terça-feira, 7 de julho de 2015

Όχι: o cansaço grego

Paulo de Almeida Sande | Observador | 7/7/2015

E aqui chegámos: o referendo reforçou o governo de Tsipras na sua legitimidade popular e fez das instituições europeias as “más da fita”, responsáveis primeiras e irredimíveis do sofrimento dos povos.
Todos gostam de um bom herói. David. A Grécia do referendo e da luta contra a austeridade. Um herói precisa de vilões para ser realçado. Golias. Os malvados credores, isto é, as instituições europeias. Hoje, pela Europa fora, ou pelo menos nos países do sul, os corajosos gregos são louvados como o paradigma da luta contra a opressão e a ditadura da dívida.
E aqui chegámos: os gregos votaram Não no domingo e a zona euro está em ebulição.
E aqui chegámos: 8 anos depois do início da crise. 6 depois do seu reconhecimento na Grécia. 5 após o 1º programa de assistência de 110 mil milhões de euros. 3 anos depois do 2º programa de assistência de 130 mil milhões até ao início de 2015, alargado ao final de Junho, quando expirou irremediavelmente. 3 anos após o “haircut” da dívida – na mão de credores privados – de cerca de 100 mil milhões de euros. Hoje, agora, amanhã, os gregos encaram o futuro com esperança e inquietação, a Europa encara o futuro com inquietação e esperança.
E aqui chegámos: a saída de cena de Varoufakis não espanta, se pensarmos que, entre muitas outras coisas bondosas, acusou o FMI de ter praticado actos criminosos na Grécia; denunciou as tácticas negociais terroristas da troika; deu as boas vindas “ao ódio” para com ele dos ministros das finanças da zona euro, como twittou em certa ocasião. A sua demissão permite pelo menos alguma esperança na negociação, ainda que aparentemente o novo Ministro das Finanças grego, mais conciliador do que Varoufakis, seja menos favorável à Europa do que ele.
E aqui chegámos: quando há pouco mais de 6 meses tudo indicava que a eurozona iria encarar de frente o problema das dívidas dos países do Sul, impossíveis de pagar, e a Grécia, regressada ao crescimento, parecia a caminho de sair da assistência, tudo volta violentamente atrás. E o FMI, a 2 de Julho, admitiu que o país precisa agora de um 3º resgate de nunca menos de 50 mil milhões de euros até ao final de 2018.
E aqui chegámos: o referendo reforçou o governo de Tsipras na sua legitimidade popular e fez das instituições europeias as “más da fita”, responsáveis primeiras e irredimíveis do sofrimento dos povos europeus (a par da senhora Merkel, mas essa é história antiga que, de tantas vezes repetida, se foi fazendo verdadeira aos olhos de quem vê com óculos de não querer ver).
E aqui chegámos: a Grécia nunca devia ter entrado para a zona euro: com uma dívida pública de 126,4% do PNB em 2002, data da sua entrada na zona euro, estava longe dos 60% exigidos para poder fazer parte dela. Com esse nível de endividamento e uma disciplina fiscal incerta, a entrada numa união monetária – perdendo soberania fiscal e instrumentos importantes de política económica como a desvalorização cambial -, foi um erro. Mas tendo entrado, uma possível saída é um enorme risco, para a Grécia e a Europa.
E aqui chegámos: sem a ajuda do Banco Central Europeu, os bancos gregos não têm liquidez para prover às necessidades do país, e depressa entrarão em colapso. Mas a Grécia tem de pagar, até 20 de Julho, 3,5 mil milhões… ao Banco Central Europeu. Ora esse pagamento só é possível se até lá houver novo programa de ajuda externa dos parceiros europeus ou de terceiros (só não se sabe quem, dificilmente poderá ser a Rússia); ou isso ou outro milagre qualquer. Nesse cenário, a ruptura e a saída do euro – seja qual for a solução jurídica, incluindo um pedido grego de saída da União Europeia – pode tornar-se a única via possível.
E aqui chegámos: entre 2001 e 2007, a Grécia cresceu 32% (contra 9% de Portugal e 11% da Alemanha), crescimento acompanhado de uma subida dos salários em 75%. 75%! À custa, claro, de endividamento público. Já os défices orçamentais – razão principal para o crescimento da dívida – vinham de longe: 14,07% em 1989, 16,1% em 1990, 20,79% em 1994. Cresceu a dívida (dos 24,6% do produto em 1975 para 111,3% em 96); o programa de estabilização de 1993 para a entrada da Grécia no euro levou à sua drástica redução nominal, para 8,1% em 1997 e 1,6% em 1999. Mas em 2004 o governo grego reconheceu que esses números estavam errados e que o défice nunca teria baixado dos 3%. Nesse ano de Jogos Olímpicos, depressa chegou aos 9,47%.
E aqui chegámos: fica o problema da dívida. Caso os países europeus decidissem reestruturar exclusivamente a dívida grega – de 341,4 mil milhões de euros -, coisa que o Banco Central Europeu já disse ser impossível por não se poder singularizar um único país, não seriam apenas os bancos alemães a sofrer, como tantos admiradores do David grego gostam de proclamar.  Portugal, por exemplo, tem uma exposição à dívida grega da ordem dos 4,8 mil milhões, qualquer coisa como 2,8% do nosso PIB. Mas pronto, deve ser uma coisa boa proceder a um segundo “haircut” da dívida grega à custa dos contribuintes europeus.
E aqui chegámos: em Janeiro, o novo governo grego interrompeu um processo em que as dívidas soberanas dos países europeus, com destaque para os do Sul, estavam a ser consideradas em conjunto; premissa maior era a clara percepção da carga que representam para as economias europeias em geral, as dos países mais endividados em particular, e para a própria integração europeia. Essa era a agenda e as negociações nunca pararam, até os gregos terem decidido introduzir no processo uma espécie de travão radical, com a não aceitação das condições das instituições e, sobretudo, a convocação do referendo. E contudo, ao contrário do que tantos dizem, não parece haver na Europa má vontade contra a Grécia (pretextos para forçar um grexit foram já legião); é hoje claro que os parceiros europeus querem o país no euro e na União – mas não a qualquer custo e, sobretudo, não a custo das respectivas populações e contribuintes. A solidariedade europeia é fundamental, mas tem de ser recíproca.
E agora? Perante os gritos de bajulação do gesto grego – do referendo e o seu resultado -, ninguém sabe bem o que se vai passar. Os líderes europeus reúnem-se em vagas sucessivas e o eixo franco-alemão, de súbito reactivado, já se pronunciou: aguarda-se as propostas gregas. Mas o relógio não pára e o tempo para aquele que será talvez o verdadeiro derradeiro prazo começa a escassear.
Os líderes europeus, incluindo os gregos, têm de mostrar bom senso e negociar com abertura de espírito e vontade de chegar a resultados. De ter contenção verbal, como não aconteceu, de parte a parte, nos últimos seis meses.
A comédia grega não pode acabar em tragédia, sob pena de fazer implodir o venerável e ambicioso anfiteatro europeu em que todos somos a um tempo espectadores e actores.

