Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Jorge Fiel

É urgente aprender a pensar

Jorge Fiel Jornal de Notícias, 2014.07.02 No liceu, passei sempre à rasquinha. À época, a aprovação a uma disciplina exigia um mínimo de 29 valores no somatório final das notas dos três períodos. Experimentei quase todas as variantes da equação, desde os clássicos 10-9-10 e 9-9-11 até modalidades mais acrobáticas como o 15-6-8, no 6.° ano (atual 10.°) de História, a área em que me licenciei. Algum 12 só no 3.° período para safar uma perigosa combinação 8-9 herdada dos dois primeiros períodos. Era um aluno medíocre e devo confessar que foi por obra e graça do 25 de Abril que concluí o liceu. No ano letivo 73/74, estava a repetir o 7.° ano, dependurado só pelo Alemão. A coisa não corria bem, pois estava mais preocupado com a luta contra a guerra colonial (e a favor do amor livre) do que com os ensinamentos do "Deutsche Sprachlehre fur Auslander". Valeu-me o MFA. Com medo que a saneassem, a professora cobriu com um imerecido 14 os dois 8 dos períodos anteriores. Só come...

Deu o grande badagaio ao meu elevador

Jorge Fiel | JN 2014.03.23 Já lhe tinham dado uns fanicos, mas nada que não se resolvesse num dia ou dois, com a substituição de uma peça. O pior foi o grande badagaio, a 27 de dezembro. Tive de desconvidar a minha tia Niza de passar o ano lá em casa, por temer que os joelhos e o coração dela não aguentassem a escalada a pé dos 81 degraus. Vivo num andar de um edifício do início dos anos 60, servido por um único elevador, cujo morreu, como já devem ter adivinhado. A cablagem ardeu toda. Ainda cheirava a queimado quando cheguei à noite a casa. Um elevador novo tem que se lhe diga. As peças vieram da Suíça. Só agora o estão a montar. Há esperanças que fique pronto para a semana. Passamos o inverno a fazer step. Para já não falar no preço, que dava para irmos todos a Nova Iorque. Mas não estou aqui para me queixar. Subir escadas é bom para a saúde. Cheguei à primavera mais ágil do que quando entrei no inverno, e ainda por cima vivo, ao contrário do Stieg Larsson que foi desta par...

Democracia e delícias do mar

JN 2012-05-21 Jorge Fiel Como o Pedro estava a atulhar o prato com delícias do mar, chamei-lhe a atenção para a existência de pedaços de lagosta no bufete frio do   restaurante   de rodízio. Achava preferível que ele se banqueteasse com o verdadeiro produto, que nem todos os dias estava ao seu alcance, em vez de se empanturrar com aqueles baratos sticks de contraplacado, aromatizados com extrato de caranguejo e tingidos de vermelho por fora. Estávamos a jantar no Chimarrão da Expo, antes de assistirmos ao arranque da Up Tour, dos REM, no Pavilhão Atlântico. Como só tinha 11 anos, o meu filho encarou a sugestão como uma ordem, mas depois de provar a lagosta confessou gostar mais das delícias do mar. Tem a ver com a maneira como o nosso gosto é educado. O meu filho Pedro estava tão habituado ao sucedâneo que estranhou o paladar do produto. Tem também a ver com o facto de, por norma, nós apenas gostarmos do que já gostamos e querermos o que já quisemos. Eu próprio, v...

O grito do povo

Jorge Fiel DN2010-11-25 O Grito do Povo era a marca de uma organização pró-chinesa que no ocaso do marcelismo estava bem implantada no Norte e era dirigida por Pedro Baptista, a quem a democracia não reservaria grande papel - ao invés do que aconteceu com o seu rival de então, Pacheco Pereira, que liderava um pequeno e insignificante grupúsculo da mesma obediência ideológica. Após o 25 de Abril, o Grito do Povo integrou a UDP, conglomerado maoista que publicava a Voz do Povo (onde debutaram José Manuel Fernandes, ex-director do Público, e Henrique Monteiro, futuro ex-director do Expresso) e viria a juntar os trapinhos no Bloco de Esquerda com os seus velhos inimigos trotskistas. Apesar de nunca ter navegado politicamente nas turvas águas do maoismo, sempre achei feliz a marca Grito do Povo, pois o grito é a expressão da dor física que sentimos quando o sofrimento moral se torna insuportável. Por falar em gritos, este Verão tive o privilégio de visitar na Luisiana um fabuloso mus...