quinta-feira, 27 de abril de 2017

Isabel Galriça Neto :: Discurso Sessão Solene 25 de Abril 2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O 25 de abril foram três revoluções

rui aBLASFÉMIAS.NET  24.04.17


A primeira, que hoje comemora 43 anos, derrubou um regime velho e caduco, que não se soubera modernizar e, pior que tudo, que não foi capaz de resolver politicamente uma guerra com treze anos e sem solução militar à vista. A guerra colonial foi, muito mais do que a questão democrática, o motivo principal que fez com que as Forças Armadas executassem um golpe de estado que, quase imediatamente, se transformou em revolução. Com excepção da tentativa do golpe de Botelho Moniz, em 61, Salazar conseguira sempre assegurar a lealdade das chefias militares, o que Marcello Caetano não foi capaz. A perda de Spínola e Costa Gomes, que surgem, na noite de 24 para 25 de Abril, como os chefes do movimento militar, foi fatal para o regime. A revolução só foi pacífica porque o regime deposto estava anquilosado e não teve reacção. Envelhecido por quarenta anos de salazarismo e por uma sucessão que se mostrou incapaz de cumprir a renovação que prometera e o país aguardava, já nem aqueles que o dirigiam acreditavam nele. O regime foi derrubado, mas não caiu: desfaleceu.
A segunda revolução só surpreendeu os incautos. Teve duas datas: o 28 de Setembro de 1974 e o 11 de Março do ano seguinte. Verdadeiramente, principiara logo uma semana depois do dia em que Marcello Caetano foi preso no Largo do Caldas, quando, no Dia do Trabalhador, o Dr. Cunhal explicou ao Dr. Soares e ao país que o entendeu, aquilo que ele queria dizer com «as mais amplas liberdades». Quem não ignorar a história, sabe que em qualquer revolução democrática, após o romantismo das primeiras intenções, conhece inevitavelmente um momento de radicalização para fazer triunfar a «verdadeira» revolução e partir os dentes aos «reaccionários». É esse o momento em que a escumalha tenta assaltar violentamente o poder e onde, se não houver reacção forte, se fazem os banhos de sangue. Sempre em nome das mais belas intenções e dos mais honestos propósitos. A Revolução Francesa, logo após 89, explica bem como é que essas coisas se fazem. E como infelizmente terminam. Para todos.
A reacção forte aos planos dos Dr. Cunhal veio de dentro e de fora do país, e corporizou-se no 25 de Novembro de 1975, verdadeiramente, o terceiro 25 de Abril, e aquele que instituiu a democracia e o Estado de direito em Portugal. De fora – pasme-se! – da própria União Soviética, que já tinha conseguido o que queria – as independências africanas – e não estava disposta a ceder aos ímpetos leninistas do seu agente em Lisboa, e provocar, com isso, um casus belli de consequências imprevisíveis com os EUA. O rectângulo peninsular não valia esse risco, e quem duvidar das verdadeiras intenções do Dr. Cunhal (que a pequena história tem feito passar por um poço de moderação e sensatez nestas alturas) que leia o livro do José Milhazes intitulado Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril… A segunda reacção veio de dentro, do país profundo, e devemo-la a Mário Soares, Jaime Neves, Ramalho Eanes, Sá Carneiro, Emídio Guerreiro, Salgado Zenha, os homens que travaram o Partido Comunista e a radicalização revolucionária. Só com eles – e graças a eles – os propósitos iniciais da revolução foram cumpridos.

A TED talk do Papa Francisco

TED TALKS   26.04.17

"Basta uma só pessoa para que exista a esperança, e essa pessoa podes ser tu, diz Sua Santidade o Papa Francisco nesta sua forte TED Talk dada directamente da cidade do Vaticano. Numa mensagem de esperança para pessoas de todas as fés, para aqueles que têm poder e não têm, o líder espiritual faz um comentário que traz luz sobre o mundo como ele é hoje e chama à igualdade, solidariedade e ternura para persistir. "Ajudemo-nos uns aos outros, juntos, para nos lembrarmos que o outro não é uma estatística, ou um número. "Todos precisamos uns dos outros". 

Uma gloriosa revolução

RAUL DE ALMEIDA  28.03.17  JORNAL ECONÓMICO 
A crise do Ocidente é moral e ideológica, não é económica. Só uma revolução de ideias, compromisso, mobilização coletiva e valorização da Pessoa nos pode salvar de um destino estéril. 

