segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

A co-adopção e o suicídio do Bloco

Alexandre Homem Cristo
OBSERVADOR | 2014.10.20
Defenda-se o que se defender, discutir neste momento a co-adopção por casais do mesmo sexo é uma inutilidade e uma cedência a um aproveitamento político do BE.

A co-adopção por casais do mesmo sexo foi discutida e votada nesta legislatura. E foi chumbada, mesmo que por poucos votos. Logo na altura do chumbo, o Bloco de Esquerda (BE) anunciou que voltaria ao tema. Cumpriu: os projectos de lei foram entregues e, em breve, o Parlamento apreciará novamente o assunto. Na imprensa, o debate já arrancou.
Dá para imaginar que o que aí vem será, em grande medida, idêntico ao que passou. Os mesmos argumentos, as mesmas posições, as mesmas acusações, a mesma intolerância mútua. E os mesmos resultados. É, aliás, precisamente essa a questão. Podemos repetir tudo e discutir outra vez os prós e os contras da co-adopção por casais do mesmo sexo. Podemos recomeçar do zero. Mas devemos também questionar-nos sobre o que levou o BE a regressar ao tema, apenas alguns meses após este ter sido chumbado no Parlamento. Desde então, o debate aprofundou-se? Surgiram novos factos ou novos argumentos? Da parte dos deputados, houve sinais de que poderiam surgir alterações no sentido de voto? Nada disso. Só ficámos uns meses mais próximos das eleições legislativas.
Esse é, pois, o ponto-chave. A insistência do BE não reage ao debate ou à necessidade de o aprofundar – poucos assuntos, mesmo aqueles com impacto directo na vida de muitas mais pessoas, foram tão discutidos na comunicação social como foi este da co-adopção. E também não responde a alterações de posição dos deputados, dando a entender que, desta vez, a viabilização da medida seria possível – nem houve tempo para isso, porque a iniciativa do BE foi anunciada logo após a votação e chumbo da medida, há uns meses. Essa insistência é, portanto, apenas um acto antecipado de campanha eleitoral, em que o BE tenta ser o partido que já foi, antes de o PS lhe ter roubado esse espaço: o das causas fracturantes, da esquerda cosmopolita, moderna e urbana. É, no fundo, o BE a projectar o seu futuro no que foi o seu passado. Como se não fosse óbvio que o passado não volta.
Esta opção eleitoral do BE diz muito. Primeiro, sobre o seu respeito pelas instituições democráticas e sobre o seu aproveitamento de uma luta que diz valorizar mas que está disposta a sacrificar para fins eleitorais. Afinal, o BE vai reiniciar o processo de avaliação da co-adopção apenas para dizer que o fez, sem qualquer ambição de obter resultados políticos e disposto a desgastar o debate público sobre o tema – prejudicando, até, a viabilização futura da medida. Com tantas vozes indignadas por aí contra os partidos, e que só vêem inutilidade e perdas de tempo no trabalho parlamentar, é espantoso como quando o protagonista é o BE fica tudo mudo.
Segundo, a iniciativa diz muito sobre o vazio político em que se enfiou a esquerda europeia, em particular a esquerda radical. Sem querer seguir o caminho de ruptura dos comunistas – renegar o euro, a UE, as instituições internacionais para viver orgulhosamente sós –, a esquerda radical não só não conseguiu uma alternativa realista à austeridade, como viu o seu eleitorado perder a paciência com as suas habituais soluções irrealistas. De modo que, naquilo que é dominante no debate político da actualidade (a economia e as finanças), essa esquerda representada pelo BE não tem voz. O que sobra? As causas fracturantes. Ou, pelo menos, era o que sobrava antes de o PS, através de algumas das suas personalidades mais à esquerda, ter absorvido essas lutas na sua própria agenda. Agora, na verdade, já não sobra nada.
Assim, esta opção eleitoral do BE é, sobretudo, uma espécie de suicídio involuntário. Da medida da co-adopção em si, que se sujeitará a mais um chumbo no Parlamento e ao desgaste público de mais um debate acalorado. E do BE que, sem querer, assume que a sua mais-valia ideológica e de representação política está esgotada – as causas fracturantes deixaram de ser um factor de diferenciação do BE, para ser partilhada pelo PS, pelo que é improvável que ainda lhe valha votos.
Defenda-se o que se defender, discutir neste momento a co-adopção por casais do mesmo sexo é uma inutilidade e uma cedência a um capricho do BE. Falta um ano para as eleições legislativas. Até lá, não dá para saber se o BE está, como mostram as sondagens, em vias de desaparecer. Mas dá para perceber que, a continuar assim, está a fazer por isso.
PS: este texto é sobre a reapreciação da co-adopção e não visa discutir a medida em si. Sobre isso, escrevi na altura um artigo de opinião no jornal i – onde defendo que o impedimento legal no acesso de casais do mesmo sexo à co-adopção deve ser abolido, "de modo a que todas as candidaturas sejam avaliadas em função dos seus méritos e das suas diferenças (porque, de facto, elas existem). Há casais – do mesmo sexo ou de sexos diferentes – que não reúnem o perfil adequado para dar às crianças as condições de vida que elas merecem, num seio familiar. E há casais que reúnem esse perfil, independentemente da sua composição e orientação sexual."

Um ano pela frente

"Agora", disse Francisco, "ainda temos um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades que as famílias devem enfrentar".

RR ONLINE 20-10-2014 7:03 | Aura Miguel

É a primeira vez que a Igreja Católica insere na sua agenda sobre a Família temas tão delicados como o acesso aos sacramentos por parte dos divorciados que voltaram a casar pelo civil e o acompanhamento dos homossexuais. Temas que causaram acesas discussões e controvérsias entre bispos e cardeais. 

O mérito ou a culpa (consoante a perspectiva) é de Francisco. Foi ele quem lançou esses temas ao falar com os jornalistas no regresso do Rio de Janeiro; foi ele quem convidou o cardeal Kasper para apresentar a sua linha de abertura aos cardeais de todo o mundo reunidos em Consistório, em Fevereiro passado – linha essa que tem gerado acesos debates, que se revelaram ainda mais acalorados dentro do Sínodo. 

Francisco – que, segundo diz, prefere uma Igreja acidentada a uma Igreja estagnada - gosta do que aconteceu e está a acontecer. 

