desportiva em Portugal consegue desprestigiar o maior artilheiro da história de Portugal (e o jogador europeu mais determinante da última década), sugerir que Fernando Santos não escolheu os melhores (outra alusão a Ronaldo?), acusar Mourinho de ser ganancioso e lamentar, contudo, que não esteja no comando da seleção.
O treinador escolhido para o substituir foi Ancelotti, que além de sossegar o balneário merengue conseguiu, à primeira tentativa, aquilo que Mourinho não fora capaz de dar a Real Madrid e Chelsea: a Liga de Campeões, ainda por cima sem insultar nem hostilizar ninguém. O próprio Rui Santos reconhece que o sucessor de Paulo Bento na seleção, tal como o sucessor de Mourinho no Real Madrid, “é um conciliador e apagou todos os fogos que existiam. Alguém tinha de fazer esse trabalho”. Apesar de criticar o “taticismo exagerado” de Fernando Santos e de exagerar o fator sorte (outra forma de lhe negar o mérito), o comentador viu-se obrigado a admitir, perante a insistência do entrevistador, que a improvável vitória portuguesa chegaria graças ao treinador e aos jogadores. “Acho muito difícil”, disse, mas “poderemos ser os campeões do Europeu do não futebol”.
Como é sabido, o “não futebol” ganhou mesmo, para desgosto do football pundit preferido pelos portugueses. Se dependesse de Rui Santos, o engenheiro teria ficado em casa e Éder provavelmente também, uma vez que o apresentador do Tempo Extra tinha defendido a convocação de André Silva, ponta-de-lança da seleção sub-21 e do FCP.
O caso de Rui Santos faz lembrar o de Gary Neville, com algumas nuances. Ao contrário de Neville, o ex-jornalista de A Bola nunca foi jogador, mas ambos partilham um estatuto de comentadores televisivos de excelência nos respetivos países. As análises de Neville na Sky Sports tiveram tal sucesso que acabou sendo contratado pelo Valencia como sucessor do competente Nuno Espírito Santo. A experiência durou quatro meses e foi um fracasso total, mas foi útil para demonstrar algo tão óbvio quanto esquecido: uma coisa é falar na televisão, outra muito diferente é gerir uma equipa e guiá-la num torneio.
Ao desprezar Cristiano Ronaldo e o papel que desempenha na seleção, Rui Santos esquece que, sem ele, Portugal não se teria apurado para o Mundial 2014 nem para muitos outros campeonatos e fases. Também parece ignorar que CR não goza do respeito dos outros jogadores por ser mais atlético ou bonito, por vender mais camisolas ou falar mais alto, mas sim pelos anos de esforçado serviço em prol do país. Também não conquistou a braçadeira de capitão por acaso: é o jogador com mais participações e recordes da Federação Portuguesa de Futebol, e um dos mais comprometidos, profissionais e competentes da história do futebol.
O capitão
Aos 31 anos, o balneário – quer em Madrid, quer em Portugal – reconhece nele um líder que se fez a si próprio, e que – por sorte para todos – melhora com o tempo. O maior inimigo de Ronaldo (e estamos a falar de muitos milhões de detratores em todo o planeta) sempre foi o próprio Ronaldo, as suas declarações ingénuas e/ou inapropriadas. A última grande controvérsia antes de defrontar a Islândia surgiu em fevereiro, na sequência de uma derrota do Real Madrid em casa. “Se todos estivessem ao meu nível, seríamos primeiros”, afirmou. “A imprensa é injusta comigo. Sempre. Aqui em Espanha ainda se discute o meu valor. Parece que estou na merda, mas os números e as estatísticas não enganam”. No dia seguinte, ciente do turbilhão que tinha causado, apressou-se a esclarecer: “Quando disse o que disse, referia-me ao nível físico, não de jogo. Eu não sou melhor do que nenhum dos meus companheiros”.
Nos primeiros anos em Manchester, ou mesmo em Madrid, fez declarações bem mais polémicas sem quaisquer emendas posteriores. Diga o que disser, haverá sempre quem o considere “o vaidoso mais arrogante do mundo”, mas também quem reconheça nele um dos maiores prodígios que o desporto-rei produziu.
