terça-feira, 27 de junho de 2017

Os incêndios do regime

PAULO VARELA GOMES    PÚBLICO   11.08.2005

Vivo no campo ou perto do campo, na região centro, há já alguns anos. Há três Verões que me sento a trabalhar, enquanto a cinza cai de mansinho no meu teclado, em cima dos meus livros, no chão que piso. Não tenho culpa do que é hoje este país e o regime que o representa: militei e votei sempre em partidos que apregoavam querer outro tipo de regime e deixei de militar e de votar quando vi esses partidos tornarem-se tão legitimistas como os outros

O território português que está a arder - que arde há vários anos - não é um território abstracto, caído do céu aos trambolhões: é o território criado pelo regime democrático instalado em Portugal desde as eleições de 1976 (a III República Portuguesa). Está a arder por causa daquilo que o regime fez, por culpa dos responsáveis do regime e dos eleitores que votaram neles.

Ardem, em Portugal, dois tipos de território: em primeiro lugar, a floresta de madeireiro, as grandes manchas arborizadas a pinheiro e eucalipto. A floresta arde porque as temperaturas não param de subir e porque, como toda a gente sabe, está suja e mal ordenada. Não foi sempre assim: este tipo de floresta começou a crescer nos últimos 50 anos, com a destruição progressiva da agricultura tradicional, ou seja, com a expropriação dos pequenos agricultores, obrigados em primeiro lugar a recorrer à floresta pela ruína da agricultura, para, depois, perderem tudo com os incêndios e desaparecerem do mapa social do país. Também isso está na matriz da III República: ela existe para "modernizar" o país, o que também quer dizer acabar com as camadas sociais de antigamente, nomeadamente os pequenos agricultores. Em 2005, os distritos de Portalegre, Castelo Branco e Faro ardem menos que os outros e não admira: já ardeu aí muita da grande mancha florestal que podia arder, já centenas de agricultores e silvicultores das serras do Caldeirão ou de S. Mamede perderam tudo o que podiam perder.

O segundo tipo de território que está a arder, em particular neste ano de 2005, é o território das matas periurbanas, características dos distritos mais feios e mais destruídos do país: os do litoral Centro e Norte. Os citadinos podem ver esse território nas imagens da televisão, a arder por detrás dos bombeiros exaustos e das mulheres desesperadas que gritam "valha-me Nossa Senhora!": é o território das casas espalhadas por todas as encostas e vales, uma aqui, outra acolá, encostadas umas às outras, sem espaço para passar um autotanque, separadas por caminhos serpenteantes, que ficaram em parte por alcatroar - é o território das oficinecas no meio de matos de restolho sujo de óleo, montanhas de papel amarelecido ao sol, garrafas de plástico rebentadas. É o território dos armazéns mais ou menos ilegais, cheios de materiais de obra, roupas, mobiliário, coisas de pirotecnia, encostados a casas ou escondidos nos eucaliptais, o território dos parques de sucata entre pinheiros, rodeados de charcos de óleo, poças de gasolina, garrafas de gás, o território dos lugares que nem aldeias são, debruados a lixeiras, paletes de madeira a apodrecer, bermas atafulhadas de papel velho, embalagens, ervas secas. É o território que os citadinos, leitores de jornais, jornalistas, ministros, nunca vêem porque só andam nas auto-estradas, o território, onde, à beira de cada estradeca, no sopé de casa encosta, convenientemente escondido dos olhares pelas silvas e os tufos espessos de arbustos, há milhares - literalmente milhares - de lixeiras clandestinas, mobília velha, garrafas de plástico, madeiras de obras (é verdade, embora poucos o saibam: o campo, em Portugal, é muito mais sujo que as cidades).

Este território foi criado, inteiramente criado, pela III República. Nasceu da conjugação entre um meio-enriquecimento das pessoas, que, 30 anos depois do 25 de Abril, não chega para lhes permitir uma verdadeira mudança de vida, e o colapso da autoridade do Estado central e local, este regime de desrespeito completo pela lei, que começa nos ministros e acaba no último dos cidadãos. É o território do incumprimento dos planos, das portarias e regulamentos camarários, o território da pequena e média corrupção, esse sangue, alma, nervo da III República.

É evidente que a tragédia dos campos e das periferias urbanas portuguesas se deve também ao aumento das temperaturas. Para isso, o regime tão-pouco oferece perspectivas. De facto, seria necessário mudar de vida para enfrentar o que aí vem, a alteração climatérica de que começamos a experimentar apenas os primeiros efeitos: por exemplo, seria necessário reordenar a paisagem, recorrendo à expropriação de casas, oficinas, armazéns, sucatas. Seria necessário proibir a plantação de eucaliptos e pinheiros. Na cidade, pensando sobretudo nas questões relativas ao consumo de energia, seria necessário pensar na mudança de horários de trabalho, fechando empresas, lojas e escolas entre o meio-dia e as cinco da tarde de Junho a Setembro, mantendo-as abertas até às oito ou nove da noite, de modo a poupar os ares condicionados - cuja factura vai subir em flecha. Modificar os regulamentos da construção civil, de modo a impor pés-direitos mais altos, menos janelas a poente, sistemas de arrefecimento não eléctricos. 

Para alterações deste calibre - que são alterações quase de civilização -, seria preciso um regime muito diferente deste, um regime de dirigentes capazes de dizer a verdade, de mobilizar os cidadãos, de manter as mãos limpas.

Vivo no campo ou perto do campo, na região centro, há já alguns anos. Há três Verões que me sento a trabalhar, enquanto a cinza cai de mansinho no meu teclado, em cima dos meus livros, no chão que piso.

