terça-feira, 20 de junho de 2017

O padre Júlio perdeu 30 paroquianos. “Vão ter de vir mais padres ajudar aos funerais”

JOÃO FRANCISCO GOMES   OBSERVADOR    20.06.17

A voz treme ao padre Júlio Santos durante a missa diária que se continua a celebrar na igreja de Nossa Senhora da Assunção, no centro da vila de Pedrógão Grande. A emoção obriga-o a fazer pausas mais longas do que as que o ritual exige, mas o silêncio é de imediato interrompido pelos voos rasantes dos aviões Canadair que continuam a combater as chamas em torno da povoação. Nas caras das duas dezenas de pessoas presentes na missa, que se realiza todos os dias às 10h00, lágrimas e desconsolo. Na homilia, há lugar a uma recordação das vítimas, pela voz embargada do padre Júlio.
O padre Júlio Santos é o pároco responsável pelas aldeias mais afetadas pelo fogo, como Nodeirinho e Pobrais
“Há uma carga emocional maior. A mim vieram-me as lágrimas aos olhos várias vezes durante esta missa”, conta o sacerdote ao Observador, na sacristia da igreja paroquial, entre telefonemas constantes. “Esta noite até sonhei com telemóveis a tocar”, desabafa. O assunto é quase sempre o mesmo: os funerais de toda a gente que morreu no incêndio. O plano, para já, está traçado: os corpos das pessoas que morreram no incêndio deverão ser libertados até sexta-feira e a paróquia vai organizar uma celebração conjunta no próximo fim de semana, para “dar a solenidade devida a esta gente que morreu”.
De acordo com o sacerdote, deverá ser o próprio bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes, a presidir a essa missa. Nessa celebração, não deverão estar presentes os corpos, já que a igreja dificilmente teria espaço para os acolher. “Depois, em princípio, serão organizados os respetivos funerais. Ou eu ou um colega vizinho iremos acompanhar todos os corpos para os cemitérios. Alguns ficarão aqui no cemitério de Pedrógão Grande, mas a maior parte irá para a Graça e Vila Facaia, que foi onde morreu aquela gente toda“, conta.
Pároco de Pedrógão Grande, Vila Facaia e Graça, freguesias onde estão as aldeias mais afetadas pelas chamas, como Nodeirinho, o padre Júlio estima ter perdido para o fogo mais de 30 paroquianos. Debaixo da alva branca, veste t-shirt e ténis. “Ando assim mais desportivo porque vou já continuar a visitar os lugares aqui à volta”, explica. O sacerdote anda desde domingo à tarde a tentar contactar com todas as pequenas aldeias em torno de Pedrógão Grande. Na segunda-feira, o próprio bispo de Coimbra deslocou-se à paróquia e visitou vários lugares “para contactar as pessoas pessoalmente, dizer-lhes que estejam atentas umas às outras e que nos digam de que precisam”.
No momento em que deflagrou o incêndio, o padre Júlio estava em Leiria, num retiro. Assim que soube da notícia, telefonou a padres vizinhos a pedir-lhes que viessem a Pedrógão Grande ver como estava a situação. “Mas eles também não conseguiram vir, porque estavam as estradas todas cortadas”, recorda. O sacerdote acabou por conseguir chegar a Pedrógão Grande no domingo a meio da tarde, dando “uma grande volta por Ferreira do Zêzere, que passado pouco tempo também já estava a arder”.
“Há sentimentos que não se descrevem. O meu desejo naquele momento era contactar com os meus paroquianos, saber como eles estavam. Não tínhamos contacto com ninguém, não havia comunicações”, lembra o padre. Logo que chegou, meteu mãos à obra e começou a tentar chegar onde era possível. “Tenta-se fazer o melhor possível, tenta-se estar ao pé das pessoas. Era isso que Jesus Cristo faria e é isso que o padre que cá está tem de fazer”, assegura.
Júlio não tem grandes palavras para dizer quando chega às povoações da sua freguesia. Mas também não precisa delas. “O que as pessoas precisam é de afeto, não é de palavras. Estão isoladas. Quando lá vou, abraçam-se a chorar a mim. Precisam, neste momento, de apoio moral, de alento, de saber que há pessoas a quem podem recorrer”, afirma, sublinhando que “é importante procurar estar atento ao vizinho, porque é mais fácil o vizinho saber o que o outro precisa.
Enquanto não são libertados os corpos das vítimas que morreram carbonizadas, e que foram transportadas para Coimbra, já há alguns funerais a fazer: os de quem acabaria por morrer no hospital depois de ter ficado ferido, e que, por isso, já estava identificado. “Vão ter de vir outros padres ajudar”, atira o padre Júlio, que garante que os próximos tempos não vão ser fáceis na paróquia. “Isto agora está complicado”, vai respondendo aos paroquianos que lhe aparecem na sacristia para tratar de vários assuntos.
Natural de uma das aldeias próximas de Pedrógão Grande, “onde dizem que o fogo começou, mas isto não se pode confiar no diz que diz”, o padre Júlio mostra-se fragilizado, mas vai tentando dar resposta às exigências — e ao telemóvel, que continua a tocar insistentemente. Mas, primeiro, as pessoas. E despede-se assim: “Agora vou visitar as aldeias onde ainda não fui”.

HOJE, 20 Junho às 21:00

24 JUN :: ARRAIAL DAS FAMÍLIAS

O Arraial das Famílias já vai na sua 19ª edição e gostávamos de fazer deste dia uma festa das Famílias onde estamos entre amigos, em FAMÍLIA, em ambiente de grande alegria, em honra a Nossa Senhora e sempre sob a sua  proteção especial! Vai ser este sábado, dia 24 de junho, às 19h00!

Vamos ter as habituais atrações: petiscos e churrasco, bebidas, rifas, jogos, produtos gourmet e outros, e muita animação musical e humana! Vamos ter a participação especial do João Só!

