quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Sínodo em família

JOÃO CÉSAR DAS NEVES | DN 2014.10.22

Os jornais são claros: a Igreja está dolorosamente dividida nas questões da família. O Sínodo dos Bispos, terminado no domingo, manifestou a polémica que irrita os fiéis e confunde o mundo. Irá finalmente a Igreja Católica aceitar o que toda a gente diz? E, ao fazê-lo, desvirtuará para sempre a doutrina, atraiçoando o Mestre? A confusão é profunda e generalizada!
Pode ser confuso, mas não é novo. Vivemo-lo há muito tempo, durante o Concílio. O de Niceia em 325, ou qualquer um dos 21 ecuménicos, incluindo o último, Segundo do Vaticano de 1962 a 1965. Estes, entre muitos outros, foram momentos difíceis, confusos, até cruéis, com muitos desorientados, atingidos, enfurecidos. Difíceis mas não inesperados, pois tínhamos sido avisados: "Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; confundidos, mas não desesperados; perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não aniquilados. Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo" (2Co 4, 8-10).
A origem dos alvoroços é sempre a mesma. A doutrina é clara, sólida, indiscutível, vinda do mais alto dos céus. Aí não há dúvidas. A confusão está na vida, que brota do fundo do coração dos homens. Como a doutrina só existe na vida, é preciso combinar ambas. Ninguém sabe isto tão bem quanto os cristãos, cuja doutrina se fez homem e habitou entre nós. Assim os dramas dos últimos dias, como dos próximos meses, são os de sempre. Em especial, pela proximidade, assemelham-se aos vividos há cinquenta anos. Essa experiência traz-nos grandes lições e evita muitos sofrimentos, se tivermos em conta as três grandes ofertas que a época do Concílio Vaticano II nos deixou, para minorar conflitos e sarar angústias.
O primeiro dom foi um sábio conselho. Não nos preocupemos ou escandalizemos com debates, polémicas, zangas e sofrimentos. Eles fazem parte da vida humana em qualquer instituição, especialmente numa tão vasta, antiga e decisiva como a Igreja. A nossa confiança é sólida porque, além de avisados dos tumultos, fomos também informados do resultado: "Anunciei--vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: eu já venci o mundo!" (Jo 16, 33).
A segunda dádiva da época do Concílio foi um precioso ensinamento prático: ordem. Na Igreja os pastores guiam e as ovelhas seguem. Se os primeiros se demitem ou as segundas se exaltam, as coisas correm mal. Que cada um saiba o seu lugar e não trate daquilo que não lhe compete. Se nos pomos todos a perorar, é o caos. Especialmente em temas superlativos.
Cada tempo vive os seus problemas, e as questões deste sínodo foram muitas, difíceis e complexas. Acesso aos sacramentos por casais irregulares, acolhimento a divorciados, uniões de facto, homossexuais são dilemas pastorais profundos e espinhosos que, como os dramas do século IV ou dos anos 1960, não têm respostas simples e evidentes. Dizendo sim ou não, só pode apregoar certezas claras quem escamoteia aspectos essenciais. Felizmente isto não nos compete, pois só quem sabe e manda tem de o fazer.
O peso da análise e decisão cai todo sobre um só homem: Francisco, o Vigário de Cristo. O que ele disser definirá, em absoluto, a aplicação que a Igreja fará hoje da doutrina eterna que recebeu de Jesus. Consciente das dificuldades, Sua Santidade pediu ajuda, convocando um sínodo. Deste modo distribuiu parte da sua carga aos 191 padres sinodais, ajudados por 62 peritos. Os resultados da reunião, agora divulgados, foram entregues aos bispos diocesanos e seus colaboradores, para aplicação concreta na vida das igreja locais. Estes dão as respostas. A eles devemos interrogar e escutar. Aos outros, hoje como sempre, compete-lhes rezar pelos pastores, esperar pelas determinações e obedecer quando elas vierem. Esta é a ordem.
O mundo, que compreende mal os hábitos cristãos, procura padres sinodais debaixo de qualquer pedra, atribuindo competência disciplinar a quem a quiser assumir. Sempre fizeram assim, e é normal que o façam. Como também é natural que os fiéis não se deixem assustar por isso. Para ajudar, o sínodo quis trazer-nos o terceiro presente do Concílio. A proclamação ao mundo da santidade do grande Paulo VI no último dia do sínodo é o mais valioso dos três dons. O papa Montini, a quem o Senhor confiou a Sua Igreja no último período homólogo, é, não apenas um exemplo e um mestre, mas um poderoso intercessor para os caminhos actuais da Igreja e da família. Beato Paulo VI, rogai por nós!

Sacerdotes focolarinos em Assembleia. Eleito o novo responsável: Padre António Bacelar da diocese do Porto

Movimento dos focolares | 21 Outubro 2014

De 13 a 17 de outubro realizou-se a Assembleia dos sacerdotes diocesanos e diáconos focolarinos. Foram 90 os participantes, de 30 países, representantes dos cerca 800 componentes de 140 focolares sacerdotais presentes no mundo. Eleito o novo responsável. Um balanço dos últimos seis anos com um olhar ao futuro.

