domingo, 25 de dezembro de 2005

Deus Caritas Est


Deus Caritas Est by papinto

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Muito inteligente

Público,051209
Vasco Pulido Valente
Pouco a pouco, a língua da política acabou por se tornar numa "língua de pau". Basta reparar, por exemplo, nesta campanha: com a possível excepção Soares, só se ouvem fórmulas sobre fórmulas, que há muito tempo perderam qualquer espécie de significado ou valor evocativo. O jornalismo comenta essas fórmulas com outras fórmulas, se possível mais pobres, mais rígidas, mais previsíveis. Na televisão, além disto, a impropriedade e a asneira fervem. E na televisão por cabo, em muitos casos, já não se usa mesmo o português. Quem recebe relatórios de organismos do Estado, ou de uma empresa (de um banco, por exemplo), ou de um médico, está habituado às contorções que os peritos precisam para dizer a coisa mais trivial e óbvia. E não vale a pena insistir no e-mail ou nas mensagens SMS, que raramente excedem a comunicação do primata inferior. Chegámos, como povo falante, muito próximo do grunhido.
Responsável por uma perversão que se tornou célebre sob o nome de "eduquês", contra a qual até o dr. Grilo se julgou no dever de protestar, o ministério da Educação achou agora conveniente eliminar, suponho que para animar a iliteracia indígena, as provas de português no 12.º ano. O pessoal superior do Ministério da Educação e a sra. ministra, que seriam incapazes de contar, como constantemente o provam, a história do Capuchinho Vermelho em 70 palavras, não vêem a menor vantagem na capacidade de escrever com lucidez, precisão e brevidade. Provavelmente pensam que o telemóvel basta às crianças meio mentecaptas, que saem do secundário. Uma convicção quase com certeza de experiência feita, que o Governo partilha. O analfabetismo protege sempre o analfabetismo.
Entretanto, o deputado (e poeta) Manuel Alegre promete um "Laboratório (?) da Língua Portuguesa" e o dr. Cavaco puxa pela sua qualidade de "incentivador da Língua Portuguesa" ("incentivador", calculem) e proclama a sua fé na virtude persuasiva do verbo. Não entrou evidentemente naquelas cabeças que, por falta de vocabulário e de compreensão sintáctica, não tarda muito ninguém conseguirá ler ou perceber português. Nem sequer um jornal. Quanto mais Garrett, Camilo, Eça ou Pessoa. A "defesa da língua" serve para propaganda eleitoral (capítulo: política externa). Mas não interessa ao Ministério da Educação. O ministério julga favorecer a ciência e a técnica, transformando Portugal num país de alarves. Muito boa ideia. E muito inteligente.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Como podem desconhecer o Sol?, JCdasNeves DN051003

Como podem desconhecer o Sol?

joão
césar
das neves

Daqui a um mês, Lisboa será inundada pelo Congresso Internacional da Nova Evangelização. Organizado em cinco grandes cidades da nova Europa, a nossa edição traduzirá um paradoxo. Primeiro vai revelar que Portugal, Terra de Santa Maria, é endemicamente cristão. Mas também mostrará como a nossa cultura dominante ignora a verdadeira realidade da Igreja. Hoje a Igreja é vasta, activa, bem visível e, apesar disso, ignorada. Os jornais que sabem tudo, a rádio e televisão que tudo dominam, falam muito da Igreja e desconhecem em absoluto o que ela seja.

Os cristãos verdadeiros, de muitos modos e em muitas condições, vivem uma coisa de que o mundo nem suspeita. Esses mostram mesmo a sério o que é a Igreja. Constituem, em si próprios, nas alegrias e dores quotidianas, a Igreja viva. Nos obstáculos como nas rotinas, no emprego e em casa, são Igreja. Os cristãos vivem uma coisa preciosa, que o mundo desconhece.

A paz interior, a alegria profunda e transbordante dos verdadeiros fiéis, é isso a Igreja. O conforto contínuo da vida entregue, não a um ideal elevado, a uma tarefa grandiosa, a um cargo de responsabilidade, mas a uma pessoa, Jesus Cristo, que acompanha cada momento e cada emoção. Fazer todas as coisas, das menores às decisivas, com os olhos postos no Céu. É isso a Igreja.

A satisfação plena de pertencer à mais antiga, vasta e influente instituição de todos os tempos, a única verdadeiramente global, que mudou e muda impérios, transforma nações e consola os pobres. O alento ímpar de ser companheiro de tantos colossos de santidade, que povoam todos os séculos e locais com a sua humildade e zelo. O contentamento permanente de participar de um povo que participa da eternidade, mesmo antes de ultrapassar a morte. É isto a Igreja.

Apesar de não saberem o que é a Igreja, falam todos muito de Igreja. Discutem a sucessão do Papa e a falta de vocações, comentam atitudes dos padres e temas teológicos, ralham com a Inquisição e as Cruzadas.

Depois entrevistam alguém que se diz cristão e pensam confirmar o que afirmam. Mas o que dizem nada tem a ver com a Igreja. É como uma reportagem sobre chocolate que só trate do papel de embrulho. É como um relato de futebol limitado às emoções dos intervalos. É como julgar Portugal pela escravatura do século XVI ou os massacres na guerra colonial.

Aquilo que ouvimos acerca da Igreja é, na esmagadora maioria do tempo, oratória pomposa sobre papel de embrulho e intervalos.

Falta sempre olhar para a sua única realidade. Nem notam que, se fosse assim, seria incompreensível a incomparável vastidão, incrível influência e surpreendente perenidade da Igreja.

O pior de tudo é que não sabem que não sabem. O pior de tudo é que acham que essas questões de intendência, mal-entendidos de corredor e excepções históricas são mesmo a única Igreja. E ficam cegos para a maravilhosa realidade do estado de graça, da comunhão fraterna, da vida eclesial. Pior, irritam-se quando se fala dela. Na sua "tolerância", aceitam todas as doutrinas, menos esta.

Mas a Igreja não é só para alguns, não está fechada sobre si, não pretende esconder o tesouro. Ela é sempre aberta, acessível em qualquer local, missionária por vocação.

Todos os povos participam da gloriosa fecundidade que jorra da Igreja. Milhões de pobres e humildes, de todas as classes, vivem quotidianamente a frescura do êxtase da Igreja. Só é preciso olhar. Só é preciso querer. Veremos isso em Novembro.

Vivemos num tempo científico, na era da informação, que não vê a magnificente realidade que tem diante de si. Pior, que esqueceu o que sempre soube.

Este é o drama arrepiante que penetra o próprio mistério da Igreja. Pode desconhecer-se o sol? Pode o ar ser estranho? "A Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más." (Jo 3, 19)

No entanto, a vida coloca a todos, em cada momento, aquela questão vital de que a Igreja é a resposta.

Mas como sabemos desde o princípio, só quem tem ouvidos para ouvir é que ouve.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt


quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Os católicos e a política


A Capital, 2005-01-09
1. Os alicerces para compreender os fins e os meios de intervenção dos católicos na vida política foram definidos no Concílio Vaticano II e têm vindo a ser objecto de permanente escrutínio por parte das autoridades eclesiásticas e por parte dos fiéis em todo o Mundo.
Um dos principais textos conciliares – a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, de 1965 – conjuntamente com as Declarações e Decretos então aprovados definiu princípios fundamentais acerca da organização da sociedade e do Estado.
A doutrina social da Igreja encontrou nestes textos a sua âncora e base, e tem sido em torno de alguns dos eixos conceptuais então definidos que o Papado e os Bispos das Igrejas nacionais têm vindo a construiu um edifício teórico de orientação, quer das relações entre o Estado e a Igreja quer da participação dos católicos na vida da sociedade, na acção política e no interior da própria Igreja.
A dignidade humana
2. Em primeiro lugar, afirmou-se a dignidade humana. A proclamação da dignidade do homem não é uma mera questão teórica, mas o reconhecimento do homem concreto, com toda a radicalidade da sua imperfeição. A dignidade do homem não constituiu apenas uma proclamação sem efeitos práticos: é importante não perder de vista que a doutrina social da Igreja assumiu os direitos fundamentais como alicerces da sociedade e do Estado contemporâneo, definindo de modo muito claro uma ligação entre a dignidade e direitos em concreto.
Para quem conhece a filosofia política do jusnaturalismo cristão, reconhece neste atitude uma orientação moral renovada. Efectivamente, a matriz do Direito Natural do cristianismo tendia a sublinhar uma ética de deveres, nos quais se distinguiam os deveres naturais do homem enquanto cristão – os deveres para com Deus –, enquanto homem social – os deveres para com o semelhante – e enquanto pessoa – os deveres perante consigo próprio. A autonomia dos direitos constitui o reconhecimento de uma nova ética, com os seus corolários jurídicos, nomeadamente presentes na Declaração Universal dos Direitos do Homem e nas Constituições do pós-guerra.
Isto não fez perder de vista a existência de comunidades naturais, como a família, e de deveres naturais, assentes nas virtudes cristãs, como o amor ao próximo. Compreende-se, nesta linha de pensamento, como diversas correntes cristãs, preocupadas com a crescente cultura de direitos se têm empenhado em construir declarações de deveres, que recordem ao homem que um mundo constituído apenas por direitos não é realizável e conduzirá o homem à negação da sua liberdade autêntica.
Os direitos naturais
3. Estes direitos naturais do homem são portanto inerentes à sua dignidade e à promoção das qualidades do próprio homem, como se reconheceu na Gaudium et Spes:
«É necessário, portanto, tornar acessíveis ao homem todas as coisas de que necessita para levar uma vida verdadeiramente humana: alimento, vestuário, casa, direito de escolher livremente o estado de vida e de constituir família, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir segundo as normas da própria consciência, direito à protecção da sua vida e à justa liberdade mesmo em matéria religiosa. »
Para a doutrina jurídica, encontramos aqui direitos fundamentais e direitos sociais, de um modo que se pode dizer indivisível: a plena realização do homem implica para o Estado a realização de tarefas, como o de assegurar serviços e prestações inerentes à vida verdadeiramente humana.
A promoção da dignidade de cada homem implica a protecção da vida humana desde a sua concepção. Assim, é importante sublinhar que a Igreja não tem apenas orientações que só por excessiva simplificação se chamam anti-abortivas. A posição sobre o aborto constitui uma das consequências de se elevar a dignidade humana a fundamento da sociedade e do Estado.
Daí a importância dos deveres naturais quer do homem quer do Estado.
Daí também ser redutor reduzir o problema da participação dos católicos na vida política apenas aos temas da protecção da vida: aborto, eutanásia, casamento, família.
Os deveres naturais
4. A participação dos homens na vida política constitui, por isso, um imperativo moral, no sentido em que, sem essa participação, não será possível a existência de uma sociedade que torne possível a vida verdadeiramente humana. Esta é uma posição pacífica na política cristã de todos os tempos: o homem é um ser social, pelo que a boa organização da sociedade é indispensável para a realização plena de cada homem – nomeadamente para o cumprimento dos seus deveres enquanto cristão.
Diversos textos dão conta desta exigência, em especial, a Nota doutrinal sobre a participação e comportamento dos católicos na vida política, da Congregação para a Doutrina da Fé, que é imperativa no cumprimento da determinação conciliar: «os católicos não podem abdicar de participar na vida política», que compreende a promoção e defesa de bens como são a ordem pública e a paz, a liberdade e a igualdade, o respeito pela vida humana, a justiça e a solidariedade.
Em Portugal, a esta exigência de participação se refere Jorge Miranda nos seguintes termos:
«Os cristãos não podem fugir à política; antes a devem compreender e assumir como uma das dimensões da sua existência terrena. A política, de per si, não é, nem deixa de ser má; só o é, quando aqueles que a fazem a fazem mal ou para o mal – e, exactamente, para que isso não aconteça (ou para que aconteça menos) é que os cristãos devem participar na política.» (João Paulo II e o Direito. Estudos por ocasião do 25.º aniversário do seu pontificado).
Crise da sociedade, crise da civilização
5. Um dos textos importantes de doutrina política publicados em Portugal nos últimos anos foi a Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Crise de Sociedade, Crise de Civilização, de 26 de Abril de 2001. Como muitos outros textos, passou ignorado e tem vindo a ser sepultado pela banalidade e superficialidade própria da cultura de comunicação social dos nossos dias.
Como em muitos outros textos, nomeadamente do magistério do Papa João Paulo II, alerta-se para o facto de vivermos uma crise social muito grave – não apenas uma crise passageira da democracia, eventualmente resolvida com a mudança dos governos ou dos governantes.
Alguns dos tópicos fundamentais desta crise social estão identificados:
-         uma cultura da liberdade sem responsabilidade;
-         a corrupção;
-         a marginalização social;
-         a falta de confiança no sistema judicial;
-         a crise da juventude (toxicodependência e violência juvenil);
-         a falta de apoio à família;
-         a ausência de uma adequada política de educação;
-         a mediatização da vida e o surgimento de novos poderes;
-         a fragmentação e enfraquecimento do poder político.
6. Grande parte deste diagnóstico consta igualmente de textos das associações sindicais e patronais, nomeadamente da Associação Empresarial de Portugal, e de alguns movimentos cívicos mais recentes. O enfraquecimento da democracia constitui uma evidência para todos; a ausência de regras claras e a cultura do incumprimento da lei e dos compromissos reinante em Portugal tornam impossível ou pelo menos dificultam o funcionamento saudável da economia e da sociedade. Como tem apontado Bobbio, a corrosão das democracias contemporâneas assenta no assalto dos poderes de facto e nos poderes ocultos
Esta observação é igualmente válida no domínio económico. Se o mercado é jogado por jogadores corruptos, ou esses jogadores são expulsos ou os honestos terão de se adaptar a essas leis imorais para não acabarem derrotados.
De outro lado, assente a existência de uma crise social que não pode ser resolvida unicamente pela acção do governo, constitui um erro que pode ter trágicas consequências, o excesso de expectativas que os partidos políticos criam nas campanhas eleitorais. Expectativas que, em muitos casos, se adivinha serem apenas o rosto da dissimulação de programas políticos diversos. O incumprimento das expectativas criadas pelos partidos políticos, nomeadamente o excesso de promessas de prestações sociais, constitui um dos factores de crise das democracias contemporâneas.
Vivemos numa época de cepticismo ideológico e de pragmatismo social: que as promessas reformistas sejam feitas por políticos trânsfugas de muitos lados – nomeadamente do marxismo-leninismo e do maoísmo – constitui uma evidência em vários países europeus, não apenas em Portugal. As promessas vazias e absolutamente inconsequentes de reformas que todos os partidos fazem parecem levar-nos para um campeonato das «reformas necessárias» das quais apenas conhecemos o rótulo, mas de todo desconhecemos o conteúdo.
Doutrina social e participação política
7. É importante observar que a Igreja Católica de há muito desistiu de influenciar a vida política através da promoção da existência de partidos democratas cristãos. A era que começou com Pio XI e a Acção Católica está hoje no seu final. Mas não pode esquecer-se que os textos conciliares e seus sucessores acima referidos vieram trazer a lume novas questões que os católicos de todos os partidos devem compreender e que podem conhecer diferentes modos de realização, à luz do bem comum. Assim, também as formas de participação dos católicos na vida política podem ser variadas: partidos que se inspiram nos princípios cristãos; cristãos dispersos nos diversos partidos; associações e outros grupos de pensamento e de acção. Isto implica repensar os princípios e políticas cristãs para os grandes problemas da sociedade dos nossos dias: a educação, a economia, a saúde, os problemas das crianças e dos jovens, a solidariedade, a subsidiariedade da acção do Estado.
Em especial, sublinho duas grandes questões que devem estar sempre no primeiro lugar das preocupações: a família e a educação. De acordo com a matriz civilizacional cristã, trata-se de encontrar as raízes da dignidade de cada homem, à luz do bem comum. Soluções concretas para problemas concretos.
A liberdade de educação é a doutrina política e social desde a Declaração Gravissimum Educationis, de 18 de Outubro de 1965, de acordo com uma matriz em que igualmente assinalamos a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, e os Pactos Internacionais de Direitos, de 1966. São fundamentalmente quatro as dimensões práticas que importa considerar a propósito da educação, e que foram mesmo elevadas a princípios normativos no Código de Direito Canónico:
-         a universalização do direito à educação, nomeadamente do acesso ao ensino superior;
-         o direito à escolha de escola por parte dos pais;
-         a obrigação do Estado apoiar financeiramente este direito;
-         a responsabilidade dos poderes públicos, subsidiária da família.
Já a protecção da família exige leis responsáveis, no plano da promoção do casamento e do respectivo vínculo, nomeadamente leis fiscais que protejam a família, a dignidade efectiva da mulher, como também a programação moralmente responsável da comunicação social. São conhecidos muitos dos obstáculos práticos, de legislação inconveniente a situações condenáveis, no plano da violência doméstica, do incumprimento do dever de alimentos e outras.
O reconhecimento da autonomia moral e jurídica da família é a resposta perante os muitos individualismos da política dos nossos dias, garantida igualmente através de uma actuação meramente subsidiária do Estado.
8. Num dos textos de filosofia política mais interessantes publicados nos últimos meses, o constitucionalista italiano Zagrebelsky questiona em Cristo e a Crucificação como se comportariam as democracias contemporâneas se Cristo aparecesse nos nossos dias e se a sentença para a sua morte e crucificação não foi o resultado de uma deliberação popular – «Crucifica-o!». Talvez não existam razões para estar optimistas. Também não se trata de defender a superioridade moral dos cristãos e da política cristã. Apenas de reconhecer o dever de agir consequentemente, recordando uma lição do filósofo espanhol ORTEGA Y GASSET: «eu sou eu e a minha circunstância; e se não a salvo a ela, não me salvo eu».