A má imprensa que padece é ainda mais incompreensível quando comparada com o tratamento reservado a outros craques. Apesar de ter dito e feito as coisas mais antidesportivas ao longo de décadas, Maradona é considerado quase um deus em vários países. Messi foi condenado a 21 meses de prisão por fuga ao fisco e o Barcelona reagiu com uma campanha delirante, que fez corar inclusive os adeptos do clube: #TodosSomosLeoMessi. O guarda-redes de Itália, Gianluigi Buffon, simpatizou com Mussolini e esteve implicado num escândalo de jogos combinados na Série A.
A lista é longa, mas ninguém beneficia de maior condescendência do que o terceiro melhor jogador da atualidade. Zlatan Ibrahimović agrediu três colegas do Ajax no mesmo treino (Schneider, Heitinga e Van der Vaart, que ficou lesionado), incompatibilizou-se com Messi no Barça e tentou bater em Guardiola, que desde então não fala com ele. O historial de agressões a colegas e adversários daria para escrever vários volumes, mas dificilmente teriam tanto impacto como algumas das suas frases mais célebres. Quando o jornal Dagens Nyheter escolheu Björn Borg como o melhor desportista de sempre na Suécia, Ibra respondeu: “Com todo o respeito, sou o primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto” melhor desportista sueco. Antes de abandonar Paris rumo ao Manchester United do seu adorado Mourinho, sentenciou: “Cheguei como um rei, parto como uma lenda”. E ainda: “Se sou dez vezes melhor, tenho de ganhar dez vezes mais”.
Ao invés de Cristiano, Zlatan parece piorar com os anos (agora diz que vai ser um deus em Manchester). Por outro lado, o madeirense nunca fugiu aos impostos, não participou em jogos combinados nem foi detido por violações, consumo de drogas ou álcool na estrada (como tantos outros jogadores). Os seus maiores excessos são, porventura, a teatralidade e o narcisismo, encorajado por uma corte de bajuladores que o acompanham a todo o lado. Mas também tem inúmeras virtudes, para além das já enunciadas: é, ou parece, bom filho, bom pai e bom irmão; está envolvido em inúmeras causas filantrópicas e tem uma paciência fora do comum com os fãs – e, sobretudo, com os inimigos que o provocam sem piedade a toda a hora, dentro e fora dos estádios.
Ao invés de Cristiano, Zlatan parece piorar com os anos (agora diz que vai ser um deus em Manchester). Por outro lado, o madeirense nunca fugiu aos impostos, não participou em jogos combinados nem foi detido por violações, consumo de drogas ou álcool na estrada (como tantos outros jogadores).
Em Saint-Denis, depois da violenta pancada de Payet, foi vaiado pelo público francês mas acabou sendo aplaudido, quando todos compreenderam que a dor e a vontade de continuar eram autênticas. Ronaldo deve ter sido o jogador com mais faltas e penáltis por marcar do Euro, mas Portugal seguiu em frente mesmo sem ele em campo. A França começou a apertar e parecia que ia marcar a qualquer momento. “Quando Deschamps substituiu Payet por Coman, a França teve os seus melhores minutos” escreveu o grande Alfredo Relaño, diretor do desportivo As e comentador da Cadena SER. “Mas Santos, que sabe latim e informática, colocou Moutinho e Éder em campo e o lanço de grande perigo francês desvaneceu-se”.
No prolongamento, as bolas começaram a chegar a Éder, que “as entretinha, as guardava, as devolvia”. Depois chegou o minuto 109, o mais importante da história para a equipa das quinas. “A partir daí, tudo consistiu em administrar os oito minutos restantes, ante uma França esgotada e sem fé, para finalmente levantar ao céu a Taça que Xavi tinha depositado junto à linha lateral nos prolegómenos. Admirável este Portugal que só tinha ganho uma partida nos 90 minutos, mas que soube sair de situações difíceis. O futebol também é isto.”
Admirável também a inteligência do engenheiro, que encontrou o caminho para o título dando primazia ao grupo sobre o indivíduo, administrando os egos das estrelas sem tirar-lhes protagonismo nem recorrer a atitudes autoritárias, tantas vezes contraproducentes. Tudo uma questão de equilíbrio, nada a ver com cobardia.
Enrique Pinto-Coelho é jornalista, autor do livro “Portugal das Maravilhas”