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A Bolha do Natal

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INÊS TEOTÓNIO PEREIRA             DN             23.12.2017 Chega o Natal e chega a altura de idolatrar as criancinhas. Eu, inclusive. É uma estupidez sem limites. Ando há semanas a comprar presentes para o meu filho mais novo, não comprei um presente e pronto, comprei uma série de porcarias e sorri quando paguei cada uma delas só de imaginar o sorriso e a felicidade da criança ao abrir os embrulhos. Os meus outros filhos olham para mim com alguma comiseração e abanam a cabeça cada vez que apareço com mais um dos membros da Guarda do Leão ou mais um cão da Patrulha Pata. Mas é assim, hoje em dia o Natal serve quase exclusivamente para acabar de estragar as criancinhas que ainda não estragadas.  Torná-las verdadeiramente insuportáveis e mimadas, caprichosas e irritantes. É o que se espera de alguém que começa uma carta com "quero" - nem a Autoridade Tributária se atreve a tanto. Mas as criancinhas p...

Os ricos, nossos amigos

Helena Matos Observador 2/10/2016 Criar ricos é muito mais fácil do que criar riqueza. Basta alterar por decreto o valor do património que faz de cada um de nós um rico. Não duvido que dentro de pouco tempo seremos todos ricos. Os ricos são muito nossos amigos e muito úteis. Sem os ricos não se pode governar porque são os ricos quem tem o dinheiro que os governos dão aos pobrezinhos, aos remediados, à classe média e também aos ricos seus amigos. Os ricos têm, no banco, o dinheiro que permite aumentar as pensões de miséria e são donos das casas que devem pagar mais impostos para acabar com a privatização dos transportes e de caminho com as obras no Palácio da Ajuda. Os ricos fazem muita falta. Temos até de construir estufas para produzir mais ricos porque cada vez precisamos mais deles. Afinal sem ricos não há dinheiro e sem dinheiro não há políticas para virar a página da austeridade. Se cada rico depois de pagar os seus impostos ainda pagar mais dez euros para aumentar as...

Inveja e democracia

José Manuel Moreira, Professor Universitário Jornal Económico 20160930 Quem trabalha e gera empregos é opressor e parasita, já os verdadeiros parasitas, são vítimas.  Já quase tudo se disse sobre o “Temos de perder a vergonha e ir buscar a quem está a acumular dinheiro”, os aplausos e o repto de Mariana: “Cabe ao PS, se quer pensar as desigualdades, dizer o que acha deste sistema capitalista e encontrar alternativa”. Apelo que ganhou vida nova com a definição marxista de Costa de uma sociedade decente. Mas, mais que o regresso ao ódio de classes e aos tempos de vivência leninista na casa paterna, importa ir além das justificações para o assalto ao património dos mais ricos ou à devassa de contas bancárias do cidadão comum. Recorde-se o não pagamento de IMI pelos partidos e a indignação face à quebra do sigilo bancário no caso do enriquecimento ilícito dos políticos. Uma classe com muitos licenciados em assalto fiscal e mestres na inversão de valores: quem...

Vergonha? Disse vergonha?

Helena Matos 18/9/2016 Quando a sala socialista rompeu num aplauso após Mariana Mortágua ter defendido o seu modelo leninista de confisco, estamos perante um facto que nos vai marcar no futuro: o PS deixou de ser confiável. “Temos de perder a vergonha e ir buscar a quem está a acumular dinheiro”. Quando Mariana Mortágua acabou de pronunciar esta frase “a sala socialista rompeu num aplauso.” Repito “rompeu num aplauso”. E agora? A boçalidade de quem olha para a sociedade numa perspetiva recoletora subjacente ao raciocínio de Mariana Mortágua é evidente e nada tem de novo. Para a esquerda radical, de que a deputada faz parte, a riqueza não se gera, caça-se. Em algum lado a presa/riqueza há-de estar: antes nacionalizava-se e ocupava-se. Agora taxa-se. Alguma vez a esquerda radical concebeu outra forma de governo e de financiamento que não passe pelo confisco? Primeiro dos banqueiros, dos latifundiários, dos capitalistas, das multinacionais e dos grandes grupos económicos que ...

