segunda-feira, 25 de maio de 2015

Discurso de aceitação do Prémio Nobel da Economia - John Nash (1994)


John Nash aqui interpretado por Russel Crowe em A Beautiful Mind (2001)

Nash: Thank you. I've always believed in numbers and the equations and logics that lead to reason.
But after a lifetime of such pursuits, I ask,
"What truly is logic?"
"Who decides reason?"
My quest has taken me through the physical, the metaphysical, the delusional -- and back.
And I have made the most important discovery of my career, the most important discovery of my life: It is only in the mysterious equations of love that any logic or reasons can be found.
I'm only here tonight because of you [wife, Alicia].
You are the reason I am.
You are all my reasons.
Thank you


John Forbes Nash
(13/06/1928 - 23/05/2015)

Quem pode salvar-se?

«Mas, então, quem pode salvar-se?»
Em resposta à pergunta do jovem rico, Jesus tinha revelado como se podia aceder à vida eterna. Mas o jovem, entristecido com a ideia de ter de abandonar as suas riquezas, foi-se embora. E Jesus declarou: «É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.» Então Pedro, que se despojara de tudo, renunciando à sua profissão e à sua barca, que já não possuía sequer um anzol, aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Quem pode, então, salvar-se?» 
Repara na reserva mas também no zelo deste discípulo. Ele não diz: «Tu ordenas impossíveis, essa ordem é demasiado difícil, essa lei é demasiado exigente.» E também não se cala. Mas, sem faltar ao respeito e mostrando que estava atento aos outros, pergunta: «Quem pode, então, salvar-se?» É que, muito antes de ser pastor, já ele tinha alma de pastor; antes de ser investido de autoridade ..., já se preocupava com a terra inteira. Um rico teria provavelmente feito essa pergunta por interesse, preocupado com a sua situação pessoal e sem pensar nos outros. Mas Pedro, que era pobre, não pode ser suspeito de ter feito a sua pergunta por esses motivos, mas porque se preocupava com a salvação dos outros, e queria aprender do Mestre como alcançá-la. 
Daí a resposta encorajadora de Cristo: «Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.» Querendo dizer: «Não penseis que vos deixo ao abandono. Eu próprio vos assistirei em assunto tão importante, e tornarei fácil o que é difícil.» 
São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja  

Homilia sobre o devedor de dez mil talentos,3; PG 51, 21

Jerôme Lejeune - para o mais pequeno dos meus irmãos e irmãs

BA - "Jérôme Lejeune, to the least of these my brothers & sisters" from Aloest on Vimeo.

Laicidade, religiões e paz

PEDRO VAZ PATTO Observador 25/05/2015 - 06:09

As religiões, quando não são instrumentalizadas por projectos políticos ou ideológicos, são factor de coesão social, reconciliação e paz.

Várias notícias recentes provindas de França revelam um nítido recrudescimento da chamada “laicidade de combate”.
Mais do que a laicidade como simples separação da Igreja do Estado (o evangélico dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus) e a confessionalidade ou neutralidade religiosa do Estado, está em causa o laicismo, como profissão de fé ideológica, da parte do Estado, de hostilidade à religião, relegada para a esfera privada e cuja dimensão social e cultural é ignorada, desprezada ou combatida.
Uma decisão judicial ordenou que fosse retirada do espaço público uma estátua de João Paulo II, porque a dimensão da cruz que a acompanha será “ostensiva”. E o autor recusou que da estátua fosse eliminada a cruz. Compreende-se: não pode conceber-se sem a Cruz o testemunho da vida desse Papa que foi reconhecido, também por não católicos, como “um gigante da história contemporânea”. Mas não são menos “ostensivas” as igrejas e catedrais que, invariavelmente, marcam, como ex-libris, as paisagens de aldeias e cidades francesas e europeias.  
A lei que proíbe “sinais ostensivos” de pertença religiosa nas escolas foi invocada para proibir uma jovem muçulmana de usar uma saia demasiado comprida. Um contraste tão grande com os hábitos correntes só pode ter por base a pertença religiosa muçulmana. A escola, que agora tolera a indumentária mais bizarra ou impudica, já não tolera o que possa ser, mesmo que de forma remota ou ambígua, uma manifestação de fé religiosa. Todas as convicções podem ser reveladas publicamente, em nome da autenticidade e da transparência, mas não a religião. Já não há “direito à diferença”: os muçulmanos têm de vestir como todos os outros. E não será assim que a sua integração será facilitada; será mais forte a tentação de se fecharem em ghettos, rejeitando a cultura europeia no seu todo, para preservarem a sua identidade
Discute-se a proposta de alargar o campo dessa lei às universidades, como se os jovens universitários fossem tão influenciáveis pelo “proselitismos religioso” como pretensamente o serão os jovens de outros ramos do ensino. E também se discute uma lei que obriga à neutralidade religiosa do ensino pré-escolar, que alguns querem estender a escolas não estatais que recebam fundos públicos. Chega a ser invocado o respeito pela liberdade de consciência de crianças de três ou quatro anos.
Um movimento cívico pretende alterar o nome de localidades que tenham o nome de santos. Uma tarefa ambiciosa, pois calcula-se que sejam cerca de dez por cento das pequenas localidades francesas. Assim se procura impor coercivamente o renegar de uma herança cultural, impor o cancelamento da memória histórica colectiva.
É fácil associar este recrudescer do laicismo aos recentes episódios de terrorismo com motivação pretensamente religiosa. Quem considere que as religiões são necessariamente factor de conflito e violência quer ver nesses episódios a confirmação dessa tese. Daí que elas devam ser afastadas do espaço público, a bem da convivência pacífica. Mas outras violências assim se geram.
De um princípio exactamente oposto partiu um “debate temático de alto nível” no âmbito das Nações Unidas, que decorreu no passado dia 22 de Abril, sobre o papel das religiões, e do diálogo inter-religioso, no fomento de uma cultura de tolerância e reconciliação, contra o extremismo violento. As religiões, na sua autenticidade, quando não são instrumentalizadas por projectos políticos ou ideológicos, são factor de coesão social, reconciliação e paz. Não há, por isso, que temer a sua presença no espaço público. Pelo contrário, há que valorizar o seu papel, e o papel do diálogo e colaboração entre crentes de várias confissões. Isso mesmo reconheceram nesse debate quer os dirigentes religiosos presentes, quer os representantes das Nações Unidas e de muitos Estados que nele intervieram.
Um desses dirigentes religiosos, Maria Voce, presidente do Movimento dos Focolares, relembrou: “A guerra nunca é santa e nunca o foi. Deus não a quer. Só a Paz é verdadeiramente santa, porque o próprio Deus é a Paz”.

A natureza é sábia, democracia limitada

EUGÉNIO VIASSA MONTEIRO 25/05/2015 - 06:15
A natureza, os gatos, dão soberbas lições de vida.

