quinta-feira, 25 de agosto de 2016

‘Mediático não é roçar mato, é ter um avião a lançar calda laranja para cima das chamas’

MARTA CERQUEIRA
ionline 25/08/2016 11:12

O mea culpa de Ascenso Simões fez com que se voltasse a falar do Plano Nacional de Defesa da Floresta, de 2006: o ex-secretário de Estado de António Costa admitiu, numa tese  de mestrado recente, que foi um erro não se ter seguido a reforma que apostava na prevenção dos fogos. O coordenador técnico da equipa que elaborou o plano explica ao SOL que isso implicava um custo equivalente a três quilómetros de autoestrada por ano.
Foi preciso um cenário como o da Madeira para relembrar um plano feito há 10 anos?
Acredito que tenha contribuído bastante. O plano foi feito em reação aos anos terríveis de 2003 e 2004, desde aí não tinha havido um episódio tão concentrado como agora. A área urbana afetada na Madeira preocupa mais as pessoas e chama mais a atenção para a necessidade de repensar a situação e, nesse contexto, houve quem se tivesse lembrado que há dez anos foi publicado um  plano que só bastante parcialmente foi executado.
O que é que foi posto em prática?
Foi feito algum trabalho de prevenção, com a criação de faixas onde se reduz a quantidade de vegetação em algumas zonas. Além disso, durante algum tempo, foram criadas brigadas de sapadores mais especializados no combate ao fogo florestal e no trabalho de especialistas no combate para estudar o comportamento do fogo. Mas, com as constantes mudanças administrativas e ministeriais, algumas dessas iniciativas foram sendo desativadas.
O que ficou por fazer?
A criação de um organismo novo e que tinha funções verticais, ou seja, ia desde fazer trabalhos de silvicultura de prevenção, de abertura das tais faixas de combustível reduzido, a tarefas de vigilância. Fora da época de incêndios, era uma estrutura vocacionada para ir fazendo o trabalho de gestão da floresta para evitar fogos nos meses críticos.
Por que razão esse grupo não foi criado?
Não conheço as razões políticas, mas a proposta era que esse grupo assumisse competências e orçamentos que estavam alocados a outros organismos. Imagino que tenha havido uma oposição à mudança por parte desses organismos e o Governo decidiu não abrir guerras.
O atual Governo anunciou a criação de um grupo de trabalho para a reforma da floresta. Terá o vosso como base?
Não sei. Mas era bom que relessem o que foi escrito na altura, apesar da necessidade da sua atualização.
O ministro da Agricultura diz que já foi feita uma primeira apreciação do plano, a partir da qual decidirá sobre as medidas a manter. Teria que ser remodelado?
À velocidade com que a realidade muda, é impossível permanecer válido na sua totalidade. Mas é uma boa base de trabalho que não deve ser ignorada.
O que estava previsto?
Propúnhamos uma redução do número de fogos com área superior a um hectare e o fim dos incêndios de áreas superiores a mil hectares. 
Essas metas foram estipuladas com base em que dados?
Com base em dados estatísticos das últimas décadas, além de trabalho de campo.
Eram metas concretizáveis?
Claro que sim, não eram números tirados de uma cartola de mágico. Era ambicioso, tenho essa noção, mesmo em termos de custos.
Falamos de que valores?
Falar em dezenas de milhões de euros não diz nada às pessoas, prefiro traduzir esses valores em coisas práticas. O acréscimo de custos era o equivalente a três quilómetros de autoestrada por ano ou a meio avião Canadair. Mas a questão principal não era o acréscimo de custos, mas sim aquela que se mantém ainda hoje: a divisão entre o que é gasto no combate, face aos gastos na prevenção.
Qual é o rácio atual entre combate versus prevenção?
Deve gastar-se cerca de quatro a cinco vezes mais em combate do que em prevenção.
Mas está provado que o custo com o combate é maior.
O raciocínio fundamental é o seguinte: se se gastar mais em prevenção, a dificuldade do combate vai ser menor e, portanto, os gastos nessa fase serão reduzidos. A lógica nunca é substituir o combate pela prevenção. O combate é essencial sobretudo em situações como as deste ano, nas quais o fogo atingiu zonas urbanas.
Apesar do plano prever uma aposta na prevenção, foi no combate que o Governo então em funções apostou, com a compra de meios aéreos de combate aos incêndios.
Claramente. Aliás, os donos do problema passaram a ser o Ministério da Administração Interna e os bombeiros. O grande problema é que o fogo é visto como um problema de proteção civil e isso é uma visão muito imediatista. Por exemplo, fala-se tanto em fogos florestais quando apenas um terço do que arde é floresta. Também são afetadas áreas agrícolas, mas mais de metade do que arde é mato e pastagens, muitas vezes relacionado com práticas tradicionais. É urgente que se enquadre e se discipline essas atividades, com vigilância e punição – até porque, atenção, o fogo não é uma anomalia, nem uma coisa a suprimir no espaço rural. Há atividades agrícolas e de criação de gado para as quais o fogo é uma ferramenta de trabalho. Pode e deve ser usado de forma disciplinada, o que não é admissível são estes abusos a que temos assistido. 
Mas já que houve uma aposta no combate, acha que pelo menos isso melhorou nos últimos dez anos?
Tenho ideia que sim, nomeadamente nas comunicações e coordenação de equipas, mesmo em eventos de maior duração. No entanto, sempre que acontecem situações meteorológicas como as deste ano, com tempo quente e ventos fortes, aí é que se verificam os limites do combate e é nesses casos que a capacidade de resposta se dispersa e torna-se ineficaz. 
Em média, apesar de termos quatro meses de verão – contando de junho a setembro –, mais de 80% dos incêndios concentram-se em dez, 15 dias. Do meu ponto de vista, este é o argumento mais forte que se pode arranjar para chamar a atenção para a importância da prevenção, até porque estes picos de temperatura vão ser cada vez mais frequentes e ter uma capacidade de combate disponível o verão inteiro para estas atividades seria incomportavelmente caro. O combate tem que ser concentrado nessas duas semanas críticas, a prevenção podemos fazê-la ao longo de todo o ano.
Mas o ministro da Agricultura garante que não há sistema preventivo que chegue para o número de ignições como as deste ano. É verdade?
Se uma paisagem estiver bem gerida e bem tratada, vai reagir de outra forma, independentemente do numero de ignições. Além disso, outro dos lados da prevenção passa por diminuir o número de ignições e fazer com que aquelas que aconteçam sejam as indispensáveis para a gestão do uso da terra. 
Mas também são muitos os casos de fogo posto.
Fala-se em mãos criminosas e até em redes terroristas. Falar em crime é manobra de diversão para distrair do que correu mal no combate.
Mas podem apontar-se culpados?
O trabalho não pode ser apenas da responsabilidade da administração central. Há também o poder autárquico, que teria a função de fiscalizar aquilo que é posto em prática. Por exemplo, não se fala das festas de verão com lançamento de foguetes ou dos piqueniques com churrascos. As pessoas estão desagradadas com o que aconteceu e querem encontrar culpados e a solução mais óbvia é encontrar criminosos. Isso só revela ignorância e acontece porque a opinião pública é maioritariamente urbana e não tem  noção das práticas rurais em que se usa o fogo de forma indevida.
O verão de 2016 teria sido igual, caso o plano tivesse entrado em prática há dez anos?
A resposta a essa pergunta está carregada de incertezas, mas posso garantir que o combate teria sido mais fácil e eficaz se medidas como as chamadas faixas secundárias de gestão de combustível, aquelas de menor largura mas que ficam na envolvente de zonas edificadas, tivessem sido postas em prática de forma contínua. Os bombeiros teriam o trabalho facilitado e as pessoas estariam em maior segurança. 
Ascenso Simões fala agora em «erro grave» quando optaram pela aposta no combate. Poderia ter feito mais na altura? 
Não vou fazer julgamentos de intenções. O ex-secretário de Estado reconhece que a aposta no combate não foi a melhor solução e, ao falar do plano, está a assumir que a reorganização que propúnhamos devia ter sido considerada com mais seriedade. Não é preciso ser muito bom entendedor para perceber que ele diz que os critérios de decisão foram políticos e passaram por cima da solidez técnica e científica do plano.
E António Costa tem razões para se mostrar «chocado» por esta reforma entretanto não ter sido feita?
Na altura, era ministro da Administração Interna e Ascenso Simões seu secretário de Estado. Por isso, parto do princípio que estivesse mais informado e atento do que parece decorrer das suas últimas afirmações. Não sei se são declarações genuínas ou uma racionalização a posteriori, mas dizer que investir no combate foi uma forma de ganhar tempo para a prevenção se instalar no terreno mostra uma falta de coordenação interministerial para perceber se essa seria a estratégia mais coerente. Não ficou muito bem nessa fotografia.
O facto de os resultados da prevenção serem a longo prazo condiciona as decisões políticas?
Com certeza. Entre escolher algo que dê resultados dentro do ciclo eleitoral e escolher o que dá resultado diferidos, a tentação é óbvia. Imagina algum telejornal a abrir com meia dúzia de pessoas a roçar mato no meio de um pinhal? Isso não é sexy do ponto de vista mediático. Mediático é um grande avião a lançar calda cor de laranja para cima das chamas.

