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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Alexandre Homem Cristo

Creches gratuitas: debater políticas que funcionam

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ALEXANDRE HOMEM CRISTO    OBSERVADOR      Em vez de propinas e gratuitidade do ensino superior, discutir o acesso gratuito às creches é que deveria ser uma prioridade. E existem experiências internacionais de soluções que realmente funcionam. Definir prioridades é uma regra obrigatória na discussão de políticas públicas. Os recursos (dinheiro e tempo) são limitados e, como tal, devem ser investidos onde mais fazem falta. É uma regra de bom-senso que demasiada gente se esquece quando discute as opções políticas do governo ou as propostas partidárias: não há dinheiro para tudo. Ora, com uma inquietante regularidade, a definição de prioridades é feita por conveniência política. Um bom exemplo disso é o recente debate sobre o fim das propinas no ensino superior, porque reúne os três problemas que sempre surgem quando os interesses políticos se sobrepõem aos factos. Primeiro, a ausência de posições sustentadas em evidências: o governo e o presid...

Sai no exame?

ALEXANDRE HOMEM CRISTO     OBSERVADOR    22.05.17 Se não se libertar o ensino secundário do acesso ao ensino superior, não haverá autonomia escolar que resista. Nem inovação pedagógica. E muito menos aquisição das ditas competências para o século XXI. Um dos grandes professores que tive, o  Miguel Monjardino , ensinou-me a pensar as relações e as tensões entre os Estados através de um mapa. O raciocínio é simples: uma coisa são as palavras, as ameaças e as tensões entre inimigos; outra coisa é a sua real capacidade de concretização das palavras e das ameaças, muitas vezes mensurável pela ponderação das distâncias geográficas e do alcance dos equipamentos militares. Por exemplo, não havendo território amigo onde reabastecer, a autonomia de combustível de um F16 israelita permitiria ir e voltar caso pretendesse executar um ataque no Irão? Este tipo de teste de realidade deve servir sempre de ponto de partida das discussões. No fundo, avalia-se o que obje...

Democratas anti-democratas

ALEXANDRE HOMEM CRISTO   OBSERVADOR   23.01.17 O ódio a Trump é novo terreno fértil para plantar velhas ideias anti-democráticas. Sim, já muita gente leva a sério os perigos de Trump. Mas ainda pouca gente acordou para os perigos dos seus inimigos. Começou com a incapacidade de Hillary Clinton em felicitar Donald Trump na noite eleitoral. Prosseguiu com a disseminação (da mentira) de que quem votou em Donald Trump foi a América redneck, desdentada e pouco qualificada. Alastrou-se através da concepção de uma sociedade dividida entre aqueles que votam “bem” e aqueles que votam “mal” – como se a escolha de um representante político não fosse um acto de cidadania livre. Evoluiu com o responsabilizar da Rússia de Putin pela intromissão na campanha eleitoral, conduzindo Trump à vitória. Agravou-se com tomadas de posição de políticos que, desgostando de Trump, contestaram a sua legitimidade –  como fez o congressista John Lewis , uma figura histórica da democracia america...

Ninguém lava a história como os comunistas

ALEXANDRE HOMEM CRISTO   28.11.16   OBSERVADOR Décadas de romantismo à volta de Fidel Castro tornaram menos óbvio para o mundo que ele não passou de um ditador como outros. Eis a demonstração de força da máquina comunista de revisão da história. Morreu um grande líder. Um verdadeiro patriota, cuja razão de viver foi sempre o bem-estar do seu povo. Um homem que se dedicou inteiramente à defesa da liberdade. Um herói popular, que libertou Cuba de uma ditadura cruel. Um político inspirador de causas justas e aliado das lutas das forças progressistas, que estabeleceu o exemplo. Um símbolo da paz cuja memória se deve honrar prosseguindo a luta pelos ideais que defendia. Não, isto não é para rir nem é brincadeira de mau gosto. É mesmo muito a sério: todos estes louvores constam do  comunicado do PCP  que, em nome dos comunistas portugueses, reagiu à morte de Fidel Castro. Poder-se-ia implicar com o insólito alheamento da realidade dos comunistas – como ...

Uma lição de democracia

ALEXANDRE HOMEM CRISTO    OBSERVADOR   14.11.16 Centeno legislou ad hominem, para nomear esta equipa de administração da CGD. E isentou-a, a seu pedido, da transparência associada ao exercício das suas funções. É grave e tem de haver consequências. O que dizer de um ministro que introduz alterações legislativas pensadas e redigidas à medida das exigências excepcionais de um gestor público, para benefício do próprio? No mínimo que, por essa acção, esse ministro exibiu pleno desrespeito pelos princípios de um Estado de Direito, moldando a lei à sua vontade. Ora, este não é um caso teórico: foi mesmo isso que fez o ministro das Finanças, Mário Centeno, no dossier da Caixa Geral de Depósitos. António Domingues, escolhido para assumir a administração da CGD, colocou condições para aceitar o convite de Mário Centeno: que a lei fosse alterada no sentido de não impor tectos máximos para os salários (Domingues quer ganhar tanto na CGD como se ganha no privado) e de não ser ...

