quarta-feira, 31 de maio de 2017

Irmãos e cuidadores

PAULO BALDAIA     DN     31.05.17

Num mundo perfeito, a humanidade funciona como uma família onde todos são irmãos. As religiões gostam, aliás, de tratar assim os que comungam da mesma fé. Agnóstico, amo religiosamente os irmãos que tenho. Tenho sorte por pertencer a uma família de nove filhos em que todos estão dispostos a ajudar cada um. Hoje é o Dia dos Irmãos.
Como há o Dia do Pai e o Dia da Mãe, a Confederação Europeia das Famílias Numerosas aprovou, em 2014, a celebração deste dia. Primeiro em Portugal, depois no resto da Europa. Escrevo este texto a pedido de José Ribeiro e Castro, um dos promotores desta iniciativa. Faço-o com gosto, para homenagear uma irmã entre nove.

Em famílias grandes, como a minha, há a fase de crescimento em que os mais velhos fazem de pai e de mãe, dando o exemplo. Há, depois, a fase de consolidação das vidas de cada um, em que solidariamente multiplicamos a felicidade do sucesso de alguém e dividimos tristezas pelos tropeções que podem acontecer a qualquer um. Há uma fase seguinte em que a família cresce com mais famílias, em que acrescentam cunhados e sobrinhos. Para tudo há um princípio e um fim e chega sempre a hora em que temos de ver alguém partir. Na vida da minha família, já vimos partir uma irmã, o pai e a mãe. Toda esta tristeza é sempre superada pelo que tivemos oportunidade de viver.

Eu e os meus irmãos, mais os filhos de cada um, continuamos a viver juntos as festas de família. O Natal, a Páscoa, o 10 de Junho.

Cuidamos uns dos outros, mas há sempre alguém que se destaca. Não é uma manifestação de preferência, que não se tem por nenhum dos filhos, por nenhum dos pais, por nenhum dos irmãos. É uma homenagem à minha irmã Juca, que deu parte da sua vida a cuidar da mãe de todos e que, agora, dedica todo o seu tempo cuidando de um irmão que sofre. Que amor tão grande eu sinto por esse irmão, pouco mais velho do que eu e que chegámos a ser da mesma turma, mas eu não consigo dar da minha vida o suficiente para lhe diminuir a dor e Juca consegue.
Cuidar uns dos outros é a essência de ser irmão, justifica-se a existência deste dia. É um belo dia para agradecer todos os irmãos que tenho, quando me lembro deles o meu coração enche-se de amor.

31 de Maio :: Dia dos irmãos

Mensagem da APFN

Este é já o quarto ano consecutivo que celebramos, em Portugal, o Dia dos Irmãos a 31 de maio, depois de, em 2014, as famílias numerosas europeias terem instituído nessa data a celebração anual da efeméride. Ninguém tem dúvidas da importância que os irmãos podem ter na nossa vida. São quem nos acompanha na infância, estão presentes na maior parte das nossas memórias, foram os primeiros companheiros de aventura, os primeiros amigos. Ninguém se conhece como irmãos, niguém se zanga como os irmãos, ninguém se aceita como os irmãos. Esta cumplicidade que vem da partilha e do amor merece ser celebrada!

Os irmãos são parte de nós, parte da nossa história. O que acontece entre irmãos molda-nos para toda a vida. Desafia-nos a crescer e a lidar com as frustrações, a partilhar espaço, coisas e atenção com outros, ensina-nos a lição da amizade, do perdão. Se a soubermos preservar, esta relação fica, mesmo quando os nossos pais já partiram. É o melhor presente que recebemos deles. 

Como refere a deliberação que institui o Dia dos Irmãos, “o que vivemos entre irmãos é único, irrepetível, molda a nossa vida para sempre.”
Encerre o Mês da Família celebrando a vida com os seus irmãos!