Walter Alvarez: Ciência moderna nasceu com os Descobrimentos portugueses, antes de Copérnico e Galileu

LUÍS MIGUEL QUEIRÓS Público 22/05/2014

O geólogo, que em 1980 revolucionou a ciência ao descobrir que os dinossauros tinham sido extintos pelo impacto de um asteróide, acredita hoje que a ciência moderna nasceu em Portugal. Na conferência que dá esta quinta-feira à tarde no Porto, na Fundação de Serralves, explica porquê.

Ao propor, em 1980, que o desaparecimento dos dinossauros, há 66 milhões anos, foi acompanhado pela extinção de muitas outras espécies e se ficou a dever ao impacto de um asteróide, o geólogo norte-americano Walter Alvarez tornou-se um desses raros cientistas que alteraram radicalmente a nossa visão do passado. O cientista está no Porto e dará na tarde desta quinta-feira, no Auditório da Fundação de Serralves, pelas 17h30, uma conferência intitulada O Estudo da Grande História – Supercontinentes, e como Portugal Inventou a Ciência. A sessão, que incluirá também o lançamento da edição portuguesa do seu livro As Montanhas de São Francisco – À Descoberta dos Eventos Geológicos que Moldaram a Terra, um relato das suas investigações geológicas nos Apeninos italianos, é co-promovida pelo Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, dirigido pelo biólogo Nuno Ferrand de Almeida, a quem se deve a tradução deste livro de Alvarez.
Professor na Universidade de Berkeley, na Califórnia, onde ensina Grande História, uma nova abordagem que procura quebrar barreiras disciplinares e propor uma narrativa coerente de todo o passado do planeta e do Universo, Walter Alvarez (deve o apelido espanhol aos seus antepassados asturianos) vai tentar demonstrar hoje em Serralves por que é que acredita que a ciência moderna nasceu em Portugal, com os Descobrimentos, e não com Copérnico ou Galileu, como geralmente se aceita. Nesta entrevista, avança alguns argumentos.
O título da conferência que vai apresentar em Serralves é O Estudo da Grande História – Supercontinentes, e como Portugal Inventou a Ciência. Presumo que a última parte se refira aos Descobrimentos, mas acha mesmo que marcam o início da ciência ou está a forçar o argumento para ser simpático?
Normalmente, as pessoas acham que a ciência moderna começou com Copérnico e Galileu, com Kepler e Newton. O cientista português Henrique Leitão e eu temos trabalhado juntos a partir da ideia de que talvez Portugal tenha sido o lugar onde a ciência moderna se iniciou. Escrevi com o Henrique – ele é um historiador da ciência, mas também um físico – um artigo razoavelmente extenso a defender essa perspectiva.
Uma hipótese séria, portanto?
Absolutamente. Não estou a brincar. Quer que o convença?
Faça o favor.
Numa revolução científica, e acho que os Descobrimentos foram uma genuína revolução científica, o que acontece é que alguns conceitos antigos se mostram errados e entra em cena um novo conceito. Darwin fez isso ao perceber que as espécies se formam por selecção natural, e Einstein também o fez, mostrando que Newton só tinha razão parcial e que a sua teoria não funciona quando lidamos com objectos que se movem mesmo muito depressa. No meu campo, o da geologia, tivemos duas revoluções científicas nos últimos 30 ou 40 anos. Com a tectónica de placas provou-se que os continentes se movem, e isso leva-nos aos tais supercontinentes de que falarei na conferência: agora os continentes estão aqui e ali, mas há 200 milhões de anos, o que até nem é assim tanto tempo, estavam todos juntos num supercontinente…
…mas voltando aos Descobrimentos, que conceitos é que as expedições atlânticas vieram pôr em causa ?
Numa revolução científica, as ideiam mudam, e foi isso o que aconteceu em Portugal nos séculos XV e XVI. Antes dos navegadores portugueses, os europeus recuavam a Cláudio Ptolomeu e pensavam que o Oceano Índico era completamente fechado, como um lago enorme, ao qual não se podia chegar navegando. Os portugueses mostraram que era possível atingi-lo por mar contornando a costa africana. Ou seja, todos os mapas baseados em Ptolomeu estavam simplesmente errados. Como geólogo, interessa-me a Terra, e isto era uma grande descoberta acerca da Terra.
Numa revolução científica também se desenvolvem novos instrumentos e técnicas, e foi o que os portugueses fizeram, com as caravelas e outros barcos, ou com a invenção do astrolábio. E quer outro argumento? Todas as ciências têm uma base matemática forte, e no tempo dos Descobrimentos existiu um grande matemático, Pedro Nunes. Temos cartas de matemáticos ingleses da época que dizem que ele é o maior matemático vivo. O que Nunes fez foi calcular como se pode navegar no mar alto, no Atlântico. No Mediterrâneo era fácil, ninguém se perdia. Só Ulisses é que andou lá perdido uns 20 anos...
Há pouco dizia que viveu duas revoluções científicas na geologia…
Tive essa felicidade. A primeira foi a tectónica de placas, a outra teve a ver com impactos e extinções em massa. O que acontece numa revolução científica é que é tudo tão emocionante que mal se consegue suportar a excitação. As pessoas aprendem coisas novas e não conseguem esperar para partilhar o que descobriram. Há uma atmosfera eléctrica nos encontros científicos. Henrique Leitão convenceu-me de que foi isso que aconteceu em Portugal durante os Descobrimentos. Estive nos Jerónimos e vi aqueles extraordinários motivos decorativos, com animais, pássaros, cordas, esferas armilares. Deve ter sido tudo tão emocionante, sobretudo depois de uma Idade Média em que as coisas mudaram pouco e devagar. Estou convencido de que foi mesmo uma revolução científica, e como geólogo gosto de pensar que foi uma revolução geológica que inaugurou a ciência.