As esquerdas e o dinheiro

António Barreto DN20160918  Sempre se disse que as esquerdas têm um problema com o dinheiro. A começar pelo facto de não o terem. É natural. Tivessem dinheiro e talvez não fossem esquerdas. Com algumas excepções, as pessoas de esquerda não têm muito. Por isso, quando estão no governo, têm uma atitude ligeira com o dinheiro dos outros. Querem promover a educação, a saúde, a segurança social e as obras públicas, o que é excelente, só que para isso, que custa tão caro, faz falta o dinheiro. Mas, convencida de que a direita tirou aos pobres para dar aos ricos, a esquerda também quer reverter e devolver aos pobres... No entanto, dar é uma coisa. Crescer e distribuir é outra, bem diferente e mais difícil. Mas a verdade é que uma e outra, esquerda e direita, desde 2000, não conseguem investir nem crescer. Nos bons tempos, gasta-se o que se tem. Nos anos difíceis, gasta-se o que não se tem. Depois, é necessário encontrar dinheiro. As soluções: fazê-lo, pedi-lo emprestado ou ir buscá-...

Coração à esquerda, razão à direita

José António Saraiva Sol, 20160913 Houve uma parte do PS que aderiu convictamente à sociedade de mercado, ao projeto europeu, à democracia representativa – e outra parte do PS que ficou agarrada ao passado, aos mitos da esquerda, à utopia, à desconfiança em relação à Europa e ao mercado .  Na hora da morte de José Silva Lopes, que foi ministro das Finanças no pós-25 de Abril, tendo integrado um Governo de Mário Soares, um dos seus amigos revelou que ele dizia ter «o coração à esquerda e a razão à direita». Não foi a primeira vez que ouvi esta frase. Há uns 10 anos, Vasco Pulido Valente dizia isso numa entrevista. E há muito tempo que eu sinto precisamente o mesmo. Tenho o coração à esquerda mas a razão à direita. Como quase todos os jovens da minha geração, nasci e cresci na esquerda. O meu pai era militante do PCP (do qual saiu em meados dos anos 60), o meu irmão mais velho também, os meus amigos mais politizados eram todos esquerdistas, vivi a greve académi...

A ASAE ataca de novo

Maria João Marques Observador 14/9/2016 Tenho no caderno de encargos para as próximas eleições só votar em quem prometer multas de inspeções da ASAE dependentes de prova de efetivo prejuízo aos consumidores, em vez da mera violação da regra Um dos melhores efeitos secundários do governo da coligação PSD-CDS foi a ASAE com trela curta. Depois veio o tempo novo e à esquerda gostam do mundo arrumado, catalogado, com muitos fiscais disto e daquilo a atormentarem as empresas respeitáveis. Donde: a ASAE anda satisfeita a mostrar de novo os caninos aguçados, e até já faz operações na comunicação social queixando-se de necessitar de maior orçamento. Pelo que sugiro dissecar as atividades da ASAE. E encontramos as seguintes práticas apocalípticas dos privados que a ASAE, num comportamento reminiscente de Tintin a desmascarar traficantes de droga, nos livrou. Há a venda especulativa (não desmaiem) de bilhetes para jogo de futebol. Apesar de não se saber de gangs apontando armas de fog...

O homem que domestica mercados

Corta-fitas henrique pereira dos santos, em 05.09.16 Capoulas Santos explica os apoios ao sector leiteiro com o facto de, ao contrário dos liberais, querer domesticar o mercado do leite . Este é o mesmo ministro que tutela o sector florestal e, por essa via, tem uma vaga relação com o problema dos incêndios. Os incêndios, tal como os conhecemos, resultam de uma falha de mercado: não existem, ou existem de forma insuficiente, actividades económicas sustentáveis que garantam a gestão de combustíveis necessária para termos 20 a 30% do território com baixa propensão para o fogo, Ou seja, ou os matos são removidos, ou conseguimos atingir povoamentos de folhosas suficientemente maduros para os controlar através do ensombramento. O problema central para se chegar a um território resiliente ao fogo, e que conviva saudavelmente com o fogo de forma socialmente óptima, prende-se com a falência do modelo económico de subsistência que prevaleceu no nosso mundo rural até à emigraç...