Não sou amigo de gatos. Quando miúdo divertia-me a metê-los em barris de água da chuva para os ver saltar como uma mola e fugir como uma seta. Mas da última vez que estive em Goa, um gato deixou-me intranquilo e pensativo, trazendo à mente um fluxo interminável de ideias e imagens.
A gata-mãe tinha uma cria de 2 meses, que foi dada a uma pessoa amiga. A mãe desatou a miar sem cessar, procurando o filhote. Com um miar lancinante e contínuo, nada a parava e a lembrança do filho não a largava.
Para a calar ou distrair deram-lhe comida; nada comeu, nada! E apenas retirou um peixinho, agarrando-o com os dentes e continuou a miar mais forte, como na ânsia de dá-lo ao filhote. Ao observar esta cena, comovi-me e ainda sugeri que a cria voltasse para junto da mãe ou fosse ela para junto do filhote…
Impressionou-me esta cena de de angústia e sofrimento pelo filho desaparecido, que procurava sem parar, sem se cansar, sem comer. Veio-me à mente um filme Amazing Grace, uma Graça espantosa, sobre o fim da escravatura no Reino Unido. E desfilaram na imaginação, acompanhados do miar suplicante, uma série infinda de factos tenebrosos:
Talvez 16 milhões de escravos, indefesos, apanhados numa cilada, organizada pelos senhores anafados, locais, sem escrúpulos nem sentimentos, desumanizados com o dinheiro ganho com o tráfico dos seus conterrâneos, tráfico intensamente alimentado pelos compradores estrangeiros, em busca de ‘robots’ humanos, de mão-de-obra. Os estrangeiros, que lá foram para levar a ‘sua civilização’, superior…
16 milhões de mães inconsoláveis, à procura do filho que não deixara rasto; que dariam tudo para o voltar a ver. Será que o branco civilizado o raptou?
16 milhões de famílias desfeitas, perdendo todo o interesse pela vida, porque quem muito amavam desapareceu. Onde estará? Nalguma reserva à espera de encher o barco para terras da América? Poderá ser libertado? Como, se só branco civilizado tem armas de fogo… mortíferas?
…Toda a organização social africana desmoronada, em completo desabamento, com o desaparecer de pessoas valiosas e fortes, muitos com capacidades de chefia que viriam a dar unidade e coesão à sociedade!
De cada barco com escravos, transportados em condições horrorosas, como gado, boa parte morria pelo caminho, com disenterias e outras doenças não tratadas, chegando menos de um terço ao destino.
Porque pensavam os colonizadores que pessoas de pele escura eram seres sem alma, inferiores, quase animais? Eram eles tão ignorantes? De facto, quem são os marinheiros/colonizadores ingleses? Muitos, piratas, que roubavam e matavam e, por isso, eram feitos ‘sirs’. Gananciosos, em busca de riqueza a qualquer preço.
É precisa ‘mão-de-obra’ para trabalhar em plantações de algodão e cana-de-açúcar, de tabaco e café, nas minas das Américas e da África do Sul? Fácil: aprova-se uma lei – feita em Londres, ou qualquer capital europeia –, a tornar legal a escravatura, votando, por maioria, que os não-brancos são animais, como em muitos documentos dos colonizadores ingleses, que apresentam os indianos com cabeça de cão!…. Não custa nada votar e dá fabulosos lucros!
É a mesma atitude de hoje: legaliza-se o aborto, por voto da maioria, fazendo convencer que ‘aquilo’ que se esquarteja não é vida humana. Porque assim convém, para exterminar vidas indefesas, sem que ‘pese’ na consciência.
A natureza, os gatos, dão soberbas lições de vida. Quando não se quer entender surgem, sem saber donde e por vezes por vias democráticas, os hitlers, stalins, maos, pol-pots, etc. que saltam para o topo da governação, aterrorizando e liquidando vidas inocentes aos milhões.
Professor da AESE e Dirigente da AAPI

domingo, 24 de maio de 2015

Gostava de ter um programa assim onde votar. Mas não vou ter.