As notícias que sabemos que vão chegar, mas preferíamos que não existissem

José Manuel Fernandes, Macroscópio, 2015.07.07

 
Há dias assim. Dias com o de hoje em que, bem cedo, a notícia caiu na nossa redação – e em todas as redações. Foi pouco depois das sete da manhã: Maria de Jesus Barroso acabara de morrer. Pelas 5h50 da madrugada. Há semana e meia que sabíamos que era apenas uma questão de tempo – desde a triste notícia da sua queda, do derrame cerebral, do coma irreversível. Mesmo assim esta é uma daquelas notícias que, mesmo quando estamos preparados para as dar, preferíamos que nunca nos surgissem em cima da secretária. Que não existissem.
 
Dia de memórias e palavras de homenagem, hoje não posso deixar de destacar alguns trabalhos que, de entre os muitos que já foram divulgados, julgo merecerem a atenção dos leitores do Macroscópio. Aqui no Observador tínhamos preparado um perfil da que foi uma grande mulher ao lado de um grande homem e seleccionáramos um conjunto de fotografias de vida para as quais chamo a vossa atenção especial. Gostava também que a ouvissem, ou voltassem a ouvir, a declamar poemas, como estes três de Sophia de Mello Breyner Andresen que também escolhemos para esta ocasião. O primeiro deles é “Carta aos amigos mortos” e começa assim:
“Eis que morrestes – agora já não bate
O vosso coração cujo bater
Dava ritmo e esperança ao meu viver
Agora estais perdidos para mim”

 
Outras referências essenciais:
  • A revista Sábado publicou uma edição especial e disponibilizou online um texto de Vítor Matos, O verdadeiro poder de Maria de Jesus Barroso, que, partindo de um episódio passado em Moçambique, recorda o essencial da sua vida até ao momento em que o seu marido foi eleito Presidente da República. Até porque é dessa altura a pequena história, bem reveladora, com que esse texto termina: “No dia após a eleição, de Soares como "Presidente de todos os Portugueses", foi ao colégio. Um miúdo com um autocolante de Freitas do Amaral ao peito escondeu-o com vergonha. Ela aproximou-se "Estás a esconder o teu autocolante? Não faças isso, meu querido. Deves mostrar a tua escolha sem vergonha de ninguém." Explicou-lhe a democracia e deu-lhe um beijo.
  • Mas se a Sábado nos fala sobretudo da mulher com intervenção política, a agência Ecclesia tem um interessante retrato da católica que reencontrou a Fé nas últimas décadas da sua vida. Em Maria Barroso era uma cristã «absolutamente invulgar» o padre Feytor Pinto recorda a forma como, na sua paróquia do Campo Grande, ela tinha uma disponibilidade invulgar para todos. Por exemplo: “aos domingos quando vinha para a missa das 19h15 sentavam-se no bar durante uma hora e ia acolhendo e recebendo as pessoas que queriam falar com ela. É fantástico, estava numa simplicidade e proximidade absurdamente extraordinária”.
  • No Público há um trabalho muito bem feito sobre a atriz de cinema, As novas gerações já podem conhecer a actriz Maria Barroso. O ponto de partida é o restauro recente de Mudar de Vida, o filme de Paulo Rocha onde desempenha o papel central. Escrevem Sérgio C. Andrade e Luís Miguel Oliveira, que “Bastaria esse papel para garantir a Maria Barroso um lugar relevantíssimo na história do cinema português. A sua Júlia é uma personagem quase sacrificial, divida entre o amor pelo antigo namorado, regressado da guerra colonial, e o compromisso com o homem – irmão do primeiro – com quem entretanto casou.”
  • Já do Expresso destacaria a fotogaleria, que complementa bem a que o Observador editou, até porque se centra mais em imagens antigas.
  • A finalizar, dois testemunhos pessoais. O primeiro, o de Henrique Monteiro, saiu no Expresso diário (só para assinantes) e chama-se A Drª Maria de Jesus ou a ‘soutora’. Pequeno extracto: “Eu vejo-a, maior do que eu, as mãos entrelaçadas; depois repousando na enorme varanda de uma casa (e uma quinta) que era do meu tio Álvaro, onde ela e Mário Soares estavam; na Índia, em cima do elefante que subia para o forte Amber, em Jaipur, numa visita oficial do Presidente da República, que era o seu marido; há dias, há poucos dias, a mostrar-me com o cuidado devido às coisas preciosas uma fotografia sua com o Papa Francisco. Misturam-se décadas, situações, recordações, mas há a constante ternura, o afeto, a delicadeza, a discrição, a elegância.” O segundo é o Teresa de Sousa, no Público, O que me fica de Maria Barroso, de que deixo esta passagem: “Como é possível viver ao lado de um colosso e manter a individualidade em todas as suas dimensões - política, cívica, familiar, pessoal, pedagógica? Maria Barroso conseguiu este facto extraordinário, mesmo pertencendo a uma geração em que as mulheres deviam ficar na sombra. A sua vida prova o contrário.”
  • Dos vídeos já disponíveis online destaco um, o da Rádio Renascença, Maria Barroso. Uma vida dedicada à defesa dos direitos humanos.
  • Last but not least, o jornal i voltou a dar destaque à que terá sido a sua última entrevista, dada a Luís Osório, “Valeu a pena ter vivido”, e realizada a propósito da passagem do 90º aniversário, no passado mês de Maio. Termina assim:
    Como acha que será reconhecida no futuro?
    Uma cidadã modesta mas amante da liberdade, da solidariedade e do amor. A minha palavra preferida, sem qualquer dúvida…
    O amor.
    O amor.
 
Fecho este bloco chamando-vos a atenção para as magníficas fotografias inéditas de Clara Azevedo que o Observador publicou hoje ao fim do dia: 10 imagens inéditas, 10 frases. O adeus a Maria Barroso. (uma dessas fotografias é a que abre este Macroscópio) Vêm acompanhadas por 10 frases escolhidas da mulher que nunca deixou de ser ela própria, com toda a sua energia, talento e elegância, mesmo quando podia ser apenas aquilo que tantas vezes lhe chamam: primeia-dama. Foi muito mais, mas mesmo muito mais.

Frase do dia

«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. 
Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara»
Mt 9, 38

