quarta-feira, 13 de julho de 2016

E depois de Marcelo?

Helena Matos
Observador 13/7/2016

Quer Marcelo vencer o populismo pragmático-arruaceiro de Costa com o seu populismo católico-afectivo? Talvez. Vai nesse momento o povo dos "afectos" apoiar Marcelo ou liga a televisão e muda de canal?

Para se perceber o que vai ser depois de Marcelo temos de ir ao antes. A Cavaco. Para já é como se a Terra o tivesse tragado: não se lhe ouve uma palavra. Não se sabe o que pensa sobre o actual momento do país ou que o que pensa sobre o seu sucessor.
Quatro meses depois de Cavaco ter deixado a Presidência da República a relação entre Belém e São Bento mudou. E não mudou para melhor.
À superfície temos o folclore das quebras do protocolo, da hiperactividade e esse mistério politico-mediático que dá pelo nome de “afectos”. Todos os dias os jornais nos brindam com títulos como estes: “Banho de multidão no Porto recebe ‘presidente dos afetos’”; “Presidente hiperativo a promover afetos”; “Visita do Presidente com afetos na via sacra das Ilhas”; “Marcelo Rebelo de Sousa: um aluno brilhante, um homem de afetos”?…
E, claro, temos o futebol e os cogumelos: “‘Olha que maravilha, um duplo cogumelo’, disse o Presidente enquanto colhia o produto. Depois veio a distinção intencional. Para Marcelo ‘o cogumelo maior é o cogumelo presidencial e este é o governo porque é mais pequenino’. Também aqui quis pender o peso do semipresidencialismo para Belém, já que o Presidente é ‘o cogumelo maior’ e o governo de Costa ‘o mais pequenino’. Com a faca e o cogumelo na mão, o Presidente continuou a comparação, falando em ‘solidariedade institucional’, já que – como a forma daqueles cogumelos – ‘o Presidente da República está sempre a aguentar o governo…’ A surpresa veio no final da frase, com Marcelo a acrescentar que o Presidente aguenta o governo… por uns tempos’.”
Não sei se Cavaco leu estas declarações de Marcelo. Mas não duvido que alguém lhas terá relatado. E também não errarei muito se concluir que, perante o exercício do actual PR, Aníbal Cavaco Silva terá feito a sacramental pergunta-desabafo: “E se tivesse sido eu a fazer tais declarações?!” Pois teria sido um monumental escândalo com Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e todas as forças vivas do PS insurgindo-se contra os modos (ou a falta deles) do Presidente. Tenho a certeza que até se ouviria a palavra destituição. Mas, nas actuais circunstâncias, os protagonistas mais que óbvios dessa óbvia polémica fizeram de conta que não viram nem ouviram e trataram sim de se escandalizar com as declarações do ministro das Finanças da Alemanha, declarações essas perfeitamente em linha com aquilo os dirigentes socialistas têm dito, e de partir em luta contra as sanções em termos que remetem mais para o milagre de Ourique – o tal de que era anti-patriótico duvidar! – do que para a racionalidade.
Na verdade, não interessa nada o que Schauble disse ou dirá. Ou a natureza das sanções. Ou sequer se vão existir sanções. Interessa sim que o foco da tensão constante que durante anos a esquerda manteve com Cavaco Silva foi agora transferido para o exterior: de repente estamos a discutir o patriotismo e o anti-patriotismo em termos mais arqueológicos que políticos. Isso acontece pela prosaica razão de que agora é a UE (tal como noutro tempo foi Cavaco) quem simboliza o controlo sobre o nosso tempo político. Depois da indignação com as declarações, temos a indignação com as sanções e a seguir outra indignação virá. Porque é absolutamente indispensável que a pátria viva arrebatada contra um inimigo, seja ele qual for. Afinal essa é a melhor forma de se distrair de si mesma.
Como pode ou deve um Presidente conviver com esta sucessão de indignações que parecem decalcadas de uma cartilha bolivariana? Com Marcelo nunca é uma questão do que se pode ou se deve mas sim do que acontece. Marcelo parece apostar em vencer o populismo pragmático-arruaceiro de Costa com o seu populismo católico-afectivo. A táctica pode ser inteligente (e inteligência nunca faltou a Marcelo) mas infelizmente, e ao contrário do que acontece com os números negativos em que menos por menos dá mais, em política populismo vezes populismo dá mais populismo ainda ou seja o esfrangalhar do regime.
