quinta-feira, 14 de julho de 2016

Uma banca bancária

João César das Neves
DN 20160714

Na entrevista ao semanário Expresso de 2 de Julho, o chefe de missão do FMI, Subir Lall, teve uma frase espantosa, muito reveladora dos nossos problemas. "Os bancos, de forma geral, não se focam no lucro. Parecem estar muito mais concentrados numa actividade bancária assente nas relações."
Esta afirmação manifesta uma das questões centrais da crise. Primeiro, e apesar da atenção às finanças públicas, que estão muito mal, a nossa maior dificuldade situa-se na economia produtiva, ainda mais endividada do que o Estado e sem crescimento válido desde 2001. O sector bancário, local onde os dois dramas convergem, constitui um dos elementos mais combalidos e perigosos da nossa conjuntura. Demorou tempo, mas finalmente hoje todos entendem isto.
De forma arguta, Lall identifica uma das causas decisivas: os bancos não se focam na rentabilidade. E explica: "Centram-se nos clientes prime, que em muitos casos não querem os fundos (...) a banca portuguesa parece assentar muito nas garantias pessoais."
Uma breve inspecção às recentes catástrofes financeiras mostra essa verdade. O caso BES é um exemplo extremo de "clientes prime", em particular familiares, sem rentabilidade. A obscena luta pelo poder no BCP, em 2007, foi um embate de relações e compadres. Os problemas que assombram o Banif, o Montepio e a CGD, entre outros, resultam sobretudo da prioridade dada às influências, sacrificando a rentabilidade. Em todos estes casos foi um conjunto de poderosos (clientes e accionistas de referência, partidos, ministérios, interesses ou sectores) que recebeu empréstimos com base em garantias pessoais e pouca atenção ao lucro. Enquanto a bolha enchia, tudo parecia fácil; assim que o inchaço parou, desabou como um castelo de cartas.
Mesmo agora, que a loucura terminou e a realidade geme diariamente, o enviesamento permanece.
O caso BES é um exemplo extremo de "clientes prime", em particular familiares, sem rentabilidade. A obscena luta pelo poder no BCP, em 2007, foi um embate de relações e compadres
Os recentes temores quanto à chamada "espanholização da banca" nascem do mesmo. Diz-se temer que a liderança castelhana não atenda às especificidades das nossas empresas. Mas quando a banca funciona com base no lucro a nacionalidade dos donos das entidades financeiras é irrelevante: quem tiver bons projectos sempre conseguirá financiamento. Só que não é assim que o sistema funciona entre nós. Somos um país de compadres e "quem não tem padrinhos morre mouro". Os padrinhos mais valiosos são dos bancos. É precisamente por isso que a inevitável mudança da nossa elite financeira alarma tanta gente: precisamos de uma banca portuguesa para atender às tais particularidades das nossas empresas. Fica subentendido que uma dessas particularidades é não terem lucros, porque se os tivessem não seria preciso mais nada.
Se as coisas são assim na banca, alegadamente economicista e mesquinha, como não andarão no resto da sociedade? Ouve-se a cada passo que não podemos ser dominados por interesses financeiros, devendo atender à complexidade política. A justificação é que as forças económicas são mecânicas, parcelares, avarentas e injustas, enquanto a política é democrática e representativa. Mas por cá a realidade é frequentemente a inversa. Quando os critérios são o lucro e a produtividade, todos aqueles que têm bons projectos, de qualquer origem e orientação, são atendidos. Na política nacional, pelo contrário, a democracia foi capturada por algumas forças e interesses, que dominam os aparelhos e monopolizam influências.
Isso vê-se com toda a clareza nos debates correntes. O alegado fim da austeridade não significou mais investimento produtivo, mas obras públicas e créditos à habitação. As 35 horas de trabalho não são para os trabalhadores, mas para os funcionários públicos. As medidas políticas que dominam a agenda não se dirigem aos pobres, às empresas, ao desenvolvimento, mas ao consumo, aos pensionistas, empresas públicas, serviços do Estado e autarcas em campanha. Assim, a frase de Lall também se aplica com a mesma relevância aos dirigentes nacionais: não se focam na qualidade, progresso e eficácia, porque estão mais concentrados numa actividade política assente nas relações.
A montanha de crédito malparado que se vem revelando na banca, e tem servido de matéria para o jogo de acusações mútuas das nossas elites, nasceu precisamente da influência exagerada dessas elites sobre as instituições de crédito. Agora outras elites estrangeiras irão comprar a banca lusitana, porque as nossas não têm capital para a sustentar. Esperemos que, finalmente, venhamos a ter um sector financeiro que cumpra a sua função, atendendo apenas ao que lhe compete: o lucro.
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