Jornal das Boas Notícias, 17

JBN17

sábado, 28 de maio de 2005

‘Carta aberta aos pais portugueses’

‘Carta aberta aos pais portugueses’

William Coulson

Expresso, 20050528

WILLIAM Coulson é investigador em Etnopsicologia. Durante 17 anos foi consultor para as questões das Dimensões Humanas do Programa de Educação Médica da Universidade de Georgetown, nos EUA. Com doutoramentos em Filosofia e em Aconselhamento Psicológico, Coulson foi investigador associado de Carl Rogers. Em conjunto escreveram 17 volumes sobre psicologia e educação humanística. Neste artigo, Coulson conta que as suas teorias e de Rogers ganharam adeptos entre os técnicos de educação da SIECUS, um grupo que desenvolve os currículos de educação sexual enviados às delegações nacionais da IPPF (órgão internacional que reúne as associações de planeamento para a família). Coulson dedica hoje o seu tempo a falar a católicos e protestantes sobre os efeitos nefastos das suas teorias. Esteve em Portugal em Novembro, a alertar para os materiais de educação sexual portugueses que diz serem baseados nas filosofias que agora rejeita.

O MEU nome é William Coulson. Doutorei-me em Psicologia e Filosofia e, nos anos 60 e 70, fui colaborador muito próximo de Carl Rogers, o psicólogo americano de fama mundial. É conhecido que nós os dois coordenámos a edição de uma série de 17 livros promovendo uma nova técnica da psicologia chamada «Clarificação de Valores». O nosso objectivo era aumentar o bem-estar e a auto-estima das crianças, mas o que realmente aconteceu foi algo completamente diferente. A dada altura, desenvolvemos um currículo de educação sexual baseado nos jogos de clarificação de valores, o que incluía actividades em que as crianças eram convidadas a falar abertamente sobre sentimentos e desejos de natureza sexual.

Experimentámos esta nova técnica nas escolas dirigidas pela ordem do Imaculado Coração, na Califórnia. No início da experiência, a ordem tinha 58 escolas e 600 freiras. Em 2002, a BBC exibiu um documentário sobre a nossa experiência e o balanço que fazia era este: «O efeito da experiência foi um verdadeiro cataclismo. Em menos de um ano, 300 freiras - metade do convento - pediram ao Vaticano para serem dispensadas dos seus votos e, seis meses depois, o convento fechou as portas. Tudo o que restou foi um pequeno grupo de freiras… que se tornaram lésbicas radicais». Se o efeito sobre adultos é este, qualquer pessoa pode imaginar qual o efeito sobre crianças. Eu poderia dar-lhes muitos dados e contar-lhes muitas histórias. A título de exemplo, conto a história da Carolyn (não é o seu verdadeiro nome), uma aluna que no sexto ano seguiu um programa de clarificação de valores. Carolyn aprendeu a tomar decisões autónomas sobre todo o tipo de coisas, incluindo algumas matérias sobre as quais ela não devia sequer pensar e muito menos ter a possibilidade de experimentar. Tal como os outros alunos dos programas de clarificação de valores, ela aprendeu a fazer escolhas autónomas e sinceras no seu quadro próprio de valores. Como disse um dos seus colegas no funeral, Carolyn acabou por se convencer que só poderia estar segura de que as suas decisões eram autónomas caso fizesse aquilo que os adultos lhe diziam para não fazer. Acabou por achar que o maior prazer da vida era fazer o que as pessoas proíbem. Como resultado disso, num certo dia de Março, saiu da escola num intervalo com um colega e o seu tio passador de droga. Nas margens de um rio, tomou droga, foi violada e depois lançada ao rio. O corpo da criança encantadora e inteligente (ela era a chefe de turma) só apareceu três semanas depois.

Para nós, desde a experiência nas escolas das freiras, era evidente que a nossa técnica psicológica não era boa nem para as crianças nem para os adultos. Ficou claro que tínhamos desenvolvido um instrumento perigoso para a saúde dos jovens, que em vez de os enriquecer os destruía. Essa não era a nossa intenção, mas foi o que aconteceu. Infelizmente, as nossas teorias (ou uma versão delas, ainda mais extrema, promovida por Louis Raths) tornaram-se muito populares entre os técnicos de educação sexual da SIECUS, um grupo americano que desenvolve currículos de educação sexual que depois são espalhados pelo mundo inteiro pelas delegações nacionais de uma organização chamada IPPF.

Em 1983, num dos seus livros, Carl Rogers descreveu as nossas experiências como um «padrão de fracasso». Contudo, depois da sua morte, o editor (que publica livros para professores e alunos de ciências da educação) reeditou o livro removendo todas as referências ao «padrão de fracasso».

Parte deste padrão é o muro de silêncio que se constrói em torno dos seus resultados trágicos. Ainda assim, tanto hoje como então (embora não tão frequentemente quanto deveria), a realidade por vezes vem à tona. Em 1998, o «The New York Times» publicou um artigo intitulado «EUA acordam para uma epidemia de doenças sexuais». Nesse artigo, a dr.ª Judith Wasserheit, especialista em doenças sexualmente transmissíveis (DST) e ex-directora da Divisão de Prevenção de DST do US Center for Disease Control, disse ao «Times» que aquilo que se está a passar nos EUA é um «desastre nacional». Disse ainda que «a maioria dos americanos nem sequer tem consciência de que está perante uma epidemia».

Na realidade,, lentamente vai crescendo a consciência relativamente a esse facto. E talvez, bem mais cedo do que podem pensar, os portugueses descubram que algo de semelhante se está a passar com os seus filhos. Em Novembro de 2004, estive em Portugal a estudar os materiais de educação sexual enviados para as escolas em 2000. Fiquei aterrado. Talvez não haja em todo o mundo um currículo mais influenciado pelas ideias que eu e Carl Rogers testámos nos anos 60. Escrevo, pois, esta carta como um apelo. Eu sei o que vai acontecer às crianças de Portugal caso se apliquem nas escolas actividades baseadas nos jogos de clarificação de valores. Estou certo de que vocês gostam muito dos vossos filhos. Por isso (e se me é permitido falar com emoção): retirem das escolas esse modelo de educação sexual. Amanhã será tarde demais. Eu ajudei a criar o monstro. Por favor, ajudem-me a matá-lo.

