domingo, 17 de julho de 2016

Antecâmaras

João Taborda da Gama
DN20160717
Na semana passada liguei para um telefone fixo e pedi para chamar a pessoa com quem queria falar. Atenderam. Disse quem era. Ela estava. Disseram-lhe quem era, veio ao telefone. Falámos. Desligámos. Foi bom.
Já não ligava para um telefone fixo em casa de alguém há pelo menos seis anos. E antes disso, durante vários anos, apenas ligava para uma pessoa concreta que não gostava de falar ao telemóvel. Já só se liga para telefones fixos num contexto profissional ou de negócios, queria falar com o Dr. Silva, não está? volta a ligar?, muito obrigado. Não sei se a minha casa tem telefone fixo. E se tem, não sei o número. Li um dia, não sei onde, que se o teu telefone tocar só pode ser o Papa Francisco.
Já não se pede para chamar ninguém. Os contactos são imediatos. Pluriformes. Whatsapp. Messenger. Telegram. Gtalk. Contas de e-mail, várias. SMS. Snapchat. Instagram. Spotify. Twitter. Skype. LinkedIn. São por escrito. A comunicação voltou a ser escrita, apesar de a escrita ter mudado. E-mails eram cartas, agora frases. Mais escrita, mas uma escrita diferente. Oralizou-se, o que é bom. Mensagens que se autodestroem, mensagens que ficam, mensagens que se apagam, mensagens que não se encontram. Agora de novo mensagens de voz, mas que não são daquelas grave a sua mensagem após o sinal, quando terminar prima dois para mais opções, são pequenos apontamentos, ordens condensadas. Há ainda os facetimes, a família no retângulo num retângulo. Tão longe, tão perto, mas também tão perto, tão longe.
Ao falar para um telefone fixo, fixo fixo, sem antena, há mais qualquer coisa. Solenidade não, mas solidez. A pessoa não foge. Não está na internet. Não está na casa de banho. Está ali apenas a falar com o telefone, está connosco. Numa cadeira junto ao móvel do telefone, listas telefónicas?, papel e caneta para apontar alguma coisa que seja necessário?, auscultador em punho na mão direita, ou entalado entre a cara e o ombro num torcicolo doloroso quando é preciso escrever.
Sou de uma geração que falou anos seguidos ao telefone fixo. O telefone era fixo, mas a conta era móvel. Os períodos. O indicativo. O despertar. Vale uma crónica, qualquer dia. Tudo o que é real vale uma crónica, é esse o problema.
A eliminação do fixo é a eliminação de mais uma antecâmara. Nos prédios, na vida, nas casas, há cada vez menos dessas zonas intermédias, cada vez menos vestíbulos, menos zonas de passagem, de paragem breve na transição do público para o privado. Telefonar para um telemóvel é subir direto da garagem para a sala. São as transições que vão apagando o de e anunciando o para, que os realçam.
Restam os saguões, as partes comuns dos prédios, testes ao mandato bíblico de amares o teu vizinho, tanto mais difíceis quanto mais pequenas as partes e os vizinhos. Vale a pena lembrar o grande litígio que opôs aqueles clãs em Vale de Milhaços nos idos de 2009. Uma moradia em propriedade horizontal, uns na cave, outros no rés-do-chão e primeiro, cinquenta cinquenta, empates decisórios, guerra antiga, põe vasos e floreiras, manda tirar vasos e floreiras, põe caixote do lixo, manda tirar caixote do lixo, mete ação, tira ação, mete ação. E depois uma juíza de paz neste caso de guerra. Mas fez-se jurisprudência. Disse a meritíssima, quanto àquele objeto com a figura de uma rã: "Quanto ao objeto com a figura de uma rã que os demandados colocaram na sua porta de entrada, há que dizer que se trata de um pedido ridículo porquanto a tal figura mais não é do que um tapete, vulgarmente usado nos países onde neva, para retirar a neve do calçado. Neste caso, será para retirar a lama que, eventualmente, se prenda ao calçado. Ora, se uns gostam de tapetes simples, outros gostam deles um pouco mais coloridos e com feitios. Na verdade não se pode discutir o gosto pessoal de cada um porque o conceito de beleza é muito subjetivo e cada um tem o seu. Como quer que seja, qualquer condómino pode (deve!) ter pelo menos um tapete à sua porta de entrada para evitar que o lixo trazido da rua vá para a sua fração. Os demandados têm dois, o que lhes é permitido porque não se vê como possa a assembleia de condóminos estar a discutir o tipo e o número de tapetes que cada um deve ter à sua porta de entrada."
Fez-se jurisprudência sobretudo quanto ao número e ao tipo de tapetes. Ganhou a liberdade. A maior parte dos acórdãos sobre tapetes é sobre tapetes sacudidos, de cima para baixo, as migalhas, o pelo do cão, tudo a cair por ali abaixo, e os vizinhos de baixo a processarem os de cima. Agora já quase que não há vizinhos. Haverá mais ou menos intimidade neste tempo sem vizinhos?
A série Black Mirror (no Netflix, sete episódios) toca no fundo destas questões. No primeiro episódio, o primeiro-ministro britânico é obrigado a ter sexo com um porco (suíno) em direto para salvar uma vida, um episódio que merece revisita ao sim do brexit. Na transmissão global do ato, é pedido que ninguém veja. Mas toda a gente vê. Como as imagens dos mortos em Nice, tudo o que é real está em on, antecâmaras, sem vestíbulos.
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