domingo, 24 de julho de 2016

As cabeças do Quaresma

João Taborda da Gama
DN 20160725
Duas imagens. Numa, o Quaresma com a cabeça do francês debaixo do braço esquerdo. O francês de cabeça baixa, sem perceber porque é que o português não o larga, porque lhe faz festas com a mão, para onde estão a ir, quando aquilo vai parar, o mundo inteiro a ver. Noutra, o Quaresma de cabeça baixa, braços apoiados sobre os lados da pia, enquanto um homem mais velho lhe despeja água na cabeça, inclinado, o mundo inteiro a ver.
Tenho com a cabeça de Quaresma uma grande afinidade, partilhamos o mesmo barbeiro (Domingos Moska, hoje ao Parque das Nações, antes ao Lumiar), mas não é sobre isso.
Uma semana separa a final do batizado, mas não é só uma semana que separa a final do batizado. O que terá levado Quaresma a batizar-se? Não faltarão especulações, conjeturas, racionalizações. O cumprimento de uma promessa pela vitória na final? Superstição? Um casamento pela igreja para breve? Talvez tenha sido um pouco de tudo isso, mas não apenas isso. Não precisava de se batizar para nada, nem por tradição, nem para se poder casar, nem para poder ter uma festa, para nada.
Diz o padre que o batizou que ele já andava com vontade daquilo há muito e foi a mulher que deu o empurrão final. Como não é convenção, é conversão.
Como em todas as conversões, como em tudo o que não é explicável, há sempre o motivo próximo, a conveniência, o faz-sentido. Mas há mais, há maior. Deus? Os Santos? O Santos?
Fernando Santos é um católico convicto, que fala da sua fé. "Por último, mas em primeiro, ir falar com o meu maior amigo e sua mãe. Dedicar-Lhe esta conquista e agradecer-Lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Espero e desejo que seja para glória do Seu nome." Esta passagem da carta lida por Fernando Santos no dia da final, que aqui em casa a pequenada achou referir-se ao Ronaldo e à D. Dolores (o que diz muito sobre as valências catequéticas dos paizinhos), foi talvez a maior presença de mensagem cristã no espaço público português de sempre. Maior, porque conjugou surpresa e alta difusão.
A conversão de Fernando Santos dá-se através de um Cursilho de Cristandade, segundo contou numa "Conversa sobre Deus", organizada pela Maria João Avillez, na Capela do Rato no final do ano passado. Sei muito pouco sobre este movimento (origem em Espanha nos anos 1940, movimento de base, cursos de três dias com metodologia própria, à volta de um pequeno grupo), mas foi nos cursilhos que tiveram origem algumas das mais profundas conversões que conheci ou ouvi.
Em Fernando Santos, tudo começou quando deu boleia a um padre por alturas do crisma da filha.
As conversões marcam bem o tempo, o antes e o depois, a gravata à cabeça do outro, a nossa cabeça na água. Do poder sobre o outro à entrega ao poder de Deus e ao outro. Um dos maiores hinos sobre a conversão é When Love Comes to Town, dos U2, das lutas antes de o amor ter chegado, dos tempos perdidos no mar, à deriva, até à chegada do amor. A força da conversão, com alusões claras a Paulo, o maior convertido, é dada por B.B. King. Nenhum tipo de música como os blues ritma a inquietação que traz a conversão.
A mensagem profundamente cristã das letras dos U2, carregadas de passagens bíblicas e de alusões evangélicas, contrasta com a relevância e o conhecimento disto mesmo, mas fica para outras núpcias. Em 1993, no Estádio de Alvalade, ouvi Bono a cantar o When Love Comes to Town, nos túneis de acesso cantava-se o 40. Estava longe de saber que era o Salmo 40, estava mesmo longe de saber o que era um salmo. Tinha 15 anos, pico do ateísmo, "love comes to town" só podia ser gajas e "I will sing, sing a new song" não era o cântico novo do convertido agradecido do salmo, era talvez uma música da banda do novo álbum. Passados sete anos, já eu estava em processo de conversão, vi Quaresma jogar no mesmo estádio pela primeira vez, e pela primeira vez vi o Sporting campeão.
É a outro Ricardo que devo estas coisas muito importantes, o Sporting, os U2. Mas devo-lhe algo muito mais importante, o facto de me ir perguntando se esta coisa da minha conversão é a sério ou se qualquer dia não vou dizer aos amigos (leia-se os não beatos) que isto é tudo a gozar. A conversão, esta espécie de milagre, tem a força que tiver a clareza do antes e do depois. Por isso a importância de me irem perguntando, por isso a importância das cabeças do Quaresma.
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