Agora vou-te dar uma pica no olho

LAURINDA ALVES   OBSERVADOR  30.05.17
Ser médico é uma vocação, ser pai de cabeceira é uma imposição. Se fosse possível passar ao lado desta realidade, todos os pais passariam sem qualquer hesitação, pois ninguém quer ver um filho sofrer.
Arrepia, não arrepia? A ideia é sinistra, mas a certeza de que vai mesmo acontecer é ainda mais apavorante. Apetece fugir e não parar de correr até termos a certeza de que ninguém vem atrás de nós, de seringa na mão. Falo por mim, que nunca fui exposta a tamanho pesadelo, mas acho que também posso falar pela esmagadora maioria de seres humanos que não lidam bem com a ideia de agulhas espetadas no corpo e, muito menos, nos olhos.
Escrevo porque sei de um rapazinho de 4 anos que foi à urgência de um hospital e passou por isto na semana passada. Não só estava no auge do sofrimento físico como bastou o médico dizer a frase assassina, enquanto mostrava o raio da seringa com a agulha ao alto, para o miúdo ficar num cúmulo de nervos e ansiedade. Percebo-o bem. Escrevo a pensar nele, mas também nas crianças doentes e hospitalizadas que felizmente nunca se cruzaram nem cruzarão com médicos tão insensíveis às suas dores e pavores. Crianças que lidam diariamente com profissionais de saúde incapazes de anunciarem as ‘torturas’ antes de os ‘torturarem’.
Começo pelo rapaz. Já estava aflito e com dores, mas depois de o médico lhe ter explicado crua e detalhadamente o que ia fazer, o trauma aumentou e ele esperneou, chorou, gritou, contorceu-se e debateu-se até mobilizar um batalhão de gente compassivamente empenhada em conter o seu terror. Coitado, foi um castigo para o acalmarem. Eu faria o mesmo, insisto. Aliás, eu faria pior: fugia e não deixava que ninguém me apanhasse! Mas isso sou eu, que tenho tamanho e força mais que suficientes para enfrentar um médico estagiário que ainda não cresceu nem aprendeu tudo.
O rapazinho de 4 anos estava claramente em desvantagem e, por isso, não teve outro remédio senão sujeitar-se. Mas fica a pergunta: como é que um jovem médico não percebe que a comunicação é decisiva na atitude terapêutica? E como é que não sabe que a predisposição para certos tratamentos envolve sempre empatia e nunca susto? Não aprendeu na universidade? Acho difícil que ninguém lhe tenha ensinado este básico essencial. Se calhar foi ele que não quis ou não conseguiu aprender e é pena, pois toda a sua vida de médico vai ser construída com base na relação interpessoal. Seja a relação entre pares, seja com os doentes e as suas famílias, ou seja com os outros profissionais de saúde, é elementar ter a noção de que ser médico é muito mais que lidar com doenças, lâminas e máquinas. É, acima de tudo, lidar com pessoas. E saber como comunicar com elas, tendo sempre a noção de que calar pode ser tão importante como falar.
Agora, que o rapazinho da urgência já levou a pica no olho e já voltou para a sua vida, viro a página e passo a escrever sobre outros médicos e outras crianças, mas estas com doenças crónicas e internamentos prolongados. Crianças e famílias que vão e voltam muitas vezes ao hospital, que vivem realidades muito dolorosas, mas, ao menos, têm o descanso de saber que os seus médicos, os seus enfermeiros e os seus assistentes operacionais nunca lhes vão dizer nem fazer barbaridades que facilmente se confundem com grandes crueldades. Um tratamento não pode nem deve ser uma tortura, mas quando assim é, a obrigação dos profissionais de saúde é minimizarem o seu impacto e fazerem tudo o que estiver ao seu alcance para ajudarem, para aliviarem os sofrimentos, para eliminarem os danos morais e emocionais e, se possível, até para evitarem revelar aos doentes certos detalhes de certos tratamentos.
Ao contrário do jovem médico, que se calhar achou que fazia bem, mas certamente percebeu que fez mal, muitos médicos novos e menos novos assistem diariamente legiões de crianças nos pisos e unidades de hospitais pediátricos sabendo que não lhes podem dizer toda a verdade sem eles estarem preparados para a ouvir. Eu própria vivi essa realidade durante os 10 anos em que fui voluntária da Acreditar, bem como nos anos em que estive à cabeceira de doentes crónicos ou terminais de todas as idades. Assisti a situações extraordinariamente delicadas e vi médicos, enfermeiros, assistentes, auxiliares e estagiários de todas as especialidades terem uma extrema delicadeza na comunicação.
No piso 7 do IPO, para dar um exemplo que conheço por dentro, vi acontecer muita coisa que parecia impossível. Falo de autênticos milagres, operados por médicos e doentes capazes de fazerem equipa e lutarem juntos contra doenças terríveis. Nem sempre foi possível chegar à cura, e muitas vezes choramos juntos por perdas absolutamente irreparáveis. Por vidas que se perderam demasiado cedo, de crianças ou jovens que foram verdadeiros heróis e nos deram lições de bravura. Em 10 anos aconteceu muita coisa, e guardo para sempre os exemplos de boa comunicação, em que houve empatia e compaixão.
Todas as relações entre médicos e doentes são marcadas pela desigualdade e esta assimetria decorre do estado de vulnerabilidade, fragilidade e sofrimento em que se encontram as pessoas doentes. Quando se trata de crianças, tudo é ainda mais delicado pois a sua compreensão sobre a evolução da doença é porventura mais indecifrável. Há crianças que choram, e há crianças que não deitam uma lágrima; há as mais valentes e há as mais piegas; há as que fazem perguntas e as que não querem saber absolutamente nada.; há as que se queixam e as que nunca se queixam para protegerem os próprios pais dos seus sofrimentos. É muito difícil estar à cabeceira de crianças e jovens.
A comunicação importa sempre. Nunca nada do que dizemos ou fazemos é inócuo, muito pelo contrário. Em ambiente hospitalar, então, a maneira como comunicamos e como transmitimos as boas e as más notícias fica para sempre gravada na memória. Tudo tem efeitos secundários, no bom e no mau sentido. Por isso mesmo é fundamental apostar numa comunicação positiva, resgatadora, eficaz, autêntica, franca e compassiva. Dizer demais pode ser tão fatal como calar demais, e esta casuística exige uma calibragem afinadíssima e constante.
Nos anos de voluntariado na Acreditar vi muita coisa acontecer: pais à cabeceira de filhos com cancros terríveis, mães a comunicar com os seus bebés através de vidros, crianças muito pequenas em isolamento, enfim toda a realidade própria de uma unidade oncológica infantil que nos deixa aflitos mal pomos o pé fora do elevador, no piso 7. Em todos estes anos (e nos que se seguiram) percebi que tão importantes como as quimioterapias e as cirurgias eram as formas criativas e ternas como pais, familiares, amigos e profissionais de saúde combinavam os cocktails químicos com as conversas e os silêncios. A forma como comunicavam uns com os outros e se enchiam mutuamente de esperança, coragem e forças foram sempre decisivas em todas as etapas da doença.
Não resisto a recordar o Zé Maria, outro rapazinho com 4 anos, que ficou cego de um momento para o outro, mas continuou a ver através dos olhos de todos os que tinha à sua volta, a começar pela mãe e pelo pai, mas também pelos olhos dos médicos e enfermeiros que cuidaram dele até ao fim. O Zé Maria tinha cancro pela segunda vez e vivia massacrado por tratamentos abrasivos, uns particularmente dolorosos, outros que lhe exigiam que estivesse rigorosamente quieto durante minutos a fio, mas tudo isto era vivido com aparente facilidade e tranquilidade porque a comunicação entre todos era excelente. Aprendemos muito com o Zé Maria e com muitas outras crianças igualmente adoráveis que passaram e passam pelo mesmo que ele. Podemos ter cem anos que nunca os esqueceremos.
A maior de todas estas lições é perceber que a comunicação importa mesmo. Não apenas o que dizemos, mas a forma como o dizemos e, sobretudo a maneira como temos e damos esperança, como acreditamos e fazemos acreditar em sonhos. Ser médico é uma vocação, mas ser pai de cabeceira é uma imposição. Se fosse possível passar ao lado desta realidade, todos os pais do mundo passariam sem qualquer hesitação, pois ninguém quer ver um filho sofrer. Por tudo isto e porque ninguém está imune às doenças e, mais dia menos dia, podemos ter que ficar à cabeceira uns dos outros, vale a pena cultivar uma atitude de proximidade, usando palavras e gestos com mil cuidados.
Vi e revivi tudo isto há pouco tempo, quando fui assistir aos ensaios do musical “Terra dos Sonhos”, que vai estrear no Tivoli já no próximo dia 8. Vi como somos tomados por terrores e como podemos ser resgatados por quem nos ouve, quem conversa connosco e quem nos dá a mão nos momentos decisivos. Por quem nos poupa a detalhes e nunca diz frases que nos fazem fugir, muito pelo contrário, usa as palavras para nos encher de coragem e fazer permanecer firmes, de pé, prontos para enfrentar os medos. Vi no musical um elenco fabuloso que inclui crianças que representam outras crianças. E foi porque vi tudo isto que também agora escrevo. Para que o musical não passe despercebido e para que ninguém se esqueça que a comunicação importa. Muito.

