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A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: João César das Neves

Solução Omissa

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JOÃO LUIS CESAR DAS NEVES    DN   05.05.2018 Avança no mundo o projecto de morte do sistema capitalista debaixo das ordens do capital rentista e especulativo que proporciona, ano após ano, uma brutal concentração de riquezas nas mãos de poucos (...) Mas, não satisfeita com tanta concentração de riquezas, a elite burguesa do planeta ataca a classe trabalhadora retirando-lhe direitos adquiridos ao longo dos tempos e através de muitas lutas, sofrimentos e sangue derramado". Este texto, retirado de uma proclamação do recente 1.º de Maio, encaixa nas retóricas habituais da efeméride. O elemento estranho é vir assinado pelo Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (mmtc-infor.com). Dado que os discípulos de Jesus se encontram sob mandato, não só de amar o próximo, mas até os inimigos (Mt 5, 44), não é costume encontrar dentro da Igreja declarações tão incendiárias. Será o manifesto do MMTC expressão correcta da visão cristã da sociedade contemporânea? Os dramas q...

Os neo-protestantes

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JOÃO  CÉSAR DAS NEVES   17.02.2018     DN Hoje não é costume ver intelectuais zurzir bispos. Essa prática, obrigatória nas elites desde o século XIX, saiu de moda. Por isso surpreende a campanha de censura e zombaria que se abateu sobre o cardeal-patriarca da Lisboa nestes dias. Isto só acontece por o prelado ter tocado num tema que os irreligiosos consideram sagrado. A atitude da cultura dominante em relação aos cristãos inverteu-se nos anos 1960. Demorou tempo, mas os pensadores oficiais acabaram por aprender que a Igreja não é aquela instituição bafienta, ridícula e moribunda que os seus antecessores sujeitavam ao mais supino ridículo. Debaixo do maior ataque cultural e político da história da humanidade, do sarcasmo maçónico aos gulags marxistas, a Igreja ressuscitou ao terceiro dia, mostrando a solidez, a elevação e a vitalidade que a tornou respeitável. Desde S. João XXIII, a imprensa passou a ignorar as questões religiosas, preferindo o ...

O roubo do século

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JOÃO LUIS CÉSAR DAS NEVES           20.01.2018            DN Algumas acções, mesmo pontuais e menores, ficam na história só pelo supino grau de infâmia envolvido. O facto de serem praticadas no meio de uma catástrofe tornam-nas compreensíveis, mas ainda mais desprezíveis. A Associação Mutualista Montepio Geral é uma prestigiada e meritória cooperativa com 177 anos de história, cujo principal activo é a Caixa Económica, um dos mais antigos bancos portugueses. Apesar de pertencer à economia social, o Montepio não é uma entidade de benemerência, dedicando-se à legítima defesa dos interesses dos associados. Nas últimas décadas essa Caixa envolveu-se em operações arriscadas e problemáticas, situação paralela a outros desastres bancários, aliás, até com nomes repetidos. Agora está envolvida em processos judiciais, intervenções do Banco de Portugal e fortes prejuízos. São três as particularidades deste caso. A primeira é a di...

Conto de Natal

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JOÃO CÉSAR DAS NEVES                  DN              2017.12.23 Maria estava muito desanimada: passaria a noite de Natal a trabalhar. Lembrava-se com triste saudade das ceias da infância, em que toda a família se reunia para comer, rezar, conversar, cantar e trocar presentes. Alegria, beleza, sabor, amizade, fé, tudo o que a maravilhava em menina e jovem mulher estava agora muito longe. Emigrada por necessidade, vivia em terra estranha, longe da família e amigos. As notícias de casa só falavam de miséria e destruição. A viagem e a adaptação não tinham sido fáceis. Fora acolhida na Igreja. Na paróquia, apesar da dificuldade da língua, já pertencia à comunidade. Mas neste dia tão importante faltaria à Missa do Galo, para fazer as limpezas na "boutique financeira". O que acrescentava degradação à circunstância: a instituição onde trabalhava era um bando de agiotas, pior do que estrebaria. A comparação ...

