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Esquerda, direita e vice-versa

António Barreto DN201601002 Está aberto um novo ciclo político. Como já houve noutros tempos, de má memória, antes e depois do 25 de Abril. São tempos de fanatismo. De exclusão. De afrontamento sem tréguas. São tempos de esquerda contra a direita, que geram tempos de direita contra a esquerda. Há quem goste. Há quem considere que essa é a grande política, o regresso da política e outras banalidades. Mas sabemos que não é verdade. Com o país assim dividido, perdem-se meios de acção e oportunidades de compromisso e de cooperação. Há com certeza esquerda e direita. Em muitas coisas, são diversos e querem coisas diferentes. Mas há muito mais. O país e a política não se resumem a isso. Há a cultura, a nação, a religião, a etnia, a região, a idade, a arte, a ciência, o trabalho, o desporto, o amor, boa parte da economia, a educação, a saúde, o património e muito mais onde esquerda e direita não têm qualquer espécie de importância, podem até ser nefastos. O que nestes tempos de f...

As notícias na televisão

António Barreto DN20160925 Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional. Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal. Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários s...

As esquerdas e o dinheiro

António Barreto DN20160918  Sempre se disse que as esquerdas têm um problema com o dinheiro. A começar pelo facto de não o terem. É natural. Tivessem dinheiro e talvez não fossem esquerdas. Com algumas excepções, as pessoas de esquerda não têm muito. Por isso, quando estão no governo, têm uma atitude ligeira com o dinheiro dos outros. Querem promover a educação, a saúde, a segurança social e as obras públicas, o que é excelente, só que para isso, que custa tão caro, faz falta o dinheiro. Mas, convencida de que a direita tirou aos pobres para dar aos ricos, a esquerda também quer reverter e devolver aos pobres... No entanto, dar é uma coisa. Crescer e distribuir é outra, bem diferente e mais difícil. Mas a verdade é que uma e outra, esquerda e direita, desde 2000, não conseguem investir nem crescer. Nos bons tempos, gasta-se o que se tem. Nos anos difíceis, gasta-se o que não se tem. Depois, é necessário encontrar dinheiro. As soluções: fazê-lo, pedi-lo emprestado ou ir buscá-...

Todos os anos, pelo Outono...

António Barreto DN 20160904  Os primeiros dias de Setembro recordam rotinas e despertam saudades... Há melancolia no ar, mas também energia renovada. Os corpos ainda trazem sinais do mar ou da montanha. As olheiras do cansaço desapareceram por um tempo. O urbano retoma o seu império. Aliviados durante umas semanas, os acessos às cidades ficam congestionados e recomeçam as filas de carros e as horas perdidas. Nas ruas das cidades, fazem-se as obras mais vistosas, pois o ano que aí vem é de eleições. Os filhos vão para as escolas. Recomeçou a cena dos manuais a preços incompreensíveis. Veremos se, neste ano, volta a haver o drama da colocação de professores, mas tudo leva a crer que não: os sindicatos querem poupar o governo. Nas universidades, acolhem-se mais umas dezenas de milhares de novos alunos. Uma grande parte dos mais velhos entrega-se ao prazer sádico anual, a praxe, que convive com o alcoolismo, a pornografia e a violência. E a impunidade. A Justiça inicia o seu cicl...

Pobre património

António Barreto DN20160828  A discussão, sem fim, dura há dezenas de anos. Vai tendo, conforme os tempos, problemas e soluções diferentes. Que grau de prioridade deve ser atribuída à inventariação, à preservação, ao estudo e à divulgação do património edificado? Muito? Tudo de que precisa? Medianamente? Deixado ao mecenato privado? É mais importante do que as "artes vivas" ou "performativas", como se diz agora? Mais ou menos importante do que a música, a literatura, a pintura, o cinema e a escultura? Dentro da área vastíssima da cultura e do ponto de vista das políticas públicas, o que é mais importante, o património erudito e a "alta cultura" ou as artes e tradições populares? A investigação é mais importante do que a divulgação? O estudo é mais urgente do que a disseminação popular e de massas? A resposta mais fácil é aquela que está no espírito de muita gente. Tudo é urgente, tudo é prioritário, não se deve subestimar nenhuma área, todas as ar...

