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A geringonça há de inventar um Bolsonaro em Portugal

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RUI RAMOS   2.11.2018   OBSERVADOR A estratégia de defesa da geringonça está definida para quando um líder da direita tiver chances de chegar a primeiro-ministro: acusá-lo de ser “fascista” e gritar que a democracia vai acabar. Não é só o azar que atormenta os povos. É também a sorte. E a sorte que mais atormenta os comentadores portugueses, enquanto pelo mundo triunfam Salvinis e ganham Bolsonaros, é que a pátria continue ditosamente isenta de uns e de outros. No tempo dos populismos, somos o país onde as elites dormem descansadas. De tal modo, que para nos exaltarmos com o fascismo, como agora voltou a ser moda nos estúdios de televisão, tivemos de ir pedir o drama emprestado ao Brasil. Há quem, a propósito da falta de uma Le Pen portuguesa, nos mande agradecer ao PCP e ao BE. Talvez seja demasiado paradoxal: estas são as forças políticas que inicialmente mais ameaçaram a democracia em Portugal, e que hoje, aliás, concordam frequentemente com Le Pe...

Porque é que as eleições na Alemanha são tão chatas?

RUI RAMOS    OBSERVADOR   22.09.17 Apesar do seu peso e força, a Alemanha de Merkel é uma espécie de Suíça em ponto grande. Servirá sempre mais àqueles que precisam de um fantasma do que aos que dela esperem decisão e orientação. As eleições na Alemanha deviam estar a agitar as primeiras páginas. Não só porque a Alemanha é o maior Estado da União Europeia, mas porque quase todas as votações em países grandes foram, nos últimos anos, causa de comoção mediática. Desde 2015, tivemos o referendo no Reino; Donald Trump nos EUA; o Podemos e os Ciudadanos em Espanha; Marine Le Pen e Emmanuel Macron em França. Se bem se lembram, era suposto estarmos a assistir à revolta geral dos “descontentes da globalização”. Mas eis que chegamos à Alemanha, e é outro planeta. Onde estão os Trumps, os Macron? Toda a gente espera mais quatro anos para Angela Merkel, e talvez mais uma “grande coligação” dos partidos do regime (CDU-CSU e SPD). É verdade: existe a Alternativa para a Ale...

Havia alguns corruptos ou era tudo corrupção?

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Video de Rui Ramos alerta para a corrupção como um problema de regime, em Portugal. Siga o LINK para o ver o video.

São, por vezes, os loucos que dizem a verdade

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RUI RAMOS   01.06.17   OBSERVADOR Siga o LINK para ver o video

As rendas do descontentamento

RUI RAMOS   OBSERVADOR   02-06-17 O turismo urbano, ao mesmo tempo que está a gerar crescimento económico, está a inspirar frustrações sociais, ao tornar patente que este é um crescimento muito mais limitado do que no passado. Falemos de casa. Ou melhor: falemos de rendas. À primeira vista, pode parecer que voltámos ao “problema da habitação” dos anos 70 e 80. Mas não. A questão é muito diferente. Nos anos 80, o mercado de arrendamento tinha sido destruído e os subúrbios ainda não haviam começado a expandir-se com o crédito bancário. Hoje, casas não faltam. O que faltam são as casas que, de repente, muitos portugueses começaram a desejar: em Lisboa, um andar antigo na Graça, com vista para o Castelo, que pudessem alugar ou vender a turistas. Em Portugal, o novo “problema da habitação” surgiu como um efeito secundário do dilúvio turístico. A contaminação da margem sul do Mediterrâneo pelo terrorismo, os voos e alojamentos baratos e as novas tecnologias puseram Lisb...

Não foi António Costa quem ganhou a Eurovisão?