Califórnia, 20 de Maio de 2005

domingo, 1 de maio de 2005

Um Papa sem sombras nem contradições

Pedro Vaz Patto
2005.05.01

            Poucos dias depois do falecimento de João Paulo II, um título de um jornal espanhol dizia que este recebera «os elogios mais universais da História». Pessoas de todos os quadrantes políticos (árabes e israelitas, George W. Bush e Fidel Castro) e de todas as religiões, crentes e não crentes, reconheceram a sua incomparável estatura moral  e a relevância histórica da sua acção. Uma multidão esperou mais de dez horas para lhe prestar uma última homenagem, num comovente gesto de gratidão. Muitos reclamaram a sua imediata canonização («Santo, Subito»).
Sendo assim, pode pensar-se desnecessário dar alguma resposta às críticas que, mesmo assim, lhe são dirigidas, pois estas pouca sombra farão diante de tão extraordinárias manifestações de apreço. Senti, em todo o caso, como um dever dar um pequeno contributo para lhe fazer justiça, tentando responder a algumas dessas críticas.
Impressionou-me, desde logo, ler que o seu pontificado seria marcado por sinais contraditórios. Ora, o que me parece mais do que evidente é precisamente a coerência e autenticidade daquilo que sempre disse e fez.
Coerência entre a palavra e o exemplo, antes de mais. João Paulo II proclamou com vigor que «não há paz e justiça sem perdão» e efectivamente perdoou a quem tentara assassiná-lo. Sempre exaltou o valor da vida até ao seu termo natural e o seu testemunho de perseverança no final da sua vida (a sua mais eloquente encíclica, como disseram alguns) demonstrou isso mesmo.
A coerência de João Paulo II não tem por referência o passageiro «espírito do tempo», mas antes o Evangelho, aquele livro colocado sobre o caixão durante o seu funeral. Dele retirou todas as suas exigência e implicações, as “populares” e as “impopulares”, as que superficialmente poderão ser consideradas “progressistas” e “conservadoras”.
A incoerência será, antes, a de quem selecciona ou privilegia algumas dessas exigências e implicações, descurando outras. João Paulo II guiava-se sempre pela mesma consciência da sacralidade da vida humana e pela mesma exigência de tutela dos mais fracos e inocentes. Fazia-o quando condenava as guerras ilegítimas, sobrepondo a tutela dessas vítimas inocentes (que não têm voz) a todas as considerações de ordem política. E fazia-o quando condenava o aborto, pensando também na criança não nascida como a mais inocente e indefesa das criaturas (também ela sem voz). É, por isso, por demais absurdo que tenha sido a sua oposição ao aborto a impedir que lhe fosse atribuído o prémio Nobel da Paz..
Era também a coerência evangélica que o levava a tomar posições tidas por “progressistas” no âmbito da justiça social e tidas por “conservadoras” no âmbito da moral familiar. Respeitar a dignidade da pessoa humana como imagem de Deus é recusar em absoluto a sua instrumentalização, em função do prazer físico ou em função da ambição económica. Incoerente, e também irrealista, será antes pensar que a justiça no âmbito social e político se constrói solidamente quando se difunde uma mentalidade hedonista no âmbito da conduta privada, ou que pode haver coesão na sociedade sem haver coesão na família.
A respeito das questões de ética sexual, foca-se sobretudo o que da sua mensagem são interditos, e esquece-se a sua dimensão positiva (aquilo a que diz “sim”, e não só aquilo a que diz “não”). Nunca nenhum outro Papa (nem qualquer outro pensador) apresentou uma tão rica e profunda visão da beleza e dignidade da sexualidade humana (integrada num desígnio de Deus que faz da mútua doação física e pessoal do homem e da mulher um sinal da comunhão entre as pessoas divinas) como a que decorre da teologia do corpo aprofundada por João Paulo II.
Há quem não compreenda o valor que dava ao celibato sacerdotal. Também aqui se foca o que possa este representar de privação, esquecendo a sua dimensão positiva. Esta dimensão abre as portas a uma paternidade espiritual mais ampla e universal do que a paternidade física. Ele próprio é disso um testemunho eloquente. Quantos milhões de pessoas não viram nele uma pessoa plenamente realizada, antes de mais como pai espiritual? Houve mesmo quem explicasse o fascínio que exercia sobre os jovens precisamente por esta sua dimensão de paternidade, numa época em que os jovens dela cada vez mais sentem falta. Uma dimensão de paternidade que nunca teria alcançado se não tivesse sido radical e completa a sua entrega a Cristo e à Sua Igreja.
A respeito da mulher, foca-se apenas a sua recusa do sacerdócio feminino, muitas vezes com completa ignorância da dimensão teológica que está subjacente  a essa recusa, que se liga a uma opção de Jesus que à Sua Igreja não compete “corrigir”. Mas, como reconheceram várias mulheres, nunca nenhum outro Papa (nem qualquer outro pensador) como João Paulo II exaltou, na Mulieris Dignitatem e noutros textos, a insubstituível riqueza daquilo a que chamou o “génio feminino”, e dos frutos que só deste podem advir para a sociedade e para a Igreja. Esta só com esse contributo há-de revelar cada vez mais o seu perfil mariano, a primazia do amor sobre a autoridade. Por isso, aprovou a disposição estatutária que impõe que seja sempre uma mulher a presidir ao Movimento dos Focolares, um movimento laical a que também pertencem sacerdotes e bispos. O pleno reconhecimento do papel específico e insubstituível (não à imagem do papel do homem) da mulher na Igreja há-de, pois, decorrer do acentuar deste perfil mariano da Igreja.      
            Foi ainda a coerência cristã que levou este Papa à afirmação doutrinal clara e segura da fé católica, mas também à abertura e diálogo, sem precedentes, com cristãos de outras denominações, com fiéis de outras religiões e com pessoas de outras convicções. O diálogo não se confunde com o sincretismo, supõe a definição e autenticidade da identidade de cada um. Mas é precisamente a identidade cristã que exige sempre valorizar o que une e construir pontes. Como afirma o teólogo Piero Coda, a Igreja sabe que a «a Verdade é Jesus e, portanto, não quer e não pode ceder a compromissos, mas sabe também que Jesus inaugurou definitivamente a estrada do diálogo e do amor universal».
            Uma outra contradição que por vezes se aponta a João Paulo II diz respeito ao exercício da autoridade disciplinar sobre vários teólogos, que contrastaria com a sua defesa dos direitos humanos no âmbito civil. Não tem sentido, porém, invocar a este propósito os direitos humanos. Não se trata de privar alguém desses direitos, trata-se, antes, de esclarecer e clarificar ideias à luz da Verdade revelada, num indeclinável serviço dos fiéis, que precisam de ser orientados. Esquecem-se, também, situações em que o diálogo permitiu evitar condenações e contribui para correcções de rota. O exemplo de Gustavo Gutierrez, teólogo da libertação (importa dizer que a condenação da Igreja não incidiu sobre a teologia da libertação, mas sobre as cedências ao marxismo de algumas das suas versões, sendo que a experiência histórica veio posteriormente  a confirmar cabalmente  a ilusão da “libertação” inspirada nos esquemas marxistas), pode ser evocado a este propósito. E também se esquece que da parte dos visados por essas condenações de modo algum se notou aquela sincera humildade e aquele desapego às suas próprias ideias que se notam, por exemplo, nas referências dos escritos de Santa Teresa de Ávila (ela, que veio a ser proclamada Doutora da Igreja) às autoridades eclesiásticas do seu tempo.
            Critica-se, ainda, o suposto centralismo do pontificado de João Paulo II, que teria ofuscado a colegialidade, contra a linha do concílio Vaticano II. No entanto, muitos foram os sínodos de bispos realizados durante estes anos. E foi este Papa quem, em vista da unidade dos cristãos, aceitou, na encíclica Ut Unum Sint, rever as modalidades do exercício do seu primado, sem sacrifício do essencial da sua função. Função que, enquanto instrumento de unidade, se mantém sempre necessária, como podemos verificar quando assistimos a cismas nas Igrejas ortodoxas, ou graves riscos de cisma nas Igrejas da comunhão anglicana.
            A espiritualidade de comunhão, que João Paulo II, na Novum Millenio Ineunte, traçou como estrada para a Igreja do Terceiro Milénio ( a Igreja deve ser «casa e escola de comunhão»), certamente permitirá reforçar as riquezas da colegialidade sem sacrificar a unidade.
            Seria necessária uma enciclopédia para dar a conhecer a multifacetada grandeza do pontificado de João Paulo II. E este não tem as sombras e contradições com que análises superficiais por vezes o caracterizam. Compreeende-se bem que se tenha começado a falar no Papa João Paulo Magno,  João Paulo, o Grande.


quinta-feira, 21 de abril de 2005

Nossa Senhora na História de Portugal

“Gostei muito deste livro, gostava que todas as crianças de Portugal o lessem para aprenderem a amar cada vez mais Nossa Senhora”.
Irmã Lúcia (Vidente de Fátima)

Alguns autores estreantes na escrita para crianças, como D.Luiz Flávio Cáppio, Bispo da Barra, a jornalista Aura Miguel, o Professor João César das Neves e SS.AA.RR. os Duques de Bragança, juntaram-se a nomes grandes da literatura infantil, como Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, e Maria Teresa Maia Gonzalez, num inovador projecto que envolveu quinze autores, quinze museus lisboetas e quinze instituições de solidariedade social.
O livro de contos “Nossa Senhora na História de Portugal”, com introdução do Prof. Dr. Joaquim Veríssimo Serrão, Presidente da Academia Portuguesa de História, foi apresentado no Museu dos Coches, em Lisboa, pelo Bispo Auxiliar de Lisboa, D.Manuel Clemente.

NOSSA SENHORA NA HISTÓRIA DE PORTUGAL
Coordenação de Thereza Ameal
Autores – Aires de Campos, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Ângela Sarmento, António O. Bettencourt , Aura Miguel, D.Duarte de Bragança, Inês Dentinho, D.Isabel de Bragança, João César das Neves, D.Luiz Flávio Cappio Bispo da Barra, Madalena Fontoura, Maria João da Câmara, Maria Reis, Maria Teresa Maia Gonzalez, Thereza Ameal
Introdução: Joaquim Veríssimo Serrão (Presidente da Academia Portuguesa de História)
LUCERNA/PATRIS DATA DE PUBLICAÇÃO – 21 DE ABRIL DE 2005
PREÇO - €12,45 . 120 págs . ISBN – 972-8835-10-8 . Dimensão – 20x20 cm

“Numa prosa límpida, pela mestria pedagógica e beleza de estilo, os autores deste livro recordam a multissecular comunhão entre a formação de Portugal e os valores eternos do Cristianismo. Não pode a divulgação da História erguer-se sem o apelo aos valores do espírito.”
Joaquim Veríssimo Serrão in Prefácio


A presença de Nossa Senhora na História de Portugal ultrapassa muito o episódico ou acessório. De facto, somos “terra de Santa Maria”, por razões de berço e de alma. Nascidos num território que também se chamava assim, nunca mais houve época ou circunstância nacionais que não encontrassem na relação com a Mãe de Jesus Cristo alguma origem ou interpretação. De Cárquere e Alcobaça, para a primeira dinastia; da Batalha e do Carmo para a segunda; da Atalaia e da Conceição para a Restauração; da Rocha, do Sameiro, ou de Fátima para a época contemporânea… Além destas, outras invocações marianas se juntariam, infindas. Tão infindas como a alma portuguesa, que os contos deste livro ajudam a revelar. Como de novo precisamos.