José Manuel Fernandes| Observador 2015.05.24

Gostava de políticos que em vez de prometerem fazer, prometessem deixar fazer. E gostava de um país onde os cidadãos, em vez de pedirem tudo ao Estado, assumissem mais responsabilidades no seu destino
  1. Duas entrevistas. Pedro Passos Coelho. António Costa. As linhas gerais de um programa eleitoral: o do PS. Muitos jogos florais, troca de galhardetes, mas ao mesmo tempo um tremendo vazio. O que os principais partidos portugueses nos têm para oferecer são apenas graus diferentes, ou velocidades diferentes, de regresso ao passado, ao país de antes da crise.
    Com mais juízo e menos desvarios, com formas diferentes de verem a retoma da economia, mas sem nenhum dos dois partidos ter a ousadia, a frontalidade, de dizer aos portugueses que não é possível voltar ao antigamente, aos “direitos adquiridos” para sempre, aos contratos de trabalho para a vida, ao mundo previsível, protegido, mas irremediavelmente falido, que foi o nosso até ao dia em que tivemos de pedir ajuda externa. A questão não é apenas voltar ou não às grandes obras públicas, ou fazê-las por “consenso alargado” – a questão, a grande questão, é que temos um modelo de Estado, e um modelo de relacionamento do Estado com a economia, que tem de ser profundamente revisto. Mas disso não se fala.
    Gostava que nas próximas eleições tivesse um programa no qual pudesse votar com entusiasmo e convicção – já comecei a perceber que a escolha vai ser entre um mal maior e mal menor. Se chegar a ser.
    O que realmente gostava é que se percebesse que a nossa crise não existe apenas por causa da bebedeira dos juros baixos, da ineficiência de uma economia acomodada a um mercado interno protegido e, claro, dos desvarios de José Sócrates. Ou da crise financeira global que foi o detonador das crises que vieram depois. É altura de perceber que isso não explica tudo. A nossa crise, como a crise que, em diferentes dimensões e modalidades, tem persistentemente condenado as economias desenvolvidas, com poucas excepções, a crescimentos anémicos, decorre de mudanças radicais que exigem soluções também radicais.
  2. O que não nos dizem é que, mesmo depois de regressarmos aos mercados ou de retomarmos um crescimento inevitavelmente tímido, continuamos sentados em cima de uma bomba relógio. Uma bomba relógio política, pois é cada vez mais difícil – ou tem-se mostrado cada vez mais difícil – tomar decisões estruturais e obter consensos alargados, uma vez que grande parte das nossas sociedades, e da portuguesa em particular, está entrincheirada em qualquer forma de benefício (das “rendas” dos grandes oligopólios às “rendas” de casa subsidiadas de “pobres” para a toda a vida, passando pelas “rendas” dos pilotos da TAP ou dos trabalhadores do Metro). Difícil também porque a democracia tem dado lugar à demagogia, o realismo cede terreno face ao populismo, a transparência tornou-se obsessiva bisbilhotice, o debate político e ideológico parece ter-se transferido para o tribalismo grotesco das redes sociais e das suas reacções viscerais (também lhes chamam “virais”).
    Todos sabem que temos uma demografia extremamente desfavorável. Que isso vai fazer aumentar a pressão não apenas sobre o sistema de pensões, mas também sobre a rede de serviços sociais e de cuidados de saúde. Todos sabem que temos um Estado demasiado preocupado, e ocupado, com micro-regulamentos que pretendem comandar tudo, impor normas a tudo, tal como sabem que sempre que ocorre um desastre inesperado se vem logo dizer que falta mais uma lei ou um novo regulamento qualquer.
    Todos também sabem que somos um país pequeno, uma economia muito aberta, e que enquanto não produzirmos e exportarmos mais, qualquer aumento do consumo interno pode criar a ilusão de um crescimento da economia, mas uma ilusão com dramáticas consequências no défice externo e numa dívida que, considerando o Estado, as empresas e as famílias, é a maior de toda a OCDE (370% do PIB, quase quatro anos de tudo o que produzimos em Portugal).
    Face a isto, o que nos propõe o PS são paliativos, aspirinas que talvez ajudem a mascarar a doença, mas que são ao mesmo tempo apostas arriscadíssimas que, podendo bater certo nas contas dos macro-economistas, não batem certo com uma economia que necessita de se abrir muito mais à concorrência e ao exterior.
    Face a isto, o que até agora nos tem proposto a actual maioria é apenas prudência, para não estragar o que foi, goste-se ou não, um duro reajustamento, um penoso regresso aos números positivos e a introdução de algumas (poucas, insuficientes) reformas.
  3. Gostaria de algo bem diferente. Gostaria de que ficasse claro que não é possível manter o nosso modelo de Estado Social, em que o Estado não é apenas o garante das prestações essenciais, mas antes o quase universal prestador de serviços. Gostaria que ficasse claro que vamos ter de viver numa sociedade menos regulada, com todos os riscos que isso implica, com todos os interesses que vai desalojar, mas também com todos os benefícios que pode trazer – de serviços como a Uber à forma como a Booking e outros sites permitiram a tantos portugueses que começassem a alugar (e a recuperar) as suas segundas habitações.
    Gostaria de ir muito, muito mais longe. O Serviço Nacional de Saúde não pode continuar a ser visto como o prestador universal de cuidados, até porque isso já é uma imensa mentira. A escola pública não pode continuar a ser vista como um serviço do Estado, centralizado na 5 de Outubro e condicionado pelo Mário Nogueira. O direito às pensões não pode continuar a não ter limites, a obrigar o Estado a ser responsável tanto pela imensidão de pensões miseráveis como pelo pagamento de pensões muito altas para o nosso padrão de vida. Devolver a organizações da sociedade civil, de todo o tipo, funções que o Estado tem chamado para si, não pode ser encarado como uma forma de beneficiar amigos (como tantas vezes sucede), antes como o único caminho possível para prestar melhores serviços de proximidade, sem políticos a interferirem. A ideia de que “solidariedade social” é igual a serviços público e que o resto é “assistencialismo” tem de ser vista como um arcaísmo tão desajustado como a do “planeamento central da economia”.
    O Estado, tal como hoje existe, com as funções que tem, com tudo aquilo que se lhe pede – e em Portugal, país que sempre gostou de se encostar ao Estado, chamasse-se ele Paço Real ou Ministério da Economia, pede-se-lhe sempre mais  mais – está condenado continuar a consumir recursos crescentes se não alterarmos a sua lógica. Mas como não voltará a haver o dinheiro fácil do passado, o Estado estará condenado a uma espécie de “austeridade para mil anos”, como o Reich que Hitler imaginou mas virado do avesso.
  4. A reforma do Estado, de que tanto se fala sem nada de substancial propor, tem de passar pela devolução de funções que hoje estão concentradas nos ministérios e dependem de decisões políticas, transferindo-as para níveis inferiores da administração pública, para organizações da sociedade civil, para os cidadãos, as famílias, as empresas.
    Em muitos domínios isso passa pela co-responsabilização dos cidadãos. Isso já começou a acontecer na área da Saúde, onde a rede de seguros privados complementa, com vantagens mútuas, o recurso exclusivo ao SNS. Isso pode acontecer em muito mais larga escala na Educação. Isso tem de suceder, com urgência gritante, no sistema de pensões, onde quem quiser um dia beneficiar de uma reforma mais elevada terá de encontrar sistemas alternativos e complementares.
    Hoje o Estado ocupa-se da colocação de todos os professores do país, porque é isso que dá aos sindicatos o poder que eles têm e porque é isso que é a cultura dos serviços e o destino dos ministros. Não faz nenhum sentido. Tal como não faz nenhum sentido continuarmos a falar numa espécie de “contracto colectivo” dos médicos, ou dos professores universitários, a que damos pomposamente o nome da “carreiras médicas” ou de “estatuto da carreira docente”, tudo naturalmente supervisionado pelo político de serviço, que tanto pode ser competente e rigoroso, como pode ser cobarde ou mesmo venal.
    Hoje confunde-se informatização dos serviços e desburocratização com lojas do cidadão, quando o que devia estar a ser feito era a desmontar as toneladas de legislação que dizem como um restaurante deve arrumar o seu frigorífico, quantos centímetros devem distar as torneiras num balneário de uma fábrica ou a que altura se pode colocar um interruptor eléctrico.
    Infelizmente não é isso que pede a gritaria das redes sociais, não é isso que está na cultura da administração pública, não é nisso que pensam os políticos.
  5. Um programa deste tipo não é totalmente estranho ao que já está a ser feito, um passo aqui, outro além, em países como o Reino Unido, a Holanda, a Dinamarca, a Suécia, mesmo a Alemanha ou a Suíça. Não é uma utopia, é uma necessidade e, ele sim, exige uma visão sobre o que será o nosso futuro, para onde caminhamos. Uma visão para a próxima década e para as seguintes.
    Eu não quero que os políticos me digam que a sua visão é, por exemplo, a de um país mais qualificado – quero que os cidadãos sigam por esse caminho porque têm os incentivos certos.
    Eu não quero que os políticos me digam que a aposta tem de ser nas empresas de tecnologia e criem para isso novos subsídios (esse eufemismo para “rendas”) – quero que as empresas, habituadas à concorrência, escolham o seu caminho, que tanto pode ser a produzirem ostras como reinventarem uma indústria como a têxtil.
    Eu não quero que a obsessão pela igualdade acabe na limitação da liberdade de procurar ter sucesso – quero sim que essa liberdade venha com mais responsabilidade e que o Estado se ocupe mais e melhor dos que realmente necessitam em vez de tremer como varas verdes perante a mais pequena gritaria de um grupo de “reformados VIP”.
    Eu não quero um Estado que cobra impostos sobre tudo o que se move; que quando isso não chega para paralisar a actividade e limitar a ambição e a inventividade, cria logo novos regulamentos; que, quando finalmente tem tudo controlado, passa a subsidiar o que não funciona; e que acaba sempre falido, pois essa é a fatalidade de quem tudo quer controlar.
  6. Lenine dizia que ter confiança é bom, mas que ter controle é melhor. Ora o que precisamos é de não ser leninistas. No fundo, de não sermos tão socialistas, estatistas e intervencionistas como somos, e de perceber que numa sociedade em tão rápida mutação como é qualquer sociedade moderna, o Estado move-se sempre mais devagar e só pode atrapalhar se quiser limitar e enquadrar todos os riscos e regular todas as nossas vidas. Só que viver com mais riscos e mais responsabilidades é algo que, quero crer, os portugueses acabarão por preferir a este pântano que se eterniza.
    Infelizmente, repito, não creio que em Outubro tenha a possibilidade de votar num programa assim, de real mudança, com visão de futuro, sem medo do passado.

Espírito Santo

O Antigo Testamento proclama abertamente o Pai e mais obscuramente o Filho. O Novo manifestou o Filho e fez entrever a divindade do Espírito. Agora, entre nós, o Espírito tem direito de cidade e concede-nos uma visão mais clara de Si próprio. Com efeito quando ainda não se confessava a divindade do Pai, não era prudente proclamar abertamente o Filho; e quando a divindade do Filho não era admitida, (não era prudente) juntar o Espírito Santo a modos de suplemento (para empregar uma expressão um tanto ousada)… É por avanços e progressões "de glória em glória" que a luz da Trindade brilhará em mais esplendorosas claridades
S. Gregório de Nazianzo, Orationes theologicae 5, 26

Não podemos ignorar

RR online 21-05-2015 16:24 por Raquel Abecasis

Ficamos todos a saber que os socialistas pretendem alterar profundamente a estrutura da nossa sociedade. Assim, quando e se isso acontecer, ninguém se pode queixar de estar a ser enganado.
Na hora de analisar o programa do PS, há algumas notas positivas, ou nem tanto, que devem ser tidas em conta: 
  • É uma boa proposta a de impor uma maioria de dois terços para a aprovação de grandes obras públicas e a criação também de um Conselho Superior de Obras Publicas. Espera-se que esse Conselho seja, de facto, independente e com poderes efectivos. No detalhe, como todos sabemos, está muitas vezes o diabo. Esta é uma medida a pôr em prática logo nos primeiros dias de governo, caso contrário é duvidoso que o venha a ser, dados os inúmeros e poderosos interesses que sairão prejudicados. 
  • É também um bom sinal que o PS volte à carga com a ideia da reforma do sistema eleitoral, embora aqui tenha ainda mais dúvidas de que seja desta. A promessa, como todos sabemos, dura já há várias legislaturas, mas os partidos do sistema preferem continuar a insistir na manutenção do seu poder cada vez menos legítimo. Eleição após eleição, o nível de abstenção aumenta e no dia em que se tornar inevitável uma mudança ela virá já tarde demais, pelo menos no que diz respeito aos actuais políticos. É a vida! 
  • Finalmente é muito positivo que o Partido Socialista diga ao que vem em matéria de projecto de sociedade. No programa, está bem clara a opção pelo fim de toda e qualquer restrição à adopção por casais homossexuais, a eliminação das restrições de acesso à procriação médica assistida, assim como a intenção de dar estatuto legal a um novo género das pessoas intersexo (vá-se lá saber o que isto quer dizer) e de melhorar o quadro legislativo para as pessoas transsexuais e transgénero. Ao contrário das medidas atrás descritas, estas seguramente serão aprovadas com celeridade, caso o PS ganhe as eleições, por isso é louvável que as ponham desde já no papel. Ficamos todos a saber que os socialistas pretendem alterar profundamente a estrutura da nossa sociedade. Assim, quando e se isso acontecer, ninguém se pode queixar de estar a ser enganado. 
Como disse Sophia de Mello Breyner: "Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar."

