quarta-feira, 30 de Julho de 2014

O tempo da Liberdade

Revista Passos 11-07-2014
don Luigi Giussani
Notas de um diálogo durante um aperitivo com don Luigi Giussani, antes de partir para férias. Milão, 5 de Junho de 1964

Desde os primeiríssimos dias da Gioventù Studentesca que tivemos um conceito claro e simples: o tempo livre é o tempo em que a pessoa não é obrigada a fazer nada, não há nada que sejamos obrigados a fazer; tempo livre é tempo livre.
Como discutíamos frequentemente com os pais e com os professores sobre o facto de que a GS ocupava de mais o tempo livre dos jovens, enquanto deveriam estudar ou ajudar na cozinha, em casa, eu dizia: «Vão ter muito tempo livre os jovens!». «Mas um jovem, uma pessoa adulta», retorquiam, «é julgado pelo trabalho, pela seriedade do trabalho, pela tenacidade e pela fidelidade ao trabalho». «Não», respondia eu, «qual quê! Um jovem é julgado pela forma como usa o tempo livre». Oh, escandalizavam-se todos. Contudo... se é tempo livre, significa que a pessoa é livre de fazer o que quiser. Portanto, percebe-se aquilo que se quer pela forma como se emprega o tempo livre.
Eu percebo o que uma pessoa – jovem ou adulta – quer verdadeiramente não pelo trabalho, pelo estudo, que é aquilo que tem a obrigação de fazer, pelas conveniências ou pelas necessidades sociais, mas pela forma como usa o seu tempo livre. Se um jovem ou uma pessoa madura desperdiça o tempo livre, não ama a vida: é tolo. As férias são, de facto, o clássico tempo em que quase todos se tornam tolos. Pelo contrário, as férias são o tempo mais nobre do ano, porque é o momento em que uma pessoa se compromete como quer com o valor que reconhece como predominante na sua vida, ou então não se compromete de maneira nenhuma com nada e então, realmente, é tola.
A resposta que dávamos aos pais e professores há mais de quarenta anos tem uma profundidade a que eles nunca tinham chegado: o valor maior do homem, a virtude, a coragem, a energia do homem, aquilo por que vale a pena viver, está na gratuidade, na capacidade de gratuidade. E a gratuidade está precisamente no tempo livre que emerge e se afirma de uma forma admirável.
O modo de rezar, a fidelidade à oração, a verdade dos relacionamentos, a entrega de si, o gosto pelas coisas, a modéstia ao usar a realidade, a comoção e a compaixão em relação às coisas, tudo isto vê-se muito melhor estando de férias do que durante o ano. Nas férias a pessoa é livre e, sendo livre, faz o que quer.
Isto quer dizer que as férias são uma coisa importante. Em primeiro lugar isso implica atenção na escolha da companhia e do local, mas sobretudo tem a ver com o modo como se vive: se as férias nunca te recordam aquilo que mais gostavas de lembrar, se não te fazem ser melhor em relação aos outros, mas te tornam mais instintivo, se não te fazem aprender a contemplar a natureza com uma intenção profunda, se não te fazem oferecer um sacrifício com alegria, o tempo do descanso não cumpre o seu objectivo.
As férias devem ser o mais livres possível. O critério das férias é respirar, de preferência a plenos pulmões.
Deste ponto de vista, estabelecer como princípio a priori que um grupo tenha de fazer férias juntos é, antes de mais, contrário ao que foi dito, porque os mais frágeis da companhia, por exemplo, podem não atrever-se a dizer não. Em segundo lugar é contrário ao princípio missionário: ir de férias juntos deve responder a este critério. Seja como for, em primeiro lugar liberdade acima de tudo. Liberdade de fazer o que se quer... segundo o ideal!
O que é que se ganha vivendo assim? A gratuidade, a pureza da relação humana.
Em tudo isto a última coisa de que podemos ser acusados é de estarmos a convidar para uma vida triste ou de obrigar a uma vida de pesar: seria sinal de que é precisamente quem faz objecções que está triste, pesaroso e macilento. Sendo que macilento designa quem não come nem bebe e, por isso, quem não aprecia a vida. E dizer que Jesus identificou o instrumento, o nexo entre o homem que caminha sobre a terra e o Deus vivo, o Infinito, o Mistério infinito, com o comer e o beber: a Eucaristia é comer e beber – ainda que agora esteja muitas vezes reduzida a um esquematismo do qual já não se compreende o significado. É um comer e um beber: ágape é comer e beber. A expressão maior da relação entre mim e esta presença que é Deus feito homem em ti, oh Cristo, é comer e beber contigo. Onde tu te identificas com aquilo que comes e bebes, de tal maneira que, «vivendo na carne, vivo na fé do Filho de Deus» ("fé" quer dizer reconhecer uma Presença).

