terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Verdade e erro



Nós, na verdade, não queremos uma religião que esteja certa quando nós estamos certos. O que queremos é uma religião que esteja certa quando nós estamos errados.

G. K. Chesterton
The Catholic Church and Conversion

Para o Diogo a vida era infinita

senzapagare, 2 Set.2014



DIOGO EMPIS DE ANDRADE E SOUSA



Para o Diogo a vida era infinita.

A vida era para viver, o melhor que conseguíssemos, o melhor que soubéssemos, e por isso nunca parou quieto.

Desde o externato do Parque, passando pelos Salesianos, depois pelo Maria Amália, ou pelo ISCTE. Nunca se dedicou demasiado aos estudos, porque estava demasiado ocupado a viver, a estar com amigos, a passear, a jogar rugby, a dançar, a festejar. Apesar disso, tudo lhe saía com a maior facilidade. Fazia umas directas no final de cada semestre, e lá resolvia todas as cadeiras. Era demasiado esperto e demasiado rápido para perder tempo a mais a estudar… preferia viver a vida.

Passou um ano em Florença, onde fez ainda mais amigos, e onde aprendeu a falar italiano, há quem diga, melhor que os próprios italianos. Aproveitava a vida com alegria e chegava a sair às ruas de Florença descalço e com um copo de vinho na mão. Passou anos nas Equipas de Jovens, onde ao longo de todas as peregrinações que fez, ajudava sempre os que ficavam para trás.

Passava Verões na Praia Grande, entre família e amigos. Era difícil alguém não ficar cativado pelo Diogo. A sua presença era demasiado intensa e demasiado alegre. Tinha mais histórias do que tempo para contá-las. 

São inesquecíveis as suas peripécias e esquemas para conseguir chegar onde queria. O Diogo conseguia convencer qualquer pessoa do que quisesse. E fazia-o sempre com a maior naturalidade.

A forma do Diogo andar, destemida e de olhar confiante, mostrava como encarava a vida: com todo o entusiasmo e com toda a força.

O Diogo deu a volta ao mundo. Passou por mais de 60 países sempre com vontade de conhecer mais, de ver novas pessoas, de explorar novos mundos. Sempre com um desejo que nada nem ninguém conseguia completar. Não se conformava com nenhuma experiência e desejava sempre mais.

O Diogo tinha um coração grande. Não deixava ninguém indiferente. Nem deixava ninguém sem ajuda. A sua presença era uma força contagiante e generosa.

Só o Diogo para ir ser arquitecto a fazer um resort de luxo nas Caraíbas… Passou os últimos anos longe, mas perto do coração. Bastava 1 segundo com ele para acender-se de novo aquela alegria de tê-lo por perto, tão cheio de vida e de intensidade. Toda a gente sentia que era especial para o Diogo. Ele conseguia fazer que qualquer pessoa se sentisse única. Cada pessoa tem uma história com o Diogo que mais ninguém tem. O Diogo marcou cada pessoa – quem o conhece há muito ou pouco tempo – porque a sua generosidade fazia com que se entregasse inteiro a cada momento e a cada pessoa. 

Parece que tanto fica por viver e fazer, e o muito que tivémos com o Diogo sabe-nos a pouco. Fazem já falta as coisas que íamos viver. Os jantares por combinar, as viagens por fazer, os passeios prometidos, as piadas por inventar, as conversas que adiámos. Tudo o que vemos nos parece faltar.

Ficamos cheios de tristeza e cheios de saudades, de ver o nosso querido Diogo partir assim tão cedo. Depois disto, nenhum de nós voltará a ser o mesmo. Não podemos voltar ao que éramos, porque o Diogo abriu o nosso olhar para novos sítios e abriu o nosso coração até onde não achávamos possível. O Diogo foi e sempre será um enorme dom de Deus para as nossas vidas.

Fica muito por dizer. As palavras não são nem nunca serão suficientes para uma pessoa tão brilhante como o Diogo. Demasiado brilhante para este mundo. 

O Diogo descrevia a chegada ao Céu como ver Deus de braços abertos e com um sorriso na cara. E que esse abraço era irresistível. Confiamos assim que Deus o recebe, e que o fará tão feliz como ele sempre quis ser.

E que para quem desejava uma vida infinita, vai agora começar a melhor parte.