Não me canso de falar ou de escrever sobre os riscos da morte das ideologias, da sumissão da política ao primado de uma governação economicista. Mais do que nunca, no choque de civilizações em curso, na dispersão do sentimento de pertença europeu, as ideologias fazem falta, o regresso do primado da política é urgente. O mundo ocidental, o que ainda resta dele, está exangue, desorientado, sem uma ideia mobilizadora, sem um rumo que conduza a um projecto futuro, que exija o regresso da Pessoa ao centro de tudo.
Enquanto a lógica orientadora do exercício do poder se fundar no condicionamento dos grandes grupos transnacionais sem rosto conhecido, enquanto homens não escrutináveis, como Soros, ditarem na sombra as grandes leis reguladoras do mundo, enquanto finança e economia se misturarem ao serviço exclusivo uma da outra e não ao serviço da sociedade, é facil chegar ao ponto de desligamento e desmotivação em que nos encontramos.
O Ocidente empreendeu uma longa e tenaz guerra com Deus, afastando-O hostilmente do espaço público, vendendo ao Homem a ideia de uma falsa auto-determinação, de facilitação dos prazeres superficiais, de desresponsabilização perante qualquer sistema de ordenamento moral. Curiosamente, ou não, esta estratégia jacobina assenta num atropocentrismo enganador, num engodo que cria a ilusão do Homem central e dono de si próprio para atomizar o seu papel relacional e de pertença, fragilizando a sociedade, tornando-a mais fraca para mais facilmente ser manipulada.
A crise do Ocidente é moral e ideológica, não é económica. Enquanto os governos, da esquerda à direita, preferirem a meta do défice a metas sociais. Enquanto priveligiarem o crescimento económico, sem exigir que sejam as pessoas quem primeiro beneficia desse crescimento. Enquanto a preocupação com o capital e a sua perpetuação for hermética, esquecendo que o capital só é bom se se encontrar ao serviço do Homem. Aí, não tenhamos dúvidas, teremos as portas cada vez mais escancaradas ao populismo indígena e à agressão exógena.
Já por aqui escrevi sobre o fogo das questões fracturantes que a esquerda vai disparando com precisão para distrair a sociedade das suas acções de fundo, criando ruído, divisão, dispersão e enfraquecendo os laços que ligam uma nação. O que não conseguiram desde o início do século XX através da opressão, do terror e do medo, vão conseguindo desde o final dos anos 1960 com a falsa autonomia individualista e o relativismo ético predominantes. Esgotadas, porque contra a sua natureza, as pessoas precisam de valores, de sentimento de pertença, de voltar ao centro num processo de valorização; foi esta a guerra entre Clinton e Trump, e viu-se quem a ganhou. É esta a guerra em curso em muitas eleições europeias, com desfecho ainda incerto no médio e longo prazo.
Os populistas, trabalhando eficazmente sobre os estragos do jacobinismo, ocupam um lugar por preencher na sociedade actual. Os populistas não fazem mais do que ocupar o espaço que deveria ser liderado por homens e mulheres comprometidos politicamente com a Pessoa, com o desenvolvimento da Democracia e de uma sociedade de bem-estar. Os populistas crescem nos campos queimados da esquerda relativista e do capitalismo selvagem, perante a ausência de quem tem capacidade de fazer melhor e muitíssimo mais.
A democracia cristã e a social-democracia, de que são tributários os três partidos democráticos portugueses, e a maioria dos grandes partidos de governo europeus, lembram o partido de Ataturk, outrora grandioso, hoje perdido num auto-contentamento feito da satisfação que o conforto das pequenas benésses alimenta; nunca mais mandará, nunca mais ajudará a que a Turquia cumpra o sonho de Mustafa Kemal.
Não restam dúvidas de que só uma revolução nos pode salvar de um destino estéril – uma revolução de ideias, de compromisso, de mobilização colectiva, de valorização da Pessoa. Não é uma revolução armada, é muitíssimo mais difícil, porque a paz é sempre mais exigente. O Reino Unido prevalece até hoje porque nunca teve uma revolução convencional, teve melhor, teve a sua muito própria Glorious Revolution. Porque temos sempre de dar um nome às coisas, pensemos na urgência desta gloriosa revolução. Por nós.

A liberdade na Livraria Lello e Irmão no Porto


A Liberdade saiu à rua como mostra esta fotografia da montra da Livraria Lello & Irmão que por graça me enviaram do Porto, pela escolha desta frase literária escolhida em comum.

Foi com dificuldade que encontrei citações justas sobre o que é a liberdade. Sendo "um dos dons mais preciosos que aos homens deram os céus" é possivelmente o dom mais mal entendido no tempo em que hoje vivemos. 

"É fazer o que nos apetecer" dizia um dos meus filhos ontem, revelando a imaturidade que nos é comum a todos, no que toca a perceber o que verdadeiramente significa ser livre. Mas logo de seguida vendo o outro, o irmão mais velho, acho que começo a perceber melhor...



No passeio que fizémos ontem, o mais velho empurrava na brincadeira o mais novo, o do 'fazer o que me apetecer', no carrinho de bebé que já não é para a sua idade, enquanto  gritava ordens e direções: 'Para a frente, para a direita, mais rápido!'

 - Que abusador! - pensei eu sobre o mais novo.
 - Não seja tótó! - disse eu ao mais velho. 
 - Oh mãe, deixe lá, ele gosta - disse o mais velho.


Fiquei a pensar quem era o mais livre. O opressor, que vai sentado a dar ordens, ou o oprimido que não se sentia oprimido, mas antes a obedecer porque quer. E eu quem era, a reinvidicar um direito a quem não o quer ver reivindicado? A fiscal daquela liberdade que é 'fazer o que lhe apetecer'? 

Lembrei-me do meu pai dizer uma coisa que nunca mais me esqueci. "Quem tem um direito, tem o direito de abdicar dele."