terça-feira, 29 de Julho de 2014

Milagre



Num realista, não é a fé que nasce em resultado de um milagre, mas um milagre por causa da fé
Fiodor Dostoievsky
(Os irmãos Karamazov)


A morte de Salgado é muito exagerada

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 29/07/2014 - 00:46
Ricardo Salgado caiu em desgraça, sim, mas está longe de ser um desgraçado.
Desde que Ricardo Salgado foi detido, não faço mais nada se não ler na imprensa lamentos sobre a actuação da justiça, que, segundo dois terços dos nossos opinadores, parece só ter coragem de deitar a mão aos poderosos quando eles já não o são. Basta pegar no último número do Expresso. Martim Avillez Figueiredo: "A justiça tende a actuar apenas depois de se assegurar que os poderosos agonizam no chão." Pedro Adão e Silva: "A justiça, em Portugal, só chega aos poderosos quando estes já perderam a sua influência social ou o seu poder político." Daniel Oliveira: "Foi preciso Salgado passar para o lado dos fracos para ser possível esta detenção de necessidade duvidosa." Luís Marques: "Se ainda fosse presidente do Banco Espírito Santo, será que Ricardo Salgado teria sido detido pelo Ministério Público?" Devo dizer que este coro grego de indignados acaba por produzir uma ladainha falsamente piedosa, que é uma autêntica ode à Dona Inércia.
Todos nós sabemos que a justiça portuguesa tem problemas e que a venda que lhe tapa os olhos está mais puída do que o Santo Sudário. Mas ainda que Salgado esteja a responder tardiamente por crimes que possa ter cometido, ao menos ele está a responder. Colocar a ênfase, neste momento, não nas razões dos seus crimes e no clima político e económico que os permitiram, mas no timing da sua detenção, é preferir ficar a olhar para o dedo em vez de olhar para onde o dedo aponta. É uma escolha. Mas é uma escolha triste.
Em primeiro lugar, porque a probabilidade de terem surgido novas provas que justifiquem a detenção de Salgado é altíssima. Não percebo, sequer, onde esteja o espanto. O Grupo Espírito Santo começou a desmoronar há cerca de mês e meio, e desde então temos assistido a uma verdadeira enxurrada de notícias. Na Suíça, no Luxemburgo e nos Estados Unidos, há investigações a decorrer. Em Portugal, milhares de investidores coléricos estariam capazes de escalpar Ricardo Salgado se lhe deitassem a mão. Perante um cenário destes, não será provável que o Ministério Público tenha uma longa fila de novos informadores a bater à porta, mortinhos por se vingarem e exigindo a cabeça de Salgado?
Em segundo lugar, convém explicar que andar a fustigar a justiça numa altura destas é prestar um fantástico favor a Ricardo Salgado e ao seu vasto exército de beneficiários e serventuários. Não é certamente por acaso que José Sócrates aproveitou o seu comentário de domingo para se colocar fervorosamente ao lado do ex-DDT. Vale a pena rever a sua prestação na RTP, para que se vejam as diferenças entre o tom do comentário sobre os problemas do BES e do GES – onde Sócrates foi redondinho como uma bola de bilhar – e o tom do seu comentário sobre a detenção de Salgado – onde o velho animal feroz exigiu explicações à justiça.
Ricardo Salgado caiu em desgraça, sim, mas está longe de ser um desgraçado. É por isso que tantos lamentos me parecem deslocados. Salgado acaba de constituir um gabinete de crise financiado pela sua fortuna pessoal e que, segundo Pedro Santos Guerreiro, deverá custar cerca de um milhão de euros ao ano. Deixem passar a fumaça e aguardem pelo que aí vem. Um homem que teve o poder que ele teve e que sabe o que ele sabe não é coitadinho nenhum. Se Ricardo Salgado abre a boca, metade do regime parte o pescoço ao cair das escadas. As suas contas bancárias até podem ficar a zeros – enquanto ele tiver memória, continuará a ser um dos homens mais poderosos do país.

