O vírus do faraó

João César das Neves
DN 20160707

A situação económico-financeira de Portugal inclui um enigma. Será que o país não aprendeu nada com os erros da crise, repetindo as tolices de há dez anos?

É evidente, e não apenas na retórica partidária, a trajectória que levará a uma recaída. A economia, mais do que a política, mostra o problema. As famílias poupam menos do que alguma vez pouparam e as empresas perdem capital. O crédito aos privados desce ininterruptamente desde Junho de 2011, mas em dois sectores o número de novos empréstimos tem subido há dois anos: habitação e consumo dos particulares. Os hábitos de gastos a crédito estão de regresso e, em certas dimensões, pior do que antes.
Uma explicação simples é histórica: há 40 anos, o programa de ajustamento de 1978 com o FMI também não chegou e teve de haver outro em 1983. Ora, agora até os cinco anos de intervalo parecem repetir-se. Mas há uma diferença abissal: na altura foi um novo desastre, o choque do petróleo de 1979, que justificou a recaída. Desta vez doença é a mesma de 2011, e a reincidência pura imprudência do paciente.
Esta leviandade é fácil de entender, pois a elite intelectual tem insistido há anos na tese de que a causa principal dos nossos males é a austeridade imposta pelos credores. Nós não teríamos problemas se a tacanhez dos sacrifícios impostos não bloqueasse o crescimento. O reverso da teoria é a estratégia central de governo e seus apoiantes, tomando a recuperação do rendimento como caminho para a prosperidade, invertendo os famigerados cortes.
Será isto errado? Sim e não. Evidentemente que o aperto prejudica a dinâmica. Estímulos à procura são condição importante para o crescimento. Mas qualquer criança entende que estão longe de ser suficientes. Quem faz o progresso são as empresas, e estas, além de procura, precisam de estabilidade, confiança, financiamento, liberdade e apoios, precisamente aquilo que continua a faltar nestas condições sociopolíticas, influenciadas por partidos anticapitalistas. Na mesma frase promete-se prosperidade, exige-se crescimento e zurzem-se os empresários.
A motivação eleitoralista do despesismo é evidente, mas essa estratégia de gastos é a mesma que nos trouxe ao colapso há sete anos. As razões para as benesses parecem ser sempre produtivas, mas bastaria a recordação dos erros anteriores para mostrar a falácia. A tolice chega ao ponto de até os tiques antigos regressarem da forma mais descarada.
Uma das poucas coisas que, apesar dos equívocos retóricos, os portugueses aprenderam com a crise é que exagero em obras públicas significa desastre financeiro. Sabemos como a dívida que nos assola vem, em grande medida, da fúria de inaugurações. O delírio das autoestradas, bibliotecas municipais, pavilhões polidesportivos, parques industriais, etc., acabou irremissivelmente condenado como réu das nossas dificuldades. Políticos como Alberto João Jardim e José Sócrates, que basearam a sua carreira nessa ilusão, caíram em desgraça.
Seria de esperar que a nova geração de responsáveis tivesse, ao menos, algum pudor no que toca a obras faraónicas. Ora, até isso regressou sem vergonha. O senhor presidente da Câmara de Lisboa decidiu lançar de afogadilho uma enorme quantidade de trabalhos de reestruturação viária na cidade, todos ao mesmo tempo e de grande dimensão. O projecto espanta qualquer observador. Pode perguntar-se porquê esta urgência e de onde virá tanto dinheiro.
Explicação simplista apontaria para as eleições autárquicas do próximo ano. Mas isso é expediente de políticos arcaicos e de direita. Será que o Dr. Fernando Medina seguiria motivações tão reles? Ele diz que aquilo que o move é apenas o bem-estar dos munícipes e o futuro da capital. Por outro lado, sendo distinto economista, será que pensou bem na estrutura financeira dos projectos? Seremos almas mal-intencionadas ao suspeitar que ele deixará a câmara crivada de dívidas para fazer de inaugurador alfacinha?
Claro que esta fúria construtora criará o caos no trânsito lisboeta. Mas, temos de ser justos, isso não é culpa do senhor presidente, mas dos próprios munícipes, que insistem em habitar na cidade enquanto se realizam estas importantes reestruturações. Essa teimosia gera os engarrafamentos. O que deveríamos fazer era imigrar todos de nossas casas durante ano e meio, deixando espaço para realizarem à vontade estas indispensáveis alterações. Depois do Verão do próximo ano todos regressaríamos em massa para votar neste grande autarca que, no seu plano visionário, decidiu tornar insuportável a vida dos seus munícipes.
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