No seu caso, a expressão “vivi duas revoluções científicas” é um modo bastante modesto de pôr as coisas, tendo em conta a sua intervenção directa na segunda, a que trouxe uma nova explicação para a extinção dos dinossauros.
O ensaio em que eu e o meu pai o físico Luis Walter Alvarez (1911-1988), prémio Nobel em 1968 avançamos a hipótese de que o impacto de um asteróide provocara uma extinção em massa saiu em 1980. Os geólogos estavam convencidos de que tudo o que se passara na história do planeta decorrera devagar e gradualmente. A ideia de que o impacto de um asteróide podia ter morto os dinossauros e extinguido muitas outras espécies de animais e de plantas era um anátema. Não gostavam mesmo nada dessa ideia e, na época, criticaram-me bastante severamente.
Admite que, para lá da controvérsia propriamente científica, possa ter havido uma espécie de relutância psicológica em aceitar que uma catástrofe dessas dimensões pudesse ter ocorrido? E que, consequentemente, poderia voltar a acontecer?
Pode bem ser que tenha alguma razão. O homem que convenceu os geólogos de que todas as mudanças tinham sido lentas e graduais foi um inglês chamado Charles Lyell, que escreveu o seu livro Principles of Geology por volta de 1830. É verdade que a maior parte das mudanças é lenta e gradual, mas ele afirmava que nada de catastrófico alguma vez ocorrera. Pensei muitas vezes que, sendo ele um inglês de classe alta a viver nos tempos da Revolução Francesa, não lhe deveria agradar muito a ideia de mudanças bruscas e de catástrofes. Mas Lyell não era só um geólogo, era também um advogado, e por isso era muito bom a convencer as pessoas.
Um momento decisivo no processo que levou à sua descoberta foi a constatação, quando estudava formações rochosas em Itália, de que havia uma presença invulgar de irídio – um metal raro que costuma encontrar-se em meteoritos – num estrato argiloso que dataria mais ou menos de há 66 milhões de anos. Passar da anomalia na concentração de irídio para a teoria de que um asteróide extinguira os dinossauros não foi um salto um bocado ambicioso, ainda que lógico?
Talvez pense que a ciência é muito lógica, mas a verdade é que andamos aos tropeções, procurando respostas que ninguém ainda deu. Mesmo após a descoberta do que se passava com o irídio, estivemos um ano inteiro a colocar diferentes hipóteses até chegarmos à ideia do asteróide.
E quando descobriram a concentração anómala de irídio, já andavam a pensar na extinção dos dinossauros?
Sim. Tínhamos estado a trabalhar nessas rochas em Itália, analisando camada sobre camada sobre camada. Eram depósitos marinhos e não tinham dinossauros, mas tinham micro-organismos fossilizados que surgiam em todas as camadas e que, de repente, desapareciam de forma brusca. Escapavam alguns mais pequenos, mas os grandes desapareciam todos: era quase uma extinção em massa.
O passo seguinte foi constatar que esses micro-organismos e os dinossauros tinham sido extintos no mesmo período?
Sabíamos que o período era pelo menos aproximadamente o mesmo, e fazia sentido que duas extinções súbitas ocorridas simultaneamente tivessem sido provocadas por um único acontecimento.
Mas teve de esperar uma década até se descobrir em 1991, no golfo do México, a cratera submersa que testemunhava o impacto desse asteróide cujo embate deduzira. Presumo que se tenha sentido satisfeito quando a encontraram.
Nem imagina como foi emocionante, apesar de nessa altura a teoria já ser aceite pela maior parte dos geólogos. E mesmo hoje há alguns que não acreditam nela, mas são poucos.
Há quem defenda que a extinção em massa pode ter-se ficado a dever à conjugação do impacto do asteróide com uma fase de actividade vulcânica particularmente intensa.
É uma hipótese que não afasto inteiramente, só discordo dos que pretendem que o impacto do asteróide não teve nada a ver com a extinção.
Crê-se que essa extinção, a que os cientistas chamam extinção do Cretáceo-Paleógeno (K-Pg), antes conhecida como extinção do Cretáceo-Terciário (K-T), terá eliminado cerca de três quartos de todas as espécies então existentes. Sabe-se por que motivo escaparam as restantes? E o que fez dos dinossauros vítimas ideais?
Sabemos pouco sobre isso. O impacto do asteróide deve ter provocado muitos distúrbios ambientais, e até temos provas de que alguns deles ocorreram. Mas não podemos afirmar que esta espécie morreu por causa do frio e da escuridão e que aquela se extinguiu pelo fogo, ou algo assim. Não há provas. De resto, como se pensa que as aves descendem dos dinossauros, nesse sentido os dinossauros não se extinguiram.
Ensina Grande História (Big History) e é um dos cientistas que mais têm contribuído para divulgar esta nova disciplina. Quer resumir o que é a Grande História e quais são as principais vantagens da abordagem que ela propõe?
No mundo académico, as disciplinas estão muito separadas umas das outras: as pessoas dos departamentos de paleontologia e astronomia não têm nada a dizer umas às outras, e as que estudam a história da espécie humana não têm nada a dizer nem a umas nem a outras. Achámos que era uma pena e foi assim que surgiu a ideia da Grande História, cujo objectivo é pensar tudo o que aconteceu no passado, desde o início do tempo, e criar uma história coerente, quebrando barreiras entre disciplinas.