Liberdade e igualdade

António Barreto DN 20160821  Em Portugal, não há uma economia privada, uma sociedade civil ou uma classe dominante que dirija o país e comande o Estado. É o contrário. Sempre foi. À esquerda ou à direita, com interesses nacionais ou estrangeiros e com ou sem a Igreja, é o Estado que comanda. Por isso é tão frequente encontrar quem exerça o poder com o Estado, pelo Estado e através do Estado. É um Estado para todas as estações. E todos os azimutes. Nas últimas décadas, o Estado fez a guerra e a descolonização, fez a revolução e a contra-revolução, nacionalizou e reprivatizou a economia. Não há "classes" que comandem o Estado e o organizem. Há, isso sim, patrícios, raiders, salteadores e piratas, vindos da economia ou da política, que se apropriam do Estado. Os últimos anos foram de excepcional valor para identificar uns e outros. Comandam temporariamente, com objectivos precisos ou na esperança de encontrar uma ligação duradoura. Assim é que o Estado assegura até alg...

O Outono socialista

António Barreto DN 20160814 A direita diz que não, a esquerda diz que sim. Mas esquerda e direita ainda existem e são diferentes. Quando ambas são democráticas, o que pode acontecer, não são totalmente contraditórias e exclusivas. Distinguem-se, entre outras, pela eficiência (do lado da direita) e pela igualdade (do lado da esquerda). Uma é mais individualista, a direita, outra mais colectivista, a esquerda. Uma, a direita, presta mais atenção à propriedade, outra, a esquerda, prefere a posse comum. Uma olha com especial interesse para a empresa, a direita, outra para o Estado, a esquerda. Mas também têm valores comuns, como a liberdade. Ou então a democracia, a política externa e muitos aspectos do Estado providência, hoje Estado social europeu. Quem negar esta comunidade de valores e de história pretende regressar à política da luta de classes e da guerra civil e não parece ter muito empenho na liberdade. Quando se regressa à retórica da esquerda contra a direita, da classe ...

Elegia para a Europa

António Barreto DN20160807 Sabíamos há muito que ia ser assim. Com as Torres Gémeas, ficou evidente. Sabíamos, mas não acreditávamos. A confirmação veio depois. Em Madrid. Em Londres. Voltámos a saber, mas ainda pensávamos que talvez não fosse bem assim. Agora, já não é necessário comprovar. Em Bruxelas. Em Paris. Em Berlim. Em Munique. Não se pode ignorar. Em Nice. Em Montpellier. Em Rouen. Por quase todo o continente. O estado de emergência vigora em França. A Europa já não é o que era, nem será, dentro de poucos anos, o que é hoje. Acaba uma era na sua e na nossa história. A Europa da paz e do acolhimento de estrangeiros. A Europa de braços abertos a todos os refugiados do mundo, de direita ou de esquerda, religiosos ou pagãos, homens ou mulheres. A Europa que se queria distinguir pela generosidade, pela cultura e pela diversidade. A Europa onde era possível a uma mulher sair sozinha à noite ou um bando de jovens passear sem ser incomodado. A Europa onde se procuravam museus ...

A pior crise

António Barreto DN20160724 A França vive, há meses, em estado de emergência. A região de Munique, capital da Baviera e uma das mais importantes cidades alemãs, está desde sexta-feira em estado de emergência. A Turquia declarou o estado de emergência e suspendeu as liberdades públicas e os direitos humanos. Esta é a Europa em que vivemos hoje. É talvez, desde o fim da Segunda Guerra, a maior e a pior crise da Europa. E estamos longe de ver o seu termo. Lentamente, o terrorismo alastra e procura novos alvos e novos sítios, com diversidade de meios e de métodos. Organizado ou espontâneo, mas quase sempre islâmico. Os povos europeus, de todas as crenças e origens, começam a ter receio. E começam a comportar-se como tal. Não há nada pior do que um povo com medo. A unidade política, representada pela União Europeia, está frágil e incerta. Sem liderança assumida, mas com um comando impositivo, o rumo europeu parece ser traçado pela força das coisas, pouco pela razão, pouco pela von...