RUI RAMOS   OBSERVADOR   16.05.17 Se não devemos dar parabéns a António Costa pelo primeiro lugar no Festival da Eurovisão, por que razão é que temos de lhe dar os parabéns pelo crescimento económico no primeiro trimestre deste ano? Os últimos dias têm sido fantásticos para António Costa. No sábado, ganhou o campeonato de futebol e venceu a Eurovisão. E como se não bastasse, reclamou ontem mais uma coroa de louros pelo crescimento da economia no primeiro trimestre do ano. Como dizem? Não foi Costa quem ganhou o campeonato? Não foi ele quem venceu a Eurovisão? De acordo. Mas se não devemos dar a Costa os parabéns pelo primeiro lugar na Eurovisão, só por causa desse pequeno pormenor de ter sido Salvador Sobral quem lá foi cantar, por que razão é que temos de lhe dar os parabéns pelo crescimento económico? Costa é suficientemente honesto para admitir que não cantou na Ucrânia. Mas no caso da economia, insistirá em que o mérito é seu: foi a sua “reposição d...

Em Portugal, o perigo não é um Trump, mas um Putin

           RUI RAMOS  OBSERVADOR  18.11.16   No rescaldo da eleição de Donald Trump, Jorge Sampaio veio apelar à humanidade contra o populismo. É provavelmente um aviso relevante para muitos países ocidentais. Mas para Portugal? Atrevo-me aqui a discordar respeitosamente do Dr. Sampaio. Em Portugal, o problema não é o populismo, se por populismo entendermos, como agora é costume, a insurreição das plebes, excitadas pela demagogia da anti-globalização. O programa de ajustamento de 2011 foi duro, e a estagnação da economia já vai em mais de quinze anos. Mas onde estão as nossas Frentes Nacionais e os nossos Podemos? Nessa área, temos dois velhos partidos do PREC, a que nem a troika deu força para crescer: valiam em 2015 menos votos do que em 2009. O problema em Portugal é outro: é o das cliques políticas decididas a usar o Estado para expandir as suas clientelas e constranger a vida pública. Se quiserem uma referência internacio...

Porque é que os pobres votam Trump?

RUI RAMOS  OBSERVADOR  11.11.16 Para a esquerda politicamente correcta, os trabalhadores e os pobres do Ocidente são hoje piores do que os “ricos”, uns “maus selvagens” culpados pelo Brexit e por Trump. Primeiro foi o Brexit, agora Trump. De cada vez, vemos os vigilantes da correcção política recorrer ao mesmo truque: inventar uma classe que no país em causa represente, segundo eles, um estado primitivo da humanidade, e atribuir a essa classe toda a responsabilidade pelo resultado. Quer no Reino Unido, quer nos EUA, esse papel coube aos “brancos pobres” e às “classes trabalhadoras”. Teriam sido eles, habitando paragens abandonadas pelo progresso (o norte de Inglaterra ou o “rust belt” americano), que votaram Brexit ou que elegeram Trump. Mas porquê esta fixação nos “brancos pobres”, quando sabemos que, por exemplo, a maioria dos brancos qualificados também votou em Trump, assim como 3 em cada 10 “latinos”? É um aspecto interessante desta história. As “classes trabalhado...

Sabemos quem perdeu, não quem ganhou

RUI RAMOS   OBSERVADOR  09.11.16 A imprensa passou um ano a reduzir Trump a um monstro patético, destinado a ser facilmente atropelado por Clinton. Mas Trump ganhou, e a história, tal como aconteceu após o Brexit, ainda não acabou. Isto foi Brexit vezes dois: Trump presidente, com uma maioria republicana nas duas câmaras do congresso. Era um resultado possível, porque desde o Brexit nos começámos a habituar a todas as possibilidades, mas que pouca gente esperava. Talvez por isso, não é fácil agora prever o que vem a seguir. Neste momento, já sabemos quem perdeu, ainda não sabemos quem ganhou. Perdeu Hillary Clinton, uma candidata apoiada por quase todo o establishment, pelo presidente, pela máquina partidária com mais dinheiro desta campanha, pelo poder financeiro, pelo poder mediático, pelo poder universitário, pelo poder de Hollywood. A história da primeira mulher presidente nunca pegou, porque Clinton era sobretudo a herdeira do sistema, cheia de bagagem, de equívoco...