Já não há isenção? Não minha Senhora!

Maria Rebelo
A mãe da Maria, Agosto 23, 2016
Ontem foi dia de passar pelas Finanças. Quem tem um automóvel para transporte de pessoas com deficiência motora, tinha até este ano isenção do IUC (Imposto Único de Circulação). Olhando para os entraves e dificuldades que as pessoas com deficiência motora enfrentam nos transportes públicos faz todo o sentido.
Para haver direito a esta isenção, todos os anos temos de ir às Finanças fazer “prova de deficiência”. Mas afinal o que é isso de fazer “prova de deficiência”? É ir às Finanças apresentar o documento oficial onde está descrita a percentagem de incapacidade.
Falando do nosso caso em particular, a Maria tem uma “incapacidade permanente de 97%”, o que torna esta prova anual estranha. Então se é permanente, nunca vai mudar, não é?
Várias vezes falei com os funcionários nas Finanças e a resposta foi sempre a mesma:
– Sabe minha senhora, é que há muita fraude! – Respondi sempre da mesma forma:
– Mas é permanente, porque é que temos de passar por isto todos os anos?
Cheguei mesmo a brincar com a situação e houve um ano em que disse:
– Olhe afinal a minha filha já não é deficiente. Tinha 97% de incapacidade permanente, mas agora já está tudo ok!
A funcionária que me estava a atender, ficou de boca aberta e perguntou:
– Mas como é que isso é possível? A menina não tinha incapacidade permanente?
Apenas sorri e respondi:
– Estava a brincar consigo. Gostava muito de dar essa noticia às Finanças, mas não! Era só para que entendesse o que sinto, todos os anos quando tenho de vir aqui fazer prova de deficiência da minha filha, que tal como referiu tem uma incapacidade permanente.
Hoje durante a manhã lá fui. Mal apresentei os papeis, a funcionária tirou uma conta e deu-me para pagar.
Perguntei-lhe o porquê, pois se estávamos isentos. A resposta não se fez esperar:
– Minha senhora este ano o Orçamento de Estado não contempla isenções de IUC que tenham valor superior a 200€. A aplicação da alteração foi no passado dia 1 de Agosto.
Rapidamente respondi:
– Então temos de pagar a diferença, não é?
Para meu espanto a resposta chegou:
– Não! Se for inferior a 200€ está isenta. Se for 201€ já tem de pagar a totalidade.
Até fiquei “zonza”, mas não tive outra alternativa se não pagar e calar.
Agora aqui entre nós, mas não tinham apregoado que não haveria aumento de impostos? Mais uma vez, de forma subtil e silenciosa, cortaram nas poucas isenções que as pessoas com deficiência tinham, aumentando-lhes a carga fiscal.
Fica aqui a dúvida, será que a comunicação social ainda não notou?
A mãe da Maria (Ana Rebelo)

Francisco Rodrigues dos Santos. “Queremos uma juventude do povo! Não temos de ter medo de dizê-lo”

SEBASTIÃO BUGALHO
ionline 25/08/2016

Autarca em Carnide depois de uma adolescência no Colégio Militar, Francisco Rodrigues dos Santos não tem papas na língua. É conservador, não quer mais Europa e gostava de ver Portas em Belém.