Salientamos que o Arraial é uma das principais fontes de angariação de fundos da Associação de Schoenstatt de Lisboa, essencial para se desenvolver a Ação do Movimento, designadamente as Missões Familiares e muitos outros projetos sociais levados a cabo pelo Movimento.



Frase do dia

POVO  19.06.17


"Não há vida sem tsunami"

sobrevivente do Tsunami de 2004 no Oceano Índico


Acompanhando a tragédia do incêndio de Pedrógão Grande, lembrei-me da Maria Belón que, com a sua família, sobreviveu ao Tsunami de 2004 no Oceano Índico.

Esta frase, no início de uma sua conferência, fez-me ouvi-la até ao fim e ainda bem que o fiz! A forma como viveu e quase morreu no Tsunami e como vive marcada por ter sobrevivido depois de assistir ao horror, pode ser de ajuda a todos na busca de sentido perante aquele que foi o mais letal incêndio que se conhece em Portugal.

Perante tragédias como esta, ficamos nos lutos e na análise da situação, mas há uma decisão a tomar, depois do fogo. Porque "se algum de nós pode ajudar o que pode não ter ajuda, como a morte", é deliberando de que lado estar: Do lado do sepulcro ou do lado de Jesus


Saiba como ajudar os bombeiros e as vítimas aqui. 


Missa em Sufrágio pelas vítimas do Incêndio
Amanhã, 20 de Junho, 21h00
No placo principal da Romaria de S. Amaro




POSTS MAIS RECENTES


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Faith and Liberty Lifetime Tribute 2017

Faith and Liberty Lifetime Tribute 2017
Padre João Seabra
28 Junho – 18.00-19.30

No dia 28 de Junho, pelas 18.00 será entregue o Prémio Fé e Liberdade – um prémio que distingue anualmente individualidades cuja vida e obra se tenha notabilizado na defesa da fé cristã e da liberdade. 
A Comissão encarregada de eleger os laureados para a sexta edição do Prémio Fé e Liberdade decidiu, por unanimidade, distinguir o Cónego Doutor João Seabra, Director do Instituto Superior de Direito Canónico da UCP Presidente da Associação para a Educação, Cultura e Formação e Membro da Reitoria do Colégio de S. Tomás.
O elogio ao Laureado será feito pelo Professor Guilherme de Almeida e Brito, Vice-Director da CLSBE da UCP. 
Nesta sessão será ainda prestada uma homenagem a Mickael Novak (1933-2017) por Robert Royal, Presidente do Faith and Reason Institute, Washington D.C.

O Prémio Fé e Liberdade teve a sua primeira edição no ano escolar de 2011/2012 e premiou o Senhor D. Jaime Pedro Gonçalves, Arcebispo da Cidade da Beira, em Moçambique, a Senhora Dra. Maria Jesus Barroso, Presidente da Fundação Pro Dignitate e o Monsenhor João Evangelista, Fundador da ACEGE e Pároco da Sé Velha de Coimbra. Na segunda edição foi premiado o Prof. Doutor Mário Pinto, Professor da Universidade Católica Portuguesa. Na terceira edição foi premiado o Senhor Alexandre Soares dos Santos, Fundador do Grupo Jerónimo Martins e Fundação Manuel dos Santos. Na quarta edição foi premiado o Senhor Padre Lino Maia, Presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade. No ano passado, por ocasião da quinta edição, foi premiado o Senhor Padre Roque de Aguiar Cabral, Professor Jubilado da Faculdade de Filosofia de Braga (Universidade Católica Portuguesa). 

[A sessão Faith and Liberty Lifetime Tribute é de entrada livre, mediante registo prévio para summerschool.iep@iep.lisboa.ucp.pt]

Estoril Political Forum 2017
26 - 28 June, Hotel Palácio, Estoril


Depois do fogo


Nesta hora de dor, partilhamos a homilia do Papa Francisco na Missa celebrada em Carpi a 2 de abril do corrente ano, cidade que foi fortemente abalada por um terramoto.
"Em volta deste sepulcro, acontece portanto um grande encontro-desencontro. Por um lado há a grande desilusão, a precariedade da nossa vida mortal que, atravessada pela angústia e pela morte, experimenta com frequência a derrota, uma obscuridade interior que parece insuperável. A nossa alma, criada para a vida, sofre sentindo que a sua sede de bem eterno é oprimida por um mal antigo e obscuro. Por um lado há esta derrota do sepulcro. Mas por outro há a esperança que vence a morte e o mal e tem um nome: a esperança chama-se Jesus. Ele não leva um pouco de bem-estar ou algum remédio para prolongar a vida, mas proclama: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá» (v. 25). Por isso diz decididamente: «Tirai a pedra!» (v. 39) e clamou a Lázaro com grande voz: «Sai!» (v. 43).
Amados irmãos e irmãs, também nós somos convidados a decidir de que parte estar. Podemos estar do lado do sepulcro ou do lado de Jesus. Há quem se deixa dominar pela tristeza e quem se abre à esperança. Há quem permanece vítima dos destroços da vida e quem, como vós, com a ajuda de Deus, remove os destroços e reconstrói com esperança paciente."

Leia a homilia na íntegra aqui.

‘Escola no Chiado’ - "Qualidade é estar serviço das crianças"

http://www.patriarcado-lisboa.pt   19.06.17

A ‘Escola no Chiado’ é um projeto educativo “de qualidade” onde os pais não ficam dependentes da sua “capacidade financeira” para inscreverem os filhos. A oferta para crianças do pré-escolar e primeiro ciclo, em pleno centro histórico de Lisboa, ganhou nova vida, devido às sinergias entre duas paróquias da Baixa que “apostaram trabalhar em conjunto” e em pareceria com a Fundação Maria Ulrich.