Pentecostes

BASTIANI, Lazzaro 
Pentecostes (1484-90)
Tapeçaria em lã, seda e prata
Santa Maria della Salute, Venice

O que se diz que se disse sobre o que se pode fazer se…

Helena Matos | Observador | 2015.05.24

A atribuição de uma casa com renda social não é vista como um apoio temporário pelos usufrutuários mas sim como uma benesse vitalícia: as taxas de mobilidade no parque de habitação social rondam os 2%
“Ponto 6. Criação de bolsas de habitação acessível mobilizando 10% do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social para investir em imóveis.” Ao ler o ponto 6 da Proposta de Programa apresentada pelo PS e ao constatar a desatenção a que ele tem sido votado lembrei-me da orquestra do Titanic. Não propriamente do Titanic da realidade mas sim do que teria acontecido caso ele fosse um navio português: nesse caso a questão não seria o desastre vivido pelo barco nem o facto de a orquestra ter continuado a tocar durante o naufrágio mas sim o que cada um dos passageiros teria declarado que gostava de ouvir naquele dramático momento.
A nós, portugueses, a realidade interessa-nos pouco. O que nos apaixona e mobiliza é que se diz sobre o que foi dito que se disse. Por exemplo, e voltando ao programa do PS, que interesse tem esta proposta concreta de usar 10% do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social que por sinal já tem 90% da sua carteira de títulos aplicada em dívida nacional (lembrem-se dessa percentagem – 90% – sempre que se falar de renegociar e bater o pé aos credores!) face à urgente discussão sobre as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa sobre as declarações de António Costa sobre a possibilidade de Cavaco Silva não dar posse a um governo minoritário que possa sair das próximas legislativas? O que é este detalhe da realidade de usar uma percentagem do dinheiro da Segurança Social para custear habitação social (Para quem? Para ser construída por que empresas? Para ser gerida por quem?) face a algo tão urgente quando aquilo que Marcelo diz sobre o que Costa disse pensar sobre o que Cavaco pode fazer perante uma hipótese de resultado eleitoral?
Nós sofremos de uma óbvia distorsão no comentário. Estamos atacados por uma futebolização dos comentários políticos: boa parte do tempo e das energias dos comentadores e protagonistas do mundo do futebol são ocupados a discutir não os jogos em si mesmos mas sim o que disse o treinador, o presidente do clube, o jornalista que por sinal é do outro clube… Esta gente cada vez mais se assemelha aos hooligans que no seu destempero alienado acabavam a nem sequer assistir aos jogos pois estes eram apenas um pretexto para as suas exibições. Na política estamos na mesma. Comentamos o que se diz sobre o que foi dito e não o que o que acontece e muito menos o que propõe.
Nas propostas do PS há aspectos interessantes – por exemplo a criação de uma conta-corrente entre o Estado e as empresas. Outras propostas não passam daquelas vacuidades obrigatórias que surgem nos programas de todos os partidos como é o caso do ponto 9: “Afirmação do interior do país como centralização do mundo ibérico.” (Pelas almas vamos deixar de falar de mundo ibérico. A Ibéria é um excelente negócio para Espanha que nessa designação não só dilui o impacto negativo da temida desagregação do seu estado como nos inclui na molhada daí resultante. Portugal é um estado e não está de modo algum ao nível aspiracional da Catalunha ou do País Basco. Não custa nada escrever luso-espanhol. Se algum dia for luso-espanhol-catalão-basco, será, mas antecipar essa situação não é do nosso interesse.)
E outras propostas, como é o caso da já referida nº 6, são um desastre anunciado. Aliás as propostas para a Segurança Social são aquelas em que a marca do estatismo a que o socialismo está confinado são mais evidentes: pretender financiar a Segurança Social através de uma nova taxa (como se defende no item 16) aplicada às empresas com maior rotatividade de trabalhadores pode soar bem aos ouvidos mas na prática traduz-se por penalizar as empresas que empregam mais jovens e que em muitos casos recorrem a mais tecnologia.  Esgotada como está a capacidade contributiva das empresas e dos trabalhadores anunciar que se vai diversificar as fontes de financiamento da segurança social implica necessariamente cobrar mais impostos. E não, não vão ser as grandes heranças a resolver o problema. As grandes heranças só são grandes para quem as recebe. Para as contas da Segurança Social não valem quase nada. O que pode fazer a diferença são os impostos e estes sobretudo se forem lançados sobre empresas que incorporem mais tecnologia vão acentuar ainda mais a injustiça geracional em que assenta a Segurança Social.
Os actuais contribuintes não só vão trabalhar mais anos e usufruir de reformas que na, melhor das hipóteses, representarão 65% sobre o valor dos seus ordenados (esses contribuintes pagam actualmente com as suas contribuições reformas que chegam a equivaler a 100% dos ordenados auferidos enquanto trabalhadores pelos actuais reformados) como vão ainda confrontar-se com as consequências da saída de mais dinheiro da economia via impostos para financiar a Segurança Social. Esta é uma situação que mais cedo ou mais tarde nos vai explodir nas mãos e que a proposta do PS acentuará mas que por agora não merece nem um centésimo do interesse suscitado pelo que Marcelo disse sobre o que Costa disse que Cavaco pode fazer se…
Mas mesmo que a Segurança Social nadasse em dinheiro cabe perguntar: está na sua vocação apoiar habitação social? Essa pergunta tem tanta mais razão de ser quanto tendo sido António Costa presidente da CML, que é senhoria de 23 mil fogos sociais, não ignora certamente que os estudos sobre habitação social revelam que a atribuição de uma casa com renda social não é vista como um apoio temporário pelos usufrutuários mas sim como uma benesse vitalícia: as taxas de mobilidade no parque de habitação social rondam os 2%. Ou seja aqueles que vierem a ser apoiados caso a proposta do PS vingue continuarão a sê-lo ou achar que têm direito a tal por toda a sua vida.
Mas existe ainda uma outra questão que se prende com a própria concepção de habitação social: quando em 2014 se discutiu como contabilizar a renda social nos apoios sociais recebidos pelos agregados familiares e o aumento da renda social mínima de 4,95 euros para 8,38 euros, constatou-se que inúmeros beneficiários das rendas sociais dependiam de outros apoios sociais. A pergunta tornou-se então inevitável: excluídos os casos de doença, violência doméstica e circunstâncias excepcionais de vida, como é que estas pessoas continuam tão dependentes dos apoios sociais após beneficiarem anos e anos de um apoio tão importante quanto o é uma casa a baixo custo? Aliás em que medida é que terem beneficiado de uma casa social não foi uma espécie de presente envenenado para muitas famílias que tiveram naquela casa o seu ghetto socialmente patrocinado em nome das melhores intenções?
Por fim há uma questão política levantada por esta proposta do PS para a habitação social: já viram os organogramas das empresas municipais de habitação? Estas são conglomerados de gabinetes para os bairros, assistentes sociais, equipas dinamizadoras, mediadores, pólos, grupos técnicos que há que mobilizar para mudar lâmpadas e arranjar persianas… Tudo isto além de ser ineficaz e nos sair caríssimo contribui para o crescimento dos partidos não apenas à custa do Estado mas no Estado.
Se nos libertarmos do diz que disse talvez ainda vamos tempo de discutir a realidade.
PS. O sim ao casamento entre pessoas do mesmos sexo ganhou na Irlanda. Fala-se de votação histórica e, que eu tenha dado por isso, ninguém questiona a legitimidade do resultado. Curiosamente há um ano, em Portugal, a possibilidade de se fazer um referendo sobre a adopção por casais do mesmo sexo colocou o país bem pensante à beira de um ataque de nervos. Referendo tornou-se então sinónimo de populismo. Isto para ja não falar do que se disse e escreveu quando em 2010 entrou uma petição na Assembleia da República com 90 mil assinaturas pedindo a realização de um referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Até ver, pelo menos nos jornais os referendos serão todos legítimos mas, consoante os resultados, uns são menos legítimos que os outros.