No tempo dos direitos



Estando todos estes direitos definidos, e muito bem, chegámos agora a uma nova fase de direitos, e bem mais ambiciosa. O princípio é o mesmo: queremos ser felizes e temos direito a tudo o que nos possa trazer felicidade. E chegamos assim aos filhos. Os filhos entraram na categoria dos direitos, como a habitação ou a educação. Os filhos, tal como todos os outros direitos, trazem-nos felicidade e, se queremos, devemos ter o direito de os ter. Custe o que custar e a quem custar, porque não é justo que haja alguém que não possa ser pai ou mãe.
 Direito de ter filhos Inês Teotónio Pereira

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Os presidentes de nenhum português

  • Rui Ramos | Observador | 28/7/2014, 20:52

Convém que todos saibam muito claramente o que pensa cada candidato e o que quer. Isto é, com quem está. Porque em política, pensar e querer é necessariamente estar com alguém.
Estamos em Julho de 2014, e não conseguimos deixar de falar das eleições presidenciais de 2016. O Facebook testa likes a hipotéticos candidatos, e até o caso Ricardo Salgado é discutido, não pelos seus efeitos sobre a banca, mas pelo seu eventual impacto nas presidenciais, devido à amizade entre o banqueiro e um dos pré-candidatos.
Esta conversa é normal. Nos EUA, há quase um ano que se fala da eleição presidencial de Novembro de 2016. E faz sentido. No caso dos EUA, porque o mandato de Obama já caducou de facto, uma vez desfeita a ilusão e perdida a maioria legislativa; e no nosso caso, porque, sem maiorias absolutas de um só partido em 2015, o actual presidente e o seu sucessor terão, muito provavelmente, de ajudar a orquestrar os acordos requeridos para a governação.
Até agora, a lista do "arco-da-governação" inclui dois comentadores televisivos, dois empregados de organizações internacionais e um ex-presidente de câmara. E sabendo que convém a um candidato a presidente ter algum passado, é curioso como todos, sem excepção, estão ligados aos fracassos, fugas e abstenções que marcaram a crise portuguesa do século XXI: dois demitiram-se do governo (Guterres e Barroso), um foi demitido (Santana) e dois nunca se demitiram nem foram demitidos porque sempre hesitaram e nunca se atreveram (Marcelo e Rio). Apesar de tudo, Eanes, Soares, Sampaio ou Cavaco Silva lembravam alguma espécie de êxito ou realização. Defeito dos actuais pré-candidatos, ou defeito do próprio regime, que deixou de produzir sucessos?
Mais grave é a maneira como os pré-candidatos se parecem posicionar. Guterres e Barroso não falam. Mas Marcelo, Santana e Rio não se têm calado. O que é que aprendemos? Com Marcelo, nada, porque há muito é exímio na arte de dizer tudo sem se comprometer com nada. Mas Santana, perguntado sobre quais os melhores primeiros ministros dos últimos tempos, teve uma resposta edificante: Passos e Sócrates, cada um à sua maneira. Quanto a Rio, foi mais longe e decidiu fazer dupla com António Costa, que o tratou com a condescendência devida a um futuro parceiro menor de coligação.
Os candidatos ditos de "direita" parecem partir do princípio de que o PS ganhará as eleições de 2015 e andam desesperados por obter um certificado de bom comportamento passado pela esquerda. São já, em suma, candidatos da derrota. Santana explica que o presidente deve ajudar todos e quaisquer governos. Rio, pelo seu lado, faz suas as dores de calendário eleitoral de Costa.
É óbvio que o chefe de Estado não se pode permitir facciosismos e golpadas. Outra coisa, porém, é um presidente que aceita tudo, conforme as correlações de força, uma espécie de Costa Gomes civil, dando posse num dia a Vasco Gonçalves e no outro a Pinheiro de Azevedo. De um presidente eleito por sufrágio universal, com os poderes que lhe são actualmente reconhecidos, espera-se mais. Em 2016, não podemos eleger um presidente que sirva a qualquer governo, desde o que Passos possa formar com Portas, até ao que Costa possa combinar com os restos mortais do BE. Num país ainda em ajustamento e com um parlamento provavelmente fragmentado, o presidente da república deve representar uma escolha. Não pode ser mais um factor de incerteza e de dúvida, como seria um presidente disponível para tudo. O país precisa de compromissos, mas precisa também de orientação. E por isso, convém que todos saibam muito claramente o que pensa cada candidato e o que quer. Isto é, com quem está. Porque em política, pensar e querer é necessariamente estar com alguém.
Não quero ser injusto, mas o que sinto nos correntes pré-candidatos da direita não é isenção, mas insegurança quanto ao seu apelo ou vantagem eleitoral. É provavelmente isso que lhes inspira este esforço para convencer, não os eleitores, mas a restante elite, de que nunca incomodarão ninguém, especialmente a esquerda.
D. Manuel II foi o primeiro "rei de todos os portugueses", fórmula com que pretendeu, desesperadamente, englobar os republicanos na monarquia. Alguém, na década de 1970, reciclou a ideia a favor do general Eanes, o "presidente de todos os portugueses". Estes pré-candidatos parecem talhados para "presidentes de nenhum português". Porque não se é presidente de todos os portugueses fingindo que não se está com ninguém.