27 de Agosto 2014



Texto escrito pelo João Andrade e Sousa Valentim

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

O homem da esperança

BRONISLAW MISZTAL Público 01/09/2014 - 00:01
A escolha de Donald Tusk pode ser englobada num conceito de "Europa unida".
Um polaco modesto, quando eleito para ocupar uma das posições com mais visibilidade no hemisfério ocidental, usou três palavras-chave: esperança, confiança e fé. Foi Karol Wojtyla no dia 16 de outubro de 1978, em Roma. Durante a oitava votação foi eleito Papa.
Naquela altura, o mundo estava cansado com o triste estado da política. A intriga soviética no Afeganistão tinha começado cerca de seis meses antes e uma guerra sombria estava a nascer. Um presidente relutante e brando dos Estados Unidos, um presidente omnipotente soviético, um Xá do Irão em falência, uma situação de segurança em decomposição no Médio Oriente, uma apodrecida economia do estado socialista das nações do Pacto de Varsóvia, uma paralizada e demasiado lenta ONU – tudo revelava um quadro sombrio. A Guerra Fria estava no seu auge. O poderoso trio do KGB de Andropov, Ustinov e Ponomarev estavam ao lado de Brezhnev. O Papa, recorrendo à mensagem poderosa da confiança, esperança e valores, foi ouvido em todo lado. Tanto em Moscovo como em Washington D.C. No dia 17 de Outubro eu ia num comboio noturno de Helsínquia para Oulu na Finlândia, para uma palestra, quando de repente encontrei no chão uma revista. Fiquei electrificado, feliz e orgulhoso, ainda mais porque tinha o tão raro privilégio de conhecer Wojtyla, ainda como pastor da comunidade académica em Cracóvia. Sabia que ao perder Wojtyla para o mundo viríamos no final a ganhar através da mensagem potente dele. Ia tornar-se, como escreveu o Prof. João Carlos Espada no PÚBLICO, «o nosso homem no Vaticano».
Hoje o mundo está numa situação parecida. Um líder brando num país, um líder forte noutro, um poder infraestrutural pós-KGB na Rússia, o mundo resplandecente em conflitos e confrontos étnicos, o Médio Oriente nem um pouco menos explosivo, o Irão a aquecer os seus músculos nucleares, o Sul e o Leste da Europa ameaçados, a economia mundial a sangrar após a crise financeira prolongada, um número considerável de depressivas personagens políticas em todo lado – tudo isso é apenas o pano de fundo do drama que está a desenrolar-se na Ucrânia. Tal como a colunista do Washington Post, Anne Applebaum, nos lembra, o belo final do Verão de 2014 lembra muito dos acontecimentos de há 75 anos.
Portanto é com muita esperança e confiança, além de óbvio orgulho e humildade necessária que nós, os Polacos, damos as boas-vindas à nomeação do Presidente da Europa. Donald Tusk, o primeiro-ministro da Polónia, é a escolha da esperança, confiança e valores comuns. É difícil subestimar o significado semiótico desta escolha, que pode ser englobada num conceito de «Europa unida». Uma Europa significa uma Europa unida, não apenas forçadamente ligada às antigas e novas partes. Uma Europa significa uma Europa forte, não apenas um conglomerado de facções e forças centrípetas. Isto também significa uma Europa Jovem, já que a escolha do primeiro-ministro polaco constitui também uma transfusão de sangue para o capital humano europeu. Com 57 anos, Tusk tem a aparência de um menino, mas é um político maduro, ainda jovem (mais ou menos da mesma idade que Karol Wojtyla quando foi eleito Papa), enérgico, em boa forma, rápido, com um raciocínio moderno e com claras opiniões, com uma visão de Europa, franco e inteligente – será um desvio marcante do estilo passado. Das suas várias citações, a que eu pessoalmente mais gosto é: «o dilema não é se devemos estar no centro da Europa ou nas periferias... o dilema é como ser um jogador significante no centro da Europa e não deslizar para periferias em resultado da crise.» Este excerto do discurso governamental de 2011 pode também servir bem como teste decisivo da sua filosofia em trabalho que está, naturalmente, ainda em gestação. Tenho a certeza que a presidência dele não será sombria, mas será dramaticamente desafiadora. Terá que confrontar e aceitar o facto de que, para muitas forças políticas, por várias razões, as políticas europeias passadas não eram assim tão satisfatórias. Presidirá sobre a Europa onde vai testemunhar uma considerável rotação de políticos, diversas chegadas e partidas, e será a posição dele a garantir que a «Europa Unida» continue.
Começa a sua presidência numa altura em que muitas fronteiras contemporâneas estão perfuradas, outras estão porosas e vulneráveis, com milhares de pessoas a tentar sobreviver, reclamando os mesmos valores universais que foram estabelecidos quando a Europa foi formada como união. Começa a sua presidência quando a esperança voa alto e a confiança está em baixo, quando os valores estão fragmentados e os desafios aumentam. Não há nenhum "jogo de vencedores e vencidos" na medida dos problemas da vizinhança europeia, e não há um volume estabelecido dos problemas que vão aparecer à frente. O que a Polónia traz para a Europa é um histórico de sucesso no meio de problemas de outras nações; é uma energia e optimismo de que nós Polacos somos impregnados; é um gene da democracia que está vivo em cada um de nós. Significa muito que quase 75 anos após o dia em que Hitler invadiu a Polónia, a "Europa unida" tenha um líder polaco. Donald Tusk será líder de todos, grandes e pequenos, dos de sucesso e dos que trabalham para sair do buraco, e não apenas para os Europeus, mas também para os do Médio Oriente, norte-africanos, ucranianos, e sim, para os russos também. Orgulhosos e humildes, num sentimento profundo da responsabilidade civil, damos as boas-vindas a Donald Tusk como o Presidente da «Europa unida».
Embaixador da República da Polónia em Lisboa 

