Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Autor: Gabriel Mithá Ribeiro

Perto do rio dos ‘Bons Sinais’ de Vasco da Gama

Gabriel Mithá Ribeiro Obseravdor 16/8/2015 Caminhei cerca de oito quilómetros a pé da ‘cidade de cimento’ de Quelimane ao bairro periurbano da Madal, no norte de Moçambique. Passada a primeira povoação, continuei na única estrada de terra batida ladeada por mangais despovoados. Ao início da manhã havia muita gente a caminhar em sentido contrário em direção à cidade. Iam a pé e sobretudo de bicicleta, muitas fazendo de ‘táxi’. Também circulavam umas poucas motorizadas. Em qualquer caso, algumas transportavam sacos com sal, farinha, carvão, milho, amendoim, fardos de lenha, havia um cabrito rechonchudo torturado a cordas contra o suporte da bicicleta, entre outros bens que, em geral, iriam ser negociados nos mercados da cidade. Como eu e o guia que me acompanha, poucos eram os que ao início da manhã se afastavam da cidade. Entre esses, uns quantos transportavam bens trazidos da cidade: tábuas polidas, portas de casas, grades de bebidas como a ‘2M’, a cerveja nacional, entre outros. E...

A Quinta dos Animais à portuguesa

Gabriel Mithá Ribeiro Observador 25/7/2015 Em tempos foi a quinta de Dúlio Ribeiro, com gado suíno e bovino que abastecia Quelimane. Em 1980 foi nacionalizada e a dona expulsa. Hoje nada resta dela a não ser Mpuruni, um bairro periurbano pobre Visitei o bairro periurbano de Mpuruni, a pouco mais de uma hora a caminhar a partir da cidade de Quelimane, no norte de Moçambique. À entrada da povoação encontrei um professor do primeiro ciclo. No terreno em frente à escola, edifício rudimentar de três salas maticadas de pau-a-pique que eles mesmos construíram, ensinava a um grupo de crianças da segunda classe, meninas e meninos, a cultivarem para proveito próprio. Entre outros assuntos, recomendou que falasse com ‘um mais velho que tem muitas estórias’. Encontrei-o numa das primeiras casas. Dante Inácio Mora faz de fiel depositário da história de Mpuruni. Nos tempos, era uma quinta propriedade de Dúlio Ribeiro, colono português cujo nome ainda ecoa nas redondezas. Dessa herança não se n...

Pobreza? Tenham decência, nem sabem do que estão a falar

Gabriel Mithá Ribeiro observador 17/2/2015 Quem teve de viver na miséria, na diferença racial, como eu vivi, ou que se viu forçado a recomeçar do nada sabe o cuidado, o recato, a ponderação exigíveis quando se mexe em dignidades esfrangalhadas A retórica política transformou a pobreza em artilharia pesada das fraturas ideológicas entre a esquerda e a direita ultrapassando os limites da decência para legitimar a superioridade moral de um dos lados da barricada. Descendo de famílias pobres e de secular tradição emigrante. Do lado paterno, o católico, a ascendência resulta da miscigenação entre árabes sírios e autóctones moçambicanos. Do lado materno, o islâmico, a ascendência vem de indianos gujarate (de provável ancestralidade paquistanesa) e mestiços de cruzamentos entre originários do Índico e autóctones moçambicanos.  Depois de viverem noutras cidades, os meus pais fixaram-se no Xipamanine, subúrbio da antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, cidade onde nasc...

Esquerda e censura: a vítima sem-vergonha

Gabriel Mithá Ribeiro | OBSERVADOR | 29/10/2014, 11:07 Infelizmente o ambiente em Portugal em matéria de liberdade de pensar, sobretudo para quem não tem pedigree, é tudo menos saudável. Só sobram nichos de exceção, mais ou menos como no tempo de Salazar. Já o fazia pontualmente antes, mas desde 2003, após a publicação do meu primeiro livro sobre o tema, tento escrever livremente sobre educação. O obstáculo tem sido o de encontrar quem aceite publicar o que escrevo. Foi o desconforto com a liberdade limitada em que vivemos que fez de mim militante partidário. Numa altura em que se adivinhava o desastre eleitoral do governo de Santana Lopes, em fevereiro de 2005, fui pelo meu pé fazer a inscrição na concelhia do PSD da minha área de residência. Acreditava que os tempos de oposição seriam tranquilos para que se debatesse de modo consequente e estruturado o ensino básico e secundário e daí resultasse um projeto político convincente. Era votante habitual do PSD, mas o lamentável ...

Indisciplina nas escolas: os sete pecados mortais

Gabriel Mithá Ribeiro Observador | 3/9/2014, 8:24 Em sociedades escolarizadas, as salas de aula constituem núcleos-chave de regulação da vida social quotidiana, infelizmente tomadas de assalto há décadas por diletantismos irresponsáveis. O tempo transformou a indisciplina no mais grave obstáculo à qualidade do ensino. O fenómeno é alimentado por sete pecados mortais ou, noutra terminologia, sete falácias capitais. Primeira falácia: "Os professores não têm autoridade" . Apoiado no ensaio de Miguel Morgado, "Autoridade" (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010), sublinho que a forte tendência para a ineficácia disciplinar nas salas de aula não tem tanto a ver com a autoridade dos professores. Esta funda-se no conhecimento, atributo raramente central em episódios de indisciplina. No âmago desta está um outro núcleo-chave: o do poder dos professores. Esse poder resulta dos instrumentos de que a autoridade legítima deve dispor para se tornar direta, simple...