D. Manuel Clemente

terça-feira, 19 de abril de 2005

Habemus Papam

2005.04.19

“Os senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador da vinha do Senhor”, disse o Cardeal Joseph Ratzinger nas suas primeiras palavras como Papa.
Aparecendo ao balcão sobre a Basílica de São Pedro, Bento XVI abençoou a multidão que o saudava efusivamente gritando “Bento, Bento, Bento!”.
"Consola-me o facto de que o Senhor sabe trabalhar e actuar com instrumentos insuficientes e, sobretudo, confio nas vossas orações. Na alegria do Senhor ressuscitado, confiados na sua ajuda permanente, sigamos adiante. O Senhor nos ajudará. Maria, sua santíssima Mãe, está do nosso lado", assegurou aos fiéis.
"Obrigado!", disse ainda.

Bênção Apostólica "Urbi et Orbi" (19 de abril de 2005)


Amados Irmãos e Irmãs,

Depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor.

Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações.

Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor ajudar-nos-á. Maria, sua Mãe Santíssima, está connosco. Obrigado!

segunda-feira, 11 de abril de 2005

A intercessão de São João Paulo Magno, JCdasNeves, DN050411

A intercessão de São João Paulo Magno
João César das Neves
DN 050411
Nestes dias muito se fala do Papa peregrino, ecuménico,reformador, do Papa dos
jovens, dos pobres, da vida. Mas,além de tudo isso, a morte de João Paulo II marca o termo do concílio Vaticano II. O seu imponente pontificado consistiu apenas na encarnação, institucionalização, normalização e plenitude desse ensinamento. Dentro de dias começará para a Igreja Católica a era pós-concílio. O próximo Papa, o
primeiro do último meio-século que não foi padre conciliar, lançará a nova fase da Igreja.
A situação dos cristãos em meados do século XX era muito difícil. O problema não vinha das perseguições e perda de fiéis, pois o "pequenino rebanho" (Lc 12, 32) vivia habituado a isso. A dificuldade estava em, desta vez, a Igreja se sentir culpada por essas circunstâncias. Por isso estava desanimada,complexada, à defesa.
Esta não era a primeira vez que o fenómeno existia. Era a segunda. No século XVI viveu-se um forte ataque de cristãos fervorosos contra o que consideravam a imoralidade, abusos e perversão eclesiais. O resultado foi a terrível
Reforma, que dividiu dolorosamente a Igreja e a Europa por 200 anos. Desta segunda vez as acusações não eram tão graves. Não se tratava de corrupção moral ou vícios institucionais, mas de desadequação da linguagem e métodos aos tempos modernos. A casa estava bem fundada; só precisava abrir as janelas.
Nos dois casos, a solução foi conciliar. O século XVI viu o grandioso concílio de Trento (1545-1563), aplicado por um santo, São Pio V (Papa de 1566-1572), inverter a situação.
"Em 1590 cerca de metade da massa terrestre europeia estava sob o controlo de Governos protestantes e/ou da cultura protestante; em 1690 o número era apenas cerca
de um quinto." (MacCulloch, D. Reformation, Penguin Books, Londres, 2003, p.669). Quatro séculos depois, o concílio Vaticano II (1962-1965) realizou uma reforma equivalente aplicada por quatro santos João, Paulo e João Paulo.
O impulso apostólico e pastoral de João Paulo II mudou completamente o estado de espírito, atitude e ânimo dos fiéis. O Papa deixa uma Igreja jovem e ordenada, empenhada, alegre e confiante.
Com a doutrina esclarecida no catecismo (1992), alimentada pelo jubileu (2000), pelo rosário (2003), pela eucaristia (2005), vive num mundo consagrado ao Imaculado Coração de Maria (1984). A receita vinha do primeiro momento "Não tenhais medo!
Abri, mais, escancarai as portas a Cristo! Abri ao seu poder salvador as portas dos Estados, dos sistemas económicos e políticos, dos extensos campos da cultura, da civilização e do desenvolvimento" (homilia na inauguração do pontificado, 22 de Outubro de 1978).
Hoje ninguém pode negar a enorme transformação do Vaticano II, semelhante à de Trento. Mas, por muito que se mude, ainda há quem queira mais. A História repete-se e os críticos do Papa pretendem alterações que transformariam a Igreja Católica numa seita protestante. Isto não é insulto, mas mera constatação. Com todo o respeito, nota-se que os propósitos dos opositores (descentralização papal e fim da cúria, casamento de padres e ordenação de mulheres, liberdade para aborto, homossexualidade, divórcio, preservativo, etc.) são aspectos que distinguem as comunidades protestantes e, com os avanços do diálogo ecuménico, quase os únicos que as distinguem.
Os críticos chamam aos fiéis "tradicionalistas" e "conservadores".
Bem podiam chamar-lhes "católicos" e a si próprios "protestantes".
As tarefas do novo Papa são gigantescas. A descristianização e decadência europeias, a crise de vocações no Ocidente, o desafio gnóstico e esotérico, a evangelização das potências nascentes China, Índia, Islão, os dramas sociais nas católicas América Latina e África, a luta pela vida e família, etc. São problemas que se podem dizer impossíveis de resolver.
Como sempre, a Igreja não tem capacidade humana de subsistir. Só a presença do Espírito Santo dá vida ao corpo místico de Jesus Cristo, que conta agora com a poderosa intercessão de São João Paulo Magno.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 10 de abril de 2005

Fé e Razão em João Paulo II

João Carlos Espada
In: Expresso, 050410
Um Papa extraordinário.
Uma semana depois da morte de João Paulo II, já tudo foi dito sobre esse Papa extraordinário que conquistou o respeito e a admiração do mundo. Em modesta homenagem, permito-me apenas recordar um aspecto menos realçado: o combate intelectual de João Paulo II contra o niilismo contemporâneo.
Foi Karl Popper quem primeiro me chamou a atenção para o facto, à primeira vista inesperado, de ser o Papa uma das poucas vozes a defender a razão no mundo (pós) moderno que nos rodeia.
A mesma ideia tem sido realçada por George Weigel, o biógrafo norteamericano do Papa (Testemunho de Esperança, Bertrand, 2000). No seu estilo acutilante e divertido, George Weigel gosta de dizer que «Voltaire ficaria chocado com a ideia de que o Papa e a Igreja católica pudessem ser os defensores dos direitos humanos e da razão».
Contra a negação da verdade objectiva O tema foi particularmente crucial na Encíclica «Veritatis Splendor», de 1993, e foi retomado na Carta Encíclica «A Fé e a Razão», de 1998. Esta Encíclica afirma que «um dos dados mais salientes da nossa situação actual consiste na ‘crise de sentido’ (gerada por) esta dúvida radical que facilmente leva a um estado de cepticismo ou indiferença ou às diversas expressões de niilismo» (págs. 108-109). O niilismo caracteriza-se por uma «rejeição de qualquer fundamento e, simultaneamente, a negação de toda a verdade objectiva»(pág.120).
Quais são as consequências do niilismo? «Antes mesmo de estar em contraste com as exigências e os conteúdos próprios da palavra de Deus, (o niilismo) é a negação de toda a verdade objectiva... Deste modo, abre-se espaço à possibilidade de apagar, da face do homem, os traços que revelam a sua semelhança com Deus, conduzindo- o progressivamente a uma destrutiva ambição de poder ou ao desespero da solidão» (pág. 120). Este foi, em meu entender, precisamente o destino do niilismo germânico na viragem do século XIX para o XX: nas ruínas da razão e do sentido deixadas pelas investidas de Nietzsche e seus seguidores, cresceu o irracionalismo nacional-socialista, ou a ambição crua do poder nu.
Do racionalismo dogmático ao relativismo dogmático Mas donde surgiu, por sua vez, a investida niilista? Karl Popper pensava que ela surgira das debilidades próprias do racionalismo dogmático, do racionalismo excessivo - que Nietzsche detectara, caindo na filosofia do desespero. E Popper antecipara que, quando o racionalismo dogmático do marxismo caísse por terra, uma espécie de simbiose niilista entre Marx e Nietzsche passaria a ser o novo «ópio dos intelectuais», ou a nova «religião secular». Da confiança cega na certeza da Razão, passar-se-ia à certeza cega na impotência da razão.
João Paulo II não poupou «o espírito excessivamente racionalista de alguns pensadores». E recordou que «diversas formas de humanismo ateu... não tiveram medo de se apresentar como novas religiões, dando base a projectos que desembocaram, no plano político e social, em sistemas totalitários que foram traumáticos para a humanidade»(págs. 64- 65).
«Como consequência da crise do racionalismo», prossegue a Encíclica, «apareceu o niilismo. Enquanto filosofia do nada, consegue exercer um certo fascínio sobre os nossos contemporâneos...
Na interpretação niilista, a existência é somente uma oportunidade para sensações e experiências onde o efémero detém o primado» (págs. 65-66).
À beira do precipício.
Face ao niilismo, João Paulo II afirmou que «a necessidade de um alicerce para construir a existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente, principalmente quando se é obrigado a verificar o carácter fragmentário de propostas que elevam o efémero ao nível do valor, anulando assim a possibilidade de se alcançar o verdadeiro sentido da existência.
Deste modo, muitos arrastam a sua vida quase até à beira do precipício, sem saber o que os espera»(págs. 13-14).
Por isso, considerou «muito importante que, no contexto actual, alguns filósofos se façam promotores da descoberta do papel determinante da tradição para uma forma correcta de conhecimento. De facto, o recurso à tradição não é mera evocação do passado; constitui, sobretudo, o reconhecimento dum património cultural que pertence a toda a humanidade.
Poder-se-ia mesmo dizer que somos nós que pertencemos à tradição, e por isso não podemos dispor dela a nosso bel-prazer. É precisamente este enraizamento na tradição que hoje nos permite poder exprimir um pensamento original, novo e aberto ao futuro» (pág. 116).
No centro da mensagem papal parece estar precisamente o apelo a «recuperar quer a profunda tradição teológica... quer a tradição perene daquela filosofia que, pela sua real sabedoria, conseguiu superar as fronteiras do espaço e do tempo» (pág. 116).
Fé e Razão
Pessoalmente, entendo assim a mensagem do Papa: se a razão abdicar da arrogância fatal que a levou ao racionalismo dogmático e, a seguir, ao desespero niilista, ela pode e deve retomar a legítima ambição da busca, sempre inacabada, do bem e da verdade. Uma razão crítica como esta só pode trabalhar em diálogo com as tradições, designadamente com a tradição teológica e metafísica, e com as propostas da Fé, reconhecendo a autonomia mútua. Daqui renascerá «o ponto de encontro (ou o terreno comum de entendimento e diálogo, pág. 136) entre as culturas e a fé cristã, o espaço de entendimento entre crentes e não crentes » (pág .106). Mas, para que esse diálogo possa ter lugar, é indispensável que a filosofia se liberte do subjectivismo e relativismo desenfreados para onde é empurrada pelo niilismo, produto do fracasso merecido do racionalismo dogmático.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Homilia do Cardeal Ratzinger na missa exequial do Papa João Paulo II