“The economy, stupid”

Mário Pinto | Observador 23/5/2015

Sempre me lembro de mim, ao longo da vida inteira, a pedir à economia para dar mais ao social. E não é que, desde há algum tempo, estou a reconhecer que o social deve conceder mais ânimo ao económico?
  1. Antes de iniciar as reflexões seguintes, permita-se-me que me lamente. Sempre me lembro de mim, ao longo de uma vida inteira, a pedir à economia do nosso País para dar mais ao social. E não é que, desde há algum tempo, me encontro a reconhecer o inverso: isto é, que o social deve conceder mais ânimo ao económico? Foi preciso uma revolução para reequilibrar a favor do social. Será preciso agora outra revolução para reequilibrar a favor da economia? Não aprendemos nada com a história?
  2. É bem conhecida a legenda interpelativa, um tanto malcriada, que escolhemos para título, entre aspas, deste artigo. Ela foi inventada por James Carville, director de campanha eleitoral do democrata Bill Clinton contra o republicano George H. W. Bush, para a Presidência dos Estados Unidos — mensagem que terá contribuído muito para a derrota do republicano. Curiosamente, se a repetirmos no nosso contexto político, europeu e português, ela soará, ao contrário do que sucedeu na América, talvez mais como uma voz de direita contra a política de esquerda. Mas é errado, muito errado, considerar esta chamada de atenção para a economia como uma posição partidária, da direita contra a esquerda, ou da esquerda contra a direita. Uma economia próspera não é declarada incompatível por nenhum programa partidário. E é verdade que, na nossa esquerda, quer o Partido Socialista, quer o Partido Comunista, insistem constantemente na necessidade de incentivar a economia — presumivelmente por via de políticas keynesianas, o que não desvaloriza a questão da economia, embora resistindo na primazia do Estado. E seria impensável que a direita não concordasse com a necessidade de dar importância à economia.
  3. Assim sendo, é motivo de grande perplexidade o facto evidente de que, em toda esta grave crise financeira, económica e por fim social em que entrámos, a questão da economia não mereça, entre nós, a importância «política» que merece. Toda a gente agora discute, não a questão da economia (designadamente da produtividade e da competitividade); mas a questão política da «reforma do Estado» — centrada nos poderes do Presidente, na dimensão da Assembleia, no regime de governo, no Tribunal Constitucional, na reforma do regime eleitoral e partidário, na revisão da Constituição, e assim por diante, matérias sobretudo político-institucionais.
    Sem desmerecer a importância destas questões, a verdade é que: se a economia fosse liberta das excessivas cargas burocráticas e fiscais que a oneram; se o mercado de trabalho não fosse mais rígido do que em qualquer outro país da Europa; se a acção do próprio Estado na economia privada não fosse tão prejudicial, quer pela concorrência desleal que lhe faz, quer pela regulação burocratizante, quer pela distorção das suas intervenções que umas vezes são pela subsidiação viciosa e outras pela cumplicidade ou parceria; se o sindicalismo burocrático do funcionalismo público não fosse uma corporativização do Estado e, por via do Estado, uma corporativização de parte da economia; para não falar da corrupção que todos estes mecanismos introduzem no mercado interno e na nossa relação económica com o exterior; teríamos certamente uma economia muito mais próspera, apesar da Constituição e do sistema institucional de Governo que temos.
  4. Dentro da famigerada «reforma do Estado», que quase toda a gente defende, a reforma do «Estado  social» é contudo muito mais urgente do que a reforma do «Estado Democrático» (o «Estado de Direito» não tem estado felizmente em causa) — porque a reforma do Estado social é mais «económica» (reforma da sua economicidade) e a reforma do Estado Democrático é mais «política». Mas toda a gente prefere falar da reforma institucional-política, e não da reforma social-económica. Há portanto tabus no nosso reformismo.
  5. Ora, com tabus não se resolvem crises. Ressalvando a legítima base da vida social e do Estado, que é: o postulado da eminente dignidade da pessoa humana, desdobrado nos direitos pessoais fundamentais humanos correspondentes (digamos: o Estado de Direito), tudo o mais «devia ser revisto», e bem revisto — o que não implica necessariamente que tudo teria de ser reformado ou modificado. Mas estamos muito longe disso.
    Quem se atreve, por exemplo, a rever o regime da greve, interpretando devidamente o nº 2 do art. 57º da Constituição, que diz que «compete aos trabalhadores definir o âmbito de interesses a defender através da greve, não podendo a lei limitar esse âmbito»? Porque o direito de greve, assim definido constitucionalmente, não é um direito de soberania paralelo ao do Estado, nem legitimamente prevalece cega e automaticamente sobre todos e quaisquer outros direitos e interesses legítimos que possa prejudicar. Por definição e sem contestação, a greve política não é juridicamente igual à greve profissional. Na primeira greve que teve lugar após o golpe militar revolucionário do 25 de Abril, o PCP opôs-se vigorosamente invocando o princípio de que a arma da greve é um último recurso. Hoje, quem se recorda de um tal princípio, quando os sindicatos, por conveniência própria, banalizam a greve por motivos políticos?
  6. Quem se atreve a criticar o monopólio estatal da escola pública, a benefício da desburocratização e do menor custo deste importante serviço público? Quem aceita rever o universalismo obrigatório do Serviço Nacional de Saúde? Manifestamente teórico? Por que não manter a obrigatoriedade dos seguros sociais, e a sua garantia pelo Estado, mas flexibilizando as suas formas e abrindo algum espaço de escolha e de comparticipação aos cidadãos? Porque é que o Estado há-de constantemente desejar substituir a sociedade civil, lá onde ela funciona bem, como nas redes educativas e de apoio social, sempre aumentando as redes estatais?
    Quem, ao menos, abre a discussão (como se tem vindo a fazer ultimamente, e mais uma vez, em Itália e em França), sobre o mercado de trabalho e a chamada flexi-segurança? Como já se fez em outros países democráticos, como a Itália, quem se atreve a sindicar a democraticidade dos sindicatos, que são constitucionalmente obrigados à democraticidade interna? E quem se atreve a sindicar a sua representatividade efectiva? Uma vez que se lhes reconhecem importantes privilégios? Porque é que não se há-de abrir maior espaço às comissões de trabalhadores, para a co-gestão e a contratação colectiva nas empresas? Permitindo uma renovação do sindicalismo, como temos boas provas em casos exemplares, como o da Auto-Europa?
    Quem quer cuidadosamente rever a subsidiação de Estado, que é uma fonte de burocratização, de cumplicidade, de viciosa subsídio-dependência. Incluindo nas funções das autarquias? E só é possível à custa dos contribuintes ou da solidariedade europeia — duas fontes que se estão a exaurir.
  7. Será um escândalo rever uma concepção de Estado social que não distingue entre o que, por razão de subsidiariedade, deve ser função do Estado; e o que, igualmente por razão de subsidiariedade, o Estado não deve fazer? E acha que o Estado decide arbitrariamente o que deve e o que não deve fazer? Isto é: defendendo um Estado arbitrário, em vez de um Estado subsidiário?
    Há décadas que se escreve isto, em todos os países e na própria União Europeia. Entretanto, o que se passa em Portugal é que toda a gente (parece que até incluindo os líderes dos empresários) quer mais Estado e mais funções de Estado: tipicamente porque os governados, na sua maioria, esperam receber mais do que pagar de impostos; e porque os governantes é no Estado cada vez maior que têm mais poder e mais empregos para os partidários.
  8. O Estado providencialista está arruinando as economias, nos países onde, como no nosso, se conjuga um grande progresso social com um grande atraso da economia. Foi publicado recentemente que Portugal é dos países europeus que menos cresceu economicamente, desde há muitos anos. É preciso ter a lucidez de não apenas pensar, mas além disso praticar, na linha de um progresso que tem de ser sustentável, dialecticamente no social e no económico. O social e o económico, ou crescem em justa aliança, ou um deles sufoca o outro. A inimizade entre o social e o económico é uma intoxicação primária de que necessitamos vitalmente de nos libertar.
  9. «Horribile dictu»: ao menos lembremo-nos das teses marxistas: «O direito nunca pode ser mais elevado do que o estado económico e o grau de civilização que lhe corresponde…». «… só então o limitado horizonte do direito burguês poderá ser definitivamente ultrapassado e a sociedade poderá escrever nas suas bandeiras: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!».
Ex-deputado à Assembleia Constituinte, professor jubilado da Universidade Católica