O Clube dos Meninos com camisa Lacoste

Mário Cordeiro | ionline 2015.07.07
Como podemos criar livres-pensadores, se obrigamos os outros a seguir normas e regras que nada têm a ver com a razão e a lógica, mas são apenas afirmações de pequenos poderes?
Talvez custe compreender aos leitores com menos de 40 anos porque (como tudo) esta marca “democratizou-se” e, verdadeiras ou compradas na feira, estão ao alcance de quase toda a gente. E nada me move contra a marca, que fique claro! Mas façam um exercício de imaginação e tentem situar-se nos anos 60 do século passado.
Foi uma experiência pessoal quando andava no Liceu Pedro Nunes (teria cerca de 11 ou 12 anos). Um grupo de alunos do liceu – se algum deles ainda se lembrar do facto espero que se ria, porque será um bom sinal – resolveu formar um clube que se chamava Clube dos Meninos Que Usam Camisa Lacoste (só o nome e a menção a “meninos” já é ridícula).
Esclareça-se que estas camisas eram das primeiras “de marca” e o seu preço proibitivo. Daí a escolha deste ícone para critério de selecção para entrada no “clube” desses pequenos pseudo machos alfa.
À noite fui ter com o meu pai e pedi--lhe que me comprasse uma camisa Lacoste, mas obviamente nunca mencionei os verdadeiros motivos. O meu pai, que tinha um grande sentido ético e o culto do rigor e da justiça, tentou averiguar do meu interesse súbito por tal peça de vestuário. Esforcei--me quanto pude: “são óptimas”, “são giras”, “toda a gente tem”.
Não foram razões suficientemente boas. Parco de argumentos, descaí-me e contei a verdade. O clube! A resposta dele foi taxativa: “Posso-lhe comprar a camisa, mas nunca por causa de um clube assim. Dê-me uma razão lógica e penso no assunto. Se não, pode esquecer a camisa. E quanto ao clube, sugiro que forme, já amanhã, o Clube dos Meninos Cujos Pais não Vão Comprar Uma Camisa Lacoste.” 
Engoli e no dia seguinte, para meu vexame, passei a pertencer a uma minoria social. Mas vi, com o breve passar do tempo, que as razões frívolas e elitistas da criação deste clube eram tão ridículas como patetas, tão absurdas como a sua duração efémera: o clube extinguiu-se passada uma semana.
Agradeço profundamente ao meu pai não me ter comprado a camisa. O que me ensinou foi a convicção com que defendeu as suas ideias e valores, não os hipotecando (e ensinando-me a não capitular) perante modas, ditames pessoais ou lógicas acéfalas de grupo. 
Hoje podemos aplicar este episódio a todo o tipo de coisas: consolas, tablets, iPhones, iPads e “Ai-de-nós”. A exigência da moda não se faz apenas na estética – o que já é, do meu ponto de vista, um pouco esdrúxulo porque aplicado a um aspecto da vida que é totalmente subjectivo –, mas também a bens, ídolos, costumes, hábitos e pensamentos. A irracionalidade da carneirada substitui em muitos casos o livre pensamento, uma ideia que terá começado em Thomas More e Voltaire e defende o primado da ciência, da lógica e da razão sobre a tradição, a autoridade arbitrária e não eleita e o dogma.
Basta ver alguns programas da televisão generalista ou comprar algumas revistas e jornais para se poder ver, ouvir e ler o que é a crítica e o desprezo relativamente aos que não seguem um qualquer Diktat, definido sem regras e sem causas, por alguém que “é conhecido porque aparece e aparece porque é conhecido”.
Sempre existiu frivolidade nas sociedades e a superficialidade pode até ser uma parcela de uma vivência feliz e saudável, como tubo de escape para o stresse e a realidade das coisas importantes. Todavia, quando para lá da cortina de fumo nada mais há, quando a crosta não encerra nenhum miolo, quando a mera cópia do que “todos dizem” ou “toda a gente faz” é razão suficiente para moldar os nossos comportamentos, muito mal estaremos enquanto cidadãos livres, capazes, interrogativos, reflexivos e pessoas únicas, irrepetíveis e insubstituíveis.
O meu pai não me comprou a camisa Lacoste. Podia tê-lo feito e simultaneamente calar e comprar um filho que não queria fazer de fraco… Deu-me, em troca, uma lição de vida e de coerência e mostrou que fraqueza era ter aderido por demissão a uma ideia estúpida. Obrigado, pai!

O problema da Grécia é a democracia — dos outros.

Rui Ramos
Observador 6/7/2015

O governo grego só se esqueceu de uma coisa: foi de perguntar aos outros contribuintes europeus se também lhes dava jeito continuar a pagar as contas da Grécia.
Quando se examina a questão da Grécia, há um vício de análise a que poucos escapam: é pôr de um lado a democracia grega, com o seu povo, e do outro lado, abstracções como a “Europa”, a “troika” ou as “instituições”. Por mais erradas que sejam as posições do governo grego, representariam a vontade de um povo que vemos na televisão a andar na rua ou a votar; por mais certas que estejam as propostas da “Europa”, não corresponderiam a mais do que às folhas de Excel, sem sangue nem alma, de uma tecnocracia económica internacional, de que os funcionários engravatados do FMI seriam o rosto fugidio.
Portanto, quem é pela democracia, pela política, pelas “pessoas reais” e outras coisas assim igualmente bonitas, não pode ter direito a hesitações: mesmo não apreciando a demagogia de Tsipras, mesmo tendo reservas em relação ao que consta ser o modo de vida dos gregos, não deveria estar naturalmente ao lado da “democracia” e dos eleitores gregos quando resistem heroicamente à pressão da “finança” e da “burocracia” internacionais?
Ora acontece que não é assim, e por esta razão: a Grécia não é a única democracia na Europa. O que limitou as propostas que os outros governos europeus, e não apenas as “instituições”, têm feito à Grécia, não é simplesmente uma análise da situação grega, mas a disponibilidade dos eleitorados dos países credores para partilharem com a Grécia o dinheiro dos seus impostos. Esse é que é o verdadeiro problema da Grécia – e, já agora, da “Europa”.
Nos últimos meses, temos todos andado distraídos com a progressão dos festivais de esquerda radical no sul da Europa. É o Podemos em Espanha, é o Syriza na Grécia, é ainda o que se está para ver, mas que começa a demorar, em Portugal. Nesse ambiente de arraial, temo-nos esquecido de que noutros países, mais a norte, também tem havido progressão, não tanto da esquerda radical, mas de populismos nacionalistas ou de eurocepticismos conservadores, para os quais os abusos fiscais do governo grego, mais uma vez sufragado pelo voto dos gregos, não são propriamente a melhor publicidade para a causa europeísta.  
A esse respeito, o sinal que ontem mais nos devia ter importado foi a reacção da social-democracia alemã ao referendo grego. Na Alemanha, os sociais-democratas, tal como os democrata cristãos, sabem que o subsídio permanente a uma Grécia governada pela irresponsabilidade fiscal acabará, mais tarde ou mais cedo, por ter de sair das cimeiras governamentais para se tornar um tema de debates no parlamento, ou mesmo de consultas populares. Ora, quem é que deseja fazer campanha na Alemanha, na Finlândia ou até em Portugal pedindo aos eleitores mais dinheiro para a Grécia? E ainda por cima, sem nada para contrabalançar a dádiva, a não ser a decisão do governo e do eleitorado grego de rejeitarem todas as mudanças necessárias para deixarem de depender da Europa?
No norte da Europa, a democracia começa a voltar-se contra a União Europeia. Para uns, a UE é a porta aberta a dilúvios de imigrantes; para outros, é o sorvedouro directo ou indirecto do seu dinheiro. Na Dinamarca (fora do Euro, mas com uma moeda ligada ao Euro), as eleições de 18 de Junho fizeram do partido populista anti-imigração Partido do Povo Dinamarquês o segundo maior partido no parlamento. Na Alemanha, o partido conservador anti-Euro a Alternativa para a Alemanha já obteve representação em cinco parlamentos estaduais. Na Finlândia, o partido dos Verdadeiros Finlandeses (nome antigo) é o segundo maior grupo parlamentar desde Abril deste ano, e entrou na actual coligação governamental. Infelizmente para a esquerda radical do Mediterrâneo, também há democracia no Báltico e no mar do Norte. É isso que explica a “falta de solidariedade” dos sociais-democratas alemães, que não têm de ganhar eleições na Grécia, como o Syriza, mas na Alemanha.
O governo grego perguntou aos eleitores da Grécia se lhes dava ou não jeito que os outros contribuintes europeus continuassem a pagar-lhes as despesas. Aos eleitores gregos, como a quaisquer eleitores em qualquer outra parte do mundo, o negócio não pareceu mau, e votaram em conformidade. O governo grego só se esqueceu de uma coisa: foi de perguntar aos outros contribuintes europeus se também lhes dava jeito continuar a pagar as contas da Grécia. A pergunta, embora não tendo sido feita, pode ter resposta um dia destes.