Não tenho culpa do que é hoje este país e o regime que o representa: militei e votei sempre em partidos que apregoavam querer outro tipo de regime e deixei de militar e de votar quando vi esses partidos tornarem-se tão legitimistas como os outros.

Espero um rebate de consciência política por parte destes políticos, ou o aparecimento de outros. Faço como muitos portugueses: espero por D. Sebastião, desempenho a minha profissão o melhor que posso, e penso em emigrar. Historiador (Podentes, concelho de Penela) 

Missa em sufrágio das vítimas de Pedrogão Grande

Há uma semana, a paróquia de Alcântara em união com a Junta de Freguesia, organizou uma missa em sufrágio pelas vítimas do incêndio de Pedrogão Grande. 
Esta fotografia espelha bem a beleza dessa celebração. 


Em Castanheira de Pêra

MARTA CALADO     27.06.17


Viemos de Castanheira de Pêra um bocado tristes pela destruição de vidas (as que já foram e as que ficaram sem nada)  e também da nossa querida natureza. 



Fomos a Vila Facaia e os seus habitantes são um exemplo de por confiarem na providência que a todos nos quer bem, Esperança porque ao estarem vivos não deixam de dar valor à sua própria vida, como dizia a Sra. de 84 anos, preciso de ir a Fátima agradecer ter sido salva, e Caridade porque não se pode não ajudar, o nosso coração é como que agarrado pelo flagelo de há uma semana. 

A prova disso são os bombeiros que já tendo apagado os fogos trabalham incansavelmente ao serviço da comunidade recebendo os voluntários dando lhes alimentação e dormida mesmo com os seus colegas internados em risco de vida. 

Não podemos não estar agarrados ao que aconteceu no nosso Portugal e foi isso que nos levou ir lá... 

Tenho muito mais para contar, por exemplo o trabalho espetacular dos médicos do mundo onde trabalhamos.

Marta Calado

Carta aberta ao primeiro-ministro de Portugal

FRANCISCO GOMES DA SILVA     PÚBLICO       24.06.17

Peço-lhe que desconsidere, se tal lhe for possível, o facto de o signatário desta carta ter sido secretário de Estado das Florestas (e do Desenvolvimento Rural) do Governo que antecedeu aquele a que V. Exa. preside (o XIX, já que o XX só contou para as estatísticas). E peço-lho apenas para que me possa ler liberto de qualquer estigma partidário que, asseguro-lho, não me move nesta matéria.

Não tenho por hábito “sacudir a água do capote” e, como tal, não posso deixar de sentir um peso particular, enquanto ex-titular daquela pasta, pela tragédia que ocorreu recentemente no incêndio de Pedrógão Grande. Já publicamente me penitenciei por não ter tido a força, o engenho e a arte para fazer melhor quando tive essa oportunidade. Garanto-lhe que tentei com todas as minhas forças! Dito isto, gostaria de lhe deixar algumas simples sugestões, que espero possam contribuir para as suas decisões sobre esta matéria. Se forem boas, espero que as utilize. Se entender que são inúteis, restar-me-á agradecer-lhe o tempo que gastou ao lê-las.

1. Resista a pensar que o “problema” e a sua resolução são matéria exclusiva da Proteção Civil e do “combate”, pois a realidade dos incêndios florestais dos últimos anos desmenti-lo-á. Não basta apregoar a importância da prevenção: é urgente alocar-lhe meios robustos. Concentre-se nisto.2. Reúna, longe dos holofotes e sob compromisso de reserva, os titulares da pasta das Florestas e da Administração Interna (os secretários de Estado, já que juntar ex-ministros não deve ser fácil) dos diversos Governos dos últimos 14 anos, cobrindo todos aqueles que assumiram responsabilidades desde o ano de 2003 (o primeiro dos anos fatídicos em matéria de incêndios) e peça-lhes uma opinião sobre o que há a fazer em matéria de “Política de prevenção e combate a incêndios florestais” e, o que não é o mesmo, em matéria de “Política de defesa da floresta contra incêndios”. Sou dos que acreditam, por princípio e ao contrário do que nestas horas se houve à boca cheia, na capacidade daqueles que foram escolhidos para desempenhar cargos governativos. Aflige-me o desaproveitamento da experiência que foi paga com o erário público.
3. Faça o mesmo com alguns “sábios” (sem qualquer ironia no termo) em matéria florestal, em matéria de ecologia e gestão do fogo e em matéria de proteção civil. Se entender útil, disponibilizo-lhe uma lista de uma dezena de nomes: académicos, técnicos de empresas privadas, funcionários públicos. Uma lista politicamente insuspeita, do Partido Comunista ao CDS. Ficará surpreendido, ou talvez não, com alguns consensos que existem sobre estas matérias, desde que discutidas longe dos holofotes da imprensa.
Peça, a cada um destes dois grupos, que produza um documento com um máximo de dez páginas (há que limitar a retórica inútil) sobre o que há a fazer, juntando a experiência de quem teve que “gerir” épocas de incêndios florestais com a “sabedoria” de quem cientificamente conhece algumas das soluções.
Por temer que V. Exa. possa não ter disponibilidade para seguir estas minhas humildes sugestões, aqui ficam algumas pistas, limitadas no seu âmbito, para sua reflexão:
- separe a defesa das pessoas e bens (muito bem entregue aos bombeiros voluntários) do combate aos incêndios florestais; como temos ouvido (e bem), o incêndio florestal só é combatido de facto (numa lógica de proteger a floresta) depois de garantida a prioridade da salvaguarda das pessoas; será que a floresta não merece que a protejam?
- aposte na criação de uma estrutura única e profissional, multidisciplinar e operacional, com os recursos humanos, materiais e financeiros adequados, dedicada 12 meses por ano à prevenção e combate; para o efeito pode consultar os estudos técnicos que lhe foram entregues em 2006 (que serviram parcialmente de base ao PDFCI), pois está lá tudo; em momentos críticos como os que ciclicamente se vivem nesta matéria, estamos a travar uma verdadeira guerra e as guerras não se ganham com voluntarismos nem com heróis.