Trump ou Clinton, os americanos vão eleger um mau presidente

RUI RAMOS    OBSERVADOR   08.11.16 Nestas eleições, parece que os americanos, à direita ou à esquerda, não esperam escolher mais do que um mal menor. Mas um mal menor é ainda um mal. Os EUA vão ter um mau presidente, ganhe quem ganhar. Não sei qual dos dois candidatos os americanos vão escolher, mas seja qual for, vão escolher um mau candidato, que será um mau presidente. Donald Trump é pior do que Hillary Clinton? Talvez, mas não nos deixemos ofuscar pelas lendas que fazem de Trump um intruso, a tentar subverter de fora o regime americano. Porque se o milionário, estrela de televisão e antigo anfitrião dos Clinton representa alguma coisa, são tendências há muito manifestas num sistema de que também ele faz parte. Trump é quase tudo o que dizem dele. Mas não está sozinho. Trump parece excepcionalmente incivil, mas só até vermos a ousadia com que a  imprensa dita “séria”  se permite escrever sobre ele. Trump divide os americanos, mas Clinton faz o quê, qua...

As três condições deste governo

RUI RAMOS  OBSERVADOR  04.11.16 O governo espera controlar o país através de um “clientelismo de massa”, que compreende o funcionalismo público, os pensionistas de maiores rendimentos e os banqueiros do Estado -- um "chavismo rico". Valerá ainda a pena voltar à questão da hermenêutica orçamental? Como é óbvio, qualquer proposta de despesa para um certo ano deve ser interpretada em função da despesa efectuada no ano anterior: se eu disse que ia gastar 100 em 2016, mas gastei 200, e agora disser que vou gastar 110 em 2017, parece claro que a interpretação mais relevante é aquela que nota uma intenção de cortar a despesa em 90, e não de a aumentar em 10. A comparação entre previsões é irrisória, porque um orçamento parte de uma execução, e não de uma previsão ultrapassada. Sempre foi assim. Mas como esta abordagem não dava jeito ao governo no debate orçamental, o óbvio deixou de ser óbvio. O mais significativo, porém, não foi isso, mas a quantidade de gente que apareceu a t...

O regresso de Sócrates

Rui Ramos Observador 23/9/2016 Porque é que Ana Gomes parece ser a única socialista à vontade para dizer em público o que deve ser dito, isto é, que José Sócrates, pelo que admitiu, não deveria ter lugar na vida do regime? É o regresso de José Sócrates. O regresso oficial. Depois dos comícios na província, depois das invasões de palco durante visitas do primeiro-ministro e do presidente da república, eis o convite oficial e legítimo para participar num “evento institucional” do Partido Socialista, hoje, sexta-feira. E perante este regresso, que diz o líder do PS e primeiro-ministro, António Costa? António Costa não diz nada, mas constou na imprensa que estaria “confortável”, porque não tenciona frequentar o referido “evento”. Para António Costa, tudo parece estar bem desde que, ao contrário do presidente da república, não tenha de aparecer com Sócrates na fotografia. Os defensores de José Sócrates vêm sempre com figuras jurídicas: não foi condenado, ainda nem sequer foi acus...

O bloquismo, doença infantil da geringonça

Rui Ramos Observador 20/9/2016 O PS acusou o PSD e o CDS de se terem rendido ao “radicalismo neo-liberal” da troika. Agora deixa o PSD e o CDS acusarem-no de estar submetido ao "radicalismo neo-comunista" do BE e do PCP. Os bloquistas, segundo as crónicas, tiveram de correr atrás do PCP e de António Costa na fundação da geringonça. Desde então, insistem em ir à frente. Aparecem em todo o lado, opinam sobre tudo, reivindicam todas as ideias, sempre com aquela dicção martelada que Francisco Louçã lhes deixou em herança. Onde Costa e o PCP dizem mata, têm eles de dizer esfola. Viu-se no caso da penalização fiscal da propriedade e da poupança. Os outros falaram de um mínimo de 1 milhão de euros, eles desceram logo aos 500 mil. Os outros quiseram atacar o “luxo”, eles preparam-se logo para castigar a simples “acumulação” de dinheiro. O bloquismo é a doença infantil da geringonça. Agitam-se, logo existem. Para o Bloco, claro, tudo tem razão de ser. No seu mundo, não fa...