29 de Abril: Convento dos Capuchos : Concerto de Páscoa

RÚSSIA: Atentado contra liberdade religiosa

 OBSERVATÓRIO PARA A LIBERDADE RELIGIOSA,     21.04.2017


COMUNICADO 

 ATENTADO DA RÚSSIA CONTRA LIBERDADE RELIGIOSA 
DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ

O Observatório para a Liberdade Religiosa (OLR), acolhido na área de Ciência das Religiões da Un. Lusófona, segue com atenção todos as ameaças à liberdade religiosa e não podia deixar passar em claro o que, nos últimos dias, se tem vivido na Rússia, onde o grupo religioso Testemunhas de Jeová vê os seus direitos mais comuns postos em causa e é alvo de uma perseguição massiva.

O jornal Moscow Times em grande destaque dá nota de como as Testemunhas de Jeová na Rússia receberam ordem de se dissolverem institucionalmente, tendo sido comparadas a grupos terroristas como o Daesh ou a Al-Qaeda.

Na Rússia estima-se que existam mais de 175 mil crentes deste grupo religioso e quase 400 salões onde se reúnem habitualmente – aos quais se pretende estender uma decisão ainda só aplicada em Moscovo.

O Supremo Tribunal Russo, desde meados de março passado, estava a analisar o caso, já que o ministério Público de São Petersburgo havia intimado as Testemunhas de Jeová daquela cidade a pararem com "a atividade extremista", com atividades prosilitistas alegadamente lesivas da família e da vida.

“Não há outra alternativa, o grupo religioso tem agora de se dissolver” – assumem os crentes em Moscovo

Na sequência da decisão do Tribunal, os membros das Testemunhas de Jeová estão proibidos de se reunirem ou de distribuir qualquer tipo de literatura religiosa em áreas específicas – o que é um atentado à liberdade religiosa e individual.

O mesmo tribunal recusou os pedidos para reconhecer que os membros da organização seriam vítimas de repressão política e também declinou ouvir crentes que garantem que a polícia russa adulterou provas para obter uma condenação.

As Testemunhas de Jeová são um grupo cristão, com uma interpretação bíblica própria, diferente da que é proposta pela teologia ortodoxa, dominante na Rússia. Mediaticamente conhecidos por um proselitismo muito ativo e pela recusa de transfusões de sangue, os membros deste grupo religioso não se revêm em nacionalismos e praticam o pacifismo - recusam pegar em armas e integrar forças armadas. 
Salvaguardando as distâncias circunstanciais e temporais, as Testemunhas de Jeová viveram em Portugal o mesmo clima de perseguição e proibição durante o regime de Salazar, tendo a mesma estrutura sido proscrita oficialmente durante o Estado Novo, período em que operou na clandestinidade. Recorde-se como em Junho de 1966 o Tribunal Plenário Criminal de Lisboa condenou a pena de prisão dezenas de membros da congregação do Feijó, homens e mulheres, sob acusação de "um crime contra a segurança do Estado". A sentença, reconfirmada no ano seguinte pelo Supremo Tribunal, captou a atenção de Portugal e teve consequências diplomáticas.
Em 1933, no mesmo ano em que Adolfo Hitler foi nomeado novo chanceler da Alemanha, o ditador (em nome da ideologia nazi) lançou uma campanha para aniquilar as Testemunhas de Jeová. No ano de 1935 estavam proscritas em toda a “nação ariana”. Milhares de crentes foram mortos nos campos de concentração.

Chocados com a situação na Rússia, membros portugueses do grupo religioso Testemunhas de Jeová recorreram ao OLR, apresentando dados e documentos com revelações muito preocupantes. O OLR exorta os poderes públicos e políticos portugueses a, nos possíveis e adequados campos de ação diplomática, manifestarem total e inequívoca reprovação. 
Mesmo perante evidentes diferenças político-sociais, não é compreensível que países que assumam, na parte ou no todo, a tarefa de construir uma Europa de paz, admitam, na base, a segregação e violação das liberdades, nomeadamente a religiosa.

Discurso presidencial. O que disse Marcelo nas entrelinhas

VITOR MATOS   25.04.17  OBSERVADOR


Fez um discurso profilático contra populismos e nacionalismos e recusou estar a mandar recados. Mas enviou alguns. Aqui pode ler os comentários de Vítor Matos ao que o PR quis dizer.