Grécia? Só sei que nada sei

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 07/07/2015

Entregar Varoufakis numa bandeja de prata é um estender de mão por parte de Tsipras.
O único conselho que tenho para dar acerca da Grécia é este, caro leitor: se alguém lhe disser que sabe tudo o que se está a passar e tudo aquilo que deve ser feito, não acredite. Os humanos, em geral, e os jornalistas, em particular, têm horror à incerteza e ao vazio explicativo, mas há alturas – e esta é uma delas – em que convém refrear ao máximo a bazófia argumentativa e reduzir ao mínimo a forma habitualmente despudorada como damos palpites sobre o mundo a partir do nosso sofá.
Quando convidado a pronunciar-se sobre o referendo na Grécia e o sentido da sua votação, António Costa defendeu no sábado o “estrito respeito pela soberania nacional” dos gregos, recusando-se a entrar na brincadeira dos “oxi” e dos “nai”. Imediatamente, foi acusado de meias tintas e de praticar uma variação desnatada do velho estribilho de Ivone Silva: com um discurso neutro, eu nunca me comprometo. Longe de mim absolver António Costa de quaisquer excessos de calculismo – mas neste caso ele está cheiinho de razão. Defender o “não” ou o “sim” a milhares de quilómetros de distância, como quem está a dar palpites no totobola da devastação económica, é muito feio, e até ligeiramente obsceno, na medida em que nenhum de nós irá arcar com as consequências directas de qualquer uma das opções.
Mais do que isso: fingir que sabemos com toda a certeza quais serão os efeitos do referendo, o que é que o senhor Tsipras vai propor à Europa ou o que é que a senhora Merkel pensa fazer no futuro, é pura aldrabice intelectual. A primeira decisão pós-referendo do vencedor Tsipras foi entregar a cabeça do vencedor Varoufakis à derrotada Merkel. Repito: o primeiro efeito da esmagadora vitória do “não” foi o esmagamento de um dos dois homens que mais lutaram por ela. Isso faz algum sentido? Não nas minhas coordenadas políticas pré-crise grega.
Mas como continuo rodeado de gente cheia de certezas, estou a pensar fundar a Associação das Pessoas que Não Têm Opiniões Definitivas Sobre a Grécia, a ver se arranjo companhia. Primeira alínea dos estatutos: a Europa está a pisar território virgem, pelo que se recomenda infinita prudência. Segunda alínea: todos os palpites sobre o tema far-se-ão acompanhar do seguinte alerta: “Isto é o que eu acho, mas posso estar completamente errado, já que não há termo de comparação.” Terceira alínea: a expressão “os políticos de hoje em dia já não são como os de antigamente” jamais será utilizada, até porque foram Helmut Kohl e François Mitterrand a enfiar-nos numa união monetária que está a agravar as desigualdades dos países periféricos. Os grandes homens estão sobrevalorizados.
Isso não significa, como é óbvio, que as convicções políticas de cada um devam ser suprimidas. Eu continuo a pensar que a Grécia quer o dinheiro dos outros para aplicar as suas próprias políticas, e que tal posição é inaceitável e insustentável. Mas há uma coisa que eu aprecio bastante, e que tem faltado na Europa – chama-se “democracia”. Quando quase dois terços dos gregos votam “não” ao acordo com a UE com os bancos fechados há uma semana, eles merecem, pelo menos, o nosso respeito. E quando, apesar desse “não”, continuam a querer manter-se no euro, merecem também um esforço extra da senhora Merkel e dos restantes países europeus para tentar chegar a um acordo. Entregar Varoufakis numa bandeja de prata é um estender de mão por parte de Tsipras. É também uma oferenda vistosa, que justifica uma derradeira oportunidade. Acho eu.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Joseph Weiller: “A Europa sem a Grécia está morta”