Responder, junto com todo o Movimento dos Focolares, às exigências da Igreja e da humanidade; experimentar caminhos novos para ir ao encontro de todos, plenamente conscientes da própria identidade e da contribuição específica a dar: «As periferias são também os nossos doentes, os idosos, aqueles que deixaram o ministério…, periferia é a própria Igreja quando está distante de ser aquela que Deus quer». Em síntese este foi o pensamento que emergiu dos «cinco dias intensos e ricos de comunhão e de grande alegria», como contou um dos presentes, descrevendo a experiência vivida no Centro Mariápolis de Castelgandolfo (Roma) com a Assembleia dos sacerdotes focolarinos.
O programa previa, após a aprovação do regulamento e da programação, um dia de retiro e a relação dos seis anos passados, com a abertura às novas perspectivas. Em seguida, trabalhos por grupos temáticos e a eleição do novo responsável central. O último dia foi dedicado às orientações para os próximos seis anos e ao diálogo com a presidente dos Focolares, Maria Voce, e o copresidente, Jesùs Morán.
As meditações matutinas, com trechos escolhidos de Chiara Lubich, foram momentos de aprofundamento sobre o que é específico dos sacerdotes e diáconos focolarinos. Recordou-se a figura de padre Silvano Cola, que ajudou Chiara a fundar este setor do Movimento, quando ainda não estava definido. Em 1965, no primeiro encontro para sacerdotes diocesanos focolarinos, Chiara deu a sua visão do sacerdote focolarino como de alguém que tem sempre no coração a oração de Jesus «Pai, que todos sejam um», e que «não fica em paz até quando esta não se realiza em sua paróquia [...]. Não resignar-se, portanto, apenas aos bons que vão à igreja, mas tentar de tudo para aproximar todos [...] é preciso movimentar-se, não ficar parados». Chiara fala de focolares projetados para a Igreja como fermento de unidade e explica que «o focolare sacerdotal é como o sal que deve desfazer-se na diocese para salgar toda a sopa, tornar toda a diocese "salgada". Se esse sal fica por conta própria vai contra a sua vocação».
Na apresentação da relação dos últimos seis anos foram analisadas as prioridades que emergiram na Assembleia precedente, entre as quais a relação com as novas gerações, a vida de família com os sacerdotes idosos e doentes, a irradiação da espiritualidade de comunhão na Igreja. O diálogo que se seguiu testemunhou o compromisso assumido e levantou questões principalmente sobre três aspectos: formação, vida em comum, necessidade de "sair". Recordaram-se as palavras-chave das orientações vindas da Assembleia Geral do Movimento: sair, juntos, oportunamente preparados, em forte sintonia com o que augurou o Papa Francisco na audiência com os Focolares, no dia 26 de setembro. Nos trabalhos em grupo e na plenária foi traçado o caminho para os próximos seis anos.
Tendo presente tudo isso aconteceu a votação e a escolha foi para Antônio Bacelar, de Portugal, que aceitou «com a graça de Deus, pronto a dar a vida por cada um de vocês». Foi um momento de forte emoção. Pe. Antônio confidenciou: «Tenho na alma o desejo de descobrir cada vez mais o nosso sacerdócio mariano. Existem muitos "como será?"… deixemo-nos conduzir por Deus, por Jesus entre nós e encontraremos o caminho. Humanamente eu poderia assustar-me, mas com vocês será uma aventura extraordinária». Na conclusão foi lembrada uma passagem de Santa Teresa D'Ávila, recordada sempre por Pe. Antônio no dia anterior: «Se nós estivermos no amor faremos muito, em breve tempo, sem fadiga».

22 de Outubro - S. João Paulo II

S. João Paulo II
João Paulo II, nascido Karol Józef Wojtyła (18 de Maio de 1920 -2 de Abril de 2005), foi papa de 16 de Outubro de 1978 até a sua morte. Teve o terceiro maior pontificado documentado da história. Foi o único Papa eslavo e polaco até a sua morte, e o primeiro Papa não-italiano desde o holandês Adriano VI em 1522.
João Paulo II foi aclamado como um dos líderes mais influentes do século XX. Teve um papel fundamental para o fim do comunismo na Polónia e talvez em toda a Europa, bem como importância significativa na melhoria das relações da Igreja Católica com o judaismo, o islão e as igrejas ortodoxas e protestantes.
Foi um dos líderes que mais viajou na história, tendo visitado 129 países durante o seu pontificado. Sabia falar mutíssimos idiomas, além do polaco. Como parte de sua ênfase especial na vocação universal à santidade, beatificou 1 340 pessoas e canonizou 483 santos, quantidade maior que todos os seus predecessores juntos pelos cinco séculos passados. Em 2 de Abril de 2005, faleceu devido a sua saúde débil e ao agravamento da doença de Parkinson de que padecia. Em 19 de Dezembro de 2009 João Paulo II foi proclamado "Venerável" pelo seu sucessor papal, o Papa Bento XVI. Foi proclamado Beato em 1 de Maio de 2011 e canonizado em 27 de Abril de 2014 pelo papa Francisco.
O Povo sugere a consulta do Jornal das Boas Notícias 16 publicado na altura da sua morte e que lhe foi inteiramente dedicado
   
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Era necessário que o heróico se tornasse quotidiano e o quotidiano heróico
Papa João Paulo II
Homilia em Norsia, 23 de Março de 1980
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Eram 50...

Luís Cirilo | Depois falamos | 2014.10.21

Eram 50.
Chegaram num autocarro alugado, a uma empresa da zona de Guimarães, com um papel para desempenhar.
Não eram professores nem alunos e muito menos representavam alguém que não fosse quem os mandou.
Eram uma das brigadas "autocarrotransportadas" dos senhores Arménio Carlos e Mário Nogueira.
Chegaram com as palavras de ordem habituais, os insultos do costume, as faixas e bandeiras mil vezes vistas, as buzinas próprias para incomodar.
E com a ordinarice e falta de respeito que os caracteriza em todas as situações.
Como na Guarda onde nem a indisposição do Presidente da República respeitaram ou em Coimbra onde pensando (não é o forte deles convenhamos...) estarem a afrontar o PM e o Governo apenas estavam a faltar ao respeito aos mortos da Grande Guerra que estavam a ser homenageados na cerimónia.
E quem nem os mortos respeita como há-de respeitar os vivos?
Desta vez as "vitimas" foram as crianças, alunas do centro escolar inaugurado por Passos Coelho, que viram o pequeno número musical que tinham preparado para receber o primeiro-ministro permanentemente perturbado pelas buzinas dos 50 figurantes mandados com esse objectivo.
Que depois da entrada da comitiva na escola se foram embora.
A missão estava cumprida.
À noite as televisões lá bolsaram a noticia que "interessava":
"Passos Coelho vaiado por manifestantes".
Esquecendo-se de dizer que eram 50.
E que enquanto cá fora eram 50 a vaiar lá dentro eram mais de 200 a aplaudir e ás vezes com entusiasmo.
E nesses 200 estavam pais e professores.
Mas isso não é notícia. 
Pode-se lá bem noticiar a mínima, que seja, manifestação de aplauso ao governo...
Depois Falamos