No seu segundo discurso em cerimónias do 25 de abril, poucos dias depois das eleições francesas, o Presidente da República focou-se nos fenómenos populistas e nacionalistas que têm assolado a Europa e o mundo, para os evitar por cá. Já tinha feito saber que seria mais ou menos inócuo de conteúdo, sem recados ao Governo e aos partidos. No entanto, não se pode considerar inócuo aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa foi hoje dizer na Assembleia da República, onde podemos desde logo notar duas ausências: deixou de apelar a consensos e não falou da União Europeia.
O que é que o Presidente disse? E o que se pode ler nas entrelinhas das principais passagens que aqui reproduzimos?
"Faz, hoje, exatamente quarenta anos que, pela primeira vez, aqui, nesta casa da democracia, se iniciou (…) a celebração do 25 de Abril (…). E a dúvida que, de quando em vez, ouvi suscitar, a tantos dos meus jovens alunos foi esta: faria ainda sentido uma cerimónia de mera rotina, num claustro fechado (…) e repetir os argumentos do confronto político e cada instante, nalguns casos pontuado por avisos ou mesmo quase ultimatos presidenciais?”
Marcelo Rebelo de Sousa começa por questionar a própria natureza da cerimónia, e dá logo no início a entender que não fará um discurso de recados ou críticas ao Governo. O Presidente recorda-se dessa primeira comemoração de há 40 anos e sabe que nesse discurso, o então presidente Ramalho Eanes arranjou o primeiro sarilho coabitacional com o Governo socialista de Mário Soares. Foi no 25 de Abril que Jorge Sampaio fez o discurso do "há mais vida para além do défice". E o último discurso de Cavaco Silva durante o mandato de José Sócrates também foi muito duro. 
“Estes tempos são, amiúde, de substituição de substância pela forma, do estudo e da qualificação pelo improviso e a superficialidade, de carreiras laborais expedientes de ocasião, do debate de ideias por proclamações básicas, dizendo o que se pensa ser aprazível ao ouvinte e não o que deve ser dito. É por tudo isto, e mais a contingência de este empobrecimento ético e ético e doutrinário abrir caminho a radicalismo egoístas e excludentes, racismo e xenofobia, messianismos que da democracia apenas gostam de usar o que lhes convenha — que faz sentido manter viva esta tradição. Hoje, mais do que nunca. (…) Há datas, como a do 25 de Abril, que nunca serão indiferentes ao nosso destino coletivo”.
Sendo um homem que viveu nos velhos jornais, o Presidente acha que as redes sociais -- embora não as mencione -- e a velocidade a que se transmite a informação hoje na internet, são aspetos que não contribuem para que haja alguma profundidade na discussão política e na perceção das pessoas. Por isso, ao contrário dos seus alunos, acha que faz cada vez mais sentido manter as cerimónias tradicionais em que se comemora o regime democrático. O Presidente pensa que o empobrecimento e simplificação do discurso ajuda os populistas e xenófobos. Há muitos anos que se preocupa com a forma como a linguagem se vai aligeirando, mesmo nas elites. Este é Marcelo na sua versão mais institucional.
"[Esta é uma forma de] confirmar que preferimos a democracia — apesar de imperfeita, injusta ou incompleta – à mais sedutora das miragens ditatoriais. Reforçar que é, precisamente, porque, entre nós, há tanta diversidade e tão vigorosos combates políticos, que o nosso sistema de partidos é dos mais estáveis na Europa, não deixando espaço a riscos anti-sistémicos conhecidos noutras paragens. (…) Neste tempo dos chamados populistas anti-institucionais, dos tropismos anti-sistémicos (…) queremos viver em democracia, sabemos que ela tem de ser mais livre e mais justa."
Que a democracia é incompleta e imperfeita já se sabe, por ser famosa a frase de ser o pior dos sistemas à exceção de todos os outros. Já não faz assim tanto sentido dizer que são os "vigorosos combates políticos" que tornam Portugal num sistema estável. Aliás, a violência de alguns dos debates parlamentares este ano poderiam ser pasto para populismos anti-sistema que não existem ainda por aqui. Ambíguo como sempre, Marcelo parece usar a sua velha técnica de fazer elogios com o objetivo de gerar desconforto aos sujeitos do elogio, ao dizer que não há espaço "a riscos anti-sistémicos" em Portugal. Não há à direita (por enquanto), mas eles existem à esquerda. O Presidente sabe que o PCP e o BE são partidos "anti-sistémicos" (o que significa anti-UE e anti-euro), mas parece com esta frase fazer uma pequena provocação. Se aqui PCP e BE não representam um risco quando apoiam um Governo centrista, europeísta e eurista, isso significa que estão domesticados ou que o seu radicalismo é irrelevante. 
"Os portugueses constroem a Democracia quando, ao fim de anos de sacrifício, sentem que valeu a pena tudo terem feito para sanear as finanças públicas ou tornar possível crescer e criar emprego de forma duradoura e criar condições para se reduzir a dívida que têm sobre os seus ombros, revelando resistência e constância exemplares."
De forma muito subtil, elogia o anterior Governo, liderado por Pedro Passos Coelho -- e a forma como os portugueses aguentaram -- e de maneira ainda mais subtil critica os ataques da esquerda às decisões tomadas nos difíceis anos da troika. No fundo, enaltece o facto de os portugueses não terem entrado numa deriva populista contra o poder político, uma vez que a coligação que governava até foi a força mais votada nas eleições de 2015, não transformando os sacrifícios em voto de protesto puro e duro, como aconteceu noutros países.