(Mais) livros para férias

JOÃO CARLOS ESPADA Público 28/07/2014 - 02:53
Vejo com preocupação a queda de mais um grupo económico não estatal, ainda por cima com uma antiga tradição familiar.
Enquanto o país assiste ao desmoronamento de uma das mais antigas famílias da banca privada nacional, parece estar aberto o concurso sobre o mais ácido comentário sobre o tema. Lamento não participar na corrida. Vejo com preocupação a queda de mais um grupo económico não estatal, ainda por cima com uma antiga tradição familiar.
Numa economia livre — ao contrário das economias estatizadas, em que os contribuintes vão pagando os prejuízos das empresas públicas — estas coisas acontecem. Mas não estou seguro de que devam ser motivo de regozijo nacional.
Há sem dúvida vozes credíveis e imparciais que atribuem ao caso do BES a expressão do clientelismo de algum capitalismo nacional. Não tenho dados suficientes para avaliar essa asserção. Mesmo que a alegação seja pertinente, e não nego que possa ser, não me parece muito interessante embarcar num ataque às chamadas "redes clientelares das grandes famílias". Essa terminologia faz lembrar o léxico do "Avante" e as suas brilhantes teorias sobre as (já não me lembro quantas) famílias que governavam Portugal. Foi sob a égide dessas teorias que o PREC destruiu o incipiente tecido empresarial português e o colocou (ainda mais) sob a tutela do Estado.
O caso torna-se alarmante quando se começa a misturar o golfe com estes temas. Alguns comentadores sugeriram que a grande vantagem do capitalismo não clientelar é que não joga golfe. A prática do golfe estaria assim associada ao "capitalismo clientelar". Não estou seguro de compreender esta alegação. Em qualquer caso, deve ser observado que as alternativas seriam bem piores: ou se fechavam todos os clubes de golfe, ou passaria a existir um "comissário político" em cada clube — para registar, e talvez autorizar, o convívio entre golfistas. (Esta última ideia, a propósito, foi parcialmente adoptada pelo doutor Salazar que, segundo consta, tinha também uma certa animosidade contra os "ricos").
Por todos estes motivos, gostaria de iniciar este minha nova lista de (mais) livros para férias com um belo livro sobre o Clube de Golf do Estoril: Oito Décadas de História, da autoria de José Barros Rodrigues (Caleidoscópio, 2012). Trata-se de um dos mais antigos clubes de golfe do país, com uma nobre tradição de boas maneiras e autonomia. Entre os antigos membros ou simples frequentadores, encontravam-se os Condes de Barcelona (pais de Juan Carlos, que viria a ser rei de Espanha e passou a infância no Estoril); o Duque de Windsor; o marechal Montgomery de Alamein; David Lloyd George (ex-primeiro-ministro britânico) e tantos outros. Excelentes fotografias da época ajudam a recordar a atmosfera cordata que ainda hoje distingue este velho clube de sócios.
Outra instituição que tem sido atacada pela nova fúria igualitária nacional é a diplomacia portuguesa. O pretexto foi a lamentável integração da Guiné Equatorial na CPLP. Mas é totalmente deslocado atribuir aos nossos diplomatas a concretização de um disparate que eles próprios procuraram evitar. A excelente qualidade da nossa diplomacia fica aliás bem patente na minha segunda recomendação de leituras para férias: O Futuro da União Europeia: Olhares de Embaixadores Portugueses em Capitais Europeias, coordenado por António Costa Lobo, Manuela Franco e Lívia Franco (Universidade Católica Editora, 2014). Trata-se de uma obra fundamental para compreender os diversos olhares em jogo nas grandes encruzilhadas da União Europeia. Com excelentes contribuições dos Embaixadores portugueses em Madrid, Roma, Londres, Berlim, Dublin e Paris, o livro também revela a qualidade invejável dos nossos diplomatas — pelo menos, o que já não é pouco, dos que participaram na iniciativa.
Finalmente, e creio que a propósito, gostaria de recomendar The Intellectual Life of Edmund Burke: From the Sublime and Beautiful to American Independence, de David Bromwich (Harvard University Press, 2014). Como recordou a recensão de The Economist (5 de Julho), Burke foi toda a vida um freedom fighter — desde a defesa dos colonos americanos, até à denúncia do novo despotismo igualitário da revolução francesa. Por essa razão, ele foi sempre favorável às livres instituições intermédias entre o frágil indivíduo isolado e o Estado central. Nessas instituições — as famílias, as empresas, os clubes e fundações, até mesmo o corpo diplomático — ele via reservas de autonomia e pluralismo contra as paixões uniformizadoras. E via também nessas instituições, sobretudo as mais antigas, uma reserva de moderação, boas maneiras e auto-controlo que poderiam contrariar as grosseiras pulsões niveladoras.