Apesar de, na votação do documento final, os três parágrafos sobre esses temas polémicos não terem reunido a necessária maioria de dois terços, Francisco manifestou-se esperançado, pois, "agora", disse, "ainda temos um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades que as famílias devem enfrentar". 

O Sínodo terminou, mas os media voltam, agora, com as reacções: "A tradição leva a melhor", escrevem uns sobre o documento final, enquanto outros garantem que "A posição de abertura ganhou". O mesmo contraste verifica-se entre alguns cardeais. Um, por exemplo, acha que "o Sínodo devia ter ido mais longe sobre os gays", enquanto em sentido oposto, um outro garante que "o Evangelho não pode mudar ao nosso gosto". 

Ou seja, o que assistimos em Roma durante o Sínodo, espalha-se, agora, pela opinião pública do mundo inteiro, por mais um ano.

Caracóis inteligentes

14-10-2014 12:35 RR ONLINE  Graça Franco

Perdidos num labirinto deprimente de más notícias sobre o ensino em Portugal, não saboreamos as boas: nichos de excelência.

Andamos há mais de três semanas a perorar sobre o caos do nosso sistema de ensino. São pais e alunos que desesperam pelo início das aulas, professores de mochila às costas sem saber onde ficarão colocados, directores à beira de um ataque de nervos a braços com a falta ou o excesso de professores colocados nas respectivas escolas, ministros que resistem a custo à demissão. Perdidos neste labirinto deprimente de más notícias não saboreamos as boas. Ora, só no último mês a excelência do nosso ensino foi quatro vezes notícia mundial. Leu bem: mundial. 

Varsóvia, 23 de Setembro. O prémio nobel da Paz, Lech Walesa, entrega a meio da tarde, em cerimónia pública, dois dos maiores prémios de Ciência Europeus para jovens cientistas (o Eucys 2014) a três alunos do ensino secundário português. 

Entre 77 projectos apresentados por 110 concorrentes vindos de 36 países (Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, China, Nova Zelândia entre outros) candidatos a três galardões que podem equiparar-se a prémios nobéis para cientistas em início de carreira, Portugal conquistou, nada mais, nada menos, do que dois: o de Biologia e o de Matemática. 

Começando pela Biologia. O júri constituído por 18 cientistas internacionais distinguiu o projecto "Smart Snails" (caracóis inteligentes) apresentado pela Mariana Garcia e a Matilde Silva, duas alunas do 11º ano da escola secundária de Arouca (uma escola pública de um concelho de apenas 22 mil habitantes no distrito de Aveiro). As duas alunas, de apenas 16 anos, apresentaram um projecto baseado numa espécie de "teste rápido" à qualidade ambiental das águas que utiliza os pequenos seres vivos. Um projecto que estão agora em vias de patentear. 

Segundo o relato das próprias, o interesse pela ciência de ambas, já tem quatro anos de trabalho criteriosamente realizado no pequeno laboratório de Ciências, instalado na escola, e gozou do incentivo e orientação do professor Filipe Ressurreição que seguiu "em directo" a cerimónia de entrega de prémios às suas alunas. É caso para dizer que esperamos que o professor tenha sido, entretanto, recolocado na dita. 

Passando à Matemática o aluno vencedor foi João Araújo, 17 anos, aluno do 12º ano IB ( International Baccalaureate), do colégio Planalto, um colégio privado da capital. O aluno apresentou a concurso uma demonstração inovadora de álgebra, resultante do desenvolvimento do seu Extended Essay uma espécie de mini-tese que este currículo internacional exige para a conclusão do ensino secundário e que é obrigatoriamente sujeito a classificação internacional. 

Ainda da Matemática, uma área onde sempre nos espanta a excelência dos nossos alunos, no dia 29 de Setembro, em San Pedro Sula, agora nas Honduras, foi a vez de dois alunos do ensino secundário Público trazerem para Portugal mais duas medalhas de ouro nas Olimpíadas Ibero-Americanas da modalidade. 

David Martins de 17 anos (e que entretanto já iniciou em Oxford o ensino universitário) aluno finalista do 12º ano da escola secundária de Mirandela conseguia, a sua segunda medalha de ouro em Olimpíadas e Francisco Andrade, do 11º ano da secundária do Padrão da Légua de Matosinhos, a primeira de ouro depois de ter conseguido outras três de bronze em competições anteriores. 

O mérito é sem dúvida dos próprios alunos. Mas entre público e privado estes casos mostram também que há múltiplos nichos de excelência no ensino nacional. Deprimimo-nos vezes demais a achar que andamos sempre a passo de caracol e esquecemos que nos últimos anos demos passos de gigante no caminho do progresso científico e na melhoria da rede de ensino nacional e não valorizamos os " caracóis inteligentes" que por aqui também se passeiam.

Vidas de silêncio



Vidas de silêncio
Cresceu, viveu e morreu, sem nunca pronunciar uma palavra, sem ter ido à escola, jogado à bola, escrito um poema, resolvido um problema de matemática, discutido com os irmãs, ou sequer chorado... viveu uma vida de silêncio que emanava uma paz que era visível na cara de todos, sobretudo da mãe que o tratou como Nossa Senhora tratou do seu filho na Cruz..
A beleza da vida... Sofia Guedes
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Visita do Papa Paulo VI a Portugal em 13 de Maio de1967