- leve a sério a necessidade de uma campanha de sensibilização massiva e nacional sobre negligência e comportamentos de risco da população; a maioria esmagadora das ignições todos os anos tem esta origem, como poderá verificar nos dados publicados pelo ICNF sobre investigação das causas dos incêndios; se o fogo não começar, não alastra.

- atue ativamente para não estigmatizar nenhuma das espécies florestais, nomeadamente o eucalipto; usando uma frase de um dos sábios que atrás referi, “o que comanda o fogo é a estrutura dos combustíveis e não a espécie dominante”; se estivéssemos no ponto de discutir a importância das espécies nesta matéria (e estamos tão longe disso!), era sinal que o essencial tinha sido feito; fuja de respostas fáceis e de lugares comuns como este, que não se baseiam no “conhecimento”, principio que V. Exa. tanto tem reivindicado noutras circunstâncias como forma de guindar a sociedade portuguesa a patamares civilizacionais mais elevados.

Por aqui me fico, pois aprendi que uma página A4 é o que se pode exigir a um ministro (neste caso, primeiro) que leia. Desejo-lhe o maior sucesso, a bem dos portugueses, da floresta e do país.

Atravessar um Inferno

POVO  27.06.17


'If you are going through hell, keep going.'

Winston Churchill


À procura de uma frase que ilumine o 'inferno' dos passados 10 dias, socorreu-me um estadista que ajuda a trazer à atenção uma notícia que, como qualquer outra que não seja sobre incêndios, corre o risco de não ser notícia neste rescaldo de Pedrogão Grande: Começou ontem o Estoril Political Fórum, em cujo âmbito, o Professor Cónego João Seabra receberá o prémio Faith & Liberty Lifetime Tribute esta 4ª feira, dia 28 de Junho. A quem tenha gosto em participar nesta homenagem, interessará saber que a entrada é livre mediante registo prévio aqui. A amizade do meu pai pelo Pe. João e a importância que lhe dá na sua educação na fé, já em idade adulta, é a partilhada por muitos e relembrada aqui.

'Se está a atravessar um inferno, continue a andar.'
Winston Churchill

Pela primeira vez tive dificuldade em encontrar notícias para partilhar. A monopolização do assunto e a insistência em criar polémica, ajudaram a isso. O fogo quer-se extinto, mas não há muitos que para isso contribuam atiçando novos fogos de palavras. Não obstante o necessário apuramento das responsabilidades e re-organização da prevenção, seleccionei dois artigos de duas pessoas de lados opostos do quadrante político que me parecem trazer um juízo justo à questão.  


O ano do centenário de Fátima é o ano do centenário da revolução bolchevique. Esta é celebrada pelo PCP com uma verdade revolucionária, tão adequada à nossa era da pós-verdade.

A verdade é o que ainda se procura por Pedrogão Grande, mas a encontrar respostas será uma resposta muito portuguesa. Para uma melhor compreensão deste contexto português, listo abaixo alguns artigos que o meu pai seleccionou no ano passado sobre os incêndios em Portugal.



AGENDA

Atribuição do Prémio
Faith & Liberty Lifetime Tribute

Professor Cónego João Seabra

28 de Junho, 18:00 - 19:30

Precisamos de “cantinhos de conforto” nos hospitais e de pediatras nos centros de saúde

São pelo menos seis mil as crianças e jovens que todos os anos precisam de cuidados paliativos no país.

Se no cancro já há equipas organizadas, noutras doenças não há quase nada

Por ano, há pelo menos seis mil crianças e jovens (até aos 18 anos) a precisar de cuidados paliativos e uma pequena minoria, cerca de duas centenas por ano, irá morrer, sobretudo de cancro, doenças cardiovasculares e neuromusculares. Para a pediatra e oncologista do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa Ana Lacerda, que analisou os dados e fez estas contas, o Kastelo é uma iniciativa “excelente”, mas é essencial pensar num plano a nível nacional. Também Manuel Capelas, da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, frisa que se está a partir quase do zero nos cuidados continuados e paliativos pediátricos em Portugal e que é preciso “planeamento estratégico”.

Desde 2005, com uma equipa que presta este tipo de apoio a crianças com cancro no IPO de Lisboa, onde trabalha, Ana Lacerda coordenou um grupo de trabalho para criação de uma rede nacional de cuidados continuados pediátricos e elaborou uma proposta que está nas mãos dos responsáveis do Ministério da Saúde.


Ministério quer cuidados paliativos de “qualidade” ainda neste semestre
Propõe-se, entre outras coisas, a criação de equipas intra-hospitalares e de núcleos de cuidados pediátricos em cada um dos agrupamentos de centros de saúde (Aces), recuperando a figura do pediatra comunitário. “As famílias das crianças querem tê-las em casa, mas para isso precisam de suporte”, frisa a médica.

Quando isso não é possível, a alternativa poderá passar pela criação dos chamados “cantinhos de conforto” nos hospitais, aproveitando quartos dentro dos serviços de pediatria, mas organizados em moldes diferentes, sugere. Quartos onde os pais possam ficar à noite, onde haja visitas à vontade, onde “as crianças não tenham a tensão arterial medida três vezes por dia”, exemplifica.

