O peso da tiara abolida
Eduardo Lourenço Público, 15/02/2013 Nenhuma fraqueza humana explica a renúncia de olhos abertos a um tipo de poder tido e vivido durante séculos, quer na mera ordem temporal quer na ordem simbólica, como "eterno". Só um teólogo eminente e um filósofo podia considerar um "oxímoro" insuportável, fora do plano da pura fé, esta eternidade assumida como natural. Aquela que é consubstancial a todo o Poder, se não divino, divinizante, como é próprio de todo o Poder, natural ou naturalisticamente incarnado e exercido. Tal era, a título paradigmático, na ordem histórica de que o Ocidente emergiu, o Poder que chamamos pagão, antes de o Cristianismo o ter transfigurado sem jamais ter conseguido aboli-lo. É um gesto inédito o do "último" Papa, dilacerado entre duas formas de Poder e por elas e nelas crucificado. A História real da Humanidade não foi nunca e porventura não será jamais outra coisa que a tentativa de eternizar simbolicamente a tão visível precar...