Uma religião à medida do «New York Times»?

José Maria C.S. André
«Correio dos Açores», «Verdadeiro Olhar», «ABC Portuguese Canadian Newspaper», 24-V-2015

O Papa Francisco continua a sua catequese sobre a família. Em vez de criticar, propõe a grandeza da vocação familiar; em vez do peso das tentações, prefere falar das exigências maravilhosas do amor. Alguns jornalistas só perguntam se é proibido, mas em muitos ambientes a mensagem profunda e optimista da Igreja vai passando.
Neste contexto positivo, os desafios ganham sentido: «a fidelidade ao Evangelho da vida e ao respeito da vida como dom de Deus, às vezes exigem escolhas corajosas e contracorrente» – diz o Papa (15-XI-2014). O plano de Deus é tão maravilhoso que é uma pena deixarmo-nos enganar; não podemos olhar as tentações como quem suspira por um paraíso proibido; as tentações são uma miragem de felicidade: «Às vezes o pensamento dominante propõe uma “falsa compaixão”: como se favorecer o aborto fosse ajudar a mulher; ou a eutanásia fosse um acto de dignidade; ou “fabricar” um filho fosse uma conquista científica, em vez de se acolher o filho como um dom; ou usar vidas humanas como material de laboratório com o pretexto de eventualmente curar alguém» (ibid.).
A mensagem sobre a misericórdia e o Sacramento da Confissão permite entender muitas coisas. Explica o Papa, «é importante que as pessoas divorciadas e recasadas frequentem a igreja. Então simplificam e concluem “ah! vamos dar a Comunhão aos divorciados”. Isso não resolve nada. Aquilo que a Igreja pretende é que eles se integrem na vida da Igreja». E se as pessoas só querem mesmo comungar? O Papa é claro: «...Ora! Um colar ao peito, uma condecoração. Não. O que precisas é de te reintegrar. As pessoas em segundas uniões não estão em condições de fazer algumas coisas» (14-III-2015). Importa acolher, «acompanhar os processos interiores» (14-III-2015), ajudar as pessoas a superar alguma situação, até ficarem em condições de receber a absolvição sacramental.
O Papa Francisco acaba de nomear duas figuras importantes para o apoiarem nesta catequese de promover a exposição clara da doutrina da Igreja. É interessante perceber essas escolhas. Uma delas é o recém-nomeado Arcebispo de Sydney, Anthony Fisher OP. Tem 54 anos, formou-se em Direito, exerceu advocacia, estudou Teologia, doutorou-se em Oxford, foi professor na universidade e ganhou fama na Austrália pela simpatia e frontalidade da sua catequese. Este estilo levou muita gente a converter-se e aumentou as entradas no seminário. O seu lema episcopal é «Veritatem facientes in caritate» (dizer a verdade com amor) e, realmente, vai direito aos assuntos, com o dom da simpatia.
Declara abertamente que «a nossa única função é ensinar o Evangelho de Jesus Cristo, não estamos aqui para construir a nossa própria religião de acordo com as modas ou com o que o “New York Times” pretende». A verdade é que este estilo directo cai bem entre os jornalistas, incluindo os do NYT, e a juventude australiana adoptou-o como uma espécie de ídolo. A sintonia do Arcebispo de Sydney com o Papa é particularmente evidente: ambos gostam da perspectiva positiva e de propor grandes desafios.
Fisher sabe provocar sem ofender: «No fundo, acho que muitas pessoas não sabem amar muito bem. Falta-lhes o sacrifício de amar, têm medo do compromisso do amor, da vulnerabilidade de quem ama, das consequências do fracasso». 
Facilidades? «Esperamos, ansiamos grandeza para ambos, e heroísmo para ambos, e felicidade para ambos». «Não basta contribuir para um certo equilibrismo de “bem” e de “mal” (...). Queremos mesmo que as pessoas façam coisas grandiosas». Para explicar o amor, dá o exemplo da mãe que se levanta a meio da noite quando o bebé chora, embora lhe custe, porque sabe que tem uma missão a cumprir. «Afinal, aquilo é amor, por isso a mãe persevera nesse sacrifício».
«Muitas vezes se reduziu o amor, ao torná-lo romântico, sentimental, explorando-o comercialmente de várias maneiras. Por isso, às vezes as pessoas têm uma perspectiva do amor cheia de emoções, de calor, de um sentimento nebuloso cá dentro, quentinho e nebuloso, focado obsessivamente numa pessoa, retirando determinadas satisfações dessa relação. Anda-se a vender essa visão de “dia dos namorados” como se fosse amor. Totalmente ao contrário do amor que Cristo nos mostrou na Cruz».
A ideia a transmitir é que um amor a sério vale a pena. Um momento de dificuldade pode ser um momento de grandeza. Deus ajuda. Vale a pena.
Segundo o Arcebispo, o sínodo vai servir para os católicos apreciarem o amor na família. «Esse amor até ao sacrifício de si mesmo, personificado por Jesus Cristo na sua Semana Santa e na sua Páscoa por nós, esse é o tipo de amor que precisamos de reaprender e ensinar ao mundo».
Aos poucos, a mensagem vai passando, na medida em que cada um se dispõe a ouvi-la.

sábado, 23 de maio de 2015

É possível fazer um juízo moral sobre as coisas que acontecem?

A liberdade faz do homem um sujeito moral. Quando age de maneira deliberada, o homem é, por assim dizer, pai dos seus actos. Os actos humanos, quer dizer, livremente escolhidos em consequência de um juízo de consciência, são moralmente qualificáveis. São bons ou maus.
Catecismo da Igreja Católica, 1749

O AMOR NÃO ACONTECE. DECIDE-SE.