Se, no cancro, já há equipas organizadas, como nos IPO de Lisboa e do Porto, nas doenças neurológicas, nas metabólicas, nas neuromusculares — patologias com que estes doentes podem viver ao longo de décadas — não há quase nada, lamenta.

Estas crianças e jovens estão dispersas pelos serviços de saúde, quando deveriam ser apoiadas por equipas especializadas, recebem cuidados mas não de forma organizada. Como é difícil ter serviços especializados para todos, devia haver pelo menos um quarto especial nos serviços de adultos, recomenda.

Sublinhando que o que está aqui em causa não são apenas cuidados em fim de vida (os paliativos vão muito para além disso), Ana Lacerda acredita que a criação de unidades como o Kastelo é importante mas deveria ser o último passo, até porque estas estruturas são muito difíceis de sustentar do ponto de vista financeiro e são “pouco equitativas”. Porquê? “Porque para se poder assegurar este tipo de cuidados perto de casa teríamos que ter uma em cada distrito”, lembra. Serão precisas alternativas pontuais ao internamento, como é o caso do Kastelo, mas o grande foco serão sempre as famílias, que deverão ser ajudadas e ensinadas a cuidar destas crianças onde elas devem estar, em suas casas, insiste.

Manuel Capelas lembra ainda o trabalho desenvolvido por instituições, como a Fundação do Gil e a Acreditar (crianças com cancro), que têm prestado apoio aos hospitais com equipas de apoio domiciliário. 

"Un monde en transformation interpelle toute l’Église."

CONFERÊNCIA DO PROF. FABRICE HADJAJ NO III CONGRESSO DOS MOVIMENTOS ECLESIAIS E NOVAS COMUNIDADES A 20 DE NOVEMBRO, 2014

  Hadjadj_20Nov2014 by papinto on Scribd

A Menina de Aleppo é das pessoas mais influentes na internet para a Time

KARLA PEQUENINO     PÚBLICO   26.06.17

Bana Alabed ficou conhecida por ser a menina que escrevia do Inferno para o mundo, via Twitter.



“Olá mundo. Ainda estamos vivos”, escrevia Bana Alabed, em Setembro, na cidade de Alepo, na Síria. Na altura, tinha sete anos. As mensagens, publicadas pela mãe no Twitter, eram lidas por todo o mundo: “Bombas, bombas, bombas… Não sabemos se vamos sobreviver”, era uma, de entre muitas, a descrever o inferno que se vivia na cidade.

Hoje, aos oito anos, depois de escapar aos horrores da guerra, Bana, foi considerada das pessoas com mais influência na Internet pela revista Time. A escolha anual baseia-se na popularidade das pessoas nas redes sociais e na capacidade de gerarem manchetes de notícias. “Quando uma menina de sete anos escreve no Twitter que tem medo de morrer num bombardeamento, o mundo repara”, justifica a Time, no texto de apresentação dos vencedores.

Entre os outros 24 nomes mencionados pela revista está a escritora da série Harry Potter, J.K. Rowling, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em comum, partilham a atenção que recebem online, nomeadamente no Twitter. Trump, consciente do seu sucesso nas redes sociais, terá mesmo dito numa acção de campanha em Novembro de 2015, que alguns o consideravam "o Hemingway do Twitter". É o lider mundial mais seguido nesta plataforma. 


Rowling, de resto, responde frequentemente a Trump. Depois de este utilizar o Twitter para criticar o presidente da câmara de Londres por pedir à população para manter a calma após o ataque de dia 3 de Junho, Rowling escreveu: "Chama-se liderança, Donald. Os terroristas estavam mortos oito minutos depois de a polícia receber a chamada. Se quisermos um alarmista pomposo, telefonamos". A publicação foi destacada pela Time por receber o dobro dos likes da publicação original do líder norte-americano. 

A lista da revista é diversificada. Inclui Matt Furie, o criador de Pepe, o Sapo (um personagem de uma tira de banda desenha online que, contra a vontade do criador, se tornou num símbolo das imagens difundidas online por apoiantes da extrema-direita nos Estados Unidos); a blogger Cassey Ho, conhecida pelos seus vídeos de exercício e receitas saudáveis no YouTube, as cantoras Katy Perry e Rihanna (cujas mensagens no serviço de mensagens Snapchat têm sido tema de notícias em alguns jornais online), e a socialite Kim Kardashian (que foi assaltada em Paris com base em informação partilhada pela própria nas redes sociais).

Porém, Bana (com as suas mensagens de ajuda e esperança) é a única criança a ocupar um lugar no pódio.

A página do Twitter – @AlabedBana – tem mais de 365 mil seguidores que a conheceram, o ano passado, como a “menina de Alepo”. Com a ajuda da mãe, Fatemah Alabed – uma professora de Inglês que gere a conta da filha no Twitter – , Bana publicou fotografias, mensagens de esperança e vídeos da vida no meio da guerra. “Esta é a casa da minha amiga depois das bombas. Foi morta.Tenho muitas saudades dela”, lê-se numa das mensagens que data de Setembro. “Quero ser uma professora, mas esta guerra está a arruinar o meu sonho. Parem o bombardeamento. Deixem-me aprender inglês e matemática”, era outra.


A esperança da mãe, que começou a utilizar a sua ligação irregular à Internet para publicar mensagens dos filhos era chamar a atenção do mundo. Apesar das críticas e de haver quem não acreditasse na existência de ligação de Internet na zona, a mãe não parou.

"Há Internet no leste de Alepo. Há energia solar no le3ste de Alepo. Há a Banna, no leste de Alepo, que está a sofrer e a escrever no Twitter. Boa noite", disse Fatemah Alabed, num tweet assinado por si (para o diferenciar dos da filha), no início de Dezembro. Dias mais tarde, a família foi levada para a Turquia onde vivem actualmente como refugiados.