LUÍSA MEIRELES
Expresso diário, 4.07.2015

Tem três nacionalidades, israelita, americana e italiana, e qualifica-se a si próprio como um “judeu errante”. É presidente do Instituto Universitário Europeu de Florença e diretor do programa LL.M. da Universidade Católica, orientado para o estudo do Direito num contexto europeu e global. Não há como ele a pensar Europa
Como é que chegámos a este ponto na Europa? 
O que nos trouxe a este ponto não foi a crise do euro. Em 1992, o Tratado de Maastricht introduziu duas grandes novas políticas. O euro e a cidadania europeia. E o verdadeiro, total fracasso na Europa é este.  
O que quer dizer?  
Maastricht introduziu a cidadania europeia, o que significa, por um lado, a ideia de que as pessoas detêm a política (a grande ideia republicana da cidadania) e, por outro, que temos uma relação especial de responsabilidade, privilegiada, para com os nossos concidadãos, para além de nos preocuparmos com toda a gente no mundo, que sofrem violações de direitos humanos ou são vítimas de catástrofes. Este projeto falhou em ambos os aspetos. Entre 1979 a 2014, cada vez menos pessoas foram votar nas eleições para o Parlamento Europeu, mesmo que este seja hoje um verdadeiro Parlamento, com poderes legislativos ao mesmo nível do Conselho. Pensávamos que seria o contrário, mas em alguns países a afluência é de 20%, e em média é de 43%!
E porquê?
As pessoas não votam porque não há nenhum impacto sobre quem e como os governam, não faz diferença votar por uma maioria socialista ou do Partido Popular, e por isso ficam indiferentes. Ou seja, não há maneira de mudar o Governo. Portanto, apesar de isto ser uma União, as pessoas mantêm-se principalmente portuguesas, espanholas, alemãs, gregas, etc. Depois, ao nível dos cidadãos, não há uma preocupação sensível pelos cidadãos dos outros países. Assim, no norte, as pessoas acham que não têm de pagar pelos 'preguiçosos' do sul.
Era inevitável ser assim?
Dou-lhe um exemplo americano. Nos anos oitenta, houve uma crise orçamental no Texas que foi muito parecida com a irlandesa. Hiperexposição a bancos com maus créditos e houve então o mesmo debate que na Europa: resgatá-los, ou deixá-los ir à bancarrota, mesmo sabendo que não seriam os ricos a sofrer as consequências. Não tomo posição sobre o que é certo ou errado, mas as posições dividiram-se. Todavia, ninguém disse: por que é que nós em Nova Iorque devemos ocupar-nos do Texas? Porque devemos usar o nosso dinheiro para isso? Porque não era o dinheiro deles - era o dinheiro americano.
A Europa ainda não atingiu esse nível…
Curiosamente, duas das propostas mais interessantes vieram de Portugal. Há três ou quatro anos, Miguel Maduro, partindo do pressuposto que um dos grandes beneficiários do mercado comum e da integração são as instituições financeiras, propôs um imposto sobre os bancos. Então, haveria dinheiro europeu e, quando ocorresse uma crise como a grega, seria esse dinheiro, e não o finlandês, ou o alemão, que seria usado. A segunda veio do vosso primeiro-ministro, num discurso no Instituto Universitário Europeu, em Florença, propondo um Fundo Monetário Europeu (FME). Todos aceitem a existência de um FMI para o qual todos os Estados contribuem e, quando este contribui, ninguém diz que é dinheiro deste ou daquele - então porque não ter um FME? Seria o mesmo debate, resgatar e em que condições, mas já não seria uma questão da posse de dinheiro. É onde temos de chegar. Porque a pergunta que os alemães fazem é: porque temos de expor os nossos contribuintes? 
O conjunto da voz europeia é muito fraca. Portanto, tudo isto representa um fracasso do projeto da cidadania europeia, não apenas da estrutura do euro.
Que também tem vícios... 
Que ficaram visíveis desde o início. Como se pode ter uma união monetária sem uma união orçamental? Como se reage face a um choque assimétrico? Isto não é uma questão técnica, é política, porque esse mecanismo não foi criado. Sabíamos do pecado com antecedência, mas a resposta era 'quando houver uma crise, forçar-nos-emos a avançar, porque a UE foi construída sobre as crises'. 
E agora estamos numa crise. A pior da União Europeia?  
Não apenas económica, como política e a um nível profundo. A Europa não tem os instrumentos políticos para lidar com a situação económica. Politicamente, veja-se como o euroceticismo, que antes era um fenómeno marginal, se tornou a corrente principal. Nas eleições para o Parlamento Europeu, em alguns países, o maior partido era anti-europeu ! Isto é uma crise política!
A Europa está em perigo? Muda ou morre? 
Está. Não é uma questão técnica, nem mecânica, nem de eficiência. É mais profundo. Espero que haja uma solução para a Grécia. Alguém pode imaginar uma Europa sem ela? A Europa sem a Grécia está morta. É o berço da nossa civilização. A Europa só serve para fazer dinheiro? É a hipoteca de uma civilização. Isto não deve permitir aos gregos fazer o que querem, mas mostra a profundidade da crise.
É um dilema entre a democracia nacional e a europeia?  
Alexis Tsipras tem toda a razão em invocar o seu mandato. Mas a sua reivindicação moral não é mais forte que a Merkel, Hollande, ou de Passos Coelho. Os outros também têm os seus mandatos e falam pelos seus povos, têm o mesmo direito de falar em nome da democracia, são igualmente responsáveis. E há um fracasso da democracia europeia, porque não temos  uma voz europeia democrática, como se viu pelo reduzido número de pessoas que votou em 2014, o menor de sempre.  E se não fossem os eurocéticos ainda votariam menos, porque esses estão empenhados, querem ser ouvidos e vistos.
Quais serão as consequências de uma saída da Grécia? 
A pior consequência da crise não é económica, viveremos com quaisquer consequências económicas. Mas os danos sociais e políticos demorarão anos a reparar. De uma perspetiva social, terminámos o processo da pior maneira possível. Mesmo que seja encontrada uma solução no último minuto - pelos gregos ou pelo resto da Europa, respetivamente - sentimos que foram chantageados. Se não for encontrada uma solução, os gregos sentirão que enfrentaram a chantagem e os outros que não cederam à chantagem. 
E pode ainda ser pior?  
Um outro legado duradouro da crise é que a Europa não fala através do seu povo, mas de distintos povos. O golpe na lenta emergência do “demos” europeu é quase fatal. E sem uma noção de demos, não podemos ter demos-cracia. Portanto, independentemente do resultado, esta crise representa também um duro golpe para a perspetiva de uma democratização da União Europeia. A declaração mais icónica relativamente à finalidade da integração europeia tem sido a que consta do preâmbulo do Tratado de Roma: "… Determinada em estabelecer uma união cada vez mais estreita entre os povos europeus “. A natureza trágica da saga grega, seja qual for a solução ou o resultado do voto grego, mesmo que seja um voto para "ficar no euro" é que uma união cada mais estreita entre os povos terá diminuído. A Europa tem de mudar na sua essência.
Já não é tarde demais?  
Pode ser. O que acontece é que todos pensam em termos utilitários. Serve-me a mim ou ao meu país ou não? Se a Europa se transforma numa empresa utilitária, já está morta.
Já estamos nesse ponto?  
Acho que estão a medir forças. Para alguns sim, mas penso que os alemães, por exemplo, não pensam assim. Penso que a Sra. Merkel tem uma responsabilidade muito grande pela ideia europeia. Para ela não é apenas ser ou não bom para a Alemanha, percebe a importância da Europa como ideia, como civilização, não apenas como um arranjo prático entre Estados. Estamos num momento em que estamos a lutar pela nossa alma.
Não é o que se tem visto no debate sobre a Grécia... 
Não podemos culpar apenas os burocratas. Parte integrante da crise é que há muita gente que quer salvar a Grécia, mas que quer que Tsipras falhe, porque ele deslegitima o que têm feito e dito – é o “fator Tsipras”, que torna a questão muito complicada. E há um desacordo genuíno sobre qual atitude tomar entre os que têm medo do risco moral, e os que dizem que errámos desde o princípio. Se Tsipras vencer, será difícil para os políticos espanhóis, portugueses ou irlandeses explicar por que não fizeram o mesmo e tiveram de passar por tantas dificuldades.  Repare-se no exemplo americano. Quando Obama chegou ao poder, passado dois meses assinou um cheque de 800 mil milhões de dólares, o dobro do défice americano. Com isso, salvou a América e o mundo. Não hesitou. A Europa demorou quatro anos a chegar ao ponto de pensar de ter de gastar muito dinheiro. Obama foi muito criticado, mas o desemprego reduziu-se de 9,5% para menos de 5%. Funcionou.  
A Europa teve tantas exceções, porque se agarram tanto às regras?  
Percebo a sensibilidade política, porque são também democracias e nos seus países dizem que este é o caminho. Não é irracional ou falta de razoabilidade. É realmente complicado. Estamos numa situação de dependência mútua. A questão é que ao conceder a exceção, quem dá a garantia é o ouro, e então esse outro é parte do risco. A democracia é interessante. Se fosse como Bill Clinton disse, “é a economia, estúpido!”, Obama teria sido rei da América e, no entanto, em Novembro passado, os democratas sofreram uma pesada derrota. E no Reino Unido David Cameron teve um enorme sucesso, quem o teria previsto? A verdade é como disse: infelizmente, desde 1992, não fizemos nenhum movimento para aumentar a solidariedade entre as nações, embora passemos a vida a falar dela. E não demos às pessoas os meios políticos para moldar o destino da Europa. 
O espírito original da Europa morreu? 
Tenho uma ideia sobre o que correu mal. Quando desenvolvemos a cidadania, todo o foco foi posto na mobilidade. Se perguntar às pessoas o que é a cidadania europeia, dizem que é a liberdade de circulação. Todavia, apenas 5% das pessoas circulam. Para 95%, o sonho das suas vidas não é mudarem-se, é viver no seu país, onde trabalham e tem as suas famílias. E mudar é visto como um fracasso, porque não podem ficar onde queriam e têm de ir para outro lado arranjar um emprego.
É o fracasso do projeto europeu? 
É um fracasso nosso, porque não demos às pessoas os meios políticos para moldar o destino da Europa. Estamos a pagar esse preço e agora queixamo-nos de que os finlandeses se sintam finlandeses, os suecos, suecos, os portugueses, portugueses. 
A Europa foi construída com base na paz e na prosperidade. Esta evaporou-se, pelo menos no sul, e a paz é um mito.  
Moralmente, o maior fracasso da Europa foi a Bósnia. Foi a única coisa que a Europa prometeu a si própria: que não haveria outro genocídio no continente. E na Bósnia houve um genocídio de uma minoria religiosa, a 500 km de Roma. Mas não vejo ameaça à paz entre os membros da União, ninguém imagina que podemos resolver os problemas entre nós usando a força.
Mas fora da União, o que se vê? As coisas mudaram? 
O que não mudou é que 70 anos depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa continua a depender dos americanos para a sua própria defesa. A fundação da política de segurança e defesa da Europa são três letras: EUA.
Mas foi também a fundação da prosperidade da Europa …
No sentido de que já que a América nos defende, nós podemos gastar dinheiro em manteiga e não em armas. É uma situação inaceitável porque há um paradoxo. De cada vez que se fala de defesa, todos os Estados-membros dizem que não, porque a defesa nacional é o coração da soberania. É uma piada. Nenhum Estado europeu, nem a França nem o Reino Unido, têm capacidade de se defender a si próprios. Falam de soberania, mas não a têm realmente. A única maneira de haver uma soberania de defesa era fazê-la em conjunto e não o fizeram, vivendo na ficção de que a defesa é uma questão de soberania e não se pode tocá-la.  
E os EUA concordam em continuar assim?  
Estamos no fim da Pax Americana e não podemos depender dela. Acabou. Somos sonâmbulos. O risco de guerra é hoje maior do que imaginamos e os europeus não estão a levar esse risco a sério. A crise de segurança é maior do que aquela que as pessoas querem acreditar ou se sentem confortáveis em falar. É fundamental europeizar a defesa. Já gastamos imenso dinheiro em defesa da maneira mais ineficiente possível, pensamos de um ponto de vista nacional, temos pequenos exércitos, cheios de generais e sem homens. 
Mas como, se cada um se sente português, espanhol, finlandês, sueco...  
Exatamente por isso é tão difícil e exatamente por isso a única resposta é uma liderança decisiva. A Europa não foi criada por exigência popular, de  baixo para cima. Precisamos de grandes líderes, porque as condições sociais e políticas o exigem. Uma liderança que mostre o caminho. Para além da solução da crise grega que saberemos não sei quando, o primeiro passo é levar a cidadania a sério e ela não tem nada a ver com mobilidade. Ela é fundamental para o funcionamento do mercado comum, mas não é o seu núcleo. O  núcleo é criar instituições e mecanismos que deem poder às pessoas quanto à governação na Europa. Enquanto não tivermos isso nunca teremos cidadania europeia. O segundo é levar a defesa a sério, é uma prioridade.
As condições de hoje permitem-no? 
E quando é que 1950, cinco anos depois da guerra, os franceses pensavam em abraçar os alemães? A Europa não estava menos dividida, pelo contrário, mas a Europa fez-se – é o que uma liderança faz. Foi Adenauer, Schumann, Gaspari. Uma grande liderança pode ser transformativa. 
E vê grandes líderes? 
Não posso responder.
A Sra. Merkel é uma grande líder? 
É. Tem visão e é forte, são precisas ambas as qualidades. Não digo que a visão dela é correta, mas é uma mulher de Estado, com estatura. E penso que Jean-Claude Juncker tem visão, determinação e força. Fez coisas impensáveis e bem, como criar vice-presidentes, hierarquizar e politizar a Comissão. Porque política sem políticos não é democracia. Esta tecnocracia não pode funcionar. Democracia significa escolhas políticas. A Europa tem de ser política, e se não o for a democracia nunca se desenvolverá nem tão pouco a cidadania.  
Está confiante? 
Tento ser analítico e objetivo. A ideia de Europa é nobre, os europeus podem estar orgulhosos, seria uma tragédia se falhasse. Este é um grande momento da verdade e depende da liderança. Quanto a condições, em 1950 eram até piores em termos de solidariedade, e foi possível.
O que nos poderia levar a um outro perigo que ameaça a União, o Brexit, a eventual saída do Reino Unido.
O Reino Unido é fundamental para a Europa, sobretudo se pensamos em segurança. Mas para além disso, a noção de que o eixo é Berlim-Paris é falsa. Um Brexit seria uma tragédia para o Reino Unido e para a Europa, porque nesse caso, o Reino Unido partir-se-á. Os escoceses nunca aceitarão que uma maioria de ingleses tire a Escócia da Europa. Seria monumental e por isso não acredito que aconteça. 