José Luís Nunes Martins, Facebook, 2015.05.23

Há quem julgue que o amor é alheio à vontade humana, algo superior que elege, embala e conduz… e que quase nada se pode fazer perante tamanha força. Isso é uma mera paixão no seu sentido menos nobre. E, nesse caso, sim, o amor acontece... Ao contrário, amar é estar acima das paixões e dos apetites. Mesmo quando o amor nasce de uma espontaneidade, resulta de um claro discernimento.
O amor decorre de uma decisão. De um compromisso. Constrói-se de forma consciente. Através do heroísmo de alguém livre que decide ser o que poucos ousam. Escolhe para fim de si mesmo ser o meio para a felicidade daquele a quem ama. Sim, decide-se amar e, sim, decide-se a quem amar. 
O amor autêntico é raro e extraordinário, embora o seu nome sirva para quase tudo... a maior parte das vezes designa egoísmos entrelaçados, cada vez mais comuns. São poucos os que se aventuram, os que arriscam tudo, os que se dispõem a amar mesmo quando sabem que poucos sequer perceberão o que fazem, o seu porquê e o para quê. 
O amor não supõe reciprocidade. Amar é dar-se por completo e aceitar tudo... não se contabilizam ganhos e perdas, porque o seu maior ganho é esse mesmo: perder-se. Entregar o corpo e o espírito, o passado e o futuro, a razão e o coração... não é ser metade de qualquer coisa, é dar-se inteiro em troca de nada. 
Quem ama nunca se funde nem confunde com o amado. Os egoísmos buscam modificar o outro para o fazer à sua imagem e semelhança. O amor aceita e promove o ser do outro, enquanto verdade livre e autónoma, com o seu significado, rumo e valor próprios. 
O amor envolve alegrias puras e tristezas fundas, sorrisos sinceros e dores profundas. Amar não é ser feliz. Mas será muito mais importante amar do que ser feliz, porque só é feliz quem ama, seja neste momento ou na eternidade. 
Nunca se está tão perto da solidão absoluta como quando se é capaz de amar. O risco de tudo ser absurdo... é grande. Enorme. Mas o amor é uma perfeição, não uma perdição. É uma virtude porque resulta de uma escolha responsável, um compromisso íntimo de alguém com outra pessoa a quem se dá o melhor de si… face a face com a possibilidade do pior dos fracassos: uma vida em vão. 
É mais forte do que a morte. Quando se ama alguém, a sua perda apenas aprofunda e eleva, engrandece e alarga o coração de quem, apesar de todos os sofrimentos, medos e angústias, aqui decide não ser daqui. A verdade é que se todos os caminhos nos levam ao amanhã, só o do amor nos entrega à eternidade.
Amar é renunciar a muito, a quase tudo, sentir, pensar e dizer não… a todas as outras possibilidades, às superficialidades e aos prazeres, ao próprio egoísmo que tenta impor-se, tantas vezes, como se fosse uma questão de sobrevivência. 
Amar é criar. Do nada faz tudo. A sua essência escapa por completo à compreensão humana. A sua lógica é outra... O amor é divino. Quem ama faz-se a si mesmo imagem de Deus.
É preciso muita coragem e uma nobreza suprema para sentir, pensar e dizer a cada dia e a cada noite: sim, quero! sim, aceito! sim, amo! 

Para a semana há mais

Inês Teotónio Pereira, ionline, 2015.05.23

É moda assistir, partilhar e explorar cenas das misérias humanas e escrever prosas filosóficas sobre cada uma e sobre o facto de assistirmos, partilharmos e explorarmos essa mesma miséria humana. Somos assim
Uma mãe vem a público, através do Facebook, afirmar que preferia que o seu filho estivesse no lugar da criança que ele matou. Ou seja, que preferia ter um filho morto a ter um filho assassino. Sobre o caso, opiniões: uma mãe não devia pensar e sentir o que disse e muito menos dizê-lo; por outro lado, é de louvar a coragem e verticalidade da mãe por ter posto a justiça à frente das emoções e do amor de mãe. O filho já tinha sido referenciado, o que atenua de alguma forma o comportamento dele e da mãe. Existe um contexto – sempre o contexto. Apesar do contexto, fizeram-se juízos e fizeram-se juízos sem qualquer dificuldade em interpretar quadros psicológicos, comportamentos, perceber fundamentos ou dilemas morais. Há sempre alguma coisa para dizer. Escreveu-se muito sobre isto.
Um polícia abraça o menino que assistia à tareia que outros polícias davam ao pai. A CMTV filmou. Está lá tudo. Não está o som, mas isso não interessa – e não interessa mesmo. Chocante, emocionante. Pediu-se a cabeça do comando, do superintendente, da ministra. Exigiu-se justiça rápida. A fotografia do polícia a abraçar o menino é linda – vai ser a fotografia do ano. Entrevistou-se a mãe do polícia que abraçou o menino e que confirmou a bondade do polícia bom. Está tudo nas imagens: o polícia mau, o polícia bom, o pai, o menino desesperado e o bastão. Podemos deixar entrar a indignação. Queremos a cabeça dos responsáveis pelo polícia mau. E queremos o nome, a morada, a matrícula do carro do polícia mau. Escreveu-se muito sobre isto.  
Em Guimarães, imagens sem som revelam pessoas a roubar coisas do armazém do estádio de Guimarães. Roubam calmamente, sem pressa, sem adrenalina nenhuma. Um roubo sem emoção. Não havia polícias a guardar o armazém cheio de coisas que se podem roubar. Um telemóvel filmou tudo. Onde estava a polícia? Como não havia polícia, deve ser de graça. Analisou-se o caso: o roubo e a polícia que não estava. O que é que isto diz do país e das pessoas? Do Benfica, do futebol e dos adeptos? Do mundo e dos tempos? Escreveu-se muito sobre isto.
Há uns dias também se escreveu sobre as raparigas que bateram no miúdo e sobre a menina de 12 anos violada pelo padrasto que fez um aborto. Mas já passou. Não há tempo para tudo. Já não se escreve muito sobre isto.
É moda. É moda assistir, partilhar e explorar cenas das misérias humanas e escrever prosas filosóficas sobre cada uma e sobre o facto de assistirmos, partilharmos e explorarmos essa mesma miséria humana. Somos assim. Somos especialistas emocionais com razão e noção de justiça.
E isto quer dizer o quê? Quer dizer que cada caso deixou de ser um caso, que os casos explicam multidões. Explicam que as mães não protegem os filhos, que os polícias batem nas pessoas com bastões de aço e que as pessoas roubam. Que o mundo está perdido, que os jovens já não são o que eram. Tudo isto quer dizer que precisamos de casos para ter opinião. Que a nossa moral é empírica, relativa e vai-se formando conforme os casos. Sem casos, vivíamos na solidão do pensamento abstracto que dita princípios, valores e religiões. Sem casos, não teríamos princípios ou valores, e sem a televisão ou as redes sociais seria mesmo impossível.
Mas esta semana foi boa: esta semana não gostámos do polícia mau, somos o polícia bom da mesma forma que já fomos Charlie e temos um dilema moral: não temos a certeza se gostamos da mãe que preferia que o filho fosse a vítima e não o assassino. Para a semana há mais.

Julieta e a Bíblia

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 23/5/2015

A Bíblia ensina a conhecer a história da aventura do amor de Deus com a humanidade. Uma história maravilhosa e verdadeira…