A charuteira

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2014.07.28

Será Portugal um país desenvolvido, rico, civilizado? Os recentes episódios que revelam a teia de poder à volta do Grupo Espírito Santo (GES) justificam que se pergunte se estaremos no Terceiro Mundo.
A resposta da elite é clássica, e descrita genialmente por João da Ega: "Isto é uma choldra torpe. Onde pus eu a charuteira?" (Eça de Queirós, 1888, Os Maias, c. IV). Os nossos intelectuais sempre desprezaram pedantemente o País e sentem prazer em humilhá-lo. Daí poderíamos até concluir que, com uma elite destas, é impossível Portugal ser civilizado. Mas dizer isso seria tomar a mesma atitude dela, contra ela.
Temos bons argumentos para nos considerar desenvolvidos. Podemos invocar a nossa história, cultura e projecção mundial, que nos mostra como entidade indiscutivelmente sólida, relevante e digna. Mas isso não basta como prova. Países com património e herança semelhantes mostram falhas fatais de funcionamento, como a Grécia ou a Argentina. Carácter, presença e longevidade são condições necessárias, não suficientes para a civilização.
O teste decisivo do nível de um povo está nas crises. É nos momentos difíceis que se sente a fibra colectiva. A blitz de Londres mostrou o Reino Unido sumamente civilizado, e foi sob ocupação que países como a França, a Polónia e depois a Alemanha revelaram a sua eminência.
As crises socioeconómicas têm pontuado as fases do nosso progresso comunitário. Após o 25 de Abril, os programas de ajustamento de 1978-79 e 1983-85 marcaram a nossa estabilização como sociedade livre, admitida ao clube dos parceiros europeus. O crescimento subsequente fez-nos um país rico, como provou a recessão de 1993, a primeira na CEE, com comportamento claramente diferente de instituições, empresas e consumidores. Assim, pelo menos desde meados dos anos 1990 o País participa naturalmente e de pleno direito do concerto das nações civilizadas.
Será então possível saber se passámos no teste? Existem sinais negativos mas inofensivos. Política e orçamento correram mal, como em todo o lado. Também não se devem confundir crimes e erros com falta de civilização. O caso BPN é paralelo a Madoff, enquanto BPP, Banif e BCP são menores do que o Lehman Brothers. Problemas assim, mesmo degradantes, são comuns em comunidades sofisticadas. Olhando para os dados objectivos, dos níveis de rendimento aos da saúde, passando por comportamentos sociais e culturais, Portugal é sem dúvida um país civilizado. O único problema está nas elites, que frequentemente nos arrastam para o Terceiro Mundo.
A primeira prova é mediática. Perante esta austeridade, intelectuais, jornais, dirigentes e até juízes, mesmo sem charuteira, não tiveram pejo em dizer os maiores disparates. Com a arrogância habitual, a elite omitiu, distorceu, barafustou infantilmente e propôs soluções tolas. Mas isso não é o pior.
Na última década respira-se em Portugal um clima de compadrio, maquinação e cabala ao mais alto nível, que cresceu silenciosa mas inexoravelmente. Os anos Sócrates manifestaram-no a vários níveis; nos referidos escândalos bancários, por exemplo, além de irregularidades financeiras, sentiram-se intrigas palacianas vastas, profundas e complexas, sobretudo no BCP, que são alheias a uma sociedade equilibrada.
A recente explosão do GES, com todas as suas ramificações, constitui a flagrante confirmação pública da podridão latente nos níveis altos do nosso poder político-económico. O pior não está na dimensão da dívida ou nos efeitos económicos, mas no grau de conspiração e decadência que revela. Fenómenos destes são característicos de sociedades atrasadas, regimes corruptos, sistemas perversos. A sua ausência é condição indispensável da civilização.
Corrupção há em todo o lado. Os países cultos são, não imunes à doença, mas aqueles onde tradições, regras e instituições dominam essas tendências. Portugal é um país civilizado. Mas alguma elite mostra traços do Terceiro Mundo, da choldra torpe de Eça. A forma como limparmos o caso GES mostrará se passámos o teste para país desenvolvido.