Senhorios privados de solidariedade social

Fernanda Câncio DN 20160830 A decisão que a esquerda unida tomou não tem nada a ver com capacidade económica de inquilinos, nem sequer visa proteger os idosos e deficientes. É desnecessária, iníqua, geradora de injustiça social e de justificada desconfiança no Estado, demagogicamente apresentada como um bodo aos pobres. A esquerda no seu pior A notícia é de molde a humedecer as vistas: "Vão continuar congeladas as rendas para os mais necessitados", diz o Diário Económico. E explica: "O objectivo é congelar as rendas para pessoas com mais de 65 anos, para os portadores de deficiência e para comerciantes que tenham lojas com interesse histórico e cultural." Mais à frente, garante: "O Governo, o PS e o Bloco acordaram adiar o aumento das rendas para quem tem menos capacidade de as pagar." Parece muito bonito, mas não é verdade. A decisão que a esquerda unida tomou, e que um projeto de lei do PS, apresentado em abril, já prefigurava, não tem nada a ...

O plano macroeconómico do PS e a realidade

André Azevedo Alves Observador 20/8/2016 António Costa está a cumprir perante as suas clientelas políticas mais poderosas e os partidos de extrema-esquerda mas, para o fazer, está a falhar os objectivos que o próprio PS delineara para o país Mário Centeno, Elisa Ferreira, Fernando Rocha Andrade, Francisca Guedes de Oliveira, João Galamba, João Leão, João Nuno Mendes, José Vieira da Silva, Manuel Caldeira Cabral, Paulo Trigo Pereira, Sérgio Ávila e Vítor Escária: eis a lista dos responsáveis pelo plano macroeconómico que o PS apresentou antes das últimas eleições legislativas, visando credibilizar-se junto dos eleitores. Pouco mais de um ano depois, como oportunamente relembrou Carlos Guimarães Pinto, este é um bom momento para o confrontar com a realidade. Estou neste caso particularmente à vontade porque defendi aqui há um ano atrás que, nas devidas proporções do contexto académico e científico português, Mário Centeno e Manuel Caldeira Cabral não podem deixar de ser clas...

A ministra da festa cor-de-rosa e da reforma agrária

Maria João Marques Observador 17/8/2016 Temos um governo socialista, inimigo da propriedade privada, pelo que a solução para os incêndios é encontrar uma manigância para expropriar os terrenos aos proprietários, dando-lhes uso comunitário. Faço já a declaração de interesses: não tenho nada contra festas, nem contra revistas cor-de-rosa, nem contra ministros divertindo-se, nem contra fotografias de pessoas aperaltadas em eventos sociais. Eu própria passei uma parte das férias num local com alguma influência britânica onde ainda se valoriza o vestir bem para jantar, no fio da navalha entre a formalidade e a informalidade. Percebo, portanto, que a ministra da administração interna, Constança Urbano de Sousa, tenha decidido ir a uma festa durante as férias e nela se tenha feito fotografar. Mas a ministra não é uma capitalista impenitente como eu. Detenhamo-nos, então, por momentos nesta propensão que os socialistas têm, mesmo agora extremados à esquerda e adeptos da luta de classe...

O Outono socialista

António Barreto DN 20160814 A direita diz que não, a esquerda diz que sim. Mas esquerda e direita ainda existem e são diferentes. Quando ambas são democráticas, o que pode acontecer, não são totalmente contraditórias e exclusivas. Distinguem-se, entre outras, pela eficiência (do lado da direita) e pela igualdade (do lado da esquerda). Uma é mais individualista, a direita, outra mais colectivista, a esquerda. Uma, a direita, presta mais atenção à propriedade, outra, a esquerda, prefere a posse comum. Uma olha com especial interesse para a empresa, a direita, outra para o Estado, a esquerda. Mas também têm valores comuns, como a liberdade. Ou então a democracia, a política externa e muitos aspectos do Estado providência, hoje Estado social europeu. Quem negar esta comunidade de valores e de história pretende regressar à política da luta de classes e da guerra civil e não parece ter muito empenho na liberdade. Quando se regressa à retórica da esquerda contra a direita, da classe ...