terça-feira, 26 de julho de 2016

A pior crise

António Barreto
DN20160724

A França vive, há meses, em estado de emergência. A região de Munique, capital da Baviera e uma das mais importantes cidades alemãs, está desde sexta-feira em estado de emergência. A Turquia declarou o estado de emergência e suspendeu as liberdades públicas e os direitos humanos. Esta é a Europa em que vivemos hoje.
É talvez, desde o fim da Segunda Guerra, a maior e a pior crise da Europa. E estamos longe de ver o seu termo. Lentamente, o terrorismo alastra e procura novos alvos e novos sítios, com diversidade de meios e de métodos. Organizado ou espontâneo, mas quase sempre islâmico. Os povos europeus, de todas as crenças e origens, começam a ter receio. E começam a comportar-se como tal. Não há nada pior do que um povo com medo.
A unidade política, representada pela União Europeia, está frágil e incerta. Sem liderança assumida, mas com um comando impositivo, o rumo europeu parece ser traçado pela força das coisas, pouco pela razão, pouco pela vontade dos povos. Em vários países surgem movimentos para, por via de referendo, pôr em causa a pertença à União. Como reacção contra a imigração, contra a falta de liderança política e contra a falta de perspectivas e oportunidades, em vários países, incluindo pioneiros europeus, como a França e a Itália, surgem vozes crescentes e tonitruantes ameaçando as liberdades e a democracia. Por quase toda a União, um miserável crescimento económico, aparentemente resultado da globalização e das políticas económicas com origem na banca e na Alemanha, faz muita gente desconfiar das vantagens europeias. Por toda a União, altas taxas de desemprego resistem tenazmente às políticas, aos incentivos e aos programas. A saída da Grã-Bretanha é o mais profundo enfraquecimento da União e da Europa desde há décadas.
A Leste, as relações com a Rússia de Putin estão à beira do conflito político e das mais graves consequências. Dos países bálticos à Ucrânia e à Crimeia, toda a região de confronto entre os europeus ocidentais e os eslavos aparece cada vez mais como uma fonte de perturbações com um potencial explosivo de temer. A Sul, a pressão dos imigrantes e dos refugiados ainda não encontrou solução nem travão. A Sudeste, o turbilhão turco põe em causa, de modo muito preocupante, os equilíbrios europeus e, em última análise, todo o Próximo Oriente. A Oeste, o lugar deixado vago pela Grã-Bretanha é fonte de preocupação. Do lado de lá do Atlântico, nos Estados Unidos, a incógnita de Clinton e a ameaça de Trump deixam a Europa vulnerável. A Europa está a ficar cercada.
A defesa europeia perde credibilidade. No continente, são crescentes as pressões contra a NATO, designadamente em Portugal, na Espanha, na Grécia, na França e na Turquia. Forças políticas em ascensão ou já com responsabilidades entendem que é chegado o momento de pôr em causa a Aliança. A maior parte dos países europeus não se defende, reivindica a protecção americana e exige que os americanos se metam na sua vida. O melhor exército europeu, o britânico, prepara-se para viver tempos políticos difíceis e eventualmente virar-se para dentro ou para uma defesa nacional prioritária. São gravíssimas as consequências dos golpes na Turquia, seja para a democracia, seja para a NATO, seja para os dispositivos criados ou a desenvolver para a situação dos imigrantes e dos refugiados.
O Estado social, uma criação europeia, ou antes, uma criação de alguns países europeus, está ameaçado e quase periclitante. As direitas, os liberais, os proprietários e a classe média rica não lhe dão importância, pensam mesmo que se gasta demasiado com os sectores sociais. As esquerdas, os populistas, os sindicatos, as classes médias baixas e as classes trabalhadoras exigem que se gaste cada vez mais, sem contar nem verificar o que se produz e poupa para pagar o que se gasta.
Já não é a primeira vez, mas há luzes na Europa que se apagam.
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