O nosso homem na Europa

JOÃO CARLOS ESPADA Público 01/09/2014 - 01:26
A União Europeia deu um passo crucial para devolver a iniciativa a um Ocidente anestesiado por uma vaga de apaziguamento politicamente correcto.
Esta era suposta ser a minha última crónica da série "leituras em férias". A crónica está escrita, sobre o livro The Fourth Revolution: The Global Race to Reinvent the State, da autoria dos jornalistas de The Economist, John Micklethwait e Adrian Wooldridge. É um grande livro. Mas não enviei essa crónica para ser publicada hoje.
Em vez dela, senti um irreprimível impulso para saudar a eleição de Donald Tusk, primeiro-ministro da Polónia, como novo Presidente do Conselho Europeu. Depois de um mês de Agosto deprimente, com sucessivas notícias de avanços das forças anti-ocidentais por esse mundo fora — desde as tropas russas na Ucrânia, aos bárbaros extremistas islâmicos no Iraque, na Síria e em Gaza, enquanto Jean-Claude Juncker, o sucessor de Durão Barroso na presidência da Comissão Europeia, discutia o número de mulheres na sua futura equipa — eis que chega o primeiro sinal de esperança de uma vigorosa resposta ocidental.
No sábado passado, em Bruxelas, a União Europeia deu um passo crucial para devolver a iniciativa a um Ocidente anestesiado por uma vaga de apaziguamento politicamente correcto. Tusk e a Polónia vão seguramente trazer de volta à União Europeia o vigor e o orgulho do livre Ocidente.
A eleição de Tusk é desde logo um sinal muito claro que não passará despercebido na Rússia — mesmo ao sr. Putin e seus apaniguados. A Polónia tem liderado nos últimos meses os apelos para tomadas de posição mais firmes por parte da Europa e dos EUA face à Rússia. Agora, a voz da Polónia será escutada a partir da presidência do Conselho Europeu.
É imperioso que isso tenha consequências já na cimeira da NATO das próximas quinta e sexta-feiras, no País de Gales. As reclamações de Radek Sikorski, ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Donald Tusk, devem aí ser atendidas. É imperioso reforçar a presença permanente de forças militares da NATO na Polónia e nas Repúblicas Bálticas. É imperioso reforçar os acordos de colaboração da NATO com a Suécia e Finlândia, também com a Ucrânia.
A eleição de Tusk será também muito importante para a reforma interna da União Europeia. Tendo sido proposto pelo Reino Unido, e contado com o apoio da Alemanha, Tusk pode liderar agora um processo de ajustamento interno da UE. A Polónia é simultaneamente um orgulhoso membro da UE e uma orgulhosa nação independente. Ela pode compreender o desconforto britânico com o dogma politicamente correcto de "sempre maior integração supra-nacional". Ao mesmo tempo, pode canalizar esse desconforto para ajustamentos reformistas, evitando que ele continue a ser explorado na Europa continental por partidos extremistas — alguns dos quais, sintomaticamente, não escondem a sua simpatia pelo sr. Putin.
Obviamente, todas estas são excelentes notícias para Portugal — um membro fundador da NATO e uma nação euro-atlantista. Durão Barroso — que foi um grande presidente da Comissão Europeia, o que continua a ser misteriosamente ignorado entre nós — sempre insistiu na importância crucial da Polónia para a União Europeia. Os laços de amizade entre Portugal e a Polónia são hoje fortíssimos — e esta é a altura certa para os festejar.
Em Novembro último, teve lugar em Lisboa uma conferência sobre "Polónia e Portugal: fronteiras da Europa". Tratou-se de uma iniciativa conjunta do Embaixador da Polónia, Bronislaw Misztal, e do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Oradores da Academia das Ciências polaca e da Universidade de Varsóvia vieram a Lisboa reflectir sobre o tema com académicos portugueses, entre os quais Manuel Braga da Cruz, antigo reitor da Católica, e Isabel Gil, actual vice-reitora.
Muitos elementos inesperados, para além da sólida tradição católica, aproximam a Polónia e Portugal. Um deles, tantas vezes esquecido, reside no papel central que as duas nações, geograficamente periféricas, desempenharam na eclosão e alargamento da chamada "Terceira Vaga" da democratização mundial, no último quartel do século passado. É importante recordar esta comunhão democrática luso-polaca neste dia 1 de Setembro de 2014 — precisamente 75 anos depois da invasão da Polónia por Hitler, à qual se seguiria, a 17 de Setembro, a invasão por Staline.
Em data a anunciar neste mês de Setembro, o Embaixador Misztal voltará à Católica — ao almoço mensal do Instituto de Estudos Políticos que tem lugar no Círculo Eça de Queiroz, ao Chiado, — para falar sobre a eleição de Tusk e o que ela representa. Será uma boa ocasião para festejar a solidariedade luso-polaca, bem como a feliz eleição do "nosso homem na Europa".

O único lugar a determinar é o nosso


Com Setembro chega o tempo do re-início. Todos começam a pensar no ano de trabalho ou estudo que começa, fazendo planos, repensando a vida, procurando horizontes.  Por isso, achei especialmente oportuno este artigo de João César das Neves que se interroga sobre "qual é o lugar de Deus?". De regresso ao convívio com o Povo a todos desejo um ano em que cada um consiga encontrar o seu lugar.
Um abraço do Pedro Aguiar Pinto

Qual é então o lugar de Deus? Alguns recusam-Lhe cidadania, fazendo-O o único proscrito da sociedade tolerante. Outros situam-nO no alto dos Céus, cheio de majestade mas vago, longínquo e indiferente. Há ainda os que O colocam dentro do coração do homem, mas tão fundo que mal se sente. Não entendem que a questão do lugar de Deus realmente não faz sentido. Deus, sendo Deus, não tem lugar, pois o infinito não sofre localização; o absoluto não é contingente. O único lugar a determinar é o nosso. E, onde quer que esse seja, "o Reino de Deus está próximo" (Mc 1, 15).            

Frase do dia

Nós, na verdade, não queremos uma religião que esteja certa quando nós estamos certos. O que queremos é uma religião que esteja certa quando nós estamos errados.