Where Death Died


Num projecto do Fuller Studios, uma produtora evangélica americana, vale a pena ver estas meditações sobre os salmos, do Bono dos U2, ele católico e estrela de rock à escala global. 
Escolhi esta sobre a morte e o espaço que deixa no coração para que Deus entre, e como o medo da morte pode terminar onde 'a morte morreu'. 

terça-feira, 30 de maio de 2017

“Que o Senhor converta o coração dos terroristas”. Papa recorda Egipto e Manchester

RR ONLINE   28.05.17

Mais de 40 pessoas morreram nos atentados contra cristãos coptas no Egipto, na sexta-feira, e na Arena de Manchester, no início da semana. Francisco voltou ainda a pedir uma informação “construtiva, ao serviço da verdade”.

O Papa Francisco recordou este domingo, no Vaticano, as vítimas dos atentados terroristas que na última semana atingiram o Egipto e a cidade de Manchester.
“Desejo exprimir novamente a minha proximidade ao querido irmão Papa Tawadros II e à comunidade copta ortodoxa no Egipto, que há dois dias sofreu mais um feroz acto de violência”, começou por dizer aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro para a recitação do Regina Coeli.
“As vítimas, entre as quais também crianças, são fiéis que se deslocavam a um santuário para rezar. Foram mortos após terem recusado a renegar a sua fé cristã. Que o Senhor acolha na sua paz estas corajosas testemunhas, estes mártires, e converta o coração dos terroristas”, pediu.
O Papa lembrou depois “as vítimas do horrível atentado da passada segunda-feira em Manchester, onde tantas vidas jovens foram cruelmente destruídas”.
“Estou próximo dos familiares e de quantos choram o seu desaparecimento”, garantiu.
atentado no Egipto, que Francisco já tinha evocado no sábado, durante a sua visita a Génova, causou mais de 20 mortos e dezenas de feridos na província de Minya.
Em Manchester, o ataque ocorreu no final de um concerto musical onde estavam muitos jovens e crianças e provocou a morte de 22 pessoas, além de 59 feridos e vários desaparecidos.
Novo apelo à “comunicação construtiva”
Após a recitação da oração do Regina Coeli, o Papa voltou a lembrar a importância de uma comunicação construtiva por parte dos meios de comunicação social, associando-se assim à celebração do 51.º Dia Mundial das Comunicações Sociais.
“Os meios de comunicação social oferecem a possibilidade de partilhar e difundir, a todo o instante, as notícias de modo capilar. Essas notícias podem ser belas ou feias, verdadeiras ou falsas. Rezemos para que a comunicação, em todas as suas formas, seja efectivamente construtiva, ao serviço da verdade, recusando os preconceitos e difunda esperança e confiança no nosso tempo”, pediu.
Francisco insiste, assim, no conteúdo da sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, cujo título é “Comunicar esperança e confiança, no nosso tempo”.
Escreve o Papa que é necessário “romper o círculo vicioso da angústia e deter a espiral do medo”, não querendo isto dizer que se vai “ignorar o drama do sofrimento, nem de cair num optimismo ingénuo”, mas sim ultrapassar “aquele sentimento de mau-humor e resignação que muitas vezes se apodera de nós e nos lança na apatia, gerando medos ou a impressão de não ser possível pôr limites ao mal”.

YOU are loved

By His Grace Bishop Angaelos, General Bishop of the Coptic Orthodox Church in the United Kingdom, on recent terrorist attacks in Egypt and elsewhere

You are Loved
27 May 2017

Once again, we find ourselves experiencing pain before which words seem insufficient. I have previously addressed victims of terrorist acts; I have addressed their families; I have even addressed those who may have had an opportunity, even in some small way, to advocate for or support those most vulnerable. This time however, I feel a need to address those who perpetrate these crimes. 

You are loved. The violent and deadly crimes you perpetrate are abhorrent and detestable, but YOU are loved. 

You are loved by God, your Creator, for He created you in His Image and according to His Likeness, and placed you on this earth for much greater things, according to His plan for all humankind. You are loved by me and millions like me, not because of what you do, but what you are capable of as that wonderful creation of God, Who has created us with a shared humanity. You are loved by me and millions like me because I, and we, believe in transformation. 