Justiça espectáculo

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JOÃO CÉSAR DAS NEVES    DN   2.12.2017 Vivemos numa época dedicada à justiça. Multiplicam-se instituições, iniciativas e declarações acerca de direitos humanos, desigualdade social, delinquência, marginalidade e discriminação. Infelizmente, muitas vezes, esta ânsia de equidade é, ela mesma, geradora de arbitrariedades, agravos, segregação. O problema nasce de falhas no sistema judicial. A própria ânsia de legislar sobre tudo torna os processos morosos e tecnicistas, pervertendo o propósito. Já o antigo provérbio romano dizia "mais lei, menos justiça". Depois, frequentemente, são as próprias vítimas a terem vergonha ou dificuldade em denunciar, como nos casos de assédio sexual. Quando a exigência do Direito se sente frustrada pelos canais oficiais, lança compreensivelmente mão de outros expedientes, necessariamente piores. Hoje a grande força justiceira da sociedade é a comunicação social. Muitos criminosos, incólumes no sistema judicial, vêem-se arrasados ...

O cancro da democracia

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 JOÃO CÉSAR DAS NEVES      25.11.2017    DN A doença mortal da nossa democracia volta a manifestar-se. É a maleita que arruinou liberalismo e Primeira República, gerou as várias ditaduras que suportámos, causou a dívida que hoje nos oprime e a recessão de que ainda recuperamos. É ela que gerará o próximo colapso que, após as manifestações recentes, está cada vez mais próximo. O vírus é o corporativismo exacerbado, com grupos poderosos esquartejando o país a seu favor, exigindo condições acima das possibilidades, destruindo o desenvolvimento, justiça social e equilíbrio nacional. Os sectores que vivem à custa dos impostos são muitos e variados: construtoras, banca, comunicações, transportes, energia e tantos outros pseudoprivados, além do aparelho público, câmaras, médicos, professores, funcionários, pensionistas, e inúmeros outros. Foram estes os grupos que mais beneficiaram com o longo endividamento de 1992 a 2008 e, quando bateu a crise, devia...

O Caminho da Vida

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JOÃO CÉSAR DAS NEVES     DN    04.11.2017 Todas as épocas e regiões registam atrocidades e horrores. Algumas, porém, ficam marcadas para sempre por barbaridades extremas. Guilhotina jacobina, holocausto nazi, ataque atómico ao Japão, massacres arménio e tutsi, entre tantos outros, definem indelevelmente a comunidade que os executou. Essas calamidades são praticadas, em geral, com excelentes motivos, buscando finalidades elevadas. Foi o sonho da sociedade perfeita que motivou o gulag soviético, "grande salto em frente" chinês ou reinado dos khmers vermelhos. A contradição entre dignidade de propósitos e terror das acções justifica-se pela armadilha ideológica, que facilmente justifica os meios sangrentos pelos fins sublimes. A nossa sociedade, que se diz democrática e tolerante, passa hoje por algo semelhante. Comportamentos que todas as gerações anteriores abominaram e as próximas contemplarão com náusea são legitimados pela cegueira doutrinal mais op...

Salvar a democracia

JOÃO CÉSAR DAS NEVES    27.05.17   DN Portugal tem uma democracia a funcionar. Esta simples afirmação carrega enorme significado, pois todas as experiências democráticas anteriores foram fiascos estrondosos. Em 1974, olhando para trás, era razoável dizer que o nosso país nunca conseguiria viver em sistema aberto e livre. Hoje resgatámos as credenciais democráticas. Tal não permite descansar: 250 anos de turbulência institucional recomendam a maior cautela. Acaba de ser publicado um livrinho com lúcido e incisivo diagnóstico e terapêutica dos vícios que o regime acumulou em 40 anos. O Sistema Político Português, do professor Manuel Braga da Cruz, na coleção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, consegue, em menos de cem páginas, descrever a história, teoria, problemas e soluções para quatro pilares da nossa vida política: os sistemas eleitoral, partidário, parlamentar e de governo. Esta leitura fácil é indispensável para quem se interesse por Portugal...