"Há duas maneiras muito diferentes de se amar a nação.
Uma — a que infelizmente, vai grassando noutras sociedades é a de se dizer nacionalista contra o mundo, contra os que não são dos nossos, rejeitando e excluindo, vivendo em medo permanente perante tudo e todos. Outra — a nossa — (…) é a de amar a Nação de coração aberto, de alma universal. Um nacionalismo patriótico e de vocação universal, não um nacionalismo egocêntrico, agarrado a um pretenso passado, recriado porque não real e insuscetível e enfrentar o futuro.”
Aqui Marcelo tenta fazer pedagogia no sentido de que se pode ser patriota sem se ser nacionalista. Mas ao invocar esta natureza universalista do patriotismo português, o Presidente parece basear-se nas mesmas premissas que serviam para justificar o velho Portugal do Minho a Timor ou para difundir a ideia de que o colonialismo português era melhor do que os outros. Marcelo é filho de um ex-ministro do Ultramar e de certeza que não teve a intenção que se fizesse esta interpretação das suas palavras.
"Importa que todas as estruturas do poder político, do topo do Estado à administração pública e, naturalmente, aos tribunais, entendam que devem ser muito mais transparentes, rápidas e eficazes na resposta aos desafios e apelos deste tempo, revendo-se, reformando-se ajustando. Os chamados populismos alimentam-se das deficiências, lentidões, incomepetências e das irresponsabilidades do poder político. Ou da sua confusão ou compadrio com o poder económico e social."
É a parte mais importante do discurso no que se refere à reflexão sobre o sistema e o regime. São recorrentes os casos de falta de transparência na administração pública e no poder político. Mas no caso dos tribunais, a lentidão ou as deficiências podem ajudar a desencadear os populismos que Marcelo deseja evitar. Sem citar casos concretos, o discurso do Presidente leva-nos a pensar de imediato no caso Sócrates que está a resvalar prazos, e sem a certeza de que haverá uma acusação sólida. Quanto a compadrios com o poder económico, daquilo que se sabe os casos Sócrates e BES também são exemplares. Nesta passagem, o Presidente identifica onde está a crise do regime e onde estão os maiores perigos para a democracia em Portugal, assim como os pontos a que a opinião pública é mais sensível.
"Há, neste contexto, um bastião da nossa democracia que merece, hoje, na evocação do 25 de Abril, uma palavra muito especial: o poder local. (…) Já disse e repito — o poder local foi e é um fusível de segurança singular da nossa democracia."
Marcelo é um municipalista, que na juventude chegou a defender a regionalização do Continente, uma ideia de que veio a afastar-se mais tarde. Em ano de eleições autárquicas, a referência ao poder local era obrigatória. Mas num momento em que o PCP tenta colocar a regionalização de novo na agenda para pressionar o PS, o Presidente reforça a importância das autarquias, embora também reconheça, noutra passagem, que o poder local "não é isento de problemas e defeitos"
"Os dois anos e meio que faltam para o termo da legislatura parlamentar terão de ser de maior criação de riqueza e melhor distribuição. Governo, seus apoiantes e oposições, que legitimamente aspiram a voltar a governar, estarão, por certo, atentos a este imperativo, na multiplicidade enriquecedora das suas opções."
É o único recado direto ao Governo e à chamada "geringonça", com um gato escondido: fala dando a entender que a legislatura vai mesmo até ao fim. Já não é a primeira vez que Marcelo faz este apelo, mas esta referência demonstra qual é a prioridade do Presidente: o crescimento económico e a justiça na distribuição da riqueza. Não fala no défice, nem dá os parabéns ao Governo por ter o "mais baixo défice da democracia". Não acentua que há um problema com a dívida. Não diz que os juros da dívida devem baixar para níveis espanhóis ou irlandeses. Não aponta para a classificação do rating das agências de notação financeira. Para Marcelo, o crescimento resolveria parte destes problemas, embora seja preciso dar atenção à forma como depois essa riqueza é distribuída, e aqui se revela a sua faceta social-democrata.
"Somos uma pátria em paz, com apreciável segurança, sem racismo e xenofobia de tomo, aceitando diferenças religiosas e culturais como poucos, com rede de instituições sociais devotada, Poder Local incansável e sistema político flexível, mesmo se carecido de reformas, mais mais sustentável do que muitos outros nossos parceiros europeus. (…) Não trocamos o certo pelo incerto, não sacrificamos um democracia, ainda que imperfeita, seduzidos por cantos de sereia de amanhas ridentes, em que do caos nascerá o paraíso."
No fim da sua intervenção, Marcelo deixa uma nota de otimismo do ponto de vista daquilo que é o país -- tolerante e seguro. No entanto, identifica a necessidade de reformas no sistema político, embora deixe tudo em aberto sobre quais deveriam ser essas mudanças (se os partidos quiserem, podem abrir um processo de revisão constitucional, mas isso o PR não diz). Finalmente, critica aqueles que defendem o "caos" e aí parece estar a referir-se aos que desejam a saída da UE ou do euro, como caminho para o Paraíso. Mais uma vez, parece ser a esquerda um alvo das subtilezas presidenciais. Pode-se dizer que Marcelo fez um discurso de regime, a defender a democracia, exorcizando as tendências estrangeiras -- os populismos e os nacionalismos -- que não entraram ainda pelas nossas portas. Ao mesmo tempo, coloca PCP e BE mais próximos daquilo que ele acha ser o lado errado da história.

