FREI LUÍS DE FRANÇA: LUTADOR PELA JUSTIÇA, PELOS DIREITOS HUMANOS

MATILDE SOUSA FRANCO
O Dominicano Padre Luís de França (1936-2016) faleceu no passado 28 de Junho, exactos 8 dias após ter completado 80 anos, sempre esperançoso de melhorar para regressar à sua recente e adorada pátria adoptiva Angola, para onde fora em 2005.
Num mail que o Frei Luís me enviou no início de 2015, o qual intitulou “Saudades de Luanda”, numa das partidas da capital de Angola para vir a Lisboa tratar o cancro, chamava-me “amiga de sempre”. 
De facto, tive a sorte de conhecer o Padre Luís de França desde que nasci, pois as nossas mães eram amigas e vivíamos perto, no Inverno em Lisboa (Benfica) e no Verão em Cascais, sendo eu amiga sobretudo das suas irmãs, mais novas e próximas da minha idade: Luísa (que se “casou” com os carenciados), Teresa, Fátima, e Carolina. 
Ainda no jantar dos anos do Luís, em 2015, em casa da Teresa, tive, mais uma vez, o privilégio de ser a única conviva fora daquela grande, bem formada e unida família de sete irmãos e numerosos descendentes, como se eu fosse a 8ª irmã. Bem-hajam!
Na vida, tenho-me cruzado com imensas “jóias de pessoas” (também com demasiados malandros), mas o Frei Luís de França foi aquele Homem de Deus, que considero santo, que durante décadas morou por perto.
Depois de licenciado em Engenharia Química, o Luís, desde sempre um humanista, preferiu a química da solidariedade, ser construtor de um mundo mais ético, ser um lutador pela Justiça, pelos Direitos Humanos, ingressando em 1960 na Ordem dos Pregadores. Na década de 1960, fez estudos de Teologia em França e no Canadá. 
O Frei Luís vivia no Canadá quando os pais faleceram, e depois levou consigo os dois irmãos mais novos, para melhor os poder ajudar a formarem-se. A Carolina é também bom exemplo do enraizamento em Direitos Humanos: chegou a decisora de topo em questões judiciais no Canadá. 
A irmã Teresa enviuvou muito nova e o Luís foi um verdadeiro e exemplar pai dos sobrinhos, como um deles, o talentoso Jorge, ainda gratamente me evocava agora, no funeral. 
Os exemplos da bondade do Luís multiplicam-se, na família e fora dela.
Quando me casei a primeira vez, em 1971, fui morar em São Domingos de Benfica na Avenida Conselheiro Barjona de Freitas, nº 5 e eis que descobri depois que ao lado, no nº 7, estava então instalada a Comunidade Dominicana, entre a qual se encontrava o Frei Luís de França.
Foi aí que este sacerdote se tornou um dos meus anjos tutelares, por quem tenho uma imensa dívida de Gratidão, pois, no campo de imensos variados obstáculos que tem sido a minha vida, não houve problema grave que ele não ajudasse a solucionar, indo inclusivamente aos locais, falando com todas as pessoas, ousando difíceis e morosas intervenções, sempre a favor da Justiça.
Evidentemente, também acompanhei as suas muitas iniciativas e realizações, pensando que lhe terão dado particular alegria em Portugal: - a co-fundação (1988), co- estruturação/ implementação (1988-1998) e a direcção (1998-2004) da organização não governamental OIKOS – Cooperação e Desenvolvimento, que tão activamente tem procurado que a casa (oikos, em grego) seja uma só para toda a humanidade, pela promoção do diálogo entre todos, crentes e não crentes, pelo fomento de estratégias e programas de Educação para o Desenvolvimento e para a Cidadania Global. A OIKOS rapidamente se expandiu pelo Mundo, com projectos que tanto o melhoram; - a co-fundação (1975) do CRC (Centro de Reflexão Cristã) dedicado já então ao diálogo entre cristãos de diferentes sensibilidades e aos não crentes; - pela mesma época, as intervenções na rádio e o programa televisivo “Cada dia uma Esperança”; - a publicação de estudos; - o acompanhamento de grupos de jovens e de casais; - o cargo de Prior do Convento de São Domingos de Lisboa; - a construção do novo convento de S. Domingos de Benfica, junto à estação de Metro do Alto dos Moinhos ...
Com invulgar juventude de espírito, eis que ao atingir o limiar dos 70 anos, quando é hábito pensar na reforma, o Padre Luís de França decide partir para outro desafio, noutro continente. 
Terminado o último mandato como Director da OIKOS, quis prosseguir o trabalho de promoção do desenvolvimento humano em Angola.
Vai para Luanda, onde foi membro da Direcção, e director da Biblioteca, do Centro Cultural Mosaiko (Mosaiko Instituto para a Cidadania), centro que, nas palavras da tese de doutoramento de Tony Neves “Angola, justiça e paz: nas intervenções da Igreja Católica (1989-2002)” “tem mantido intensa actividade... chegado a todo o país... em favor da causa dos direitos humanos”, referindo-se também já a anos mais recentes. 
Frei Luís foi também Director do Centro Fé e Cultura. 
Na Universidade Católica de Angola (UCAN), o Padre Luís de França foi Director da Biblioteca, Vice-Decano da Faculdade de Teologia, Professor de Ética Empresarial.
Na Rádio Ecclesia foi comentarista para assuntos religiosos.
Também prestou serviço pastoral às paróquias de Nossa Senhora da Boa-Nova (Diocese de Viana) e Nossa Senhora do Carmo (Arquidiocese de Luanda). 
Enfim, durante cerca de dez anos, foram actividades múltiplas a que o Frei Luís tanto se dedicou em Angola que ficava sem tempo para sequer responder a mails vindos de Portugal, como me aconteceu e compreendi.
Anoto as viagens do Frei Luís, de Lisboa para Luanda, em que, apesar da já pouca saúde, carregava pesadas malas, com livros para o Centro Mosaiko e a Universidade Católica de Angola (tendo eu, a seu pedido e gostosamente, colaborado para essas bibliotecas), mas também com lembranças para os seus muitos amigos angolanos.
A saúde falhava-lhe, mas a vontade de servir Angola era tão grande, que, mesmo retido em Lisboa por causa dos tratamentos, extremamente debilitado pela doença e quase até falecer, esteve a trabalhar para Luanda, sobretudo preocupado com os seus alunos, inclusivamente fazendo e corrigindo as provas de exame universitárias, como testemunhei, quando o ia visitar ao convento.
Por mail que me enviou em Março, e o qual titulou “Continuar até onde? ”, escreveu Frei Luís: “Estimada amiga Matilde. Desde a tua última visita que já dei mais passos sem saber bem para que metas”, descrevendo depois consultas e tratamentos, e terminando “assim continua esta luta corpo a corpo”. 
O corpo de Frei Luís de França sucumbiu agora. Acreditar que a sua alma nos tutela do Céu, consola tantas pessoas a quem tanta falta faz, como é o meu caso.
Espero que a obra extraordinária de Frei Luís de França continue a frutificar, a bem da Promoção do Desenvolvimento Humano, a bem da Humanidade.
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