O Grande Inquisidor

Miguel Morgado (comentário aos Irmãos Karamazov)
Facebook, 2014.10.16
O capítulo sobre o Grande Inquisidor nos "Irmãos Karamazov", de Dostoievsky, não se resume. Lê-se e medita-se. Lê-se como um diálogo deve ser lido, respeitando integralmente a sua natureza dialógica, o que é mais fácil dizer do que fazer. Além disso, como aqui sou convidado a abordar sobretudo a perspectiva da liberdade enquanto problema, é preciso lembrar que esta leitura é necessariamente unilateral.
A questão primacial parece ser esta: para quê ser livre num mundo destituído de sentido, cruel e palco de um perpétuo e absurdo sofrimento? Para quê escolher se qualquer escolha se dilui num vórtice de desespero? A liberdade deixa de ser um dom e passa a ser um fardo doloroso. Não é apenas um elemento estranho num mundo desordenado. É pior: ela própria é um princípio de desordem.
A mentira e a ilusão programada ou solicitada parecem ser as únicas justificações para a maldição da liberdade. Para Ivan Karamazov, diante da angústia do seu irmão, o devoto cristão Aliocha, nestes termos, o homem não tem saída. A infelicidade e o sofrimento são o seu destino. Neste triste quadro, a resposta mais óbvia é a aceitabilidade do suicídio. Claro que esta resposta fica reservada para almas como a de Ivan, disponíveis a encarar o problema de frente. Não para o afirmar, é certo, mas para aceitar as suas proporções avassaladoras e agir numa espécie de conformidade. À alma fustigada não é dada a liberdade de recusar a liberdade.
Mas o problema tem uma dimensão colectiva. O que vale por dizer que tem uma dimensão política. Dito de uma forma directa: o suicídio não é resposta que se possa propor aos homens em geral. É com esse problema que o Grande Inquisidor tem de lidar.
O Grande Inquisidor de Sevilha é uma figura criada por Ivan, quando este se inspirou a escrever um poema ou uma alegoria que descrevesse a natureza do problema, e das escolhas que se abrem. É a sua versão do qual seria a reacção terrestre a uma segunda descida de Deus à terra. A proposta de Ivan é na realidade uma resposta à promessa feita por Aliocha em nome de Deus de reconciliação de todo o sofrimento num horizonte de redenção e felicidade eterna. À luz desta promessa alimentada na fé cristã, a ausência de sentido e os mistérios da iniquidade são apenas aparentes. A redenção é a suprema reconciliação de todos os impasses.
O poema de Ivan não é só um testemunho da sua própria incredulidade. Não é só a indisponibilidade interior de aceitar essa promessa que está em causa. É mais do que isso. É a impossibilidade da própria promessa que é denunciada. É o seu carácter radicalmente contraditório que é exposto sem apelo. O ponto de partida é que o sofrimento dos inocentes já não pode ser redimido porque não pode ser anulado. A sua justificação, seja ela qual for, é um ponto de partida que Ivan não aceita. Não aceita pelo simples facto de ter tido lugar.
Mas uma coisa é tentar compreender o desespero de Ivan. Outra coisa é perceber o alcance global da lenda do Grande Inquisidor. Aqui, emerge uma reflexão poderosíssima sobre o exercício do poder como rebelião contra as condições estruturais da existência humana e contra a ordem divina. Para muitos o exercício do poder com essa finalidade foi aclamado como um triunfo da humanidade. Mas para Dostoievsky a conclusão de muitos está longe de ser verdadeira para alguém. O exercício do poder com esse propósito terminará num abismo de vontade de domínio e de recurso ao terror.
É com uma imagem de terror que abre a Lenda do Grande Inquisidor. Em Sevilha, a Inquisição dá largas à sua fúria queimando uma centena de heréticos na fogueira. Um dia depois, Cristo está de novo em carne entre nós. Tudo aquilo fora praticado em seu nome. Era uma contradição demasiado grave e a situação do mundo reclamava o seu regresso. O povo reconhece-o e ele confirma o seu amor pelos homens fazendo milagres e ressuscitando uma menina. O Grande Inquisidor também o reconhece. Manda-o prender, sem que isso cause qualquer comoção numa multidão que momentos antes se rendia aos seus pés. Pela segunda vez na História da Humanidade, o poder apostava em destruir o Deus do amor.
Feito prisioneiro, Cristo recebe a visita do Grande Inquisidor, o qual, ficamos a saber, vivia uma vida sem fé apesar do seu sacerdócio. Cristo é imediatamente condenado à tortura e à execução. Tudo isto nos causa estupefacção. Mas para o Grande Inquisidor a situação é cristalina e ele não quer perder a oportunidade de confrontar o próprio Deus com os defeitos da sua Criação. Quer confrontá-lo com o facto de a Inquisição ser uma grande mentira ao serviço, porém, da vontade humanista de reconstruir a (des)ordem da Criação. É uma grande mentira e um grande terror, como são todos os projectos políticos deste tipo, ao serviço da revolta contra o sofrimento sem culpados e contra um mundo sem sentido.
O Inquisidor acusa o seu prisioneiro de ser um Deus que põe a liberdade dos homens acima de tudo. Que não está disposto a sacrificá-la por nada. E isto apesar de os homens acorrerem a trocá-la por qualquer coisa que ao menos pareça ser ingrediente da felicidade. Deus criou rebeldes e os rebeldes não podem ser felizes. A mentira da Inquisição, o terror da fogueira, estão lá para corresponder à angústia dos homens. E ao seu desejo de comunidade, de uma mentira universal. Viciosos, fracos, temerosos, os homens só são reconduzidos à obediência e a algum tipo de ordem se lhes derem pão e mentiras apaziguadoras provenientes de uma autoridade misteriosa e indiscutível que lhes diga o que devem fazer – e que, portanto, lhes dispense o uso da liberdade.
No final, o Inquisidor, talvez atónito pelo beijo que Cristo lhe dá - a resposta profunda e irrefutável dada por ele a todo aquele libelo acusatório, a toda aquela rebelião e dissidência -, acaba por não o executar. Abre a porta da cela, manda-o embora e ordena-lhe que não volte ao mundo dos mortais. Pela porta saiu também a liberdade, esmagada pela tirania de quem reivindica o direito, e proclama a capacidade, de refazer o mundo e os homens. Aí o terror governará; serão queimados livros e pessoas. Para acabar de vez com as injustiças e o sofrimento e tudo o resto que caiba nesse projecto. A procura de uma outra ordem desenhada dentro das limitações das razões e paixões humanas conduzem a uma desordem profunda e sem remissão. Nem todos os humanismos são humanismos. Alguns acabam a tratar-nos como criancinhas. Outros como escravos.
O humanismo do Grande Inquisidor é o humanismo da rejeição da liberdade e da rejeição de Deus. É o humanismo que se abre quando "tudo é permitido".

domingo, 19 de Outubro de 2014

«A família é a melhor maneira de anunciar Jesus Cristo»