Bento XVI discursa pela primeira vez desde que resignou. O tema? Música

RR online 04-07-2015 12:00 por Aura Miguel

Joseph Ratzinger, Papa emérito, recebeu este sábado dois doutoramentos, um da Universidade João Paulo II de Cracóvia e outro pela Academia de Música de Cracóvia.
O Papa emérito discursou pela primeira vez desde que resignou em 2013 e o discurso foi publicado no boletim do Vaticano.
Bento XVI agradece os dois doutoramentos que reforçam ainda mais a sua ligação a Cracóvia e à Polónia, e diz mesmo que sem João Paulo II, o seu caminho espiritual e teológico não seria imaginável. 
O discurso valoriza o contributo da música sacra ocidental e o seu papel na liturgia. 
O Papa emérito considera que nenhum outro âmbito cultural no mundo tem a grandeza da música ocidental que nasceu no âmbito da fé e que isto deve-nos pôr a pensar. 
A música de Bach, para Ratzinger, é a demonstração da verdade do Cristianismo, mas também as músicas de Palestrina, Mozart, Haendel, Beethoven e Bruckner. 
Bento XVI recorda a beleza das liturgias celebradas por João Paulo II nos cinco continentes, em articulação com a música ocidental, e espera agora que o dom da música proveniente desta tradição se articule com a força criativa da fé.

"Bora" aí brincar à crise grega?

Raquel Abecasis 
03-07-2015 16:47 RR online 

Os políticos portugueses, todos os políticos, voltam a demonstrar que acham que isto da Grécia é uma brincadeira bem boa para jogar em tempo de campanha eleitoral.
Portugal é um país de brandos costumes e, portanto, pouco dado a cenários dramáticos que nos possam afectar seriamente. Foi por isso que achámos que podíamos escapar a um resgate, em 2011, se nos fizéssemos de portugueses e, principalmente, se mostrássemos que entre nós e a Grécia não havia qualquer relação ou semelhança.
Agora, os políticos portugueses, todos os políticos, voltam a demonstrar que acham que isto da Grécia é uma brincadeira bem boa para jogar em tempo de campanha eleitoral.
Durão Barroso diz que se não fosse Passos Coelho, nós também éramos como a Grécia. Passos Coelho já nos tinha dito que, se não tivesse sido Durão Barroso, nós também éramos como a Grécia. António Costa diz que nós temos é inveja dos gregos. Os outros partidos à esquerda e Pacheco Pereira dizem que os gregos é que são bons e nós ainda nos vamos arrepender de não fazer como eles.
Está tudo dito, a narrativa grega dá para todos os gostos, até para animar a mais recente "vernissage", do mais recente ex-político que não quer voltar à política, porque agora é que está bem na vida. Vá-se lá saber porque é que estamos todos mal na vida, mas Miguel Relvas está bem. 
Diz o Dr. Durão Barroso que são os do aparelho partidário que conhecem melhor o país e dizemos nós que, quando saem do aparelho, os do aparelho ficam também a conhecer muito bem o estrangeiro. Até pode ser que a crise grega possa passar ao lado de alguns ex-políticos que gostam de brincar aos "gregos e troikanos", mas, para os que cá estão, a Grécia não é uma brincadeira, é uma incógnita que ainda nos pode trazer muito sofrimento.