É indigno e imoral um partido falar de morte digna

vitorcunha | Blasfémias | 21 OUTUBRO, 2014

De vez em quando retorna a conversa sobre eutanásia, seguindo um ciclo inverso à publicação de fotos em bikini nas redes sociais pelas mesmas pessoas que conseguem ter ideias brilhantes para e por todos nós, graças a Zeus. Invariavelmente, é conversa atirada por gajos e gajas bonitos, com idades perfeitas entre os 30 e os 50, em forma, com todas as pernas e braços, pele viçosa, sem espinhas e eczemas embaraçosos, deformidades, comensais esporádicos em restaurante com estrela Michelin, com bicicleta de marca e tendo algum historial de férias caribenhas ou nas índias. Pessoas com a arrogância que a beleza e o pico do interesse sexual tendem a transformar em ídolos pop mascarados em escritores que ninguém lê, deputados que ninguém sabe ter elegido e agentes culturais cujos sazonais poios não passam o crivo de um bilhete parcialmente pago, quanto mais pago na totalidade.
Nunca se vêem paraplégicos acamados, com feias escaras, num quarto húmido decorado com crucifixo carcomido e desumidificador em saldo da Worten, que clamem por eutanásia. Nunca se vêem, sobre esse tema, os já viúvos no solitário caminho para a demência profunda, embaraçados em decrescentes momentos de coerência com o mijo que escorre para a sarjeta na momentaneamente eterna desconhecida paragem de autocarro. Quem fala desta problemática – porque para um progressista, outros morrerem é uma problemática – é sempre belo, educado, letrado, atraente, charmoso e dispensa Viagra. Tem o cabelo imaculado. A barba perfeitamente aparada. É uma besta cuja noção de sensibilidade termina na barreira de suor entre os corpos que copulam intelectos, entranhada no eu-eu-eu-eu instagramico que é palco da disjuntiva relação entre a vaidade e o bem-colectivo.
Nenhum destes abetumados néscios vê além de si próprio e do brilharete que origina a sua exímia e cultivada inteligência. Não imaginam que a percepção da eutanásia para o velho acamado é a do fardo, a do "não dar trabalho", a do lastro que impede a plena realização dos familiares responsáveis pelo seu cuidado. Não imaginam que a esmagadora maioria dos velhos que pede para morrer está, quando crê falar a sério, a emanar altruísmo puro, a libertação de outros da carga que para esses é a própria existência alheia.
A morte é assunto demasiado sério e muito pouco compreendido para ser discutido por quem salta entre aborto livre, supressão de puberdade a crianças ditas transgénicas, cheias de Lisboa, tourada, efebofilia, mais-uma-linha-de-coca na urbe lisboeta a oeste de Marvila, amanhã-estou-na-SIC-Notícias, casamento entre plantas e a patológica crucifixofilia republicana do club des Jacobins.

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Papa vai canonizar padre José Vaz, da Goa portuguesa

Agência Ecclesia 21 de Outubro de 2014, às 10:43

Cerimónia marcada para 14 de janeiro de 2015, durante viagem ao Sri Lanka

Cidade do Vaticano, 21 set 2014 (Ecclesia) - O Papa vai presidir a 14 de janeiro de 2015, no Sri Lanka, à cerimónia de canonização do padre José Vaz, nascido na Goa portuguesa a 21 de abril de 1651.
O sacerdote missionário no Sri Lanka, onde morreu a 16 de janeiro de 1711 e a sua proclamação como santo contou com os votos favoráveis da sessão ordinária da Congregação para as Causas dos Santos em relação a este processo, sem exigir um novo milagre.
A data de canonização foi decidida esta segunda-feira, durante o consistório que decorreu no Vaticano, sob a presidência do Papa.
José Vaz, sacerdote da Congregação do Oratório foi beatificado por São João Paulo II em janeiro de 1995, também durante uma viagem ao Sri Lanka.
O futuro santo foi recordado, na sua beatificação, como "um grande padre missionário", tendo vivido de forma pobre numa época de perseguição aos cristãos, apesar de ter nascido numa família da casta dos brâmanes.
O sacerdote foi preso e ajudou clandestinamente as comunidades católicas, celebrando Missa de noite, para além de ter traduzido o Evangelho para as línguas tâmil e o cingalês.
A comunidade católica em Goa está a dialogar com as autoridades da Igreja no Sri Lanka sobre a possibilidade de organizar um encontro de cerca mil fiéis com o Papa.
A viagem de Francisco ao Sri Lanka vai decorrer entre os dias 13 e 15 de janeiro do próximo ano, seguindo-se uma passagem de quatro dias pelas Filipinas.
No início deste mês, o Papa recebeu no Vaticano o presidente da República do Sri Lanka, em audiência privada, após a qual os responsáveis deixaram votos de que a viagem pontifícia "possa ser acolhida como sinal de proximidade à população" e como "encorajamento aos que trabalham pelo bem comum, a reconciliação, a justiça e a paz".

Afinal, o que é que os bispos decidiram?


Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher
Boa noite!


De acordo com algumas notícias, os conservadores prevaleceram no Sínodo dos Bispos sobre a família (RTP, por exemplo). Mas já houve quem entendesse que o Papa abriu portas que "dificilmente se voltarão a fechar" (Público). Não é fácil, seguindo apenas as grelhas de leitura às vezes muito maniqueístas da comunicação social, fazer um balanço do Sínodo dos Bispos que esteve reunido em Roma até sábado passado.

O tema do sínodo era a família, o tom foi de grande abertura e transparência e, na verdade, o documento que esteve em discussão é apenas a base para um debate que durará até ao final de 2015. "Ainda temos um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades que as famílias devem enfrentar", disse o Papa Francisco no final do Sínodo. Tendo em conta o aviso de que às vezes há alguma simplificação nas leituras mediáticas, aqui ficam alguns relatos sobre o que se passou em Roma:
Público - Papa Francisco abriu portas que "dificilmente se voltarão a fechar" e "Um documento de prenúncio de uma Igreja que não muda".
New York Times – "No Consensus at Vatican as Synod Ends".
Le Figaro – "Le synode continue de contester les passages sur l'homosexualité et les divorcés remariés".
Le Monde – "Le pape François et les familles telles qu'elles sont" (só para assinantes).
Rádio Renascença – "Falta de consenso deixa tudo em aberto no Sínodo" e "Erro de tradução na base de parte da polémica no sínodo".
ABC – "El Sínodo reforzará el «ideal de familia» para evitar malentendidos".
La Croix – "Le Synode achevé, les évêques marqués par la liberté de ton des débats" e "Les « cinq tentations » du synode, par le pape François".
RTP – "Conservadores prevalecem no Sínodo dos Bispos sobre a família".