Começou numa escola ‘familiar’, na Paróquia dos Mártires, em pleno Chiado e, em três anos, cresceu. Não tanto em número de alunos mas, sobretudo no alargamento do próprio plano pedagógico. Tal como quando o Jornal VOZ DA VERDADE visitou a instituição, no início do novo projeto, em julho de 2014, também agora o princípio orientador é o mesmo: não deixar ninguém de fora. “Percebemos que a maior necessidade das famílias era ter uma proposta educativa de qualidade. Muitas vezes ficavam num âmbito em como se isso dependesse totalmente da capacidade financeira... e isso não pode ser! Isso é o meu ‘cavalo de batalha’”, garante, ao nosso jornal, a coordenadora pedagógica, Catarina Almeida, salientando que a sua “experiência de fé” é “contraditória com o facto de uma educação de qualidade depender de uma capacidade financeira”. “Uma escola de qualidade não é termos instalações espetaculares. Uma escola de qualidade significa estar totalmente ao serviço das crianças”, afirma.

O projeto ‘Escola no Chiado’ é um projeto pedagógico, realizado em pareceria com a  Fundação Maria Ulrich, que viu ser alargada a sua oferta. “Através de conversas na paróquia, começámos a perceber que existiam, nas proximidades, várias instituições de ensino na mesma situação, apresentando alguma dificuldade em lidar com os novos desafios que se colocam hoje”, refere a coordenadora pedagógica, que trabalha para a Fundação Maria Ulrich. É então que chega aos seu conhecimento a situação do Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Encarnação, da paróquia “mesmo ao lado” da Encarnação, em pleno Chiado, a meio percurso do Elevador da Glória. “O cónego João Seabra, presidente do centro social e paroquial, pediu-nos ajuda para perceber se fazia sentido continuar a ter a instituição aberta”, revela Catarina Almeida, que aceitou depois o desafio de dar novo “fogo” ao projeto, “valorizá-lo e dar inovação às coisas que precisavam”, partindo do trabalho que foi feito, nos últimos anos, pela anterior diretora técnica da instituição, Isaura Pais, que se reformou.

Continuidade
A resposta às famílias tem sido o principal desafio do projeto ‘Escola no Chiado’, aplicado inicialmente na escola paroquial dos Mártires e agora desenvolvido também no Centro Social e Paroquial da Encarnação. “Para as famílias é muito interessante uma proposta de continuidade, porque as crianças chegam aos 5 anos e mudam de escola. São sempre disrupções”, lamenta a coordenadora.
Para a atual diretora técnica do Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora da Encarnação, Rita Moniz Pereira, a oferta da valência pré-escolar procura ser um “lugar de qualidade onde as crianças possam crescer, independentemente da capacidade financeira, com acompanhamento pedagógico, artístico, cultural... todas as coisas que são desejáveis que uma criança passe no desenvolvimento da sua personalidade”. Por isso, a aposta foi feita no “trabalho em conjunto”, segundo a diretora técnica, que garante ter ganho uma maior proximidade na relação com as famílias: “Há muitas famílias que deixam roupas para algum pai que precisa e, quando isso acontece, nós já sabemos como orientar. Também quando sobra comida, sabemos que há algumas pessoas que precisam. Já conhecemos as famílias”. 

Os lutos

MIGUEL ESTEVES CARDODO    PÚBLICO    18.06.17

É a altura de ouvirmos quem precisa, de ouvirmos quem não consegue falar, de ouvirmos a angústia de quem só é capaz de chorar.


A tragédia de Pedrógão Grande é avassaladora. Humilha-nos com imensidão. A dor cala-nos. Não é altura de tirar conclusões. Não é a altura de pensar em voz alta. É a altura de ouvir, de querer ajudar, de respeitar quem morreu, quem luta pela vida, quem está a sofrer.

O luto é nacional por ser sentido por todos mas, como todos os lutos, só quem sabe quem perdeu é que o pode compreender. É a altura de ouvirmos quem precisa, de ouvirmos quem não consegue falar, de ouvirmos a angústia de quem só é capaz de chorar.

Cada pessoa que morreu era o centro de várias vidas que nunca mais serão as mesmas. Custa pensar nestas perdas, uma a uma e vez após vez, porque somos incapazes de imaginar tal desespero. Mas é em todas estas perdas que temos de pensar: quem era, quem eras, quem eram e a falta que faz, que fazes, que fazem...

Não é a altura para falar em lições. Ninguém se ofereceu para dar a vida para nos ensinar nada. Ninguém se sacrificou. As pessoas que morreram e ficaram feridas — e todas aquelas que ficaram de cabeças perdidas e corações pesados por causa delas — merecem o respeito absoluto de ficarmos parados, sem sabermos como reagir.

É altura de ouvirmos, de ajudarmos, de esperar para sabermos, dessas pessoas doridas, o que podemos fazer, se é que algum de nós pode ajudar o que pode não ter ajuda, como a morte.

As dimensões terríveis da tragédia obrigam-nos a pensar no horror que seria só ter morrido uma pessoa. Foi o que aconteceu, muitas dezenas de vezes. E nem o luto sabe responder.

Papa solidário com “querido povo português” por causa de Pedrógão Grande

RR ONLINE        18.06.17

Francisco rezou por momentos em silêncio depois de se ter referido à tragédia.

O Papa Francisco rezou este domingo pelas vítimas do incêndio de Pedrógão Grande.
No final da oração do ângelus, Francisco recordou de forma especial as vítimas da tragédia que desde sábado até agora já fez 57 mortos e 59 feridos.
“Expresso a minha proximidade com o querido povo português, por causa do grande incêndio que tem lavrado no mato perto de Pedrógão Grande, causando numerosas vítimas e feridos. Rezemos em silêncio”.
Para além de Francisco, já D. Manuel Clemente e D. Jorge Ortiga se referiram a este incêndio, manifestando solidariedade e rezando pelas vítimas.
A Cáritas Portuguesa manifestou a sua solidariedade com todas as vítimas e familiares da tragédia em Pedrogão Grande e vai disponibilizar 200 mil euros para as “necessidades emergentes da população no local”.
O fogo alastrou-se aos concelhos de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, também no distrito de Leiria.

Não há vida sem tsunami

Acompanhando a tragédia do incêndio de Perdigão Grande, lembrei-me desta sobrevivente do Tsunami de 2004 no Oceano Índico.