Recentemente escreveu na sua página de Facebook: “Foi preciso apagarem a chama olímpica para ficarmos a saber que participou nos Jogos do Rio de Janeiro um país chamado União Europeia, o qual se distinguiu por ter ganho o maior número de medalhas. O meu venceu apenas uma de bronze. E eu continuo a ser português e a prescindir das outras todas.” É um eurocético?
Sou um “eurocontido”. Desde a altura em que o CDS era assumidamente eurocético que o partido se encontra um pouco esvaziado de discurso europeu. Acho que é importante, numa altura em que a Europa está a sofrer algumas convulsões internas, os partidos portugueses terem um debate gradual e informado sobre a integração europeia.
É, portanto, um soberanista?
Sou um soberanista confesso, mas isso não nega uma orientação europeia num quadro mais conservador que veja os Estados-nação como expressão de autodeterminação dos povos, essencial para a integração europeia posterior. 
E nos últimos anos perdemos essa autodeterminação?
Tem-se esbatido. Está a seguir-se uma linha progressista e iliberal, à imagem do que era o espírito dos seus fundadores, que esqueceu fatores demasiado importantes. Se a Europa vive das suas diferenças, querer construir um federalismo sem povo é um erro.
Terá sido essa uma das causas do Brexit?
É verdade. E o que me provoca alguma aflição é a Europa ter respondido a fenómenos como o Brexit com mais Europa, quando o problema é precisamente a conceção cada vez mais socializante que a Europa está a tomar, evidenciando défices democráticos. O escrutínio às instâncias europeias é cada vez menor, há burocratas que ninguém sabe como foram parar aos centros de decisão.
Precisamos então de menos Europa?
Não digo menos Europa porque não quero retroceder, mas uma Europa de maior qualidade. Fazer uma integração mais gradual e com maior afinidade com as pretensões de cada Estado.
Quando o Partido Socialista, que é o partido português com maior tradição europeísta, entra numa linha eurocética, consegue compreender o ponto?
Compreendo à luz das circunstâncias económicas em que Portugal vive. Não compreendo, e é inaceitável, atendendo ao histórico da doutrina internacional do PS. A Europa é usada como bode expiatório para os fracassos socialistas.
Mas a doutrina internacional durante os tempos de Paulo Portas no CDS também terminou altamente europeísta...
Altamente europeísta no sentido de respeitar e honrar os pactos celebrados com o Estado português.
Mas antes do Tratado Internacional e da intervenção da troika, Portas já defendia a Europa.
O CDS é europeísta e eu sou um europeísta. Mas não me insiro no eixo federalista porque tudo aquilo que extravasar a união aduaneira e o mercado único construirá uma Europa que se transforme num projeto em que os povos não se reveem.
Com a polémica da ida pela primeira vez a um congresso do MPLA, houve sugestões de que Assunção Cristas ia afastar-se da doutrina internacional de Portas.
Eu não creio, pelos esclarecimentos da direção e da presidente, que haverá uma reversão na doutrina internacional do partido.
Depois da gafe de Hélder Amaral - representante oficial do CDS -, a relação do partido com Angola manter-se-á?
Vai manter-se a mesma, certamente, e eu quero aqui delimitar duas fronteiras. Uma coisa é um partido e outra coisa é o Estado angolano.
Do seu ponto de vista são duas coisas separadas?
Do meu ponto de vista são realidades muito homogéneas. O CDS é um partido de tradição democrática, pluralista, do tipo ocidental. Obviamente que não corroboramos um sistema de partido único. O voluntarismo das declarações do Hélder Amaral permite entendimentos desviantes mas que já foram esclarecidos.
Disse ao i que o MPLA e o CDS são “antagónicos”.
Claro. O CDS é um partido personalista, humanista, democrata cristão, que respeita as liberdades civis.
Mas um partido com um discurso soberanista vai a um congresso estrangeiro dizer “a nossa presidente é angolana?”
A nossa presidente não é angolana, é portuguesa nascida em Angola. Há uma grande diferença e acho que isso foi um lapso de expressão.
Mas Hélder Amaral diz que não retira o que disse...
O Hélder Amaral emendará a mão se assim o entender. Os riscos que corre por não se retratar são da sua conta. O partido tem uma posição clara e o partido é muito mais que o Hélder Amaral.
A ideia de que o CDS ganhará distância do regime angolano faz sentido?
Não sinto isso. Aliás, seria contraproducente por não ir de encontro ao conceito estratégico nacional. Angola é um país irmão que também faz parte da CPLP.
Não vai haver uma demarcação da direção de Assunção Cristas em relação ao legado de Paulo Portas?
Até ver, não. Se mais tarde houver uma mutação desse entendimento, será ao abrigo dos órgãos nacionais do partido.
Para si, Paulo Portas foi o líder mais marcante da história do CDS?
Todos os líderes do partido tiveram uma relevância histórica que é importante saber ler à luz do contexto da época. Paulo Portas foi o presidente com mais anos em funções, e por ser um líder carismático, com rasgo e com uma intuição política invulgar, condicionou muito o conceito ideológico do CDS moderno. Se me pergunta se, na sua génese ideológica, os fundadores como Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa foram os mais marcantes na construção do partido, sim. Se me pergunta, no CDS que conhecemos hoje, o líder que o catapultou para uma aceitação popular depois de um período em que estávamos a definhar, foi Paulo Portas.
Foi ele que o inspirou a vir para a política?
Teria vindo para a política e para o CDS independentemente de Paulo Portas, que nunca deixará de ser uma enorme inspiração. Mas a minha grande referência política é o meu avô. Ensinou-me que a política enquanto profissão cívica é a mais alta forma de caridade.
O seu avô que foi vice-presidente de câmara em Oliveira do Hospital pelo PSD?
Sim, embora hoje esteja mais próximo do CDS.
Graças a si?
Não só. Teve muitas desilusões com o PSD.
Porquê?
Pela falta de ética que alguns dos seus representantes locais apresentaram no exercício de funções.
Filiou-se durante a liderança de Paulo Portas?
