domingo, 24 de julho de 2016

O erro da Europa é pensar o Islão com o modelo do cristianismo

Le Figaro, 20160720
ENTREVISTA - Filósofo, especialista da filosofia medieval árabe, membro do Instituto, Rémi Brague explica as fontes teológicas nas quais o Estado Islâmico vai poisa e admira-se que se continue a apreender a religião muçulmana através do prisma do cristianismo.
LE FIGARO. - Mohamed Lahouaiej Bouhel, a crer nos que lhes são próximos, não tinha o perfil de um jiahdista. O ministro do Interior falou de um “radicalismo expresso”. O que lhe inspira esta reflexão?
Não está mal como perplexidade. No caso do matador nicense, nós não temos ainda totalmente claras as suas motivações.
E, qualquer que seja o ritmo ao qual se opera, a “radicalização” não é uma noção clara. Faltaria em primeiro lugar pormo-nos de acordo sobre as suas “raízes”, às quais a palavra remete. Porque é que regressar às raízes deverá conduzir ao crime?
A vida do indivíduo (bon-vivant, bebedor de álcool, dançarino de salsa) testemunham o seu afastamento do islão. Os homens do 11 de Setembro eram também, aparentemente, “ocidentais” no seu modo de vida. Como explicar esta esquizofrenia?
Seria preciso, em primeiro lugar, verificar as declarações daqueles que falam deste indivíduo. Um bom número dos que se fizeram explodir ou matar são apresentados como rapazes gentis, prestáveis e sem problemas, e, supremo cumprimento, até jogavam futebol…
Esquizofrenia? Talvez não… Pode-se admitir que a prática dum jihadista violento seja também, para alguns, uma maneira de « se fazer perdoar » por uma adaptação demasiado fácil a modas ocidentais consideradas corrompidas, para se auto-castigarem pelas suas cedências. Fazer-se explodir é mais rápido que entrar num processo longo e penoso de conversão.
O Daech parece exercer uma atracção violenta sobre os delinquentes. Como se faz a passagem da delinquência à guerra santa?
Seria preciso, para explicar esta passagem, e simplesmente para a analisar, competências em psicologia e em sociologia que eu não possuo. Mas deter-me-ei nesta noção de « guerra santa ». Muitos muçulmanos querem hoje evitar esta expressão e usar o árabe jihâd, muitas vezes concebido como um esforço puramente espiritual de luta contras as próprias paixões. Porém, encontramo-la frequentemente num sentido muito concreto, por exemplo nos tratados de direito (fiqh), onde o capítulo intitulado «jihâd» trata de hostilidades claramente materiais. Estabelece-se aí que se trata de uma obrigação dita de « suficiência »: não incumbe a todos os muçulmanos, mas basta que um certo número dela se encarregue para que o dever seja cumprido. Trata-se aí de convocações prévias, pergunta-se se é permito abater palmeiras do inimigo ou de o bombardear, se é preciso para isso matar as mulheres e as crianças, usando-as como escudo; explica-se o que fazer dos prisioneiros, como repartir o espólio, etc. E, no sentido místico, emprega-se mais frequentemente outro nome verbal da mesma forma da mesma raíz, a saber mujâhada.
Vale em todo o caso a pena parar sobre o paradoxo que constitui esta aliança de palavras: « guerra santa » . Comporta um ensinamento precioso: o islão em sobre as outras religiões vivas esta imensa vantagem que permite pôr directamente em equação o que há de pior e o que há de melhor, os instintos mais vivos e o ser mais santo, o assassino e Deus. As cruzadas e os inquisidores não o podiam fazê-lo a não ser com o custo de mil desvios: tomar os relatos de conquista do antigo Testamento ou as fulminações contras as bruxas como recomendações actuais, etc., e estremosamente contornar o Sermão da Montanha. Certas religiões desaparecidas, como a dos Cartagineses ou dos Astecas - e dos Gauleses - arriscavam esta junção com sacrifícios humanos. 
Para o Estado islâmico, Deus ordena o auto-sacrifício, matando o maior número possível de outros homens.
Este islão permite também fazer crer às pessoas que não foram muito bem sucedidas na vida que tudo é culpa dos outros, que são malvados e que é preciso, portanto, eliminá-los. Sentir-se do « partido de Deus » (Corão, V, 56) em luta contra os « piores dos animais » que são os não crentes (Corão, VIII, 22) pode dar um certa exaltação. E ao mesmo tempo, a culpabilidade é eliminada, já que é o próprio Deus que mata os Seus inimigos (Corão, VIII, 17).
Segundo Giles Kepel, o objectivo do Estado islâmico é provocar a guerra civil no nosso território e de assim, tomar partido pela causa da integridade dos muçulmanos em França. Partilha deste ponto de vista?
Não tenho sequer autoridade para me pronunciar, mas parece-me muito possível. Se for esse o caso, estaríamos perante a táctica empregue nos anos 1979 pelos grupos de extrema esquerda: provocar uma repressão cujos excessos levariam a uma reacção de solidariedade. Isso não funcionou com as Brigadas vermelhas ou o bando de Baader, que visavam a população inteira de grandes países como a Itália e a Alemanha.
