segunda-feira, 25 de julho de 2016

O contragolpe de Erdoğan

MENDO HENRIQUES · Jornal Tornado · 19 JULHO, 2016
O presidente islâmico Erdoğan utilizou o golpe militar de 15 de Julho para lançar um contragolpe que está a fazer mergulhar a Turquia no caos e a isolá-la internacionalmente

Hoje, 19 de Julho, o governo demitiu mais de 15.000 funcionários no Ministério da Educação, 257 funcionários no gabinete do primeiro-ministro e 492 clérigos na Direcção dos Assuntos religiosos. Além disso, mais de 1.500 reitores universitários foram convidados a demitir-se.
A purga seguiu-se à demissão de 8.800 polícias, e às prisões de 6.000 soldados, 2.700 juízes e promotores, dezenas de governadores, e mais de 100 generais – ou pouco menos de um terço do corpo. 20 sites de notícias também foram bloqueados. E tudo isto num estado em pé de guerra contra os Curdos e na fronteira da Síria.
O conflito aberto entre as Forças Armadas que garantem a laicidade do Estado, e o governo islâmico do AKP já vinha de trás. A política de islamização em slow-motion parecia estar a levar a melhor, após purgas maciças no corpo de oficiais.
Contudo, desde os protestos em massa em 2013 na Praça Taksin, a sociedade turca ficou dividida.
O presidente e o governo transformaram metade do eleitorado do AKP em militantes e recusaram-se a ouvir a outra metade e a maioria da elite turca.
Em política externa, Erdoğan proclamava “zero problemas com os vizinhos” mas conseguiu deteriorar as relações com os parceiros globais e regionais.
Com a crise na Síria, provocou o regresso das lutas no Curdistão turco, colocando o país em estado de guerra. No Egipto, o seu protegido islamita, o general Mohamed Morsi, foi deposto. A relação com a União Europeia ficou arruinada após a Alemanha reconhecer o genocídio arménio de 1915.
Após décadas a lutar por esse objectivo, a Turquia perdeu a oportunidade de aderir à UE num futuro previsível. As tensões com os Estados Unidos cresceram com a questão curda. O abate do bombardeiro russo provocou uma crise com Moscovo.
Perante esta deterioração do regime, os adversários militares do presidente avançaram a 15 de Julho. Sobre o pronunciamento falhado, muito iremos saber nos próximos dias e semanas.
Como foram capturados o chefe do Estado-Maior General Hulisi Akkar e outros altos comandantes refém dos rebeldes? Porque foi ordenado o bombardeio do edifício do Parlamento turco? Porque falhou o golpe? Porque faltou coordenação?
O golpe de 15 de Julho – semelhante ao de 1960 – foi organizado por oficiais intermédios que formaram um Conselho da Paz. Fala-se que o líder foi um comandante na reserva da Força Aérea.
Os comunicados lidos na TRT falavam de uma Turquia de regresso a Ataturk. Mas há indícios de que tinha apoiantes do movimento Gülen nas forças armadas. Contudo, a Turquia é o país dos documentos forjados.
Os serviços de informações souberam da tentativa de golpe apenas 5 horas antes. Se o 1º Exército com sede em Istambul, e o seu Comandante Gen. Ümit Dündar tivessem avançado em força, talvez a história fosse diferente.
Assim, apenas unidades isoladas ocuparam o Aeroporto Atatürk e cortaram as pontes do Bósforo. O gen. Dündar chamou as unidades aos quartéis, e o golpe colapsou em Istambul, a zona europeia da Turquia. No resto do país, foi caindo aos poucos durante a madrugada de 16 e Ümit Dündar passou a chefe do estado maior do Exército. Até ver.
Começou então na manhã de 16 de Julho o contragolpe de Erdoğan e que continua em força. Fala-se de mais de 2800 militares, incluindo cinco generais, e 2745 juízes e muitos jornalistas presos, números a confirmar. O espancamento dos militares derrubados pelos militantes do AKP também nada augura de bom.
O contragolpe de Erdoğan está a consistir num expurgo radical dos presumíveis Gulenistas nos tribunais supremos e intermédios. As listas já estavam preparadas.
Nada de bom virá da Turquia nos tempos mais próximos. A mão de ferro de votantes que Erdoğan converteu em militantes promete o pior. Desde o fim de semana de 17 de Julho, EUA e a União Europeia já estão a passar para o plano B de isolamento do regime turco.
A deriva de Erdoğan para a ditadura ou “democracia plebiscitaria” sem poderes independentes já recebeu avisos de John Kerry, da União Europeia, da chanceler Merkel, da NATO de que não pode continuar. E não recebeu apoio dos países árabes. A questão dos refugidos tornou-se, novamente, dramática.
À medida que continuar a eliminar o Estado de Direito, num processo que já vinha de trás, Erdoğan vai ter que contar com a oposição dos EUA e da União Europeia. A política joga-se em muitos palcos e do icebergue só se vê o topo.
Tip of the Iceberg — Image by © Ralph A. Clevenger
Contudo, metade da nação turca sente-se bem com o estilo autoritário e a arrogância de Erdoğan. Quase 50% deram-lhe a maioria absoluta do Parlamento em Novembro do ano passado. E só o trabalho de uma geração poderá mudar este culto do poder e quebrar o fatalismo otomano. É uma questão cultural, e não tem solução política à vista.
Por outro lado, e por paradoxal que seja, o governo Erdoğan foi salvo pelos meios de comunicação turcos, que ele perseguiu nos últimos anos. Sem a CNN-Türk, NTV e outros canais que desafiaram as ordens dos revoltosos, e lhe deram palco a para chegar às massas, o golpe poderia ter sucesso. A própria comunicação do presidente às massas populares via telemóvel ficou um ícone da política contemporânea.
Será que Erdoğan se vai render aos meios de comunicação livres ? Certamente que não. Mas os meios não o vão ajudar também. Um governo eleito é melhor que um governo golpista.
O governo em funções foi eleito e deve ser substituído nas urnas. Se não fosse sacrificado o governo eleito em 1960 por um golpe militar, talvez a democracia turca fosse hoje muito mais forte.
Talvez tenha passado a era dos golpes militares. Mas a paz não começou.
As portas do inferno estavam entreabertas. Agora ficaram escancaradas. Razão de sobra para o Ocidente se precaver e lutar ainda com mais denodo pelos valores que inventámos de paz e de respeito. Paz e respeito, sim mas estupidez e cobardia, não.
Aguardemos.
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