"Não há vida sem tsunami."

Esta sua frase, fez segui-la até ao fim da sua conferência. A forma como viveu e quase morreu no Tsunami e e como vive marcada por ter sobrevivido depois de assistir ao horror, é muito correspondente para mim e pode ser de ajuda a todos na busca de sentido perante aquele que foi o mais letal incêndio que se conheça em Portugal.



María Belón - LQDVI Barcelona 2013 from Lo Que De Verdad Importa on Vimeo.

domingo, 18 de junho de 2017

O que fazer para ajudar bombeiros e vítimas?

PÚBLICO   18.06.17

Muitas pessoas questionam-se sobre o que podem fazer para ajudar os bombeiros e as vítimas dos incêndios na região de Pedrógão Grande. Para já, Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, diz ao PÚBLICO que há água e leite suficientes, mas que “falta fruta que não seja preciso descascar”. E que também são bem-vindas “barras energéticas”.


Em Pedrógão Grande
Quem estiver na zona pode assim deslocar-se com estes mantimentos à zona industrial de Pedrógão Grande, diz Jaime Marta Soares. “Há aí uma equipa de recepção que fará depois a distribuição pelas diferentes frentes.”

Bancos e seguradoras

A Associação Mutualista Montepio anunciou em comunicado a doação de 150 mil euros às vítimas dos incêndios que ainda lavram no distrito de Leiria. 

A Caixa Geral de depósitos criou uma conta solidária - Unidos por Pedrógão - e doou 50 mil euros para apoiar as vítimas da tragédia.
Os dados desta conta solidária são:
Conta Solidária Caixa 0001 100000 330
IBAN PT50 0035 0001 00100000330 42

A Caixa anunciou ainda que vai criar condições diferenciadas para os seus clientes atingidos por esta calamidade.

Também a companhia de seguros Lusitânia, que pertence ao grupo Montepio, comprometeu-se a garantir a "análise célere das situações de sinistro" e a dar uma resposta "tão breve quanto venha a revelar-se possível às necessidades das famílias cujas apólices se encontrem sob sua gestão". 

Cáritas e Misericórdias
A Cáritas Portuguesa e a Cáritas Diocesana de Coimbra já manifestaram a sua solidariedade com todas as vítimas e seus familiares “da tragédia que surpreendeu o país”. Em comunicado, Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, e Luís Costa, presidente da Cáritas Diocesana de Coimbra, onde se integra a área de Pedrógão Grande afectada pelo incêndio, dizem que “estão a acompanhar a situação a partir do local, para onde se deslocam neste momento, com vista a avaliar a situação e poder dar a melhor resposta”. A Cáritas disponibiliza para já 200 mil euros de apoio para “necessidades emergentes da população no local”. Por seu lado, a Cáritas Internacional divulgou um comunicado manifestando solidariedade para com a população portuguesas colocando-se "ao inteiro dispor da Irmã Cáritas Portuguesa na soma de esforços imediatos para o pronto restabelecimento da situação". O breve comunicado assinado pelo secretário geral da Cáritas Internacional, Michel Roy, não concretiza nem quantifica, no entanto, nenhum tipo de ajuda.
A União das Misericórdias Portugueses (UMP) anunciou através de um comunicado que está a mobilizar as suas estruturas regionais nos distritos de Coimbra e Leiria para apoiar a população das zonas afectadas pelos incêndios na região centro do país. "Em estreita colaboração com o Governo, entidades locais e instituições de emergência e segurança, as Misericórdias de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Góis, Sertã, Pampilhosa da Serra, entre outras, e a UMP instalaram pontos de acolhimento e de informação para prestar toda a ajuda, apoio e esclarecimentos possíveis." A UMP avança que está a trabalhar com o Ministério da Saúde na região de Pedrógão Grande para dar apoio às vítimas. A fim de dar resposta às necessidades mais imediatas, a UMP anunciou que irá criar uma conta solidária no Montepio para reunir donativos de apoio às vítimas. Os dados bancários dessa conta não foram divulgados.

Doação de alimentos e bebidas nos quartéis
Questionado pelo PÚBLICO sobre quais os quartéis de bombeiros que estavam a receber alimentos e bebidas, Jaime Marta Soares, presidente da Liga de Bombeiros Portugueses, esclareceu que as entregas devem ser feitas em Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra (Leiria) e Alvares (Góis).
No entanto, fora destas localidades há várias corporações de bombeiros que estão a receber bens alimentares. Para quem estiver em Lisboa, pode entregar nos Bombeiros Voluntários de Lisboa, na Rua das Flores (Largo Barão Quintela):
- Água com gás (muito importante para a hidratação dos bombeiros depois do combate às chamas)
- Água oxigenada
- Compressas
- Ligaduras
O Sporting Clube de Portugal apela aos adeptos que se desloquem ao Estádio José Alvalade para entregar bens de primeira necessidade aos bombeiros que combatem o incêndio de Pedrógão Grande. Frutas (sobretudo as que são mais fáceis de descascar), barras de cereais e outros alimentos podem ser deixados no Hall Vip do estádio dos "leões", em Lisboa. O comunicado do clube pode ser lido aqui.
Por seu lado, os responsáveis da página de Facebook On Coimbra, que agrega conteúdos sobre recursos culturais do distrito de Coimbra, telefonaram para várias corporações de bombeiros da região e divulgaram uma lista com o tipo de ajuda que se pode levar a cada um os quartéis:
Bombeiros Penela:
- Águas
- Fruta
Bombeiros Voluntários de Góis:
- Águas
- Fruta e outros alimentos
- Soro fisiológico (urgente)
- Pomadas para queimaduras
Bombeiros Voluntários de Miranda do Corvo:
- Águas
- Alimentos não perecíveis (ex. enlatados)
- Fruta
- Leite
- Soro fisiológico
Bombeiros Voluntários de Oliveira do Hospital:
- Águas
- Alimentos não perecíveis
Bombeiros Voluntários Ansião:
- Águas
- Fruta
- Barras de cereais energéticas e bolachas
- Sumos
Bombeiros Vol. Coimbra:
- Águas
- Leite
- Barras de cereais energéticas
Bombeiros Sapadores de Coimbra:
- Aceitam donativos que serão depois entregues nas corporações mais necessitadas
Bombeiros Voluntários de Brasfemes:
- Águas
- Barras de cereais energéticas
Bombeiros Condeixa:
- Águas
- Barras de cereais energéticas
- Leite
- Sumos
- Conservas
- Fruta
Bombeiros Leiria:
- Aceitam donativos que serão depois entregues em Pedrógão Grande (cobertores e roupa, águas, leite, barras de cereais energéticas)
Bombeiros Alvaiázere:
- Água
- Fruta
- Barras de cereais energéticas
No final da lista, a página On Coimbra, deixa duas notas: 
- "As águas, sumos, leites e outros alimentos, solicitam-se gentilmente, se possível, em doses invidivuais/pacotes pequenos para poderem ser distribuídos por cada bombeiro.
- Infelizmente, não foi possível estabelecer contacto com os Bombeiros Voluntários de Pedrogão Grande e Bombeiros Voluntários de Figueiró dos Vinhos".