Quando se trata de temas da Igreja de Roma, tenho por hábito recomendar que se vá sempre às fontes, neste caso ao site do Vaticano, que está bem organizado, fornece quase sempre os documentos em várias línguas e permite ter uma visão de conjunto. Mas não fácil, sobretudo quando se trata de documentos doutrinais. Neste caso o Papa decidiu que o resultado das discussões entre os bispos devia ser tornado público. Infelizmente esse documento ainda só existe em italiano: "Relatio Synodi" della III Assemblea generale straordinaria del Sinodo dei Vescovi: "Le sfide pastorali sulla famiglia nel contesto dell'evangelizzazione" 

Passemos agora a algumas análises e textos mais opinativos, começando precisamente por uma reflexão de Rui Ramos aqui no Observador – "O dilema da igreja católica" – onde, depois de se distanciar do habitual guião que procura reduzir todos os debates a enfrentamentos entre "conservadores" e "progressistas", nota:
Para se identificar com toda a sociedade, resta à igreja um meio: em vez de impor as suas doutrinas, acolher as atitudes da sociedade, o que, em geral, consistirá em perfilhar, reinterpretando-as em termos religiosos, as últimas inclinações da legislação estatal ou dos programas televisivos da manhã. Se os fiéis não vão a Roma, vai Roma até aos fiéis. O problema é que, por esse caminho, a igreja pode rapidamente deixar de representar a continuidade apostólica, para cair numa "espiritualidade" de supermercado, em que cada um escolhe o que, naquele dia, mais lhe convém.

Numa entrevista à Rádio Renascença, o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que participou no encontro de Roma, defendeu a ideia de que a Igreja está decidida a reflectir problemas que afectam famílias:
"Dizer às pessoas que estamos a pensar nisso. E isto, que parece tão simples, já foi fruto de muito esforço. Foi um sínodo que teve relevância em que manifestamos que estamos cientes deste problema e que a Igreja está resolvida a reflecti-lo. Estas conclusões [do sínodo] vão ser a base de trabalho que as conferências episcopais vão ter por diante sabendo e insistindo que o tema principal é a família cristã"

Na mesma Renascença, Aura Miguel, a jornalista que costuma acompanhar o Vaticano e que também esteve em Roma durante o Sínodo, escreve, em "Um ano pela frente", que a diferença de leituras que houve nos órgãos de informação também teve paralelo na forma como alguns cardeais receberam o resultado dos debates: "Um, por exemplo, acha que "o Sínodo devia ter ido mais longe sobre os gays", enquanto em sentido oposto, um outro garante que "o Evangelho não pode mudar ao nosso gosto"."

De resto, mesmo entre especialistas, entre os que estão habituados a ler a evolução da Igreja Católica, não se encontra consenso fácil sobre o sentido apontado por este sínodo. Duas leituras muito contrastantes, mas ambas muito interessantes, foram as que encontrámos no francês Le Figaro e na americana National Review.

Jean-Marie Guénois, o editor de temas religiosos do Figaro, autor de um livro acabado de publicar – «Jusqu'ou ira François» - manifestou uma opinião muito forte: «Le synode ouvre une «crise» dans l'Eglise». Extracto:
Le synode a parfaitement atteint l'objectif initial fixé par le Pape. Il souhaitait ouvrir un débat pour faire évoluer les positions et résoudre des questions essentielles. Il a donc lancé les discussions en donnant un coup de pied dans la fourmilière. Les positions opposées se sont exprimées librement, le Pape a ainsi pu mesurer et les arguments, et le refus ou l'acceptation de ces changements. Ce qui signifie que le résultat du vote a peu d'importance. Il n'empêchera pas le pape de prendre une décision après la seconde session du synode. Elle sera délicate car François veut concilier indissolubilité du mariage avec un accès possible, dans certains cas, à la communion pour les divorcés remariés.

Na mesma análise Jean-Marie Guénois faz uma leitura da figura do Papa Francisco que me parece especialmente importante: "Encore une fois, ce pape qui n'est pas un théologien mais un pasteur, voit l'Eglise comme un «peuple en marche» qui découvre collectivement au fur et à mesure du chemin, les voies nouvelles à emprunter."

Num sentido fortemente contrastante, Kathryn Jean Lopez considerou, na National Review – Roman Renewal – que o Sínodo teve um significado radicalmente diferente: o regresso e a reafirmação da Humanae Vitae, não tendo sido por acaso que Paulo VI foi beatificado no dia em que o Sínodo terminou:
Conspicuously missing from most of the news coverage was the fact that the working document, incomplete though it was, directly cited and reaffirmed Humanae Vitae. And the fact that the synod would culminate in Pope Francis's beatifying the author of that encyclical — the first step on the road to sainthood and a reminder of the continuity of the Church even in the reform and renewal afoot in Francis's papacy.

Finalmente, sobre os temas em discussão no Sínodo, há dois textos que julgo incontornáveis, ambos publicados aqui no Observador. O primeiro, da autoria do padre Gonçalo Portocarrero de Almada - Escândalo no Céu: João Baptista descanonizado! – opta por um registo irónico para se distanciar de algumas tendências mais uniformizadoras: "A principal queixa contra o dito Baptista prende-se com a sua ausência de sentido pastoral e a sua falta de misericórdia para com o rei Herodes Antipas, a quem acusou de viver em adultério".

O segundo, da autoria do padre Miguel Almeida - Afinal, um debate tão antigo como a Igreja -, mostra como evoluíram, ao longo de dois milénios, as posições da Igreja de Roma pois, "ao contrário da sensação comum, a questão de como lidar com casamento-divórcio-recasamento, é tudo menos recente. Logo na era apostólica surgem diferentes sensibilidades e mesmo propostas de solução. O próprio Novo Testamento testemunha duas destas possibilidades."

Espero ter-vos deixado, com todas estas sugestões, muito alimento para o espírito. E bastos temas para acompanhar uma reflexão que durará, dentro da Igreja mas também fora dela, pelo menos mais um ano.

Boas leituras. 

O dilema da igreja católica

Rui Ramos | 21/10/2014, 15:29

Para compreendermos o problema do sínodo, vale a pena descrevê-lo de uma maneira geral: deve a igreja admitir situações e opções que até agora repreendeu, mas hoje são socialmente aceites?