O assassinato das classes médias

Rui Ramos Observador 16/9/2016 Sob o actual regime fiscal, Portugal pode estar a caminhar para uma despromoção social maciça. Noutros países, a classes médias podem estar a morrer; aqui, vão ser assassinadas. No mesmo dia em que o Conselho das Finanças Públicas baixou a previsão de crescimento do PIB, os acólitos bloquistas do governo anunciaram mais impostos. Mas a maioria social-comunista não nos quer ver alarmados. Só “eles” estão em risco. Eles, os “ricos”. Não nós, a “classe média”. É curioso: quando se trata de “devolução de rendimento”, a maioria faz de conta que é para todos; quando fala de impostos, finge que é só para alguns. Esta retórica supõe que é fácil segmentar a sociedade entre “eles” e “nós”. Mas não é. O património imobiliário não divide os portugueses entre “eles” e “nós”. Para começar, porque não depende necessariamente de rendimentos actuais. Pode resultar de heranças ou de aquisições antigas. Não é impossível que uma família tenha um património imobili...

António Costa no país do cinismo

Rui Ramos Observador 13/9/2016 Para Costa, o aumento dos colocados no ensino superior resultou da reversão das políticas da direita. Porém, esse aumento começou com Passos. Que impede Costa de dizer as coisas tal como elas são? António Costa podia ter apenas saudado o aumento dos candidatos colocados no ensino superior público. Mas foi mais forte do que ele: teve de acrescentar que isso se devia exclusivamente à “morte” do “modelo da direita”. Infelizmente, as estatísticas não o ajudam. O número de colocados começou por cair entre 2010 e 2011. Culpa do “modelo da direita”? Mas era Sócrates quem estava no poder. Depois, o número subiu de 2014 para 2015. Mérito da “reversão das políticas de direita”? Mas era Passos Coelho quem governava. Porque é que António Costa não pode dizer as coisas simplesmente como elas são? Onde está a dificuldade? A dificuldade está num dos grandes legados de Sócrates aos seus correligionários: a teoria da “narrativa”. O princípio da teoria é exped...

Brasil: o que é uma democracia?

Rui Ramos Observador 2/9/2016 No Brasil, importa menos o que aconteceu, do que o modo como aconteceu. Dilma não foi derrubada na rua, por soldados ou manifestantes. Caiu onde devia, no Senado. É a diferença que faz a democracia. Como já se esperava, a presidente do Brasil foi deposta pelo senado. Toda a gente no Brasil tem opinião, mas parece que fora do Brasil também. O que aconteceu? Não, não foi o golpe de Estado de uma classe reaccionária contra um governo do povo e das minorias. Mas também não foi a rejeição pela parte sã do país de um governo demagógico e corrupto. Foi outra coisa: um realinhamento de forças nas câmaras legislativas, suscitado pela maior recessão económica das últimas décadas e pelo maior escândalo de corrupção de sempre. Que diz isso sobre a democracia no Brasil? O que importa neste caso não é o que aconteceu, mas o modo como aconteceu. Dilma Rousseff não foi derrubada na rua, por soldados ou por manifestantes. Caiu onde devia cair, nas câmaras legi...

É óbvio que eles não estão arrependidos

Rui Ramos Observador 26/8/2016 Catarina Martins não está arrependida, tal como Jerónimo de Sousa não está arrependido. Não têm uma única razão para isso. A actual maioria parlamentar foi a maior vitória política do PCP e do BE. Catarina Martins disse algures que todos os dias se arrependia da “geringonça”, e a imprensa comoveu-se. Sem razão. Catarina Martins não está arrependida, tal como Jerónimo de Sousa não está arrependido. Não têm uma única razão para isso. A actual maioria parlamentar corresponde ao que o PCP e os partidos que depois engendraram o Bloco de Esquerda propõem desde 1976. Foi a sua maior vitória política em quarenta anos. Em 1975, contra a influência militar do PCP e da “extrema-esquerda”, formou-se em Portugal uma maioria a favor de uma democracia de tipo ocidental, no quadro da NATO e da integração europeia. Essa maioria era composta à direita pelo PSD e CDS, e à esquerda pelo PS. Perante esta maioria democrática, o PCP e depois a extrema-esquerda dese...