G. K. Chesterton
The Catholic Church and Conversion

O lugar de Deus

JOAO CÉSAR DAS NEVES
DN 2014.09.01

É estranho ver aqui um artigo com este título, não é? Vários leitores, irritados ou enfastiados, passaram já à página seguinte; outros lêem, desconfiados ou agradavelmente surpreendidos; todos, porém, sentiram o insólito da situação. Não é normal ter, num diário de referência e grande circulação, um texto com este tema.
A estranheza é, ela mesmo, estranha. Nos tempos que correm não somos propriamente cândidos. Por isso, nas outras páginas deste periódico, precisamente por ser de referência e grande circulação, encontram-se, sem despertar assombro, os assuntos mais diversos e abstrusos. Violências cruéis e perversões várias, passando por inúmeros crimes, tolices e extravagâncias, até temas religiosos, de agressões extremistas a ensinamentos sábios, não suscitam perturbação. Nada incomoda tanto uma audiência sofisticada e esclarecida quanto este título. Todas as coisas são de esperar numa publicação destas; não uma inquirição séria sobre a pessoa de Deus.
No entanto, a divindade é o tema mais presente e comum da humanidade. Nas publicações de referência e nas manifestações públicas de qualquer outro período ou região, surge a natural e serena presença da Providência. Todas as culturas, épocas e civilizações conviveram com ela de formas variadas, mas sempre normais. O incómodo actual contrasta com a generalidade dos povos. A aberração é realmente nossa. Insólito não é o título, mas a sua raridade.
A origem da inesperada estranheza é óbvia. Somos herdeiros da primeira tentativa humana de erradicação sistemática do transcendente. Nos últimos 250 anos, em toda Europa, filósofos argumentaram e oradores ridicularizaram; autoridades proibiram, encerraram, prenderam, por vezes devastaram e executaram. No conjunto, representou o maior esforço colectivo da história da humanidade. E foi contra Deus.
Finalmente os promotores entenderam que não só o processo os transformara em monstros piores do que os que diziam perseguir, mas os resultados eram desanimadores. A religião, debaixo da terrível pressão, resistiu e prosperou. Então mudaram o método. O Todo-Poderoso deixou de ser atacado abertamente para ser ignorado. Passou de inimigo a desconhecido.
Hoje suscita-se um esforço colectivo de fingir que as questões fundamentais da existência -origem e finalidade da realidade, sentido da vida, destino pessoal- afinal não interessam. A cultura mediática embriaga-se em ilusão, magia, política, ciência, zombies e super-heróis para esquecer que somos apenas humanos em busca da felicidade. As crenças mais abstrusas podem ser apregoadas livremente, desde que realmente não sejam levadas a sério. Como não se entende uma fé verdadeira, existem oficialmente apenas duas alternativas admissíveis: indiferença ou fanatismo. Chega-se a ponto de rejeitar como boçalidade ou fundamentalismo qualquer genuína expressão de devoção. Um texto como este, por exemplo, deve manifestar desequilíbrio.
O desvio afectou até os fiéis piedosos. Como algum público se irrita com a religião alheia, vários devotos escondem a sua fé para não incomodar. Sem se preocuparem com o incómodo de Deus. Muitos, até zelosos, têm dificuldade em se relacionar com o sublime, preferindo uma religião pragmática e assistencialista. O Papa Francisco censurou precisamente isso na sua primeira homilia: "Se não confessarmos Jesus Cristo, tornar-nos-emos uma ONG sociocaritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor" (Capela Sistina, 14 de Março de 2013).
Qual é então o lugar de Deus? Alguns recusam-Lhe cidadania, fazendo-O o único proscrito da sociedade tolerante. Outros situam-nO no alto dos Céus, cheio de majestade mas vago, longínquo e indiferente. Há ainda os que O colocam dentro do coração do homem, mas tão fundo que mal se sente. Não entendem que a questão do lugar de Deus realmente não faz sentido. Deus, sendo Deus, não tem lugar, pois o infinito não sofre localização; o absoluto não é contingente. O único lugar a determinar é o nosso. E, onde quer que esse seja, "o Reino de Deus está próximo" (Mc 1, 15).