Espectáculos de solidariedade
Um grupo de artistas da zona de Leiria anunciou um espectáculo de solidariedade para com as vítimas do incêndio que deflagrou este sábado em Pedrógão Grande. O concerto vai realizar-se no dia 24 de Junho, às 21h30, no Teatro José Lúcio da Silva. Entre os artistas e bandas participantes estão David Fonseca e Orquestra Jazz de Leiria, Academia de Ballet e Dança - Annarella, Omnichord Records, Samp Pousos, Orfeão de Leiria Conservatório de Artes e Fade In - Associação de Ação Cultural. Segundo informação transmitida pelo Teatro José Lúcio da Silva nas redes sociais, os bilhetes no valor de 15 euros estarão à venda nas suas instalações a partir de segunda-feira.
Apoios institucionais

A Fundação Calouste Gulbenkian constituiu um fundo especial, com uma dotação inicial de 500 mil euros, de apoio às organizações da sociedade civil da região "que apresentem respostas adequadas às necessidades identificadas". A Fundação Gulbenkian diz estar coordenada com a União das Misericórdias Portuguesas na avaliação da situação no terreno.

Uma cronologia no combate aos incêndios em Portugal

RUI PERES   FACEBOOK    18.06.17

9 Junho 2016
Governo retira a Força Aérea do combate a fogos .
a Força Aérea foi retirada dos fogos há 10 ou mais anos.
Passos Coelho quiz repôr e o Costa anulou a Força Aérea no combate aos fogos.

14 Agosto 2016
António Costa: Verbas para combate a incêndios são desviadas da Segurança Interna

28 Agosto 2016
Depois do governo de Passos ter conseguido 50 milhões da UE para a compra de aviões de combate aéreo, António Costa recusa esse dinheiro.

2016
A maior área ardida num ano no país - 160.490 hectares de área ardida, entre povoamentos (85.785 ha) e matos (74.705 ha).

ABRIL 2017António Costa anuncia que os Helicopteros Russos Kamov, só voltariam a ser utilizados em 2018, devido aos elevados custos de manutenção 

18 Maio 2017
António Costa: Bombeiros vão de autocarro ou comboio combater incêndios.

Maio 2017
Bombeiros voluntários admitem usar os seus Machados de Paz em Machados de Guerra, devido à "nunca antes conhecida carência de meios de combate aos incêndios"

18 Junho 2017
Morrem dezenas de pessoas, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa dizem que o combate ao incêndio correu dentro da normalidade, e foi feito tudo o o que foi possível.
António Costa: "Claramente os meios foram os adequados, tanto os meios terrestres como os meios aéreos. Aquilo que não foi adequado foi a incidência de várias ocorrências provocadas pelas trovoadas secas e claramente o vento forte"

Pedrogão Grande

NELSON SANTOS     FACEBOOK    18.06.17

Deixo-vos o testemunho da jornalista Andreia Novo (RTP) sobre o incêndio em Pedrogão Grande:

"Sinto necessidade de vos contar o que eu e o Rui Castro vimos, sentimos. Saímos às 2h de Gaia, chegamos às 4h a Pedrogão. Os acessos estavam todos cortados. 
Percorremos centenas de kms e não havia sinal de bombeiros. As pessoas estavam todas na rua. Todas. Só depois das 5h é que conseguimos andar por estradas que ainda não estavam interditas, mas com fogo por todos os lados. Conseguimos passar. Às 6h começamos a encontrar os primeiros carros incendiados. Uns atrás dos outros. Desfeitos. 6h30, já com luz do dia, descobrimos umas aldeias no meio do fumo que cega de tão denso. Começam a surgir os corpos. Não consigo descrever bem, a partir daqui, o que aconteceu. Uns atrás dos outros. Famílias inteiras no chão, carbonizadas, e não dentro dos carros como alguns jornalistas têm avançado. Casas completamente destruídas pelas chamas. "São imensos menina, mas não podemos apanhá-los, não temos autorização" disse-me um bombeiro quando lhe perguntei pelos corpos. Falei com moradores de duas aldeias com cerca de 80/100 habitantes que já não diziam coisa, com coisa. Só falavam nas pessoas desaparecidas. "Isto é o inferno na terra, meu amor" disse-me uma idosa em lágrimas. Certo é que os bombeiros nunca lá foram até agora. Muitos dos que morreram são locais, fugiam de carro quando se despistaram, explodiram, ou simplesmente sufocaram. Nunca vi nada assim. E assim, só nós RTP captamos isto."