A "app" de Fátima

JOÃO CÉSAR DAS NEVES   DN   13.05.17 Porquê, cem anos depois, atender a Fátima? Não estará irremediavelmente presa no passado, tão obsoleta quanto a Primeira República ou a Revolução de Outubro, suas contemporâneas? No tempo das apps e do Facebook, que interesse pode ter? Responder a esta questão exige entender o fenómeno. Sem lhe penetrar o significado, não se compreendem as multidões que aí se concentram. Fátima inclui duas coisas, uma para quem quiser ouvir, a outra só para os crentes. Antes de mais, trata-se de um aviso; um aviso de catástrofe planetária. A aparição fala de questões político-militares com relevância global: a Grande Guerra, a "outra guerra ainda pior", a influência da Rússia, a perseguição à Igreja e ao Papa. Os factos são incontornáveis; a sua importância indiscutível. Qualquer pessoa, mesmo não crente, interessa-se por isto, considerando relevantes as advertências. No entanto, é mesmo aí que a mensagem parece esgotada, pois os dramas de qu...

A Desforra de Sócrates

JOÃO CÉSAR DAS NEVES   DN  04.05.17 No tempo de Sócrates ainda se falava de plano tecnológico e necessidade de crescimento. Agora apenas se referem reposições de benesses e direitos da função pública, como se o dinheiro caísse do céu. Se não fosse trágico, seria irónico ver um país recair na mesma armadilha em menos de dez anos. O otimismo da conjuntura, com défice e desemprego a cair e a economia a acelerar, são a quase perfeita reprodução da situação de 2007-2008. A grande diferença é a ausência da crise internacional, catástrofe de dimensões históricas que transformou a breve primavera na maior crise do Portugal moderno. Será que desta conseguimos? De alguma maneira, a situação atual parece constituir a desforra de José Sócrates. O governo maioritário do PS há dez anos parecia ter tudo controlado, quando foi traído pela derrocada financeira global, de que era inocente. Agora António Costa, com o PS maioritário na extrema-esquerda, tem uma segunda oportunidade de...

João César das Neves | DOCAT | Bem estar e Justiça para todos | Economia

Assaltos e disparates

JOÃO CÉSAR DAS NEVES    11.03.17     DN O Banco de Portugal (BdP) dificilmente sairá incólume desta trovoada financeira. A autoridade monetária justifica-se com os limites da lei e o facto de as fraudes ultrapassarem as funções de supervisão, caindo na alçada da polícia. Mas, se os argumentos são válidos, mantêm dúvidas acerca da sua atenção, diligência e complacência. Mas, se as críticas ao regulador são razoáveis, têm de ser coerentes e sensatas, sem baralhar temas ou cair em contradições. O governador Carlos Costa começou por ser severamente criticado por ter resolvido o BES, criando uma crise desnecessária. Agora vê-se violentamente atacado por não o ter feito mais cedo. Primeiro é o vilão por se opor a Ricardo Salgado, depois surge como seu cúmplice num roubo ao país. Ou foi conivente com os abusos do Grupo Espírito Santo, e nesse caso não se entende por que razão fechou o banco, ou foi severo demais na solução, e nesse caso não pode ser suspeito de negligên...

Fátima, cem anos depois

JOÃO CÉSAR DAS NEVES     29.12.16   DN Em 2017 Portugal era governado pela extrema-esquerda e vivia uma das maiores crises da sua história. Foi então que na serra de Aire, no meio do país mais profundo e atrasado, aconteceu alguma coisa. Ninguém pode negar que ali, naquele canto perdido da nação rural, aconteceu alguma coisa. Nem sequer a elite intelectual, então no poder, que se negou a aceitar o sucedido, o consegue negar. O povo, que a extrema-esquerda tanto despreza como crédulo, boçal, supersticioso, acorreu em massa, junto com as classes abastadas, também desprezadas. Mas até a imprensa do regime divulgou o acontecimento extraordinário. Fátima aconteceu. Passaram cem anos. Portugal é de novo governado pela extrema-esquerda e vive uma das maiores crises da sua história. O país já não é rural e atrasado, e a serra de Aire deixou de ser um canto perdido. É mesmo a maior atração internacional de uma economia onde o setor do turismo é dos poucos dinâmicos. Neste...