Frase do dia

Podemos perdoar facilmente a criança que tem medo do escuro; a verdadeira tragédia é quando os homens têm medo da luz
Platão (428aC-328aC)
Atenas | Grécia

Agora aturem-nos

Helena Matos
Observador 5/7/2015

Por que hão-de países cujos cidadãos vivem pior que os gregos, pagam mais impostos que os gregos e se reformam mais tarde que os gregos ser "solidários" com os gregos? O voto foi dos gregos, não deles
Há três conclusões a tirar do referendo grego:
I) Não se pode negociar com demagogos da mesma forma que se negoceia com quem está disposto a respeitar as regras.
II) Aos demagogos os povos não exigem nada antes toleram quase tudo porque os demagogos sobrevivem porque transferem sempre as culpas para os outros.
III) Se no poder os demagogos são quase imbatíveis na verdade só lá conseguem chegar porque beneficiam de uma extraordinária tolerância e condescendência por parte dos outros protagonistas.
A coisa começou mais ou menos assim: eles têm tanta graça. Porque não usam gravata. Porque usam rabo de cavalo. Porque rapam o cabelo. Porque andam de bicicleta. Porque andam de mota. Porque andam de metro. Porque andam. Porque são aplaudidos nas marchas do negócio do politicamente correcto. Porque passam dos restaurantes mais in para os colectivos de okupas. Porque para lá dos seus círculos só vêem roubalheira, negociatas, interesses. Porque nas televisões de dedo espetado dizem que todos os outros são corruptos. Eles claro nunca são corruptos e se por acaso alguém lhes chama a atenção para um financiamento obscuro ou um caso de nepotismo reagem vivamente indignados e exigem desculpas imediatas. É como o patriotismo. Quando eles falam de orgulho nacional, de pátria e de levantar a cabeça quase nos devemos perfilar. Mas se forem os outros a fazer o mesmo discurso está-se diante de velho ranço da direita nacionalista, patrioteira, folclórica para não dizer fascista.
Eles determinam o que é correcto e incorrecto. Mas não só. Garantem também como vão ser as famílias do futuro, as causas do futuro, o futuro em si mesmo. Do berço à cova eles têm uma causa e uma política para cada momento.
Eles são os nossos radicais. De esquerda, claro. (Também os há de direita e vão vê-los dentro em breve!)
Em muitas das universidades são dominantes. Os jornalistas tratam-nos por tu. São tão amorosos não são? Tão inteligentes, tão giros, tão sexys. E depois dizem aquelas coisas sobre as pessoas que não são números, falam de afectos, de virar a página a isto e àquilo sem mais problemas. São adoráveis de facto. Até ao momento em que têm poder.
Aí percebe-se que não mudaram nada. Continuam na mesma barricada dos outros tempos. Enquanto exigem para si e para os seus resultados um respeito institucional quase sagrado fazem gato-sapato dos seus interlocutores. Desautorizam-nos. Ridicularizam-nos. Fintam-nos. E no fim gritam que é preciso negociar, dialogar, estabelecer pontes.
Dantes queriam fazer revoluções. Agora têm projectos. A diferença é que nas revoluções arranjavam portas a dentro o seu financiamento: nacionalizavam e confiscavam. Agora exigem ser patrocinados. Como se tudo não passasse de um filme.
Desculpem mas neste logro só cai quem quer. E cair uma vez vá que não vá. Duas já tem que se lhe diga e à terceira ou é masoquismo ou estupidez. Como aqui escrevi há algumas horas o referendo que decorreu na Grécia não teria sido considerado aceitável caso não tivesse sido convocado pelo Syriza, tão queriducho que ele é das redacções, dos activistas, das pessoas de causas e de toda aquele gente que vive de teorizar sobre aquilo que os outros devem fazer, dar, garantir… Imaginam o que não se teria dito e escrito caso, por exemplo, em Angola se convocasse um referendo com esta informalidade, para não lhe chamar outra coisa? Já imaginaram a senhora Marine Le Pen a querer referendar numa semaninha algumas daquelas ideias que lhe animam o encéfalo?
Não, não me vão dizer que há matérias que não são referendáveis. Desde esta semana na Europa referenda-se o que se quiser e nos moldes em que se quiser. Até por exemplo cessar a ajuda à Grécia. Por que hão-de países cujos cidadãos vivem pior que os gregos, pagam mais impostos que os gregos e se reformam mais tarde que os gregos ser “solidários” com os gregos que votam num governo que para cúmulo namora descaradamente com uma Rússia que é uma ameaça directa para segurança de alguns desses países?
Devíamos ter pensado nisso antes? Pois devíamos. Mas agora é tarde. O que conta é que o Syriza ganhou na Grécia. E é preciso que isso fique claro: ganhou na Grécia. E tem um mandato para governar a Grécia. Não o dinheiro dos contribuintes europeus e a UE.
É dramático a Grécia sair do euro? Para os gregos é, mas se calhar nem é tanto quanto ficar. E antes que estejamos a ver Pablo Iglesias e Marine Le Pen com os mesmos truques em Madrid, Paris e em Bruxelas convém que se esclareça que os votos nos radicais não valem mais que os outros.

domingo, 5 de julho de 2015

Dignidade

ANDRÉ MACEDO | DN 2015.07.05

Morreu Rui Semedo, um banqueiro normal com o ego bem resolvido - uma raridade nos tempos atuais -, um homem capaz de pequenos gestos extraordinários. Era uma pessoa como as outras, fazia tudo com naturalidade, sem se empoleirar no cargo, sem criar barreiras com os outros, sem um pingo de petulância ou de agressividade. Gostava mais de ouvir do que de falar. Outra raridade. Não se exibia. Sabia fazer perguntas, escutar, aprofundar os assuntos. Aprendia-se muito com ele. Rui Semedo tinha alma de jornalista, de bom jornalista. Ou talvez fosse apenas um grande leitor. Cultivava um gosto genuíno por jornais - não para os influenciar, apenas para os ler. A primeira pessoa que me falou da Monocle, já lá vão uns anos, foi ele - ainda poucos haviam dado conta da novidade, mas ele descobrira o tesouro nas visitas constantes que fazia às lojas onde se abastecia. Ele lia tudo. Comprava tudo o que era bom e trouxesse inteligência, algum saber. Guardava muita coisa, arquivava, como fazem os jornalistas ou os bons leitores, para um dia talvez recordar ou apenas para ter ali ao lado. Rui Semedo era dos que faziam parte do bem, não do mal - como me costuma dizer um outro bom amigo quando divide o mundo em poucas e certeiras palavras. Para um banqueiro é uma escolha difícil, esta de fazer parte do bem. É uma opção que se faz todos os dias e que traz dificuldades a quem exerce o poder sobre os outros. Não era um monge, tinha defeitos e fraquezas, cometia erros - era um homem normal. A última vez que nos encontrámos foi em janeiro, eu não sabia que ele estava doente. Pareceu-me a mesma pessoa de sempre, sem contas a ajustar, disponível para conversar. Falámos um pouco sobre a Grécia e de como estava tudo de pernas para o ar. Embora o Syriza ainda não tivesse sido eleito, disse-me que temia que entrássemos numa fase radical. Disse-me que o radicalismo não é uma característica apenas da extrema-esquerda, é a resposta errada ao que não se conhece ou se recusa conhecer. Assim está a Europa, virada para dentro, virada do avesso. Morreu Rui Semedo, o banqueiro que sabia que o valor das pessoas não depende do seu êxito ou da conta bancária, mas da sua dignidade.