Transformation is core to the Christian message for throughout history we have seen many transformed from being those who persecuted Christ Himself and Christians, to those who went on to live with grace. We believe in transformation because, on a daily basis, we are personally transformed from a life of human weakness and sinfulness to a life of power and righteousness. We believe in transformation because the whole message of the Cross and Resurrection of our Lord Jesus Christ is to take humanity from the bonds of sin and death to a liberation in goodness and everlasting life. Our world is certainly suffering from the brokenness of our humanity, but it is our responsibility, personally and collectively, to encourage and inspire ourselves, and all those whom we meet along our path, to a life of virtue and holiness, and the love and forgiveness of all.

This of course, is far from the reaction that many may have expected, but the Christian message is just that, to look at our world as through the eyes of God, Who loves all and Who desires that all be liberated through Him.  

I grieve, certainly for those who have lost their lives, for those who mourn, and for those who will continue to be adversely affected by these tragic experiences; but I also grieve for a young man who sees it not only justifiable, but glorious, to take the lives of other young men and women, and deprive his and their families of enjoying them as they grow and mature. 

No family should lose a son in this way, even if they are partially or wholly responsible for his flawed ideology. This loss might be to that ideology, to incarceration as a result of his actions and choices or, in the worst case, in taking his own life, along with others, regardless of the great cost to those left behind. In the same way, no family deserves to lose children and members who merely go about their day to enjoy their God-given right to exist, whether it be by attending a concert, taking a pilgrimage to a monastery, simply walking through city streets, or in any other way.

I also grieve for those who considered it a victory to board a bus filled with pilgrims and execute children, women and men purely for refusing to denounce their Faith, as we saw happen to Coptic Christians in Menia only yesterday.

What is increasingly obvious is that many of these attacks come about due to a loss of the meaning and comprehension of the sanctity of life, our own or that of others; so join me in praying for the brokenness of our world that causes parents to lose their children, children to lose their parents, and humankind to lose the humanity for which it was created. 

What is important is not that this message be read but that it be communicated; not that it be accepted but that it be understood as another perspective; and not that it should be fully embraced, but that it may create at least a shadow of a doubt in the minds of those intent on inflicting harm and pain.

Santinho da Primeira Comunhão

1 DE JUNHO :: 21:30 :: A EUCARISTIA

Comunhão

POVO 30.05.17

"não tenho saudades da minha primeira comunhão, mas tenho saudades daquela que vou fazer já a seguir."


Padre João Seabra
Homilia 1ª comunhões do Colégio de S.Tomás

Esta semana foi, para mim, uma que condensou o título de um encontro de famílias de alguns anos atrás e que eu aplico livremente à minha semana: Família = trabalho e festa. O nosso filho mais velho fez 9 anos e no dia seguinte fez a primeira comunhão o segundo, o Francisco, logo no ano da canonização do seu santo homónimo. Foram dias de trabalho e de festa que culminaram com a consciência de um paradoxo: eles crescem e afastam-se mais de nós, porque se tornam mais eles próprio, mas entram mais em comunhão connosco, pela comunhão em Jesus. Ajuda a perceber como estar em comunhão não é ser igual, nem mesmo estar no mesmo lugar, mas partilhar do Mesmo Jesus que se nos dá pelo seu Corpo.  É esta certeza que vence a falta física do pai sentida de modo particular nas festas de família. A nossa alegria é comum, na terra e no céu.  

Para entrar mais dentro do mistério do sacramento da Eucarístia, a Igreja da Encarnação ao Chiado propõe na próxima 5ª feira às 21:30 este encontro.

POSTS DA SEMANA PASSADA

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Homilia do Cardeal Parolin na Vigília de 12 de Maio 2017