O apoio da cultura a António Costa


  • Alexandre Homem Cristo
  • Observador | 2014.07.28
Perpetuar um sistema inquinado, que se foca na oferta (nos artistas) e desvaloriza a procura (o público), não interessa ao país. Mesmo que interesse aos artistas
Um grupo de agentes culturais divulgou este mês o seu manifesto de apoio a António Costa. Artistas, actores de teatro e de cinema, fadistas, organizadores de eventos. Escrevem que são a cultura e que a cultura é eles – e que querem uma "alternativa política e cultural". O presidente da câmara de Lisboa agradeceu. E retribuiu, garantindo que apoiará a cultura – isto é, pela mesma lógica, que os apoiará a eles.
É particularmente interessante que esses agentes vejam em Costa o homem ideal para concretizar as suas expectativas. Não são, por certo, as alternativas culturais que Costa apresentou que os entusiasmam, pelo simples facto que o candidato socialista não apresentou nenhuma. Aliás, à semelhança de outras áreas da governação, não se lhe conhece sequer uma ideia concreta de política cultural. Assim, o que os move é mesmo Costa, o político – alguém com "uma atitude contemporânea e cosmopolita, que reconhece na cultura um contributo fundamental para sairmos da crise". Ou seja, alguém com quem acreditam poder contar.
Isto, num meio cultural onde a dependência no Estado é grande e num país onde a política cultural se resume a discutir financiamento público, quer dizer muito. Nada é mais importante do que definir valores e destinatários – quanto paga o Estado e quem recebe. Além de que muitos dos agentes culturais que anunciaram o seu apoio a Costa estão nesse circuito de dependência há vários anos. E com um sucesso assinalável, só ameaçado pela crise económica e pela consolidação orçamental. Uma ameaça que, agora, impõe a necessidade de alternativas.
Isto diz muito dos agentes, mas também diz muito de Costa. Sobretudo, serve de exemplo de como a mudança que Costa projecta nos seus apoiantes é, essencialmente, uma ruptura com o presente – em direcção ao passado. O que, neste caso específico, significa proteger a relação de dependência (financeira e política) que a cultura mantém com o Estado. Manifestos à parte, não há lugar para equívocos: perpetuar um sistema inquinado, que se foca na oferta (nos artistas) e desvaloriza a procura (o público), não interessa ao país. Mesmo que interesse aos artistas.
Entendamo-nos. Não é por ter o dever de sustentar um sector que o Estado financia a criação artística. O dinheiro dos contribuintes suporta a produção artística para que os cidadãos tenham acesso a uma oferta cultural diversa que, de outro modo, não teriam. Dizê-lo não equivale a impor um modelo de cultura de massas, mas somente a reconhecer que a política cultural não pode esquecer o público, porque ela existe precisamente para estar ao seu serviço. Caso contrário, apenas serve para perpetuar o alheamento entre quem produz e quem consome os bens culturais.
Um alheamento que é singularmente grave em Portugal. Numa edição especial do eurobarómetro (#399-2013), sobre o consumo de cultura na europa, os dados são claros. Nos 12 meses que antecederam o inquérito aos cidadãos europeus de todos os estados-membros, os portugueses foram os que leram menos livros, foram menos ao teatro e assistiram menos a concertos. Mais: nesse período, apenas 17% dos inquiridos portugueses visitou um museu e 27% visitou um monumento (pior, em ambos os casos, só na Grécia). Sendo a falta de interesse o motivo principal.