LAST MINUTE: Cuca Roseta em concerto solidário pelo PAV

terça-feira, 25 de abril de 2017

Centrar o olhar na Pessoa – O que é ser Pessoa?

GRAÇA VARÃO   http://stopeutanasia.blogspot.pt


O ser humano é Pessoa desde o primeiro momento da sua conceção até ao último minuto de Vida. Ser Pessoa é muito mais do que o corpo, do que a sua biologia, pois engloba também uma dimensão emocional, racional, social e transcendente. O doente em coma profundo ou debaixo de uma anestesia total não pensa, está inerte, insensível e sem entendimento. No entanto a sua vida continua a ser sagrada. Não no sentido religioso do termo mas na medida em que é inviolável e inspira o máximo respeito. A vida é sempre bem Supremo! E esta vida nestas circunstâncias continua a ser Pessoa. Toda a Pessoa é Digna. Afinal o que é a Dignidade?
É o mais poderoso motor de solidariedade e de desenvolvimento integral de todos. Dignidade significa que todo o ser Humano tem um valor intrínseco infinito… que transcende a própria natureza temporal. (também os miseráveis, os degradados, os criminosos,… ) Só assim se compreende as extraordinárias obras e iniciativas de entrega gratuita ao outro.
A Dignidade Humana é intocável. Aceitar a eutanásia é aceitar que a Dignidade e o Valor da Vida Humana podem variar e podem perder-se. A dignidade da vida humana deixa de ser uma qualidade intrínseca, passa a variar em grau e a depender de alguma dessas condições externas. O que exclui a eutanásia é exatamente o respeito pela dignidade humana.
A Dignidade é expressão da Humanidade do Homem. Não depende do reconhecimento do outro, pois é uma qualidade inerente ao próprio Ser e abarca toda a vida humana. A dignidade de uma pessoa não se mede pela sua popularidade, pela sua utilidade para a sociedade, nem diminui com o sofrimento ou a proximidade da morte… e nunca se perde. Se a vida humana não vale por si mesma, qualquer um pode sempre instrumentalizá-la em função de qualquer finalidade. Também não é atribuída pelo Direito. É antes, e sempre, merecedora de proteção pelo Estad
A Pessoa é livre. A Liberdade do homem é constitutiva do próprio Ser Humano. Contudo a sua autonomia, ou autodeterminação não é absoluta. Sabemos que o argumento da liberdade individual é enganador. Que ninguém é autónomo em absoluto. Podemos dispor do que temos e do que é nosso, mas da vida não, pois ela não é algo que temos, é algo que somos.
A Liberdade em termos de Autonomia Pessoal / Autodeterminação
A Liberdade não é absoluta porque o Homem tão pouco o é. Somos seres criados. A nossa Liberdade é condicionada –Ortega Gasset falava em “eu e a minha circunstância” Não dispomos nem determinamos os condicionamentos da nossa própria natureza (não podemos voar, necessitamos de comer e de descansar, não podemos fugir à doença, ao envelhecimento e à morte).
A Liberdade em termos de Independência Social
Ser Livre não é ser independente. Somos seres dependentes e interdependentes. Somos seres Sociais! Desde que nascemos, estamos condicionados pela família, nação, cultura, com uma determinada herança genética ou de saúde. Estas circunstâncias fazem parte da nossa condição humana e definem-nos enquanto pessoa. A vida não pode ser concebida como um objeto de uso privado, como se estivesse de forma incondicional à disposição do seu proprietário para a usar ou a deitar fora de acordo com o seu estado de espírito ou determinada circunstância. Ninguém vive para si mesmo, como também ninguém morre para si próprio. 
A essência do homem é Coexistir. A vida tem uma referência social e transpessoal, associada ao amor, à responsabilidade, à interdependência e ao bem comum. E o valor da vida de cada pessoa para toda a sociedade não desaparece quando essa pessoa deixa de ser útil, deixa de produzir, perde quaisquer capacidades, ou pode vir a ser sentida como “peso” pelos outros.

10 IDEIAS SOLIDÁRIAS
Esta é a Dimensão humana do problema, porque qualquer que seja a situação, o caso ou a doença, ou a perspetiva com que se quer olhar para a mesma, no centro dessa realidade está um ser humano… está uma Pessoa.
Esta dimensão humana da abertura ao outro (coexistência) tem que nos levar a pensar que todos temos uma Missão Humana que passa por olhar para o outro, tocar no outro, dar-se ao outro!
Esta "sede" de Humanidade que todos temos… num mundo tão desumanizado e impessoal… levou-nos a lançar esta iniciativa das 10 IDEIAS SOLIDÁRIAS!
Porque cada um de nós é um Bem para o outro!
É de tal forma inerente à nossa humanidade este “olhar” para o outro, que nos tornamos melhores Pessoas (…”mais Pessoas”) quando Também nos damos aos outros (com uma palavra, um gesto, um sorriso... ou com o nosso tempo)
Consciencializar a nossa missão humana é importante, faz-nos bem… mas compromete-nos!!! 

E com este desafio -10 IDEIAS SOLIDÁRIAS - podemos estar a contribuir para a mudança de paradigma na nossa sociedade tantas vezes fria e pouco humana.

A liberdade

POVO  25.04.17




"A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida."