Patriotas & parasitas

ALBERTO GONÇALVES | DN 20150706

Na sexta-feira, os deputados do Bloco de Esquerda levantaram cartazes em que se lia "Solidariedade com a Grécia". Como se o gesto não fosse suficientemente engraçado, submeteram em simultâneo à Assembleia da República um voto com pedido semelhante. Dado que alguns parlamentares têm vergonha na cara, o voto acabou rejeitado. Mas ficou a divertidíssima intenção de condenar as "pressões indevidas que tentam condicionar a escolha livre e democrática do povo". Em português, isto significa que os gregos são livres de escolher a maneira de outros os sustentarem. Quanto à liberdade dos outros, o BE foi omisso. Para cúmulo, que se saiba nenhum dos deputados contribuiu para a campanha iniciada pelo britânico que, através de crowdfunding, procura ajudar a pagar os 1,6 mil milhões da dívida grega. Da última vez que vi, a recolha ia nos 1,6 milhões. Faltava um bocadinho, um bocadinho que, desconfio, não se alcança com cartazes e votos solidários. Nem com lirismo.
O lirismo dominou o encontro "A crise europeia à luz da Grécia", debate também realizado na sexta-feira e abrilhantado pela ausência de divergências. O calibre dos nomes envolvidos explica o estilo e o consenso: Louçã, Pacheco Pereira, Manuel Alegre, o Prof. Freitas, um economista da CGTP e, claro, os imparáveis deputados do BE. A bem da síntese, eis o tom geral: a Europa é uma ditadura (valha-nos Deus); a Grécia simboliza a democracia (desde tempos imemoriais, para não falar do velho esclavagismo e da pedofilia clássica); os gregos resistem ao poder do dinheiro (excepto quando é dado); os gregos, à imagem dos jogadores da bola, levantam a cabeça (excepto para pedir); os gregos são dignos (na medida em que o parasitismo é um critério de dignidade); os gregos, em suma, são patriotas - já os alemães que preferem a Alemanha ou os portugueses que preferem Portugal são traidores. Seja em que país for, patriota é o sujeito que dá a vida ou, vá lá, levanta um cartaz pela Grécia.
A Grécia ou, diga-se em nome da exactidão, o Syriza, o que não é exactamente o mesmo. Há dias, o ministro Varoufakis disse preferir perder um braço a prejudicar a Grécia. Ora o homem não é maneta e, com uma perna às costas, nos intervalos das poses para retratos ao piano já transformou a situação que os gregos viviam há seis meses numa saudade. O pedaço que falta aos senhores do Syriza é uma cabeça em que caiba coisa diferente de ideologia, infantilidade, ressentimento, fanatismo e todos os ingredientes da toleima de que nos lembrarmos.
E é isso, não os "gregos" ou a "Grécia", que move os apoiantes do Syriza. Nos plenários excitados de Lisboa, Caracas ou Moscovo, é o currículo marxista e maoista do bando que seduz (por pudor, não menciono os neonazis da coligação). A retórica da "democracia" é, naturalmente, cosmética, quase irónica: gosta--se do Syriza porque o Syriza representa a enésima esperança de derrubar o "capitalismo", ou o "sistema", ou a "Europa", ou o que quer que defina o Ocidente que, afinal, se abomina. Os "gregos" são os "trabalhadores" ou o "povo" do costume: cobaias mais ou menos voluntárias de uma experiência que invariavelmente corre mal. O referendo, e a reacção dos "democratas" ao referendo, decidirá se corre ainda pior.

sábado, 4 de julho de 2015

ENTRE AS MÃOS DA VIDA

Facebook 4 de julho de 2015 José Luís Nunes Martins 

A tragédia chega quase sempre sem aviso. Nos primeiros momentos, parece que se trata do fim não só do nosso mundo como do mundo inteiro – como se a nossa desgraça fosse um sinal de que tudo está prestes a perder o sentido. Nessas alturas, face a face com a adversidade, sentimos que só pode andar feliz quem ignora o que lhe vai suceder em breve. 
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Segue-se a sensação de injustiça profunda. Só a mim me acontecem desgraças atrás de desgraças, intervaladas por períodos de pausa apenas para que as quedas me doam ainda mais…
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Algum tempo depois, uma serenidade mais consciente e sensata revela-nos que há mais gente como nós, a sofrer como nós, alguns... bem pior.
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Não somos os primeiros a quem as noites chegam a meio de um dia calmo. Nem os últimos a quem tudo parece sem sentido até que na escuridão se faz luz e, por breves momentos, tudo o que estava oculto se descobre... e, afinal, há sentido.
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O mais terrível das tragédias é que ninguém tem culpa. Não há culpa, não há desculpa.
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Também assim é nos melhores momentos. Quase sempre chegam sem grandes avisos e parece que tudo o que havia no mundo de cinzento ganhou cor. Desejamos e sentimos que mesmo os que estão mal em breve ficarão bem.
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Mas a verdade é outra: a nossa existência é um caminho contínuo. Com altos e baixos, mas que, em momento algum, deixa de progredir. O tempo nunca se detém. Conforme nos vamos afastando, melhor compreendemos que os altos e baixos não são outra coisa senão partes do nosso caminho. Ao longe, a vida é mais evidente: as alegrias e as tristezas são meras ilusões de superfície. A realidade é que nos deslocamos a uma velocidade constante, não para cima e para baixo, mas para diante. Rumo ao mistério do que não tem fim.
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A minha vida não é um conjunto de sonhos e pesadelos, antes um caminho simples, que passa por montes e vales, mas que é maior do que eles. Algo tão pessoal quanto definitivo.
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Esta nossa vida é excelente. Não pelos momentos que nos enchem de alegria, nem pelos sofrimentos que temos de suportar... antes pela longa jornada entre os absolutos mistérios do nascimento e da morte.
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A verdade é a vida, a vida é o meu caminho, e é por este caminho que se encontrará toda a verdade.
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Vista lá de longe, a nossa existência é magnífica. Como uma estrela cuja luz palpita, vivendo e morrendo a cada instante. Numa luta onde só a vida pode ganhar. Porque a morte é nada… e o nada nada pode.
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Serei sempre mais do que a minha alegria.
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Serei sempre maior do que a minha desgraça.


Ilustração de Carlos Ribeiro