quarta-feira, 27 de julho de 2016

Igreja e nação

Leonídio Paulo Ferreira
DN 20160727

O padre Kordula falou-me do "altar de 11 metros visível a dois quilómetros para a última missa onde estarão dois milhões de pessoas"; o governador Pilch, da região da Malopolska, garantiu-me que "a Polónia é segura e hospitaleira"; a família Wolski mostrou-me o jardim onde ia montar tendas para acolher 300 peregrinos; o cardeal Dziwisz reivindicou com orgulho que em Cracóvia "chega a não haver lugar dentro das igrejas aos domingos"; o brasileiro Huguenin, que coordena as redes sociais da Jornada Mundial da Juventude, confessou-se deslumbrado com "os coros belíssimos" que acompanham as missas; e o bispo Ryz disse-me esperar que a vinda do Papa relembre os polacos da "tradição de tolerância jaguelónica, uma das nossas grandes dinastias". Estive há pouco tempo na Polónia em reportagem e pude testemunhar o entusiasmo com a visita de Francisco e a força do catolicismo.
Trata-se de um grande momento para o país que é sempre relembrado nestas horas como a pátria de João Paulo II, mas que é um velhíssimo bastião católico, tendo celebrado agora os 1050 anos do batismo de Mieszko I. Aliás, não se pode compreender a nação polaca sem perceber o papel histórico da Igreja. Muito antes de João Paulo II, ainda como cardeal de Cracóvia, proteger os dissidentes do regime comunista, já o clero tinha mostrado valentia preservando a nação mesmo quando o Estado desapareceu, como entre 1795 e 1918, retalhado entre a Rússia, a Prússia e a Áustria.
Cracóvia ficou sob influência dos austríacos, católicos como os polacos, e isso ajudou a que o prestígio cultural da cidade, com a antiquíssima Universidade Jaguelónica, sobrevivesse, assim como o peso da tradição religiosa. Ora, é esta Cracóvia feita de cultura e de fé que recebe o Papa que nasceu na Argentina, o fim do mundo visto da Polónia, mas tão capaz de entusiasmar as massas como fazia João Paulo II.
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