Extrema gravidade

Extremismo e demagogia são forças terríveis, não apenas pela sua maldade e mentira intrínsecas, mas por serem contagiosas. Na verdade, enfrentando forças intolerantes e manipuladoras, muitos sentem um impulso no sentido inverso, caindo no extremo oposto. A vitória do brexit no referendo de Junho foi um grande êxito para os eurocépticos, que impuseram a sua posição, mas também ajudou os federalistas, agora decretando a sua forma radical de integração como única maneira de salvar a União. Na eleição de Trump o sucesso decisivo foi das forças xenófobas, proteccionistas e intolerantes. Mas os radicais de esquerda têm igualmente um ganho substancial, conseguindo um detestável inimigo comum como causa unificadora e mote empolgante. Nestes e noutros casos semelhantes, quem mais perde é a moderação, o equilíbrio, a concórdia. No limite, alguns assuntos tornam-se impossíveis de discutir serenamente, de tal maneira os partidários apaixonados dominam o panorama. O fenómeno está em cresc...

A fraqueza de Francisco

JOÃO CÉSAR DAS NEVES   DN  03.11.16 O encanto do Papa Francisco torna-o mundialmente popular. Apesar disso, alguns criticam-no veementemente. Isso é normal e aconteceu com todos os antecessores. Menos habitual é que entre os mais exaltados estejam cristãos devotos e piedosos, acusando-o de desvirtuar elementos centrais da doutrina católica, dividir a Igreja e introduzir erros no ensinamento revelado. A imputação é grave, mas será verdadeira? As censuras não se justificam com base nos documentos doutrinais do pontificado. O Papa Francisco já publicou grandes textos de referência, duas exortações apostólicas e duas encíclicas, que se contam entre os textos mais fiéis, profundos e belos da Igreja das últimas décadas; e isso é dizer muito, dada a longa sequência de notáveis ensinamentos papais. No tão controverso tema da família e da sexualidade, por exemplo, o Papa convocou dois sínodos, cujo resultado foi a exortação Amoris Laetitia, o maior documento pontifício da hist...

Mistérios do Orçamento

JOÃO CÉSAR DAS NEVES   DN  27-05-2016 Para variar da sua série policial favorita, a leitura do Orçamento do Estado tem uma comparável dose de enigma e emoção. Para isso tem de desligar das lutas habituais, em defesa de interesses, e ler os documentos. O primeiro mistério é o que lá não está. Ao contrário do que temia a generalidade dos analistas, neste ano não há Orçamento rectificativo. Afinal, o governo conseguiu mesmo cumprir o que apresentara nas contas de Fevereiro. Isto é um grande mistério porque os tais especialistas não estavam errados. O próprio documento admite que o crescimento deste ano não será os 1,8% previstos mas apenas 1,2% (o FMI diz 1%, a Universidade Católica 0,9%). Certamente por isso, uma grande quantidade de valores orçamentados falhou a meta. Ainda pelas contas do governo, a receita corrente ficará 1,9% abaixo do previsto e a receita total 1,7%. Do outro lado, as despesas com pessoal e prestações sociais, maiores fatias dos gastos, subiram ambas...

Os pobres que pagam a crise

JOÃO CÉSAR DAS NEVES    DN    20-10-2016 A desigualdade na distribuição de rendimentos é um dos temas mais complexos da economia. Um juízo sério abrange todo o espectro das receitas familiares e inclui efeitos contraditórios em zonas diferentes da pirâmide de riqueza. Aqueles que formulam certezas taxativas sobre uma situação tão delicada e multifacetada costumam basear-se em detalhes parcelares, ambíguos, em geral enganadores. Felizmente, desde há anos, a equipa do professor Carlos Farinha Rodrigues, do ISEG, apoiada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, tem-se ocupado de trabalhar os dados em bruto, fornecendo um conjunto de estudos que, junto com a informação oficial, nos dão um quadro fiável e actualizado da situação de pobreza e desigualdade entre nós. Um desses trabalhos, "Desigualdade económica em Portugal", apresentado em Junho de 2012, resumia a evolução de 1993 a 2009. Há poucas semanas foi apresentada a continuação, "Desigualdade do rendimento ...