Às armas!

António Barreto DN 20160717  Aqui estamos, mais uma vez, a bramar "às armas!". Como sempre. Como noutros séculos. Quando os portugueses, alguns portugueses, não encontram desculpas para as suas asneiras, recorrem ao patriotismo. Quando os governantes não sabem resolver os problemas que herdaram ou criaram, entoam hinos. Quando os dirigentes querem escapar, atribuem as responsabilidades ao inimigo externo. Mas sobretudo quando não têm meios nem razão, logo apontam o dedo a um perigo estrangeiro. Já foi a Espanha dos Filipes, já foi a Inglaterra dos piratas e já foi a França do terror e de Napoleão. Também já foram os americanos. E os comunistas, russos de preferência. Já foi o petróleo e os dólares. Agora, são os europeus. Os de Bruxelas, em geral. Os da Alemanha, em particular. Os da direita, da banca e das finanças, mas estrangeiros. São eles os responsáveis pelas nossas dívidas, os causadores das nossas perdas, os obreiros da nossa crise e os culpados das nossas dif...

As dívidas da Pátria

António Barreto DN 20160710  Já hoje sofremos sanções e não é pouco! Os juros que pagamos são superiores aos dos outros países. Os investimentos, nacionais e estrangeiros, caíram a pique. Continua a exportação de capitais para países mais seguros e bancos mais honestos. Nos mercados, o dinheiro para Portugal é escasso ou muito caro. Os credores internacionais têm dúvidas. Todas estas realidades têm nomes mais técnicos e suaves, mas são verdadeiras sanções. Parece que não chegam! Ainda são precisas mais! Como é evidente, devemos pagar sanções. E ser punidos. É bom que assim seja. A impunidade é um defeito grave. Quem não faz o que deve tem de assumir as consequências. Em última análise, quem sofre com as sanções são os contribuintes. Sabemos isso. Por isso as sanções podem ser injustas. Mas são instrumentos necessários a pôr os políticos em ordem e a obrigá-los a ter disciplina. Sobretudo é o modo de informar os eleitores que os seus políticos governaram mal, tomaram decisões ...

A deriva europeia

António Barreto DN 20160703 Em percentagem do total mundial, a população europeia está a diminuir. Além disso, é a mais envelhecida. A parte da União Europeia no produto global, perto de 15%, está em decréscimo. As taxas de crescimento da economia europeia são das mais reduzidas do mundo. A União deixou de ser uma grande potência industrial. E é cada vez menos uma potência financeira insubstituível. A capacidade científica da Europa atrasa-se em relação aos Estados Unidos e já está ameaçada por outros continentes. Sem a América e sem a Grã-Bretanha, a defesa e a segurança da União Europeia são quase inexistentes. A Europa tem o mais generoso, solidário e acolhedor Estado social. É o continente onde mais se gasta por habitante em saúde, educação, cultura, apoio à família e ao rendimento, segurança social e apoio ao desemprego. É o único continente onde todos os países são democracias. É o continente que atrai maior número de turistas internacionais. Em contas aproximadas, val...

Perdas e danos

António Barreto DN 20160626  Assim, de repente, para assombro de todos, a Grã-Bretanha (ou Reino Unido, ou Inglaterra, logo se verá) entregou a União Europeia à Alemanha e foi-se embora. A Europa ficou mais pobre. Menos livre. Menos diversa. Menos criativa. Mais fraca. Mais indefesa. Menos culta. Mais burocrata. Mais aborrecida. Menos atraente. Não há quem possa compensar o que desaparece. Ninguém, nenhum país poderá preencher o vazio agora criado. O que a União Europeia perdeu, de facto, não tem substituição. Perdeu uma das nações mais antigas e influentes do mundo e da história. Talvez o povo com o maior apego à liberdade que se possa imaginar. A mais antiga e experiente democracia do mundo. O único país que não conheceu, nos últimos séculos, a ditadura. A mais consolidada tradição de autonomia individual perante o Estado. As Forças Armadas mais bem treinadas, mais organizadas e mais operacionais da Europa. A Polícia mais civilizada do mundo. Uma das mais fortes tradições s...