Dom Quixote



LIBERDADE

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSON


O poema é
A liberdade
Um poema não se programa
Porém a disciplina
– Sílaba por sílaba –
O acompanha
Sílaba por sílaba
O poema emerge
– Como se os deuses o dessem
O fazemos

O POVO recomenda: Risen

RISEN
Este filme do ano passado, está disponível em DVD e streaming e conta de forma ficcionada o que se passou por estes dias pascais no tempo de Jesus.

Zita Seabra no 'Governo Sombra'

No dia 25 de Abril, vale a pena ver esta lição de história do século XX dada ao 'GOVERNO SOMBRA' por quem a viveu de forma intensa e heróica, dando hoje o seu heróico testemunho. 



Presidente da República condecora Sá Carneiro a título póstumo

RR ONLINE 24.04.17

Presidente da República vai condecorar, na terça-feira, a título póstumo o fundador do PPD/PSD e também D. António Ferreira Gomes (1906-1989), o antigo bispo do Porto autor da "Carta a Salazar e submetido ao exílio durante uma década.

O Presidente da República que decidiu condecorar, a título póstumo, o fundador do PSD, Francisco Sá Carneiro, e também D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto.
Sá Carneiro vai ser distinguido a título póstumo com a Grã Cruz da Ordem do Infante. A condecoração será recebida por um dos seus filhos, Francisco Sá Carneiro.
Além do antigo primeiro-ministro e fundador do PSD, o Presidente da República também vai condecorar a título póstumo D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto entre 1952 e 1982, com a Grã Cruz da Ordem de Santiago e Espada.
O Presidente também vai condecorar neste 25 de Abril o arquitecto Álvaro Siza Vieira com a Grã Cruz da Instrução Pública.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Meu Senhor e Meu Deus!

"Meu Senhor e Meu Deus!"
(Jo, 20, 28)


Estas palavras de S.Tomé têm, para mim, uma familiaridade que nasceu nas missas de sexta- feira na Escola Avé-Maria. Todas as sextas-feiras, os alunos reuniam-se na capela, à primeira hora de manhã para a Santa Missa. Cresceu, por isso, naquela capela todas as semanas, a minha consciência da presença de Jesus na Eucaristia. 

Com a solenidade do evento e a sonolência da manhã, o momento da consagração, de joelhos e com a cabeça entre as mãos, levavam-me sempre a cabecear e fechar os olhos, alheia ao milagre que ali se passava no momento alto do sacrifício de Jesus. Mas logo acordava com a voz forte e decidia da Minhana, a directora, que de joelhos anunciava, ao toque do sino que ela própria fazia soar:

- Meu Senhor e Meu Deus!

Depois da consagração do pão, a consagração do vinho e logo uma segunda vez: 

- Meu Senhor e Meu Deus!

Até hoje, na privacidade da oração da consagração, ainda repito estas palavras para mim e para Ele. 

- Meu Senhor e Meu Deus!

Foi só há poucos anos que vivi esta experiência própria de S.Tomé. O incrédulo que acreditou quando viu. Somos todos assim, na verdade, precisamos de ver para acreditar. E Ele é assim connosco: mostra-nos que está verdadeiramente presente.

Foi num dos internamentos mais difíceis do nosso filho Pedro que cheguei de manhã à sala de Cuidados Intensivos e o encontrei de barriga para baixo, braços abertos e a cama quase vertical. Apesar da ajuda do ventilador, esta posição em cruz tinha sido a única que a equipa tinha encontrado para ele conseguir respirar. Incrédula, olhei à volta da sala, paredes nuas de crucifixos como exige um serviço público laico e depois voltei-me de novo para ele, para contemplar a cruz.  Aproximei-me, beijei-lhe o pezinho, porque a cara era um emaranhado da máscara e dos tubos de alimentação, aspiração e oxigênio, e disse com voz sumida, incrédula a começar a acreditar: 

- Meu Senhor e Meu Deus!

Mulher que fez frente a um tanque venezuelano é de origem portuguesa

RTP.PT   22.04.17

Comoveu o mundo ao fazer frente às autoridades venezuelanas, que se preparavam para conter as manifestações de 19 de abril contra o Governo de Nicolás Maduro. Chama-se Maria José e é filha de pais portugueses.

Tornou-se num símbolo da oposição ao governo venezuelano, ao enfrentar os “Rinocerontes”, como são conhecidos os veículos que visam conter os distúrbios e manifestações. Os veículos seguiam na rua Francisco Fajardo, em Caracas, quando a mulher misteriosa decidiu fazer frente às forças de segurança.

Impassível ao avanço do tanque ou ao gás lacrimogéneo que lhe foi atirado para que se desviasse, a mulher manteve-se no caminho dos veículos. As imagens remetem de forma inevitável para os acontecimentos na Praça Tiananmen, em Pequim, a 5 de junho de 1989, quando um homem foi fotografado em frente a uma coluna de tanques, numa ação de protesto pacífica. 

A atitude desta mulher, que muitos consideram heroica, contrasta com a falta de informações sobre a mesma. Especulou-se, logo após os protestos de quinta-feira, que pudesse ter sido detida pelas autoridades. A identidade da mulher, com uma bandeira da Venezuela amarrada ao pescoço, não foi revelada pelas autoridades.

Agora, tudo aponta para que a mulher seja de origem portuguesa. A informação não foi ainda confirmada pelas autoridades, mas a apresentadora de televisão venezuelana Karen Ferreira revelou que conhece a mulher e sabe que esta se encontra bem e em casa. 