domingo, 31 de Agosto de 2014

Mistérios da fé: os Zés que fazem falta


Enquanto lisboeta regozijo-me por José Sá Fernandes ter a seu cargo os jardins. Suponha-se que lhe tinham dado rédea livre para as estátuas, cruzes, bibliotecas pejadinhas de livros ultrapassados?
O carácter messiânico da esquerda que quer sempre ser mais esquerda, mais pura e que passa a vida a garantir que agora é que vai ser produz a nível internacional fenómenos como Hollande (são dignos de uma antologia da fé os títulos da imprensa portuguesa após a eleição de Hollande) e, numa pequena escala, gera fenómenos como José Sá Fernandes que assim que passam das palavras aos actos se assemelham àqueles balões que mal saem das mãos do vendedor para as da criança começam a perder gás. (Ainda não me recompus dos cinco euros que dei por um balão Hello Kitty na precisa semana em que se descobriu que a dita afinal não é uma gata mas sim uma menina e para meu azar o balão também descobriu que não quer ser balão e está para ali mais vazio que os nossos bolsos depois de pagarmos os impostos com que este governo mais liberal de sempre nos presenteia.)
Pois o nosso Zé, o tal que nos garantiam fazia falta, é uma dessas figuras. Agora deu-lhe para embirrar com os buxos da Praça do Império: "estão ultrapassados" diz a assessoria de imprensa do vereador que, talvez no entusiasmo de finalmente ter algo para comunicar, importou para a jardinagem um conceito da propaganda totalitária: só se conserva o que está de acordo com a ideologia dominante. O passado e o não conforme apagam-se. Cortam-se. Deixam-se secar.
Felizmente para nós que o vereador Sá Fernandes tem o pelouro dos jardins e assim só lhe sobram os buxos da Praça do Império e, daqui lhe lanço o meu repto, terá também de intervir nas hortas da capital, pois terá de admitir o senhor vereador que nisto de hortas citadinas, mais a mais biológicas, Salazar foi precursor. O senhor vereador já pensou que em cada lisboeta que planta verduras por essa capital fora se esconde um manhoso português sempre a dizer que tem saudades do campo, que na sua aldeia é que se está bem mas que depois não despega daqui nem por nada? Eu se fosse ao senhor vereador instituía um exame de anti-salazarismo aos candidatos a hortelões, para avaliar das suas intenções progressistas, porque sem essa avaliação corre-se o risco de cada pé de couve que medra na capital se transformar numa ode ao pretérito chefe de Governo, para todos os efeitos patrono honorário das hortas nesta Lisboa que desde o rinoceronte que el-rei D. Manuel I, o Venturoso de seu cognome, mandou ao Papa Leão X, já viu tanta coisa que nada a espanta. Nem sequer o senhor vereador!
De qualquer modo enquanto lisboeta regozijo-me por José Sá Fernandes ter a seu cargo os jardins. Suponha-se que lhe tinham dado rédea livre para as estátuas, cruzes, azulejos, bibliotecas pejadinhas de livros ultrapassados e demais símbolos doutros tempos? Não havia picaretas nem fogueiras que chegassem! Imaginem o que seria de nós se o vereador olhasse com olhos de ver para a fachada dos Jerónimos? Para a Torre de Belém? Para a esfera armilar que está no pelourinho da Praça do Município?… Lisboa tornar-se-ia num imenso Chão Salgado ou, numa versão mais épica, numa Cartago após a passagem de Cipião: todo o vestígio do passado seria apagado.
Assim com os buxos a coisa é mais fácil e menos aparatosa. E sobretudo talvez finalmente o senhor vereador consiga fazer alguma coisa. Porque por assim dizer o senhor vereador é uma espécie de personificação do inconseguimento, palavra do afecto da presidente do nosso parlamento e que colocou meio país a tremer quando, no 10 de Junho, Cavaco Silva desmaiou e já todos nos víamos no sarilho do inconseguimento de Assunção Esteves ter conseguido ser Presidente da República, facto que transformaria num detalhe a rasoura que Sá Fernandes prepara aos buxos da Praça do Império. Mas deixemos essa terrífica visão presidencial no domínio do hipotético, que já temos agasturas que nos bastem, e voltemos ao nosso Zé que fazia falta, agora senhor vereador.
Que me recorde, o Zé enquanto vereador começou por querer criar uma marca de vinho e de azeite da capital. Nesta versão empreendedora também cogitou comercializar as amêijoas e as corvinas do Tejo. Estávamos então em Agosto de 2007. Para trás tinha ficado a fase em que Sá Fernandes era tão só advogado e se dedicava de alma e coração às providências cautelares que por pouco transformaram o Marquês de Pombal em campo santo. Aliás por alguns meses o terreno da Rotunda foi mais sagrado que o solo de Meca. Na santíssima graça do Senhor e também por abençoada intervenção da fraternidade devota do marquês, o Zé tornou-se vereador e Lisboa pode voltar a ser perfurada à vontade sem que a tribo do Zé e seus Zezinhos tivesse frémitos de agonia de cada vez que um martelo pneumático toca o alcatrão da capital. (Igualmente abençoado com a infinita graça de 18,1 milhões de euros foi o consórcio responsável pela obra e que colocou a Câmara de Lisboa em tribunal por causa das obras paradas no túnel do Marquês de Pombal. Mas note-se que os lisboetas até ficaram agradecidos por só terem pago 18,1 milhões de euros de indemnização, pois, como pressurosamente os jornalistas escreviam, a Câmara até conseguira poupar 6,5 milhões no acordo que fez com o dito consórcio, já que o tribunal fixara o valor da multa em 24,6 milhões de euros. Não sei se o Zé vereador participou nestas reuniões em que se tratava das multas provocadas por Zé impugnador ou se andava no Tejo em busca das corvinas. Mas estou em crer que o consórcio deve ir a Fátima todos os anos rogar para que Nossa Senhora, que tanto pode, dê muita saúde ao senhor vereador e sobretudo para que este quando deixar as presentes funções se dedique de novo às saudosas e benfazejas providências cautelares.)
É certo que o executivo municipal não acompanhou o Zé nos negócios da agricultura e da pesca. Assim o nosso Zé virou-se para o ar e em Fevereiro de 2008 anunciou a Parada do Vento. A mesma começou por ter uma designação apropriadamente em inglês, Wind Parade 2008, e constava de 25 torres eólicas, com a altura de quatro andares, que iriam ser instaladas junto da segunda circular, no Jardim Amália Rodrigues, no Parque Recreativo dos Moinhos de Santana, no Alto da Serafina, no Parque da Belavista, na Avenida da Índia, nos Olivais, na Piscina Municipal da Boavista, na Avenida Calouste Gulbenkian, junto à Cordoaria Nacional e na Avenida Padre Cruz. A Wind Parade surgia apadrinhada pelas European Wind Energy Association, Sustainable Energy Europe e Associação Portuguesa de Energias Renováveis que nestas coisas o nosso Zé arranja sempre muitos nomes para o apoiar. O vereador Sá Fernandes sabia de fonte certa que cada turbina, por ano, pouparia até 2,15 toneladas de CO2 e daria um rendimento de 2184 euros. Em Março, as turbinas já estavam reduzidas a quinze. Afinal Lisboa tem ventos que chegam e sobram, mas estes não correm de modo a produzir energia. Pouco depois a Wind Parade ficou transformada num evento simbólico em que se colocariam apenas algumas turbinas, para que o cidadão a elas se habituasse. E por fim nem isso.
Após esta desfeita que lhe foi pregada pelos ventos, o vereador voltou de novo à terra. E virou-se para os jardins. O Príncipe Real – aí está uma designação toponímica ultrapassadíssima pois já não existindo em Portugal príncipes menos se entende que se distingam os príncipes uns dos outros! – foi uma das vítimas das intervenções do Zé que de fazer falta no executivo estava nesta fase quase a tornar-se no Zé que o executivo já não podia ver e sobretudo não queria que fosse visto. O subsolo parecia ser um local apropriado a energia criativa do vereador. Em boa verdade o pavimento de alcatrão do Jardim do Príncipe Real não tinha problema algum mas Sá Fernandes entendeu que o mesmo devia ser substituído por um saibro estabilizado, feito à base de pó de vidro reciclado. Garantia então o vereador que só quem tivesse "memória curta" não veria as melhorias no piso. Se por melhoria se entender um irrespirável terreiro de pó no Verão e um lamaçal no Inverno pode falar-se em melhoria. Dado que ninguém confirmava a melhoria, antes pelo contrário, a CML optou por pulverizar o pavimento com uma espécie de cola que evitaria a libertação do pó de vidro no ar. Resultado: o piso do Jardim do Príncipe Real, que nesta fase parecia um campo experimental da guerra química, abateu e rachou.
E então Sá Fernandes desgostoso com o Tejo que não lhe deu amêijoas nem corvinas, triste com a Tapada da Ajuda que não produzia azeite nem vinho, traído pelos ventos que não geraram energia, malquisto com o solo da capital que qual praga bíblica ora se desfazia em pó ora se fendia, virou-se para os buxos da Praça do Império. Não trata deles. E pronto! Desde que Gomes da Costa nos finais do século XIX resolveu adequar à sua visão da História os quadros dos vice-reis da Índia e demais notáveis da nossa História que ornamentavam o Palácio do Governo na Índia portuguesa que não se via uma coisa assim. O militar, que havia de chegar a Presidente da República, não satisfeito com as representações pouco grandiosas desses nossos preclaros antepassados, avançou de pincel para os quadros e, mais barba menos armadura, compôs-lhes as vetustas figuras com a mesma resolução que depois o notabilizaria na guerra e nos golpes de Estado. O resultado foi mais devastador para a memória do Império que o arranque dos buxos dos brasões que o senhor vereador se propõe agora levar a cabo: ao certo não se sabe quem é quem naquela sucessão de heróis que nos olha, severa e atónita com o despautério, em 75 painéis, 42 dos quais recriados a gosto por aquele que anos mais tarde se tornaria no marechal Gomes da Costa.
Ora não há-de o senhor vereador ser menos que Gomes da Costa. Ele criou-nos um imbróglio histórico com as barbas de Afonso de Albuquerque e chegou a Presidente da República. O senhor vereador que por esse seu percurso também me parece talhado para mais altos voos quer alterar os brasões. Por mim, como lisboeta que sou, estou por tudo: se já paguei a obra anunciada num túnel, mais a multa pela providência cautelar e ainda a nova obra no mesmo túnel, porque não hei-de agora pagar o desbaste dos buxos mais as plantinhas que os irão substituir? Desde que não os substitua por aqueles calhaus e três pés de bambu que agora ornamentam tudo que é jardim e que a mim me destrambelham os nervos, tudo bem. E já agora, se findo este mandato municipal pensa voltar ao activismo das providências cautelares avise para o mail que segue abaixo porque nesse caso eu monto um consórcio e vou dedicar-me às obras públicas com as quais espero que o senhor vereador então já advogado volte a embirrar. Ou então montamos uma empresa de jardinagem.
Como o senhor vereador calculará eu sou uma mulher conservadora, logo nutro uma forte embirração para com as áreas mais rentáveis da jardinagem, a saber o cultivo de produtos alternativos ao tabaco. (Valha a verdade também já estamos os dois um bocado velhos para andarmos a brincar aos hippies, coisa que feita a consabida excepção aos Rolling Stones só é esteticamente aceitável até aos vinte e poucos anos.) Mas não digo que não à produção de buxos. Com formatos actualizados e ultrapassados.
A sério, o futuro de José Sá Fernandes preocupa-me. Porque, assim como assim, nós vamos ter sempre de aturar e sustentar os Zés que os messiânicos de serviço colocam no andor. E convenhamos que na galeria dos candidatos a tal lugar José Sá Fernandes até nem é dos piores. Nem o que nos causará mais dano. Perigosos são aqueles que se serviram dele e que agora o largam como coisa descartável que é e já andam por aí noutras procissões com outros que garantem fazer falta no andor.