Não, esta Julieta não é a homónima heroína do drama de Shakespeare, mas uma personagem bem mais prosaica. Pequenina – não levantava do chão mais do que metro e meio – e com dois diminutos olhos escuros sempre a tremelicar, esta Julieta era a velha costureira que ia a nossa casa trabalhar. Para nós, as crianças, ela era a nossa principal contadora de histórias.
Sentada na sua pequenina cadeira, no quarto de costura, junto à cozinha, sabia um ror de lendas fantásticas, que nos repetia incansavelmente, enquanto as suas mãos cerziam algumas meias mais gastas, coziam uma bainha, reforçavam as joelheiras de umas calças, ou remendavam as cotoveleiras de alguma camisola mais puída. Dos seus contos emergiam monstros e fadas, árvores falantes e princesas enfeitiçadas, touros furiosos e castelos assombrados, que tinham sempre o condão de nos entreter e divertir.
Chamava-se Julieta Patraquim dos Reis, mas era uma Julieta sem Romeu, porque as suas histórias não eram dramas de faca e alguidar, mas enredos maravilhosos, que nos punham a imaginação a bailar. O seu estranho apelido, Patraquim, talvez por rimar com Arlequim, estava perfeitamente ajustado à sua arte de nos distrair, enquanto as suas laboriosas mãos iam trabalhando as peças de roupa que descansavam no seu regaço, às vezes entre os vestidos de alguma boneca que, à socapa da nossa mãe, as minhas irmãs lhe pediam que consertasse. Quanto ao seu último apelido, dos Reis, não podia ser mais adequado à sua condição de cronista-mór do reino lá de casa: ela era mesmo dos reis, dos príncipes e das princesas, dos cavaleiros e das damas, dos pajens e das bruxas, dos duendes e das mais insólitas personagens que imaginar se possa!
Não sei o que foi feito da Julieta, falecida decerto há muito, nem do seu dedal, nem da tesoura que trazia à cinta, pendente. Perdi-lhe o rasto, mas não o das suas histórias, que voltei a encontrar … na Sagrada Escritura. Sim, a Bíblia é o livro mais fantástico e realista do mundo. E, por ser palavra de Deus, é necessariamente verdadeiro.
Nas histórias da Julieta havia animais que falavam e, no Génesis, é uma serpente que dialoga com Adão e Eva. Havia princesas enterradas, cujos cabelos eram os ramos das árvores, como na Bíblia, onde o fruto proibido foi envenenado pela desobediência do primeiro casal. Havia touros azuis, mas infinitamente inferiores à zoologia surrealista do Apocalipse – “os quatro seres viventes tinham cada um seis asas cobertas de olhos por fora e por dentro” (Ap 4, 8) – que ultrapassa, na sua inexcedível criatividade, a prodigiosa imaginação de Bosch, ou de Dali.
Foi assim que aprendi que a Bíblia é um livro infantil, do seu primeiro ao último texto. Se, no Génesis, a primeira mulher é feita de uma costela masculina, no Apocalipse,  miríadas e miríades de anjos se confrontam em lutas cósmicas, que deixam a Guerra das Estrelas reduzida à insignificância de um folhetim de cordel. O arcanjo Miguel peleja e ganha uma luta infernal ao ”grande  dragão de fogo, com sete cabeças e dez chifres” que, “com a sua cauda, varreu a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as à terra” (Ap 12, 3-4). Comparado com eles, o Super-homem, de capa esvoaçante e berrante tanga, é de um ridículo atroz, para já não falar do Zorro da mascarilha carnavalesca, ou de outras criaturas inferiores.
Se a Bíblia fosse só para os eruditos, seria um apanhado de fórmulas matemáticas, inacessíveis para o comum dos mortais. Como é para todos, recorre a uma linguagem universal, qual é a dos contos de fadas. Mas não se pense, contudo, que o Antigo e o Novo Testamentos não passam de fábulas para ingénuos. Pelo contrário, são uma explicação realista do mundo e do homem, onde constam todas as virtudes e vícios, como nas tradicionais histórias infantis, também pejados de belas e boas princesas e bruxas feias e más. Também na poesia de um salmo, ou na linguagem figurada de uma parábola, há, embora não do mesmo modo como nos compêndios científicos e filosóficos, verdadeiro saber.
Cristo disse, num momento de jubilosa exaltação, que Deus se revelou aos simples e não aos sábios (Lc 10, 21). Por isso, ao velho Nicodemos foi dito que tinha que nascer de novo, ou seja, fazer-se criança, porque o reino dos céus é dos pequeninos.  Graças à Bíblia, miúdos e graúdos aprendem a conhecer a realidade, não como uma entediante rotina, mas como a mais maravilhosa e verdadeira história de amor e de aventura de Deus com a humanidade.
Muito obrigado, Julieta, por me ter ensinado a sonhar porque, como dizia o poeta, é pelo sonho que vamos … a Deus!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O que não se diz

JOÃO CÉSAR DAS NEVES DN 20 maio 2015

Em tempos conturbados florescem ideologias. O mundo hoje vive uma mudança acelerada, com desenvolvimentos espantosos e possibilidades desconhecidas. Chamamos "crise" ao nascimento de um mundo novo. Infelizmente, as dores de parto levam ao repúdio do inevitável.
A generalidade das opiniões acerca da conjuntura não fala de futuro, mas de culpas. Analisar a evolução, compreender os problemas e determinar a abordagem é exigente, trabalhoso, complexo. Muito mais fácil e gratificante é enunciar apreciações dogmáticas, trocadilhos retóricos ou acusações morais, que parecem fundamentadas, mas desviam e evitam a questão. Ignoram-se as novidades preferindo-se descrever obsessivamente as supostas asneiras do governo, Alemanha ou FMI e os vícios das terríveis doutrinas neoliberais ou keynesianas. Assim se omite a realidade. A atitude é como se alguém, esquecendo os avanços da medicina, atribuísse todas as doenças a falhas médicas e terapêuticas erradas.
Uma ideologia não é erro ou capricho, mas algo indispensável, pois não podemos enfrentar o mundo sem critérios. O mal está, não na doutrina, mas na sua absolutização, que leva a esquecer a presença da realidade e a validade das alternativas. Ter um modelo de pensamento é imprescindível, mas ele deve ser continuamente testado na evolução da existência, única referência decisiva, sobretudo em alturas de clivagem. Por outro lado nunca podemos esquecer que os adversários, precisamente por o serem, têm sempre muito a ensinar-nos.
Tempos de transformação e mudança afectam os interesses e hábitos estabelecidos. Por isso os movimentos ideológicos ganham maior relevância, afogando a sabedoria e o conhecimento. Não interessa o que acontece, mas os erros dos que lidam com o que acontece. Em vez de debater progresso, tecnologias e novidades, denunciam-se corruptos e especuladores, políticos e empresários. Troca-se a procura de novas possibilidades e produtividades pela invocação de direitos adquiridos e preconceitos caducos. Entretanto o mundo passa ao lado.
A cada momento ouvimos vítimas da crise explicar o seu sofrimento pela maldade ou estupidez dos dirigentes, sem procurar sequer entender o que realmente aconteceu. Pode ser compreensível, mas é negativo e ocioso. Prefere-se a ignorância indignada ao conhecimento da evolução. Não interessam as novas dinâmicas, só as antigas queixas.
Nessas alturas uma análise serena e ponderada dos acontecimentos é repudiada com violência e, paradoxalmente, acusada de ideologia. Porque a forma mais simples de calar o importuno é apelidá-lo de neoliberal, comunista, extremista, reacionário ou qualquer coisa que nos dispense de considerar com atenção os seus argu-mentos. Apresentar um raciocínio, descrever um problema, formular uma conclusão dá muito trabalho, obriga a pensar e procurar uma resposta substancial. É mais barato descartar a elaboração rotulando o maçador. Em vez de um estudo compõe-se uma epopeia; no lugar de fundamentos jorram rapsódias, até afogar a discussão.
Implícita está a hipótese de que nunca um neoliberal ou comunista podem dizer algo de valor, que é impossível um extremista ou reacionário ter razão. Claro que, se explicitada, esta tese surgiria logo como a tolice evidente que é. Mas ela nunca chega à conversa, ficando escondida atrás do floreado de comparações e exemplos, condenações e juízos, todos aparentemente esmagadores, mas sempre desviados do cerne da questão e dos termos concretos da realidade.
Outro elemento da polémica bombástica é o fascínio de pôr o dedo na ferida, atirar pedradas ao charco e acusar o rei nu. Isso até parece realista e há quem julgue salvar o país só por o fazer, afastando-se mais um pouco das questões relevantes do momento. Porque esse tipo de actividade só seria útil nos casos raríssimos de cegueira colectiva, pois normalmente as chagas doem, os charcos vêem-se e um nudista ressalta. Mas, como do alto da sua ideologia, o doutrinador se considera genial perante um mundo de corruptos especuladores, não admira que ache mesmo ser o único a descobrir a anomalia que julga denunciar. Também aqui domina a preguiça e oportunismo, pois é muito mais simples pisar a úlcera do que curá-la, apedrejar de longe do que drenar o pântano, acusar o cortejo do que governar o reino. Pior, os dedos só infectam, as pedras bloqueiam, os insultos irritam sem nada resolverem.
Vivemos um tempo maravilhoso, que modificará o mundo para sempre. A evolução não pára e, queiramos ou não, nela viveremos. Todos o sabem, mas não é disso que se fala.