A mordaça sindical

Alexandre Homem Cristo Observador 20161003 Controlar as corporações é dominar o debate, decretar o politicamente legítimo e obter tolerância perante incompetências governativas. O equilíbrio da geringonça está aí: na mordaça sindical da CGTP. Nas escolas, o ano lectivo arrancou sem auxiliares suficientes para assegurar o funcionamento das actividades. E sem dinheiro para suportar os custos de água, luz e papel higiénico, com o ministério a apertar o cinto orçamental ao limite. Nos hospitais, os atrasos nos pagamentos amontoam-se e batem recordes. Estão em causa horas extraordinárias, a reposição de medicamentos, a liquidação de despesas normais de funcionamento. Nos transportes, como explica José Manuel Fernandes, observa-se à deterioração rápida da qualidade dos serviços do Metro de Lisboa, sem fundos para pequenas reparações. E, imagine-se, sem sequer capacidade de emissão de novos bilhetes. Na economia, o investimento público caiu acentuadamente para níveis impensáveis, e...

O PS como escudo de Sócrates

Alexandre Homem Cristo Observador 26/9/2016 Não é possível promover a reabilitação de Sócrates sem desvalorizar as suspeitas ou as dependências financeiras que assumiu. Não há áreas cinzentas. E o PS pôs-se do lado errado do combate democrático Não faltam argumentos para que se qualifique José Sócrates como a figura mais nociva para o funcionamento e prestígio da democracia portuguesa. É suspeito de fuga ao fisco, branqueamento de capitais e corrupção. Reconheceu publicamente que, enquanto primeiro-ministro e depois, viveu na dependência financeira de um amigo cuja empresa assinou vários contratos com o Estado. E autoproclamou-se preso político, questionando a separação de poderes, atacando a Justiça e acusando-a de estar a mando dos partidos da direita. Em países onde a democracia se leva a sério, qualquer uma destas condições valeria a sua imediata ostracização. Por cá, a história é outra: depois de por calculismo eleitoral ter mantido distâncias, o PS aceitou agora ser o pa...

Intolerância a crianças

Alexandre Homem Cristo Observador 29/8/2016 Todos concordam que o país precisa de mais bebés, mas poucos cedem um milímetro do seu bem-estar para os ter por perto. Nas ruas, não há lei que resista: temos uma cidadania intolerante a crianças. “Olha aqueles espertos que trouxeram um bebé só para passar à frente dos outros; isto agora é só truques, se calhar nem é deles”. Foi debaixo deste e de outros comentários bem sonoros que fui atendido há dias, com a minha mulher, no Serviço de Finanças de Picoas, em Lisboa, acerca de uma situação que envolvia ambos. Chegámos antes do abrir da porta, integrámos a fila formada na rua, tirámos senha quando o relógio bateu as 9h da manhã e, tendo trazido a nossa filha por não termos com quem a deixar àquela hora, exercemos o direito à prioridade no atendimento. Tudo normal? Pelos vistos não, já que os insultos não tardaram. E, incontestados pelos restantes, vieram proferidos por quem menos se esperaria – uma senhora com idade para ser avó, e...

Agora está tudo bem

Alexandre Homem Cristo Observador 15/8/2016 Com PS no governo, não foram apenas BE e PCP que mudaram, mas também jornalistas que, cobrindo temas sociais, abdicaram do dramatismo. Afinal, em Portugal deixou de haver fome, pobreza e emigração? Já se sabe que, aos olhos do debate político, tudo é relativo. Não é de agora, claro, mas nunca foi tão patente como é hoje. Daí que, para a actual maioria parlamentar de apoio ao governo, a ocorrência de incêndios, que era (entre 2011-2015) uma consequência da incompetência governamental, seja agora um infortúnio causado pelas condições meteorológicas. Daí que os atrasos de pagamentos nos hospitais, que eram (entre 2011-2015) actos neoliberais para a destruição do Serviço Nacional de Saúde, sejam agora meros actos de gestão das contas públicas. Ou daí que a pioria dos resultados dos exames nacionais e o aumento dos chumbos, que (entre 2011-2015) simbolizavam a elitização do ensino e a exclusão dos mais desfavorecidos ao acesso à educação...