Muita tabuleta ele vai ter de apagar

FERREIRA FERNANDES
DN 29 agosto 2014

A Praça do Império tem brasões florais das ex-colónias no jardim. O vereador Sá Fernandes quer que sejam eliminados porque brasões de ex-colónias "estão ultrapassados". É um critério e está bem defendido:ex quer dizer estar ultrapassado. Mas brasões e tabuletas existem também para lembrar coisas que acabaram. Se vamos acabar com tudo que acabou, a Praça do Império vai na enxurrada, aliás como o seu autor, Cottinelli Telmo, que também tem praça. Outra: a Rua Cidade de Salazar, no Bairro das Colónias. Parece um buraco negro: já não há colónias, nem Salazar, nem Cidade de Salazar (hoje chama-se Ndalatando). O problema é que se vamos por aí também há argumentos para acabar com a Praça da Alegria. Mas se acabamos com coisas que acabaram ou que dizem coisas com que não gostamos hoje, caímos naquilo de o apetite vir com o comer. O Beco da Ré vira Beco da Arguida. O Beco do Carrasco parece morar em Estado Islâmico. O Beco das Beatas pode ser contestado nas duas versões, contra o tabaco e o proselitismo religioso. A Avenida da Igreja merece um ponto de ordem: qual? A Triste-Feia lembra uma cidadã a quem os rapazes de Alcântara lançavam "que focinho de porca!" - queremos mesmo lembrar isso? O Jardim das Pichas Murchas (em São Vicente de Fora) faz contrapropaganda a conhecido produto farmacêutico. A Travessa do Fala-Só é inaceitável em tempos democráticos. À Avenida Mouzinho de Albuquerque só pergunto: foi justo o que se fez a Gungunhana?

Salamanca: a escola do universo

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
DN 2014.08.31
Quando nos aproximamos de Salamanca, a cidade banhada pelo Tormes, o seu casco histórico, Património Mundial desde 1988, brilha como uma seara de trigo debaixo do sol. Há muito para ver. Mas o coração espiritual da cidade palpita entre o Convento Dominicano de Santo Estêvão (que está unido à igreja plateresca consagrada ao mesmo santo) e a universidade. Foi aqui que no dealbar do século XVI nasceu a famosa Escola de Salamanca, que foi a semente das modernas teorias do direito internacional (na altura "direito das gentes"), em profunda ligação com uma doutrina igualitária e universalista dos direitos humanos. Perto do convento ergue-se a estátua do fundador da escola, Francisco de Vitoria (1483-1546), o académico brilhante que nas suas Lições de 1539, dedicadas aos "Índios" e ao "Direito de Guerra", destruiu a boa consciência dos conquistadores, mostrando que o império que Espanha construía no Novo Mundo era baseado em títulos ilegítimos. Fundado na violência e não no direito natural. Os navegadores portugueses e espanhóis haviam oferecido à humanidade a verdadeira dimensão geográfica do planeta, colocando a América no mapa, e cartografando a África meridional profunda e os mares austrais. Em Salamanca nasceu a Escola Ibérica da Paz. Através de mestres espanhóis e portugueses, na sua maioria intelectuais dominicanos, jesuítas e franciscanos, foi levada a cabo a tarefa de integrar um mundo desmesurado e alteroso, debaixo de uma ordem moral, jurídica e política que permitisse a paz, em vez da guerra, a justiça em vez da opressão. Ao contrário do racismo para com os povos não europeus, que tutelaria a Conferência de Berlim (1885), em Évora, Coimbra ou Valladolid propunha-se o respeito e a igualdade entre todos os seres humanos. Em Salamanca começou a esperança de um dia podermos ser cidadãos do mundo. De pleno direito.

sábado, 30 de Agosto de 2014

Cabeças duras


João Pereira Coutinho, Correio da manhã, 30.08.2014 00:30

O vereador lisboeta José Sá Fernandes, talvez amuado por ninguém lhe passar bola há muito tempo, gostaria de remover os brasões coloniais do jardim da Praça do Império, nos Jerónimos.