Filiei-me quando Ribeiro e Castro era presidente, mas senti-me mais realizado através da liderança de Paulo Portas.
Portas, não tendo sido da Juventude Popular, foi um presidente amigo da JP?
Foi porque soube reconhecer talento, proporcionando uma transição para o partido com margem de influência. Deu muitas oportunidades à Juventude Popular.
Neste momento, a JP é a única jota sem assento no parlamento...
Olho para esse facto com alguma apreensão e a nossa comissão política nacional tem a pretensão de voltar a dispor de representação parlamentar. Portugal não está condenado a ter apenas duas grandes juventudes partidárias.
Qual seria a diferença entre um deputado do CDS e um deputado da JP naquela bancada?
Um deputado da Juventude Popular frequenta os meios de todos os jovens portugueses e tem presentes as suas preocupações. A voz de um deputado da JP é irreverente, desinstalada e o seu primeiro compromisso são os jovens, independentemente da sua filiação.
E também mais “eurocontida”?
Estaríamos centrados nas políticas de juventude, para a vida dos jovens. Mas seríamos uma voz mais “eurocontida” no parlamento e isso faz falta a Portugal.
É esse o caminho para o centro-direita reconquistar os 700 mil eleitores que perdeu nas últimas eleições?
A Juventude Popular procura reconstruir o centro-direita português, um centro--direita capaz de se relacionar de forma diferente com a Europa, que não enverede pelos ímpetos federalistas de alguma direita. Nós somos a primeira linha da renovação do partido, a certeza da sua continuidade. Queremos ajudar o CDS a ser um partido autónomo de governo. Queremos ser a geração que coloca os pais a votar nos filhos, e não os filhos a votar nos pais.
Sente que o partido confia na JP para tudo isso?
Tenho a certeza de que o partido confia na Juventude Popular, mas essa confiança também terá de ser materializada em opções políticas que nós queremos ver plasmadas em futuras eleições. Se não nos derem oportunidade de exercer o poder público, claro que a nossa margem de influência tende a reduzir-se.
E como viu a chegada de Assunção Cristas a líder do CDS?
Cheguei a presidente da JP um pouco antes das eleições internas do partido. Cristas e eu temos percursos diferentes, eu fiz o percurso todo na estrutura, mas a verdade é que essa diferença é positiva na esfera dos partidos. Assunção Cristas preconiza uma via de admissão no partido pela sociedade civil, pelos méritos profissionais. Era uma professora de Direito a quem foi reconhecido valor e foi uma importação do CDS que resultou. A prova disso é que é hoje presidente do CDS com todo o mérito.
O Nuno Melo ainda é um dos mais queridos das bases do partido?
O Nuno Melo é um dos mais brilhantes parlamentares europeus. Representa os valores do partido cá dentro e lá fora. Tem percurso de escola no partido e carisma de líder. É natural que as bases sintam carinho por ele, como sentem pelas principais figuras do partido.
Como encarou a Juventude Popular a nova direção?
Com uma grande esperança de que a figura de Assunção Cristas toque os portugueses, que a sua liderança atinja novas franjas do eleitorado e que o CDS se renove e se apresente de cara lavada.
Era preciso lavar a cara depois de Paulo Portas?
Embora necessário, a governação de centro-direita foi austeritária. Havia que cumprir obrigações vinculadas pelo governo socialista anterior para devolver soberania a Portugal. O desapertar de cinto no final da legislatura foi muito ténue e esse era o caminho responsável que o governo estava a fazer. É nessa senda que se deve inserir o discurso do CDS.
É preciso refrescar depois da austeridade, então?
A austeridade era inevitável porque estávamos à beira de uma bancarrota. Mas o CDS deve refrescar-se. Só assim haverá um novo horizonte de esperança, sendo um partido desempoeirado que responda às dificuldades dos portugueses.
E mais concretamente por onde vai essa estratégia?
As autárquicas, por exemplo, são um ponto fulcral para a implantação do partido. Adelino Amaro da Costa tinha uma frase muito curiosa: as autarquias estão para os partidos democratas-cristãos como os sindicatos estão para os partidos comunistas. O crescimento do CDS pode ser alicerçado no poder autárquico. Há muitos fantasmas da oposição sobre não estarmos preparados para o poder local. Isso não é verdade.
Lisboa é o grande objetivo?
Em Lisboa temos Fernando Medina, que é um presidente não eleito. Falta-lhe legitimidade democrática para o exercício de funções, embora formalmente preencha os requisitos. Falta-lhe o batismo do voto e os lisboetas sabem que Medina nem sequer é de Lisboa, é do Porto. Este conjunto de obras que mergulhou a cidade no caos visa apenas a conquista do poder através do despesismo e do betão.
O que falta à capital?
Faltam medidas de inclusão, faltam medidas que promovam o arrendamento, especialmente o arrendamento jovem. Lisboa é uma cidade cada vez mais envelhecida. E falta responder aos desafios da cidade no que toca ao turismo.
O ex-secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, fez um trabalho reconhecido. É por essa linha?
Sem dúvida. Desburocratizando e removendo taxas. O João Gonçalves Pereira tem feito um trabalho extraordinário como vereador do CDS. Tem liderado toda a oposição contra o socialismo de Medina.
Fala-se muito de uma eventual candidatura de Assunção Cristas.
A JP apoiaria sempre a nossa presidente. Sabemos que a câmara da capital dá uma projeção política próxima do governo. Sendo um projeto de grande envergadura, não seria despiciendo vermos a líder do partido abraçar essa oportunidade.
Nos costumes, a Juventude Popular tem assumido uma agenda conservadora.
Nós defendemos um Estado laico, que não haja dúvidas. Quando dizemos que somos democratas cristãos, não significa que não defendamos a separação de poderes. Aliás, temos jovens democratas cristãos conservadores, liberais. Cada um tem a sua liberdade de pensamento.
E quando juventudes como a JS clamam a liberdade da mulher para a interrupção voluntária da gravidez?
Nós somos expressamente contra o modelo atual, que isenta as mulheres das taxas moderadoras. Colocamos a dignidade da pessoa humana no centro de todas as políticas.
