terça-feira, 19 de julho de 2016

Parem para pensar

Raquel Abecasis
RR online 19 jul, 2016

Será que é progresso e modernidade criar uma sociedade em que a felicidade de alguns é feita à custa da infelicidade de outros?
Um grupo de cidadãos, tão dignos como os que com grande alarido entregaram na Assembleia da República, uma petição para legislar sobre a morte assistida/eutanásia, entregaram nas últimas horas no Parlamento uma petição com mais de 4.200 assinaturas para que os deputados discutam e votem a realização de um referendo sobre as barrigas de aluguer/maternidade de substituição. A ideia é obrigar a uma discussão pública sobre a matéria.
Dirão alguns: lá vêm eles outra vez tentar impedir a liberdade e o progresso.
São os chavões do costume para complexar quem tem complexos de defender uma sociedade com pés e cabeça.
Mas vale a pena encarar de frente a questão da liberdade e do progresso.
Que tipo de liberdade tem uma mulher que não pode arrepender-se a meio do caminho de uma decisão que envolve o seu corpo, o seu equilíbrio psicológico e a sua afectividade? Será que os proponentes desta lei consideram que o corpo da mulher é matéria descartável, tal como tudo o que é habitualmente sujeito a contratos de troca? Afinal, o corpo da mulher é válido para tomar a decisão de realizar um aborto, mas não para estabelecer uma relação maternal com a criança que cresce no seu ventre? Será que as mulheres que se dispõem a ser “mães de substituição” são mulheres de segunda e as que decidem abortar são mulheres de primeira? Quem zela pelos direitos e paga o tratamento pelos distúrbios mentais de uma mulher afectada para o resto da vida pelo facto de lhe ter sido retirado um bebé que gerou na sua barriga durante nove meses?
Será que é progresso e modernidade criar uma sociedade em que a felicidade de alguns é feita à custa da infelicidade de outros? Será que é progresso impor mudanças radicais a uma sociedade sem lhe dar oportunidade de discutir e decidir conscientemente sobre o que está em causa? Será que é democrático que os representantes do povo tomem decisões deste calibre sem terem dado a conhecer aos eleitores as suas posições na campanha eleitoral? Será próprio de uma sociedade evoluída legislar sobre temas tão sensíveis de costas voltadas para as recomendações de uma comissão nacional de ética?
Se calhar sou eu que sou retrógrada e antiquada, mas, assim como sou, preservo os direitos sobre o meu corpo, a minha barriga e a sanidade mental da minha família. Um dia, quando os que como eu estiverem a viver numa reserva própria para quem optou por ter vidas normais, talvez aí nos dêem alguns direitos, como gostam de fazer com as minorias exóticas, mas ao menos, mesmo na reserva natural, preservaremos a nossa liberdade.
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