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Três mistificações da maioria de esquerda

José António Lima | SOL | 17/11/2015  Primeira mistificação. O Parlamento é maioritariamente de esquerda, visto que PS+BE+PCP somam 122 deputados em 230. Mas há na AR, igualmente, uma maioria de centro PS+PSD – e até com mais deputados, 175 no total. Ou seja, as maiorias parlamentares são de geometria variável. Dependem sempre do que queiram fazer os dois grandes partidos, PSD e PS. E mesmo esta agora tão celebrada maioria de esquerda pode desaparecer de um momento para o outro, bastando para tal que o PS prefira ficar em minoria ou aliar-se ao centro. Aliás, nestes 40 anos houve quase sempre uma maioria de deputados de esquerda na AR. Maioria aritmética, mas nunca política. Mário Soares recusou-a repetidamente em 1976 (governando o PS em minoria), em 1978 (ao formar uma maioria com o CDS) e em 1983 (quando optou pelo apoio do PSD). Também António Guterres ignorou essa maioria aritmética em 1995 (quando lhe faltavam 4 deputados para a maioria) e em 1999 (quando lhe bastava u...

António Costa pensa que é o único chico-esperto da aldeia

José António Lima Sol, 20151019 António  Costa  quer  convencer-nos  de que operou o milagre da conversão dos marxistas, PCP e BE, à União Económica e Monetária, ao Tratado Orçamental europeu e à fixação do défice abaixo dos 3%. Mas deixemo-nos de fantasias e de truques de política circense, em que Costa tem sido pródigo nestes dias: se aceitar a nato e o euro são cedências fáceis e óbvias para o BE e o PCP (não são questões que sonhassem resolver a curto ou médio prazo), já a conversa é outra no que respeita à improvável aprovação de um Orçamento feito pelo PS. O PS não terá o apoio da esquerda radical para passar um OE que respeite o défice abaixo dos 3% e, para isso, mantenha contenção nos cortes dos salários e pensões e seja cauteloso na redução de impostos. O que o PCP e o BE exigem a Costa é precisamente o oposto: o aumento das despesas públicas e do endividamento em nome do fim da austeridade.  Nesta encenação burlesca que António Costa tem l...

A face pouco oculta de Sócrates

  José António Lima | SOL | 15/09/2014   José Sócrates apareceu televisivamente muito indignado contra aqueles que insistem "abusivamente na tentativa de envolverem"  o seu nome no processo Face Oculta .  Fica por esclarecer a real amplitude e gravidade política do conteúdo das escutas, entretanto destruídas, das suas conversas com Vara Ora, manda a verdade que se diga que o difícil é desligar o seu nome deste processo judicial. Porque foram os seus amigos, pessoais e partidários, de Armando Vara aos Penedos, que foram apanhados em flagrante em crimes de corrupção e burla. Porque foi no seu consulado à frente do Governo que se criou o clima político propício para se desenvolverem, sem entraves, estas negociatas ilícitas assentes no tráfico de influências. E, sobretudo, porque fica por esclarecer a real amplitude e gravidade política do conteúdo das escutas, entretanto destruídas, das suas conversas com Vara. Em 2009, o procurador de Aveiro e o juíz d...

Rui Rio, BES e Proença de Carvalho

José António Lima | SOL | 05/08/2014   O dueto político-camarário António Costa/Rui Rio veio, há dias, defender a antecipação das legislativas de 2015. «Com as eleições em Outubro, não há Orçamento antes de Março, Abril do ano seguinte», lamuriou-se Costa.  Como se as legislativas não fossem, há já mais de 30 anos, realizadas por regra em Outubro (excepto quando se seguem à queda de Governos) e o país não tivesse sempre os seus orçamentos com a maior das naturalidades. «Eu inclino-me mais para a antecipação de eleições para 25 de Abril», concordou e completou Rio. Fazendo o papel de ingénuo útil, que finge não perceber que está assim a fazer o jogo eleitoral de Costa e a comprometer as hipóteses de Passos e do PSD. Como logo observou Santana Lopes, Costa chegaria às legislativas «fresquinho que nem uma alface», após ter vencido as primárias socialistas no final de Setembro, ter sido eleito secretário-geral do PS lá para Novembro e chegado às eleições apenas quatro...

Em que país pensa que vive este TC?

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  José António Lima  | Sol | 30/05/2014 21:02:27 1223 Visitas O Tribunal Constitucional chumbou, agora, o alargamento dos cortes salariais dos funcionários públicos a partir dos 675 euros, previstos no Orçamento do Estado, bem como a redução nos subsídios de doença e de desemprego e até, imagine-se, o corte nas pensões de sobrevivência de viuvez acima de 2 mil euros Em que país pensarão estes senhores, funcionários públicos, que vivem? Na superavitária Finlândia? Ou numa estatista república do velho bloco de Leste? Tendo o TC posto de lado a retroactividade do chumbo e deixado a porta aberta a que o Governo e a maioria PSD/CDS apresentem ainda uma nova proposta, rectificada, de corte nos salários do funcionalismo público (só para vencimentos acima dos 1.000 ou 1.100 euros), isso significa que o rombo desta decisão do TC no OE poderá ficar pelos 600 milhões de euros (substancialmente abaixo dos 1.500 milhões de que se falava). O que, ainda assim, poderá levar a ...

Dito&Feito

Sol, 10.jun.2013 José António Lima A invejável vitalidade e a inesgotável energia de Mário Soares só têm paralelo no seu desmesurado ego político. Soares já teve o país a seus pés na viragem dos anos 80 para os 90 quando ultrapassou 70% dos votos na sua reeleição presidencial, vendo depois esse pecúlio eleitoral esvair-se para uns quase humilhantes 14,3% na requentada e imprevidente candidatura de 2006. Agora, está reduzido à assistência de uma acanhada Aula Magna onde avultam bloquistas e alguns defensores de um serôdio frentismo de esquerda. Mas o ego de Soares continua a achar que determina a evolução do PS e condiciona a governação do país. Nem que, para tanto, sobreponha agora – ao melhor estilo do PCP e das teses de Cunhal – a legitimidade da rua e das manifestações à legitimidade do voto e das maiorias parlamentares. Uma das especialidades desse incansável activismo de Mário Soares é a recorrente tentativa de influenciar a corrida presidencial lançando nomes e candid...

Dito&Feito - O caso de Freitas do Amaral

Sol 26 de Novembro, 2012 ,  José António Lima Freitas do Amaral personifica um caso, quase único, que contraria a tradicional tendência de se ser radical na juventude, moderado na meia-idade e conservador na velhice. Hoje em dia alinhado, em regra, com as teses mais esquerdistas, o fundador do CDS chegou a ser o símbolo de toda a direita portuguesa nas presidenciais de 1986, que perdeu por uma unha negra para Mário Soares. Há quem diga que a sua surpreendente viragem à esquerda começou aí, politicamente derrotado, seduzido pelo brilho da nova corte soarista e pelo magnetismo indulgente do Presidente socialista. Que se tornou seu inspirador e compagnon de route nos últimos 25 anos. Secundando o actual bota-abaixismo de Soares, Freitas veio agora propor a queda do Governo de Passos Coelho e adivinhar que «é quase inevitável haver eleições entre o quarto e o nono mês de 2013». Como? Fácil, acrescenta o ex-ministro de Sócrates. O Presidente da República poderá i...