Família Cristã, 2014.10.19
O Pe. Duarte da Cunha esteve hoje nas Jornadas da Pastoral Familiar para falar sobre o Sínodo dos Bispos aos participantes nas jornadas. O sacerdote português, que é secretário-geral do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), faz uma avaliação positiva do relatório final, que considera «uma manta de retalhos cheia de coisas importantes». «É o resultado dos assuntos debatidos pelos bispos, é um texto de trabalho, não final, que é preciso ser lido e relido, mas também complementado com outros textos que devem ser usados», considerou.
Segundo o sacerdote, «as verdades da família foram reafirmadas e apreciadas sempre com a preocupação de perceber como anunciar hoje essas verdades». «É uma das insistências do Papa Francisco. É preciso acompanhar as famílias para se poder anunciar o Evangelho da família», defendeu o Pe. Duarte da Cunha.
Falando aos jornalistas no final da conferência, o secretário-geral da CCEE considerou que a «tónica no acolhimento» esteve presente nas intervenções e «é explícita» em todo o relatório final do Sínodo, lançando «desafios de empenho aos agentes pastorais».
Quanto às questões mais sensíveis, o Pe. Duarte da Cunha não acha que tenha havido novidade. «Surgiu a necessidade de a Igreja passar a sua mensagem de uma forma mais acolhedora, e isso é bom, mas no conteúdo nada mudou. Tudo o que foi dito já havia sido dito antes», sustentou o sacerdote português, que não considera possível grandes alterações em relação a divorciados recasados ou em relação aos homossexuais. «Dar a comunhão aos divorciados a recasados não resolve o problema. Aliás, nos países em que isso se defende com maior vigor, a pastoral de acompanhamento que é feita é tão pouca que se transforma numa pastoral de indiferença, e não é isso que é o acolhimento», garantiu o Pe. Duarte da Cunha.
Quanto aos homossexuais, é «essencial que haja acolhimento e que ninguém se sinta discriminado n Igreja», diz o sacerdote, mas sem com isso obrigar a que a Igreja mude o seu ponto de vista sobre essas questões. «As nossas comunidades sempre tiveram pessoas com tendências homossexuais, que fazem o seu caminho, por vezes com sofrimento, mas lidando com as suas tendências, da mesma forma que um heterossexual também lida com as suas questões, e isso já se fazia antes», garantiu o Pe. Duarte da Cunha.
Os desafios do próximo ano, em vista ao Sínodo
Na conferência proferida esta manhã, o Pe. Duarte da Cunha referiu três pontos como sendo os desafios do próximo ano, em vista à preparação do sínodo ordinário de 2015. «É importante olharmos para a antropologia do ser humano e da família. Temos de compreender a pessoa humana como única, mas integrada numa rede social», disse o sacerdote, argumentando que a noção de imediato na sociedade é impeditiva da constituição de família. «Quando deixamos de desejar o eterno e apenas queremos gozar o presente, somos incapazes de construir uma família», disse o Pe. Duarte da Cunha.
Um segundo aspeto é o de repensar e recuperar a teologia do matrimónio. «O que o torna único, como se prepara, como se vive, como se põe a render as graças, quais são elas. O que faz desse consentimento único e o que isso implica. Há um diálogo entre o homem que oferece a graça e Deus que a recebe. Os sacramentos não são só futuro, são presente que acontece. O casamento indissolúvel é-o porque Deus assim o torna, e não se pode desfazer», considerou o sacerdote.
Depois destas questões, surge a necessidade de pensar nas questões deixadas pelo relatório final do Sínodo, que será utilizado como Lineamenta do sínodo do próximo ano, de pensar na teologia do amor. «Há uma confusão generalizada sobre o que é o amor. O que se fala nos filmes e nas novelas não é o mesmo que a Madre Teresa falava. Quando Jesus Cristo diz "amai-vos como Eu vos amei", ou seja, deem a vossa vida pela pessoa com quem estão, amar é dar tudo e dar-se a si mesmo», disse.  
Isto porque, defende o sacerdote, o amor não é apenas dar sem esperar nada receber. «Diz-se que o amor deve ser gratuito, sem esperar nada contra, mas o amor perfeito é um querer ser amado. Amar e ser amado não podem ser duas coisas separadas, têm de estar juntas. O amor verdadeiro é um amor que suplica. Amor gera amor. Amor não é apenas dom, é comunhão», exortou o Pe. Duarte da Cunha.
Nesta linha de ideias, o Pe. Duarte da Cunha encerrou os trabalhos defendendo a importância da Pastoral Familiar para a Igreja e para o homem. «A primeira razão pela qual vale a pena o empenho na família é pela nossa própria família. Isto não é egoísta, mas é pôr o nosso interesse no centro. Se estou empenhado em viver melhor a minha vida, os meus irmãos recebem eco desse empenho e isso é bom para eles», defendeu.

Depois, há a questão da caridade e da evangelização. «Não posso estar ao lado de pessoas que passam problemas e ser indiferente, tenho de ter caridade», afirmou, acrescentando que «a família é a melhor maneira de anunciar Jesus Cristo, é ali que tudo começa». «Onde há famílias cristãs, é mais provável que haja filhos cristãos», concluiu, avisando que as famílias não são somente objeto de evangelização, mas sobretudo «sujeitos de evangelização como seu testemunho».

Texto e Fotos: Ricardo Perna

Papa no encerramento do Sínodo: "Esta é a Igreja, nossa mãe!"

2014-10-18 Rádio Vaticana
Cidade do Vaticano (RV) – No final da tarde deste sábado, 18 de outubro, o Papa Francisco proferiu um discurso por ocasião do encerramento do Sínodo Extraordinário dos Bispos para a Família.
Eis a íntegra do pronunciamento:

"Queridas Eminências, Beatitudes, Excelências, irmãos e irmãs,
Com um coração pleno de reconhecimento e de gratidão, gostaria de agradecer, junto a vós, ao Senhor que nos acompanhou e nos guiou nos dias passados, com a luz do Espírito Santo!
Agradeço de coração Sua Eminência o senhor Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário Geral do Sínodo, Sua Eminência Dom Fabio Fabene, Sub-Secretário, e com eles agradeço o Relator, Sua Eminência Cardeal Peter Erdö que trabalhou tanto, mesmo nos dias de luto familiar, e o Secretário Especial, Sua Eminência Dom Bruno Forte, os três Presidentes delegados, os escritores, os consultores, os tradutores e os anônimos, todos aqueles que trabalharam com verdadeira fidelidade nos bastidores e com total dedicação à Igreja, sem parar: muito obrigado de coração!
Agradeço igualmente a todos vocês, Padres Sinodais, Delegados Fraternos, Ouvintes e Assessores para vossa participação ativa e frutuosa. Levarei vocês na oração, pedindo ao Senhor para recompensar-vos com a abundância da graça dos seus dons!
Eu poderia tranquilamente dizer que – com um espírito de colegialidade e de sinodalidade – vivemos realmente uma experiência de "Sínodo", um percurso solidário, um "caminho juntos".
E tendo sido "um caminho" – e como em todo caminho -, houve momentos de corrida veloz, quase correndo contra o tempo prá chegar logo à meta; em outros, momentos de cansaço, quase querendo dizer basta; outros momentos de entusiasmo e de ardor. Houve momentos de profunda consolação, ouvindo os testemunhos dos pastores verdadeiros (cf. João 10 e Cann. 375, 386, 387) que levam no coração sabiamente as alegrias e as lágrimas dos seus fieis. Momentos de consolação e graça e de conforto escutando os testemunhos das famílias que participaram do Sínodo e partilharam conosco a beleza e a alegria de sua vida matrimonial. Um caminho onde o mais forte sentiu o dever de ajudar o mais fraco, onde o mais esperto se apressou em servir os outros, mesmo por meio dos debates. E sendo um caminho de homens, com as consolações houve também outros momentos de desolação, de tensão e de tentações, das quais se poderiam mencionar algumas possibilidades:
- Uma: a tentação de enrijecimento hostil, isto é, de querer fechar-se dentro do escrito (a letra) e não deixar-se surpreender por Deus, pelo Deus das surpresas (o espírito); dentro da lei, dentro da certeza daquilo que conhecemos e não daquilo que devemos ainda aprender e atingir. Desde o tempo de Jesus, é a tentação dos zelosos, dos escrupulosos, dos cuidadosos e dos assim chamados – hoje – "tradicionalistas" e também dos "intelectualistas".
- A tentação do "bonismo" destrutivo, que em nome de uma misericórdia enganadora, enfaixa as feridas sem antes curá-las e medicá-las; que trata os sintomas contra os pecadores, os fracos, os doentes (cf. Jo 8,7), isto é, transformá-los em "fardos insuportáveis" (Lc 10,27).
- A tentação de descer da cruz, para acontentar as pessoas, e não permanecer ali, para realizar a vontade do Pai; de submeter-se ao espírito mundano ao invés de purificá-lo e submeter-se ao Espírito de Deus.
- A tentação de negligenciar o "depositum fidei", considerando-se não custódios, mas proprietários ou donos ou, por outro lado, a tentação de negligenciar a realidade utilizando uma língua minuciosa e uma linguagem "alisadora" (polida) para dizer tantas coisas e não dizer nada". Os chamavam "bizantinismos", acho, estas coisas...
Queridos irmãos e irmãs, as tentações não devem nem nos assustar nem desconcertar e muito menos desencorajar, porque nenhum discípulo é maior do que seu mestre; portanto se Jesus foi tentado – ate mesmo chamado de Belzebu (cf. MT 12, 24) – os seus discípulos não devem esperar um tratamento melhor.
Pessoalmente, ficaria muito preocupado e triste se não houvesse estas tentações e estas discussões animadas; este movimento dos espíritos, como chamava Santo Inácio (EE, 6), se tudo tivesse sido de acordo ou taciturno em uma falsa e 'quietista' paz. Ao contrário, vi e escutei – com alegria e reconhecimento – discursos e pronunciamentos plenos de fé, de zelo pastoral e doutrinal, de sabedoria, de franqueza, de coragem: e de parresia. E senti que foi colocado diante dos próprios olhos o bem da Igreja, das famílias e a "suprema Lex", a "salus animarum" (cf. Can. 1752). E isto sempre – o dissemos aqui, na Sala – sem colocar nunca em discussão as verdades fundamentais do Sacramento do Matrimônio: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a 'procriatividade', ou seja, a abertura à vida (cf. Cann. 1055, 1056 e Gaudium et Spes 48).
E esta é a Igreja, a vinha do Senhor, a Mãe fértil e a Mestra atenciosa, que não tem medo de arregaçar as mangas para derramar o óleo e o vinho nas feridas dos homens (cf. Lc 10, 25-37); que não olha a humanidade de um castelo de vidro para julgar ou classificar as pessoas. Esta é a Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e formada por pecadores, necessitados da Sua misericórdia. Esta é a igreja, a verdadeira esposa de Cristo, que procura ser fiel ao seu Esposo e à sua doutrina. É a Igreja que não tem medo de comer e beber com as prostitutas (cf. Lc 15). A Igreja que tem as portas escancaradas para receber os necessitados, os arrependidos e não somente os justos ou aqueles que acreditam ser perfeitos! A Igreja que não se envergonha do irmão caído e não faz de conta de não vê-lo, ao contrário, se sente envolvida e quase obrigada a levantá-lo e a encorajá-lo e retomar o caminho e o acompanha para o encontro definitivo, com o seu Esposo, na Jerusalém celeste.
Esta é a Igreja, a nossa mãe! E quando a Igreja, na variedade dos seus carismas, se expressa em comunhão, não pode errar: é a beleza e a força do sensus fidei, daquele sentido sobrenatural da fé, que é doado pelo Espírito Santo para que, juntos, possamos todos entrar no coração do Evangelho e aprender a seguir Jesus na nossa vida, e isto não deve ser visto como motivo de confusão e de mal-estar.
Tantos comentaristas, ou pessoas que falam, imaginaram ver uma Igreja em atrito, onde uma parte está contra a outra, duvidando até mesmo do Espírito Santo, o verdadeiro promotor e garante da unidade e da harmonia na Igreja. O Espírito Santo que ao longo da história sempre conduziu a barca através dos seus Ministros, mesmo quando o mar era contrário e agitado e os Ministros infiéis e pecadores.
E, como ousei dizer isto a vocês no início do Sínodo, era necessário viver tudo isto com tranqüilidade, com paz interior, mesmo porque o Sínodo se desenvolve cum Petro et sub Petro, e a presença do Papa é garantia para todos.
Falemos um pouco do Papa, agora, na relação com os bispos (risos). Assim, a missão do Papa é a de garantir a unidade da Igreja; é o de recordar aos fiéis o seu dever em seguir fielmente o Evangelho de Cristo; é o de recordar aos pastores que o seu primeiro dever é o de nutrir o rebanho – nutrir o rebanho – que o Senhor confiou a eles e de buscar acolhê-lo – com paternidade e misericórdia e sem falso medo – as ovelhas perdidas. Errei aqui. Disse acolher: ir buscá-las.
A sua missão é a de recordar a todos que a autoridade na Igreja é serviço (Cf. Mc 9, 33-35) como explicou com clareza Papa Bento XVI, com palavras que cito textualmente: "A Igreja é chamada e se esforça em exercer este tipo de autoridade que é serviço, e o exerce não em nome próprio, mas em nome de Jesus Cristo... através dos Pastores da Igreja, de fato, Cristo apascenta o seu rebanho: é Ele que o guia, o protege, o corrige, porque o ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor Supremo das nossas almas, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o sucessor de Pedro... participassem desta missão de cuidar do Povo de Deus, de serem educadores na fé, orientando, animando e apoiando a comunidade cristã, ou, como diz o Concílio, "cuidando, sobretudo que cada fiel seja guiado no Espírito Santo a viver segundo o Evangelho a própria vocação, a praticar uma caridade sincera e ativa e a exercitar aquela liberdade com que Cristo nos libertou " (Presbyterorum Ordinis, 6) ... é através de nós – continua o Papa Bento – que o Senhor atinge as almas, as instrui, as protege, as guia. Santo Agostinho, no seu Comentário ao Evangelho de São João diz: "Seja, portanto, esforço de amor apascentar o rebanho do Senhor" (123,5); esta é a suprema norma de conduta dos ministros de Deus, um amor incondicional, como aquele do Bom Pastor, pleno de alegria, aberto a todos, atento aos próximos e atencioso aos distantes (cf. Santo Agostinho, Discurso 340; Discurso 46, 15), delicado para com os mais fracos, os pequenos, os simples, os pecadores, para manifestar a infinita misericórdia de Deus com as palavras encorajadoras da esperança". (Bento XVI, Audiência Geral, Quarta-feira, 26 de maio de 2010). Fim da citação.
Portanto, a Igreja é de Cristo – é a sua esposa – e todos os bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm a missão e o dever de custodiá-la e de servi-la, não como donos, mas como servidores. O Papa, neste contexto, não é o senhor supremo, mas sim um supremo servidor – o "servus servorum Dei"; o garante da obediência e da conformidade da Igreja à vontade de Deus, ao Evangelho de Cristo e à Tradição da Igreja, deixando de lado todo arbítrio pessoal, mesmo sendo – por vontade do próprio Cristo – o "Pastor e Doutor supremo de todos os fiéis" (Can. 749) enquanto gozando "da potestade ordinária que é suprema, é plena, imediata e universal na Igreja" (cf. Cann. 331-334).
Queridos irmãos e irmãs, agora temos ainda um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as idéias propostas e encontrar soluções concretas às tantas dificuldades e inumeráveis desafios que as famílias devem enfrentar; dar respostas aos tantos desencorajamentos que circundam e sufocam as famílias.
Um ano para trabalhar na "Relatio synodi" que é o resumo fiel e claro de tudo aquilo que foi dito e discutido nesta sala e nos círculos menores. E é apresentado às Conferências episcopais como "Lineamenta".
Que o senhor nos acompanhe e nos guie neste caminho, pela gloria do seu nome, com a intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e de São José! E por favor, não esqueçam de rezar por mim! Obrigado.
(canto do Te Deum e bênção)
Muito obrigado e bom repouso agora, hein!