O Estado islâmico poderia ter um pouco mais de possibilidades de sucesso, porque o grupo visado, os muçulmanos que vivem em França, possui já uma certa forma de unidade, bastante laça noutros lugares, que poderia fazer “agarrar a mayonnaise” mais facilmente. Esta unidade tem vários factores: o sentimento de ser ainda uma minoria que deve « cerrar fileiras », o de ter de frequentemente se contentar com os trabalhos que os outros não querem e portanto ficar no fundo da escala, por vezes uma mesma cidadania de origem, a prática duma língua idêntica ou o facto muito simples de morar nos mesmos bairros e enfim, bem entendido, a referência mais ou menos acentuada à religião.
Numerosos políticos e intelectuais dissociam absolutamente a religião muçulmana do Estado islâmico ou da Al Qaeda que eles consideram mesmo uma inversão do islão. O Daech não tem nada a ver com o islão?
A «religião muçulmana» é já uma expressão enganosa. É claro que, se quisermos classificar o islão numa das grandes categorias da actividade humana, é melhor arrumá-lo na rubrica «religião» que na rubrica «jardinagem». Mas esta rubrica é muito larga. E, sobretudo, os Europeus, desde os mais piedosos praticantes ao mais inveterado mata-frades, pensam todos a religião através do modelo insconsciente do cristianismo. Reduzem, portanto, a religião àquilo que eles observam nas diversas confissões cristãs: actos de cultor, oração, eventualmente jejuns e peregrinações. Aquilo que não é importante é sentido como exterior à religião. Ora, para o islão, a religião consiste essencialmente em aplicar a lei divina. É porque ela o ordena que é preciso rezar, jejuar, etc. e ela comanda também o véu, a alimentação halal, etc.
O Estado islâmico pretende ser fiel ao adjectivo (islâmico). Qual é o direito de o contestar? Os seus propagandistas consideram aqueles que nós chamamos «moderados» como tíbios, ou mesmo traidores. Quem sou eu para distribuir certificados de ortodoxia islâmica? Direi que, se o Estado islâmico não coincide totalmente com o islão, e, portanto, se ele não é o islão, é mesmo assim, um islão entre os outros. Representa uma tentativa para ressuscitar, com os meios de hoje, as práticas que as biografias mais antigas atribuem ao próprio Maomé, o «belo exemplo» (Corão, XXXIII, 21).
Considera-se que a Internet, mais ainda que as mesquitas, conduz os jovens para a jihad. A que fonte reportam estes sítios da internet?
É-me difícil responder em detalhe, por falta de uma frequência suficientemente assídua dos sites que promovem a jihad. E que são de tendências muito variadas. De um modo geral a Internet permite um máximo de impunidade. A coberto do anonimato, ou melhor, do pseudo anonimato, qualquer um se pode permitir contar o que quer que seja, mentir, difamar, insultar, apelar ao martírio. Isto não vale só para os sites islamitas. Nesse caso torna-se muito fácil construir um paraíso imaginário na terra.
Compara-se muitas vezes, o islão à Igreja católica insistindo sobre o facto que a religião muçulmana deve fazer o seu Vaticano II. Este paralelo é pertinente?
Parece-me totalmente coxo, por muitas razões. Em primeiro lugar a Igreja católica é uma organização com dogmas bem definidos e com uma hierarquia perfeitamente clara; tem um catecismo e bispos, e o bispo de Roma que é o papa. É um destes, João XXIII, que decidiu reunir um segundo concílio no Vaticano. Quem, no islão, poderia lançar um apelo deste género, fazer-se escutar e fazer aplicar as decisões tomadas?
Por outro lado, o Vaticano II procurava um retorno às fontes, passando as incrustações posteriores, um pouco no espírito de Francisco de Assis que queria retornar ao Evangelho sem as interpretações que o atenuam. Ora, no islão, o pior está no princípio. É no período de Medina (622-632) que se inspiram as pessoas do Estado islâmico. Eles idealizam-no, mas sem retirar os massacres, os assassinatos e as torturas. Os Evangelhos não contêm qualquer apelo à violência. O Corão e o Hadith, lidos literalmente, sim…
O que é o «islão das luzes»?
Esta expressão emprega-se desde há algum tempo. Pergunto-me se o primeiro a lançá-la não seria Malek Chebel no seu Manifesto por um islão das luzes, de 2004. Certamente o que ele entende por isso, seria uma excelente ideia. Farei porém, duas observações. Por um lado, é preciso não procurar no passado realizações dum tal islão a não ser com muita prudência. Se quisermos falar de realizações intelectuais e artísticas, não há problema.
Mas se se trata de «tolerancia»? Averroès? Ele conclui um raciocínio filosófico por «e é por isso que é obrigatório matar os heréticos» (Tahafut at-Tahafut, XVII, 17). A Andaluzia? Lá em baixo, leiamos de preferência os historiadores do que os romancistas… Por outro lado, «as luzes» são uma das nossas vacas sagradas e seria bom fazer um pouco de arrumação no nosso próprio passado ocidental e de ver que elas têm bastantes sombras, antes de as propor ao resto do mundo, islão incluído…
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