Do sínodo dos bispos, a imprensa retirou a ideia mais jeitosa: "divisões profundas na hierarquia da igreja". Pouca gente escapou ao guião que manda ler os debates segundo a velha incompatibilidade entre "progressistas" e "conservadores", ou entre "europeus" e "norte-americanos". Ora, para compreendermos o problema do sínodo, vale a pena ignorarmos as matérias que em concreto o inspiraram, e descrevê-lo de uma maneira geral: deve a igreja admitir situações e opções (sejam elas quais forem) que até agora repreendeu, mas hoje são socialmente aceites? Posta assim, é possível sugerir que a questão não resulta apenas do mero prolongamento, igreja adentro, dos confrontos ideológicos ou contrastes geográficos do mundo profano, mas tem a ver com a própria ideia de igreja.
O dilema da igreja católica é que não foi concebida para ser uma parte, mas o todo. A sua vocação não é ser uma seita entre outras, mas toda a sociedade organizada religiosamente. Há correntes religiosas que não aspiram a incluir toda a gente, mas apenas os "eleitos". Por isso, jamais admitiriam rever ensinamentos e atitudes apenas para acomodar quem não subscreve a colecção completa dos dogmas. A igreja católica é diferente. Não tem vocação para contra-cultura. Habituou-se a ser central. E para defender essa centralidade, parece tentada a dar todos os passos.    
Durante séculos, no Ocidente, a igreja foi fundamentalmente idêntica com a sociedade. Todos, com poucas excepções, nasciam para ser baptizados e tinham a sua vida regulada pelos sacramentos. Do ponto de vista histórico, isto não era apenas o resultado do zelo missionário do clero, mas da firmeza com que poderes políticos, hierarquias sociais e comunidades locais censuravam e puniam quaisquer heterodoxias.
Nas sociedades modernas, secularizadas e pluralistas, a igreja não conta com a coacção política e social ainda aceite no Islão. Ora, a catequese, só por si, será sempre vulnerável a contraditórios e a confusões. Para se identificar com toda a sociedade, resta à igreja um meio: em vez de impor as suas doutrinas, acolher as atitudes da sociedade, o que, em geral, consistirá em perfilhar, reinterpretando-as em termos religiosos, as últimas inclinações da legislação estatal ou dos programas televisivos da manhã. Se os fiéis não vão a Roma, vai Roma até aos fiéis. O problema é que, por esse caminho, a igreja pode rapidamente deixar de representar a continuidade apostólica, para cair numa "espiritualidade" de supermercado, em que cada um escolhe o que, naquele dia, mais lhe convém.
A pressão para fazer coincidir igreja e sociedade não vem só do clero e dos fiéis. Durante séculos, príncipes e comunidades jamais pensaram poder governar ou manter a coesão social sem a igreja. O cristianismo dava sentido à vida e ligava os seres humanos uns aos outros. Por isso, príncipes e comunidades tentaram frequentemente dominar a igreja, e quando a renegaram, foi para inventar outra, como os príncipes protestantes ou os revolucionários franceses no tempo de Robespierre. Essa relutância em renunciar à igreja persiste no actual Ocidente secularizado. Basta pensar no modo como toda a gente continua a ter opinião sobre a igreja católica. Mesmo agnósticos e ateus se comportam como acitvistas católicos imaginários, sempre a postos para dedicar mais um editorial às orientações do Vaticano. É como se todos sentissem que, para "ligar" a sociedade, não bastam a educação cívica e o número de contribuinte, e conviria talvez uma "religião" – mas uma "religião" (e é este o ponto) que não incomode ninguém nas suas opções e tendências.
Admito que para muitos fiéis a questão possa ser resolvida nos termos mesmos da "caridade" que manda perdoar e compreender. A tradição nunca o seria se, em certa medida, não fosse elástica. Mas até onde pode a igreja católica "progredir", identificar-se com a actual sociedade, sem se diluir na banalidade da cultura moderna? Na igreja anglicana, o escrúpulo da modernização, por lá muito mais agudo, já produziu autoridades eclesiásticas cuja crença em Deus nem sempre parece firme. Talvez um dia a hierarquia católica tenha de escolher ser apenas uma parte, para não se perder no todo.

100 anos de Schoenstatt - Concerto a Nossa Senhora


Estamos grávidos

Mafalda Frade, Facebook, 2014.10.20


Estamos 'grávidos'. Pois é, vem aí uma nova Maria. Que traz consigo já, nas 25 semanas de vida que leva, algumas histórias para contar. A maior delas partilha-a com a mana mais velha, ainda que não saibamos se com o mesmo desfecho. Começa sensivelmente a meio de julho, com o chamado rastreio pré-natal, teste que revela as probabilidades de o bebé ter trissomia 21, 13 ou 18, permitindo aos pais, caso queiram ter certezas, realizar a amniocentese (para decidir o que fazer, ou seja, basicamente, abortar ou não). É um exame invasivo que envolve riscos, como o de aborto espontâneo (cerca de 1% das crianças morre) ou de infeções uterinas.
Tal como aconteceu com a Maria Carolina, o teste indicou uma probabilidade maior que o normal de esta nossa filhota ter síndrome de Down. Quando da gravidez da Carolina, e porque tínhamos decidido, ainda antes de casar, que aceitaríamos os filhos que tivéssemos como eles viessem, decidimos não fazer a amniocentese porque não queríamos colocá-la em risco quando já tínhamos decidido que a queríamos nos braços fosse deficiente ou não (o que seria de mim hoje se a Carolina não tivesse sobrevivido ao exame?). No caso dela, nasceu sem qualquer síndrome.
Confrontados agora com o que já tínhamos vivido, voltámos a tomar a mesma decisão: não faríamos a amniocentese porque não queríamos pôr a nossa bebé em risco. Não precisamos de saber como ela é. Queremo-la como for. E sentimo-nos muito tranquilos na nossa decisão. Temos vivido estas semanas sem quaisquer dramas a esse nível, tranquilos e a AMAR já imensamente esta filha que trago dentro.
Mas há uma coisa que me inquieta: é ter ido a duas consultas médicas em que os médicos, porque recusei a amniocentese, olharam para mim como se eu fosse uma anormal, numa incredulidade que me espantou. Como se aceitar um filho mesmo com a probabilidade de ele ser deficiente fosse próprio de uma pessoa que não bate bem da bola. Como se amar um filho acima de tudo fosse estranho.
É que, percebi, a lógica de muitos médicos é que se deve fazer a amniocentese para ter a certeza e poder abortar, se a bebé for deficiente (descobri que cerca de 80% das mulheres que têm um filho com síndrome de Down abortam). E muitas mães, ao recusarem, são quase coagidas por eles para fazerem o teste, soube depois pelos testemunhos de algumas amigas e conhecidas, que se viram aflitas para manterem a sua posição de recusa.
No meu caso, tive a sorte de ser tão taxativa na primeira consulta que a médica não soube muito como insistir. Mas olhava para mim de tal forma incrédula que confesso que me senti como se estivesse numa fábrica de bebés, em frente a uma passadeira rolante, a vê-los sumirem-se numa máquina e a saírem de lá com o destino traçado: 'Não tem defeito, siga. Tem defeito, lixo.' E uma enorme pilha de bebés amontoados atrás… 
Na segunda consulta, a médica só nos cumprimentou e o diálogo que se seguiu foi este:
'Já sei…' (a olhar para nós num misto de constrangimento e curiosidade)
'Já sabe o quê, Dra?'
'Já sei… Do teste…' 
'Ah, pois, o teste. Nós não quisemos fazer a amniocentese.' 
'Pois, também já sei…' (continuando a olhar para nós num misto de constrangimento e curiosidade) 
E eu a sentir-me de novo na fábrica de bebés…
Parece que, nesta sociedade em que vivemos, tudo o que possa ter 'defeito' é para descartar como se não tivesse préstimo nenhum. A eugenia no seu melhor, dizia-me uma amiga depois. E soube também que terei tido azar nos médicos que me calharam, porque muitos não pensam assim. Mas que os há, há.
Enfim, fiquei com a sensação de que, se esta bebé tiver esta síndrome, a grande luta não vai ser educá-la, nem lidar com os problemas de saúde que ela possa vir a ter. A grande luta vai ser lidar com o preconceito, com a forma como a sociedade reage perante crianças diferentes.
Quando leio comentários que dizem que não vale a pena trazer ao mundo uma criança assim porque não vai viver com dignidade, vai andar cheia de doenças e lhe vão chamar 'atrasada' a vida toda, fico chocada. Chocada. Porque a dignidade de uma pessoa depende, em muito, da forma como é tratada pelos demais. Porque as doenças tratam-se, minimizam-se e todos as temos. Porque muitos de nós tivemos de lidar a vida toda com gente a chamar-lhe nomes (a começar por mim, que ser inteligente acarretou esse tipo de dissabores) e não é por isso que não estamos cá, inteiros e de pé.
Ter síndrome de Down não é uma sentença de morte. Eu conheço um atleta paraolímpico com esta síndrome (quantos de nós o bateríamos numa piscina?) e outros que trabalham e se sustentam. A esperança média de vida não é muito alta (40 a 50 anos), mas não deixam de poder chegar à idade adulta e de eventualmente poderem contribuir para a sociedade em que se inserem e que tantas vezes os terá maltratado.
A probabilidade de a minha menina ter síndrome de Down não me assusta. Terá uma mamã e um papá que farão o melhor por ela. E uma Família inteira por trás que nos apoia i-n-c-o-n-d-i-c-i-o-n-a-l-m-e-n-t-e na nossa decisão, como já nos apoiou quando enfrentámos esta situação com a Carolina. Nos dizeres de uma mamã com uma filha com Down, temos em nós o 'cromossoma do Amor'.
A minha amiga Ana um dia, a propósito disto (querida Ana, que tens palavras que criam raízes fundas no meu coração), disse-me: "É bom ver que tu não tens medo de outro tipo de perfeição". E não tenho mesmo. Nem tenho a pretensão nem a arrogância de achar que a perfeição do meu corpo é melhor que a Perfeição do corpo da minha menina. Sei só que a quero muito cá fora, nos meus braços, venha como vier. E o futuro será escrito no seio de uma Família que a ama como ela é.
Aos meus amigos gostava de pedir alguma coisas. Se ela tiver síndrome de Down, não nos lancem olhares de comiseração nem de constrangimento. Não chorem, não nos lamentem, não nos critiquem por a querermos independentemente de tudo. Não façam deste assunto tabu, evitando falar dele connosco, tirar dúvidas, ajudar. Antes, alegrem-se porque somos abençoados com uma dádiva que muitos querem e não têm: ter filhos. E alegrem-se porque a nossa menina será imensamente amada. E, no que depender de nós, será imensamente feliz. O que pode uma pessoa mais querer desta vida?

