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Conto de Páscoa

João César das Neves DN 2016.03.24  É meio da noite. Domina a escuridão mais profunda. Para onde quer que olhe, é o negro mais espesso que me olha de volta. Não sei de onde vim, não sei onde estou, nem vejo para onde vou. Esta é a minha condição. Sei que sou, mas mais não sei. À volta, as trevas são a envolvente e o horizonte. É meio da noite. Sempre foi meio da noite. Desde a madrugada da minha vida que é meio da noite, e ainda o será no seu ocaso. Todos os dias são meio da noite. Disseram-me que nem sempre foi assim. Disseram-me que já foi dia claro. Houve um tempo em que o Sol brilhava lá no alto e todos podíamos ver tudo em volta. Era uma luz fulgurante, gloriosa, triunfante, e todos viviam durante o dia num mundo em que todos viam. Disseram-me que nessa altura se conhecia a vizinhança, se avistava o longínquo e se reconhecia o caminho de um para o outro. Já houve quem vivesse banhado em luz. Sempre. Isso foi antes de eu ser. Depois deixou de se ver. Depois passou a ser...