Morre-se depressa demais


Consumimos as alegrias e os desgostos à velocidade da luz. Depois perguntamo-nos de onde vem a ansiedade e a depressão. 
ISABEL STILWELL   IONLINE   30.05.17
Vivemos tão depressa que damos por nós a entrar num centro comercial e a não saber em que estação do ano estamos. Com os saldos de Verão a começarem antes do Verão vir sequer marcado no calendário, ficamos com a ideia de que já não vale a pena comprar um fato-de-banho porque o Outono está mesmo a chegar. Confusos, rebuscamos na memória os dias longos de praia, os jantares na varanda, as férias, e concluímos que o nosso cérebro se desgastou de tanto uso, porque as recordações que temos parecem antigas e, no entanto, a avaliar pela colecção Outono/Inverno que enche as páginas das revistas, só pode ter sido ontem. 
Não entendíamos quando, em pequenos, nos diziam que o Natal não demorava nada e os dias rolavam penosamente, ou que tarda nada fazíamos anos, e o “tarda nada” era mesmo tarde e parecia-nos nunca mais chegar. Mas, agora, percebemos que o tempo voa, tudo passa a correr, o que é tanto mais idiota quanto era exactamente agora que devia andar a passinhos de bebé (lembram-se do jogo?), porque a recta final está progressivamente mais próxima. 
Olhamos para o calendário e não percebemos o que fizemos aos dias que voaram, mas se olharmos mais de perto as nossas agendas, percebemos que estiveram cheios de acontecimentos, que se atropelaram uns aos outros, sem nos deixar um segundo para respirar. 
Andamos cansados, muito cansados, sobretudos aqueles que têm filhos pequenos, e dentre esses, à cabeça de todos, lá estão as mulheres que acumulam profissão e a casa/família. Nem a invenção das férias pagas, que nem meio século tem, nos veio descansar, porque rapidamente enchemos também aqueles dias com mil “compromissos” obrigatórios. 
O mal não é que as 24 quatro horas do dia tenham encolhido, mas simplesmente que a nossa omnipotência nos deixe com a ilusão de que conseguimos encher o espaço de um dia com tantas e tantas coisas, como se conseguíssemos estar em muitos lados em simultâneo. 
Contudo, o que mais me aflige é o facto de vivermos os acontecimentos profundamente marcantes num toca- -e-foge que não nos deixa reflectir sobre eles, senti-los em profundidade, gozá--los ou lamentá-los, resolvê-los e superá-los, em lugar de os varrer para debaixo do tapete. E obrigamos os outros também a varrer, na nossa intolerância para com a dor que não passa rapidamente, para com o desgosto que se mantém, para com aqueles que se continuam a queixar da mesma coisa, num tempo em que mesmo a maior tragédia é ultrapassada por aquela que vem a seguir. 
Depois queixamo-nos da tristeza que não sabemos de onde vem, da ansiedade que nos toma inesperadamente e, claro, da depressão que se instala, jurando nós que não temos motivos nenhuns para a sentir. 
Basta olhar para a pressa com que gerimos a morte. Homens e mulheres extraordinários parecem desaparecer da face da terra, e da memória, num abrir e fechar de olhos. E por muito que os tenhamos admirado, por muito que nos façam falta, continuamos em frente, não por mal, mas porque somos empurrados pela voracidade dos dias, pelos compromissos e obrigações, porque não podemos deixar cair tudo o que de nós depende. Sem lhes erguermos a estátua que merecem, sem que o seu nome fique sequer gravado numa lápide, que fique para lá da sua vida, da nossa vida, da vida dos nossos filhos, para que um dia, alguém a possa ler e perguntar: “Quem foi este?” Decididamente, não gosto de cremações. Decididamente, quero viver mais devagar.

Doença. Marcelo defende criação de estatuto de cuidador informal

OBSERVADOR       17.06.17

O Presidente da República defendeu a criação do estatuto do cuidador informal. "Não pode haver cálculos políticos, ou partidários, ou outros quando está em causa uma causa destas", disse.

O Presidente da República (PR) defendeu este sábado a criação do estatuto do cuidador informal e disse “fazer tudo o que puder” para sensibilizar todos para uma causa justa em relação à qual “não pode haver cálculos políticos ou partidários”.
“Não pode haver cálculos políticos, ou partidários, ou outros quando está em causa uma causa destas. Está noutro nível e nem é nacional. É um nível de dignidade humana”, frisou Marcelo Rebelo de Sousa no Porto, no 2º Encontro Nacional de Cuidadores Informais de Pessoas com Doença de Alzheimer e outras Demências, uma iniciativa apoiada pela eurodeputada do BE Marisa Matias, que é também vice-presidente da Alzheimer Europe, relatora da Estratégia Europeia de Combate ao Alzheimer e uma das defensoras da criação de um estatuto jurídico-legal dos cuidadores informais em Portugal.
Para o PR, é preciso que o país reconheça que a rede de cuidados continuados é insuficiente e não dispensa “a presença constante” dos cuidadores informais, pelo que “há que reconhecer o seu estatuto legalmente”.

Onde se meteu a “correcção política”