A página @AlabedBana teve muito impacto e originou centenas de notícias sobre os horrores da guerra civil na Siria, numa altura em que poucos jornalistas tinham acesso à região. Alguns tweets foram mesmo republicados por J.K. Rowling, que enviou a Bana uma edição electrónica de Harry Potter. Até o Presidente sírio, Bashar al-Assad, falou da conta de Twitter: tentando desacreditá-la por ser de “terroristas ou seus apoiantes”, mas era tarde de mais. Bana tinha-se tornado a cara de milhares de crianças na zona.

No Outono, vai publicar um livro de memórias com o apoio da editora Simon & Schuster. Porém, meses depois de conseguir escapar ao inferno na Síria, a conta de Twitter continua a ser a palco de comunicação principal para difundir mensagens de esperança. “Caro mundo, podemos parar de nos matar uns aos outros e, em vez disso, amarmo-nos? Sim, podemos”, escreveu a 24 de Maio. As mensagens continuam a ser lidas e partilhadas por milhares.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os sete sinais do nosso tempo, segundo Hadjadj: devemos recordar «as primeiras evidências»

http://www.religionenlibertad.com/

“Nuestro mundo es cada vez más el de la desencarnación. Nos hallamos en la época del in vitro veritas, sea el cristal de las pantallas o el vidrio de las probetas”, afirma Fabrice Hadjadj (Nanterre, Francia, 1971), filósofo y escritor de ascendencia judía y católico converso desde 1998.

Hadjadj, que dirige el Instituto Europeo de Estudios Antropológicos Philanthropos de Friburgo, considera que, en la actualidad, “la misión más espiritual es volver a descubrir la carne, desarrollar –como decía Juan Pablo II– una verdadera teología del sexo y, sobre todo, una teología de la mujer y de la maternidad”.

El pensador francés señala que “los apóstoles ya no deben limitarse a hacer milagros, sino que deben recordar las evidencias primeras: que la mujer es mujer y el hombre es hombre; que el matrimonio es entre un hombre y una mujer; que las vacas no son carnívoras; que lo natural no es una construcción convencional; que el ser no es la nada”.

Siete signos de nuestro tiempo

Hadjadj identifica siete signos presentes en nuestro tiempo:

1. Fin del progreso, comienzo de la esperanza. “Las grandes utopías políticas de los siglos XIX y XX han muerto: una afirmación que vale tanto para el comunismo como para el capitalismo”.

Cuando se destruyen las “esperanzas mundanas, la esperanza teologal puede reabrir un futuro”, pues está “afianzada en la fe en el Porvenir eterno, en Aquel cuyo nombre es”.

2. De la globalización a la catolicidad: la ecología integral. Según el pensador francés, la cuestión ecológica se ha convertido en un lugar decisivo de evangelización. “Al margen de su urgencia, la ecología conlleva la contemplación de un orden natural dado; y por lo tanto, y en última instancia, la elevación hacia un Creador de ese orden”.

El Papa Francisco, con su encíclica Laudato si y su magisterio, también pone énfasis en la importancia del cuidado de la naturaleza.  


3. La era de la tecnología y la exigencia de la austeridad. El autor afirma que estamos en la época de la tecnología, y considera que para evangelizar, “los medios temporales pobres y sencillos son superiores a los medios temporales complejos y sofisticados”.

Piensa que el “verdadero amor al prójimo no se aprende sino acercándose a él. La esperanza en el cara a cara con Dios sólo se transmite a través del cara a cara con el otro”.

Abrirse a la amplitud de la razón

4. Frente al culto al sentimiento, la amplitud de la razón
. Hadjadj afirma que frente al pensamiento de que “lo real es lo que siento y lo que construyo”, la misión debe tener la “valentía para abrirse a la amplitud de la razón”.

Esta razón amplia “permite escapar del doble culto al capricho y al cálculo”. Para lograr esa salida, “hay que reconocer el papel auxiliar pero necesario de la filosofía y la labor conceptual pero contemplativa de la teología”.

5. Frente al desmaterialismo, el Verbo se hizo carpintero. El filósofo francés considera que “hemos pasado del paradigma de la cultura al paradigma de la ingeniería”. Ante la pérdida del sentido de la materia, Hadjadj señala que “el Verbo se hizo carne y carpintero. No es algo anecdótico. Quiso trabajar con sus manos la madera”, y “no es casualidad que recurriera con frecuencia a imágenes de los campos, de la viña, de la mostaza”.  

6. Frente al dividualismo, las comunidades pequeñas. “Desde el momento en que el individuo pretende construirse solo, lo único que hace es desligarse de su origen social, reducirse él mismo a un conjunto de piezas sueltas”. Frente a ello, “nuestra época necesita más testigos que maestros”. Pero “el testimonio no debe ser sólo individual. Debe ser el testimonio de una comunidad viva, acogedora, radiante, con un atrio abierto a la calle”.  

7. Frente a “Dios” como “fórmula mágica”. El escritor converso explica que “el espiritualismo es perfectamente compatible con todas las manipulaciones de los seres vivos”. El tecnologismo “muestra una inclinación a la exaltación del espíritu y el desprecio de la carne”.

En este contexto, Dios es visto no como Padre, sino como “Referencia”. “El islamismo nos ofrece un buen ejemplo de ello”, pues reivindica a un “Dios que desprecia la cultura, la historia, las patrias...”.  


Libro que recoge las propuestas del pensador francés.

Hadjadj expuso estos signos de los tiempos en una conferencia que pronunció en la inauguración del III Congreso Mundial de los Movimientos Eclesiales y las Nuevas Comunidades, celebrada en Roma el 20 de noviembre de 2014. 