Homilia do Cardeal Joseph Ratzinger

MISSA EXEQUIAL

PELO DEFUNTO PONTÍFICE ROMANO

JOÃO PAULO II

Praça de São Pedro

Sexta-feira, 8 de Abril de 2005

"Segue-Me", diz o Senhor ressuscitado a Pedro, como última palavra a este discípulo, escolhido para apascentar as suas ovelhas. "Segue-Me" – esta palavra lapidar de Cristo pode considerar-se a chave para compreender a mensagem que surge da vida do nosso chorado e amado Papa João Paulo II, cujos restos mortais hoje depositamos na terra como semente de imortalidade – o coração cheio de tristeza, mas também de jubilosa esperança e profunda gratidão.

São estes os sentimentos do nosso espírito, Irmãos e Irmãs em Cristo, presentes na Praça de S. Pedro, nas ruas adjacentes e em vários outros locais da cidade de Roma, povoada nestes dias por uma imensa multidão silenciosa e orante. A todos cumprimento cordialmente. Também em nome do Colégio dos Cardeais, desejo endereçar a minha atenção deferente aos Chefes de Estado, de Governo e às delegações dos vários Países. Cumprimento as Autoridades e os Representantes das Igrejas e Comunidades Cristãs, bem como das diversas religiões.

Cumprimento ainda os Arcebispos, os Bispos, os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e todos os fiéis provenientes de todos os Continentes; de modo especial os jovens, que João Paulo II gostava de definir como futuro e esperança da Igreja. A minha saudação estende-se, além disso, a quantos por toda a parte do mundo estão unidos a nós através da rádio e da televisão nesta participação coral no solene rito de despedida do amado Pontífice.

Segue-Me – enquanto jovem estudante Karol Woityła era entusiasta da literatura, do teatro, da poesia. Trabalhando numa fábrica de químicos, rodeado e ameaçado pelo terror nazi, sentiu a voz do Senhor: Segue-Me! Neste contexto muito particular começou a ler livros de filosofia e de teologia, mais tarde entrou no seminário clandestino criado pelo Cardeal Sapieha e depois da guerra pôde completar os seus estudos na faculdade teológica da Universidade Jaghellonica de Cracóvia. Muitas vezes, nas suas cartas aos sacerdotes e nos seus livros autobiográficos, falou-nos do seu sacerdócio, para o qual foi ordenado a 1 de Novembro de 1946. Nestes textos interpreta o seu sacerdócio particularmente a partir de três palavras do Senhor. Em primeiro lugar esta: "Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça " (Jo 15,16). A segunda palavra é: "O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas" (Jo 10,11). E finalmente: "Assim como o Pai me amou, assim Eu vos amei. Permanecei no meu amor" (Jo 15,9). Nestas três palavras vemos toda a alma do nosso Santo Padre. Foi realmente por toda a parte e incansavelmente para dar fruto, um fruto que permanece. "Levantaivos, vamos!", é o título do seu penúltimo livro. "Levantaivos, vamos!" – com estas palavras despertou-nos duma fé cansada, do sono dos discípulos de ontem e de hoje.

"Levantai-vos, vamos!" diz-nos também hoje. O Santo Padre foi, ainda, sacerdote até ao extremo, porque ofereceu a sua vida a Deus pelas suas ovelhas e por toda a família humana, numa entrega quotidiana ao serviço da Igreja, sobretudo nas difíceis provações dos últimos meses. Deste modo tornou-se uma coisa só com Cristo, o bom pastor que ama as suas ovelhas. E, por fim, "permanecei no meu amor": O Papa que procurou o encontro com todos, que teve uma capacidade de perdão e de abertura de coração para com todos, diz-nos, também hoje, com estas palavras do Senhor: Permanecendo no amor de Cristo aprendemos, na escola de Cristo, a arte do verdadeiro amor.

Segue-Me! Em Julho de 1958 começa para o jovem sacerdote Karol Woityla uma nova etapa no caminho com o Senhor e atrás do Senhor. Karol dirigira-se como habitualmente, com um grupo de jovens apaixonados pela canoagem, aos lagos Masuri para umas férias em conjunto. Mas levava consigo uma carta que o convidava a apresentar-se ao Primaz da Polónia, Cardeal Wyszynski e era capaz de adivinhar o objectivo do encontro: a sua nomeação como Bispo Auxiliar de Cracóvia. Deixar o ensino académico, deixar esta estimulante comunhão com os jovens, deixar o grande campo da discussão intelectual para conhecer e interpretar os mistério da criatura homem, para tornar presente no mundo de hoje a interpretação cristã do nosso ser – tudo isto devia parecer-lhe como um perder-se a si mesmo, perder até quanto se tornara a identidade humana deste jovem sacerdote.

Segue-Me – Karol Woityła aceitou, sentindo no chamamento da Igreja a voz de Cristo. E depois deu-se conta de quão verdadeira é a palavra do Senhor: "Quem procurar salvar a vida há-de perdê-la; e quem a perder, há-de conservá-la" (Lc 17,33). O nosso Papa – todos sabemos – nunca quis salvar a sua vida, guardá-la para si; quis dar-se a si mesmo sem reservas, até ao último momento, por Cristo assim como também por nós. Precisamente desse modo pôde experimentar que tudo o que entregara nas mãos do Senhor regressou dum modo novo: o amor à palavra, à poesia, às letras foi uma parte essencial da sua missão pastoral e deu uma nova frescura, uma nova actualidade, uma nova atracção ao anúncio do Evangelho, até mesmo quando este é sinal de contradição.

Segue-Me! Em Outubro de 1978 o Cardeal Woityła ouve de novo a voz do Senhor. Renova-se o diálogo com Pedro relatado no Evangelho desta celebração: "Simão filho de João, tu amas-Me? Apascenta as minhas ovelhas!" à pergunta do Senhor: Karol, tu amas-Me?, o Arcebispo de Cracóvia respondeu do fundo do seu coração: "Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que te amo". O amor de Cristo foi a força dominante no nosso amado Santo Padre; quem o viu rezar, quem o ouviu pregar, sabe-o. E assim, graças a este profundo enraizamento em Cristo conseguiu carregar um peso que ultrapassa as forças meramente humanas: Ser pastor do rebanho de Cristo, da sua Igreja universal. Não é este o momento de falar dos conteúdos ímpares deste Pontificado tão rico. Gostaria somente de ler duas passagens da liturgia de hoje, nas quais aparecem elementos centrais do seu anúncio. Na primeira leitura diz-nos São Pedro – e diz-nos o Papa com São Pedro: "Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável.

Enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a Boa-Nova da paz, por Jesus Cristo, Ele que é o Senhor de todos" (Act 10,34-36). E, na segunda leitura, São Paulo – e com São Paulo o nosso Papa defunto – exorta-nos em alta voz: "Meus caríssimos e saudosos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei assim firmes no Senhor, caríssimos" (Fl 4,1).

Segue-Me! Com o mandato de apascentar o seu rebanho, Cristo anunciou a Pedro o seu martírio. Com esta palavra conclusiva e que resume o diálogo sobre o amor e sobre o mandato de pastor universal, o Senhor evoca um outro diálogo, que teve lugar no contexto da última ceia. Aqui Jesus tinha dito: "Para onde Eu vou, vós não podeis vir".

Pedro disse-Lhe: "Senhor, para onde vais?". Jesus respondeu- lhe: "Para onde eu vou, não podes tu agora seguir-Me, mas seguir-Me-ás mais tarde" (Jo 13,33.36). Jesus da ceia vai para a cruz, vai para a ressurreição – entra no mistério pascal; Pedro não pode segui-Lo ainda. Agora – depois da ressurreição – chegou este momento, este “mais tarde”.

Apascentando o rebanho de Cristo, Pedro entra no mistério pascal, vai para a cruz e a ressurreição. O Senhor di-lo com estas palavras: "… quando eras mais novo... ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde tu não queres" (Jo 21,18). No primeiro período do seu Pontificado o Santo Padre, ainda jovem e cheio de forças, guiado por Cristo ia até aos confins do mundo.

Mas depois entrou cada vez mais na comunhão dos sofrimentos de Cristo, cada vez mais compreendeu a verdade das palavras: "Outro te cingirá…". E precisamente nesta comunhão com o Senhor sofredor anunciou incansavelmente e com renovada intensidade o Evangelho, o mistério do amor que vai até ao extremo (cf. Jo 13,1).

Ele interpretou por nós o mistério pascal como mistério da divina misericórdia.

Escreve no seu último livro: O limite imposto ao mal "é, definitivamente, a divina misericórdia" ("Memória e Identidade", p. 70). E reflectindo sobre o atentado diz: "Cristo, sofrendo por todos nós, conferiu um novo sentido ao sofrimento; introduziu-o numa nova dimensão, numa nova ordem: a do amor… é o sofrimento que queima e consome o mal com a chama do amor e retira até do pecado um multiforme florescimento de bem" (p. 199). Animado por esta visão, o Papa sofreu e amou em comunhão com Cristo e por isso a mensagem do seu sofrimento e do seu silêncio foi tão eloquente e fecundo.

Divina Misericórdia: O Santo Padre encontrou o reflexo mais puro da misericórdia de Deus na Mãe de Deus. Ele, que perdera a mãe em tenra idade, amou muito mais a Mãe divina. Ouviu as palavras do Senhor crucificado como se lhe fossem realmente ditas a ele pessoalmente: "Eis a tua mãe!".

E fez como o discípulo predilecto: acolheu-a no íntimo do seu ser (eis ta idia: Jo 19,27) – Totus tuus. E com a mãe aprendeu a conformar-se a Cristo.

Para todos nós permanece inesquecível como neste último domingo de Páscoa da sua vida, o Santo Padre, marcado pelo sofrimento, apareceu uma vez mais à janela do Palácio Apostólico e deu pela última vez a bênção "Urbi et orbi".

Podemos estar certos de que o nosso amado Papa está agora à janela da casa do Pai, vê-nos e abençoa-nos. Sim, abençoenos, Santo Padre. Nós confiamos a tua querida alma à Mãe de Deus, tua Mãe, que te guiou todos os dias e te guiará agora à glória eterna do Seu Filho, Jesus Cristo nosso Senhor. Ámen.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Líções do crepúsculo de um pontífice, George Weigel, Público

Lições do crepúsculo de um pontífice

Cinco dias antes de ter deixado a Polónia para o conclave que o elegeria Papa, o cardeal Karol Wojtyla assistiu a uma celebração do vigésimo aniversário da sua consagração como bispo. A residência em Cracóvia dos seus amigos Gabriel e Bozena Turowski estava decorada com dezenas de fotografias tiradas, ao longo de um quarto de século, de Wojtyla a pedir boleia, a esquiar e a andar de caiaque com os Turowskis e outros amigos laicos, que ainda chamavam ao cardeal "Wujek" (tio), o nome de guerra que lhe tinham dado quando era um jovem capelão na Polónia estalinista. Por cima das fotografias estava um dístico caseiro a dizer "Wujek continuará a ser Wujek" - precisamente o que Wojtyla dissera aos amigos quando regressara a uma viagem de caiaque interrompida em 1958 pela notícia de que fora nomeado bispo.
Mais de um quarto de século depois, o homem que o mundo conhece como João Paulo II está ainda a ser Wujek. Durante estas semanas da sua doença, todas as espécies de perguntas foram feitas. Viria o Papa a considerar a abdicação? O que é que aconteceria se ficasse gravemente incapacitado durante um longo período de tempo?
Estas questões não são sem interesse, mas falham o ponto mais importante do drama. O mundo está a ver um homem a viver, até ao fim, uma das convicções que modelaram a sua vida e o seu impacto na história: a convicção de que a luz da Páscoa é sempre precedida pela escuridão da Sexta-Feira Santa, não só no calendário, mas no reino do espírito.
A cultura ocidental contemporânea não se casa bem com o sofrimento. Evitamo-lo, se possível. Sequestramo-lo quando se torna inevitável. Quantos de nós morreremos em casa? Abraçar o sofrimento é um conceito que nos é estranho. E, no entanto, o sofrimento abraçado em obediência à vontade de Deus está no centro da cristandade. O Cristo cuja paixão mais de 1500 milhões de cristãos comemoraram há pouco não está retratado nos Evangelhos como alguém a quem o sofrimento tenha meramente acontecido - um profeta com a sua dose típica de má sorte. O Cristo dos Evangelhos abraça o sofrimento como o seu destino, a sua vocação - e é recompensado por esse sacrifício na Páscoa.
É isso que João Paulo II - não um velho teimoso mas um verdadeiro discípulo cristão - tem vindo a fazer neste último mês: a ser testemunho da verdade de que o sofrimento encarado com obediência e amor pode ser redentor.
Há dias, em Roma, quando perguntei ao cardeal nigeriano Francis Arinze o que é que esta fase do notável pontificado de João Paulo II significava, o cardeal sugeriu que, do seu leito de hospital, o Papa estava a colocar algumas graves questões na agenda mundial: o sofrimento significa alguma coisa, ou é simplesmente um absurdo? O sofrimento contribui de algum modo para o resto de nós? Existe dignidade na velhice?
Na mente do cardeal Arinze o exemplo de João Paulo II oferece uma resposta a estas perguntas. Sim, o sofrimento pode ter significado. Sim, esse sofrimento pode-nos ensinar: recorda-nos que não podemos controlar as nossas vidas, e estimula uma compaixão que nos enobrece. Para além disso, sugeriu o cardeal, João Paulo II, na sua fraqueza e sofrimento, foi um tremendo encorajamento para os idosos, os doentes, os diminuídos e os moribundos, que encontram força e esperança no seu exemplo.
O mundo perdeu muito da história de Karol Wojtyla nos seus 26 anos como Papa porque o mundo tenta compreendê-los em termos políticos, como apenas outro jogador na cena global. Não há dúvida de que João Paulo II tem sido o Papa politicamente mais influente desde há séculos, mas isso não é o que ele é no mais profundo do seu ser. As suas recentes hospitalizações e a sua luta para estar à altura do compromisso que assumiu ao ser eleito em 1978 deve recordar a toda a gente que este homem é, acima de tudo, um pastor cristão que vai desafiar-nos até ao fim com a mensagem da cruz - a mensagem da Sexta-Feira Santa e da Páscoa.
Tal como Hanna Suchocka, a antiga primeira-ministra polaca, me disse recentemente, o Papa "está a viver a sua via sacra". Não é algo que o mundo, desde há muito tempo, tenha visto um Papa fazer. Devemos reconhecê-lo pelo que ele é, e estar gratos pelo exemplo.