Queridos peregrinos de Fátima!
Jubilosos e agradecidos, aqui nos congregamos neste Santuário que guarda a memória das Aparições de Nossa Senhora aos três Pastorinhos, juntando-nos à multidão de peregrinos que, ao longo destes cem anos, aqui acorreu a testemunhar a sua confiança na Mãe do Céu. Em honra do seu Imaculado Coração, celebramos esta Eucaristia; na Primeira Leitura, ouvimos o povo exclamar: «Vieste afastar a nossa ruína, procedendo com retidão na presença do nosso Deus» (Jdt 13, 20). São palavras de louvor e gratidão da cidade de Betúlia a Judite, sua heroína, a quem «Deus, criador do céu e da terra, (…) conduziu para esmagar a cabeça do chefe dos nossos inimigos» (Jdt 13, 18). No entanto estas palavras ganham o seu sentido pleno na Imaculada Virgem Maria, que, graças à sua descendência – Cristo Senhor –, pôde «esmagar a cabeça» (cf. Gen 3, 15) da «Serpente antiga – a que chamam também Diabo e Satanás – o sedutor de toda a humanidade, o qual (…), furioso contra a Mulher, foi fazer guerra contra o resto da sua descendência, isto é, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus» (Ap 12, 9.17).
Como mãe preocupada com as tribulações dos filhos, Ela apareceu aqui com uma mensagem de consolação e esperança para a humanidade em guerra e para a Igreja sofredora: «Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará» (Aparição de julho de 1917). Por outras palavras: «Tende confiança! No fim, vencerão o amor e a paz, porque a misericórdia de Deus é mais forte que o poder do mal. O que parece impossível aos homens, é possível a Deus». E Nossa Senhora convida a alistarmo-nos nesta luta do seu divino Filho, nomeadamente com a oração diária do terço pela paz no mundo. Porque, embora tudo dependa de Deus e da sua graça, é preciso agir como se tudo dependesse de nós, pedindo a Virgem Maria que o coração dos indivíduos, o lar das famílias, a caminhada dos povos e a alma fraterna da humanidade inteira Lhe sejam consagrados e colocados sob a sua proteção e guia. Ela quer gente entregue! «Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz» (Aparição de julho de 1917). Enfim, o que deverá vencer a guerra é um coração: o Coração da Mãe alcançará vitória, à frente de milhões dos seus filhos e filhas.
Nesta noite, rendemos graças e louvores à Santíssima Trindade pela adesão de tantos homens e mulheres a esta missão de paz confiada à Virgem Mãe. Do oriente ao ocidente, o amor do Imaculado Coração de Maria conquistou um lugar no coração dos povos como fonte de esperança e consolação. Reuniu-se o II Concílio Ecuménico do Vaticano para renovar a face da Igreja, apresentando-se substancialmente como o Concílio do amor. O povo, os bispos, o Papa não ficaram surdos aos pedidos da Mãe de Deus e dos homens: foi-Lhe consagrado o mundo inteiro. Por toda a parte se formam grupos e comunidades crentes que vão despertando da apatia de ontem e se esforçam, agora, por mostrar ao mundo o verdadeiro rosto do cristianismo.
«Se fizerem o que Eu vos disser, terão paz». O certo é que, cem anos depois das Aparições, «se, para muitos – como diz o Papa Francisco –, a paz aparece de certo modo como um bem indiscutido, quase um direito adquirido a que já não se presta grande atenção, entretanto, para outros, é apenas uma miragem
distante. Milhões de pessoas vivem ainda no meio de conflitos insensatos. Mesmo em lugares outrora considerados seguros, nota-se uma sensação geral de medo. Com frequência somos surpreendidos por imagens de morte, pela dor de inocentes que imploram ajuda e consolação, pelo luto de quem chora uma pessoa querida por causa do ódio e da violência, surpreendidos pelo drama dos deslocados que fogem da guerra ou dos migrantes que morrem tragicamente» (Discurso ao Corpo diplomático, 09/I/2017). No meio de toda esta preocupação e incerteza quanto ao futuro, que nos pede Fátima? Perseverança na consagração ao Imaculado Coração de Maria, diariamente vivida com a reza do terço. E se, não obstante a oração, as guerras persistirem? Ainda que não se veja resultados imediatos, perseveremos na oração; esta nunca é inútil. Mais cedo ou mais tarde, frutificará. A oração é um capital que está nas mãos de Deus e que Ele tem a render segundo os seus tempos e os seus desígnios, muito diferentes dos nossos.
Como Salmo Responsorial, tivemos o cântico do Magnificat, onde sobressai o contraste entre a «grande» história das nações e seus conflitos, a história dos grandes e poderosos com a sua própria cronologia e geografia do poder, e a «pequena» história dos pobres, humildes e sem poder. Estes últimos são chamados a intervir a favor da paz com outra força, outros meios aparentemente inúteis ou ineficazes, como a conversão, a oração reparadora, a consagração. É um convite a travar o avanço do mal, entrando no oceano do Amor divino como resistência – e não capitulação – à banalidade e à fatalidade do mal.
Como devemos fazer? Deixai que vo-lo explique com um exemplo (cf. ELOY BUENO DE LA FUENTE, A Mensagem de Fátima. A misericórdia de Deus: o triunfo do amor nos dramas da história, 22014, pg. 235-237): se recebermos uma nota de dinheiro falsa, uma reação espontânea, e até considerada lógica, seria passá-la a outra pessoa. Nisto se vê como todos somos propensos a cair numa lógica perversa, que nos domina e impele a propagar o mal. Se me comportar segundo esta lógica, a minha situação muda: era vítima inocente quando recebi a nota falsa; o mal dos outros caiu sobre mim. Mas, no momento em que conscientemente passo a nota falsa a outrem, já não sou inocente: fui vencido pela força e a sedução do mal, provocando uma nova vítima; converti-me em transmissor do mal, em responsável e culpado. A alternativa é travar o avanço do mal; mas isto só é possível pagando um preço, ou seja, ficando eu com a nota falsa e, assim, libertando os outros do avanço do mal.
Esta reação é a única que pode travar o mal e vencê-lo. Os seres humanos alcançam esta vitória, quando são capazes de um sacrifício que se faz reparação; Cristo consegue-a, mostrando que o seu modo de amar é misericórdia. Um tal excesso de amor, podemos constatá-lo na cruz de Jesus: carrega o ódio e a violência que caem sobre Ele, sem insultar nem ameaçar vingança, mas perdoando, mostrando que há um amor maior. Só Ele o pode fazer, carregando – por assim dizer – com a «nota falsa». A sua morte foi uma vitória alcançada sobre o mal desencadeado pelos seus algozes, que somos todos nós: Jesus crucificado e ressuscitado é a nossa paz e reconciliação (cf. Ef 2, 14; 2 Cor 5, 18)
«Vieste afastar a nossa ruína, procedendo com retidão na presença do nosso Deus»: rezamos nós, nesta noite de vigília, como um imenso povo em marcha seguindo Jesus Cristo ressuscitado, iluminando- nos uns aos outros, arrastando-nos uns aos outros, apoiando-nos na fé em Cristo Jesus. De Maria, escreveram os Santos Padres que Ela, primeiro, concebeu Jesus na fé e só depois na carne, quando disse «sim» ao convite que Deus Lhe dirigiu através do Anjo. Mas aquilo que aconteceu de forma única na Virgem Mãe, verifica-se espiritualmente connosco sempre que ouvimos a Palavra de Deus e a pomos em prática, como pedia o Evangelho (cf. Lc 11, 28). Com a generosidade e a coragem de Maria, ofereçamos a Jesus o nosso corpo, para que Ele possa continuar a habitar no meio dos homens; ofereçamos-Lhe as nossas mãos, para acariciar os pequeninos e os pobres; os nossos pés, para ir ao encontro dos irmãos; os nossos braços, para sustentar quem é fraco e trabalhar na vinha do Senhor; a nossa mente, para pensar e fazer projetos à luz do Evangelho; e sobretudo o nosso coração, para amar e tomar decisões de acordo com a vontade de Deus.
Assim nos molde a Virgem Mãe, estreitando-nos ao seu Coração Imaculado, como fez com Lúcia e os Bem-aventurados Francisco e Jacinta Marto. Neste centenário das aparições, agradecidos pelo dom que o acontecimento, a mensagem e o santuário de Fátima têm sido ao longo deste século, unimos a nossa voz à da Virgem Santa: «A minha alma glorifica ao Senhor, (…) porque pôs os olhos na humildade da sua serva. (…) A sua misericórdia estende-se de geração em geração» (Lc 1, 46-50).