Su intervención ha sido publicada por Ediciones Rialp en 2016 con el título La suerte de haber nacido en nuestro tiempo. Hadjadj ha obtenido varios premios de literatura en su país.

Resta-nos os jornalistas

INÊS TEOTÓNIO PEREIRA    DN   24.06.17

Quando falha tudo resta-nos o jornalismo como uma espécie de bote salva-vidas da democracia. Quando sentimos, e sentimos nesta semana, que em vez de políticos responsáveis, corajosos e humildes no perdão temos políticos empenhados em fugir para a frente, em passar culpas descartando-se assim ao julgamento democrático, em arranjar desculpas em vez de as pedir, resta-nos os jornalistas. Quando sentimos que a política é cobarde, sobra-nos os jornalistas para neutralizar essa podridão. São agora eles o primeiro poder, aquele que nos garante que todos os outros têm de funcionar.
Pelo menos 64 mortos depois, não sabemos porquê ou como. E, mais assustador ainda, não temos a certeza de que não existam mais mortos ou que algum dia saibamos mesmo o porquê. Desconfiamos. Desconfiamos de quem vai à televisão justificar tragédias com causas naturais como se Deus ou a natureza tivessem alguma coisa a ver com estradas que não foram cortadas, com sistemas de comunicação que não funcionaram, com o falhanço total em salvar vidas. O "não fui eu" na política é uma vergonha. E tem de ser dessa vergonha, desonestidade e imoralidade que os jornalistas nos devem salvar, fazendo perguntas, exigindo respostas, denunciando mentiras, revelando incoerências, descobrindo factos e chatear. Chatear até que as mãos lhes doam de tantas horas passadas ao telefone, de tantos silêncios que teimarão em não cessar, de tantos relatórios inconclusivos, de tantas mentiras que vão ouvir, de tantas horas passadas a ouvir comissões parlamentares de inquérito intermináveis. São eles que não podem largar, pelo menos eles não nos podem falhar. A tragédia de Pedrógão tem de ser notícia, tem de ser primeira página até ao dia em que não existam mais notícias para dar. Dure o que durar. E então, só então, poderá ser memória.
Quando a política não é nobre, o jornalismo tem de ser realeza. Tem de mostrar que um bom político não é quem sabe justificar, argumentar, convencer, manipular. É quem nos convence pela verdade, justifica com a razão, argumenta com seriedade e escolhe a responsabilização em detrimento da manipulação. É quem não se atreve a usar beijos e lágrimas para amaciar a sua responsabilidade, quem tem a honra e não a vergonha de assumir erros, falhas e más opções. Só assim a democracia faz sentido porque só assim se consolida a confiança. Quando não são os políticos a defendê-la, a exercitá-la, que sejam os jornalistas. Que são quem nos resta quando falha tudo o resto.

Perguntas que ardem

FERNANDA CÂNCIO   DN    26.06.17


Passou uma semana e não é mais fácil escrever sobre o incêndio de Pedrógão. No início era a dor, a incredulidade, a incapacidade de encaixar aquele número - 64 -, o pavor daquela estrada. O mais adequado era o silêncio: a capa do DN de segunda-feira, no seu vazio, encenava isso mesmo. Mas os jornais são feitos de palavras, como o resto do jornalismo, como a opinião. Temos de escrever, portanto escrevemos. Mesmo que para dizer o paradoxo - que nada temos para dizer.
Até porque quando escrevi, no domingo, não sabia muito sobre o incêndio, a não ser o número de mortos e que ainda ardia. Não sabia sequer a que horas tinham morrido as pessoas naquela estrada. E não sabia porque ninguém dizia. Nunca vi, nas perguntas aos responsáveis e sobreviventes, alguém pedir uma linha de tempo, questionar: a que horas foi isso? Não: o que vi foi uma desmesurada, desrespeitosa e obscena exploração da dor. Sobretudo nas TV, mas na verdade em quase todos os relatos. Sobre factos puros e duros, que permitam começar a desenhar um mapa do que aconteceu, zero.
Estabelecer uma cronologia é essencial - a coisa mais essencial - para a análise do que se passou. É a partir dela que se pode perceber se era possível ou não evitar aquelas mortes - e quando digo "se era possível" significa, obviamente, se era exigível dadas as circunstâncias (podemos sempre considerar que era possível se os bosques estivessem "limpos", se as árvores não estivessem perto da estrada e não fossem das que ardem com facilidade, etc). Mas uma semana depois essa cronologia continua a faltar. Alguns jornais e meios tentaram fazê-la, nos últimos dias. Mas são tentativas falhadas, muito incompletas. E, mais grave: ainda não foi tornada pública uma cronologia oficial. Não acho isso normal. Não acho normal que a ministra da Administração Interna diga que ainda não a tem. Como não? Há pessoas que estiveram lá, no meio do fogo, e se salvaram. Será assim tão difícil questioná-las? Há os bombeiros e as comunicações dos bombeiros, às quais ao que parece o Expresso teve acesso, e que descreve como "desesperadas" (não é difícil acreditar: quem não desesperaria perante aquilo?). Há o comando da Proteção Civil que supostamente coordenou tudo. Como, não há uma cronologia?
Também não é normal a resposta que a GNR deu ao primeiro-ministro. Vaga, sem - mais uma vez - cronologia, sem responder diretamente a uma pergunta direta sobre se as pessoas foram encaminhadas para a N236, dizendo que todas as comunicações falharam mas não dizendo durante quanto tempo e se todas ao mesmo tempo, e se isso fez, no entender do comando, a diferença entre salvar ou não aquelas pessoas. Não me espanta isso na GNR: tem uma cultura de falta de transparência e não raro de encobrimento. Por que haveria de ser diferente neste caso?
E já se sabe com certeza que houve falhas do SIRESP. Um sistema de comunicações de emergência que falha numa emergência serve para quê? Falta saber a que ponto falhou. E se há responsabilidades por isso.
Sim, devemos questionar tudo. E exigir. E duvidar. Mas que sentido faz, por exemplo, ter reportagens e entrevistas a assegurar que o incêndio não começou com um raio porque, de acordo com as pessoas da região e a que ligou para o 112, não se ouvia trovoada", se há especialistas (como Emanuel de Oliveira, consultor na área dos riscos naturais e incêndios florestais) a garantir que um determinado tipo de raio - o "positivo" - pode partir de uma trovoada a dezenas de quilómetros de distância (até 95) e que um raio desses, de acordo com as imagens de satélite meteorológico, caiu às 14.45 de 17 de junho na zona onde o incêndio se iniciou? Não quer isto dizer, obviamente, que a PJ não se pode enganar; porém, para pôr a versão da PJ em causa talvez seja necessário um pouco mais que senso comum sobre trovoadas e relâmpagos, não?
Porque há uma diferença entre questionamento sério e fundamentado e o atiçar da polémica porque sim. Porque há uma diferença entre querer saber e salivar com a hipótese de se estar ante "o fim do estado de graça" do governo Costa; porque há uma diferença entre exigir esclarecimentos e falar de "branqueamento", como sucedeu, ainda o incêndio lavrava, porque o PR se lembrou de, numa óbvia e compreensível tentativa de sossegar as pessoas, e provavelmente a si mesmo, dizer que "tinha sido feito tudo o que era possível".
"Se morreram 64 pessoas alguma coisa falhou", leio repetidamente. Sim, óbvio que muita coisa falhou. Mas isso significa que há culpados? Que têm de rolar cabeças e que já sabemos quais? E não, pedir calma não significa "desdramatizar". Passos, entre outros, insiste em dizer, desde domingo, que houve "desdramatização". Onde? De quem? Como se pode falar de desdramatização depois de ver, na madrugada de dia 18, o secretário de Estado a chorar nos braços do Presidente e o PM a falar da maior tragédia de vidas humanas nos incêndios em Portugal? Fala de quê, Passos? Tenha - tenhamos - a seriedade de não fazer dos mortos estandartes para aproveitamento político. Não precisamos de atear mais fogos, obrigada.