É esse o desafio das políticas culturais. E, aí, algo tem de mudar. Não passa de uma ilusão achar que o desinteresse cultural dos portugueses se ultrapassará com mais financiamento para a produção artística. Pelo contrário, esse desinteresse só será enfrentado se o foco prioritário passar da produção para o consumo, colocando o público no centro (tanto como um dos critérios de financiamento como por via da formação dos públicos na escola ou na RTP). Alguns passos importantes até têm sido dados nesse sentido. Só que é um erro acreditar que esses passos agradam aos agentes culturais. Bastantes quererão invertê-los. E, agora, sabemos que alguns confiaram a António Costa essa missão.

domingo, 27 de Julho de 2014

Elogio da tradição



Louvemos os homens ilustres, nossos antepassados, segundo as suas gerações.
Porém, aqueles foram homens de misericórdia, cujas obras de piedade não foram esquecidas.
Na sua descendência permanecem os seus bens, e a sua herança passa à sua posteridade.
Os seus descendentes mantiveram-se fiéis à Aliança, os seus filhos também, graças a eles.
A sua posteridade permanecerá para sempre, e a sua glória não terá fim.
Os seus corpos foram sepultados em paz, e o seu nome vive de geração em geração;
Os povos proclamarão a sua sabedoria, e a assembleia cantará os seus louvores.
Livro do Eclesiástico 44,1.10-15.

sábado, 26 de Julho de 2014

Elogio da imprudência


José Luís Nunes Martins
ionline, 2014.07.26
Cada decisão deve ser pensada. O governo da nossa vida deve passar por um exame cuidado das circunstâncias, uma consideração alargada a todas as perspetivas possíveis, escolhendo-se os fins e os meios mais seguros e adequados.
Esta coerência constrói-se através de uma consciência que equilibra todas as partes. A prudência é um pilar essencial da nossa estrutura interior.
Importa aceitar o mundo e cuidar sempre de nos projetarmos e agirmos em função da realidade. Desconfiando do que se ouve e do que se vê… suspeitando até de nós mesmos e das nossas capacidades de analisar, avaliar e decidir. Só quem é humilde distingue o desejável do indesejável.
Mas esperar por rigorosas certezas é um erro enorme. A prudência aconselha a que não se percam as oportunidades, agindo, nesses momentos, sem grandes pensamentos ou moderações.
O maior perigo na vida é o de a desperdiçarmos por falta de coragem. Aqueles que escolhem ser cobardes decidem ser nada em vez de ser…
Uma certa ponderação permite tornar o tempo numa vantagem e gerir o esforço; o excesso de timidez faz com que nada tenha sentido. Quem recusa o papel de autor e ator do seu destino condena-se a ser espectador e figurante de um teatro que nunca chega a acontecer.
Podem os prudentes viver muito mais que os audazes, mas ninguém chega a ser feliz sem arriscar. O amor não é compatível com muitos discernimentos.
Devemos cuidar de nós mesmos, de garantir o nosso conforto, hoje e amanhã. Mas há valores bem mais altos do que a nossa tranquilidade. Para que nos servem os anos se não formos capazes de ultrapassar o egoísmo? De que serve uma vida inteira se não formos capazes de nos arriscarmos em vista do melhor?

