sábado, 16 de julho de 2016

Quem protege os nossos filhos?

Inês Teotónio Pereira
DN20160716
É principalmente pelos filhos que se fazem guerras, que se elegem líderes, que se formam exércitos, que existe soberania. Já nem é por nós. É por eles e para eles. Tudo isto só faz sentido por eles: para lhes entregar um mundo melhor do que aquele que recebemos, para garantir que tenham, pelo menos, uma vida tão segura e não pior do que a nossa. Pois tenho arrepios na espinha quando penso nisso. Eu tento tudo para protege-los e formá-los o melhor que posso e sei, mas não chega. Não bastamos nós, que gostamos deles, para conseguir salvá-los. É preciso uma aldeia inteira, um país inteiro, o mundo inteiro para proteger os nossos filhos. Os pais que levaram os filhos a ver o fogo-de-artifício não chegaram para os proteger. Era impossível. E é essa imprevisibilidade e impotência que arrepia. Durante semanas vamos chorar os mortos, dar graças a Deus por termos escapado desta e talvez participemos em mais uma manifestação de solidariedade pelas vítimas. Depois sentamo-nos à espera de outra tragédia reconfortados com a solidariedade que demonstrámos. Literalmente sentamo-nos à espera de outra tragédia e disfarçamos como se não soubéssemos que ela irá chegar e cada vez mais perto. E, sentados, falamos do horror do terrorismo, discutimos ao jantar de quem é a culpa, damos palco aos entendidos e vociferamos contra a extrema-direita, a extrema-esquerda, os perigos dos extremismos, a imigração, as raízes do fundamentalismo islâmico. Já cansa. A verdade é que estamos onde estávamos desde o 11 de Setembro: com medo. Com medo de andar de comboio ou de metro, de ir a um concerto ou a um bar, e agora, de ir assistir a fogo-de-artifício. O resto são balelas. São balelas porque os líderes que vêm e vão não nos garantem coisa nenhuma. Os factos provam que as intenções são balelas. Os nossos líderes vivem de likes e os likes são incompatíveis com o pragmatismo. Os likes são fumo sem fogo. Estamos na mesma ou pior do que estávamos há 15 anos e é isso que arrepia: é sempre possível pior.
Enviar um comentário