Dear future mom

REFORMA DO IRS DÁ SINAIS POSITIVOS ÀS FAMÍLIAS - Comunicado da APFN




A APFN congratula-se com a reforma do IRS, que pela primeira vez tem em consideração não só o rendimento dos sujeitos passivos, mas também o número de pessoas que vivem desse rendimento. É uma reforma que consideramos dar sinais positivos às famílias, por refletir a sua realidade, embora ainda longe do que consideramos justo e desejável.
A introdução do quociente familiar de 0,3 é uma medida positiva porque se têm em conta os dependentes na consideração da taxa de imposto, sobretudo se se vier a cumprir a intensão expressa de alargar este número para 0,4 por dependente em 2016, e 0,5 em 2017, bem como os limites a aplicar.
A situação que as famílias vivem nos nossos dias parece estar, ao menos em parte, refletida fiscalmente, pela consideração dos idosos a cargo e dos filhos até aos 25 anos. O mesmo diga em relação aos vales sociais, ao aumento das deduções na saúde, e à consagração, pela primeira vez, de deduções para "despesas familiares". 
Para além de vir introduzir mais justiça no sistema fiscal, a APFN considera esta reforma pode ser um primeiro passo para a inversão da tendência demográfica suicida que se verifica em Portugal, onde regista a menor taxa de natalidade da Europa (1.18 filhos por mulher, em 2013). 
De facto, num inquérito recente desenvolvido pelo INE e pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, a maioria das inquiridas afirmaram que teriam mais filhos se houvesse um "aumento real dos rendimentos das famílias com filhos", o que se consegue através de um sistema fiscal mais favorável (vide). 
Acreditamos que, se sinais idênticos forem dados de forma transversal noutras áreas (saúde, educação, transportes, habitação, etc.), a inversão dessa tendência poderá ser uma realidade
Para consultar o simulador APFN para o novo IRS: http://www.apfn.com.pt/simuladorirs.php
APFN, 18 de Outubro de 2014

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

A co-adopção e o suicídio do Bloco

Alexandre Homem Cristo
OBSERVADOR | 2014.10.20
Defenda-se o que se defender, discutir neste momento a co-adopção por casais do mesmo sexo é uma inutilidade e uma cedência a um aproveitamento político do BE.