20 Centímetros

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA  27.05.17   DN

Por mais anos que passem, por mais tratados que assinemos, não há maneira de sermos grandes. Portugal teima em não crescer. Vivemos tipo crianças fascinadas quando se cruzam com qualquer gato pingado que apareça na televisão, com um elogio dos grandes, com ganhar concursos, meu Deus. Adoramos condescendência. Não é mimo, é condescendência. Os meus filhos são assim. Alguns já cresceram, mas os que ainda são crianças são assim. Olham para o mundo de baixo para cima e qualquer figura de autoridade ou popular deixa-os constrangidos. Não querem ser grandes, querem ser reconhecidos. Isso chega-lhes. Acham que qualquer figura pública é importante, é superior, e quando elas se debruçam para lhes dar uma festa ou um autógrafo, coram. Nós fazemos o mesmo com o mundo. Quando o mundo repara em nós, coramos. Ficamos radiantes com uma festa na cabeça, quando nos deixam entrar na sala dos grandes ou jogar à bola com os mais velhos. Crescemos os ditos 20 centímetros que o Presidente tanto glorifica. E o mais estranho é termos orgulho nisso: é que pelo menos não estamos orgulhosamente só, estamos orgulhosamente infantis. Medina bebe chá com a Madonna, Madonna pisa o nosso chão, Centeno é notícia porque alegadamente foi elogiado pelo ministro alemão, Salvador Sobral é herói nacional porque venceu um concurso nunca ganho. Derrubámos os grandes com uma canção. Vinte centímetros porque o mundo sabe quem somos. E gosta. E o mundo gostar é tudo. Na verdade, não queremos ser grandes. Gostávamos, mas não estamos para isso. Ser grande dá chatice, dá trabalho, implica sacrifício, planear, acordar cedo, traz responsabilidades, e Portugal não é desses. Damos uns toques de vez em quando mas não é para se habituarem. Ser grande implica ter turistas e achar que isso é bom para crescer. Mas nós não funcionamos assim: nós queremos ter turismo sem turistas, crescer mas ir para a cama tarde. O "tens de comer sopa para crescer" não resulta com Portugal. Portugal não gosta de sopa de espinafres e prefere ficar pequenino a comê-la. Orgulhosamente pequenino. O cutchi-cutchi do mundo. Chega-nos que os turistas gostem, não é preciso cá ficarem. Chega-nos que Salvador ganhe, não nos passa pela cabeça levar o ensino da música a sério. O ministro alemão comparar Centeno no Ecofin a Ronaldo no futebol é a apoteose total: ele sabe quem são os dois. Madonna escolher Portugal para viver, então, é o êxtase, equivale a uma festinha do Ronaldo na cabeça do meu filho de 9 anos. Por mais anos que passem, não há maneira de crescermos. Nem 20, nem 2 centímetros.