VASCO PULIDO VALENTE   OBSERVADOR   18.06.17

Espicaçado por um artigo encomiástico de António Lobo Antunes na última Visão resolvi ler a tradução da Bíblia de Frederico Lourenço. A Bíblia dos Capuchinhos não é uma obra-prima e Portugal precisava de uma versão de confiança numa língua impecável e legível. Bem sei que os portugueses não lêem a Bíblia nem sentem a necessidade de lê-la. A ignorância dos católicos sobre a sua própria fé chega a ser inacreditável. Os políticos citam frases do Novo Testamento, declarando que são ditados populares. Escritores a quem se presumia um módico de educação atribuem descrições, episódios e parábolas a outros escritores ou à sua própria fantasia. E quase ninguém reconhece uma citação directa dos Evangelhos. Dirão que isto é normal num país católico e que de qualquer maneira não tem grande importância. Para quem acha que tem, a tradução de Frederico Lourenço (directamente do grego) veio dar uma grande ajuda à pequena parte dos indígenas que ainda conservam alguma coisa dentro da cabeça.
Dito isto a tradução não me entusiasmou. Admito que Lourenço é um grande gramático, como ele nas notas de pé de página abundantemente prova. Reconheço também que a ideia de tornar os números dos versículos quase imperceptíveis faz reviver a pontuação natural e torna a leitura mais fácil e fluente. Em contrapartida, a estrita adesão aos tempos verbais gregos (segundo me pareceu, porque não tenho autoridade para decidir sobre isso) não permite que o português tome o tom solene e, às vezes, majestático que devia tomar. Lendo Frederico Lourenço nunca se perde a noção de que se está a ler Frederico Lourenço e não Marcos, Lucas ou Mateus. Seria injusto que nesta hora e data alguém lhe pedisse para escrever a Bíblia do Rei James. Mas com certeza que há sucedâneos com mais nobreza do que este.
Sobre isso, para mim, a parte imperdoável desta Bíblia é a tradução de “Filho do Homem” por “Filho da Humanidade”. O próprio Frederico Lourenço confessa que não tem uma justificação estritamente gramatical. Só que a justificação que ele dá e que acha “a mais relevante” não faz sentido algum. É ela a seguinte: não se pode chamar, “em português” (?), a Jesus “Filho do Homem”, porque Jesus, de acordo com o Novo Testamento, “não é filho de nenhum homem: é filho de Deus e de um ser humano, Maria”. Fora que o argumento é absurdo porque a designação “Filho do Homem” se destina precisamente a lembrar a presença simultânea naquela pessoa do divino e do humano. “Filho da Humanidade”, como Frederico Lourenço sabe muito bem, rompe com uma tradição milenar e automaticamente evoca a linguagem anticlerical do século XIX. Pior do que isso, contribui para obscurecer o entendimento da Bíblia, com a sua ressonância das profecias de Daniel, que anunciavam a vinda do “Filho do Homem” e, através dele, uma refundação do Templo e do judaísmo. E que, apesar de apócrifas, eram verdadeiras para toda a gente no século I. Finalmente, Jesus disse com toda a clareza que só vinha para as “ovelhas tresmalhadas” da casa de Israel; e considerava os gentios, ou seja, quase a humanidade inteira, “porcos” (daí as pérolas a porcos) e “cães”. Sim, “cães”.
Porquê então desceu Frederico Lourenço a esta trapalhada? Pelo que havia de ser? Por causa da “sensibilidade de género”, que de resto se manifesta pela tradução inteira: onde aparece “homem”, se possível Lourenço escreve “ser humano”, enquanto as mulheres são sempre mulheres. Esta conformidade estúpida ao “politicamente correcto” data e deforma a tradução, além de a tornar inútil para qualquer construção teológica.
Falta dizer que na sombra pesa o movimento a favor do sacerdócio das mulheres. Tão pesado que até Frederico Lourenço, no recato de uma nota de pé de página, tem de meter na ordem o nosso conhecido Frei Bento Domingues, que pretendeu fazer passar por apóstolos umas servas de Jesus.
Onde se foi meter a “correcção política”?
P.S.: Frederico Lourenço não discute a sério a datação dos Evangelhos e aceita a sequência tradicional: Mateus, Marcos, Lucas e João. Por mim continuo a preferir a prioridade de Marcos, porque o anti-judaísmo (não confundir com anti-semitismo) perceptível em Mateus e agressivo em Lucas os liga a uma época relativamente tardia da expansão do cristianismo helénico; e pelo menos Lucas escreveu depois da destruição de Jerusalém no ano 70. João é um caso mais complicado.

sábado, 17 de junho de 2017

Vida útil - o valor de uma vida ou uma vida com valor

ISILDA PEGADO  VOZ DA VERDADE   11.06.17

1 – Valeu a pena”? Perguntava o poeta “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” (in Mar Portuguez – Fernando Pessoa).
Confrontamo-nos hoje com grandes debates sobre o valor da vida humana. Todas as vidas têm valor? Quais as vidas que têm valor? Quais as que “valem a pena”? Quais as vidas que o Estado deve proteger? Há vidas (algumas/todas) sem protecção social?

2 – Os doentes, os idosos, os incapacitados, os que estão por nascer, os hospitalizados, os incuráveis, têm vida útil? Já não servem? Não vale a pena (serem protegidos)? O utilitarismo do super-homem, do mais capaz, do saudável e cheio de forças, é o modelo de homem/mulher do nosso tempo?

3 – Os debates sobre a Eutanásia e o Aborto redundam, em última instância, nesta pergunta radical – “vale a pena viver, deixar nascer, apostar, ousar, investir, acarinhar, apoiar, amar?”… E tantos outros verbos do agir. Ou, dito de outra forma – “todas as vidas humanas têm a mesma dignidade?”.

4 – A Humanidade precisou de percorrer séculos e séculos para reconhecer que todas as vidas são iguais em dignidade. Travámos Guerras para demonstrar que escravo e homem livre são irmãos, que Judeu e Ariano são igualmente homens. Todos iguais em dignidade. E, quando parecia que já nada, nem ninguém, destruía este reconhecimento Civilizacional, surgem agora os debates sobre o valor da vida humana, das “vidas descartáveis” (como diz o Papa Francisco).

5 – Catalogamos, em nome de uma liberdade individual. E, a partir daqui, criamos “classes” de pessoais mais ou menos capazes e dignas. Os critérios do “catálogo” hoje são uns, mas amanhã podem ser outros. É um caminho errado que leva a sucessivos erros e, em última instância, destrói a própria Humanidade.

6 – Na Holanda, tem sido usado o conceito de “vida completada” no sentido de que já está tudo feito, por isso, posso/devo pedir a morte. E assim a pessoa é morta (eutanasiada), porque a sua vida já não é útil.
O arbítrio de um tal conceito é no mínimo “aterrador”. O que é uma vida completa ou completada? Tive filhos e criei-os, trabalhei e descontei para a Segurança Social, paguei as rendas da casa ou da hipoteca, … nada mais tenho a fazer neste mundo… Senão pedir a morte.