A co-adopção por casais do mesmo sexo foi discutida e votada nesta legislatura. E foi chumbada, mesmo que por poucos votos. Logo na altura do chumbo, o Bloco de Esquerda (BE) anunciou que voltaria ao tema. Cumpriu: os projectos de lei foram entregues e, em breve, o Parlamento apreciará novamente o assunto. Na imprensa, o debate já arrancou.
Dá para imaginar que o que aí vem será, em grande medida, idêntico ao que passou. Os mesmos argumentos, as mesmas posições, as mesmas acusações, a mesma intolerância mútua. E os mesmos resultados. É, aliás, precisamente essa a questão. Podemos repetir tudo e discutir outra vez os prós e os contras da co-adopção por casais do mesmo sexo. Podemos recomeçar do zero. Mas devemos também questionar-nos sobre o que levou o BE a regressar ao tema, apenas alguns meses após este ter sido chumbado no Parlamento. Desde então, o debate aprofundou-se? Surgiram novos factos ou novos argumentos? Da parte dos deputados, houve sinais de que poderiam surgir alterações no sentido de voto? Nada disso. Só ficámos uns meses mais próximos das eleições legislativas.
Esse é, pois, o ponto-chave. A insistência do BE não reage ao debate ou à necessidade de o aprofundar – poucos assuntos, mesmo aqueles com impacto directo na vida de muitas mais pessoas, foram tão discutidos na comunicação social como foi este da co-adopção. E também não responde a alterações de posição dos deputados, dando a entender que, desta vez, a viabilização da medida seria possível – nem houve tempo para isso, porque a iniciativa do BE foi anunciada logo após a votação e chumbo da medida, há uns meses. Essa insistência é, portanto, apenas um acto antecipado de campanha eleitoral, em que o BE tenta ser o partido que já foi, antes de o PS lhe ter roubado esse espaço: o das causas fracturantes, da esquerda cosmopolita, moderna e urbana. É, no fundo, o BE a projectar o seu futuro no que foi o seu passado. Como se não fosse óbvio que o passado não volta.
Esta opção eleitoral do BE diz muito. Primeiro, sobre o seu respeito pelas instituições democráticas e sobre o seu aproveitamento de uma luta que diz valorizar mas que está disposta a sacrificar para fins eleitorais. Afinal, o BE vai reiniciar o processo de avaliação da co-adopção apenas para dizer que o fez, sem qualquer ambição de obter resultados políticos e disposto a desgastar o debate público sobre o tema – prejudicando, até, a viabilização futura da medida. Com tantas vozes indignadas por aí contra os partidos, e que só vêem inutilidade e perdas de tempo no trabalho parlamentar, é espantoso como quando o protagonista é o BE fica tudo mudo.
Segundo, a iniciativa diz muito sobre o vazio político em que se enfiou a esquerda europeia, em particular a esquerda radical. Sem querer seguir o caminho de ruptura dos comunistas – renegar o euro, a UE, as instituições internacionais para viver orgulhosamente sós –, a esquerda radical não só não conseguiu uma alternativa realista à austeridade, como viu o seu eleitorado perder a paciência com as suas habituais soluções irrealistas. De modo que, naquilo que é dominante no debate político da actualidade (a economia e as finanças), essa esquerda representada pelo BE não tem voz. O que sobra? As causas fracturantes. Ou, pelo menos, era o que sobrava antes de o PS, através de algumas das suas personalidades mais à esquerda, ter absorvido essas lutas na sua própria agenda. Agora, na verdade, já não sobra nada.
Assim, esta opção eleitoral do BE é, sobretudo, uma espécie de suicídio involuntário. Da medida da co-adopção em si, que se sujeitará a mais um chumbo no Parlamento e ao desgaste público de mais um debate acalorado. E do BE que, sem querer, assume que a sua mais-valia ideológica e de representação política está esgotada – as causas fracturantes deixaram de ser um factor de diferenciação do BE, para ser partilhada pelo PS, pelo que é improvável que ainda lhe valha votos.
Defenda-se o que se defender, discutir neste momento a co-adopção por casais do mesmo sexo é uma inutilidade e uma cedência a um capricho do BE. Falta um ano para as eleições legislativas. Até lá, não dá para saber se o BE está, como mostram as sondagens, em vias de desaparecer. Mas dá para perceber que, a continuar assim, está a fazer por isso.
PS: este texto é sobre a reapreciação da co-adopção e não visa discutir a medida em si. Sobre isso, escrevi na altura um artigo de opinião no jornal i – onde defendo que o impedimento legal no acesso de casais do mesmo sexo à co-adopção deve ser abolido, "de modo a que todas as candidaturas sejam avaliadas em função dos seus méritos e das suas diferenças (porque, de facto, elas existem). Há casais – do mesmo sexo ou de sexos diferentes – que não reúnem o perfil adequado para dar às crianças as condições de vida que elas merecem, num seio familiar. E há casais que reúnem esse perfil, independentemente da sua composição e orientação sexual."

Um ano pela frente

"Agora", disse Francisco, "ainda temos um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades que as famílias devem enfrentar".

RR ONLINE 20-10-2014 7:03 | Aura Miguel

É a primeira vez que a Igreja Católica insere na sua agenda sobre a Família temas tão delicados como o acesso aos sacramentos por parte dos divorciados que voltaram a casar pelo civil e o acompanhamento dos homossexuais. Temas que causaram acesas discussões e controvérsias entre bispos e cardeais. 

O mérito ou a culpa (consoante a perspectiva) é de Francisco. Foi ele quem lançou esses temas ao falar com os jornalistas no regresso do Rio de Janeiro; foi ele quem convidou o cardeal Kasper para apresentar a sua linha de abertura aos cardeais de todo o mundo reunidos em Consistório, em Fevereiro passado – linha essa que tem gerado acesos debates, que se revelaram ainda mais acalorados dentro do Sínodo. 

Francisco – que, segundo diz, prefere uma Igreja acidentada a uma Igreja estagnada - gosta do que aconteceu e está a acontecer. 

Apesar de, na votação do documento final, os três parágrafos sobre esses temas polémicos não terem reunido a necessária maioria de dois terços, Francisco manifestou-se esperançado, pois, "agora", disse, "ainda temos um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades que as famílias devem enfrentar". 

O Sínodo terminou, mas os media voltam, agora, com as reacções: "A tradição leva a melhor", escrevem uns sobre o documento final, enquanto outros garantem que "A posição de abertura ganhou". O mesmo contraste verifica-se entre alguns cardeais. Um, por exemplo, acha que "o Sínodo devia ter ido mais longe sobre os gays", enquanto em sentido oposto, um outro garante que "o Evangelho não pode mudar ao nosso gosto". 

Ou seja, o que assistimos em Roma durante o Sínodo, espalha-se, agora, pela opinião pública do mundo inteiro, por mais um ano.