“Não posso dar detalhes e dados pessoas de forma a proteger a sua identidade e segurança. Não aceitou entrevistas nos meios de comunicação e muito menos anda à procura de fama”, revelou.

Segundo a repórter, a mulher disse apenas que “se entregou a Deus porque sabia que este a protegeria”. Mais acrescentou que a sua luta é “recuperar o país maravilhoso a que chegou com os seus pais quando emigraram vindos de Portugal”. 

Em páginas de internet e nas redes sociais propagam-se os rumores de que se trata de uma mulher chamada Maria José, e que deverá passar a apresentar-se à polícia de 15 em 15 dias por ter “enfrentado” as autoridades. Vários jornalistas tentaram falar com ela mas esta remeteu-se ao silêncio, agradecendo apenas a todos os que apoiam e saúdam a sua ação na passada quarta-feira.

Enquanto os apoiantes de Maduro se referem à mulher como “uma irresponsável” ou “golpista”, ou apenas alguém que procurava protagonismo no meio dos protestos, o certo é que se mantém a dúvida sobre a sua verdadeira identidade, apesar do seu rosto ter ficado registado em vários vídeos e fotografias.

“É melhor não sabermos o seu nome. Para que não a persigam. O melhor é chamarmos-lhe Senhora Liberdade”, refere um dos utilizadores nas redes sociais, citado pela BBC. 

Sempre foi mais fácil odiar e destruir

POVO   24.04.17

"Sempre foi mais fácil odiar e destruir. Construir e estimar é muito mais difícil."

Rainha Isabel II de Inglaterra
Celebrou os seus 91 anos no dia 22 de Abril



Logo no início do tempo Pascal, a semana passada ficou marcada pela alegria do Papa Francisco vir canonizar os pastorinhos a Fátima já no próximo 13 de Maio. E nesse lugar santo onde a Jacinta viveu o martírio que a leva agora aos altares, nasceu, com a morte da Inês de 17 anos, um surto de sarampo social. Se sempre foi mais fácil odiar e destruir; que o nosso discernimento seja de, em tudo o que fazemos, construir e estimar. Como os pais de Mafra, que não se detendo naquilo que a escola da zona não tinha, construíram uma nova escola para dar aos seus filhos. Ou como o Emanuelle Scott, que estando separado da sua mulher, deseja manter-se fiel.


O sarampo social

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA    22.04.17

Se há uma coisa que os pais em geral gostam de fazer é criticar outros pais. As mães em particular destacam-se neste desporto. O mal dos outros acrescenta ao nosso bem: somos melhores conforme os outros são piores. É assim que se mede a eficiência paternal e em todas as áreas: nas regras de boa educação, no desempenho escolar dos filhos, na maior ou menor autonomia que concedemos aos nossos filhos, nos cuidados que lhes prestamos, etc. Aos olhos dos outros, quando os filhos tropeçam quer dizer que os pais espalharam-se. Há sempre uma falha a observar, que é transformada em conclusão e que acaba com um "coitados dos miúdos". Um lapidar exercício de piedade que soa a silvo de cobra. Isto até pode ser caricato, muitas vezes até é construtivo, na maioria incomoda. Outras vezes é apenas crueldade.

A morte da rapariga com sarampo foi o exemplo extremo deste exercício. As pedras lançadas contra a mãe foram com tal energia, empenho e raiva que impressionaram. Uma mãe perde uma filha e nem sequer há espaço, tempo, respeito pelo luto: há julgamento, condenação e uma execução em apenas duas horas. Saísse a senhora à rua no dia em que a filha morreu e não seria abraçada mas sim apupada, ninguém lhe daria o ombro mas sim um insulto. A arrogância com que a sociedade fez o luto raivoso da filha substituindo-se à mãe, como se a filha não fosse dela, como se a dor não fosse só dela, foi bárbaro. Depois, bem depois é o que se sabe: afinal a culpa não foi dela, afinal ela nem sequer é contra a vacina do sarampo - a criança é que tinha um sistema imunitário frágil - e afinal os pais não são uns negligentes radicais mas sim pessoas sensíveis que perante a violência da reação que a filha fez à vacina não quiseram repetir. Afinal, bom, afinal podemos todos chorar a morte da rapariga, abraçar a mãe e abanar a cabeça. Afinal ela merece as nossas lágrimas porque podia ter acontecido a qualquer um dos nossos filhos e porque as nossas lágrimas têm de ser merecidas. Podemos assim recolher as nossas pedras e voltarmos às nossas vidinhas em busca de outra vítima que nos expie os pecados, de outro pai ou de outra mãe que erre que o seu erro tenha consequências.
O resultado mais significativo deste drama nem é sobre a questão de quem defende não dar vacinas aos filhos (que pode servir para mostrar o perigo e abrir os olhos de quem o defende), mais importante do que isso é a demonstração de como somos todos tão rápidos e eficazes a disparar. E não é a disparar sobre o ISIS ou contra o violador de Telheiras, mas sim sobre uma mãe que perdeu uma filha. Há alguma coisa mais impiedosa do que isto?