Na prática, e para lá da sucessão de beijinhos, declarações sobre futebol e sorrisos para selfies, Marcelo está a presidencializar o regime. Ou, melhor dizendo, a peronizá-lo. Esperará que no momento da verdade, ou seja, quando tiver de fazer frente a Costa, essa onda de afecto se transforme num apoio efectivo? Vai nesse momento o povo dos “afectos” apoiar Marcelo? Ou desliga como quem muda de canal?
Para já Marcelo tem diante de si um primeiro-ministro que precisa desesperadamente do suporte presidencial, quer para ser primeiro-ministro quer, o que não é menos importante, para deixar de o ser em momento adequado. A forma como Costa vai deixar de ser primeiro-ministro é fundamental para o seu futuro. E, acredito eu, Belém é o seu próximo objectivo. Dir-me-ão que ainda falta muito tempo para que Marcelo acabe o seu mandato. É verdade, mas também é verdade que presidencialmente o tempo passa a outra velocidade: com Durão Barroso a atingir o topo da “vida empresarial”, ou seja, a colocar fim à sua carreira política, como Marcelo oportuna e sibilinamente lembrou, resta um forte candidato presidencial. Quem? António Costa. Não duvido que será um forte candidato, apoiado por todas as esquerdas. Que por essa altura o PS esteja a pagar o preço da subalternização ao PCP e ao BE não será já o problema de Costa mas sim de quem lhe vai suceder.
A dúvida é apenas uma: vai ou não a esquerda virar-se contra Marcelo? Esse dia, a acontecer, será sonoramente tonitruante pois no estardalhaço que os indignados então fizerem irão esconjurar o tempo em que se calaram perante o crescente intervencionismo de Marcelo e olharam para o lado enquanto este infantilizava o Governo. Nesse dia, ou, melhor dizendo, nessa noite, à abertura dos noticiários, Catarina Martins com aquele ar de quem pisa terra conquistada, entrará na sala para diante de um microfone começar a acusar o Presidente da República de estar a ultrapassar os seus poderes. Inevitavelmente chegaremos ao bafio salazarento. Depois teremos Jerónimo de Sousa mais Abril, a Constituição e o povo trabalhador. Pelo PS, Galamba e Ana Catarina Mendes abrirão directamente as hostilidades…
E quanto falta para esse dia em que aquilo que agora é calado será gritado? Perguntem à UE. Enquanto esta nos assegurar o crédito, Belém ganha espaço e São Bento ganha tempo. Depois cada um jogará no seu campo: Marcelo imitará Costa Gomes e nunca deixará de estar ao lado dos vencedores. A frente de esquerda acabará, mas, como a esquerda não vive sem heróis, Costa ficará como o líder que provou que “o sonho é possível”. Daí a passar para Belém é apenas um passo. Como de costume o país pagará as contas.
Mas não só. O regime terá de se reequilibrar pois seja como vier a ser, o desequilíbrio de forças a favor de Belém é já um dado indesmentível e um factor que vai marcar os próximos anos. Um factor que se vai estender muito para lá do exercício pessoal de cada um dos actuais protagonistas.
Certo, certo é que depois de Marcelo vamos certamente falar sobre os poderes do Presidente da República. E, disso tenho a certeza, Marcelo será o primeiro a comentar o assunto. Como se nunca lá tivesse estado.
Ps. Já com o texto publicado leio no PÚBLICO o relato detalhado da intervenção de Cavaco Silva no Conselho de Estado sob o título “Cavaco estraga unanimidade do Conselho de Estado sobre sanções”. A não ser que a distracção me tenha feito perder alguma declaração do ex Presidente da República sobre o teor da sua intervenção, temos de concluir que alguém que esteve no Conselho de Estado relatou minuciosamente aquilo que o conselheiro Cavaco Silva ali disse.
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