O aborto devia ser um crime?
Devia ser criminalizado, sim. Devíamos regressar ao modelo anterior.
A JP defende outro referendo?
Defendemos um novo referendo ao aborto com uma análise de todos os dados estatísticos para decidirmos se queremos ou não colocar a dignidade da pessoa humana no centro da política.
E esta é uma posição que assume não ter a ver com ligações à Igreja?
Tem a ver com alguns princípios que bebem da doutrina social da Igreja, como o valor da vida. Isto é importante dizer. A JP defende a vida da conceção à morte natural. Nada deve opor-se à vida por mero egoísmo.
Defendem uma família tradicional.
Pessoalmente, acho que o casamento é um instituto secular na sociedade. O casamento, por génese, é entre um homem e uma mulher. Causa-me algum pudor dizer um dia aos meus filhos que a ligação que me une à minha mulher é a mesma que une dois homens, porque os propósitos são diferentes. Não me faz confusão que haja uma chancela do Estado que una dois homens, mas não devia chamar-se casamento.
E a adoção?
Sou francamente contra a adoção por casais homossexuais. O objetivo é reproduzir a filiação natural e nenhuma filiação é natural com duas pessoas do mesmo sexo. Deve haver uma complementaridade entre o papel da mãe e o papel do pai no desenvolvimento da criança.
Durante o governo PàF, a ministra da Justiça mostrou interesse na liberalização das drogas leves.
Nós somos contra. Achamos que é um caminho para a degradação do homem.
Sobre o seu percurso pessoal, a política não foi a prioridade?
Queria que os alicerces da minha vida fossem sustentados no meu mérito académico e profissional. Tirei uma licenciatura em Direito, frequentei mestrado e comecei a trabalhar num escritório de advogados, onde ainda me encontro.
Quem é que o trouxe para dentro da “jota”?
Durante os quatro anos da licenciatura empenhei-me em ter bons resultados e ambicionar um bom emprego. O associativismo que fiz nessa altura foi sempre ligado à academia, porque não conhecia ninguém na Juventude Popular. Foi uma adesão simplesmente ideológica. O único amigo que tinha da JP, dos tempos do Colégio Militar, até emigrou.
Não houve nenhum momento determinante?
Quando o Paulo Portas proferiu uma alocução na abertura do ano letivo no Colégio Militar. Ele era ministro da Defesa e fiquei maravilhado com a retórica, com a eloquência e com o sentido de Estado, e não mais me esqueci. Mas a razão estrutural foi a afinidade com os princípios do CDS.
E não conhecendo ninguém, como chegou a presidente?
Na política e em tudo o resto, fui um self-made man. Construímos uma equipa com gente nova e com credibilidade. Em 2012, candidatámo-nos e ganhámos a concelhia de Lisboa da Juventude Popular. Depois foi vir trabalhando até aqui.
O que procura nas pessoas que trabalham consigo?
Têm de vir para a política acrescentar valor. Ou através da sua vida académica ou através da sua vida profissional. Não quero que se filiem na JP e olhem para a política como profissão, como carreirismo. As juventudes partidárias não são centros de emprego. Têm de apostar na sua formação académica. Sempre defendi que a política pode ser viciante, mas não gerar dependências.
A sua prioridade parece mais a sociedade civil do que a própria classe política.
Sem dúvida. Queremos uma juventude do povo! Não temos de ter medo de dizê-lo. Povo é a população, os nossos vizinhos, os nossos amigos, a nossa família, e a JP procura proteger o seu interesse geral. O povo não é património de nenhuma força política.
E acha que o povo português foi protegido no caso dos gémeos iraquianos em Ponte de Sor?
O caso da agressão ao Rúben Cavaco revelou uma fraqueza quase ridícula das autoridades portuguesas. O Estado devia inteirar-se dos factos e, pelo menos, ameaçar com a expulsão do embaixador do Iraque e solicitar imediatamente o levantamento da imunidade diplomática dos seus filhos.
O governo de António Costa vacilou?
Vacilou e não fez tudo para proteger o jovem lesado e proteger os valores da nossa cultura que não podem ser transpostos.
Com Paulo Portas nos Negócios Estrangeiros, isto não aconteceria assim?
Evidentemente que não.
As opções de carreira depois de sair da política não têm sido as melhores para a imagem do CDS. Ricardo Costa, um dos seus melhores amigos nos jornais, escreveu que Portas “perdeu a noção”.
O partido e o dr. Paulo Portas são figuras autónomas. Mas, sobre o dr. Paulo Portas, quero dizer isto: seria um profissional de exceção em qualquer área que decidisse abraçar. Tem uma inteligência superior.
Ele tinha falado em fazer empresas. Acabou por ir para uma das empresas com mais interesses em Angola depois de ter defendido o regime no seu último discurso à frente do CDS...
Não concordo com essa leitura.
Nega que haja qualquer ligação entre o papel de Portas como governante e os novos empregos como consultor de empresas?
Nego. Não houve qualquer ingerência. Sempre vi o dr. Paulo Portas como um político idóneo que colocou os interesses do país acima das pretensões pessoais. Tanta gente critica os que são dependentes da política mas, quando alguém sai e consegue ter uma carreira profissional, também é criticado. Ele nunca usou a política para benefício próprio.
O Francisco teria ido para a Mota-Engil depois de ser vice-primeiro-ministro?
Não conheço os termos em que o convite foi feito nem sei os moldes em que é dada essa parceria, por isso não consigo pôr-me no ponto de situação do dr. Paulo Portas. Foi uma decisão pessoal, uma opção de vida.
Ainda acha que o vai ver em Belém?
Não faço a menor ideia. Posso dizer que gostava de o ver na Presidência da República e, se daqui a cinco ou dez anos ele estiver nessa disponibilidade, contará com o meu apoio pessoal.
Mas tendo em conta as opções de vida que referiu, tornou-se mais improvável...
Não vejo porquê, sinceramente. Defendo a independência face à política e ele está a plasmar isso. Deixar a vida política ao fim de 16 anos, conseguir o seu sustento em empresas de renome deve merecer o nosso aplauso, e não a nossa condenação. Queriam o quê? Que se reformasse à custa do contribuinte? Lamento, mas nós preferimos a meritocracia à invejocracia.

