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Um "sujeito criminoso"

FRANCISCO ASSIS Público 26/05/2016 Escasseia a Mário Nogueira legitimidade moral para assumir o papel de vítima em que se quer instalar. Confesso a minha surpresa. Já não esperava, nos dias da minha vida, ouvir um destacado militante do PCP apelidar Josef Stalin de “sujeito criminoso”. Mário Nogueira ludibriou a minha descrença. Fê-lo em resposta a um cartaz supostamente iconoclástico, da autoria moral da JSD, no qual surge retratado com as vestes do antigo líder soviético. Há no cartaz, e na reacção ao mesmo, aspectos assaz curiosos que merecem ser analisados. Comecemos pelo cartaz. Uma organização política de juventude deve recorrer a este tipo de caricatura como forma de exprimir o seu próprio ponto de vista e denegrir uma perspectiva alheia? Não estando em causa o direito a fazê-lo, dado tratar-se do exercício da liberdade de expressão plenamente consagrada no nosso ordenamento jurídico e amplamente reconhecida no domínio das práticas sociais vigentes, a questão coloca-s...

O cândido candidato

 FRANCISCO ASSIS Público 15/01/2016 Causa-me até alguma perturbação o tom messiânico com que Sampaio da Nóvoa apregoa o advento de um “tempo novo” Confesso que faço parte do grupo de cidadãos portugueses a quem não foi concedida a graça de se extasiarem com os discursos do Prof. Sampaio da Nóvoa. Causa-me até alguma perturbação o tom messiânico com que o cândido candidato apregoa o advento de um “tempo novo” e proclama as virtudes do angelismo político, por contraposição ao sórdido mundo das combinações e dos interesses estabelecidos. Há mesmo momentos em que não parece estarmos perante um candidato presidencial mas sim diante de alguém que aspira a um estado de verdadeira beatitude. Se virmos bem a coisa, contudo, o discurso não é novo e a pretensão nada tem de original. Uma parte da esquerda portuguesa sempre revelou grande disponibilidade para aderir a uma retórica programaticamente eunuca, conceptualmente ligeira e moralmente demagógica. A razão para que tal suceda poder...

Um ano, seis personagens

FRANCISCO ASSIS Público 31/12/2015 Esta legislatura não vai durar quatro anos. António Costa, para ter sucesso, terá de ter condições para escolher o tema e o momento da crise política anunciadora do seu fim. Várias personagens e múltiplos acontecimentos marcaram o ano que agora finda. Sem a preocupação de um inventário exaustivo cingir-me-ei à apreciação daquelas que me parecem ter sido as personalidades mais relevantes no período em apreço. António Costa – O Primeiro-Ministro – numa interpretação restritiva da política enquanto actividade associada ao exercício do poder – é, sem qualquer dúvida, a grande personalidade do ano. Depois de ter derrotado o anterior Secretário-Geral do PS nas primeiras primárias abertas realizadas no nosso país assumiu a liderança do partido num contexto reconhecidamente difícil. Três problemas se lhe  colocaram de imediato: a exagerada expectativa de caracter sebastiânico-populista projectada na sua figura; a aparente melhoria das condições...

A maioria intermitente

FRANCISCO ASSIS Público, 24/12/2015 1.Afinal de contas, e de resto sem grande surpresa, a nova maioria de esquerda está condenada a viver em estado de intermitência. Não podia ser de outra forma, dadas as profundas divergências que a atravessam, as quais se manifestarão sempre que estiverem em causa decisões nos domínios das políticas europeia, económica e financeira. Ontem, o que estava em causa no Parlamento era a aprovação de uma proposta de Orçamento Rectificativo apresentada pelo Governo a propósito do processo de resolução de um banco que já tinha sido anteriormente objecto de intervenção pública. No futuro surgirão outros temas e outras decisões propiciadores de idênticas expressões de desagregação política da base de sustentação parlamentar do actual Executivo. Uma conjectura desta natureza não envolve qualquer exercício de adivinhação, funda-se estritamente num simples acto de constatação da realidade. O Bloco de Esquerda e o PCP, partidos que até agora se tinham auto-excl...