A coisa não faz sentido, diz o vereador, que gosta de abolir as coisas que não fazem sentido na cabeça dele.
Por mim, esteja à vontade. Mas alguém devia informar a criatura que apagar a história material que o país foi construindo desde 1143 implica escavacar Portugal inteiro e todos os símbolos que poluem a paisagem com vícios e ganância, segundo o alarve anacronismo do vereador. Se as nossas desventuras coloniais só terminaram formalmente em 1999, com a devolução de Macau, Portugal devia apenas conservar o que foi construído daí para a frente, em democracia, e sem contaminações coloniais ou 'fascistas' de qualquer espécie. No fundo, um país desértico em que só se salvava o Túnel do Marquês e pouco mais.

Eles & Elas

  • Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada | ionline 2014.08.30
Apesar de, na aparência, a nossa sociedade ser machista, na realidade são elas que mandam!
Não é pacífica a relação entre homens e mulheres, pelo menos desde Adão e Eva. A crer no relato bíblico, foi a mulher que obrigou o homem a comer o fruto proibido e, desde então, elas nunca mais deixaram de mandar. Aliás, é por isso que nos fazem crer que vivemos numa sociedade machista… 
Se não, vejamos. Um homem que considera as mulheres menos aptas para o exercício de um cargo ou profissão é, obviamente, machista. Mas, se uma senhora tecer a mesma opinião em relação aos cavalheiros, ninguém a acusará de feminista que, por sinal, não é o contrário de machista, nem a sua versão feminina, que não há. Com efeito, ser machista é sempre um insulto, algo política e socialmente incorrecto, porque pressupõe uma atitude prepotente e desrespeitadora dos legítimos direitos do outro sexo. Mas ser feminista é uma virtude, porque se entende que é nobre defender os direitos das minorias ou dos mais necessitados, embora as mulheres não sejam propriamente nenhuma minoria, nem muito menos seres descapacitados.
Se uma mulher, que injustamente discrimina os homens, não é machista, uma vez que esta designação é exclusivamente masculina, o que é?! A verdade é que nem sequer há um termo para designar com propriedade este eventual machismo feminino! E, se um sujeito defender os direitos políticos e sociais das senhoras, é feminista?! Não parece, porque, como já se disse, esta honrosa designação é exclusiva das mulheres. Logo, nenhuma mulher pode ser tão má quanto são maus os machistas, nem nenhum homem pode ser tão bom como as feministas. 
Em tese, também poderia haver um machismo bom e um feminismo mau. De facto, seria louvável aquele acto de afirmação do sexo masculino que não infamasse o seu contrário, como deveria ser censurável aquele feminismo que fosse depreciativo do sexo masculino. Deveria ser assim, mas não é. Porquê? Não quero ser machista, mas …
Muitos privilégios da condição feminina não são extensivos aos homens: a consorte do rei é rainha, como as plebeias Letícia de Espanha, Sílvia da Suécia e Sónia da Noruega. Mas o marido da rainha só é príncipe, como Filipe de Edimburgo, Bernardo da Holanda ou Frederico da Dinamarca, mesmo quando já eram príncipes pelo seu nascimento, como é o caso dos dois primeiros. A mulher de um presidente da República é a primeira dama, mas o marido de uma chefe de Estado não é coisa nenhuma. Será justa esta discriminação?! Será machismo exigir que o marido da rainha seja rei e o cônjuge da presidente seja 'o primeiro cavalheiro'?!
Tempos atrás, combateu-se a desproporção entre homens e mulheres em certas profissões, criando-se quotas para o acesso feminino a esses postos de trabalho. Hoje verifica-se análoga disparidade, mas em sentido contrário: já há mais médicas e juízas, por exemplo. Contudo, ninguém defende, que eu saiba, lugares cativos para machos …
Talvez seja hora de abandonar os preconceitos feministas, mas sem ressuscitar serôdios machismos ultramontanos. Impor restrições, por razão do sexo, no acesso aos cargos políticos, ou outros, é perverter a ordem da justiça, porque o único critério válido para o exercício de funções, públicas ou privadas, deve ser o mérito dos candidatos, qualquer que seja o seu sexo. Não faz sentido que ninguém seja preferido, ou preterido, por esse motivo. Na realidade, seria humilhante que alguém ocupasse um determinado cargo, só por ser mulher, ou homem, porque, mais do que o sexo, vale aquilo que cada um é.
Não é que eu seja machista mas, pelo sim pelo não, dou graças a Deus por me ter chamado para a única profissão que elas nunca poderão exercer! Mas tão excelsa é a condição feminina que, quando chegou a plenitude do tempo, foi uma mulher que deu à luz o próprio Deus! (Gal 4, 4).