PCP continua a falsificar a História

JOSÉ MILHAZES  OBSERVADOR   24.06.17
O PCP criou um site para celebrar os 100 anos da revolução bolchevique de 1917, mas abre-o logo com uma fotografia falsificada de Lenine. Trata-se apenas da primeira de muitas falsificações históricas.
Já passaram cem anos da revolução comunista russa de 1917, durante os quais foram publicados milhares de documentos sobre os crimes do regime soviético e sobre a forma como os comunistas falsificaram e continuam a falsificar, sem qualquer tipo de vergonha, a História. Como o PCP insiste em fazer.
A fim de assinalar esse importante acontecimento, o Partido Comunista Português decidiu, entre outras iniciativas, criar na Internet uma página especial, onde nem sequer teve o cuidado de corrigir as falsificações descaradas dos seus camaradas soviéticas. Na primeira página, está publicada uma fotografia icónica, onde Vladimir Lenine discursa perante os trabalhadores. Os comunistas soviéticos decidiram limpar da foto Lev Trotski, o mais perigoso dos adversários do ditador José Estaline.
FOTO FALSIFICADA
FOTO ORIGINAL

Na rubrica “Conquistas e Impactos”, temos apenas a enumeração dos “enormes êxitos” do regime soviético e nem quer uma palavra sobre os crimes cometidos pelos dirigentes comunistas, incluindo Vladimir Lenine (fuzilamentos sumários, expulsão de cientistas da Rússia, campos de concentração, perseguição religiosa, etc.).
Na galeria “A arte revolucionária soviética”, publicam-se obras criadas até 1925, ano em que Estaline chega ao poder e cuja exibição foi proibida durante muitos anos por não corresponder à única corrente permitida na pintura soviética: realismo socialista.
Seria interessante, por exemplo, ver o que aconteceu à maioria dos actores representados na galeria: o grande poeta, escritor e desenhador Vladimir Maiakovski suicidou-se em 1930 ao ver o rumo que estava a levar o socialismo por ele cantado (existe a versão de que ele teria sido assassinado também por razões políticas). Mark Chagal viu-se obrigado a sair da URSS para poder pintar as suas obras mundialmente famosas. Caso contrário, teríamos, no máximo, mais um retrato do “Zé dos Bigodes” da sua autoria.
Kasimir Malevivich, o pai do suprematismo, uma das primeiras correntes da arte abstracta moderna, foi proibido de leccionar em 1930, acusado de espionagem e detido. Após a sua morte, em 1935, as suas obras, mesmo o emblemático quadro “Quadrado Preto”, deixaram de ser vistas pelos soviéticos até 1962.
Pavel Filonov, considerado o criador e teorizador da arte analítica, morreu praticamente na miséria, tendo sido acusado de “formalismo” pelos defensores da arte oficial e pedida a sua execução como inimigo do povo. Morreu durante o Bloqueio de Leninegrado, em 1941, e as suas obras só se tornaram património do grande público em finais dos anos de 1980.
Vladimir Tatlin, um dos fundadores do construtivismo apenas teve direito a uma exposição das suas obras na vida, em 1932, tendo caído no “esquecimento” até aos anos de 1960.
Do cineasta Serguei Eisenstein não vale a pena falar, pois são bem conhecidas as dificuldades que teve para realizar obras como “Ivan, o Terrível”. José Estaline tinha sempre a última palavra também no campo do cinema.
Importa também assinalar que todos estes artistas se formaram antes da revolução comunista de 1917, tendo alguns deles começado a criar numa época em que as artes e a literatura russas atravessavam um dos seus maiores períodos. No caso da literatura, ele chamou-se “Período da Prata”. Por exemplo, em 1932, quadros de Malevitch são apresentados na exposição “Arte da época do imperialismo”, realizada no Museu Russo de São Petersburgo.
O terrível destino deste e de outros intelectuais soviéticos também faz parte dos impactos da revolução comunista. A verdade não deve ser revolucionária, mas apenas verdade.