O debate que importa

FRANCISCO ASSIS Público 05/11/2015 Considero mais adequado ao interesse nacional a existência de uma solução governativa em que a direita fique dependente das posições do PS a uma outra em que o PS se torne refém dos humores, caprichos, estratégias e tacticismos dos partidos da extrema-esquerda. Sempre que ouço falar no fim do centro político regresso a Norberto Bobbio. Como já aqui várias vezes referi, este filósofo político italiano, reconhecendo embora a pertinência teórica e analítica da díade esquerda/direita, atribui contudo análoga importância à oposição entre a moderação e o extremismo. Na sua conhecida obra que se intitula justamente Direita e Esquerda, o eminente professor da Universidade de Turim afirma o seguinte: “Numa primeira abordagem, vê-se que a díade extremismo/moderantismo tem muito pouco a ver com a natureza das ideias professadas, e que antes se refere à sua radicalização e, consequentemente, às diversas estratégias para as fazer valer na prática. A ciência...

A falsa tese da marginalização política da extrema-esquerda

FRANCISCO ASSIS Público 29/10/2015 O PS, como já aqui o referi na semana passada, não pode deixar-se aprisionar por compromissos impeditivos da prossecução de uma acção reformista de que o país notoriamente carece. 1. A comunicação presidencial da semana passada teve, entre outras, a consequência nefasta de consolidar a ideia de que ao longo dos últimos 40 anos se viveu num regime de apartheid político com a exclusão dos partidos situados à esquerda do PS. Com o apoio activo de alguns sectores do Partido Socialista – nuns casos por pura má-fé, noutros por manifesto desconhecimento da nossa história democrática – os partidos da extrema-esquerda têm vindo a impor a tese segundo a qual foram objecto de uma ostensiva marginalização parlamentar de carácter não democrático. Ora isso pura e simplesmente não é verdade. E não só não é verdade, como constitui um monumental embuste directamente filiado na tradição leninista e estalinista de falsificação primária dos fenómenos histó...

O silêncio é um refúgio eticamente inabitável

FRANCISCO ASSIS Público 22/10/2015 Há horas na vida política em que o silêncio é um refúgio eticamente inabitável. Nessas ocasiões todos temos o dever de assumir publicamente uma posição clara. Nenhum calculismo, nenhum falso princípio de fidelidade tribal, se pode sobrepor à obrigação cívica e moral de exprimir com a máxima clareza possível o ponto de vista que cada um de nós perfilha face a um acontecimento de excepcional significado. Os homens e as mulheres livres  ?  no que se distinguem daqueles que nunca perdem a ocasião de servir todos os senhores  ?  são insensíveis a toda e qualquer forma de intimidação, tenha ela a natureza que tiver. Por isso mesmo quero aqui exprimir com toda a nitidez a minha posição em relação à presente situação política nacional. Comecemos pela interpretação dos resultados eleitorais. A 4 de Outubro os portugueses elegeram um Parlamento com uma composição substancialmente diferente da anterior. A coligação de direita ganhou mas...

A metamorfose de Tsipras

FRANCISCO ASSIS Público 09/07/2015 Depois de plebiscitado, Tsipras talvez se tenha reinventado. Claro que deixará órfãos, viúvas e muitos espíritos desalentados mas poderá contribuir para a reorientação em curso das prioridades europeias. 1.  A acreditar nos últimos rumores provenientes de Atenas, Alexis Tsipras estará prestes a aderir àquilo que os seus fanáticos apoiantes lusos tanto vituperam: o compromisso europeu. A ser verdade isso constituirá uma boa notícia para a Grécia e para a Europa e consolidará a teoria da impraticabilidade da via da exacerbação como método de resolução dos conflitos existentes no interior do espaço político europeu. Aquilo que se podia designar como a “ideologia Syriza” assentava no elogio do antagonismo e na exaltação do confronto como forma de transformação do projecto europeu. Na verdade, essa esquerda de origem predominantemente académica que se tem disseminado por vários países do Sul europeu não surgiu na vida pública com a...