Salvar a democracia

JOÃO CÉSAR DAS NEVES    27.05.17   DN

Portugal tem uma democracia a funcionar. Esta simples afirmação carrega enorme significado, pois todas as experiências democráticas anteriores foram fiascos estrondosos. Em 1974, olhando para trás, era razoável dizer que o nosso país nunca conseguiria viver em sistema aberto e livre. Hoje resgatámos as credenciais democráticas.
Tal não permite descansar: 250 anos de turbulência institucional recomendam a maior cautela. Acaba de ser publicado um livrinho com lúcido e incisivo diagnóstico e terapêutica dos vícios que o regime acumulou em 40 anos. O Sistema Político Português, do professor Manuel Braga da Cruz, na coleção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, consegue, em menos de cem páginas, descrever a história, teoria, problemas e soluções para quatro pilares da nossa vida política: os sistemas eleitoral, partidário, parlamentar e de governo. Esta leitura fácil é indispensável para quem se interesse por Portugal.
"São hoje notórios os sinais de degradação do nosso sistema democrático representativo. Desde logo, o crescente afastamento dos cidadãos da vida política, com a concomitante perda de confiança nas instituições políticas (...) A este afastamento dos cidadãos da vida política corresponde um idêntico afastamento dos partidos dos cidadãos e da sociedade, com o correspondente enfeudamento crescente ao Estado, e a sensação de um Parlamento com deficiências na sua capacidade de representação da sociedade. A somar a tais preocupantes sintomas, confrontamo-nos com problemas de governabilidade, resultantes quer da dificuldade de os executivos se imporem, evidenciando quanto o Estado se encontra refém de interesses instalados, quer da recorrente instabilidade governativa" (pág. 14).
Também a lei dos partidos deve ser revista para "os obrigar a um maior funcionamento interno democrático, a uma maior abertura à sociedade e aos cidadãos, e com incentivos à progressão na carreira parlamentar" (págs. 54-55), mudando também os mecanismos de financiamento. É proposta ainda uma Câmara Alta no Parlamento (pág. 69), como existiu sempre no nosso país, dando também mais autonomia aos deputados face aos partidos. Finalmente sugere-se um ajustamento dos poderes relativos do governo e do Presidente da República (págs. 87-89).
Os problemas estão estudados, os diagnósticos feitos, as soluções estabelecidas. Só falta vontade para as aplicar. Como falhou tantas vezes na condução da sociedade, será o Estado capaz de se reformar a si mesmo? Os sinais não são bons. Todos os partidos no poder querem mudanças, mas são bloqueados pela oposição, que tentará fazer o mesmo quando chegar ao poder.
"Ainda estamos a tempo de reformar, evitando a deterioração do sistema político que nos pode aproximar de indesejáveis rupturas constitucionais, que alguns pedem já abertamente" (pág. 91). Além do terrível sofrimento e destruição que essa ruptura geraria, seria uma pena levar a um fim inglório este único sucesso democrático da nossa história.
Pior, "O Estado anda a fazer menos bem em Portugal o que deve, porque anda demasiado ocupado a fazer o que porventura não deve" (pág. 88). A doença é mesmo grave: além da inflação legislativa, que se pode dizer atingiu o paroxismo, "legisla-se contra a maioria da opinião pública, com a clara intenção de se inovar nos comportamentos sociais pela acção legislativa, encarando a legislação como moldadora de atitudes e comportamentos" (pág. 68). Chega a espantar a arrogância daqueles que dizem servir o povo, mas se consideram seus mestres e donos.
Todos estes problemas são mais visíveis em momentos de crise, quando sobem os protestos, mas é nas épocas serenas de recuperação que têm efeitos devastadores. Quando a oligarquia dominante vive sob protectorado externo, como aconteceu no período da troika, ela é acusada pelos sofrimentos da população, mas toma decisões sensatas. A influência dos seus vícios faz-se sentir sobretudo nas alturas de alívio, porque aí, existindo alternativas e escolhas, o interesse nacional pode ser desviado a favor de certos grupos.
É bom sempre lembrar que os tais "interesses instalados" que tomam o governo como refém não são bandidos, corruptos ou maldosos. São grupos sociais honestos, razoáveis e trabalhadores, que conseguem mais influência do que merecem. Precisamente por serem honrados e decentes, não têm escrúpulos em exigir aquilo que pensam lhes ser devido, e que o país não pode pagar. Assim caímos na paralisia actual, que permanece debaixo das recentes boas notícias.
O diagnóstico é consensual, mas o livro, apesar de conciso e lacónico, avança com soluções simples e claras. "Talvez a mais necessária e urgente de todas as reformas políticas em Portugal" (pág. 36) seja a do sistema eleitoral, em que se propõe uma evolução moderada para "um sistema de duplo voto, escrutinável o primeiro, em círculos uninominais, pelo método maioritário, e o segundo, em círculo nacional, pelo método proporcional de Hondt" (idem).

“Não nos pode ser negado o direito de ficarmos com o nosso filho”

Estado retirou a Sónia e Rodrigo o filho de 17 meses e entregou-o a uma instituição. Movimento contra "retirada abusiva" das crianças às famílias organizou protesto em todo o país.

Tiago, nome fictício, foi retirado aos pais quando tinha apenas um mês e cinco dias, para ser institucionalizado. Terá sido a saúde da mãe o motivo. “Sofro de epilepsia, consideraram que não tinha competências parentais”, diz Sónia Custódio. Nesta segunda-feira, Sónia e o companheiro Rodrigo Coelho protestaram à porta do Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, onde a criança está internada.

O protesto partiu da Associação e Movimento de Alerta à Retirada de Crianças e Adolescentes (AMARCA), que apelou aos seus associados que viessem para a rua, em 16 pontos diferentes do país, para protestar e denunciar a alegada violação dos direitos fundamentais das famílias que se encontram numa situação semelhante à de Sónia e Rodrigo. Cerca de 100 pessoas terão aderido ao protesto, segundo o movimento.

Outros pais protestaram em frente ao Ministério da Segurança Social e de vários tribunais do país para pedir a punição dos técnicos que elaboram "relatórios adulterados" que alegadamente originam estas decisões.

Mal Tiago acabou de nascer, Sónia, de 27 anos, recebeu a visita de uma assistente social. “Estranhei a simpatia, quando me perguntou se eu tinha condições para ter o meu filho, oferecendo-se para disponibilizar leite, roupas e outras coisas.” Rodrigo trabalha no Hospital de Faro, onde o filho nasceu, numa empresa de limpezas. A companheira, por questões relacionadas com a epilepsia de que padece desde que nasceu, é pensionista. “Não nos pode ser negado o direito de ficarmos com o nosso filho”, insiste.

Por isso, recorreram para o Tribunal da Relação de Lisboa. Só podem ver o filho duas vezes por semana no Refúgio Aboim Ascensão. O director da instituição, Luis Villas Boas, alegou segredo de justiça e não se quis pronunciar sobre o caso, embora adiantasse que a “situação é complexa, do ponto de vista judicial”.

"Famílias decidiram juntar-se"

"Todas as famílias prejudicadas por este flagelo, a retirada abusiva das crianças, decidiram juntar-se" para protestar, disse à agência Lusa a presidente do movimento, Ana Vilma Maximiniano, durante a concentração em frente ao ministério.

Mas terá sido no Campus de Justiça, em Lisboa, que o protesto gerou mais reacções. O advogado Gameiro Fernandes, que tem acompanhado os processos de retirada de crianças, como o de Ana Vilma Maximiano ou de Anabela Caratão, diz que agentes da PSP confiscaram os cartazes de quatro mães que lá protestavam.

Os cartazes foram devolvidos e o protesto, interrompido pelos polícias, continuou depois de uma equipa da RTP chegar ao local para filmar o sucedido, contou Gameiro Fernandes.

A lutar também há um ano pela custódia das três filhas, que foram entregues ao pai condenado por violência doméstica, Ana Maximiniano defendeu mais apoios para as famílias, contando que a Segurança Social paga mensalmente por cada menor acolhido cerca de 950 euros. Defendendo que grande parte dos menores é retirada aos pais por alegadas carências económicas, a responsável questionou se não seria melhor dar este apoio às mães e às famílias cadenciadas.