7 – Ou, ao invés, as fragilidades, o cumprimento dos deveres, concedem ao homem o direito, o verdadeiro direito a viver na “grandeza” do ser digno em todas as circunstâncias. 
Ter a certeza de que o Sol nasce no dia seguinte, e a alegria que isso me vai dar é já um factor de valia para a minha vida. Ou, o neto por nascer deixa o coração a transbordar. Ou, a memória de uma vida que é fonte de alegria e alma para enfrentar o que hoje e amanhã me é pedido. Aceitar as circunstâncias da vida é o primeiro passo para a minha felicidade. Reconhecer o que me é dado, como a natureza que respeito, e a partir da qual construo cada dia, é a atitude do homem e da mulher que “ecologicamente” se colocam no mundo com liberdade.

8 – No fundo, o que o nosso poeta, Pessoa, dizia “quando a alma não é pequena”.
Há uma vertigem no dia-a-dia que não depende de qualquer catálogo, apenas pede Amor, companhia, entrega e saberes. O inverso é um totalitarismo que nega a “Alma” e reduz o Homem a um utilitarismo escravizante.

O Homem foi feito para esta grandeza, para esta Liberdade e para este Amor – por isso “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

O maior dos milagres

Pe. DUARTE DA CUNHA     VOZ DA VERDADE    19.06.17


É normal que as fotografias, os presentes recebidos, ou algo que herdámos nos tragam à memória os amigos e episódios vividos juntos. Quando queremos recordar Jesus Cristo algo de semelhante acontece, mas de outra ordem. Não é só lembrança.
Quando lemos os Evangelhos, a Palavra que chega a nós é mais do que a recordação do que Jesus disse ou uma mensagem genérica de Deus. O Espírito Santo que inspirou os evangelistas para saberem o que escrever também nos ilumina para nos levar a compreender o significado dessa Palavra. Não lemos o Evangelho como se fosse uma carta de um avô. Não temos só bons conselhos que nos chegam do passado, mas Deus fala-nos mesmo!
Passa-se algo de semelhante, mas a um nível ainda mais impressionante, quando celebramos a Missa. Não é só uma recordação simbólica, como uma lembrança, ou um rito que se repete para recordar algo que aconteceu no passado: a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Trata-se de um milagre, de algo que Deus realiza aqui e agora! O maior dos milagres que re-acontece em cada Missa! Nós, humanos, podemos deixar aos herdeiros coisas ou símbolos, lembranças ou fotografias! Mas Jesus é Deus, Ele vence o tempo, Ele tem um poder criador, por isso, Ele não se limita a deixar-nos uma recordação, Ele deixa-Se Si mesmo. É impressionante, parece mesmo impossível. Mas acreditando que Jesus é verdadeiramente Deus, acreditamos que pelo Seu poder divino consegue fazer-Se presente e tornar-nos presentes e, por isso, beneficiários do Seu sacrifício na Cruz que nos reconcilia com Deus, e da Sua ressurreição que renova a nossa vida e gera a comunhão entre nós.
Jesus disse: “Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6, 54). Não estava a falar de um “faz-de-conta”, e quem o escutava percebia isso mesmo. Aliás, muitos se escandalizaram com estas palavras, parecendo-lhes esquisito o que Jesus dizia, e deixaram de O seguir (Jo 6,66). Mas os doze, e com eles muitos outros, mesmo não percebendo bem o que Jesus dizia, sabiam que não seria razoável abandonar Jesus. A vida que eles tinham já começado a experimentar no convívio com Jesus não era uma fantasia. Negar essa experiência era irracional! E assim chegaram à Última Ceia onde Jesus desvelou o mistério ao dizer do pão: “Isto é o meu corpo”. Não disse: isto lembrar-vos-á o meu corpo. Não disse: isto simboliza o meu corpo! Disse: “Isto é o Meu corpo”! E depois disse: “Fazei isto em memória de Mim”. “Fazei isto”, ou seja, fazei do pão o Meu corpo e do vinho o Meu sangue. Dou-vos poder para isso. É isso que tereis como minha memória. Não uma ideia: “Eu mesmo”! 
Quando olhamos para a hóstia consagrada, porque ela é Cristo realmente e substancialmente presente, caímos de joelhos. Sentimo-nos indignos e pequenos por nos ser dado a comungar o Corpo de Deus! Por isso, devemos estar em estado de graça. Seria contradição estar zangado ou ter ofendido a Deus e, sem Lhe pedir perdão, fingir que tudo está bem! A celebração da Missa, portanto, complementa-se muito bem com a adoração do Santíssimo Sacramento e com as procissões do Santíssimo Sacramento, onde temos uma experiência semelhante ao que os habitantes de Jerusalém tiveram: Deus caminha nas ruas da nossa cidade!
Ficamos impressionados com o amor à Eucaristia dos santos! E com a potência que esta tem nos momentos de perseguição. Impressiona a história do bispo – depois cardeal – Van Thuân preso no Vietnam que durante anos celebrava a Missa com três gotas de vinho e uma de água na palma da mão! Ou do P. Walter Ciszek sj que no Gulag soviético celebrava a Eucaristia às escondidas deitado na cama para ninguém descobrir e que dava a comungar aos outros presos o Corpo de Cristo quando caminhavam no pátio! São tudo histórias que fazem ver como da Eucaristia vêm a esperança, a fé e a caridade, mesmo nos momentos mais difíceis.
Recentemente, em Minsk, na Bielorrússia, onde há pouco o comunismo tinha impedido qualquer manifestação de fé, participei na procissão do Corpo de Deus. Esta, por conveniência pastoral, realiza-se no último Domingo de Maio, para que estejam presentes as crianças que fizeram a Primeira Comunhão. Caminhar com a custódia do Santíssimo nas mãos, naquelas ruas de estilo soviético, onde são visíveis as foices e os martelos, fez-me ver de modo muito evidente que o amor à Eucaristia e a seriedade da devoção, que alimenta a fé, acaba por vencer e voltar às ruas. Não faz isto também parte da mensagem de Fátima? Todas meditações em Minsk feitas ao longo das três horas de procissão ligavam o centenário de Fátima com a Eucaristia!