Os culpados

António Barreto DN 20160619 Em quinze anos, desde 2000, o crescimento económico português foi, para o período ou em média anual, zero! Nunca tal se viu, na evolução económica recente. Diante da brutalidade destes números, com a esquerda ou com a direita, as esperanças no desenvolvimento económico e social esfumaram-se. O que se esperava que a modernização tivesse trazido, o que se pensava que a integração europeia tivesse produzido, o que se imaginava que a nova economia e os novos empresários tivessem criado, tudo isso parece ter desaparecido! Aspira-se a um crescimento de 0,5 a 1%, como se fosse o El Dorado! Sonha-se com desemprego a 7% como se do paraíso se tratasse! Com o actual endividamento e o respectivo serviço, décadas serão necessárias para libertar recursos indispensáveis para o investimento. Até lá, vamos procurando culpados. É normal. Compreende-se. Cada crise tem o seu culpado. Nunca é unânime, há sempre polémica, mas, em cada momento, um culpado sobrepõe-se aos ...

As sanções europeias

António Barreto | DN2016.06.12  Depois de ter a certeza de que as instituições europeias não castigariam Portugal, os partidos parlamentares decidiram aprovar um protesto contra as eventuais sanções. Não havia riscos e ficavam todos bem, pensava-se. Assistiu-se então ao espectáculo lamentável de um Parlamento que não se entende a propósito de um voto "patriótico" de repúdio! Qual associação de estudantes, aquela assembleia, perante uma hipotética ameaça europeia, nem um texto medíocre aprovou. Protestar daquela maneira é adolescente e prova de menoridade. Mas nem sequer conseguir alinhar três parágrafos sobre o assunto é simplesmente infantil! E sinal de que o clima político está mau, a caminho de péssimo. Foram aprovados dois protestos... Os socialistas votaram dos dois lados... Deveria, evidentemente, haver sanções. Não há outra maneira de estimular um país à disciplina orçamental e financeira. A proverbial incapacidade dos Portugueses para conseguir disciplina e ri...

Portugueses e Árabes

António Barreto DN 2016.06.05  É impossível encontrar, a propósito de quem quer que seja, um sentimento comum a todos os Portugueses. Ainda bem. O mesmo, aliás, se pode dizer dos outros povos: o consenso é coisa rara, utópica mesmo. Mesmo quando está em causa a opinião sobre outros países, não há consenso. São muitas vezes impressões e preconceitos, aumentados quando se envolvem questões de religião, de identidade e de história. O nacionalismo é uma realidade complexa e delicada. É sabido que os Franceses não gostam dos Alemães nem dos Americanos. Que os Portugueses não morrem de amores pelos Espanhóis. Que os Polacos abominam os Russos. Que os Croatas detestam os Sérvios. E que os Escoceses não têm inclinação pelos Ingleses. Daí a ter certezas sobre os sentimentos colectivos vai um longo e delicado caminho. O anedotário não define um carácter nem uma cultura. Mas lá que existe... Se começarmos a procurar com um pouco mais de pormenor, é possível, todavia, encontrar tendência...

Aniversários

António Barreto | DN20160529 É uma indústria! Há aniversários todos os anos. Antigamente, festejavam-se números redondos: 10 ou 50, por exemplo. Os centenários eram os mais desejados. Depois, vieram os 15 e os 25 anos. Agora, faz-se tudo. Neste ano, estamos servidos. Para além dos clássicos, como sejam os centenários da morte de Cervantes, Shakespeare ou Leibniz, temos, mais perto de nós, os 90 anos da rainha de Inglaterra e do 28 de Maio, os 71 de Hiroxima, da derrota dos alemães e da paz na Europa, assim como os 42 do 25 de Abril e os 40 da Constituição. A actividade comemorativa está cada vez mais globalizada. Pela lista que precede, damo-nos conta de que a memória vai buscar o que pode, a fim de garantir a nossa identidade, mas também o êxito comercial dos profissionais da efeméride. É natural pensar-se que há comemorações artificiais, dado que há procura para quem se especializa nestas coisas. Mas, de qualquer maneira, são boas oportunidades para reflectir. Simplificando se...