O que é Schoenstatt?

in schoenstatt2014.org 

Um lugar

Schoenstatt localiza-se em Vallendar, uma cidade perto de Coblença, na Alemanha.

Em Outubro  de 1914, o Padre José Kentenich com um grupo de jovens seminaristas, selaram uma "Aliança de Amor" com a Mãe de Deus numa pequena capela que se tornou um novo lugar de peregrinação. Actualmente pessoas de todas as partes do mundo peregrinam a esse lugar.
No mundo existem mais de 200 réplicas deste primeiro santuário, o Santuário Original.

"A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: "Mostrai-nos Jesus" (Papa Francisco em Aparecida, 24 de julho 2013)

Uma visão

O fundador do Movimento de Schoenstatt,  Padre José Kentenich (1885-1968), teve a visão de uma Igreja renovada onde as pessoas levassem fielmente a imagem de Cristo e sua missão.
A  fundação do Movimento de Schoenstatt  ocorreu no início da Primeira Guerra Mundial.
Em meio deste choque entre grandes forças, este acontecimento, a aliança que  o Pe. José Kentenich selou, foi oculta, aparentemente insignificante, um acontecimento privado, que nada poderia mudar a maneira como o mundo começava a se destruir. Mas justamente desta aliança cresceu algo vivo, … a Família de Jesus Cristo, além das fronteiras que os ameaçavam mutuamente, Família expandida por todo o mundo que tece uma rede de amor, uma rede do bem, através das fronteiras que hoje de novo nos separam. 

(Cardeal José Ratzinger / Bento XVI, 1985) 
Um Movimento

Schoenstatt é um novo movimento espiritual dentro da Igreja. É uma rede mundial com mais de 20 comunidades para homens, mulheres, famílias, jovens e sacerdotes que realizam diferentes tipos de trabalhos: desde iniciativas e projetos religiosos até educativos e sociais.

Uma espiritualidade

Schoenstatt é um novo caminho na imitação de Cristo. O seu objectivo hoje é viver a fé na Aliança com Maria, trabalhar para que haja uma civilização do amor em todos os aspectos da vida.
Schoenstatt significa carátcer, liberdade,  viver em Aliança, desfrutar Deus.
"A  Aliança de Amor com Maria - esta palavra traz em si uma das palavras chaves da Sagrada Escritura: a palavra aliança, que contém toda a esperança do próprio cristianismo, que diz  que não estamos sozinhos  no mundo, com poderes e forças desconhecidos nas quais não podemos ver  nem podemos dominar, mas sim, que quem tem tudo em suas mãos, nos conhece e nos ama e possui um vínculo conosco... A  Aliança de Amor que vocês selam seguindo os passos  do Padre Kentenich, nada mais é do que a personificação dos grandes acontecimentos da aliança na história da salvação." 
(Cardeal José Ratzinger, 1985)

Apresentação do livro "Os três porquinhos"

Convite_os 3 Porquinhos by papinto

A beleza da vida...