Os sentidos do acaso

José Luís Nunes Martins
ionline 30 Ago 2014 


Buscamos o sentido da nossa vida em cada dia. Acreditamos que ele existe, que se esconde e se revela… que o acaso é apenas a explicação mais pobre para as coincidências. Convencemo-nos que quando dois acontecimentos ocorrem um depois do outro, ou o primeiro foi a causa do segundo ou, pelo menos, terá tido nele alguma influência.
Quando sucede algo de muito bom, tendemos a repetir o que o antecedeu na esperança de que o mesmo volte a acontecer. Como se tudo fosse repetível, bastando premir o botão certo para obter o resultado desejado.
Apesar da ilusão, trata-se de uma admirável vontade de sentido. Uma espécie de intuição que garante que todos os acasos serão apenas partes de algo que (ainda) não conseguimos alcançar. E isto é bom.
A fé que temos no mundo altera-o, porque nos permite ver para além de nós… torna-nos mais atentos e dedicados. Quando nos sentimos ao leme dos acontecimentos, isso motiva-nos e mantém-nos mais concentrados. E os resultados, claro, são melhores.
Mas, na verdade, nunca ninguém conseguirá testar o que teria acontecido se não tivesse feito o que fez, ou se tivesse feito o que não fez.
Um dos perigos das crenças é que não se submetem à razão. Quando algo de concreto entra em contradição com as nossas convicções mais íntimas, preferimos ficar com aquilo em que acreditamos… reforçando-o ainda mais. Mesmo depois de saber a verdade, poucos são o que mudam as suas certezas!
Cabe-me a humildade de aceitar o mundo tal como ele é: enorme; cabendo ao mundo a humildade de me aceitar tal como sou: um pequeno criador e descobridor de mundos.

O cabo das tormentas


Inês Teotónio Pereira | ionline 2014.08.30
Nós, pobres pais, só sabemos ser pais de crianças. Ser pai de jovens é uma contradição.
Dizia-me um amigo, num tom ligeiramente exasperado, a propósito das primeiras saídas à noite do filho de 15 anos: "Se ele se lembra de fazer um terço das asneiras que eu fiz quando tinha a idade dele, desfaço-o e ponho--o de castigo para sempre". Eu, tal como o meu amigo, também tenho pânico da juventude dos meus filhos. A juventude deles é uma espécie de Cabo das Tormentas dos pais: não fazemos ideia dos monstros que lhes podem aparecer , mas sabemos que para continuar a viagem temos de passar por lá. O meu amigo está quase a virar o Cabo e está compreensivelmente aterrado. Ele sabe que a sua passagem teve alguma dose de sorte e que o facto de não ter naufragado algures na viagem, tem tanto de fortuna quanto de sapiência. E agora, tal como D. Manuel temia pelo destino das suas naus, também ele teme pela chegada do filho a bom porto. E o pior é a sensação de impotência. Ele sabe que há pouca coisa que possa fazer para garantir a segurança da cria. Resta-lhe os desabafos e as ameaças que não vai conseguir cumprir.
A juventude dos nossos filhos é a nossa prova de fogo, é quando ela chega que mostramos verdadeiramente aquilo que valemos: se somos de facto crescidinhos o suficiente para lidarmos com a situação ou se não passamos de adultos infantis e sem maturidade para enfrentar o desafio. É nesta fase que se exige o impossível aos pais, ou seja, que não façam nada porque não há nada que se possa fazer. Ora, nós não nascemos para ficar quietos a ver os nossos filhos crescerem. Não faz parte da nossa natureza paternal sermos meros espectadores da vida dos nossos filhos. Nós temos de saber, temos de ver, temos de intervir, de condicionar e de manipular cada um deles. Os filhos são nossos e como tal nós controlamos as vidas deles. Desde que eles são bebés que é assim. Não sabemos ser de outra maneira.
Enquanto eles são crianças o poder é todo nosso. Os pais são pais absolutos: ordenam, consolam, controlam e dispõem dos filhos como querem. Até nos casos em que os pais deixam que sejam os filhos a mandar em casa é por opção; são os pais que querem que eles mandem. É uma espécie de delegação de poderes. Eu ainda vivo nessa paz. Eu quero, posso e mando e eles, coitados, obedecem. Mas eu sei que um dia, um Verão, uma festa, um amigo, um acontecimento qualquer será o gatilho que vai fazer com que um deles saia da casca. De repente, a criança vai passar a ter vida própria e eu passo a ter um papel muito pouco relevante na vida dele. Por mais que queira e deseje, não o vou poder controlar. E isso aterroriza-me. Não estou preparada para abrir mão do meu poder e de conceder liberdade plena a nenhum dos meus filhos. Não saber tudo o que se passa na vida de cada um deles inquieta-me. Sim, tenho medo.
Pois, eu sei que é preciso confiar neles, deixá-los crescer, blá, blá, blá. Mas isso é teoria, na prática dói. E dói porque todos nós já passámos por lá e sabemos perfeitamente que não éramos de confiança. Quando os nossos pais nos diziam que confiavam em nós, encarávamos o voto de confiança como uma espécie de carta branca para a asneira. Entre as hormonas, a ansiedade de viver cada dia como se o mundo fosse acabar no dia seguinte e as certezas absolutas que nos toldavam o juízo, tudo podia acontecer.
Nós, pobres pais, só sabemos ser pais de crianças (e mesmo assim). Ser pai de jovens é uma contradição. É quase uma impossibilidade. Eles têm vontade própria, são determinados perante a maior estupidez, são teimosos e até têm uma linguagem própria. Eles querem e podem, enquanto que na infância eles querem mas só podem se nós deixarmos. Na juventude a nossa vontade é apenas indicativa. E ser pai é mandar.
Li uma reportagem no "Público" que revelava que existe um número considerável de crianças que nunca subiu escadas. Os pais têm medo que elas caiam por isso não arriscam e como podem impedir, impedem. E as criancinhas não têm sequer liberdade de darem uns trambolhões de vez em quando. Basicamente não sabem cair. Isto mostra até onde nós pais estamos dispostos a ir: não temos limites. Ao pé de nós, quaisquer serviços secretos ou polícia política são um grupo de nabos.
Mas a juventude dos nossos filhos troca-nos as voltas e limita de forma drástica os nossos poderes. O nosso poder tem os anos contados e acaba quando eles passam de crianças a jovens. Nós pais não preparamos os nossos filhos para a vida, nós só preparamos os nossos filhos para serem jovens, para eles passarem o Cabo da Tormentas. O resto da vida é mesmo deles. Por isso é que é tão importante que eles aprendam a subir escadas o quanto antes, enquanto a queda é apenas um bate cu.