O escritor é senior fellow no Centro de Ética e Política Pública e autor de Testemunho de Esperança: a biografia do Papa João Paulo II

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

HOMILIA DO CARDEAL JOSEPH RATZINGER EM NOME DO SANTO PADRE NO FUNERAL DE MONSENHOR GIUSSANI

HOMILIA DO CARDEAL JOSEPH RATZINGER EM NOME DO SANTO PADRE NO FUNERAL DE MONSENHOR GIUSSANI

24 de Fevereiro de 2005

Queridos Irmãos
no Episcopado e no Sacerdócio

"Os discípulos alegraram-se ao ver Jesus". Estas palavras do Evangelho, que acabam de ser lidas, indicam-nos o centro da personalidade e da vida do nosso amado Mons. Giussani.
Mons. Giussani cresceu numa casa como ele mesmo dizia pobre de pão, mas rica de música; e assim, desde o início, sentia-se tocado, aliás, atingido pelo desejo da beleza; e não se contentava com uma beleza qualquer, com uma beleza banal: ele buscava a própria Beleza, a Beleza infinita; deste modo, encontrou Cristo, e em Cristo a verdadeira beleza, o caminho da vida, a alegria genuína.
Ainda adolescente, fundou juntamente com outros jovens uma comunidade então denominada Studium Christi. O seu programa consistia em falar exclusivamente de Cristo, porque todos os outros assuntos lhe pareciam uma perda de tempo. Naturalmente, em seguida ele soube superar esta unilateralidade, mas a substância sempre lhe permaneceu. Somente Cristo dá sentido a tudo na nossa vida; Mons. Giussani conservou sempre o olhar da sua vida e do seu coração fixo em Jesus Cristo. Deste modo, compreendeu que o Cristianismo não consiste num sistema intelectual, numa série de dogmas e num moralismo, mas que o Cristianismo é um encontro, uma história de amor, um acontecimento.
Contudo, este inebriamento em Cristo, esta história de amor que é toda a sua vida, permanecia distante de todo o entusiasmo superficial, de todo o romanticismo indefinido. Contemplando Cristo, ele descobriu realmente que encontrá-lo significa segui-lo. Este encontro é uma estrada, um caminho; uma vereda que atravessa como ouvimos no Salmo também o "vale obscuro". No Evangelho sentimos precisamente a derradeira escuridão do sofrimento de Cristo, da ausência aparente de Deus, do eclipse do Sol do mundo. Ele sabia que seguir significa atravessar um "vale obscuro"; percorrer o caminho da cruz e, ao mesmo tempo, viver na alegria verdadeira.
E por que é assim? O próprio Senhor traduziu este mistério da cruz, que na realidade é o mistério do amor, com uma fórmula em que se expressa toda a realidade da nossa vida. O Senhor diz: "Quem procurar salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida, encontrá-la-á".
Mons. Giussani realmente não queria ter a vida para si mesmo, mas entregou-a, e foi precisamente deste modo que encontrou a vida não só para ele próprio, mas para muitas outras pessoas. Ele realizou aquilo que ouvimos no Evangelho: não desejava ser um senhor, mas queria servir, era um "servo fiel do Evangelho"; distribuiu toda a riqueza do seu coração, difundiu a riqueza divina do Evangelho, da qual vivia imbuído e, servindo deste modo, dando a sua própria vida, esta sua vida produziu frutos copiosos como podemos observar no momento presente e ele tornou-se verdadeiramente um pai para muitos e, tendo orientado as pessoas não para si mesmo mas para Cristo, conquistou os corações, ajudou a melhorar o mundo e a abrir as portas do mundo para o céu.
Esta centralidade de Cristo na sua vida incutiu-lhe também o dom do discernimento, de decifrar de maneira justa os sinais dos tempos numa época difícil, repleta de tentações e de erros, como bem sabemos.
Pensemos nos anos 68 e seguintes: o primeiro dos seus partiu para o Brasil e ali encontrou-se diante da pobreza extrema e da miséria. O que se podia fazer? Como corresponder? Então, surgiu a grande tentação de dizer: agora devemos, temporariamente, prescindir de Cristo, prescindir de Deus, porque há urgências mais prementes; primeiro, devemos mudar as estruturas e as coisas exteriores, primeiro temos o dever de melhorar a terra, e depois poderemos voltar a encontrar também o céu. A grande tentação daquele momento consistia em transformar o cristianismo num moralismo, em substituir o crer com o fazer. Por quê? O que é que o crer comporta? Pode-se dizer: neste momento devemos fazer algo. E todavia, agindo assim, substituindo a fé com o moralismo, o crer com o fazer, termina-se nos particularismos, perdem-se sobretudo os critérios e as orientações e, em última análise, não se edifica, mas divide-se.
Com a sua fé impávida e inabalável, Mons. Giussani sabia que, mesmo em tal situação, Cristo e o encontro com Ele era central, porque quem não dá Deus, dá demasiado pouco, quem não dá Deus, quem não faz encontrar Deus no rosto de Cristo, não edifica mas destrói, porque faz com que a acção humana se perca em dogmatismos ideológicos e falsos. Mons. Giussani conservou a centralidade de Jesus Cristo e, precisamente deste modo, com as obras sociais e com o serviço necessário, ajudou a humanidade neste mundo difícil, onde a responsabilidade dos cristãos pelos pobres do mundo é enorme e urgente.
Quem acredita deve atravessar inclusivamente o "vale obscuro", os vales obscuros do discernimento e também das adversidades, das oposições e das contradições ideológicas, que chegavam até às ameaças de eliminar fisicamente os seus, para se libertar daquela outra voz que não se contenta com o fazer, mas que transmite uma mensagem maior, assim como uma luz mais fúlgida.
Com a força da sua fé, Mons. Giussani atravessou de maneira intrépida estes vales obscuros e, naturalmente, com a novidade que tinha dentro de si, encontrava também a dificuldade de se inserir no interior da Igreja. Sempre que o Espírito Santo, segundo as necessidades dos tempos, cria algo novo, que na realidade é o retorno às origens, é difícil orientar-se e encontrar o conjunto inquestionável da grande comunhão da Igreja universal. O amor de Mons. Giussani por Cristo era também o seu amor pela Igreja; desta maneira, ele permaneceu um servo sempre fiel, tanto ao Santo Padre como aos seus Bispos.
E, com as suas instituições, ele voltou a interpretar também o mistério da Igreja.
O Movimento "Comunhão e Libertação" faz-nos pensar imediatamente nesta descoberta, que é própria da época contemporânea, a liberdade, e faz-nos pensar inclusivamente na seguinte expressão de Santo Ambrósio: "Ubi fides est libertas". O Cardeal Biffi chamou a nossa atenção para a coincidência prática desta palavra de Santo Ambrósio, com a fundação do Movimento "Comunhão e Libertação". Pondo assim em relevo a liberdade como uma dádiva própria da fé, ele disse-nos também que a liberdade, para ser verdadeiramente humana, para ser uma liberdade na verdade, tem necessidade da comunhão. Uma liberdade isolada, uma liberdade que fosse só para o nosso Ego, seria uma falsidade e aniquilaria a comunhão humana. Para ser verdadeira, e portanto eficaz, a liberdade tem necessidade da comunhão, e não de qualquer comunhão mas, em última análise, da comunhão com a própria verdade, com o amor, com Jesus Cristo e com o Deus trinitário. É desta forma que se edifica uma comunidade que cria liberdade e dá alegria.
A outra Associação, dos "Memores Domini", faz-nos pensar novamente no segundo Evangelho hodierno: a memória que o Senhor nos deixou na sagrada Eucaristia, memória esta que não é unicamente uma recordação do passado, mas uma lembrança que cria o presente, uma memória em que Ele mesmo se entrega nas nossas mãos e se insere nos nossos corações, fazendo-nos viver.
Atravessar vales obscuros. Na última etapa da sua vida, Mons. Giussani desejou atravessar também o vale obscuro da doença, da enfermidade, da dor e do sofrimento, mas inclusivamente nisto o seu olhar permaneceu fixo em Jesus, e assim foi verdadeiro em todo o sofrimento; ao ver Jesus, podia alegrar-se, pois estava presente o júbilo do Ressuscitado, que também na paixão é o Ressuscitado e nos dá a verdadeira luz e a alegria, e ele sabia que como reza o Salmo também atravessando este vale, não devia "temer mal algum, porque sei que Vós estais comigo e que habitarei na casa do Pai". Esta era a sua grande força: saber que "Vós estais comigo".
Meus queridos fiéis, sobretudo dilectos jovens, façamos nossa esta mensagem, não percamos de vista Cristo e não nos esqueçamos de que sem Deus nada de bem se edifica, e que Ele permanecerá enigmático se não for reconhecido no rosto de Cristo.
Agora, o vosso amigo Mons. Giussani chegou à margem da Vida e estamos convictos de que se abriu a porta da casa do Pai. Estamos persuadidos de que agora se realiza plenamente a seguinte palavra: ao verem Jesus, alegraram-se; ele rejubila-se com uma alegria que ninguém lhe pode tirar. Neste momento, gostaríamos de agradecer ao Senhor o grande dom deste sacerdote, servo fiel do Evangelho e pai. Confiemos a sua alma à bondade do seu e nosso Senhor.
Nesta hora, desejamos rezar também e de forma particular pela saúde do nosso Santo Padre, novamente internado. Que o Senhor o acompanhe, dando-lhe força e saúde. E oremos ainda para que o Senhor nos ilumine, nos incuta a fé que edifica o mundo, a fé que nos faz encontrar o caminho da vida, a verdadeira alegria.
Amém!