Democracia em bruto

João César das Neves
DN 20160825
O sistema democrático norte-americano é impressionante. Não é preciso admirá-lo, ou sequer gostar dele para o achar impressionante. Uma coisa destas tinha de existir, mesmo que só para se verem as qualidades e os defeitos. Ela é impressionante quando funciona bem e quando funciona mal. Ambas as situações são visíveis nas eleições deste ano.
A origem da turbulência é óbvia e genérica. As magnas perturbações do nosso tempo em termos geopolíticos, financeiros e tecnológicos criam descontentamento generalizado em todo o mundo desenvolvido. Incomodadas com as novidades, as populações favorecem o empolamento das forças extremistas, de direita ou de esquerda.
O choque é comum, mas cada sociedade lida com ele à sua maneira. Nos EUA a questão adquire um alvoroço e uma profundidade únicos. A partir de agora, quando os dois candidatos se defrontam diante do povo, a situação segue o padrão normal. Mas nos longos meses das primárias, procedimento peculiar e próprio dos Estados Unidos, viu-se bem a gravidade do momento.
O Partido Democrata mostrou como, debaixo de intensa pressão, as coisas podem correr bem. Havia um candidato destacado, que perdera da última vez e se apresentava de novo com força. Hillary Clinton não é uma boa candidata, mas está longe de ser uma má candidata. Tem vasta experiência, grande inteligência e o atractivo de ser a primeira mulher apresentada por qualquer dos grandes partidos. Seria sempre uma aposta sólida. Há oito anos já era favorita, mas aconteceu o inesperado: um jovem e inexperiente senador capturou a imaginação nacional e roubou-lhe a eleição. O regresso após longa espera acrescentou persistência às qualidades da ex-primeira-dama, mas também lhe trouxe banalização. Quando parecia ter a coroação incontestada, um velho e experiente senador surgiu com uma plataforma de extrema-esquerda (à americana, muito diferente da europeia) e tudo pareceu repetir-se. A ironia da situação é que em certas dimensões não podia haver distância maior entre Obama e Sanders, mesmo se ambos vêm da ala esquerda.
A vantagem do desafio é que fez funcionar o debate e trouxe interesse à campanha. Podia ter corrido muito mal, fracturando o partido e criando animosidade inconciliável, sobretudo quando Sanders recusou declinar mesmo diante da derrota óbvia. O suspense permanecia ainda na convenção, de 25 a 28 de Julho em Filadélfia, mas o sistema funcionou. O derrotado apoiou a vencedora, que agora tem todo o partido atrás de si. Foi um sucesso impressionante.
O impressionante fracasso aconteceu no Partido Republicano. O drama é precisamente o mesmo do outro lado; mas a resposta foi um fiasco. E o fracasso não se chama Donald Trump; chama-se Partido Republicano. Trump é apenas o corolário. Quando uma campanha se transforma numa luta de taberna, não admira a vitória de um arruaceiro. O partido está na oposição há oito anos e, como lhe competia, teve as vitórias intercalares em 2010 e 2014, até mantendo o domínio da Câmara no ano da vitória democrata de 2012. Esta situação deveria ter gerado um candidato forte, como acontecera em todas as últimas eleições presidenciais. Em vez disso surgiram 17 grandes candidatos, boa parte deles com excelentes referências, que evidentemente se anulavam uns aos outros. Quanto mais mostravam as suas qualidades, mais confusos os eleitores ficavam. O resultado foi ganhar o pretendente que não tinha nenhuma vantagem, a não ser a de mostrar que evidentemente não a tinha. Sem experiência, sem sensatez, com um passado vergonhoso, a única excelência de Trump era ser disparatado. O que se mostra sinistramente atraente em tempos de irritação.
Lançando relutantemente o seu candidato na Convenção de 18 a 21 de Julho em Cleveland, o partido atingiu um dos pontos mais baixos da sua história. A desconfiança entre Trump e a máquina é recíproca e palpável. Parece que o melhor cenário para todos os envolvidos será uma fragorosa derrota em Novembro. Qualquer alternativa implica um doido a sabotar o aparelho no horizonte previsível. Uma vitória seria um pesadelo inconcebível para a América, para o mundo, mas sobretudo para o partido que o gerou.
Isto só pode acontecer neste sistema. Aliás, o próprio Trump demonstra a solidez do regime, pela sua candidatura falhada em 2000 fora dos partidos tradicionais. Em qualquer outro país, uma situação tão extrema implicaria quebra das regras, violência ou revolução. Aqui, tudo segue como sempre, com os mesmos procedimentos, o alvoroço e a profundidade habituais. Até na beira do abismo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A razão de Passos

João Gonçalves | Jornal de Notícias | 20160822

Os partidos que hoje apoiam o Governo viveram praticamente os últimos anos na rua, a berrar, nas televisões e nos jornais a apontar o dedo e a "denunciar", nas redes sociais, com os seus voluntários ou avençados, a surpreender por detrás de cada membro do Executivo de Passos um candidato a "fascista" ou um malandro puro. Havia reportagens sobre a "geração mais bem preparada de sempre" que, aos 500 mil, tiveram de "emigrar" em virtude da maldade intrínseca da Direita. Mostravam-se filas matinais nos centros de emprego, "plenários" dos explorados trabalhadores dos transportes públicos municipais, apareciam "precários" como cogumelos em entrevistas e nas ditas redes. Relinchava-se por pelourinhos e demissões. O país era uma miséria institucionalizada pela Direita e aos bonzinhos das Esquerdas competia a tarefa patriótica de alterar tudo isso, primeiro pela habilidade comunicacional e, depois, nas urnas em que Costa falhou. Como não se muda um país em oito meses, tenho de presumir que estas Esquerdas estão confortáveis com tudo o que enumerei a título meramente exemplificativo. E as respectivas corporações também. Voltaram os melancólicos expatriados? Não voltaram. Criaram-se mais postos de trabalho duradouros? Não criaram. Melhorou a prestação dos transportes públicos urbanos? Não melhorou: apresentam todos os dias "perturbações na circulação". O consumo interno é "o" modelo? Não é. A balança comercial externa robusteceu-se graças a Centeno, Cabral, Catarina e Jerónimo? Antes pelo contrário. A percepção de credores, e da informação financeira e económica dos credores, melhorou? Não, como se viu ainda esta sexta-feira com os juros da dívida de maior maturidade a 3%. A carga fiscal foi aliviada e a administração dos impostos dá-se ao respeito? É o que se vê, com um secretário de Estado politicamente pífio e conhecido, até lá fora, pelas travessuras no IMI. A culminar este panorama devastador, mais vale pedir ao Governo para não mexer mais na Caixa Geral de Depósitos. Os episódios com a futura Administração têm sido por demais repugnantes e reveladores de um amadorismo doloso que legitima a pergunta: quais são as condições de autoridade do futuro presidente do banco? Nenhumas. Passos Coelho pode improvisar mal. E estar em minoria diante do charco de falsidades, farsas e festividades em que Costa, aliados formais e informais nos estão a meter. Mas é o único com razão.
Leia mais: A razão de Passos http://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/interior/a-razao-de-passos-5350012.html#ixzz4I3YJDOo3 
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