O Governo que persegue juízes

Alexandre Homem Cristo Observador 8/8/2016 O governo plantou no JN uma notícia falsa, que atingiu o bom nome de um juiz (que o Ministério da Educação tentou afastar). Num país e num regime que se dessem ao respeito, isto seria um escândalo. Facto 1: na guerra jurídica que opõe os colégios com contrato de associação ao Estado (concretamente, ao Ministério da Educação), o juiz Tiago Lopes de Miranda decidiu contra o Ministério em duas providências cautelares. Entretanto, já o Ministério da Educação havia solicitado (por três vezes) o afastamento do juiz, levantando suspeição de ausência de imparcialidade devido a um processo passado e não relacionado com as actuais providências. Por três vezes, os pedidos do Ministério da Educação para a escusa do juiz foram julgados improcedentes pelo Tribunal Central Administrativo do Norte. Facto 2: no dia 2 de Agosto, o Jornal de Notícias (JN) fez manchete com a informação de que o juiz Tiago Lopes de Miranda teria a sua filha a estudar nu...

A esquerda que sustenta o populismo da direita

Alexandre Homem Cristo Observador 18/7/2016 Hollande, Tsipras, Iglesias, Corbyn. Viciada em moralismos, a esquerda europeia tornou-se inimiga de si própria. E, pior, deixou um vazio que é responsável pela ascensão da direita populista. Começou com François Hollande. Em Maio de 2012, o actual presidente francês foi eleito sob a promessa de mudar a esquerda e o rumo das políticas europeias. O entusiasmo palpitava. Várias figuras da esquerda europeia celebraram a aurora de uma alternativa política à austeridade. Mas, à mesma velocidade com que ascendeu aos céus, Hollande tombou aos infernos: falhou a renegociação do Tratado Orçamental, subordinou-se à Alemanha, perdeu apoios no seu partido, adoptou um plano de contenção orçamental e liberalizou o mercado de trabalho. O entusiasmo nos corações socialistas esmoreceu: afinal, a alternativa não estava ali. Continuou com o Syriza. Em Janeiro de 2015, numa Grécia em chamas, Tsipras e Varoufakis deram rosto aos anseios de mudança dos ...

Estudar para ser campeão europeu

Alexandre Homem Cristo Observador 11/7/2016 A Selecção recorda o que não éramos mas já somos: um país escolarizado, menos dependente do talento, mais conhecedor dos seus limites e capaz de contornar adversidades. Era o que faltava para vencer. Ganhámos. Ganhámos finalmente. Contra a França e em França, ultrapassando o trauma de 2000, aquele que a mão de Abel Xavier impôs sobre a nação. A euforia tomou conta dos corações. Não, isto não é só sobre futebol. Aliás, nunca foi apenas sobre futebol. Sabe quem vibra no estádio que no relvado se joga um país, que se partilha a emoção com o vizinho, que se defende uma identidade e um sentido de pertença, que se afirmam as raízes de um povo que se sente global. Sim, o futebol por cá é um tema sério. Um assunto de Estado, que define os termos do patriotismo e que até coloca o Presidente da República no flash interview. Sim, a febre futebolística faz dos jogadores nossos heróis, para inveja dos políticos, elevando-os a verdadeiros represen...

Catarina, a Grande contra a Europa

Alexandre Homem Cristo Observador 26/6/2016 O PS aproximou-se do BE e foi essa vitória que os bloquistas exibiram: o PS governa, mas quem manda é o BE. Catarina não foi apenas entronizada líder única do BE, mas também comandante da geringonça. No espaço de um mês, a geringonça foi celebrada duas vezes. Primeiro, no XX Congresso do PS. Agora, na X Convenção do BE. De certo modo, estes foram eventos gémeos: em ambos, vincou-se a viragem à esquerda, criticou-se o rumo do projecto europeu, diabolizou-se o anterior governo PSD-CDS e assinalaram-se as medidas mais populares (populistas?) da geringonça. A maioria das intervenções que se ouviram nesses dois eventos poderia ter sido proferida tanto num como noutro. Algo que, em 2014, seria inimaginável – nessa altura, o BE escarnecia o PS enquanto partido de direita. Quem mudou? Os socialistas – como explicou Mariana Mortágua, foi o PS que se aproximou do BE e não o contrário. Foi, aliás, essa vitória que os bloquistas passaram o fim...

Asfixia democrática

Alexandre Homem Cristo Observador 20/6/2016 Costa pode afirmar o mesmo que Passos. E Gabriela Canavilhas pode sugerir o despedimento de uma jornalista. Sem gerar alarido. A geringonça diz o que quer porque é ela quem define o que se pode dizer. Em 2011, Passos Coelho indicou o mercado da língua portuguesa como uma alternativa profissional para professores. Agora, em 2016, António Costa faz igual apelo. As reacções diferem. A declaração de Passos Coelho soou com estrondo, amontoando opiniões muito críticas ao que, à época, foi recebido como um apelo anti-patriótico à emigração – por jornalistas, por políticos, pela opinião pública. Por seu lado, a afirmação de António Costa passou despercebida, lida enquanto discurso de circunstância, sem relevância ou gravidade. Há quem argumente que o sentido destas duas declarações não é o mesmo – nos partidos, existe sempre gente disponível para esses serviços medíocres. Mas esgrimir nesse sentido não exterioriza apenas falta de seriedade, ...