Direito de ter filhos

Inês Teotónio Pereira
ionline, 2014.07.26

Um filho é, antes de mais, uma vida. Uma vida própria. E não se aluga nada para gerar vidas humanas, e muito menos barrigas
Vivemos na era dos direitos. Todos reclamamos direitos, e bem, mas falamos baixinho de deveres ou de obrigações. Temos direito à educação, à saúde, à liberdade, ao bem-estar, à segurança, à vida e até a sermos felizes. A bitola está tão alta que se torna, na maior parte das vezes, inalcançável - mesmo que se paguem todos os impostos. Mas o objectivo está bem definido, e a palavra "direito" muito bem esmifrada. O século XX trouxe- -nos esta oferta generosa de direitos pela primeira vez na história da humanidade: nunca houve tantos direitos como hoje. Bem haja o século XX!
Estando todos estes direitos definidos, e muito bem, chegámos agora a uma nova fase de direitos, e bem mais ambiciosa. O princípio é o mesmo: queremos ser felizes e temos direito a tudo o que nos possa trazer felicidade. E chegamos assim aos filhos. Os filhos entraram na categoria dos direitos, como a habitação ou a educação. Os filhos, tal como todos os outros direitos, trazem-nos felicidade e, se queremos, devemos ter o direito de os ter. Custe o que custar e a quem custar, porque não é justo que haja alguém que não possa ser pai ou mãe.
As barrigas de aluguer, o novo tema fracturante que estava de molho à espera de ser debatido, é o próximo da lista e vem responder a este direito. O que se reclama é a possibilidade de se alugar a barriga de alguém que esteja de tal forma frágil e vulnerável que se dispõe a alugar a própria barriga para gerar uma vida alheia. E pronto, temos filho. Um filho que é ao mesmo tempo de três pessoas, mas que será só de duas. Um filho que cresce sabendo que não foi gerado pela mãe que conhece, mas por outra que alugou a barriga para o gerar. Um filho que é resultado da reclamação de um direito dos pais de serem pais. Um filho que é, na verdade, um capricho que se cumpre para alcançar uma ideia de felicidade.
Mas a verdade é que ninguém tem direito de ter filhos. Os filhos não são ordenados ao fim do mês, uma taxa moderadora que temos o direito de não pagar, ou um rim que alguém nos cede para podermos viver. Um filho é, antes de mais, uma vida. Uma vida própria. E não se aluga nada para gerar vidas humanas, muito menos barrigas. O único direito que existe é o direito de os filhos terem pais. Os pais, esses, não têm direitos, mas sim o privilégio de ter filhos. Um privilégio que nos obriga a prescindir de direitos, de egoísmos, que nos faz renunciar ao bem- -estar e que nos vincula para sempre ao dever de cuidar e de proteger outra vida.
Quem quer ter um filho a todo o custo, apenas pelo desejo ou pelo direito de ser pai, relativiza os direitos do filho que nasce de uma barriga de aluguer e a felicidade da pessoa que a alugou. Ser pai ou mãe não é uma questão de justiça, mas ignorar tudo isto é uma verdadeira injustiça. Um filho tem direito a ser muito mais do que um capricho e tem direito de crescer e de-senvolver-se dentro da sua mãe, e não de outra pessoa que nunca vai conhecer e a quem nunca irá chamar mãe. Quando se tem filhos, percebe-se que a nossa felicidade não depende deles, mas sim da felicidade deles. Alugar uma barriga para ter um filho e, com isso, achar que se comprou a felicidade é meio caminho andado para a infelicidade de muita gente e, em primeiro lugar, do próprio filho. E estes, sim, não pediram mesmo para nascer.