Sofia Guedes, 2014.10.19

Passaram duas semanas sobre a Caminhada pela Vida, o que nela foi proposto e 30 anos sobre a primeira vez que se legalizou o aborto em Portugal. Foi em 1984 que se abriu, escancarou a porta à cultura de morte sem que ninguém estivesse preparado para se defender. Foi como que uma invasão de gás anestesiante que limpou a consciência humana. Um inimigo camuflado, mas muito claro no seu propósito, destruir a humanidade!
Mas mais do que falar do horror que tem sido esta guerra, com milhares e milhares de vitimas, quero exprimir um sentimento muito profundo e verdadeiro, que passa também pela razão e que descreve a beleza da vida.
Estou envolvida neste combate desde 1997, e embora tenha chegado atrasada, comecei cheia de certeza de que este é o meu combate. E desde esse tempo que sempre me impressionou, evitar-se falar destas formas legais de se matar uma vida caso se detetasse alguma má formação (entre as outras possibilidades, lei 6/84)). Lembro-me dum encontro de esclarecimento em casa de uma amiga, em 1998, cujo filho tinha uma grande deficiência, mas que apesar de ainda jovem quis assistir ao debate, na esperança de ser mais uma voz. E que ouviu este rapaz? Que não se falava ou mexia na lei de 84, considerando que era uma lei razoável! Este rapaz ouviu!!!... E eu nunca esqueci de me ter posto no lugar dele e pensar: "será que estão a falar a sério? Eu seria uma alvo a abater!!!...Afinal onde estão os bons?"
E assim tem sido desde os referendos de 1998, 2007 e tantos e tantos encontros! Procura-se o mal menor! Ou seja diz-se que é melhor salvar alguns que nenhuns. É verdade! Mas com que critério quando estamos a falar de vidas humanas?
Avançando no tempo... há três dias, uma grande amiga minha perdeu o seu querido filho, com 27 anos. E este filho era deficiente profundo desde que nasceu. Cresceu, viveu e morreu, sem nunca pronunciar uma palavra, sem ter ido à escola, jogado à bola, escrito um poema, resolvido um problema de matemática, discutido com os irmãs, ou sequer chorado... viveu uma vida de silêncio que emanava uma paz que era visível na cara de todos, sobretudo da mãe que o tratou como Nossa Senhora tratou do seu filho na Cruz. Esta mãe é uma mulher de uma fé que move montanhas, que transmite alegria na cruz pelo privilégio que foi ter sido mãe deste tesouro... Batizou e crismou-o, sabia-o de Deus!
 Este filho, aparentemente "vazio" para a sociedade, encheu e preencheu a vida de todos os que dele cuidaram, da mãe, do pai, dos irmãos e dos médicos, dos enfermeiros, dos terapeutas, das empregadas domésticas, das amigas de casa, de tanta gente.... E ontem no dia da missa de partida, a fila de pessoas para comungarem era impressionante, não acabava! Que mistério??!! A homilia foi de uma transcendência tão elevada quanto o mistério desta vida!
Ali naquele lugar onde está Jesus, e onde celebramos a Eucaristia, podemos experimentar o que é a comunhão dos santos, o que é o mistério de cada vida. Este rapaz de 27 anos que nunca pronunciou uma palavra, nem para pedir um copo de água, estava ali a interceder por tantos e tantos... convidou todos à conversão.... foi a personalização do que Jesus afirmou tantas vezes em relação às crianças aos mais pequenos e mais frágeis, dizendo que só O alcançaríamos se fossemos como estes.....esta vida já no outro lado, mostrou a gratidão do amor da mãe e de todos... levou-nos mais longe, mais fundo e mais alto! Só tenho de agradecer a Deus, ter estado ali naquele espaço e tempo em que o Céu tocou a Terra, com tanta doçura, com tanta beleza!
E por tudo isto e muito mais fiquei ainda com mais certeza de que não há vidas que valem mais do que outras.
 Estou disposta a ser mártir como tantos cristãos por esse mundo fora que não cedem a "negócios" sobre a sua fé, tal como não quero ceder por uma vida que seja. Ser como os mártires que se recusam a dizer que acreditam em Cristo negando a sua Igreja, mas que assumem a sua Fé na totalidade. Assim eu quero ser!
Que Deus nos ajude a não vivermos de males menores, mas se for preciso morrermos pelo Bem Maior.
Sofia Guedes

Os especialistas

Lucy Pepper
OBSERVADOR | 19/10/2014

Há Especialistas em qualquer ramo: médicos, enfermeiros, recepcionistas, veterinários, advogados, professores, vinicultores, maquilhadores, jornalistas, cozinheiros, lojistas, baristas, psicólogos...

Estamos a ver televisão, e de repente aparece o Especialista. O Especialista tem algo para nos contar e está a ser entrevistado por um jornalista ou apresentador. Não fala de astrofísica, mas de um assunto mais quotidiano, como o tempo, um problema de saúde, as necessidades educativas de uma criança de sete anos, o modo de aplicar maquilhagem, bolos reis — esse tipo de coisas.
O Especialista entrevistado pode ser meteorologista, médico, farmacêutico, assistente de loja, padeiro ou ter outra qualquer "especialidade", mas seja esta qual for, o Especialista faz sempre uma coisa que me põe doida: fala connosco como se fôssemos crianças.
O Especialista descreve-nos o problema, a ideia, o desafio ou o bolo como se nunca tivéssemos ouvido falar de tal coisa. Faz sempre uma lista comprida, com todas as coisas que o clima é capaz de fazer, ou os cuidados que devemos tomar a propósito disto e daquilo, ou como aplicar batom esta semana, ou como é importante a tradição de fazer o buraco nos bolos reis com o cotovelo (como se não víssemos as reportagens sobre os bolos reis todos os natais). O Especialista desenrola a lista no tom de quem, todos os dias, ensina às crianças coisas importantes, num estilo pomposo e cansado:
Apresentador da TV: "A temperatura vai subir esta semana, o que avisa?"
Especialista entrevistado pela TV: "Bem,
•     Beba muitos líquidos
•     Vista roupa fresca
•     Aplique protector solar de alto factor
•     Não saia da casa
•     Não aplique batom até estar mais fresco
•     Não faça bolo rei na praia com o seu cotovelo…"
(ok, misturei uns quantos Especialistas nesta entrevista…)
Não sou a pessoa mais paciente do mundo, e já tenho saído da sala sempre que um Especialista começa a enunciar a lista do dia. Talvez seja só eu e talvez a maior parte das pessoas, de tão habituadas, não reparem no Especialismo.
A entrevista da TV a um Especialista, porém, é um só dos sintomas do Especialismo.
Especialismo é o que eu chamo ao hábito irritante, particularmente comum em Portugal, de um profissional não admitir que outra pessoa fora da profissão possa saber qualquer coisa sobre a sua Especialidade, só porque não tem o diploma certo. Geralmente, o dito profissional faz-nos sentir isso adoptando a maneira mais paternalista possível.
Já foi ao médico com uma opinião sobre qualquer dor, apenas para o médico lhe dizer que não é nada disso (embora, três minutos depois, lhe esteja a dizer a mesma coisa que você já sabia, mas com palavras diferentes)?
Nunca uma farmacêutica lhe dirigiu um olhar de desdém só porque, em vez de receber a grande e generosa sabedoria dela como um coelhinho fofinho, lhe disse "sim, não há problema, sei o que fazem os antihistamínicos"?
Já mencionou a um cozinheiro profissional que sim, de facto, sabe fazer pão ou fazer um guisado de coelho (fofinho), e recebeu uma resposta de "aaaaahhh, a sério?" como se você fosse uma criança de quatro anos a cozinhar com plasticina?
Nunca lhe aconteceu deixar um taxista rabugento ainda mais rabugento só porque se atreveu a notar-lhe que "não, este não é o melhor caminho para a minha casa"?
É isto que é ser sujeito ao Especialismo. Há Especialistas em qualquer ramo: médicos, enfermeiros, recepcionistas, veterinários, advogados, professores, vinicultores, maquilhadores, jornalistas, cozinheiros, lojistas, baristas, psicólogos, "senhoras que almoçam", cabeleireiros, arrumadores de automóveis, colunistas da imprensa, etc., etc., etc.
Estranhamente, os Especialistas de uma área parecem dispostos a submeter-se aos Especialistas de outras áreas. Bem, talvez uma advogada realmente não saiba fazer a maquilhagem dela própria, ou um médico realmente não saiba nada de cozinhar, mas duvido.
Realmente, parece-me que toda a gente tem muito mais paciência do que eu quando aparece um Especialista a tratar-nos como crianças.

