terça-feira, 19 de julho de 2016

A minha alegre casinha

Laurinda Alves
Observador 19/7/2016

Tal como um sem-abrigo olha para as luzes acesas numa casa e imagina que lá dentro tudo é felicidade, também os pais que desejam adoptar olham para as crianças abandonadas com esse olhar de maravilha
Andamos há semanas a viver ao som da música dos Xutos. Mesmo quando ninguém ao nosso lado a toca nem canta, ela continua a soar dentro de nós. A música e a letra passaram inevitavelmente a despertar a memória feliz de uma grande vitória (assim como o urro do Ronaldo), mas de tanto a cantarmos literal e mentalmente, acabamos por nos deter nas palavras. E a letra, muito simples e repetida, remete para a realidade dos que têm uma casinha, mas fatalmente também para a dos que a não têm.
Associada ao golo do Éder e, por isso mesmo, também associada à sua história de vida, a música dos Xutos acaba por nos levar por muitos caminhos tão improváveis como este que termina dentro dos orfanatos, de uma instituição ou um centro de acolhimento de jovens sem pai nem mãe, abandonados ou retirados às famílias.
Felizmente o Éder está a dar certo graças aos seus talentos e esforços, mais o seu espírito de sacrifício e resiliência, mas seguramente também graças aos apoios que tem e aos conselhos que recebe dos seus pares, treinadores e coach. O problema é que as histórias de sucesso são infinitamente mais raras que as outras, pois a esmagadora maioria dos miúdos institucionalizados não vive de sucesso em sucesso, nem tem assim tantas coisas boas para contar.
Num país em que os processos de adopção ainda são demasiado demorados e certos procedimentos se eternizam mais do que seria desejável, muitas crianças crescem e rapidamente atingem aquelas idades difíceis para qualquer pai biológico, quanto mais para pais e mães adoptivos que sonham resgatar crianças desprotegidas e convertê-las a uma vida de família.
Todos conhecemos histórias de grande sucesso e tremendo insucesso na adopção. Sabemos de casos reais em que correu tudo pelo melhor, mas também falamos uns com os outros de experiências terríveis vividas por pais e filhos adoptivos que nunca chegaram a entender-se. Pior, conhecemos ou ouvimos falar de rapazes e raparigas de todas as idades que são devolvidos às instituições por não se adaptarem às novas realidades.
A minha alegre casinha é, para estes devolvidos, uma miragem. Ou a memória brutal de uma realidade insustentável para ambas as partes, pois quando há devoluções, por assim dizer, ninguém sai de cena sem feridas abertas. Os pais adoptivos, por não terem sido capazes de lidar com sucessivas situações limite (e para lá dos limites!); os filhos adoptados por não conseguirem apagar as marcas de infâncias de abandono ou maus tratos.
Os devolvidos são uma dolorosa realidade humana, porventura das mais dolorosas de todas, pois o cúmulo de rejeições é tal, que se torna invivível. Um filho adoptado que volta a ser rejeitado é um ser humano esmagado. Mesmo que tenha passado de vítima a agressor e, por isso mesmo, tenha feito a vida num inferno aos seus pais adoptivos, não deixa de ser uma tragédia. Estes miúdos matam e morrem, no sentido literal e metafórico, mas na verdade nunca saberemos quem matou e morreu primeiro.
A minha alegre casinha, trauteada a toda a hora, berrada a plenos pulmões ou apenas mentalmente cantada, traz em si uma enorme felicidade, uma gloriosa memória, mas também o desconsolo que sentem os que não têm nem nunca tiveram (e sabe Deus se alguma vez terão) uma verdadeira casinha. Tal como um sem-abrigo olha para as luzes acesas numa casa e imagina que lá dentro tudo é felicidade, calor e aconchego, também os pais que pretendem adoptar olham para as crianças abandonadas ou institucionalizadas com esse olhar de maravilha. O problema é que também neste campo a realidade ultrapassa qualquer ficção.
Sei de casos fabulosos de fratrias adoptadas em idades em que ninguém se atreveria a dar o passo de trazer para casa um sequer desses irmãos (quanto mais os 3!), mas também sei de histórias dramáticas de adopções de filhos únicos que acabaram o pior possível. E por saber tudo isto e conhecer bem uns e outros casos, inexplicavelmente nunca consigo cantar a canção dos Xutos até ao fim sem pensar nestes últimos.
Acontece-me com esta música o que me acontece desde criança com o som da chuva a bater lá fora enquanto eu estou confortável no calor da casa: não consigo deixar de pensar nos que moram na rua. Há quem diga que ouvir a chuva cair lá fora é um dos sons que mais sossegam, mas em mim tem o efeito contrário. Agora, de há umas semanas para cá, dou comigo a ter um sentimento parecido com a música dos Xutos, que pena. Gostava que ela só estivesse associada a boas memórias, actualizadas pela vitória da Selecção, mas na verdade a letra transporta-me para casos reais de devolvidos, para miúdos abandonados e gente que nunca poderá chamar alegre casinha ao lugar onde sobrevive.
Os Xutos que me perdoem, bem como todos os que como eu acordam e adormecem com a música na cabeça. Não queria ser desmancha-prazeres, mas soube nestes dias de mais dois miúdos devolvidos e isso partiu-me o coração. Um deles foi devolvido pela segunda vez. Quem me dera que não se percam para sempre e que ainda possam vir a sentir que esta música também é deles.
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