Vidas de silêncio



Vidas de silêncio
Cresceu, viveu e morreu, sem nunca pronunciar uma palavra, sem ter ido à escola, jogado à bola, escrito um poema, resolvido um problema de matemática, discutido com os irmãs, ou sequer chorado... viveu uma vida de silêncio que emanava uma paz que era visível na cara de todos, sobretudo da mãe que o tratou como Nossa Senhora tratou do seu filho na Cruz..
A beleza da vida... Sofia Guedes
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Visita do Papa Paulo VI a Portugal em 13 de Maio de1967

O Grande Inquisidor

Miguel Morgado (comentário aos Irmãos Karamazov)
Facebook, 2014.10.16
O capítulo sobre o Grande Inquisidor nos "Irmãos Karamazov", de Dostoievsky, não se resume. Lê-se e medita-se. Lê-se como um diálogo deve ser lido, respeitando integralmente a sua natureza dialógica, o que é mais fácil dizer do que fazer. Além disso, como aqui sou convidado a abordar sobretudo a perspectiva da liberdade enquanto problema, é preciso lembrar que esta leitura é necessariamente unilateral.
A questão primacial parece ser esta: para quê ser livre num mundo destituído de sentido, cruel e palco de um perpétuo e absurdo sofrimento? Para quê escolher se qualquer escolha se dilui num vórtice de desespero? A liberdade deixa de ser um dom e passa a ser um fardo doloroso. Não é apenas um elemento estranho num mundo desordenado. É pior: ela própria é um princípio de desordem.
A mentira e a ilusão programada ou solicitada parecem ser as únicas justificações para a maldição da liberdade. Para Ivan Karamazov, diante da angústia do seu irmão, o devoto cristão Aliocha, nestes termos, o homem não tem saída. A infelicidade e o sofrimento são o seu destino. Neste triste quadro, a resposta mais óbvia é a aceitabilidade do suicídio. Claro que esta resposta fica reservada para almas como a de Ivan, disponíveis a encarar o problema de frente. Não para o afirmar, é certo, mas para aceitar as suas proporções avassaladoras e agir numa espécie de conformidade. À alma fustigada não é dada a liberdade de recusar a liberdade.
Mas o problema tem uma dimensão colectiva. O que vale por dizer que tem uma dimensão política. Dito de uma forma directa: o suicídio não é resposta que se possa propor aos homens em geral. É com esse problema que o Grande Inquisidor tem de lidar.
O Grande Inquisidor de Sevilha é uma figura criada por Ivan, quando este se inspirou a escrever um poema ou uma alegoria que descrevesse a natureza do problema, e das escolhas que se abrem. É a sua versão do qual seria a reacção terrestre a uma segunda descida de Deus à terra. A proposta de Ivan é na realidade uma resposta à promessa feita por Aliocha em nome de Deus de reconciliação de todo o sofrimento num horizonte de redenção e felicidade eterna. À luz desta promessa alimentada na fé cristã, a ausência de sentido e os mistérios da iniquidade são apenas aparentes. A redenção é a suprema reconciliação de todos os impasses.
O poema de Ivan não é só um testemunho da sua própria incredulidade. Não é só a indisponibilidade interior de aceitar essa promessa que está em causa. É mais do que isso. É a impossibilidade da própria promessa que é denunciada. É o seu carácter radicalmente contraditório que é exposto sem apelo. O ponto de partida é que o sofrimento dos inocentes já não pode ser redimido porque não pode ser anulado. A sua justificação, seja ela qual for, é um ponto de partida que Ivan não aceita. Não aceita pelo simples facto de ter tido lugar.
Mas uma coisa é tentar compreender o desespero de Ivan. Outra coisa é perceber o alcance global da lenda do Grande Inquisidor. Aqui, emerge uma reflexão poderosíssima sobre o exercício do poder como rebelião contra as condições estruturais da existência humana e contra a ordem divina. Para muitos o exercício do poder com essa finalidade foi aclamado como um triunfo da humanidade. Mas para Dostoievsky a conclusão de muitos está longe de ser verdadeira para alguém. O exercício do poder com esse propósito terminará num abismo de vontade de domínio e de recurso ao terror.
É com uma imagem de terror que abre a Lenda do Grande Inquisidor. Em Sevilha, a Inquisição dá largas à sua fúria queimando uma centena de heréticos na fogueira. Um dia depois, Cristo está de novo em carne entre nós. Tudo aquilo fora praticado em seu nome. Era uma contradição demasiado grave e a situação do mundo reclamava o seu regresso. O povo reconhece-o e ele confirma o seu amor pelos homens fazendo milagres e ressuscitando uma menina. O Grande Inquisidor também o reconhece. Manda-o prender, sem que isso cause qualquer comoção numa multidão que momentos antes se rendia aos seus pés. Pela segunda vez na História da Humanidade, o poder apostava em destruir o Deus do amor.
Feito prisioneiro, Cristo recebe a visita do Grande Inquisidor, o qual, ficamos a saber, vivia uma vida sem fé apesar do seu sacerdócio. Cristo é imediatamente condenado à tortura e à execução. Tudo isto nos causa estupefacção. Mas para o Grande Inquisidor a situação é cristalina e ele não quer perder a oportunidade de confrontar o próprio Deus com os defeitos da sua Criação. Quer confrontá-lo com o facto de a Inquisição ser uma grande mentira ao serviço, porém, da vontade humanista de reconstruir a (des)ordem da Criação. É uma grande mentira e um grande terror, como são todos os projectos políticos deste tipo, ao serviço da revolta contra o sofrimento sem culpados e contra um mundo sem sentido.
O Inquisidor acusa o seu prisioneiro de ser um Deus que põe a liberdade dos homens acima de tudo. Que não está disposto a sacrificá-la por nada. E isto apesar de os homens acorrerem a trocá-la por qualquer coisa que ao menos pareça ser ingrediente da felicidade. Deus criou rebeldes e os rebeldes não podem ser felizes. A mentira da Inquisição, o terror da fogueira, estão lá para corresponder à angústia dos homens. E ao seu desejo de comunidade, de uma mentira universal. Viciosos, fracos, temerosos, os homens só são reconduzidos à obediência e a algum tipo de ordem se lhes derem pão e mentiras apaziguadoras provenientes de uma autoridade misteriosa e indiscutível que lhes diga o que devem fazer – e que, portanto, lhes dispense o uso da liberdade.
No final, o Inquisidor, talvez atónito pelo beijo que Cristo lhe dá - a resposta profunda e irrefutável dada por ele a todo aquele libelo acusatório, a toda aquela rebelião e dissidência -, acaba por não o executar. Abre a porta da cela, manda-o embora e ordena-lhe que não volte ao mundo dos mortais. Pela porta saiu também a liberdade, esmagada pela tirania de quem reivindica o direito, e proclama a capacidade, de refazer o mundo e os homens. Aí o terror governará; serão queimados livros e pessoas. Para acabar de vez com as injustiças e o sofrimento e tudo o resto que caiba nesse projecto. A procura de uma outra ordem desenhada dentro das limitações das razões e paixões humanas conduzem a uma desordem profunda e sem remissão. Nem todos os humanismos são humanismos. Alguns acabam a tratar-nos como criancinhas. Outros como escravos.
O humanismo do Grande Inquisidor é o humanismo da rejeição da liberdade e da rejeição de Deus. É o humanismo que se abre quando "tudo é permitido".