A tradição ocidental da liberdade sob a lei

JOÃO CARLOS ESPADA    OBSERVADOR   26.06.17
A velha ideia de Universidade é uma das ideias centrais da Tradição Ocidental da Liberdade sob a Lei. Ambas serão celebradas entre hoje e quarta feira no Estoril Political Fórum.
“Defendendo a Tradição Ocidental da Liberdade sob a Lei” é o tema da 25ª edição do Estoril Political Forum, que esta tarde tem início no Hotel Palácio do Estoril. Estes encontros internacionais anuais de estudos políticos tiveram início em 1993, no Convento da Arrábida, e são desde 1997 promovidos pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica (que, por sua vez, celebra este ano o 20º aniversário).
O tema deste ano parece bastante actual. Crescem na Europa e até nos EUA movimentos populistas, ou simplesmente erráticos, que ameaçam — ou simplesmente ignoram — os alicerces da ordem democrática e liberal penosamente construída após a II Guerra e a queda do Muro de Berlim.
O Estoril Political Forum vai abordar directamente esses temas. Haverá painéis sobre o Ocidente, a Europa e a NATO, além de muitos outros sobre temas mais específicos. Mas não será uma abordagem a uma só voz. Tal como nos anos anteriores, haverá vozes e inclinações variadas: conservadores, democratas-cristãos, liberais, libertários, sociais-democratas e socialistas democráticos.
No caso da União Europeia, haverá federalistas e anti-federalistas, europeístas e euro-cépticos, “Remainers” e “Brexiteers”. No painel sobre a União Europeia, na terça de manhã, o orador principal será José Manuel Durão Barroso, antigo presidente da Comissão. Entre os comentadores estará John O’Sullivan, um proeminente “Brexiteer” que foi conselheiro de Margaret Thatcher. No jantar Churchill, também na terça-feira, o orador será Timothy Garton Ash, professor de Oxford e proeminente “Remainer”.
Esta variedade não surpreenderá certamente os defensores da tradição ocidental da liberdade. Porque o Ocidente sempre se distinguiu pela variedade de pontos de vista, acompanhada da defesa comum de valores partilhados: o governo limitado pela lei e pelo Parlamento, uma economia descentralizada e aberta, a centralidade da pessoa e do seu direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade.
Estes valores constituem o alicerce da aliança euro-atlântica. Foi a eles que Winston Churchill se referiu insistentemente quando na década de 1930 denunciou incansavelmente a dupla ameaça nacional-socialista e comunista. Dizia ele em Maio de 1938, por exemplo:
“Não temos nós uma ideologia própria (se é que devemos utilizar essa expressão horrível, ‘ideologia’) na liberdade, numa Constituição liberal, no governo democrático e parlamentar, na Magna Carta e na Petition of Right”?
Estes são os valores do Ocidente que serão recordados no Estoril Political Forum. Na sessão de abertura, será prestada homenagem a Mário Soares — tal como na sessão de abertura do ano passado foi prestada homenagem a Maria Barroso, que sempre se sentava na primeira fila das sessões do Estoril Political Forum. E serão recordadas as palavras de Mário Soares numa palestra na Universidade George Washington, em Dezembro de 1998:
“Como antigo combatente contra as ditaduras, pertenço a uma geração que apreendeu por experiência própria o valor da democracia e a importância da liberdade… Sentimos o dever de partilhar a nossa experiência com as gerações mais novas, para que também elas possam compreender que a vida sem liberdade não faz sentido.”
O valor da liberdade estará também presente na já tradicional sessão dedicada ao Prémio Fé e Liberdade, este ano atribuído ao Professor Cónego João Seabra. A apresentação está a cargo de Guilherme Almeida e Brito, vice-director da CLSBE (Católica Lisbon School of Business and Economics). O presidente dessa sessão, Robert Royal, director do Faith and Reason Institute de Washington, DC, recordará nessa ocasião Michael Novak — outro grande intelectual católico que se distinguiu na defesa dos fundamentos cristãos da liberdade.
Fé e liberdade é sem dúvida um tema particularmente apropriado ao ano de 2017. O Estoril Political Forum realiza a sua 25ª edição. O Instituto de Estudos Políticos celebra o 20º aniversário. E a Universidade Católica celebrará em Outubro os seus 50 anos. É uma feliz coincidência e é uma feliz coincidente homenagem à liberdade de ensino e à liberdade de escolha dos alunos e das suas famílias. Como tem insistido incansavelmente Mário Pinto — o inspirador da criação do IEP e desde sempre um defensor da liberdade de educação — a velha ideia grega e depois cristã medieval de Universidade é inseparável da ideia de liberdade.
E a velha ideia de Universidade é uma das ideias centrais da Tradição Ocidental da Liberdade sob a Lei. Ambas serão celebradas entre hoje e quarta feira no Estoril Political Forum.