Divórcio, casamento natural e matrimónio cristão

GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA
Voz da Verdade, 2014.10.19

Só uma Igreja divorciada de Cristo pode aceitar o divórcio matrimonial

Muito se tem falado e escrito recentemente sobre a possibilidade de os fiéis cristãos divorciados, que vivem maritalmente com uma pessoa a quem se uniram civilmente, acederem à comunhão eucarística. Ora, como a ninguém é lícito comungar vivendo em intimidade com quem não é o seu cônjuge, só será possível se se admitir, para efeitos pastorais, a dissolubilidade do matrimónio cristão.
O matrimónio cristão mais não é, na realidade, do que o casamento natural elevado à condição de sacramento, ou seja, de sinal eficaz da graça da salvação. Muito antes de Cristo e da Igreja, já havia aquela comunhão fecunda de vida e de amor a que, depois, foi dada transcendência sobrenatural. Adão e Eva não casaram pela Igreja, nem na sinagoga, nem no registo civil, mas eram marido e mulher porque o casamento, antes de ser um sacramento cristão, é uma instituição natural, tão antiga quanto a própria humanidade.
É a essa originária união exclusiva e irrevogável que Jesus Cristo se refere quando alude ao «princípio» (Mt 19, 4.8). Por estar essencialmente aberta à vida, essa união só pode ser estabelecida entre uma mulher e um varão e deve durar enquanto os dois cônjuges forem vivos. Estas exigências são propriedades naturais do casamento, que não decorrem, portanto, da sua elevação à ordem sacramental. Quer isto dizer que são universais e, portanto, aplicáveis a todos os seres humanos, quaisquer que sejam as suas  convicções religiosas, políticas, sociais, etc.
As palavras de Cristo quanto à indissolubilidade matrimonial não permitem, a bem dizer, grandes inovações teológicas, ou pastorais. Para o Senhor, marido e mulher são sempre «um só» (Mt 19, 19, 5-6) e, por isso, «não separe o homem o que Deus uniu» (Mt 19, 6). Que «o homem» seja uma autoridade estatal ou eclesial, ou até ambos os cônjuges, pouco importa, na medida em que a proibição, salvo melhor opinião, a todos alcança.
Mas, não é legítimo, segundo o próprio Cristo, no caso de «união ilegal» (Mt 19, 9), o divórcio?! Se o Mestre tivesse permitido, neste caso singular, a dissolução do matrimónio, a Igreja decerto que a não poderia negar, sob pena de contradizer o seu divino fundador. É verdade que Jesus abriu uma excepção, no caso de infidelidade de uma das partes, não para dissolver o matrimónio, mas apenas para legitimar a separação dos cônjuges. Aliás, há dois mil anos, o repúdio era tolerado entre os judeus. Portanto, há situações de extrema gravidade em que a Igreja admite a separação de facto e de direito dos esposos que, diante de Deus, continuam a ser marido e mulher. Com efeito, segundo o texto bíblico, não é permitido à pessoa que repudia, nem à repudiada, mesmo que inocente, um novo casamento: qualquer uma, se «casar com outra, comete adultério» (Mt 19, 9).
Em pleno século XXI, não será excessiva esta exigência, quando tantos cristãos, não obstante o seu compromisso matrimonial, vivem maritalmente com quem não casaram pela Igreja? Sem negar os princípios doutrinais, não seria mais pastoral permitir a comunhão eucarística destes católicos?
Também há dois mil anos a moral matrimonial cristã parecia tão despropositada que alguns fiéis disseram: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!» (Mt 19, 10). Mas o misericordiosíssimo Cristo não a alterou, nem sequer quando, precisamente a propósito da comunhão eucarística, «muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele» (Jo 6, 66). Paulo entendia o casamento à luz da nova aliança do Salvador com o seu povo: só uma Igreja divorciada de Cristo poderia aceitar o divórcio matrimonial. Até para Pedro foi difícil, porque teve a dupla infelicidade de ficar viúvo e de ver Jesus curar-lhe a sogra …
Quaisquer que sejam as conclusões sinodais, todos os cristãos, com o Papa e na Igreja, devem confessar a sua fé em Cristo, pois só Ele tem «palavras de vida eterna!» (Jo 6, 68).

Beatificação do Papa Paulo VI

Talvez o Senhor me tenha chamado e me mantenha neste serviço não tanto por qualquer aptidão que eu possua ou para que eu governe e salve a Igreja das suas dificuldades actuais, mas para que eu sofra algo pela Igreja e fique claro que Ele, e mais ninguém, a guia e salva.
Beato Paulo VI