Segundo Ana Maximiniano, já foram apresentadas queixas-crime contra várias técnicas, havendo "várias com processos disciplinares". Para travar esta situação, a AMARCA apresentou aos grupos parlamentares do BE, PCP, PAN, PSD, PS, CDS e Os Verdes propostas de alteração legislativa, sendo a principal a redução do financiamento da Segurança Social a estas instituições, aumentando o apoio financeiro às famílias cadenciadas.

De acordo com o relatório de actividade das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, no ano passado foram aplicadas ou estiveram em execução 34.497 medidas de promoção e protecção, das quais 90,3% corresponderam a medidas em meio natural de vida e 9,7% a medidas de colocação em instituições. com Lusa

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Sai no exame?

ALEXANDRE HOMEM CRISTO     OBSERVADOR    22.05.17
Se não se libertar o ensino secundário do acesso ao ensino superior, não haverá autonomia escolar que resista. Nem inovação pedagógica. E muito menos aquisição das ditas competências para o século XXI.
Um dos grandes professores que tive, o Miguel Monjardino, ensinou-me a pensar as relações e as tensões entre os Estados através de um mapa. O raciocínio é simples: uma coisa são as palavras, as ameaças e as tensões entre inimigos; outra coisa é a sua real capacidade de concretização das palavras e das ameaças, muitas vezes mensurável pela ponderação das distâncias geográficas e do alcance dos equipamentos militares. Por exemplo, não havendo território amigo onde reabastecer, a autonomia de combustível de um F16 israelita permitiria ir e voltar caso pretendesse executar um ataque no Irão? Este tipo de teste de realidade deve servir sempre de ponto de partida das discussões. No fundo, avalia-se o que objectivamente é possível acontecer, já que não existe mais-valia em discutir o impossível.
Esta lição é importante, porque desencadeia uma metodologia de pensamento crítico que se adapta a várias circunstâncias e a qualquer área da governação: há uma diferença substantiva entre as intenções e aquilo que é realista, devendo o escrutínio das políticas públicas começar nessa avaliação. Ora, sob essa lente, veja-se o caso concreto da Educação, cuja equipa governativa tem repetidamente prometido mais autonomia para as escolas, no sentido de estas testarem soluções inovadoras em sala-de-aula, se ajustarem às necessidades dos alunos e os orientarem para a aquisição de competências-chave (tal como surge no documento estratégico do “Perfil do aluno para o século XXI”). Mas até que ponto estas peças encaixam no puzzle do sistema educativo? Não encaixam. A intenção política não passa no teste da realidade.
Porquê? As incompatibilidades são muitas e variadas. Três pequenos exemplos. Primeiro: às escolas pede-se que se adaptem às necessidades dos seus alunos, de modo a prevenir o insucesso escolar – mas se um director não pode escolher os seus professores, o que define o seu projecto educativo não são as carências educativas dos alunos mas as características dos recursos humanos que tem à disposição. Segundo: a organização do Ensino Básico está sustentada em três ciclos, que enquadram desde o currículo até à organização interna das escolas – mas como se pode dar autonomia às escolas sem, depois, se ficar às cegas, já que não se avalia de forma sistemática (com prova final, prova de aferição ou o que seja) o nível das aprendizagens dos alunos no final dos 1.º e 2.º ciclos do ensino básico? Terceiro: as escolas públicas vão ser incentivadas a diferenciarem-se umas das outras, gerando diversidade de oferta – mas se se quer escolas públicas diferentes, deixa de ser indiferente frequentar uma ou outra escola, pelo que se impõe mecanismos de escolha da escola para os pais na rede pública.
A lista poderia continuar. Mas nenhuma incompatibilidade chegaria aos calcanhares daquela que agora temos debaixo dos olhos, nestas semanas que antecedem os exames nacionais: todo o ensino secundário está orientado para o exame final. Assim que começam o 10.º ano, os alunos só querem saber o que sai no exame, os professores só ensinam o que sai no exame, os pais só perguntam pelo que sai nos exames. O que é perfeitamente compreensível: os exames nacionais são decisivos para o acesso ao ensino superior – a nota que um aluno tiver nesses exames faz a diferença entre ingressar ou não no curso que ambiciona.
Ora, o problema não é haver exame (que faz sentido), mas sim a sua dependência com o ensino superior (que não faz sentido). Porque, se é perfeitamente compreensível a atenção que todos dedicam aos exames, esta é igualmente contraproducente – todo o ensino secundário fica condicionado pelo exame, pela forma como este mede os conhecimentos, pelo tipo de questões que coloca, pelo conteúdos mais prováveis de testar. Não há margem para mais nada. Esqueçam-se, pois, as competências para o século XXI, as novas abordagens pedagógicas, as salas-de-aula inovadoras. Sim, até poderão existir no papel. Mas nenhum professor ou escola irá por aí enquanto o risco for tão elevado. A opção mais segura continuará a ser ensinar para o exame e pouco mais. É aí que estamos e é aí que ficaremos.
O discurso do governo para a Educação tem vários pontos negativos que, noutros momentos, apontei e critiquei. Mas também tem pontos positivos – está centrado na autonomia das escolas, na inovação pedagógica, na diversidade de oferta educativa, na aquisição de competências para o século XXI. O dilema é que, tal como o governo se propõe a introduzir estas reformas, os pontos positivos não encaixam – e, como tal, por mais que existam no domínio das intenções, não existirão na realidade. No fim, não passa de palavras, pois tudo esbarra aqui: se não se libertar o ensino secundário do acesso ao ensino superior, não haverá autonomia escolar que resista. Nem inovação pedagógica que alguém arrisque. E muito menos aquisição das ditas competências para o século XXI. A menos que o governo encare esta questão – o que parece pouco provável – andaremos sempre a discutir impossibilidades.